Diálogo com as Sombras em confronto com a Ciência Espírita

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A obra Diálogo com as Sombras: Teoria e Prática da Doutrinação, de Hermínio C. Miranda, tornou-se uma referência para reuniões de desobsessão no movimento espírita brasileiro. Contudo, quando seu conteúdo é submetido ao exame da Ciência Espírita desenvolvida por Allan Kardec, aparecem divergências metodológicas, doutrinárias e conceituais que merecem análise.

Kardec estruturou o Espiritismo sobre observação, experimentação, análise racional e comparação das comunicações mediúnicas, recusando a autoridade isolada de médiuns ou Espíritos como critério suficiente de verdade.

Em Diálogo com as Sombras, por outro lado, encontramos a incorporação de conceitos provenientes principalmente de obras atribuídas a Emmanuel e André Luiz, além da aceitação de ideias relacionadas a talismãs, números, astrologia e descrições detalhadas da vida espiritual.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se essas ideias são interessantes ou se foram difundidas no movimento espírita. A questão científica é outra:

Elas resistem ao método e aos princípios estabelecidos por Allan Kardec?

1. Talismãs, símbolos e a “mística” dos números

Diálogo com as Sombras reproduz ideias atribuídas a Emmanuel sobre uma “simbologia sagrada das palavras”, uma “mística natural” dos números e até a possibilidade de o talismã funcionar como uma espécie de “condensador de energias psíquicas emanadas do operador”.

O problema aparece quando confrontamos essas proposições com O Livro dos Médiuns.

Ao tratar diretamente da possibilidade de objetos possuírem influência sobre os Espíritos, Kardec apresenta uma resposta inequívoca:

“Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.”

O princípio é relevante porque retira dos objetos qualquer suposta eficácia espiritual intrínseca.

Para a Ciência Espírita, não é o objeto que possui poder oculto. A ação espiritual relaciona-se ao pensamento, à vontade e às condições morais dos agentes envolvidos.

Atribuir eficácia espiritual própria a números, símbolos, fórmulas ou objetos aproxima-se justamente das concepções mágicas e supersticiosas das quais Kardec procurou distinguir o Espiritismo.

2. Astrologia e influência dos astros

Outro ponto que merece exame é a utilização de afirmações atribuídas a Emmanuel segundo as quais:

“As antigas assertivas astrológicas têm a sua razão de ser.”

A argumentação relaciona conjunções planetárias e campos magnéticos dos astros ao organismo humano.

Essa concepção precisa ser confrontada com o tratamento dado por Kardec às antigas crenças astrológicas.

Na concepção espírita, os astros são mundos materiais submetidos às leis naturais. O desenvolvimento moral do Espírito não está subordinado a um sistema oculto de determinações planetárias.

Kardec apresenta historicamente a astrologia como uma etapa ligada ao desenvolvimento inicial da observação astronômica, mas isso não significa validar suas pretensões divinatórias ou deterministas.

A Ciência Espírita desloca a explicação da existência humana para outros elementos: livre-arbítrio, responsabilidade individual, progresso espiritual, pluralidade das existências e consequências naturais dos próprios atos.

3. Desobsessão: a técnica do doutrinador ou a transformação moral?

Em Diálogo com as Sombras, grande parte da atenção é direcionada à atuação do doutrinador diante do Espírito obsessor.

Desenvolve-se uma metodologia extensa de diálogo, argumentação, investigação e convencimento durante a manifestação mediúnica. Em determinadas situações, aparecem ainda procedimentos relacionados à recuperação de acontecimentos anteriores e à exploração das motivações do Espírito comunicante.

Em Kardec, entretanto, a questão da obsessão possui um eixo fundamentalmente moral.

No capítulo XXIII de O Livro dos Médiuns, a obsessão é estudada em suas causas, mecanismos e meios de combate. O problema não se resume a retirar determinado Espírito de perto de determinada pessoa.

É necessário atuar sobre as condições que tornam possível ou sustentam aquela influência.

Isso modifica profundamente a compreensão da desobsessão.

Não basta afastar temporariamente um Espírito se permanecem no indivíduo pensamentos, disposições ou comportamentos que favoreçam novas influências.

Por isso, transformar a desobsessão predominantemente numa técnica de diálogo entre doutrinador e obsessor corre o risco de deslocar o centro do problema.

Na perspectiva kardeciana, assumem papel fundamental:

  • a transformação moral;
  • a vigilância sobre pensamentos e ações;
  • a prece sincera;
  • a resistência às sugestões inferiores;
  • a autoridade moral daqueles que auxiliam;
  • e a eliminação das condições que favorecem a influência obsessiva.

A eficácia não decorre simplesmente da habilidade retórica ou técnica daquele que conversa com o Espírito.

4. André Luiz, Emmanuel e o problema das revelações particulares

Este talvez seja um dos pontos metodológicos mais importantes.

Diálogo com as Sombras utiliza extensamente obras atribuídas a André Luiz e Emmanuel, incorporando descrições sobre colônias espirituais, alimentação no mundo espiritual, técnicas empregadas por Espíritos, organizações existentes na erraticidade e outros detalhes.

O problema não está na possibilidade de estudar essas comunicações.

O problema está em determinar qual valor científico e doutrinário pode ser atribuído a elas.

Uma comunicação mediúnica não se transforma automaticamente em princípio da Ciência Espírita porque foi recebida por determinado médium ou atribuída a determinado Espírito.

Kardec estabeleceu mecanismos justamente para evitar que opiniões particulares de Espíritos fossem transformadas em doutrina.

Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da autoridade da Doutrina Espírita, Kardec desenvolve o princípio da concordância dos ensinos.

Uma ideia nova não deve depender da autoridade de:

  • um único Espírito;
  • um único médium;
  • um único grupo;
  • uma única localidade.

É necessária uma concordância suficientemente ampla e independente, além da submissão das comunicações ao exame racional.

Esse princípio é essencial.

A fama do médium não constitui prova.

O nome atribuído ao Espírito comunicante não constitui prova.

A beleza literária da mensagem não constitui prova.

A riqueza de detalhes da narrativa também não constitui prova.

Assim, comunicações atribuídas a André Luiz, Emmanuel ou qualquer outro Espírito podem ser estudadas e examinadas. O que não se pode fazer, seguindo o método de Kardec, é transformá-las automaticamente em princípios estabelecidos da Ciência Espírita.

5. O problema do devassamento de vidas passadas

Outro aspecto que merece atenção é a utilização de informações sobre encarnações anteriores durante determinados diálogos mediúnicos.

Crimes, conflitos, relacionamentos e acontecimentos do passado podem aparecer como elementos utilizados para confrontar ou convencer o Espírito comunicante.

Kardec, entretanto, recomenda extrema prudência nesse campo.

O esquecimento das existências anteriores possui finalidade providencial. Além disso, O Livro dos Médiuns adverte contra perguntas destinadas simplesmente a descobrir acontecimentos íntimos, crimes anteriores, segredos pessoais ou informações cuja revelação não possua verdadeira utilidade.

Uma revelação sobre o passado pode eventualmente ocorrer quando exista finalidade séria e útil.

Isso é muito diferente de transformar a investigação das existências anteriores em procedimento habitual de uma reunião mediúnica.

O princípio metodológico continua sendo o mesmo: a curiosidade não deve ser confundida com investigação científica.

6. A materialização da vida espiritual

Também merece exame crítico a tendência de descrever a erraticidade reproduzindo estruturas e necessidades características da existência corporal.

Nesse tipo de literatura aparecem descrições minuciosas de:

  • alimentação;
  • instalações;
  • organizações administrativas;
  • procedimentos técnicos;
  • instituições;
  • funções burocráticas;
  • mecanismos e equipamentos.

Quanto mais específica é uma descrição sobre uma realidade cuja verificação direta é difícil, maior deve ser a exigência crítica, e não menor.

O detalhamento de uma narrativa não constitui evidência de sua veracidade.

Uma comunicação extremamente detalhada pode continuar sendo apenas uma comunicação particular.

É precisamente nesse tipo de situação que o método comparativo desenvolvido por Kardec se torna indispensável.

7. Quadro comparativo

Talismãs e símbolos

Diálogo com as Sombras: admite conceitos como talismãs funcionando como “condensadores” de energias.

Kardec: nenhum sinal, palavra cabalística ou talismã possui ação própria sobre os Espíritos; o pensamento é o elemento fundamental.


Astrologia

Diálogo com as Sombras: reproduz a ideia de que antigas concepções astrológicas possuiriam fundamento e relaciona os astros ao organismo humano.

Kardec: trata criticamente as antigas concepções astrológicas e não estabelece determinações planetárias como fundamento da existência moral humana.


Desobsessão

Diálogo com as Sombras: atribui grande importância à atuação do doutrinador sobre o Espírito obsessor.

Kardec: enfatiza as causas da obsessão, a transformação moral, a vigilância, a prece e as condições que permitem a influência espiritual.


Fonte do conhecimento

Diálogo com as Sombras: utiliza extensamente revelações atribuídas a André Luiz e Emmanuel.

Kardec: estabelece critérios destinados justamente a impedir que comunicações particulares sejam automaticamente transformadas em princípios doutrinários.


Vidas passadas

Diálogo com as Sombras: utiliza informações de existências anteriores em determinados diálogos mediúnicos.

Kardec: recomenda prudência extrema diante de revelações íntimas e rejeita a curiosidade indiscreta sobre o passado.

8. O problema central não é Hermínio Miranda: é o método

Reduzir essa discussão a uma disputa entre autores seria perder seu aspecto mais importante.

A questão fundamental é metodológica.

Como distinguir uma comunicação mediúnica verdadeira de uma falsa?

Como distinguir uma observação legítima de uma interpretação pessoal?

Como impedir que um Espírito mistificador introduza gradualmente suas próprias ideias?

Como evitar que o prestígio de um médium transforme uma narrativa particular em crença coletiva?

Essas questões já estavam presentes no trabalho de Allan Kardec.

Foi justamente para enfrentá-las que ele insistiu na análise racional, na comparação das comunicações, na independência em relação aos nomes dos Espíritos e na concordância dos ensinos obtidos por diferentes meios.

Abandonar esses critérios significa alterar profundamente o modo pelo qual o conhecimento espírita é produzido.

Conclusão: Kardec ou autoridade mediúnica?

Diálogo com as Sombras possui importância histórica para compreender determinadas práticas que se consolidaram no movimento espírita brasileiro durante o século XX.

Isso, entretanto, não significa que todas as suas proposições possam ser identificadas automaticamente com a Ciência Espírita.

Quando suas ideias são confrontadas com O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, a Revista Espírita e os demais trabalhos de Allan Kardec, surgem divergências que não devem ser ignoradas.

A questão fundamental permanece aquela estabelecida pelo próprio método espírita:

qual é a evidência?

No Espiritismo, a autoridade de um nome — seja médium, escritor ou Espírito comunicante — não substitui demonstração.

Uma afirmação não se torna verdadeira porque foi atribuída a Emmanuel.

Não se torna verdadeira porque foi atribuída a André Luiz.

Não se torna verdadeira porque foi psicografada por Chico Xavier.

E também não se torna verdadeira simplesmente porque Hermínio C. Miranda a incorporou a uma obra amplamente aceita.

É justamente nesse ponto que o método de Allan Kardec permanece indispensável: observar, comparar, analisar, submeter as comunicações à razão e distinguir aquilo que pode ser estabelecido pela investigação espírita daquilo que permanece como opinião, hipótese ou relato particular.

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