É Cansativo

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É cansativo. Por toda parte, incontáveis pessoas se colocam a falar de “espiritismo”, sem o escrúpulo de, antes, terem se dedicado a conhecê-lo, demonstrando mais disposição para opinar do que para estudar. Mas isso não é o pior, já que “a força das coisas” criou esse estado de quase completo desconhecimento. Não: a parte pior é que, quando confrontadas pelo Espiritismo, se sentem atacadas pessoalmente, contrariadas em suas almas e, ao invés de buscarem o entendimento, optam pelo afastamento e pela continuação do erro. Kardec também sofreu isso, mas, hoje, a tecnologia nos coloca em contato muito mais rápido e fácil com a gigantesca massa de pessoas que opinam sem método e sem base, confundindo convicção com conhecimento.

Essa é a minha primeira ação, ligada ao Espiritismo, em aproximadamente um mês. Como eu disse, cansa. Mas o que cansa não é o Espiritismo, e sim os ininterruptos ataques de pessoas que não sabem separar a crítica à opinião da crítica pessoal e, enquanto criticamos as opiniões erradas — como Kardec fazia — somos pessoalmente atacados, sem cessar. O roustainguismo, especialmente instalado na FEB desde 1890, conseguiu o que desejava e substituiu a ciência espírita num sistema de crenças, formado meramente por opiniões, sem o método necessário, demonstrado exaustivamente por Kardec em TODAS as suas obras.

Há pouco tempo, no final de 2025, publicamos um artigo sobre uma evocação que fizemos do Espírito de Kardec. Buscávamos demonstrar a possibilidade, sem nenhuma intenção de fazer disso um artigo de autoridade, obtendo uma instrução geral, do mesmo modo que o próprio Kardec muitas vezes obtinha. Sabíamos que viriam críticas, e estávamos prontos, inclusive, para aceitar as críticas de bom grado, como importantes para nosso próprio estudo. Porém, uma das críticas mais negativamente relevantes veio justamente de Rodrigo Xavier, um influenciador nas redes sociais, que se apresenta como conhecedor do Espiritismo e atua como divulgador nas redes sociais, mas cuja crítica, como veremos, se afasta dos fundamentos metodológicos estabelecidos por Kardec, como demonstraremos.

A crítica de Rodrigo Xavier

De maneira surpreendente (ou não), sua crítica foi toda embasada em Aksakof, e não em Kardec. Pior ainda: apoiou-se numa leitura limitada do que Aksakof propõe, tratando indícios como se fossem exigências absolutas.

Segundo ele, o texto não teria excedido em nada o repertório intelectual comum de um espírita moderno: divisões no movimento, “retorno a Kardec”, regeneração, Jesus — temas conhecidos, repetidos, e portanto explicáveis como simples “memória latente”. Como não haveria novidade objetiva, nem revelação desconhecida, nem qualquer elemento que o médium “não pudesse saber”, o veredito já estaria pronto: animismo, isto é, a consciência sonambúlica do médium vestida de mensagem.

E não parou aí. Para Rodrigo, faltaria também qualquer prova de identidade. O tom — diz ele — seria emocional, levemente místico, com expressões como “Deus Pai todo-poderoso” e “bênçãos”, o que, na visão dele, destoaria do “Kardec histórico”, racional e professoral. A linguagem, por sua vez, seria simplesmente português atual, e nisso ele vê mais um indício de personificação: o inconsciente do médium fabricando um “personagem” com base no que imagina ser Kardec, em vez de um Espírito real mostrando independência através do francês do século XIX ou de traços inequívocos de estilo.

Por fim, Rodrigo ainda recorre ao que chama de “espelho”: a comunicação teria confirmado o grupo, validado seus esforços e criticado opositores — exatamente o que, segundo ele, um círculo desejaria ouvir ao evocar o Codificador. Para Aksakof e Hartmann, ele insiste, médiuns em transe seriam altamente sugestionáveis e tenderiam a refletir pensamentos e expectativas dos presentes; por isso, mensagens que concordam demais com o grupo seriam suspeitas. O arremate dele é previsível: animismo ou personismo; nenhum fato desconhecido, nenhuma superioridade intelectual, nenhum sinal externo de identidade. E, como “exigência científica”, chega a sugerir que se façam perguntas em francês, sem combinar com o médium, como se o idioma — e não o método — fosse a fronteira definitiva entre ilusão e realidade.

A refutação à crítica de Rodrigo

A refutação é simples: Rodrigo toma critérios auxiliares como se fossem leis absolutas, e nisso já começa errado. Kardec ensina o contrário. O Espírito não “fala” uma língua humana; comunica pensamento, e para transformar pensamento em palavras precisa, por via mediúnica, do vocabulário do médium. A xenoglossia pode ocorrer, sim, mas é acidental, rara, e depende de condições específicas; para comunicações extensas e usuais, os Espíritos preferem a língua familiar ao médium, por apresentar menos obstáculos materiais. Portanto, exigir francês do século XIX como condição necessária não é ‘ciência’: é um rigor apenas aparente, que confunde indícios raros com condições necessárias.. É, além disso, um critério que, se levado às últimas consequências, invalidaria uma massa enorme de comunicações perfeitamente compreensíveis e úteis — inclusive aquelas registradas nas evocações da Revista Espírita, com Espíritos que, em vida, falavam idiomas diversos, sem que isso impedisse o intercâmbio.

Do mesmo modo, Rodrigo transforma “prova de identidade” em eixo central, quando Kardec é explícito: a identidade de personagens antigas é frequentemente impossível de demonstrar materialmente e, quando muito, se aprecia moralmente pela qualidade da linguagem. E mais: em comunicações filosóficas e morais, a identidade é questão acessória. Se o conteúdo é digno, coerente e conforme o caráter atribuído ao nome, há probabilidade moral; mas mesmo quando essa certeza não existe, a comunicação não se anula por isso. O ônus de quem acusa animismo não é apontar ausência de espetáculo probatório; é demonstrar incongruência doutrinária, erro de fundo, contradição séria — não apenas dizer “não houve fato desconhecido” e chamar isso de conclusão científica.

Quanto ao “espelho”, Rodrigo erra até o alvo: a comunicação não fala do nosso grupo como um clube fechado, mas do conjunto de Espíritos e encarnados que se dedicam à disseminação da verdade, e isso foi dito de modo explícito. E, no conteúdo, não há combustível para a tese de vaidade ou autoconfirmação: não se afirma infalibilidade, não se estabelece autoridade exclusiva, não se introduz inovação doutrinária; ao contrário, reconhecem-se limites, provas e dificuldades. Espelhamento, quando é hipótese séria, aparece como confirmação sistemática de interesses pessoais e engrandecimento humano — aqui, não. Resultado: a crítica de Rodrigo revela mais pressa do que método, e mais desconhecimento da ciência espírita do que zelo científico.

É cansativo

Como eu disse, é cansativo e, mesmo, desanimador. Como Rodrigo Xavier, muitos outros, dizendo-se autênticos espíritas, abordam o Espiritismo de maneira equivocada, baseando-se em sistemas de crenças oriundos de opiniões — de encarnados ou desencarnados — e não na ciência espírita. Assim se portam, também, muitos nomes conhecidos ou em ascensão: opiniões passam a ser repetidas como se fossem princípios, e o debate se desloca do método para a adesão.

Dentre esses, cito exemplos públicos e verificáveis: Luís Fernando Amaral, ao sustentar em vídeos a tese de que o Brasil seria governado pelo “anjo” Ismael; Nibi Pensa, ao defender a ideia de que a justiça divina operaria por lógica de débito e crédito, contrariando o princípio kardeciano e o próprio ensino moral do Cristo; Maira Rocha, cujas psicografias são frequentemente questionadas quanto ao conteúdo e finalidade; Haroldo Dutra Dias, ao endossar a mesma construção do “anjo” Ismael e a leitura de “Nosso Lar” como destino assegurado. São pontos concretos, e é sobre eles que a crítica deve recair: não sobre pessoas, mas sobre afirmações.

Quiséramos que, antes de ir ao microfone, houvesse maior dedicação ao estudo da ciência espírita, tão bem fundamentada e séria. Em vez disso, tem-se preferido a substituição do Espiritismo de 1857 por uma crença sistemática, montada sem método, sem controle e sem o devido critério, amparada em comunicações tomadas como incontestáveis, como se fossem imunes à possibilidade de mistificação.

É, realmente, muito cansativo… Mas não podemos deixar nos abater. Começo o ano de 2026 com este primeiro desabafo, para tentar retomar as atividades que me competem, por livre e espontânea vontade.

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