Livro dos Espíritos II em confronto com Kardec
Uma análise metodológica e doutrinária à luz de Allan Kardec
A obra de Suzi Mariah se apresenta como continuação de O Livro dos Espíritos. O problema, porém, não está apenas no uso desse título. Ao reivindicar a condição de complemento da obra fundamental de Allan Kardec, o livro reivindica, por consequência, uma ligação com o corpo de conhecimentos que Kardec chamou de ciência espírita.
Esse ponto é decisivo. O Espiritismo, em Kardec, não é simplesmente um conjunto de crenças acerca da sobrevivência da alma, da reencarnação ou da mediunidade. Ele se constitui a partir do estudo dos fenômenos produzidos pelos Espíritos, da observação comparada, do exame crítico das comunicações e da tentativa de separar o fato constatado da hipótese, da opinião pessoal e da mistificação.
Por isso, uma proposição não se torna espírita simplesmente porque foi atribuída a um Espírito ou recebida por um médium. Também não se torna parte da ciência espírita porque parece plausível, consoladora ou revestida de linguagem espiritual. É necessário distinguir uma comunicação mediúnica, uma hipótese explicativa e um conhecimento que tenha resistido ao exame.
É justamente nessa distinção que Livro dos Espíritos II encontra sua maior dificuldade. O volume não apenas introduz ideias ausentes em Kardec: em diversos pontos modifica princípios centrais já integrados à estrutura doutrinária e, ao mesmo tempo, não apresenta o percurso de investigação capaz de justificar essas mudanças.
Nota editorial. Nas referências a A Gênese e O Céu e o Inferno, foram consideradas exclusivamente as primeiras edições francesas, publicadas em vida de Allan Kardec. Nenhuma redação póstuma desses dois títulos fundamenta esta análise.
A promessa de continuidade
O título Livro dos Espíritos II não é neutro. Ele coloca a obra sob a sombra direta do livro que inaugurou a codificação e convida o leitor a entendê-la como sequência. O próprio prefácio reforça essa expectativa ao afirmar que o novo volume jamais se contrapõe a Allan Kardec e que seu propósito seria de “agregação e complemento”.
“O trabalho deste livro foi feito através de uma única médium […] e por mais de 300 profissionais e atuantes de diversas áreas […] Jamais contrapondo as experiências, mas como forma de agregação e complemento.”
Livro dos Espíritos II, prefácio, p. 9
A questão, portanto, não é saber se o livro contém ideias espirituais, mensagens edificantes ou relatos interessantes. A pergunta correta é outra: suas proposições podem ser apresentadas como continuidade de um conhecimento obtido por método investigativo?
Há convergências morais no volume, como a defesa da caridade, da responsabilidade e da sobrevivência da alma. Elas devem ser reconhecidas. Mas afinidade moral geral não elimina divergências sobre a natureza do Espírito, o mecanismo do progresso, a vida depois da morte, a classificação dos fenômenos e o exercício da mediunidade.
Antes da doutrina, existe um problema de método
Há uma tendência recorrente no movimento espírita de reduzir qualquer controvérsia à pergunta “Kardec disse isso ou não disse?”. Esse critério é insuficiente. A ciência espírita não pode ser reduzida a um catálogo de frases de Allan Kardec.
Kardec não pretendeu estabelecer sua autoridade pessoal como critério de verdade. Procurou estabelecer um método de investigação de uma ordem de fenômenos. Por isso, uma descoberta posterior pode ampliar, corrigir ou até modificar uma conclusão anterior. Se fatos novos, bem constatados, exigirem revisão, rejeitá-los apenas porque Kardec não os conheceu seria contrário ao próprio espírito de investigação.
Mas a consequência inversa é igualmente importante: não basta que alguma coisa seja nova para constituir progresso científico. Uma comunicação mediúnica não adquire autoridade simplesmente por sua origem alegadamente espiritual. A mediunidade fornece o fenômeno e o material de investigação; não fornece automaticamente a verdade.
Kardec verificou que os Espíritos apresentam graus diferentes de conhecimento e moralidade, podem enganar-se, reproduzir opiniões pessoais, contradizer-se e até procurar mistificar. A existência do fenômeno mediúnico, portanto, não resolve a questão da confiabilidade de seu conteúdo. Ao contrário: cria a necessidade de controles.
Daí a importância da comparação, da repetição, da independência das fontes, do exame racional, da coerência e da confrontação com fatos conhecidos. A ciência espírita nasce precisamente da passagem do fenômeno bruto para a análise crítica do fenômeno.
Nesse contexto, a menção a “mais de 300 profissionais e atuantes de diversas áreas” poderia ser o início de uma investigação, mas não é uma demonstração. Para que esse número possuísse valor metodológico seria necessário saber como o trabalho foi realizado: se as mesmas questões foram submetidas independentemente a médiuns diferentes; como foram registradas respostas divergentes; que procedimentos limitaram influência recíproca; quais critérios permitiram aceitar ou rejeitar comunicações; e que documentos possibilitariam a terceiros examinar o processo.
Ademais, que profissionais são esses? Apômetras? Terapeutas quânticos? Regressores de vidas passadas? Ufólogos? Suspeito que sim.
O livro não fornece essas informações de maneira suficiente. O problema, portanto, não é quantitativo, mas metodológico. Trezentas pessoas não equivalem a trezentas confirmações independentes; e trezentas opiniões não constituem, por si, experiência científica.
A reencarnação deixa de ser lei
“A reencarnação é uma regra? Uma regra obrigatória, não. É uma possibilidade entre as ferramentas existentes para a evolução.”
Livro dos Espíritos II, questão 449, p. 184
Aqui não há simples mudança de vocabulário. Em O Livro dos Espíritos, a encarnação é apresentada como condição necessária ao desenvolvimento dos Espíritos. A questão 132 afirma que Deus lhes impõe a encarnação com a finalidade de fazê-los chegar à perfeição. As questões 166 a 170 integram as existências sucessivas ao mecanismo regular do progresso. A questão 330 relaciona a reencarnação à necessidade da vida espírita, e a questão 333 exclui a permanência indefinida do Espírito em estado estacionário.
A questão científica, porém, vai além da oposição entre duas frases. Se a reencarnação é apenas uma ferramenta opcional, seria necessário apresentar fatos que demonstrem outro mecanismo regular pelo qual Espíritos atinjam a perfeição sem passar pelas existências corporais necessárias ao seu desenvolvimento.
Quais observações mostram isso? Em que condições ocorre? Como esse modelo explica as desigualdades intelectuais e morais? Como se articula com reparação, aprendizado e responsabilidade? O novo livro não oferece uma série de observações capaz de responder a essas perguntas. Ele substitui a explicação anterior, mas não apresenta o conjunto de fatos necessário para justificar essa substituição.
A metempsicose é admitida
“Sendo ela a possibilidade de reencarnar em outra espécie, sim, ela é possível.”
Livro dos Espíritos II, questão 456, p. 186
“Isso quer dizer que ela existe? Sim, exatamente.”
Livro dos Espíritos II, questão 458, p. 186
A resposta de Kardec à mesma tese é frontal. Na questão 612 de O Livro dos Espíritos, pergunta-se se o Espírito que animou um homem poderia encarnar num animal. A resposta é negativa: isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. A questão 611 já havia distinguido a metempsicose da doutrina das existências sucessivas.
Uma ciência, entretanto, não está obrigada a conservar eternamente uma conclusão. Se fossem observados fatos inequívocos demonstrando que Espíritos humanos efetivamente retornam a organismos animais, a questão deveria ser reaberta. O ponto é precisamente esse: Livro dos Espíritos II não apresenta tais fatos. Responde simplesmente que a metempsicose existe.
Isso converte aquilo que deveria ser objeto de investigação em conclusão antecipada. A questão 530 amplia o problema ao afirmar que animais podem reencarnar como humanos. Em Kardec, a passagem do princípio inteligente até a humanidade é tratada como elaboração e transformação, não como reencarnação comum de um animal individualizado em pessoa humana.
A individualidade espiritual pode desaparecer
“O espírito pode escolher que seu campo se dissolva como identidade, deixando de existir como “um” […] É como uma gota que volta ao mar.”
Livro dos Espíritos II, questão 462, p. 187
“O espírito deixa de ser uma unidade consciente e retorna ao Todo […] permanece integrado à Consciência Universal, mas sem a individualidade.”
Livro dos Espíritos II, questão 464, p. 188
Esse é um dos contrastes mais profundos. Na questão 83 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se os Espíritos têm fim. A resposta afirma que sua existência não termina. A questão 149 acrescenta que a alma conserva a individualidade depois da morte.
A ideia de que os seres humanos seriam “partículas” ou “pedaços” destacados de Deus e de que, ao final do processo evolutivo ou após a morte, “retornariam a Deus” dissolvendo-se na Divindade é uma concepção filosófica antiga (associada ao Panteísmo e ao Absorcionismo) que foi profunda e expressamente refutada por Allan Kardec na Codificação Espírita:
Que nos importa ter uma alma, se, extinguindo-se-nos a vida, ela desaparece na imensidade, como as gotas d’água no Oceano? A perda da nossa individualidade não eqüivale, para nós, ao nada?
Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, pergunta 148.
Em O Céu e o Inferno, contrapõe firmemente:
Há outra doutrina que nega ser materialista porque admite a existência de um princípio inteligente, fora da matéria, que é a doutrina da absorção no Todo Universal. Segundo essa doutrina, cada indivíduo absorve em si, ao nascer, uma parcela desse princípio, que é sua alma e que lhe dá a vida, a inteligência e o sentimento. Quando morre, essa alma volta ao ponto de origem, perdendo-se no infinito, como uma gota d’água no oceano.
Essa doutrina é, sem dúvida, um passo adiante com relação ao materialismo puro, já que ela admite algo além da matéria, enquanto o outro nada admite, mas as consequências de ambas são as mesmas. Ser o homem mergulhado no nada ou num reservatório comum é, para ele, a mesma coisa. Se, no primeiro caso, ele é aniquilado, no segundo perde sua individualidade e é como se não existisse, e suas relações sociais estarão igualmente extintas para sempre.
O essencial para o homem é a preservação de seu eu, sem o que não importa ser ou não ser! O futuro, para ele, é igualmente nulo, e o presente é a única coisa que lhe importa e o preocupa. Do ponto de vista das consequências morais, essa doutrina é igualmente prejudicial, igualmente desesperadora, incitando ao egoísmo tanto quanto o materialismo propriamente dito.
Kardec, Allan. O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior (correspondente à 1a edição)
E completa:
Cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é ele mesmo Deus. Nenhum ser superior e independente comanda o conjunto; o Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada um é chefe com poder absoluto.
A esse sistema podemos opor numerosas objeções, das quais são estas as principais: a Divindade, não podendo ser concebida sem o infinito das perfeições, perguntamo-nos como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas e tendo a necessidade de progredir? Cada parte estando submetida à lei do progresso, daí resulta que o próprio Deus deve progredir; se Ele progride incessantemente, deve ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito.
Como um ser imperfeito, formado de vontades e de ideias tão divergentes, pôde conceber as leis tão harmoniosas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e de previdência que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram para as leis da natureza; como pode ser então que elas murmurem sem cessar contra essas leis, que são obras suas?
Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira, senão com a condição de satisfazer a razão e dar conta de todos os fatos que abrange. Se um só fato a desmente, é porque ela não encerra a verdade absoluta.
Idem.
É fácil perceber que, se alguém chamou Suzi para realizar uma obra, destruindo pontos fundamentais da moral produzida pela ciência espírita, esse alguém não foi o Espírito de Allan Kardec.
A ressurreição física retorna como possibilidade
“E na matéria? É tão possível quanto a reencarnação.”
Livro dos Espíritos II, questão 471, p. 189
“O espírito pode reconstruir ou materializar um corpo com base em uma célula original […] utilizando uma força energética imensa e uma supermatéria.”
Livro dos Espíritos II, questão 472, p. 190
Kardec dedica a questão 1010 de O Livro dos Espíritos à ressurreição da carne. Sua conclusão é explícita: a reconstituição do mesmo corpo é materialmente impossível, porque seus elementos se dispersam e passam a compor outros organismos. A ressurreição é interpretada como figura da reencarnação, não como retorno definitivo do cadáver recomposto:
Efetivamente, a ciência demonstra a impossibilidade da ressurreição, segundo a ideia vulgar. Se os despojos do corpo humano se conservassem homogêneos, embora dispersos e reduzidos a pó, ainda se conceberia que pudessem reunir-se em dado momento. As coisas, porém, não se passam assim.
[…]
Racionalmente, pois, não se pode admitir a ressurreição da carne, senão como uma figura simbólica do fenômeno da reencarnação. E, então, nada mais há que aberre da razão, que esteja em contradição com os dados da ciência.
Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos.
O novo livro faz o movimento inverso: recupera a ressurreição literal mediante uma “célula original”, energia e “supermatéria”. Esses termos, porém, não vêm acompanhados de definição operacional, observações reproduzíveis ou fatos controláveis que permitam examiná-los. A linguagem técnica não substitui a demonstração.
Anjos criados em condição superior e pureza reversível
“Há seres que já foram criados em níveis de elevada consciência, constituídos por uma matriz energética própria, que não percorre o mesmo caminho evolutivo dos demais.”
Livro dos Espíritos II, questão 643, p. 244
Nas questões 115, 128 e 129 de O Livro dos Espíritos, a resposta é outra. Todos os Espíritos são criados simples e ignorantes; os anjos são Espíritos puros que alcançaram o grau mais elevado depois de percorrer os demais graus. Não formam uma criação privilegiada.
O problema se agrava quando o novo livro admite que Espíritos da escala de Jesus poderiam ser novamente afetados pelos prazeres e ilusões de mundos densos, trazendo de volta “fragmentos de ego”. Kardec define os Espíritos puros pela completa superioridade moral e afirma, na questão 118, que eles não retrogradam.
Se uma obra pretende rever essa conclusão, precisa apresentar casos verificáveis de regressão de Espíritos puros e demonstrar de que modo sua identificação foi estabelecida. Sem isso, a afirmação permanece uma hipótese particular.
A segunda morte do perispírito
“Na segunda morte, os seres desencarnados perdem também o perispírito.”
Livro dos Espíritos II, questão 441, p. 180
Kardec descreve o perispírito como o envoltório semimaterial que acompanha o Espírito e é tomado do fluido próprio de cada mundo. Ele se depura e pode tornar-se extremamente etéreo, mas isso não equivale à formulação de uma segunda morte universal.
A questão 93 de O Livro dos Espíritos e os capítulos XI e XIV da primeira edição francesa de A Gênese tratam o perispírito como elemento funcional da relação entre Espírito e matéria. Pode-se investigar transformações profundas desse envoltório; o que não se pode fazer, sem demonstração, é transformar seu abandono em etapa obrigatória e depois apresentá-la como extensão natural do modelo kardeciano.
A mediunidade torna-se serviço cobrável
“Todo trabalho envolve algum tipo de troca […] O ato de cobrar, por si só, não é o ponto central.”
Livro dos Espíritos II, questão 942, p. 342
“Aplicável a qualquer forma de mediunidade, inclusive incorporação […] O ponto central não é a cobrança em si, mas a ética, a intenção e o destino dos valores recebidos.”
Livro dos Espíritos II, questão 943, p. 342
O contraste com O Evangelho segundo o Espiritismo é direto. No capítulo XXVI, itens 7 a 10, Kardec distingue a remuneração de um trabalho humano da venda de uma faculdade que não pertence ao médium e depende da vontade dos Espíritos. Sua conclusão é inequívoca: a mediunidade séria não pode tornar-se profissão.
A diferença não é meramente moralista. Existe um problema metodológico. Quanto maior o interesse material ligado à manifestação, maior a necessidade de controlar fraude, encenação, autossugestão, seleção conveniente dos resultados e dependência econômica da crença do público. A gratuidade funciona, nesse sentido, também como proteção da investigação contra conflitos de interesse.
Termos kardecianos recebem novos sentidos
“Pneumatógrafos – Escrita sem controle consciente; forma mais profunda do mesmo fenômeno.”
Livro dos Espíritos II, questão 949, p. 347
Em O Livro dos Médiuns, item 146, pneumatografia significa escrita direta produzida pelo Espírito sem intermediário. A escrita realizada pela mão do médium é psicografia, seja mecânica, semimecânica ou intuitiva.
A precisão terminológica não é mero apego a palavras. Em ciência, termos servem para separar fenômenos conforme seu modo de produção. Se o mesmo nome passa a designar mecanismos diferentes, observações distintas são agrupadas como se fossem equivalentes e a comparação histórica se torna imprecisa.
A lista de 33 tipos de médiuns apresentada pelo novo volume inclui ainda consteladores e apômetras. Isso pode descrever práticas contemporâneas, mas não autoriza apresentá-las automaticamente como continuação da classificação experimental de Kardec.
Sentir paz não basta para verificar uma comunicação
“Como se sentir seguro? Quando a comunicação não causa sensações ruins, densas ou negativas.”
Livro dos Espíritos II, questão 650, p. 246
“Observe o que a mensagem provoca em seu interior.”
Livro dos Espíritos II, questão 653, p. 247
Aqui aparece uma divergência que não é apenas doutrinária, mas epistemológica. O critério de verificação é deslocado da análise da mensagem para a sensação produzida em quem a recebe.
Uma comunicação falsa pode consolar. Uma mensagem equivocada pode corresponder exatamente às expectativas de quem a recebe. Um Espírito mistificador pode utilizar linguagem elevada. E uma informação verdadeira pode ser desagradável ou contrariar convicções anteriores.
Por isso, em O Livro dos Médiuns, Kardec insiste na linguagem, na lógica, no conhecimento demonstrado, na coerência, na finalidade, nas características do comunicante e na comparação entre manifestações. O critério subjetivo favorece justamente aquilo que um método de investigação precisa reduzir: a confirmação das próprias expectativas.
Uma hipótese não se transforma em fato porque é mediúnica
“Alguns buscam matéria-prima e recursos naturais; outros realizam pesquisas e testes genéticos […] Há também os que procuram explorar o planeta.”
Livro dos Espíritos II, questão 606, p. 229
“Existem aparelhos decodificadores universais.”
Livro dos Espíritos II, questão 661, p. 250
A pluralidade dos mundos habitados pertence à doutrina espírita. Dela não decorrem automaticamente abduções, experimentos genéticos extraterrestres, infiltrados, exploração de recursos terrestres, naves espirituais ou aparelhos decodificadores.
Cada afirmação possui carga probatória própria. Admitir a existência de outros mundos habitados não demonstra que determinada espécie extraterrestre visite a Terra. Reconhecer a ação dos Espíritos sobre a matéria não demonstra automaticamente qualquer tecnologia atribuída ao mundo invisível.
Essas ideias podem ser formuladas como hipóteses. O problema começa quando são apresentadas como fatos conhecidos sem exposição das observações que permitiriam estabelecê-las.
Na ciência espírita, a origem mediúnica de uma informação não é equivalente à sua confirmação. A própria existência de Espíritos ignorantes, equivocados ou mistificadores torna essa distinção indispensável.
O que seria necessário para modificar uma conclusão da ciência espírita?
Esse talvez seja o ponto central de todo o debate. A ciência avança quando fatos novos obrigam a modificar explicações anteriores. Nenhuma conclusão estabelecida por Kardec deve ser tratada como intocável simplesmente por ter sido publicada no século XIX. Porém, uma revisão exige método e evidência proporcional ao que está sendo revisado:
Generalidade e concordância no ensino — esse é o caráter essencial da doutrina espírita, a condição mesmo de sua existência, de onde resulta que todo princípio que não tenha recebido a consagração do controle de generalidade não pode ser considerado como parte integrante dessa mesma doutrina, mas como uma simples opinião isolada, cuja responsabilidade o Espiritismo não pode assumir.
Essa coletividade concordante de opinião dos Espíritos, submetida, além disso, ao critério da lógica, constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela fosse alterada, seria preciso que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e que eles viessem, um dia, dizer o contrário do que disseram anteriormente.
Kardec, Allan. A Gênese – Editora Mundo Maior.
Esse cuidado é especialmente importante em pesquisas mediúnicas porque o instrumento de observação – o médium – é um ser humano dotado de memória, crenças, expectativas, vocabulário e referências culturais. Kardec conhecia esse problema, como também sabia, logo pelas primeiras observações, que as opiniões dos Espíritos não devem ser cegamente aceitas, tanto quanto não devem ser as dos homens – por isso não transformou cada mensagem recebida em princípio doutrinário.
Em participações públicas, em canais do Youtube, Suzi tem afirmado que recebeu essa missão do Espíritos de Kardec, que a teria chamado para ir ao seu túmulo para conversar com ele. Isso é um verdadeiro escárnio com tudo o que Kardec sempre nos demonstrou, em seus escritos sobre as conclusões da ciência Espírita.
O nome de “continuação” não resiste ao confronto
Livro dos Espíritos II reúne elementos de Espiritismo, esoterismo, linguagem terapêutica, ufologia e espiritualismo contemporâneo. O sincretismo pode ter valor para leitores que procuram essa combinação, mas o problema está em apresentá-lo como complemento fiel de Kardec e, sobretudo, como continuidade da ciência espírita.
Parece ser a velha receita daqueles que buscam surfar na fama do Espiritismo: misturar ideias fundamentalmente antagônicas entre si e apresentá-las como se fossem Espiritismo. A própria FEB também fez isso, por mais de um século, e continua fazendo. Aqui, preciso fazer menção à enorme responsabilidade que ela, Federação Espírita Brasileira, tem sobre tudo isso, pois esse cenário é apenas o resultado da grande força que ela fez para criar um “Espíritismo à moda da casa”.
Reencarnação facultativa, metempsicose, dissolução da individualidade, ressurreição física, anjos criados em condição superior, pureza espiritual reversível e cobrança da mediunidade não são detalhes periféricos. Eles alteram a origem, o destino e a responsabilidade do Espírito.
Do mesmo modo, a redefinição de categorias mediúnicas, a validação emocional das mensagens e a apresentação de descrições tecnológicas do mundo espiritual sem exposição de método enfraquecem o próprio mecanismo pelo qual se deveria separar conhecimento de opinião mediúnica.
Conclusão: o problema não é discordar de Kardec; é abandonar o método que permitiria superá-lo
O confronto realizado neste artigo não transforma Allan Kardec em autoridade infalível nem congela o Espiritismo em 1869. Isso seria contrário à própria natureza da ciência espírita.
Se novos fatos demonstrarem que determinada conclusão estava incompleta ou equivocada, a posição coerente com o método kardeciano será reconhecer os fatos e revisar a teoria. É exatamente por isso que Livro dos Espíritos II encontra seu maior problema.
O volume não se limita a apresentar fenômenos novos ainda desconhecidos no século XIX. Ele modifica princípios fundamentais e introduz numerosas descrições sobre a realidade espiritual, mas não oferece ao leitor o percurso experimental capaz de transformar essas afirmações em conhecimento.
Isso não significa que suas teses sejam falsas simplesmente porque contradizem Kardec. Significa que quem pretende substituir uma conclusão estabelecida precisa demonstrar por que ela deve ser substituída.
O mesmo vale para colônias, veículos, equipamentos espirituais, sistemas de tradução, extraterrestres, estruturas dimensionais ou qualquer outra hipótese. O fato de essas ideias serem atribuídas a Espíritos não lhes concede, por si, estatuto científico.
Uma comunicação mediúnica é um dado. Várias comunicações concordantes podem constituir um indício. Uma hipótese organiza esses dados. Mas uma proposição somente pode aspirar à condição de conhecimento da ciência espírita depois de submetida ao exame dos fatos, à crítica racional, à comparação e aos controles destinados a reduzir erro, influência pessoal e mistificação.
É nesse ponto que a expressão Livro dos Espíritos II se torna problemática. O livro pode ser estudado como produção espiritualista contemporânea. Pode apresentar hipóteses dignas de investigação. Pode conter ensinamentos morais compatíveis com princípios espíritas. O que ele não demonstra é aquilo que seu título e seu prefácio sugerem: que suas proposições constituam uma continuação científica de O Livro dos Espíritos.
A ciência espírita não progride pelo simples acréscimo de novas revelações. Ela progride quando novos fatos resistem ao exame e obrigam o conhecimento anterior a avançar.
Referências utilizadas
MARIAH, Suzi. Livro dos Espíritos II. Arquivo digital examinado, 416 páginas.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição definitiva publicada em vida do autor.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Paris, 1861.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
KARDEC, Allan. Le Ciel et l’Enfer ou la justice divine selon le spiritisme. Paris, 1865. Primeira edição francesa.
KARDEC, Allan. La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme. Paris, 1868. Primeira edição francesa.
Critério de citação. As páginas atribuídas a Livro dos Espíritos II correspondem à paginação impressa no PDF examinado. As citações foram abreviadas apenas com reticências entre colchetes quando necessário, sem alteração do sentido.
Livro dos Espíritos II em confronto com a ciência espírita