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A obra de Suzi Mariah se apresenta como continuação de O Livro dos Espíritos. A comparação textual mostra, porém, que ela altera princípios centrais da doutrina, entre eles a obrigatoriedade da reencarnação, a permanência da individualidade, a impossibilidade da metempsicose, a natureza dos anjos e a gratuidade da mediunidade.
Nota editorial Nas referências a A Gênese e O Céu e o Inferno, foram consideradas exclusivamente as primeiras edições francesas, publicadas em vida de Allan Kardec. Nenhuma redação póstuma desses dois títulos fundamenta esta análise.
A promessa de continuidade
O título Livro dos Espíritos II não é neutro. Ele coloca o texto sob a sombra direta da obra que inaugurou a codificação e convida o leitor a entendê-lo como sequência. O próprio prefácio reforça essa expectativa ao afirmar que o novo volume jamais se contrapõe a Allan Kardec e que seu propósito seria de “agregação e complemento”.
“O trabalho deste livro foi feito através de uma única médium […] e por mais de 300 profissionais e atuantes de diversas áreas […] Jamais contrapondo as experiências, mas como forma de agregação e complemento.”
Livro dos Espíritos II, prefácio, p. 9
Por isso, o ponto decisivo não é saber se o livro contém ideias espirituais, mensagens edificantes ou relatos interessantes. A questão é mais precisa: suas respostas preservam a estrutura doutrinária estabelecida por Kardec? Quando uma obra reivindica o nome, o formato e a função de continuação de O Livro dos Espíritos, o confronto deixa de ser opcional.
Há convergências morais no volume, como a defesa da caridade, da responsabilidade e da sobrevivência da alma. Elas merecem ser reconhecidas. Mas afinidade moral geral não apaga divergências sobre a natureza do Espírito, o mecanismo do progresso, a vida depois da morte e o exercício da mediunidade. Nesses temas, a comparação revela um sistema diferente.
O método vem antes da novidade
Kardec nunca apresentou o Espiritismo como doutrina imóvel. A abertura ao progresso aparece com clareza na primeira edição francesa de A Gênese. Essa abertura, contudo, possui condições. Uma ideia nova precisa enfrentar os fatos, a razão e a concordância de comunicações independentes. A revelação espírita, para Kardec, não repousa na autoridade de uma pessoa, de um médium ou de um grupo local.
A menção a mais de trezentos profissionais poderia ser o começo de uma investigação. No livro, porém, não são fornecidos os protocolos necessários para avaliar esse conjunto: quais perguntas foram repetidas em grupos independentes, quais respostas divergiram, como se impediu a influência recíproca, que critérios eliminaram comunicações e quais documentos permitem reproduzir o exame. O número impressiona, mas não substitui a demonstração.
Essa diferença metodológica pesa ainda mais porque o volume formula suas teses como respostas acabadas. O texto não as oferece como hipóteses de trabalho. Em vários pontos, apresenta como conhecimento espiritual aquilo que contradiz respostas inequívocas de Kardec.
A reencarnação deixa de ser lei
“A reencarnação é uma regra? Uma regra obrigatória, não. É uma possibilidade entre as ferramentas existentes para a evolução.”
Livro dos Espíritos II, questão 449, p. 184
Aqui não há simples mudança de vocabulário. Em O Livro dos Espíritos, a encarnação é imposta por Deus como meio de conduzir os Espíritos à perfeição, conforme a questão 132. A série das questões 166 a 170 trata a reencarnação como parte regular do progresso. A questão 330 a chama de “necessidade da vida espírita”, e a questão 333 afirma que nenhum Espírito permanece indefinidamente estacionado entre as encarnações.
Transformar a reencarnação em ferramenta facultativa modifica a explicação kardeciana da justiça divina. Para Kardec, as existências sucessivas permitem reparação, aprendizado e desenvolvimento. Se o Espírito pode simplesmente dispensar esse percurso, torna-se necessário explicar por outro mecanismo como todos chegam à perfeição e como se realiza a igualdade diante da lei. O novo livro não demonstra essa substituição; apenas a declara.
A metempsicose é admitida
“Sendo ela a possibilidade de reencarnar em outra espécie, sim, ela é possível.”
Livro dos Espíritos II, questão 456, p. 186
“Isso quer dizer que ela existe? Sim, exatamente.”
Livro dos Espíritos II, questão 458, p. 186
A resposta de Kardec à mesma tese é frontal. Na questão 612 de O Livro dos Espíritos, pergunta-se se o Espírito que animou um homem poderia encarnar num animal. A resposta é negativa: isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. A questão 611 já havia distinguido a metempsicose da doutrina espírita das vidas sucessivas.
O assunto exige uma precisão que muitas vezes se perde. Kardec admite uma continuidade geral no desenvolvimento do princípio inteligente, mas não ensina a migração alternada de uma individualidade humana entre corpos de espécies diferentes. Quando o novo volume responde simplesmente que a reencarnação “em outra espécie” existe, ele reintroduz exatamente a ideia rejeitada na codificação.
A questão 530 amplia a ambiguidade ao afirmar que animais podem reencarnar como humanos e que isso seria “um pressuposto da evolução”. Em Kardec, a passagem até a humanidade envolve elaboração e transformação do princípio inteligente; não é apresentada como a reencarnação comum de um animal individualizado em pessoa humana. Fundir essas formulações elimina uma distinção doutrinária importante.
A individualidade pode desaparecer
“O espírito pode escolher que seu campo se dissolva como identidade, deixando de existir como “um” […] É como uma gota que volta ao mar.”
Livro dos Espíritos II, questão 462, p. 187
“O espírito deixa de ser uma unidade consciente e retorna ao Todo […] permanece integrado à Consciência Universal, mas sem a individualidade.”
Livro dos Espíritos II, questão 464, p. 188
Esse é um dos contrastes mais profundos. Na questão 83 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se os Espíritos têm fim. A resposta afirma que sua existência não termina. A questão 149 acrescenta que a alma conserva a individualidade depois da morte. O progresso pode transformar conhecimento, caráter e condição moral; não dissolve o sujeito que progride.
O argumento da gota que retorna ao oceano pertence a outras tradições metafísicas. Ele pode ser discutido em seu próprio terreno, mas não cabe como complemento de uma doutrina cuja justiça depende da continuidade pessoal. Mérito, responsabilidade, memória moral, reparação e aperfeiçoamento pressupõem que o mesmo ser atravesse as consequências de suas escolhas.
O volume também descreve “ovoides” como estruturas que teriam perdido a capacidade de pensar, sentir e individualizar-se, embora depois admita uma possível reconstrução. Essa oscilação não resolve o problema. Em Kardec, perturbação, embrutecimento e sofrimento podem obscurecer faculdades; não extinguem o Espírito nem o reduzem a uma entidade sem individualidade.
A ressurreição física retorna como possibilidade
“E na matéria? É tão possível quanto a reencarnação.”
Livro dos Espíritos II, questão 471, p. 189
“O espírito pode reconstruir ou materializar um corpo com base em uma célula original […] utilizando uma força energética imensa e uma supermatéria.”
Livro dos Espíritos II, questão 472, p. 190
Kardec dedica a questão 1010 de O Livro dos Espíritos à ressurreição da carne. Sua conclusão é explícita: a reconstituição do mesmo corpo é materialmente impossível, porque seus elementos se dispersam e passam a compor outros organismos. A ressurreição deve ser entendida como figura da reencarnação, não como retorno definitivo do cadáver recomposto.
O novo livro faz o movimento inverso. Depois de reconhecer a reencarnação, recupera a ressurreição literal mediante uma “célula-raiz”, energia e “supermatéria”. Não apresenta fatos controláveis nem define esses termos de modo que possam ser examinados. Assim, uma impossibilidade rejeitada por Kardec reaparece protegida por palavras que soam técnicas, mas não fornecem um mecanismo verificável.
Anjos criados perfeitos e pureza reversível
“Há seres que já foram criados em níveis de elevada consciência, constituídos por uma matriz energética própria, que não percorre o mesmo caminho evolutivo dos demais.”
Livro dos Espíritos II, questão 643, p. 244
Nas questões 115, 128 e 129 de O Livro dos Espíritos, a resposta é outra. Todos os Espíritos são criados simples e ignorantes; os anjos são Espíritos puros que alcançaram o grau mais elevado depois de percorrer os demais graus. Não formam uma criação privilegiada. Essa igualdade de origem sustenta a justiça do progresso: ninguém recebe a perfeição pronta enquanto os outros a conquistam pela experiência.
O problema se agrava na questão 685, segundo a qual Espíritos da escala de Jesus poderiam ser afetados pelos prazeres e ilusões de mundos densos, trazendo de volta “fragmentos de ego”. Kardec define os Espíritos puros pela completa superioridade moral e pela ausência de influência da matéria, e afirma na questão 118 que eles não retrogradam. A possibilidade de recaída de um Espírito puro rompe o sentido da perfeição alcançada.
A segunda morte do perispírito
“Na segunda morte, os seres desencarnados perdem também o perispírito.”
Livro dos Espíritos II, questão 441, p. 180
Kardec descreve o perispírito como o envoltório semimaterial que acompanha o Espírito e é tomado do fluido próprio de cada mundo. Ele se depura e se torna tão etéreo que, para nós, parece inexistente; isso não equivale a uma segunda morte universal. A questão 93 de O Livro dos Espíritos e os capítulos XI e XIV da primeira edição francesa de A Gênese tratam o perispírito como elemento funcional da relação entre Espírito e matéria.
Pode-se pesquisar mudanças profundas desse envoltório. O que não se pode fazer, sem demonstração, é transformar a hipótese de seu abandono em etapa obrigatória e ainda usar a morte e a ascensão de Jesus como exemplo desse processo, como faz a questão 443. A formulação não prolonga o modelo kardeciano; introduz outra antropologia espiritual.
A mediunidade torna-se serviço cobrável
“Todo trabalho envolve algum tipo de troca […] O ato de cobrar, por si só, não é o ponto central.”
Livro dos Espíritos II, questão 942, p. 342
“Aplicável a qualquer forma de mediunidade, inclusive incorporação […] O ponto central não é a cobrança em si, mas a ética, a intenção e o destino dos valores recebidos.”
Livro dos Espíritos II, questão 943, p. 342
O contraste com O Evangelho segundo o Espiritismo é direto. No capítulo XXVI, itens 7 a 10, Kardec distingue a remuneração de um trabalho humano da venda de uma faculdade que não pertence ao médium e depende da vontade dos Espíritos. Sua conclusão é conhecida e inequívoca: “A mediunidade séria não pode ser e não o será nunca uma profissão”.
Comparar uma sessão mediúnica à venda de livros, como faz a resposta seguinte, confunde atividades diferentes. Um livro é resultado material e intelectual que pode ser reproduzido e comercializado. A comunicação mediúnica envolve a intervenção de terceiros invisíveis, cuja presença e qualidade o médium não controla. É justamente essa dependência que fundamenta a gratuidade em Kardec e protege o exercício contra exploração, encenação e suspeita legítima.
Termos kardecianos recebem novos sentidos
“Pneumatógrafos – Escrita sem controle consciente; forma mais profunda do mesmo fenômeno.”
Livro dos Espíritos II, questão 949, p. 347
Em O Livro dos Médiuns, item 146, pneumatografia significa escrita direta produzida pelo Espírito sem intermediário. A escrita realizada pela mão do médium é psicografia, seja mecânica, semimecânica ou intuitiva. “Escrita sem controle consciente” pode descrever uma modalidade de psicografia; não define pneumatografia.
A questão não é apego ao dicionário. A terminologia de Kardec separa fenômenos por seu modo de produção. Se o mesmo nome passa a designar outro mecanismo, relatos diferentes são agrupados como se fossem equivalentes e a comparação histórica se torna imprecisa. A lista de 33 tipos de médiuns do novo volume inclui ainda consteladores e apômetras, categorias externas à classificação de Kardec. Isso pode descrever práticas atuais, mas não autoriza apresentá-las como atualização automática da taxonomia espírita.
Sentir paz não basta para verificar uma comunicação
“Como se sentir seguro? Quando a comunicação não causa sensações ruins, densas ou negativas.”
Livro dos Espíritos II, questão 650, p. 246
“Observe o que a mensagem provoca em seu interior.”
Livro dos Espíritos II, questão 653, p. 247
O efeito moral de uma mensagem importa, mas não autentica fatos nem identidade. Uma comunicação falsa pode consolar; uma advertência verdadeira pode desagradar. Em O Livro dos Médiuns, sobretudo nos capítulos XX e XXIV, Kardec recomenda examinar linguagem, lógica, conhecimento demonstrado, coerência, finalidade e concordância. Nomes ilustres, solenidade do estilo e impressão agradável não dispensam esse controle.
O critério interior proposto pelo novo livro reduz a verificação ao estado emocional do receptor. Essa redução favorece a confirmação das próprias crenças. O método kardeciano procura justamente criar distância entre a mensagem e o desejo de aceitá-la, submetendo-a a comparação e crítica.
Ufologia e tecnologia espiritual permanecem alegações particulares
“Alguns buscam matéria-prima e recursos naturais; outros realizam pesquisas e testes genéticos […] Há também os que procuram explorar o planeta.”
Livro dos Espíritos II, questão 606, p. 229
“Existem aparelhos decodificadores universais.”
Livro dos Espíritos II, questão 661, p. 250
A pluralidade dos mundos habitados pertence à doutrina espírita. Ela não prova, por si mesma, abduções, infiltrados, híbridos, testes genéticos, naves espirituais ou aparelhos universais de tradução. Cada uma dessas alegações exige evidência própria. Deduzir detalhes de uma premissa geral é um salto lógico.
Kardec descreve o deslocamento do Espírito pelo pensamento e a comunicação de pensamento a pensamento. Na primeira edição de O Céu e o Inferno, ele combate a localização material do além em regiões fixas do espaço. O novo volume, ao falar de transportes, idiomas locais, equipamentos e estruturas administrativas, aproxima o mundo espiritual de uma sociedade física ampliada. Parte disso pode ser lida como imagem ou hipótese; o texto, porém, costuma apresentá-lo como descrição objetiva.
Aqui convém preservar uma distinção honesta. Nem toda ideia ausente em Kardec é automaticamente falsa ou contrária ao Espiritismo. Muitas são apenas inovações não demonstradas. O erro começa quando uma alegação particular recebe estatuto doutrinário sem passar pelos controles que justificariam essa passagem.
O nome de continuação não resiste ao confronto
Livro dos Espíritos II reúne elementos de espiritismo, esoterismo, linguagem terapêutica, ufologia e espiritualismo contemporâneo. O sincretismo pode ter valor para leitores que procuram essa combinação. O problema está em apresentá-lo como complemento fiel de Kardec.
Reencarnação facultativa, metempsicose, dissolução da individualidade, ressurreição física, anjos criados em condição superior, pureza espiritual reversível e cobrança da mediunidade não são detalhes periféricos. Eles alteram a origem, o destino e a responsabilidade do Espírito. A redefinição da pneumatografia e a validação emocional das mensagens também enfraquecem o método usado para distinguir conhecimento de opinião mediúnica.
A conclusão documental, portanto, é clara: o livro pode ser estudado como proposta espiritualista particular, mas não se sustenta como continuação doutrinária de O Livro dos Espíritos. A abertura ao progresso, em Kardec, não significa aceitar qualquer novidade. Significa investigar fatos novos com o mesmo rigor usado para estabelecer os princípios anteriores. Sem esse controle, a palavra “complemento” encobre substituições que o próprio texto permite demonstrar.
Referências utilizadas
• MARIAH, Suzi. Livro dos Espíritos II. Arquivo digital examinado, 416 páginas.
• KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição definitiva publicada em vida do autor.
• KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Paris, 1861.
• KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
Critério de citação As páginas atribuídas a Livro dos Espíritos II correspondem à paginação impressa no PDF examinado. As citações foram abreviadas apenas com reticências entre colchetes quando necessário, sem alteração do sentido.
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