A Aplicação Prática dos Princípios do Espiritismo

A relação entre O Livro dos Espíritos (1861) e O Céu e o Inferno revela a continuidade do pensamento dos Espíritos Superiores e que Kardec codificou. e a forma como os princípios fundamentais da Doutrina Espírita são desenvolvidos e aplicados. Se O Livro dos Espíritos apresenta as bases fundamentais e a pedra angular do Espiritismo, O Céu e o Inferno aprofunda essas bases ao examinar suas consequências na experiência da alma, especialmente diante da morte, da desencarnação e de sua condição espiritual.

Essa relação pode ser compreendida a partir de quatro grandes eixos de estudo: a natureza de Deus e a questão dos anjos e demônios; o processo da desencarnação; a justiça das penas e dos gozos futuros; e o significado do purgatório e das expiações terrestres.


1. Deus, anjos e demônios: a lógica dos atributos divinos

Um primeiro ponto de ligação está na relação entre o estudo de Deus, desenvolvido na Primeira Parte, capítulo I, de O Livro dos Espíritos, e a abordagem dos anjos e demônios, presente na Segunda Parte, capítulo I((Relaciona o estudo sobre Deus (Parte 1, Cap. I) e a escala espírita/anjos e demônios 128 e seguintes (Parte 2, Cap. I))), da mesma obra, em diálogo com os capítulos de anjos e demônios ((capitulo IX e X respectivamente da parte primeira de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)) de O Céu e o Inferno.

O ponto central dessa relação está nos atributos divinos, especialmente na justiça e na bondade infinitas de Deus.

A partir dessa lógica, as duas obras examinam concepções tradicionais segundo as quais existiriam seres criados originalmente como anjos que teriam se rebelado contra Deus, tornando-se eternamente condenados, ou seres criados especificamente para praticar o mal. Essas ideias entram em contradição com a própria concepção de um Criador perfeito dos dogmas das religiões. Se Deus é infinitamente justo e bom, não seria coerente atribuir-lhe a criação de seres destinados ao mal ou a condenação eterna de criaturas que, originalmente, teriam sido criadas boas.

Assim, o estudo dos anjos e demônios não aparece isoladamente. Ele está diretamente relacionado à compreensão dos atributos de Deus e à necessidade de manter coerência entre aquilo que se afirma sobre o Criador e as consequências atribuídas à sua ação.


2. O processo do passamento: a separação da alma e do corpo

O segundo eixo estabelece uma relação direta entre o estudo da separação da alma e do corpo e da perturbação espiritual, apresentado na Segunda Parte, capítulo III((item 154 em diante de O Livro dos Espíritos)), de O Livro dos Espíritos, e o capítulo “O Passamento”, de O Céu e o Inferno.((primiro capítulo de parte segunda de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior))

As duas obras permitem compreender a morte não como o desaparecimento do ser, mas como um processo de separação entre a alma e o corpo. Nesse processo, o desprendimento do perispírito ocorre de maneira gradual, e sua experiência pode variar de acordo com a condição espiritual do indivíduo. Para as almas moralmente mais adiantadas, o desligamento tende a ser mais rápido e menos penoso. Já para aquelas que permaneceram fortemente ligadas à matéria, o processo pode ser mais lento e acompanhado de maior dificuldade.

A diferença fundamental está, portanto, na condição espiritual de cada indivíduo. O modo como ocorre o passamento não é apresentado como uma experiência absolutamente igual para todos, mas como algo relacionado ao grau de desprendimento e à natureza dos vínculos que a alma mantém com a existência material.

Dessa forma, O Céu e o Inferno desenvolve, em situações concretas, princípios que O Livro dos Espíritos apresenta de maneira sistemática.


3. A justiça das penas e dos gozos futuros

O terceiro eixo relaciona o capítulo “Penas e gozos futuros”, da Quarta Parte de O Livro dos Espíritos((item 958 em diante de O Livro dos Espíritos)), com o capítulo “As penas futuras segundo o Espiritismo”((capitulo VIII da primeira parte de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)), de O Céu e o Inferno. Aqui aparece uma mudança fundamental na compreensão tradicional do céu e do inferno. Em vez de serem entendidos como lugares físicos ou regiões geográficas circunscritas no Universo, a felicidade e a infelicidade são apresentadas como estados da própria alma.

A condição espiritual do indivíduo está relacionada às suas qualidades e imperfeições. A felicidade decorre do desenvolvimento das boas qualidades, enquanto a infelicidade está relacionada às imperfeições que permanecem na alma. Essa compreensão estabelece uma relação direta entre a condição moral do indivíduo e as consequências de seus próprios atos. O sofrimento, portanto, não é apresentado simplesmente como uma punição externa imposta arbitrariamente. A situação da alma decorre de sua própria condição espiritual e é proporcional ao conjunto de suas qualidades e imperfeições.

O Céu e o Inferno aprofunda, assim, a compreensão da justiça divina apresentada em O Livro dos Espíritos, mostrando suas consequências na situação concreta da alma.


4. O verdadeiro purgatório: provas e expiações na Terra

O quarto eixo relaciona a definição de purgatório, apresentada na Quarta Parte, capítulo II((item 920 em diante)), de O Livro dos Espíritos, com o capítulo “O Purgatório”((capitulo VI – parte primeira de O Céu e o Inferno)), de O Céu e o Inferno, e com os casos reunidos em “Expiações Terrestres”((capítulo VIII – parte segunda de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)).

A partir dessa relação, o purgatório deixa de ser compreendido como um lugar físico caracterizado por chamas materiais. Ele pode ser entendido como a própria condição de provas e expiações pela qual a alma passa em seu processo de aperfeiçoamento. A existência terrestre assume, nesse contexto, um significado particular. As dificuldades e experiências enfrentadas durante a vida não são vistas simplesmente como acontecimentos sem finalidade, mas podem constituir oportunidades para o desenvolvimento e o melhoramento da alma. A reencarnação, nesse sentido, apresenta-se como parte desse processo de trabalho sobre si mesmo. É na experiência terrestre que a alma enfrenta suas provas, suas expiações e as condições necessárias ao seu próprio aperfeiçoamento.

Os casos de “Expiações Terrestres” tornam essa compreensão mais concreta, permitindo observar como os princípios apresentados anteriormente podem se manifestar nas experiências individuais.


A continuidade entre as duas obras

Os quatro eixos mostram que O Livro dos Espíritos e O Céu e o Inferno não devem ser compreendidos como obras isoladas.

O Livro dos Espíritos estabelece os princípios fundamentais. O Céu e o Inferno retoma esses princípios e os aplica à situação da alma, especialmente diante da morte e de suas consequências.

Eixo de estudo O Livro dos Espíritos O Céu e o Inferno
Deus, anjos e demônios Apresenta os atributos de Deus e aborda a escala espírita, os anjos e os demônios. Desenvolve as consequências desses princípios ao examinar a ideia de anjos decaídos e demônios.
O passamento Explica a separação da alma e do corpo e a perturbação espiritual. Desenvolve o processo do passamento e suas diferentes condições.
Penas e gozos futuros Apresenta os princípios relativos à felicidade e à infelicidade futuras. Explica as penas futuras segundo os princípios espíritas.
Purgatório e expiações Define o purgatório e apresenta as provas e expiações. Desenvolve o conceito de purgatório e apresenta casos de expiações terrestres.

Dos princípios à experiência da alma

A relação entre as duas obras pode, portanto, ser sintetizada como uma passagem dos princípios à experiência.

O Livro dos Espíritos estabelece as bases para compreender Deus, a alma, a vida espiritual, a desencarnação, as penas e os gozos futuros e as provas e expiações.

O Céu e o Inferno retoma essas bases e mostra suas consequências na condição concreta da alma. A morte, nesse contexto, não encerra a existência, mas constitui uma mudança de estado; o céu e o inferno deixam de ser lugares físicos e passam a ser compreendidos a partir da condição moral da alma; e o purgatório deixa de representar um espaço material para ser relacionado às experiências de provas e expiações.

Existe, assim, uma continuidade lógica entre as duas obras: primeiro são apresentados os princípios; depois, suas consequências são examinadas na experiência espiritual.

É justamente nessa complementaridade que se evidencia a estrutura do Espiritismo: compreender os princípios que regem a existência permite compreender também a situação da alma durante a vida, no momento do passamento e depois dele.

Nos próximos artigos, vamos desenvolver mais e melhor cada um dos 4 apresentados aqui.




A Justiça Divina em Allan Kardec: A relação entre A Gênese e O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior

Entre as obras que compõem a Codificação Espírita, A Gênese ocupa um papel singular. Publicado em 1868, o livro não apenas amplia conceitos apresentados anteriormente por Allan Kardec, mas também funciona como uma síntese dos princípios desenvolvidos ao longo da doutrina.

No primeiro capítulo da obra, especialmente entre os itens 30 e 38, Kardec apresenta uma visão sistematizada da justiça divina, retomando conceitos discutidos com maior profundidade em O Céu e o Inferno. A análise desses trechos revela uma construção lógica que procura explicar o destino do Espírito a partir de princípios como responsabilidade individual, progresso contínuo, reparação e transformação moral.

Os conceitos apresentados nesse trecho representam uma reformulação de ideias tradicionalmente associadas ao Cristianismo, oferecendo uma interpretação baseada nas leis naturais e na evolução espiritual.

Não existem seres privilegiados na criação

Um dos primeiros princípios apresentados em A Gênese é a unidade da criação.

No item 30 do capítulo I, Natureza da revelação, Kardec afirma que não existem seres privilegiados. Essa ideia é desenvolvida em O Céu e o Inferno, nos capítulos dedicados aos anjos e aos demônios, como abaixo:

(…)Sabe que não há criaturas deserdadas nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada de um trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente voltados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados pelo nome de demônios são Espíritos imperfeitos, ainda atrasados, que fazem o mal na condição de Espíritos, como praticavam enquanto eram homens, mas que avançarão e se aperfeiçoarão; que anjos não são seres à parte na criação, mas são Espíritos puros, que atingiram a meta após terem percorrido o caminho do progresso; que de tal modo não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas toda criação resulta da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um alvo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento de outros, pois todos são filhos das próprias obras.(…)

pag 54 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior ((item 30 do capítulo primeiro completo: 30. O ESPIRITISMO, cujo ponto de partida está nas próprias palavras de Cristo, como Cristo partiu das de Moisés, é uma consequência direta de sua doutrina. À ideia vaga da vida futura, ele acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço, e assim dá forma precisa à crença; dá-lhe corpo, consistência, realidade ao modo de pensar. Define os laços que unem a alma e o corpo, retirando o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está na Terra, porque sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus. Sabe que a alma progride sem cessar por meio de uma série de existência sucessivas, até alcançar o grau de perfeição que lhe permite se aproximar de Deus. Ele sabe que todas as almas, como possuem um mesmo ponto departida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir em virtude de seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência, e que há entre elas diferença senão a do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapidamente conforme seu trabalho e sua boa vontade. Sabe que não há criaturas deserdadas nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada de um trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente voltados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados pelo nome de demônios são Espíritos imperfeitos, ainda atrasados, que fazem o mal na condição de Espíritos, como praticavam enquanto eram homens, mas que avançarão e se aperfeiçoarão; que anjos não são seres à parte na criação, mas são Espíritos puros, que atingiram a meta após terem percorrido o caminho do progresso; que de tal modo não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas toda criação resulta da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um alvo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento de outros, pois todos são filhos das próprias obras.))

A interpretação espírita rompe com a ideia de que alguns seres foram criados para a perfeição, enquanto outros teriam sido destinados eternamente ao mal.

Segundo a doutrina, todos os Espíritos possuem a mesma origem. Todos são criados simples e ignorantes e recebem as mesmas oportunidades de desenvolvimento.

Nesse contexto, os anjos são Espíritos que já concluíram sua trajetória evolutiva e alcançaram elevados níveis de aperfeiçoamento moral. Os demônios, por outro lado, não constituem uma categoria permanente de seres condenados ao mal. Demônios são Espíritos ainda imperfeitos, que permanecem em estágios inferiores da evolução, mas que, inevitavelmente, progredirão.

Essa compreensão estabelece um princípio de igualdade absoluta diante das leis divinas e elimina qualquer possibilidade de privilégios na criação.

A felicidade e o sofrimento pertencem ao próprio Espírito

Outro aspecto fundamental apresentado por Kardec está relacionado à compreensão da felicidade e do sofrimento.

No item 32 de A Gênese, o autor afirma que a situação do Espírito após a morte é consequência direta do seu grau de aperfeiçoamento.

32. Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas, por outras palavras, que ele é punido por onde pecou; que essas consequências duram tanto tempo quanto a causa que as produziu; e, portanto, o culpado sofrerá eternamente, se persistir sempre no mal, mas o sofrimento acaba com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um se aperfeiçoar, todos podem, em virtude do livre-arbítrio, prolongar ou abreviar os sofrimentos, como o doente sofre por causa de seus excessos enquanto não lhes dá um fim.

pag 55 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

Essa ideia é aprofundada em O Céu e o Inferno, que define a felicidade e a infelicidade como estados íntimos do Espírito, expressa no capítulo VIII da primeira parte itens 1, 2 e 3:

1o) A alma ou espírito sujeita-se, na vida espiritual, às consequências detodas as imperfeições das quais ela não se despojou durante a vida corporal.Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou de suasimperfeições.2o) Sendo todos os espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso,trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futurae os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprioadiantamento94.3o) A felicidade perfeita está ligada à perfeição, ou seja, à depuração completa do espírito. Toda imperfeição é uma causa de sofrimento, da mesmaforma que toda qualidade adquirida é uma causa de satisfação e de atenuaçãodos sofrimentos; donde resulta que a soma da felicidade e da infelicidade estána razão da soma das qualidades boas ou más que possui o espírito.

pag 132 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior((alguns trechos deste item estão somente na edição original de 1865, apresentada aqui))

Essa interpretação se distancia da concepção tradicional que associa a felicidade a um lugar específico e o sofrimento a um espaço destinado ao castigo.

No entendimento espírita, o Espírito carrega em si os elementos responsáveis pela sua própria condição.

A felicidade é resultado do desenvolvimento das virtudes do desenvolvimento do progresso moral. O sofrimento, por sua vez, está relacionado às imperfeições adquiridas que ainda não foram superadas.

Dessa forma, o estado do Espírito não depende de uma sentença externa, mas da própria condição moral do indivíduo.

A punição como consequência natural da falta cometida

Um dos conceitos mais importantes apresentados por Kardec é o mecanismo pelo qual a justiça divina se manifesta. Observe os itens abaixo:

4o) A punição é sempre a consequência natural da falta cometida95. Oespírito sofre pelo próprio mal que fez, de maneira que, estando sua atençãoconcentrada incessantemente sobre as consequências desse mal 96, compreende-lhemelhor os inconvenientes e é motivado a corrigir-se.

(idem)

Kardec estabelece um importante princípio que “a punição é sempre a consequência natural da falta cometida”, servindo como um meio para o Espírito compreender os inconvenientes do erro e motivar-se a corrigi-lo.

Em A Gênese, o autor afirma que cada indivíduo é punido precisamente “por onde pecou”, A Gênese (Cap. I, item 32): “(…)que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas, por outras palavras, que ele é punido por onde pecou; (…)

Em O Céu e o Inferno, esse princípio é desenvolvido a partir da ideia de que o sofrimento não é imposto arbitrariamente por Deus. A punição surge como consequência natural das escolhas equivocadas.

O arrependimento e a rejeição das penas eternas

A rejeição das penas eternas representa um dos aspectos mais revolucionários da interpretação espírita da justiça divina.

Nos itens 32 e 33 de A Gênese, Kardec afirma que o sofrimento termina quando o Espírito se arrepende e se dedica à reparação dos erros cometidos.

Em O Céu e o Inferno, o autor argumenta que a ideia de um castigo eterno é incompatível com a bondade e a misericórdia de Deus. O Céu e o Inferno: Capítulo VII (“Doutrina das penas eternas”)

Reconciliar-se o culpado com Deus – arrependendo-se e pedindo para reparar o mal que fez – constitui um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem de nada valerá; se o bem não for levado em conta, não haverá justiça. Entre os homens, o condenado que se corrige vê sua pena atenuada e por vezes até mesmo perdoada; haveria assim, na justiça humana, mais equidade que na justiça divina! Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil – o culpado, não tendo nada a esperar do seu retorno ao bem, persistirá no mal, de tal forma que Deus não somente o condena a sofrer perpetuamente, condena-o ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Isso não constituiria nem justiça nem bondade.

pag. 120 Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

O item mencionado capitulo VII da primeira parte de O Céu e o Inferno e os itens 8º e 9º do capítulo VIII (( 8o) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem99.O espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem. Uma condenação por um tempo determinado qualquer teria o duplo inconveniente de ou continuar a atingir o espírito que se houvesse aperfeiçoado ou cessar quando ele ainda estivesse no mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto este existe; e encerra a punição quando o mal não existe mais. Assim se acha confirmada esta expressão: Eu não quero a morte do pecador, mas que ele viva e eu o acusarei até que ele se arrependa.1009o) Estando a duração do castigo subordinada ao arrependimento, resulta daí que o espírito culpado que não se arrependesse e jamais se aperfeiçoasse sofreria sempre, e que, para ele, a pena seria eterna. A eternidade das penas deve então ser entendida no sentido relativo e não no sentido absoluto. pag 133))

Assim, Kardec demonstra que a duração do castigo é estritamente subordinada ao aperfeiçoamento do culpado e que a “eternidade” das penas é apenas relativa à persistência no mal

Segundo essa perspectiva, a duração do sofrimento está diretamente relacionada ao processo de transformação do Espírito. Não existe uma condenação estabelecida por um período determinado nem uma sentença irreversível.

A reencarnação como instrumento de reparação e progresso

Nos itens 34 e 35 de A Gênese, Kardec apresenta a pluralidade das existências como um elemento essencial para compreender a justiça divina. Leia a seguir:

34. A pluralidade das existências, cujo princípio Cristo estabeleceu noEvangelho, mas sem defini-lo, como o fez com muitos outros, é uma dasmais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, porque este demonstrasua realidade e sua necessidade para o progresso. Com essa lei, o homemexplica a si todas as aparentes anomalias da vida humana; suas diferençasquanto à posição social; as mortes prematuras as quais, sem a reencarnação,tornariam inúteis para a alma as vidas de curta duração; explica a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, as quais se devem à antiguidade doEspírito que viveu mais ou menos tempo, tendo aprendido e progredidoem maior ou menor grau, trazendo ao renascer o que conquistou em existências anteriores.

35. Com a doutrina da criação da alma a cada nascimento, caímos no sistemadas criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nadaos liga; os laços de família são puramente carnais. Não são em nada solidários com um passado no qual não existiram. Com a doutrina do nadadepois da morte, todas as relações cessam com a vida e, desse modo, oshomens não são solidários no futuro. Mediante a realidade da reencarnação, por sua vez, eles são solidários no passado e no futuro. Como suasrelações se perpetuam, tanto no mundo espiritual quanto no corporal,a fraternidade tem como base as próprias leis da natureza. O bem temum objetivo; e o mal, consequências inevitáveis.

pag 56 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

A reencarnação explica as desigualdades sociais, as diferenças individuais e as circunstâncias que caracterizam a experiência humana.

Em O Céu e o Inferno, Capítulo VIII, Itens 21, 23 e 25. Kardec apresenta a reencarnação como um mecanismo de reparação e progresso, conforme o texto:

21o) A situação do espírito, a partir de sua entrada na vida espiritual, éa que ele preparou para si durante a vida no corpo. Mais tarde, outra encarnação lhe é dada, e por vezes imposta, para a expiação e reparação por meio de novas provas, mas ele a aproveita em maior ou menor proporção em virtude de seu livre-arbítrio. Se ele não a aproveitar, será uma tarefa para recomeçar cada vez em condições mais penosas, de modo que se pode dizer que aquele que sofre muito sobre a Terra tinha muito a expiar. Os que gozam de uma felicidade aparente, apesar de seus vícios e sua inutilidade, certamente pagarão caro numa próxima existência. É nesse sentido que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V)

23o) Sendo as penas temporárias e subordinadas ao arrependimento, queé o fato da livre vontade do homem, são ao mesmo tempo os castigos e osremédios que devem ajudar a curar as feridas do mal. Os espíritos em puniçãosão, portanto, não como condenados perpetuamente, mas como doentes nohospital, que sofrem da doença que quase sempre é culpa sua e dos meioscurativos dolorosos de que ela necessita, mas que são a esperança da cura, eque curam tanto mais rápido quanto mais exatamente sigam as prescrições domédico que vela sobre eles com solicitude. Se prolongam seus sofrimentospor sua própria culpa, o médico nada tem com isso.

25°) Seria injustiça se Deus tivesse criado privilegiados, mais favorecidos queoutros, gozando sem trabalho da felicidade que outros somente alcançam comdificuldade ou jamais podem alcançar. Mas onde sua justiça brilha é na igualdadeabsoluta que preside à criação de todos os espíritos. Todos têm um mesmo pontode partida. Nenhum espírito, em sua formação, é mais bem dotado que outro. Nenhum que tenha sua marcha ascensional facilitada por exceção. Aqueles que chegaram ao fim passaram, como os outros, pela fieira das provas e da inferioridade.Admitido isto, o que há de mais justo que a liberdade de ação deixada acada um? A estrada da felicidade está aberta a todos. O fim é o mesmo paratodos. As condições para atingi-lo são as mesmas para todos. A lei gravadaem todas as consciências é ensinada a todos. Deus fez da felicidade o prêmiodo trabalho e não o do favor, a fim de que cada um pudesse dela ter o mérito.Cada um é livre para trabalhar ou nada fazer por seu próprio adiantamento.Aquele que trabalha muito e depressa é mais cedo recompensado. Aquele quese desvia no caminho ou perde tempo atrasa sua chegada e só pode culpar a simesmo. O bem e o mal são voluntários e facultativos. O homem, sendo livre,não é fatalmente impelido nem a um nem a outro.

pag. 138 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

As penas não são permanentes. Elas funcionam como remédios destinados ao aperfeiçoamento do Espírito.

Cada existência oferece novas oportunidades de aprendizado, permitindo que o indivíduo enfrente desafios compatíveis com suas necessidades evolutivas.

Essa interpretação também estabelece uma profunda relação entre o passado, o presente e o futuro.

As escolhas realizadas em uma existência produzem consequências que podem se refletir em experiências futuras, criando um vínculo permanente entre as diferentes etapas da jornada espiritual.

Ao mesmo tempo, a reencarnação reforça o princípio da solidariedade humana, eliminando preconceitos e demonstrando que todos os indivíduos estão submetidos ao mesmo processo evolutivo.

A nova interpretação do pecado original

No item 38 de A Gênese, Kardec apresenta uma nova compreensão do pecado original:

38. Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não seria somente inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens respon­ sáveis pela falta de um só, seria também um contra-senso, e tanto menos justificável quanto, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer que a sua responsabilidade remonte. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das suas imperfeições, dos defeitos de que se não corrigiu e que se traduzem pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício. É esse o seu verdadeiro pecado original, cujas conseqüências naturalmente sofre, mas com a diferença capital de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não das de outrem; e com a outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, animadora e soberanamente eqüitativa, de que cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação e de progredir, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e, assim, até que, suficientemente purificado, não necessite mais da vida corporal e possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

pag 57 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

A doutrina espírita abandona a ideia da culpa herdada e substitui esse conceito pela responsabilidade individual.

O homem não sofre em consequência da falta de um ancestral.

Segundo Kardec, o chamado pecado original corresponde ao conjunto das imperfeições que o Espírito ainda conserva ao renascer. Em O Céu e o Inferno, Capítulo VIII – 15° fundamenta a responsabilidade individual, onde o homem sofre apenas a pena de suas próprias faltas, tendo em cada existência os meios de se redimir:

15o) Cada um é responsável apenas por suas faltas pessoais; ninguém carrega a pena das faltas de outrem,106 a menos que tenha dado lugar a tal, seja provocando-as por seu exemplo, seja não as impedindo quando tinha esse poder. Responde-se não somente pelo mal que se fez, mas também pelo bem que se poderia fazer e não se fez107.É assim, por exemplo, que o suicida é sempre punido; mas aquele que, por sua dureza, impele um indivíduo ao desespero e daí a destruir-se, sujeita-se a uma pena ainda maior.

pag. 136 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

Cada indivíduo traz consigo tendências, inclinações e dificuldades que representam experiências ainda não superadas. Entretanto, essas limitações não constituem uma condenação definitiva.

Cada nova existência oferece os recursos necessários para que o Espírito transforme antigas imperfeições em virtudes, avançando gradualmente em direção ao aperfeiçoamento.

Conclusão: Uma justiça baseada no progresso e na responsabilidade

Ao estabelecer a correspondência entre A Gênese e O Céu e o Inferno, Allan Kardec apresenta uma visão da justiça divina fundamentada em princípios completamente diferentes daqueles tradicionalmente associados à punição.

Não existem privilégios na criação. Não existem condenações eternas. O sofrimento não é uma manifestação da ira divina, mas uma consequência natural da imperfeição.

Ao mesmo tempo, o arrependimento, a reparação e a reencarnação oferecem oportunidades permanentes de crescimento e transformação.

Essa compreensão faz da justiça divina um processo educativo e progressivo, no qual cada Espírito é responsável pelo próprio destino e possui, em si mesmo, os instrumentos necessários para alcançar a felicidade.

Nota: Este conteúdo baseia-se nas obras de Allan Kardec (edições autênticas da Editora Mundo Maior), focando na correlação doutrinária entre A Gênese e O Céu e o Inferno.




O Elo entre O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno

A compreensão das penas futuras e da justiça divina sob a ótica do Espiritismo encontra uma de suas sínteses mais profundas e esclarecedoras na nota contida no Capítulo XXVII, item 21, de O Evangelho segundo o Espiritismo. Nessa referência, Allan Kardec convida o leitor a examinar o Capítulo VIII ((pag. 129 – O Ceu e o Inferno – Edição original – Editora Mundo Maior)) de 1865 – da primeira parte de O Céu e o Inferno em sua totalidade, obra que representa a elaboração definitiva da teoria moral espírita, validada tanto por uma tese racional e lógica quanto por exemplos práticos reais extraídos do plano espiritual.

A Estrutura do Capítulo VIII: A Tese dos 25 Itens

O Capítulo VIII de O Céu e o Inferno é composto por 25 proposições fundamentais que estruturam, passo a passo, a verdadeira face da justiça divina. Cada um desses itens desempenha um papel estratégico na exposição da doutrina: a primeira parte da obra estabelece a tese teórica de forma rigorosa, enquanto a segunda parte apresenta os depoimentos e as vivências de Espíritos nas mais variadas condições, demonstrando empiricamente como essas leis se aplicam na prática.

21. “O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição.

“A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta.

“Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno à senda do bem; a pena dura tanto quanto a obstinação no mal; seria perpétua, se perpétua fosse a obstinação; dura pouco, se pronto é o arrependimento.

“Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito.

“O homem é, assim, constantemente, o árbitro de sua própria sorte; pertence-lhe abreviar ou prolongar indefinidamente o seu suplício; a sua felicidade ou a sua desgraça dependem da vontade que tenha de praticar o bem.”

Tal a lei, lei imutável e em conformidade com a bondade e a justiça de Deus. Assim, o Espírito culpado e infeliz pode sempre salvar-se a si mesmo: a lei de Deus estabelece a condição em que se lhe torna possível fazê-lo. O que as mais das vezes lhe falta é a vontade, a força, a coragem. Se, por nossas preces, lhe inspiramos essa vontade, se o amparamos e animamos; se, pelos nossos conselhos, lhe damos as luzes de que carece, em lugar de pedirmos a Deus que derrogue a sua lei, tornamo-nos instrumentos da execução de outra lei, também sua, a de amor e de caridade, execução em que, desse modo, ele nos permite participar, dando nós mesmos, com isso, uma prova de caridade. (Veja-se O Céu e o Inferno, 1.ª parte, caps. IV, VII, VIII.) ((idem))

Capítulo XXVII, item 21, de O Evangelho segundo o Espiritismo. – Edição 1866

Embora o resumo apresentado no Evangelho dê destaque a conceitos centrais presentes em pontos específicos, ele sintetiza o espírito de todo o conjunto que compõe esse capítulo, mostrando que a moral espírita é um sistema integrado.

Os Princípios Fundamentais da Justiça Divina

Dentro dessa estrutura de 25 itens, Kardec desconstrói os dogmas tradicionais baseados no medo e estabelece as bases lógicas da responsabilidade moral individual:

  • A Consequência Natural: O sofrimento e a punição não decorrem de um decreto punitivo arbitrário ou de uma ira divina externa. Conforme o item 4, o castigo é a consequência natural da falta cometida. Ele deriva diretamente da própria imperfeição do Espírito, que carrega em seu íntimo os elementos da sua desarmonia e desequilíbrio.
  • Proporcionalidade da Pena: O item 5 estabelece que a severidade do sofrimento é rigorosamente proporcional à gravidade e à natureza da falta cometida, ajustando-se com exatidão matemática e moral à condição de cada indivíduo, sem excessos inúteis.
  • Duração Indeterminada e o Arrependimento: Os itens 8 e 9 tratam da duração da pena, demonstrando que ela não possui caráter eterno nem prazos fixados de antemão por uma sentença irrevogável. O sofrimento permanece estritamente subordinado ao arrependimento do culpado e à sua livre vontade de se regenerar, mudar e buscar o próprio aprimoramento.

O Diálogo entre as Obras: A Conexão Cronológica e a Revisão

Um aspecto fascinante e dinâmico da Codificação Espírita é a forma como as obras dialogam entre si no decorrer do tempo. Como O Céu e o Inferno foi publicado posteriormente (em agosto de 1865), a menção a ele em uma nota do Evangelho segundo o Espiritismo evidencia o processo constante de interligação e atualização promovido por Allan Kardec.

Esse aprimoramento contínuo refletiu-se diretamente nas edições do Evangelho, que foram sendo cuidadosa e progressivamente revistas pelo próprio codificador — com destaque para a sua terceira edição (lançada em 1866), marco essencial em que a estrutura da obra foi consolidada e integrada às conclusões morais mais maduras que desabrochavam na Doutrina.

O Contexto Complementar: Os Capítulos IV e VII

Para uma compreensão verdadeiramente integral do raciocínio apontado na nota do Evangelho, a análise não deve se restringir apenas ao Capítulo VIII. Kardec também remete o leitor aos capítulos IV e VII da primeira parte de O Céu e o Inferno para enriquecer o panorama:

  • Capítulo IV aprofunda o entendimento filosófico sobre a natureza íntima das penas espirituais.
  • Capítulo VII desenvolve uma crítica rigorosa e profunda à tradicional “doutrina das penas eternas”, contrapondo-a à lógica da justiça equânime, da misericórdia divina e da inabalável lei de progresso.

Conclusão

A articulação profunda entre O Evangelho segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno revela um sistema moral coerente, humanizador e consolador, no qual a justiça divina opera longe de qualquer fatalismo dogmático. Ao orientar o leitor a mergulhar no conjunto dessas obras, Kardec reforça que a responsabilidade espiritual é intransferível, que a dor atua como um corretivo pedagógico da consciência e que a reabilitação está sempre aberta e acessível a qualquer ser por meio do livre-arbítrio e do esforço pessoal de regeneração.




Da Causalidade Moral à Lógica da Dívida: O Estrago das Adulterações em O Céu e o Inferno

Resumo

A compreensão da relação entre sofrimento, responsabilidade moral e evolução espiritual constitui um dos pontos centrais da filosofia espírita. Este artigo analisa a diferença entre uma interpretação baseada no princípio de causalidade, entendida como consequência natural das escolhas e do estado de consciência do espírito, e uma interpretação fundamentada na ideia de dívida, expiação e reparação obrigatória. A partir da comparação entre conceitos presentes em O Céu e o Inferno (1865) e interpretações posteriores associadas à quarta edição da obra, discute-se como a aproximação entre causa e efeito moral e a noção popular de karma contribuiu para modificar a percepção sobre autonomia espiritual e determinismo.

Palavras-chave: Allan Kardec; O Céu e o Inferno; causalidade; autonomia ; expiação; karma.


Introdução

A relação entre justiça divina, sofrimento e evolução espiritual sempre ocupou lugar central nas tradições religiosas e filosóficas. No século XIX, Allan Kardec estruturou a filosofia espírita propondo uma abordagem que procurava conciliar responsabilidade moral, progresso espiritual e autonomia do indivíduo.

Entretanto, interpretações posteriores do pensamento espírita passaram a enfatizar conceitos como dívida espiritual, resgate e expiação, aproximando-se, em muitos aspectos, de uma concepção popular de karma baseada na ideia de compensação obrigatória por atos passados.

A diferença entre essas perspectivas não é apenas terminológica. Ela envolve duas formas distintas de compreender o desenvolvimento espiritual: uma baseada na transformação consciente do indivíduo e outra fundamentada em uma lógica de retribuição.


1. A causalidade como princípio filosófico

Na perspectiva apresentada por Kardec em O Céu e o Inferno (1865), o sofrimento espiritual é explicado a partir de uma relação de causalidade. O espírito experimentaria as consequências naturais de seu próprio estado moral, de seus pensamentos e de suas escolhas.

Nesse modelo, a consequência não possui necessariamente caráter punitivo. Ela funciona como elemento educativo, permitindo ao indivíduo compreender os efeitos de determinadas atitudes e desenvolver gradualmente uma consciência mais elevada.

A diferença fundamental está no papel da autonomia. O espírito não seria um condenado submetido a uma pena externa, mas um agente capaz de modificar as causas que produzem determinados efeitos.

Essa concepção está alinhada com a ideia de progresso moral contínuo: a transformação interior altera a relação do indivíduo com suas próprias consequências.


2. A mudança de perspectiva: dívida e expiação

Críticos das alterações posteriores em O Céu e o Inferno apontam que determinadas inclusões conceituais teriam deslocado a interpretação da causalidade para uma lógica de débito espiritual: erros cometidos anteriormente gerariam uma necessidade de reparação futura, estabelecendo uma relação mais próxima com a ideia de pagamento de uma dívida.

A consequência dessa mudança é uma alteração na compreensão do sofrimento: ele deixa de ser visto prioritariamente como resultado natural de um estado de consciência e passa a ser interpretado como uma exigência de compensação.

A diferença pode ser resumida da seguinte forma:

Causalidade moral Lógica da dívida
A consequência surge naturalmente das escolhas O sofrimento funciona como reparação obrigatória
O indivíduo pode transformar a causa presente O passado determina uma necessidade futura
Ênfase na autonomia Ênfase no resgate
Sofrimento como aprendizado Sofrimento como pagamento

3. A aproximação com o conceito popular de karma

O termo karma possui diferentes significados dentro das tradições indianas, especialmente no hinduísmo, budismo e jainismo. Sua complexidade histórica não se reduz à ideia popular ocidental de “pagar pelo que fez”.

Entretanto, no uso comum contemporâneo, karma frequentemente é compreendido como uma lei automática de recompensa e punição: uma ação negativa produziria necessariamente um sofrimento equivalente no futuro.

Quando essa interpretação é aplicada ao pensamento espírita, ocorre uma aproximação entre causalidade moral e uma espécie de mecanismo retributivo.

O problema filosófico dessa associação está em transformar uma relação ética e educativa em uma relação mecânica, como se o universo funcionasse segundo uma contabilidade automática de débitos e créditos.


4. A analogia inadequada com a terceira lei de Newton

A expressão “ação e reação” tornou-se amplamente utilizada para explicar consequências morais. Contudo, existe uma diferença fundamental entre uma lei física e um princípio..

A terceira lei de Newton descreve uma interação entre forças físicas. Ela pertence ao domínio da mecânica clássica e não representa uma teoria sobre comportamento humano ou justiça moral.

Ao transportar diretamente esse conceito para a dimensão espiritual, cria-se uma analogia limitada: uma ação humana não produz uma reação moral automática e proporcional da mesma maneira que uma força física produz outra força.

O indivíduo possui vontade, consciência, livre-arbítrio, razão, possibilidade de arrependimento, mudança de comportamento e reconstrução de sua trajetória. Esses elementos não existem em sistemas puramente mecânicos.


5. Autonomia versus Determinismo Espiritual

A principal consequência dessa mudança interpretativa está no papel atribuído ao Espírito como indivíduo.

Na perspectiva da autonomia, , Espírito participa ativamente da construção de sua evolução. O passado influencia, mas não determina completamente o futuro, pois novas escolhas produzem novas causas.

Já em uma visão baseada na dívida espiritual obrigatória, existe o risco de interpretar o sofrimento como algo inevitável e previamente necessário, reduzindo o espaço da transformação presente.

Essa diferença possui também implicações morais para o Espírito: uma visão pode estimular responsabilidade e mudança; a outra pode favorecer interpretações fatalistas, nas quais a dor é vista como cumprimento de uma obrigação espiritual.


Conclusão

A distinção entre causalidade e dívida é fundamental para compreender diferentes leituras do pensamento espírita. A primeira enfatiza autonomia, aprendizado e transformação; a segunda aproxima-se de um modelo retributivo baseado em compensação.

O debate não se limita a uma questão textual, mas envolve uma mudança filosófica profunda: compreender o espírito como agente ativo de sua evolução ou como sujeito submetido a uma mecânica inevitável de consequências.




A Crise Metodológica do Espiritismo Pós-Kardec: Um Estudo Crítico a partir da Aceitação Cega da Comunicação dos Espíritos

Após a morte de Allan Kardec, o movimento espírita sofreu um deslocamento metodológico decisivo. O exame crítico das comunicações, a evocação controlada e a comparação sistemática — fundamentos estabelecidos na Codificação — foram gradualmente substituídos por uma postura de aceitação irrestrita das mensagens mediúnicas. Esse processo abriu caminho para que concepções estranhas à Doutrina se consolidassem, transformando a ciência espírita em algo mais próximo de uma religião dogmática.

O percurso dessa transformação, suas causas e consequências, pode ser visualizado no esquema que se segue.

A Crise Metodológica do Espiritismo Pós-Kardec: Um Estudo Crítico a partir da Aceitação Cega da Comunicação dos Espíritos

1. O Ponto de Partida: Kardec e a Metodologia Espírita

É fundamental compreender que Kardec não criou o Espiritismo, mas organizou suas manifestações em um corpo doutrinário coerente mediante método científico. Esse método baseava-se em:

  • Evocação direta dos Espíritos, para testar a consistência das informações (cf. O Livro dos Médiuns, itens 230, 247, 266).
  • Comparação crítica de mensagens recebidas em diversos lugares e por médiuns diferentes (Revista Espírita, artigos sobre exame e controle).
  • Submissão de todo ensinamento ao crivo da razão (O Evangelho segundo o Espiritismo, introdução, item VI).
  • Distinção entre opinião de Espíritos e princípios da Doutrina (RE, novembro/1859: “Devemos publicar tudo quanto dizem os Espíritos?”).

O que Kardec deixou foi um método, não um dogma. O Espiritismo, sendo fato da natureza, só se legitima quando submetido ao critério racional e científico. O abandono dessa diretriz abriu caminho para a aceitação indiscriminada de comunicações mediúnicas.


2. A Ruptura: Do Controle ao Culto

O diagrama marca essa ruptura com o símbolo do X sobre a obra de Kardec. Ao invés de seguir o método do exame crítico, parte significativa do movimento espírita passou a:

  • Aceitar comunicações sem comparação ou controle.
  • Tomar como “revelação superior” mensagens que, por Kardec, seriam apenas opiniões particulares de Espíritos.
  • Relativizar ou desprezar a evocação, transformando-a em algo “proibido” ou “perigoso”, em oposição direta à prática kardeciana.

Essa ruptura abriu espaço para um fenômeno perigoso: a aceitação cega da comunicação dos Espíritos, que se tornou o novo eixo do movimento.


3. As Consequências da Aceitação Cega

O diagrama evidencia diversos desdobramentos dessa postura acrítica:

3.1 Emmanuel

Apresentado como guia de Chico Xavier, Emmanuel introduziu noções que confrontam diretamente a Doutrina Espírita:

  • Declaração de que o Espiritismo seria uma religião (Kardec definiu-o como ciência de observação e filosofia de consequências morais).
  • Proibição da evocação, em contradição frontal com O Livro dos Médiuns.
  • Ideia de almas gêmeas, rejeitada por Kardec.
  • Domínio sobre Chico, impondo condicionamentos e ameaças morais, o que fere a liberdade de consciência.

3.2 André Luiz

A série de livros psicografados por Chico Xavier, atribuídos a André Luiz, criou representações como:

  • Colônias espirituais (Nosso Lar).
  • Umbral como região intermediária.
    Esses conceitos materializam o mundo espiritual, estimulando apego a construções espaciais e institucionais, quando Kardec deixou claro que o Espiritismo aponta para a desmaterialização progressiva da existência espiritual.

3.3 Ramatis

Introduz comunicações recheadas de teorias esotéricas, misticismo e previsões catastrofistas, sem correspondência com o método kardeciano. Sua aceitação deriva da mesma lógica: qualquer Espírito comunicante seria fonte de verdade.

3.4 Vale dos Suicidas

Obras como Memórias de um Suicida reforçam a noção de “lugares fixos” no além, de caráter punitivo ou reformatório, em contradição com a ideia de que o estado espiritual é reflexo íntimo da consciência, não de geografias metafísicas.

3.5 Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho

Obra atribuída a Humberto de Campos (sob inspiração de Emmanuel), que apresenta o Brasil como nação predestinada espiritualmente. Essa concepção reforça um nacionalismo místico, estranho à universalidade do Espiritismo.


4. O Papel do ESDE

O Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), embora estruturado com boas intenções pedagógicas, reflete a consolidação dessa ruptura. Ao adotar como base não apenas Kardec, mas também obras mediúnicas pós-Kardec (Emmanuel, André Luiz, etc.), o ESDE institucionaliza o afastamento do critério crítico e instala o ecletismo acrítico.

Resultado: as novas gerações de espíritas passaram a considerar como “doutrina espírita” aquilo que é apenas opinião de Espíritos, reproduzindo a aceitação cega.


5. Problemas Doutrinários Decorrentes

O diagrama lista os efeitos concretos desse desvio:

  • Materialização do mundo espiritual: concepção de colônias, cidades, hospitais, prisões — reflexo de projeções humanas.
  • Promoção do apego a ideias materiais, quando o Espiritismo tem por missão justamente libertar da materialidade.
  • Falsa ideia de destinos geográficos do Espírito (lugares bons ou ruins), substituindo a compreensão de que o “céu” ou “inferno” são estados da alma.

6. A Substituição da Crítica pelo Dogma

O diagrama mostra, em última instância, como o movimento espírita passou:

  • Do exame crítico (Kardec, 1857–1869),
  • Para a aceitação cega (pós-Kardec, especialmente no Brasil).

Esse processo transformou a ciência espírita em religião institucionalizada, com dogmas, moralismo e submissão a “guias espirituais” não testados pelo método original.


7. Conclusão: Restauração da Metodologia Espírita

A mensagem central do diagrama é clara:

  • Enquanto a obra de Kardec permanecer afastada como critério, o Espiritismo viverá sob o domínio da aceitação cega.
  • O retorno ao método kardeciano de exame racional, evocação crítica e universalidade do ensino dos Espíritos é a única via de preservação do Espiritismo como ciência de observação.

O diagrama, portanto, não é apenas uma crítica histórica, mas um chamado à restauração metodológica: sem crítica, o Espiritismo se dissolve no misticismo; com crítica, mantém sua identidade científica e filosófica.




Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrinatudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni PrivatoJúlio NogueiraLucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




A Verdade que Liberta

Continuação do artigo O Domínio pela Mentira e Violência

Jesus veio nos trazer a verdade que nos liberta! Ele mencionou o diabo na Bíblia, mas será que ele acreditava na existência literal do diabo? A palavra “Diabo” está escrita na Bíblia, mas seu significado vai além do literal.

Pixabay – Golden Violinist – birds

Na verdade, tudo se resume à interpretação. Deus e Diabo são representações do Bem e do Mal, respectivamente. No entanto, encarar o Diabo como puramente malévolo é uma concepção equivocada. O Diabo não é uma entidade; ele reside naqueles que abraçam essa falsa ideia. A Mal não tem forma, não é uma entidade real. Ninguém é inerentemente mal. Existe alguém verdadeiramente maligno neste mundo? Não, porque o mal é uma concepção falsa que sustenta um hábito. Quando alguém muda sua mentalidade, ela deixa de agir no mal, mas superar o hábito é um processo demorado. No entanto, nunca se supera se a mentalidade não mudar.

O que realmente transformará o mundo é a educação genuína – não aquela que apenas perpetua ideias falsas, que decora ensinamentos, mas sim aquela que compreendida, que liberta. As armas do bem são a compreensão e a explicação. Como posso fazer você entender que o futuro do mundo está na cooperação? Simplesmente explicando e cooperando incessantemente, sem se preocupar com os resultados.

Estamos introduzindo um novo hábito no mundo. Ao vencermos a falsa ideia do mal, veremos uma renovação global, oferecendo novas oportunidades para todos. Não há Espírito que não vá, mais cedo ou mais tarde, optar pelo caminho do bem. No entanto, o bem não é imposto; cada um deve alcançá-lo com seu próprio esforço.

O verdadeiro entendimento nos libertará dessa falsa dicotomia entre bem e mal, levando-nos a uma vida de cooperação e harmonia. A passagem a seguir de Jesus é reveladora:

42 Disse-lhes Jesus: “Se Deus fosse vosso pai, amar-me-íeis. Eu vim de Deus e vou [para Deus]. Pois não vim por mim mesmo, mas foi Ele que me enviou. “


Bíblia – Volume I: Novo testamento – Os quatro evangelhos – Evangelho de João (pp. 470-471). Companhia das Letras. Edição do Kindle. Trad. Frederico Lourenço

Jesus disse que foi enviado por Deus e não por meios próprios. Ele veio para ensinar a Lei da Deus.

43 Por que razão não percebeis o meu discurso? Porque não conseguis ouvir a minha palavra.

Idem

A ciência avança principalmente pela mudança de paradigma, isto é, a mudança de ideias. ((Paradigma procede do grego “paradigma”, que significa “exemplo” ou “modelo”. Inicialmente, era aplicado na gramática (para definir o seu uso num determinado contexto) e na retórica (para se referir a uma parábola ou a uma fábula). A partir da década de 60, começou a ser empregue para definir um modelo ou um padrão em qualquer disciplina científica ou contexto epistemológico. fonte: clique aqui)) . Temos que compreender como é a nova ideia. Assim, depois que ela faz sentido, nós a testamos e quando verificamos sua coerência, nós a adotamos. A chave é compartilhar a nova ideia.
Mas isso não significa que todos se tornarão superiores, esse não é a ideia do mundo. As crianças não precisam estudar na escola apenas para obter as melhores notas, gerando competição entre elas. Cada uma deve buscar aprender mais do que sabia antes, pois somos todos espíritos em estágios diferentes de evolução. Há espíritos muito inteligentes no nosso mundo porque já passaram mais tempo experimentando os mundo. No entanto, os inteligentes não são superiores aos simples, pois em outras existências já foram simples como eles. Eles vieram para nosso mundo porque se sentiram mais preparados lá. Os espíritos inteligentes não são malévolos ou demoníacos; no entanto, devem cultivar a simplicidade para servir e contribuir, não para serem servidos. Este é o grande lema do mundo.

Para avançarmos em direção à felicidade neste mundo, precisamos ajudar a remover as vendas dos olhos daqueles que estão cegos pela falsa ideia. No entanto, eles não aceitarão facilmente agir por todos. Assim, alguns partem para outro mundo, onde podem progredir ajudar os outros muitos a progredirem tecnologicamente mais rapidamente e ter uma nova oportunidade de repensar suas escolhas. Não é um castigo ou punição ser enviado para outro mundo; é simplesmente uma consequência de uma escolha que não os permitiu evoluir. Se eles reconsiderarem suas atitudes no outro mundo, renovados, poderão retornar aqui.

Isso ocorreu em nosso mundo; os simples estavam na Terra quando chegaram os exilados. Eles receberam uma segunda chance ao virem para cá, mas agora precisam contribuir de forma útil para o avanço deste mundo. Infelizmente, muitos caíram na falsa ideia de que devem ser servidos, criando assim todas as ideias equivocadas que permeiam o mundo. Mas, sempre que tentamos explicar a verdade, por ser uma ideia falsa, eles resistem.

Esta é a última oportunidade tanto para mudar de mentalidade quanto para participar plenamente deste mundo. Aqueles que se recusam a cooperar não compreenderão a verdade através da força, da memorização de ordens ou da obediência cega. Somente através de esforço pessoal é que alguém poderá compreender.

44 Vós sois [filhos] do diabo, vosso pai; e quereis pôr em prática as vontades do vosso pai. Ele é homicida desde o princípio e não esteve nem está na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere a mentira, profere-a a partir dos seus; pois é mentiroso e é pai [da mentira]. 45 Eu porque digo a verdade não acreditais em mim. 46 Quem de vós me condena a respeito do erro? Se eu falo a verdade, por que razão não acreditais em mim? 47 Quem é de Deus ouve as palavras de Deus. É por isto que vós não me ouvis: porque não sois de Deus”.

Idem

Esta parte do Evangelho de João está apontando que o “diabo” está na falsa ideia de superioridade e pureza. Ao nos considerarmos puros e superiores, tendemos a julgar e condenar os outros que consideramos simples e inferiores. No entanto, o ato de julgar é, em si mesmo, uma falsa ideia: quando apontamos o erro em outra pessoa, na verdade estamos cometendo um equívoco, pois estamos julgando a pessoa em vez de seu comportamento específico. Isso equivale a considerar a pessoa como “o mal” e condená-la injustamente. Ninguém tem o direito de agir assim. Nem mesmo os espíritos benevolentes condenam os outros dessa maneira.

O mal se revela na distorção da lei divina, quando buscamos satisfazer nossos interesses pessoais à custa da submissão dos mais simples, sacrificando sua tranquilidade e felicidade. No entanto, devemos rejeitar a noção de superioridade devido ao nosso conhecimento.

Nesse contexto, nossa responsabilidade se torna ainda mais crucial! Aqueles que possuem conhecimento têm o dever não apenas de ajudar os menos instruídos, mas também de servir.

Devemos dedicar nossos esforços a disseminar o conhecimento e garantir que muitos o compreendam. O futuro do mundo está na cooperação, não na competição. Qualquer novo valor deve ser compartilhado globalmente para que todos possam se beneficiar.

48 Os judeus responderam e disseram-lhe: “Não dizemos bem que és samaritano e tens um demônio?”. 49 Respondeu-lhes Jesus: “Eu não tenho demônio, mas honro o meu Pai e vós me desonrais. 50 Eu não procuro a minha glória. Existe aquele que procura e julga. 51 Amém amém vos digo: se alguém observar a minha palavra, não verá a morte até a eternidade”.

Ibidem

Nesta parte, está expressado: “Você está contaminado pelo mal! E tem um diabo!” Se alguém já julga o outro um diabo, parece não haver solução. Quem é egoísta e arrogante rotula os outros como inferiores, sempre vendo o mal nos outros. Os fanáticos religiosos veem os diferentes como inferiores. Os materialistas julgam aqueles que pensam de forma diferente como inferiores. O cerne do problema é quando um indivíduo acredita ser superior e é teimoso em não mudar de ideia, mesmo quando confrontado com a verdade. A verdade o confronta, questionando sua autoimagem elevada.

Agora, se alguém se considera superior, só reconhecerá seu erro quando chegar a essa conclusão por conta própria. Muitas vezes, essa pessoa, no fundo, não acredita realmente em sua superioridade, por isso sente a necessidade de afirmá-la tão veementemente.

O único fator que nos torna iguais é nossa individualidade. Somos Espíritos únicos, cada um com diferentes experiências para desenvolver e compreender. No entanto, ter mais conhecimento não nos torna superiores aos outros. O que verdadeiramente define a evolução de um Espírito não é sua inteligência ou experiência, mas sua capacidade de compreender a lei de Deus. O objetivo do Espírito é dar o melhor de si mesmo.

Este artigo foi elaborado a partir de palestra proferida por Paulo Henrique de Figueiredo. Clique aqui para conhecê-la.

Continua em O Duplo Conceito do Bem e do Mal




O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

Há poucos dias, no canal Grupo Espírita Educare, foi publicado um vídeo muito bem elaborado, por sinal, feito com muito esmero e de aparência estética de fazer inveja. Esse vídeo, intitulado “O LIVRO “A GÊNESE” FOI MESMO ADULTERADO?”, traz, a despeito de tanto esmero, informações pela metade, deixando de lado detalhes tão indispensáveis para a legítima discussão do caso sobre a obra derradeira de Allan Kardec.

No vídeo, citam o seguinte trecho de uma psicografia a Kardec, a respeito das alterações que ele desejava produzir em A Gênese:

“Permita-me alguns conselhos pessoais sobre a sua obra A Gênese. Penso, como você, que ela deve sofrer certas modificações que a farão ganhar valor sob o aspecto metódico; […] esta revisão é um trabalho sério, e peço que você não espere muito para realizá-la.”

Há, porém, algo substancial, existente nesse trecho por eles omitido (nas reticências entre colchetes) e que leva, não por acaso, o espectador a uma conclusão errada: a recomendação, repetida, do Espírito comunicante para que Kardec nada removesse no que concerne à Doutrina e às ideias que apareciam pela primeira vez:

Conselhos sobre A Gênese

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa carta clicando aqui.

Kardec contrariou os sábios conselhos do Espírito?

Ora, a adulteração de A Gênese produziu justamente isso: removeu trechos importantes, que comprometem o entendimento, deixando de fora ideias doutrinárias e conduzindo o leitor a um entendimento, por vezes, contrário ao da versão anterior – o mesmo que fizeram com a adulteração de O Céu e o Inferno.

Cita Henri Netto, no artigo “À procura da dúvida: onde está a verdade?”:

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Cita também Paulo Henrique de Figueiredo em “Autonomia”:

Há uma questão inicial de Allan Kardec, bastante objetiva:

– Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Ou seja, era de iniciativa de Allan Kardec fazer uma modificação em sua obra, mas qual? Ele desejava acrescentar mais algumas coisas! Não tirar. E desejava fazer isso sem aumentar o volume do livro. O motivo de sua pergunta a Demeure está em saber se seria possível fazer isso, segundo a visão do Espírito. E a resposta é bastante objetiva e determinante. Ele respondeu, por meio do médium, enquanto Kardec anotava na folha:

– Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos. Mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Tirar alguma coisa? Nada quanto à Doutrina. Demeure foi bastante claro, mas ainda detalhou mais sua proposta:

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza. Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é no terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes.

Definitivamente não é o que encontramos na versão adulterada da obra de 1872! Foram centenas de supressões. Palavras, frases, parágrafos e até partes inteiras foram retiradas, algumas alterando o sentido do restante do texto. Basta dizer que a teoria sobre a conquista progressiva do livre-arbítrio, após o Espírito elaborar a consciência de si mesmo durante centenas de vidas, foi retirada depois de cuidadosamente elaborada por Kardec durante muitos anos, na Revista Espírita, e finalmente apresentada na obra A Gênese. Antes, o instinto dominava sozinho, mas a inteligência começa a se desenvolver, e aos poucos o instinto se enfraquece, então escreveu originalmente Kardec: “Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (KARDEC, [1868] 2018, p. 100). Esse importante trecho, fundamental para a Teoria Moral Espírita, foi deliberadamente retirado, contra a vontade de Kardec e as recomendações dos Espíritos, fato que agora comprovamos! Nas páginas desta obra detalhamos diversas dessas infames e criminosas falsificações.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Editora FEAL.

Não bastasse, há um extenso trabalho de pesquisa, produzido por Marco Milani, demonstrando o fato de que a adulteração removeu diversas ideias doutrinárias importantes, bem como adicionou ideias exíguas, comprometendo o entendimento da obra no conjunto e no detalhe:

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/03/alteracoes-ocorridas-no-cap-1-da-5-ed.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/05/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5_15.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/02/comentarios-sobre-as-alteracoes-do-cap.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5a.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/01/natureza-e-materia-nao-sao-sinonimos.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/09/comentarios-sobre-o-capitulo-xv-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/11/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/12/inconsistencias-doutrinarias-da-5.html

Como fica provado, foram removidas diversas ideias doutrinárias, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado a essas questões.

Não se quer o diálogo para chegar à verdade, mas a imposição

Quando Leymarie criou o livro Obras Póstumas, inseriu nele a psicografia apresentada anteriormente, porém, adulterada, removendo justamente os conselhos do Espírito para que nada, no concerne à Doutrina, fosse removido. Tudo para dar crédito à sua versão a quinta edição de A Gênese foi mesmo produzida por Allan Kardec. Agora, no vídeo citado, o canal Grupo Espírita Educare faz o mesmo, mas não para por aí.

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique. Foi assim que, finalmente, ocultaram do público meus comentários feitos nesse vídeo:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois fui ocultado no canal. Aparentemente, não desejam dialogar sobre os fatos e as evidências, ditas por eles, “sumariamente desclassificadas”.

Vemos, portanto, que a peça de animação é apenas mais uma tentativa de conduzir o público à conclusão que eles desejam, mesmo que para isso tenham que omitir informações importantes e fazer afirmações rasas. Por nossa vez, depois de tanto incentivar o leitor ao estudo da obra O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato (link abaixo), só podemos desejar que cada um chegue às suas próprias conclusões, frente aos fatos e às evidências, que existem de sobra, a despeito da falácia do grupo CSI do Espiritismo de que todos os argumentos contrários teriam sido derrubados (sic).

Live: Gênese Adulterada – análise doutrinária das alterações entre as edições




A Verdade sobre o Mal e o Castigo

O que é o mal e o castigo Verdadeiramente?

Continuação do artigo Obediência Passiva e Fé Cega — Os dois Princípios da Falsa Ideia

O mal não é errar, depois pedir perdão e ser obediente ao bem.

Deus castiga? Não! O que é o castigo?

Esse conceito não é totalmente diferente do que aprendemos? O castigo é algo que acontece no mundo? Não, o castigo é o sofrimento moral da pessoa e, se ela não mudar, não encontrará a felicidade.

Nenhuma pessoa egoísta é feliz, pois ela sabe, intimamente, que não está fazendo o bem. Mas por que alguém seria egoísta, sabendo que está errado, sofrendo por isso e ainda assim continuando na mesma conduta egoísta?

Por meio do Espiritismo, desvendamos as raízes do egoísmo e do orgulho. O Espiritismo não confronta pessoas ou ideias; ele enfrenta o egoísmo e o orgulho como conceitos que prejudicam o progresso espiritual.

O Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual em razão do grau de suas imperfeições, sendo-lhe então concedida a vida corporal como meio de reparação. É por isso que o Espírito nela reencontra, ou as pessoas que ofendeu, ou situações semelhantes àquelas em que praticou o mal, ou ainda situações opostas às que viveu, por exemplo, enfrentando a miséria se foi um rico mau, ou uma condição humilhante se foi orgulhoso. Não se trata de um duplo castigo, mas o mesmo a que se dá sequência na Terra, como complemento, com vistas a facilitar seu adiantamento para um trabalho efetivo. Do próprio Espírito depende fazê-lo proveitoso. Não lhe vale mais voltar à Terra, com a possibilidade de ganhar o Céu, do que ser condenado sem remissão ao deixá-la? Essa liberdade que lhe é concedida é uma prova da sabedoria, da bondade e da justiça de Deus, que deseja que o homem deva tudo aos próprios esforços, sendo assim o artífice de seu futuro. Se é infeliz, se o é por um tempo maior ou menor, que não se queixe senão a si mesmo – o caminho do progresso lhe está sempre aberto.

Allan Kardec. O Céu e o Inferno: Ou a justiça divina segundo o Espiritismo, editora Feal (p. 78). Edição do Kindle.

No entanto, é crucial entender completamente o que o egoísmo implica para poder combatê-lo efetivamente. Reconhecer os próprios erros e sentir a consciência pesada é o primeiro passo para a mudança. Caso contrário, o indivíduo continuará a sofrer.

A falsa ideia de que Deus é o causador do nosso sofrimento está equivocada. Na verdade, somos juízes e prisioneiros de nós mesmos e nossos próprios pensamentos. O Espiritismo nos ensina isso. Sabendo disso, você optará por permanecer preso ou se libertar? Ser escravo ou livre? A escolha é sua.

Ninguém é obrigado a agir para o bem. A liberdade é fundamental para o agir no bem. Deus não coloca ninguém para vigiar ninguém. Quando você fizer o bem, você o fará com todo o seu esforço. No momento em que você age com o pensamento íntegro, os outros espíritos se aproximam para fazer o mesmo: a rede de bondade é criada.

Se você está agindo com segundas intenções, os outros espíritos percebem e você se isola por escolha própria. Esse é o mecanismo!

Alguém realmente está nos vigiando no mundo espiritual? Não! Há algum lugar circunscrito para ser castigado? Não! Isso é falso! Emmanuel menciona o umbral? Sim, ele menciona, mas são espíritos iludidos que lá se reúnem. Os espíritos bons veem os maus espíritos como doentes a serem curados e não como adversários a serem combatidos. A luta entre bem e mal é uma falsa ideia!

Este artigo foi elaborado a partir de palestra proferida por Paulo Henrique de Figueiredo. Clique aqui para conhecê-la.

Continua em O Domínio pela Mentira e Violência




O canal Mesa Girante e as adulterações em O Céu e o Inferno

Recentemente o canal Mesa Girante, no Youtube, produziu um vídeo onde aborda outro vídeo, de Paulo Henrique de Figueiredo, falando sobre a obra “Nem Céu, Nem Inferno”, de cerca de 3 anos atrás. A obra trata do fato jurídico ((São fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.)) da adulteração de O Céu e o Inferno e do contexto da trama de traição ao redor de Kardec.

Nesse vídeo, o autor do canal Mesa Girante trata de, debochadamente, tentar invalidar a importância da obra por supostas precipitações de Paulo Henrique ao tratar do tema, no vídeo. Pergunto-me por que é que ele, o dono do canal Mesa Girante, não se dedicou primeiramente a ler essa obra, o que teria enriquecido demais o debate? Por que é que ele se concentrou apenas naquilo que lhe pareceu incongruente, pelas falas de Paulo Henrique, sem dar atenção aos demais pontos de relevância da obra? Digo isso porque eu mesmo o procurei, através dos comentários, para demonstrar que a adulteração de O Céu e o Inferno é o produto inquestionável dos dogmas roustainguistas, além do fato jurídico.

No dia seguinte, eu produzi um vídeo, sob efeito de uma irritação pela maneira como o tema foi abordado, com tom de deboche e sem nenhuma intenção de cooperação, e sim de competição, já que não foi procurar Paulo Henrique para conversar sobre as divergências de entendimentos. Esse vídeo, que eu produzi, eu resolvi apagar, pois acabei tratando com afetação um tema onde não deve haver absolutamente nada disso. Em lugar desse vídeo, gravei um novo, onde falo sobre o foco central da adulteração, como você pode ver ao final deste artigo.

Acontece, porém, que, assim que gravei, chegou ao meu conhecimento uma live com Lucas Sampaio, co-autor do livro Nem Céu, Nem Inferno, onde ele explica em detalhes todas as questões envolvidas nesse tema da adulteração. O conteúdo é muito explicativo por si só, de maneira que reproduzo abaixo o mesmo vídeo e aproveito para tecer comentários sobre seu conteúdo.

Comentários sobre a live do Lucas Sampaio

  • É fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.
  • Kardec estava, sim, fazendo revisões nessas obras, preparando novas edições. Isso está registrado em cartas. Contudo, menos de um mês depois da carta onde cita o trabalho de tradução para o alemão, existe uma carta de Kardec para um amigo seu, dizendo que, por problemas de saúde, ele precisou suspender todas as atividades que não fossem estritamente necessárias.
  • Os Espíritos, evocados por Kardec, dizem que ele não deveria suprimir nada nas novas edições. Foi feito justamente o contrário nas edições publicadas após sua morte, com a supressão de pontos importantes nas obras.
  • A psicografia original, onde os Espíritos diziam a Kardec para não suprimir nada nas novas edições, foi adulterada por Leymarrie em Obras Póstumas, retirando justamente esse conselho, para dar credibilidade à 5a edição de A Gênese. Isso se deu após a denúncia de Henry Sausse.
  • Os negacionistas dos fatos jurídicos e das evidências de adulteração chegam a usar depoimentos de pessoas ligadas a Leymarie para sustentar suas teses.
  • É importantíssimo ler a obra O Legado de Allan Kardec, que traz diversas evidências sobre os fatos acerca da adulteração de A Gênese.
  • Fala-se em registros contábeis da Sociedade, assinados pela esposa de Kardec, três anos após sua morte, onde estariam registrados os custos de impressão de O Céu e o Inferno a fevereiro de 1869. Faz sentido fazer contabilidade de algo passado à criação da Sociedade Anônima (empresa)? Faz sentido confiar em documentos da Sociedade Anônima, a mesma que deu o golpe post-mortem em Kardec? Como veremos a seguir, os documentos oficiais mostram que a obra não foi impressa naquela data.
  • Foi encontrada, nos registros legais da Biblioteca Nacional, a declaração de impressor n. 8.584 com pedido de autorização do tipógrafo Rouge registrado em 9/7/1869 para imprimir 2.000 exemplares da mesma quarta edição de O Céu e o Inferno, conforme a página 294 do documento F/18(II)/128, mais de três meses após a desencarnação de Allan Kardec.
  • Na Revista Espírita de junho de 1869, foi publicado, pela Sociedade Anônima, o artigo de título “À venda em 1° de junho de 1869”, tratando da edição que ficou pronta somente em 19 do mês seguinte. E o aviso ainda explica:

Quarta edição de O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo, contendo numerosos exemplos sobre a situação dos Espíritos no mundo espiritual e na Terra; 1 vol. in-12, preço: 3 fr. 50.

Observação – A parte doutrinária desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por Allan Kardec, passou por modificações significativas. Alguns capítulos em particular foram inteiramente reformulados e consideravelmente aumentados.

(SOCIEDADE ANÔNIMA, [RE] 1869, jul., p. 224)

  • Tudo indica que Amelie, com mais de 70 anos, em luto, foi enganada pela Sociedade Anônima, e confiou no que diziam ou apresentavam a ela. Berthe Froppo menciona que ela acreditava que a S.A. iria vender os livro de Kardec a preços populares (e fizeram o contrário). A doce Gabi, como a chamava Kardec, entregou tudo, crendo que o melhor seria feito, pois não tinha um espírito de liderança. Foi afastada de qualquer papel de decisão da S.A. Foi, em suma, ludibriada. Não se opôs às novas edições, pois sabia que seu marido trabalhava sobre elas. Escolheu entregar à S.A. toda a obra de Kardec, pois pensava, seguindo os propósitos de Kardec, que o Espiritismo deveria ser de todos, e não mais centralizado em ninguém. Era a promessa da Sociedade, finalmente não cumprida.
  • Existe uma falta de vontade (e aqui eu reitero: inclusive pelo CSI do Espiritismo e do dono do canal Mesa Girante) em fazer um estudo cuidadoso e aplicado, inclusive comparativo. Não: fica-se girando apenas na superfície das afirmações e das negações simplórias, numa sanha de negar o que vemos estar óbvio aos nossos olhos.
  • As teses de negação não respeitam o fato jurídico; não se importam com os planos de Kardec para o futuro do Espiritismo; não se importam com os vários golpes sofridos por Kardec e pelo Espiritismo; não se importam com o golpe à unidade de método e de organização, necessárias à continuidade doutrinária; não fazem análises doutrinárias sobre o conteúdo anterior e as alterações; não se importam com o fato de a Sociedade Anônima haver incendiado um grande número de manuscritos de Kardec, após sua morte; não falam do verdadeiro complô sendo formado ao redor de Kardec, por Roustaing e seus seguidores; não trazem à luz os incontáveis fatos e evidências dos interesses contrários ao bem, por pessoas ao redor de Kardec.

    Não, e nem podem, pois dar atenção ao fato dos descalabros sofridos por Kardec e pelo Espiritismo seria alimentar os argumentos da adulteração, o que não seria do interesse deles. Pelo contrário: esforçam-se por colocar dúvida injustificável sobre pessoas como Berthe Froppo, amiga íntima do casal Kardec, que fez algumas graves denúncias contra Leymarie e a sociedade anônima! Não, para eles o testemunho de Froppo não vale, mas valem as alegações do adulterador, Leymarie, e sua esposa, além dos demais envolvidos, por interesse, em seus negócios espíritas!

  • O prefácio de A Gênese e a introdução do capítulo 8º de O Céu e o Inferno (3a edição) tratam justamente do método do Espiritismo, que o protege de se transformar em um sistema pessoal, o que incomodava sobremaneira Roustaing e Pezzani, seu amigo pessoal, que tinham suas próprias concepções do que deveria ser o Espiritismo. Será acaso que tanto um como outro foram removidos nas novas edições?
  • Os trechos removidos na adulteração de A Gênese denunciam exatamente como pensam e agem os inimigos da verdadeira ideia.
  • Cada um dos 25 itens do capítulo VIII de O Céu e o Inferno tinham fundamentação no restante da obra. Na 4a edição, adulterada, muitos itens perderam essa correspondência, conforme se demonstra em O Céu e o Inferno, da editora FEAL (clique aqui para baixar gratuitamente).

Live com Lucas Sampaio sobre as Adulterações nas obras de Kardec

Vídeo do meu canal falando sobre o vídeo do canal Mesa Girante