UMBRAL, “NOSSO LAR” E OUTRAS IMAGENS: DEMOLIÇÃO SISTEMÁTICA

Tese: as imagens de um plano espiritual materializado — colônias muradas, umbral geográfico, espíritos armados, economia de “bônus-hora”, sopas, casinhas e hospitais — são mitos incompatíveis com os princípios centrais da Doutrina Espírita. Kardec submeteu tais ideias à análise — jamais as consolidou.

1. Colônias espirituais e “Nosso Lar”
Afirmação comum: o além é estruturado em cidades e colônias, com muros, ministérios e residências fixas (como em Nosso Lar).
Refutação: a identidade espiritual é moral, não arquitetônica. A forma e o ambiente são criações fluídicas, moldadas pelo pensamento e pela evocação. Espíritos lúcidos descrevem o meio espiritual como estados de consciência, não como cidades edificadas. Conclusão: mito das colônias muradas — derrubado.

2. Umbral como local geográfico de sofrimento
Afirmação comum: o “umbral” é região intermediária, zona densa e purgatorial.
Refutação: o sofrimento decorre da consciência culpada e da fixação mental no erro. Espíritos permanecem ligados aos locais de seus crimes até se renovarem moralmente, não por prisão territorial, mas por afinidade mental. “Umbral” é metáfora para o estado de perturbação pós-desencarne, não espaço físico. Conclusão: mito do umbral geográfico — derrubado.

3. Batalhas espirituais e defesas energéticas
Afirmação comum: Espíritos se protegem de ataques com dardos elétricos, campos de força ou muralhas.
Refutação: Espíritos inferiores não suportam a presença dos superiores. A ação entre planos é moral, não bélica. A simples irradiação do bem dissolve qualquer tentativa de hostilidade. Conclusão: mito das armas espirituais — derrubado.

4. Economia espiritual e “bônus-hora”
Afirmação comum: o bem gera créditos espirituais contabilizáveis.
Refutação: o mérito não é quantificável. O bem é espontâneo, livre, desinteressado. Substituir a moral por contabilidade é corromper o princípio da liberdade da consciência. Conclusão: mito do “bônus-hora” — derrubado.

5. Espíritos alimentando-se de substâncias sutis
Afirmação comum: Espíritos “tomam sopas” ou “suquinhos” em zonas espirituais.
Refutação: a “fome” espiritual é desejo moral, não necessidade orgânica. Espíritos apegados à matéria projetam ilusões alimentares até libertarem-se. Conclusão: mito da sopinha — derrubado.

6. Necessidade de abrigo físico
Afirmação comum: Espíritos residem em casas, com móveis, camas e utensílios.
Refutação: não há frio, calor nem fadiga corporal. A ideia de habitação física expressa apenas analogia mental. Espíritos vivem em comunidades de afinidade, sem dependência material. Conclusão: mito da casinha — derrubado.

7. Forma corporal e identidade espiritual
Afirmação comum: Espíritos conservam feições e corpos fixos.
Refutação: a forma é produto do pensamento; só se mantém quando evocada ou desejada. O reconhecimento espiritual se dá pela essência, não pela aparência. Conclusão: mito da forma fixa — derrubado.

8. Hospitais espirituais
Afirmação comum: existem hospitais e enfermarias no plano espiritual, onde Espíritos “doentes” recebem tratamento médico.
Refutação: a dor espiritual é moral, não orgânica. Não há corpos a medicar, nem tecidos a regenerar. O chamado “tratamento” é assistência moral e esclarecimento, conduzido pela influência dos bons Espíritos e pela educação da vontade. As descrições de salas, leitos e instrumentos são traduções simbólicas da ação fluídica e pedagógica sobre Espíritos ainda presos às impressões da matéria. Conclusão: mito dos hospitais espirituais — derrubado.

Conclusão geral
A Doutrina Espírita, em sua base kardecista, é desmaterializadora. O mundo espiritual não replica o mundo físico: é campo de consciência, de moralidade e de afinidade vibratória. Kardec jamais consolidou a ideia de colônias, umbrais, hospitais ou economias espirituais — porque, diante da análise comparativa e racional, tais concepções não resistem. Insistir nelas é abandonar a observação e retornar ao materialismo sob forma de fantasia religiosa.




A Crise Metodológica do Espiritismo Pós-Kardec: Um Estudo Crítico a partir da Aceitação Cega da Comunicação dos Espíritos

Após a morte de Allan Kardec, o movimento espírita sofreu um deslocamento metodológico decisivo. O exame crítico das comunicações, a evocação controlada e a comparação sistemática — fundamentos estabelecidos na Codificação — foram gradualmente substituídos por uma postura de aceitação irrestrita das mensagens mediúnicas. Esse processo abriu caminho para que concepções estranhas à Doutrina se consolidassem, transformando a ciência espírita em algo mais próximo de uma religião dogmática.

O percurso dessa transformação, suas causas e consequências, pode ser visualizado no esquema que se segue.

A Crise Metodológica do Espiritismo Pós-Kardec: Um Estudo Crítico a partir da Aceitação Cega da Comunicação dos Espíritos

1. O Ponto de Partida: Kardec e a Metodologia Espírita

É fundamental compreender que Kardec não criou o Espiritismo, mas organizou suas manifestações em um corpo doutrinário coerente mediante método científico. Esse método baseava-se em:

  • Evocação direta dos Espíritos, para testar a consistência das informações (cf. O Livro dos Médiuns, itens 230, 247, 266).
  • Comparação crítica de mensagens recebidas em diversos lugares e por médiuns diferentes (Revista Espírita, artigos sobre exame e controle).
  • Submissão de todo ensinamento ao crivo da razão (O Evangelho segundo o Espiritismo, introdução, item VI).
  • Distinção entre opinião de Espíritos e princípios da Doutrina (RE, novembro/1859: “Devemos publicar tudo quanto dizem os Espíritos?”).

O que Kardec deixou foi um método, não um dogma. O Espiritismo, sendo fato da natureza, só se legitima quando submetido ao critério racional e científico. O abandono dessa diretriz abriu caminho para a aceitação indiscriminada de comunicações mediúnicas.


2. A Ruptura: Do Controle ao Culto

O diagrama marca essa ruptura com o símbolo do X sobre a obra de Kardec. Ao invés de seguir o método do exame crítico, parte significativa do movimento espírita passou a:

  • Aceitar comunicações sem comparação ou controle.
  • Tomar como “revelação superior” mensagens que, por Kardec, seriam apenas opiniões particulares de Espíritos.
  • Relativizar ou desprezar a evocação, transformando-a em algo “proibido” ou “perigoso”, em oposição direta à prática kardeciana.

Essa ruptura abriu espaço para um fenômeno perigoso: a aceitação cega da comunicação dos Espíritos, que se tornou o novo eixo do movimento.


3. As Consequências da Aceitação Cega

O diagrama evidencia diversos desdobramentos dessa postura acrítica:

3.1 Emmanuel

Apresentado como guia de Chico Xavier, Emmanuel introduziu noções que confrontam diretamente a Doutrina Espírita:

  • Declaração de que o Espiritismo seria uma religião (Kardec definiu-o como ciência de observação e filosofia de consequências morais).
  • Proibição da evocação, em contradição frontal com O Livro dos Médiuns.
  • Ideia de almas gêmeas, rejeitada por Kardec.
  • Domínio sobre Chico, impondo condicionamentos e ameaças morais, o que fere a liberdade de consciência.

3.2 André Luiz

A série de livros psicografados por Chico Xavier, atribuídos a André Luiz, criou representações como:

  • Colônias espirituais (Nosso Lar).
  • Umbral como região intermediária.
    Esses conceitos materializam o mundo espiritual, estimulando apego a construções espaciais e institucionais, quando Kardec deixou claro que o Espiritismo aponta para a desmaterialização progressiva da existência espiritual.

3.3 Ramatis

Introduz comunicações recheadas de teorias esotéricas, misticismo e previsões catastrofistas, sem correspondência com o método kardeciano. Sua aceitação deriva da mesma lógica: qualquer Espírito comunicante seria fonte de verdade.

3.4 Vale dos Suicidas

Obras como Memórias de um Suicida reforçam a noção de “lugares fixos” no além, de caráter punitivo ou reformatório, em contradição com a ideia de que o estado espiritual é reflexo íntimo da consciência, não de geografias metafísicas.

3.5 Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho

Obra atribuída a Humberto de Campos (sob inspiração de Emmanuel), que apresenta o Brasil como nação predestinada espiritualmente. Essa concepção reforça um nacionalismo místico, estranho à universalidade do Espiritismo.


4. O Papel do ESDE

O Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), embora estruturado com boas intenções pedagógicas, reflete a consolidação dessa ruptura. Ao adotar como base não apenas Kardec, mas também obras mediúnicas pós-Kardec (Emmanuel, André Luiz, etc.), o ESDE institucionaliza o afastamento do critério crítico e instala o ecletismo acrítico.

Resultado: as novas gerações de espíritas passaram a considerar como “doutrina espírita” aquilo que é apenas opinião de Espíritos, reproduzindo a aceitação cega.


5. Problemas Doutrinários Decorrentes

O diagrama lista os efeitos concretos desse desvio:

  • Materialização do mundo espiritual: concepção de colônias, cidades, hospitais, prisões — reflexo de projeções humanas.
  • Promoção do apego a ideias materiais, quando o Espiritismo tem por missão justamente libertar da materialidade.
  • Falsa ideia de destinos geográficos do Espírito (lugares bons ou ruins), substituindo a compreensão de que o “céu” ou “inferno” são estados da alma.

6. A Substituição da Crítica pelo Dogma

O diagrama mostra, em última instância, como o movimento espírita passou:

  • Do exame crítico (Kardec, 1857–1869),
  • Para a aceitação cega (pós-Kardec, especialmente no Brasil).

Esse processo transformou a ciência espírita em religião institucionalizada, com dogmas, moralismo e submissão a “guias espirituais” não testados pelo método original.


7. Conclusão: Restauração da Metodologia Espírita

A mensagem central do diagrama é clara:

  • Enquanto a obra de Kardec permanecer afastada como critério, o Espiritismo viverá sob o domínio da aceitação cega.
  • O retorno ao método kardeciano de exame racional, evocação crítica e universalidade do ensino dos Espíritos é a única via de preservação do Espiritismo como ciência de observação.

O diagrama, portanto, não é apenas uma crítica histórica, mas um chamado à restauração metodológica: sem crítica, o Espiritismo se dissolve no misticismo; com crítica, mantém sua identidade científica e filosófica.




Linguagem Específica da Ciência Espirita

Você sabia que a maioria dos que se dizem espíritas… não conhecem o Espiritismo? Nem usam a linguagem específica da ciência espiritas para explicar seus fenômenos e seus conceitos.

Ser espírita não é questão de adesão emocional, nem de consumir romances supostamente “espíritas”.
Ser espírita é estudar com seriedade a Ciência Espírita, compreendendo seus fundamentos e colocando em prática seus princípios — como ensinava Allan Kardec.

O Espiritismo é uma doutrina de estudo, razão e observação. Trocar essa ciência por ficção é um enorme mal causado ao Espiritismo. Como é uma Ciência Filosófica ela deve ser estuada com os termos científicos específicos.

Ne época de Kardec, as Ciências Filosóficas faziam parte do ensino.

Quando Allan Kardec lançou sua Primeira Edição da Revista Espírita de 1858, logo a definiu na sua introdução ao justificar seu título Jornal de Estudos Psicológicos. A Ciência Espirita é, segundo seu tempo apresentado no quadro acima: Ciência Moral

Como Ciência, sua linguagem é especifica dos elementos dessa ciência para todos se entenderem. Os termos são extremamente importantes para haver uma comunicação adequada das ideias espiritas. Nós vemos, hoje em dia, uma mistura da ciência totalmente materialista do nosso tempo em que não se considera o estudo das hipóteses Metafísicas, por exemplo. Além disso, misturarem palavras de um em outro. Por causa disso, há uma confusão de conceitos do Materialismo misturado com o estudo dos assuntos do Espirito, que se estuda também metafisicamente.

Daremos alguns exemplos do uso equivocado de termos materialistas que passam despercebidos:

  1. USE PSICOFONIA – NÃO USE INCORPORAÇÃO: nós vemos muitos palestrantes ou mesmo descrições de manifestações em textos dito espíritas que se usa o termo incorporação. Espirito não é matéria para ocupar um lugar físico. Espirito não incorpora nenhum corpo. nem seu próprio espirito incorpora você. O Espirito fala pelo médium através de uma fenômeno chamado PSICOFONIA. O espírito do médium está COM ele e não incorpora seu corpo físico. Esse ponto é bem importante para não criar a falsa ideia de que o médium é possuído por outro espirito, ou que o espírito comunicamente toma o corpo do médium, ou mesmo que o espirito do médium vai para outros lugares enquanto o médium está em psicofonia. Isso não existe na Ciência Espirita!
  2. A AÇÃO DO ESPIRITO É TÃO E SOMENTE PELO SEU PENSAMENTO: espírito não tem corpo material. Segundo os estudos da Ciência Espirita, Deus criou 2 elementos gerais: ESPÍRITO E MATÉRIA. Espirito não tem analogia no nosso mundo material. Períspirito é matéria. O material de que é feito o períspirito é desconhecido para nós, mas mesmo sem conhecermos as características dele, é matéria. Períspirito não faz parte do espirito, assim como períspirito não é espirito. O espirito age através e tão somente pelo pensamento . Como exatamente isso acontece ainda é desconhecida por nós, mas há varias teorias dentro das livros que explicam esse mecanismo (leia A Gênese, cap. XIV – Os Fluidos.)
  3. USE EMANAÇÃO OU PROPAGAÇÃO – NÃO USE ENERGIA: o termo energia é definida na Física como capacidade de um corpo, uma substância ou um sistema físico têm de realizar trabalho. Em termos figurados(não científicos), energia é vigor ou potência moral; filosoficamente falando, segundo Aristóteles, ação de um motor físico ou metafísico (a metafísica, não é considerado ciência nos tempos de hoje) que permite a atualização de uma potencialidade. Veja, todas as definições levam em conta algo físico agindo sobre algo físico. Um dos princípios da Ciência Espirita é de que somos uma alma encarnada. Se somos uma alma, não temos corpo, logo não poderá ser uma energia(algo físico) saindo do espirito ou alma(não físico) e chegando em um corpo(físico). O mais apropriado seria uma emanação ou mesmo propagação .
  4. USE ESPÍRITONÃO USE MENTE: usa-se mente por outras áreas da ciência atual materialista. Alguns confundem mente com cérebro; cérebro é um orgão do corpo, cérebro é matéria. Como a Ciência Materialista não admite o espirito como hipótese, ele atribui ao cérebro o processo de pensar, mas não foi isso que os espíritos explicaram. Segundo a Ciência Espirita, através de sua observação, quem comanda o corpo é o espirito e não o cérebro. O cérebro envia os comandos. O cérebro nasce, vive e morre e o espirito permanece e leva com ele os conhecimentos adquiridos por várias encarnações. Quem tem e leva o conhecimento é o espírito não a mente. Quem pensa é o espirito. Você que entende a doutrina espirita sabe disso e sempre usa Espirito ao invés de Mente, não é?
  5. USE “COMO SE FOSSE UMA VIBRAÇÃO” NÃO USE “VIBRAÇÃO” ISOLADAMENTE AO FALAR DE FENOMENOS ESPÍRITAS: há hipóteses do mecanismo propriamente dito (vide item 2) e tão somente hipóteses. Usar o termo vibração pode levar a crer que o fenômeno espirita é uma onda como estudada na Física Ondulatória, onde apresenta diferentes tipos de ondas e vibrações diferentes, etc.
  6. USE PERISPÍRITO – NÃO USE FANTASMA: quem estuda a Ciência Espirita, sabe que há fenômenos de aparições que remetem a essas figuras que impressionam nosso imaginário. Mas não passam de espíritos e seus fenômenos para muitas vezes brincar ou assustar os encarnados. Espirita ter medo de espirito não existe!
  7. ESTAMOS SEMPRE NO MUNDO ESPIRITUAL: segundo a Ciência Espirita, quando encarnados vivemos em um mundo dual: mundo da matéria e mundo do espirito. Quando morremos, desencarnamos, ou seja, deixamos a matéria, mas CONTINUAMOS NO MUNDO ESPIRITUAL. Não use mais os termos “ele morreu e foi para a pátria espiritual”(Ele já estava no mundo dos espíritos); “agora vai encontrar seus entes que já morreram”(os seus entes queridos nunca estão longe. Lembra que os Espíritos não ficam em nenhum lugar?(vide item 1); “ele nos deixou”, etc
  8. USE CAUSA E EFEITO – NÃO USE LEI DE CAUSA E EFEITO: A causalidade é geralmente considerada um princípio fundamental, e não uma lei específica, no contexto filosófico e científico. Ela descreve a relação de causa e efeito entre eventos, onde um evento (a causa) é entendido como a razão por trás da ocorrência de outro evento (o efeito). A causalidade é um princípio fundamental que ajuda a entender a natureza da relação entre causa e efeito, e é utilizado em diversas áreas, desde a física e as ciências naturais até a filosofia e o direito. Embora a causalidade seja frequentemente referida como “lei da causa e efeito”, ela não é uma lei científica no sentido de uma relação quantitativa e experimentalmente verificável, como as leis da física. Ela é mais um conceito ou princípio que descreve a natureza da relação entre causa e efeito. A causalidade é importante para a compreensão do mundo ao nosso redor, pois permite identificar as causas de fenômenos e prever seus efeitos. Ela é fundamental para a ciência, a tecnologia e a vida cotidiana, pois nos ajuda a entender e interagir com o mundo de forma mais eficiente. Um exemplo: Imagine em uma caçada, um animal é abatido com um tiro e morre. O efeito é a morte. A causa foi o disparo da espingarda. Não foi uma Lei. Na Ciência Espirita, Kardec usou muito desses princípios para explicar os efeitos inteligentes das manifestações espiritas inteligentes. Lá ele explica que para todo efeito inteligente há uma causa inteligente. Há inúmeros relatos nas obras dele.
  9. USE PROVAS E EXPIAÇÕES – NÃO USE KARMA(OU CARMA): Karma e Espiritismo são como água e óleo: não se misturam. Cuidado com as pessoas que pregam a doutrina do karma dentro do meio espírita, pois o entendimento da Doutrina Espírita vai no sentido oposto.(clique no link para ler a explicação completa).
  10. USE ESPIRITO ESTACIONADO – NÃO USE RETROGRADAÇÃO: muitos misturam outras doutrinas reencarnacionistas com a ciência dos espíritos.. Segundo a Ciência Espirita, nós, espíritos, quando estamos mergulhados em imperfeições, como orgulho e egoísmo. Assim ficamos estacionados como em looping e não evoluímos. Mas isso não quer dizer que estamos voltando e vamos reencarnar em animais. Isso só quer dizer que ESTACIONAMOS NO PROCESSO EVOLUTIVO! O espirito de um ser humano nunca perde o conhecimento que teve anteriormente, então ele nunca reencarnará como animal por causa de suas imperfeições. Ele simplesmente não progredirá até se arrepender e retornar sinceramente ao bem.
  11. QUEM REGENERÁ SERÃO OS ESPIRITOS DO PLANETA TERRA – O PLANETA TERRA NÃO REGENERÁ: o Planeta não vai mudar e daí os espíritos vão ter que evoluir. Não existe DATA LIMITE, ANO, SÉCULO nem nada. É o inverso! Os espirito que estão no planeta que vão evoluir. Vai ser simplesmente quando a maioria dos espíritos encarnados estiverem mais evoluídos, não precisando mais de provas e expiações para evoluir. Um dia o Planeta terra se extinguirá como qualquer outro planeta também será. Essa é a ordem do universo material que conhecemos.
  12. USE ESPIRITO PURO – NAO USE ESPIRITO PERFEITO: O ideal de perfeição é Deus, então nunca um espirito vai ser um espirito perfeito. O espirito vai chegar a perfeição relativa ao seu grau evolutivo. Espirito Puro é aquele que não precisa mais reencarnar para evoluir pois já não sofre influencia da matéria. Mesmo sendo puros, eles vão evoluir (Lei do Progresso)
  13. PASSE NÃO É TRANSFERENCIA DE ENERGIA: vide item 3

Se você lembrar de alguma expressão equivoca, só deixar um comentário.




Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrinatudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni PrivatoJúlio NogueiraLucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




Espiritismo no Brasil e a crítica aos espíritas

Muito temos falado sobre a grande distância entre o Espiritismo, ou a ciência espírita, e aquilo que aprende e divulga o Movimento Espírita no Brasil, cada dia mais contaminado por distorções e misticismo. Não creio necessário repetir os fatos a esse respeito. Limitamo-nos a recomendar o leitor aos artigos A distância entre o Espiritismo e o Movimento Espírita, Profecia do Espírito da Verdade, O Canal Espírita e o Espiritismo, O rapaz e o oásis: uma fábula de esperança, Um diálogo interessante, Um convite à autocrítica do Movimento Espírita, dentre outros.

Podemos, porém, acrescentar o pensamento de Kardec, em O Livro dos Médiuns:

Há, por fim, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se preferisse sempre o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo. No Espiritismo ele produz uma confiança cega e frequentemente pueril nas manifestações do mundo invisível, fazendo aceitar muito facilmente e sem controle aquilo que a reflexão e o exame demonstrariam ser absurdo ou impossível, pois o entusiasmo não esclarece, ofusca. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos capazes de convencer, porque se desconfia com razão do seu julgamento. São enganados facilmente por Espíritos mistificadores ou por pessoas que procuram explorar a sua credulidade. Se apenas eles tivessem de sofrer as consequências o mal seria menor, mas o pior é que oferecem, embora sem querer, motivos aos incrédulos que mais procuram zombar do que se convencer e não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Isso não é justo nem racional, sem dúvida, mas os adversários do Espiritismo, como se sabe, só reconhecem como boa a sua razão e pouco se importam de conhecer a fundo aquilo de que falam.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Lake, 23a Edição. Grifos nossos.

É evidente seu posicionamento: os descuidados que, com entusiasmo (e vaidade) acreditam em tudo cegamente, promovem mais mal do que bem à Doutrina.

Exageros, dizem alguns

É da opinião de alguns, que temos exagerado. Segundo eles, devemos “respeitar” a fé de cada um, limitando-nos a realizar o nosso trabalho. Em primeiro lugar, precisamos demonstrar que não existe desrespeito à fé de ninguém. Cada um tem o livre-arbítrio e o direito de acreditar no que quiser, racionalmente ou não. Mas, aqui, tratamos da ciência espírita, e aqui nasce o maior problema da ideia dessas pessoas: o não conhecimento dessa ciência. Basta ler a Revista Espírita e as demais obras de Kardec e verá não apenas ele, mas também os bons Espíritos, frequentemente destacando a necessidade de se expor os erros e, sobretudo, os charlatães e os inimigos da Doutrina Espírita que, vestindo suas ideias sob a roupagem do Espiritismo, voluntariamente ou não promovem o erro que alimenta o descrédito geral no Espiritismo, tal como se fosse mais uma religião nascida das ideias de alguém. Já demonstramos suficientemente o porquê o Espiritismo é uma ciência, e não uma religião.

O Espiritismo chegou distorcido ao Brasil

O fato é que o Espiritismo já se instalou no Brasil adulterado pelo Movimento Espírita iniciante ((fatos fartamente apresentados em Ponto Final, de Wilson Garcia)) e, na FEB (Federação Espírita Brasileira), autodenominada “casa mater” do Espiritismo brasileiro, longe de encontrar terreno para sua restauração, foi substituído pela doutrina de Roustaing, totalmente fundamentada nos velhos dogmas religiosos. Essa instituição, que acabou ditando os rumos do Espiritismo brasileiro por muito tempo, nunca se dedicou a recuperar a ciência espírita e o método necessário para a continuidade da Doutrina, sendo que as evocações particulares (e mesmo nos centros espíritas), ferramenta imprescindível para o estudo científico, foram abandonadas. Sem o método de Kardec, e pelo interesse na impressão e na venda de obras mediúnicas, qualquer ideia vinda de qualquer Espírito passou a ser veiculada e, assim, formou lentamente a crença geral do Movimento Espírita, hoje completamente perdido em ideias que, na verdade, são fundamentalmente antidoutrinárias.

Precisamos reconhecer, é claro, que parte dessas ideias fundamentou-se antes mesmo da vinda do Espiritismo ao Brasil, com a adulteração das obras O Céu e o Inferno (principalmente) e a A Gênese, após a morte de Kardec. Infelizmente, a FEB é a primeira a defender a ideia de que essas obras não tenham sido adulteradas, fato que, principalmente com relação à O Céu e o Inferno, é suficientemente evidenciado e irrefutável.

Falar em adulteração é criar descrença?

Aqui, enfim, chegamos a outra crítica de certas pessoas: “dizer que houve adulteração seria jogar lama em Kardec, suscitar descrença no Espiritismo”. “Aliás”, dizem elas, “que Doutrina é essa que os Espíritos permitem tal coisa, sem aviso?”. É um pensamento completamente ilógico.

Começamos lembrando que as palavras do próprio Cristo foram adulteradas e distorcidas em favor dos dogmas religiosos, e esse fato foi justamente o que levou à descrença de incontável número de pessoas no cristianismo. Voltaire foi um dos mais evidentes expoentes dessa descrença, que ainda hoje prevalece. Perguntamos: seria “lançar lama” em Jesus destacar as adulterações? Seria “suscitar descrença” no cristianismo, destacar as distorções, ao mesmo tempo em que se demonstra as ideias originais? Evidente que não. Se o problema aconteceu, precisamos encará-lo de frente (uma atitude científica e verdadeiramente kardeciana), e não varrê-lo para baixo do tapete, enquanto perduram seus efeitos avassaladores.

À ideia de que “os Espíritos não teriam permitido as adulterações”, opomos a forte recomendação de estudo da Doutrina, o que evidentemente não foi realizado por essas pessoas. Os Espíritos alertaram várias vezes sobre as tramas dos inimigos da Doutrina, como demonstramos em Profecia do Espírito da Verdade. Baseado nos alertas e nas evidências, Kardec também previa o futuro do Espiritismo, conforme destacou na Revista Espírita de dezembro de 1863, no artigo “Período de Lutas”:

A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso. Depois virá o quinto, o período intermediário, consequência natural do precedente e que, mais tarde, receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o da renovação social, que abrirá a era do século vinte. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas desejadas por Deus para a transformação da Terra terão desaparecido. A geração que surge, imbuída das ideias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que deve inaugurar a vitória definitiva da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica.

KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1863.

Infelizmente, a previsão do sexto período está atrasada em mais de um século, por diversos fatos imprevisíveis àquela época, quais o abandono do Espiritualismo Racional e da Ciência Espírita, além da adulteração das obras citadas. Depois, as guerras, o esquecimento da Doutrina na França e na Europa e sua instalação no Brasil, completamente distorcido.

Os Espíritos não impedem o livre-arbítrio humano

Lembramos, para terminar, que o cerne da Doutrina Espírita, sempre demonstrado pelos Espíritos, é o livre-arbítrio, ao qual os Espíritos não podem se interpor. Podem aconselhar, mas não podem tolher a vontade humana. Assim fizeram: aconselharam largamente sobre a necessidade de cuidado que, infelizmente, faltou àqueles que deveriam cuidar do legado do mestre. Parece que o Movimento Espírita francês ficou muito confortável com o direcionamento de Kardec e, quando isso deveria mudar, a partir de meados de 1869 (conforme exposto na Revista Espírita de dezembro de 1868, “Constituição transitória do Espiritismo”) Kardec morreu, e todos ficaram sem rumo. Assumindo Leymarie a direção da Sociedade Espírita, desvirtuou o propósito da Revista Espírita, admitindo a doutrina roustainguista a troco de dinheiro, e o resto o leitor pode conhecer através da leitura das obras O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, Nem Céu, Nem Inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final, de Wilson Garcia.

O bem em meio aos enganos

Muitos dizem: “o Movimento Espirita, em meio a muitos enganos, ainda assim produz um bem. Não é de todo errado”. Não poderíamos discordar disso. Não dizemos que há erro ou engano em tudo e que nenhum bem se produz. Um romance mediúnico, por mais que seja repleto de ideias erradas, pode ser a porta de entrada para o indivíduo questionador ir atrás de mais informações, terminando por conhecer as obras de Kardec, enfim. Mas, perguntamos: não seria melhor que o Espiritismo fosse apresentado como ele é, simples e racional, sem os absurdos que produzem tantos contratempos e que muito frequentemente conduzem à descrença? Não podemos deixar de destacar que, quando se abre espaço para um engano, dentro de uma ciência, e esse engano não é remediado pela teoria e pelos fatos doutrinários, ele dá margem a muitos outros. É o que tem acontecido.

Restauração

É chegada a hora de restaurar o Espiritismo, o que já começou no Brasil e se espalhará pelo mundo. O primeiro passo é aprender o Espiritismo como ele verdadeiramente é, afastando-se dos erros. Aqueles que, ditos “espíritas”, não desejarem fazer assim, integrarão uma nova religião, se o quiserem, tão dogmática quanto as demais. Deixemos que o tempo se encarregue deles, mas nem por isso deixemos de fazer a nossa parte, apresentando os erros, frente à Doutrina Espírita, sem personalismo. Depois, virá o tempo da restauração do método de Kardec. Esses dois passos darão a possibilidade do sexto período previsto por Kardec: o da renovação social.

Não podemos deixar de recomendar como leitura essencial a obra Autonomia – A História Jamais Contada do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo.

Faça parte dessa jornada, que é coletiva e somente se dará pela colaboração de muitos.




A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.

Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:

Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).

Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!

Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno

E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):

9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.

10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.

O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.

Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.

Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):

Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.

Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.

Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.

Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.

Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.

O Céu e o Inferno – Editora FEAL

Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):

  1. Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?

Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”

Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:

“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).

Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.

Mais evidências da ideia original

Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):

“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”

KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.

Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:

A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:

N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?

Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.

O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I

É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.

Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:

132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]

O Livro dos Espíritos

Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.

Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.

O Livro dos Espíritos

O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.

  1. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?

A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)

KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.

Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.

Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.

Revista Espírita, 1864

Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.

[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.

“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”

KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.

Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.

Motivo da adulteração

Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.

Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.

O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,

[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.

Conclusão

De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.

Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.

A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:

“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59

Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:

16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.

Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?

São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.

Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo

É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.

Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.

Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.

Como agem os sacerdotes

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.

Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.




Os problemas da crença no nada (niilismo) e no castigo

A crença no castigo, mesmo dentro do Espiritismo (ou do Movimento Espírita) e a crença no nada levam o homem a duas situações muito complicadas. Vejamos:

Quando se crê no nada, o homem se concentra sobre o desfrute do presente, a qualquer custo. Isso é o que Kardec nos demonstra em O Céu e o Inferno (editora FEAL):

“Há algo mais desesperador do que a ideia da destruição absoluta? As afeições sagradas, a inteligência, o progresso, o conhecimento laboriosamente adquirido, tudo seria desfeito, tudo estaria perdido! Qual a necessidade do esforço para nos tornarmos melhores, para reprimirmos as paixões, para enriquecermos nosso espírito, se daí não devemos colher fruto algum, sobretudo ante a ideia de que amanhã, talvez, isso não nos servirá mais para nada? Se assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior do que a do selvagem, que vive inteiramente no presente, na satisfação de seus apetites materiais, sem aspirações com relação ao futuro. Uma secreta intuição nos diz que isso não é possível.

Pela crença no nada, o homem inevitavelmente concentra seu pensamento na vida presente. Não haveria, com efeito, por que se preocupar com um futuro do qual nada se espera. Essa preocupação exclusiva com o presente o leva naturalmente a pensar em si antes de tudo; é, portanto, o mais poderoso estímulo ao egoísmo. O incrédulo é coerente quando chega à conclusão: “Desfrutemos enquanto aqui estamos, desfrutemos o máximo possível, pois, depois de nós, tudo estará acabado; gozemos depressa, porque não sabemos quanto tempo durará”, assim como a esta outra, bem mais grave aliás para a sociedade: “Desfrutemos, não importa à custa de quem; cada um por si; a felicidade, cá embaixo, é do mais astuto”. Se o escrúpulo religioso restringe a ação de alguns, que freio terão aqueles que em nada creem? Para estes, a lei humana somente alcança os tolos, e por isso dedicam seu talento a maneiras de dela se esquivarem. Se há uma doutrina nociva e antissocial, é certamente a do neantismo ((Doutrina do nada, niilismo)), porque rompe os verdadeiros laços de solidariedade e de fraternidade, alicerce das relações sociais.”

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, Editora FEAL.

Algo diametralmente oposto ao pensamento niilista, glorificado em Nietzsche:

A descoberta da moral cristã é um acontecimento que não tem igual, uma verdadeira catástrofe. O pretexto sagrado de tornar melhor a humanidade surge como a astúcia para esgotar a própria vida, para a tornar anêmica. O conceito de além foi inventado para desvalorizar o único mundo que existe – para destituir a nossa realidade terrena de todo o fim, de toda a razão, de todo o propósito! O conceito de alma, de espírito, finalmente ainda de alma imortal, inventou-se para desprezar o corpo. Por fim – e é o mais terrível – no conceito de homem bom, toma-se o partido de tudo o que é fraco, doente, falhado, do que em si mesmo é passivo, de tudo o que deve perecer – a lei da seleção natural é contrariada, e faz-se um ideal a partir da oposição ao homem altivo e bem-sucedido, ao homem que diz sim, ao homem que garante e está certo do futuro – este torna-se agora o mau… E em tudo isto se acreditou como moral.

NIETZSCHE, 2008, p. 99-100

Por outro lado, quando o homem acredita na ideia da queda pelo pecado ou na vida humana como uma forma de “pagar dívidas”; em outras palavras: quando ele acredita na ideia do castigo divino, ele se torna inapto a lidar pró-ativamente com seus problemas. Uma mulher que, por exemplo, viva com um mau companheiro, que a agrida, física ou moralmente, pode crer (e muitos lhe afirmam isso) que está vivendo um “resgate” de vidas passadas. Deve, portanto, se submeter às condições desumanas, para, segundo dizem, “quitar seus débitos”.

Essa maneira de pensar é frequentemente ensinada desde os primeiros passos da criança, quando esta é submetida ao castigo, ao invés de ser instigada ao desenvolvimento pela sua própria autonomia racional. Já tratamos disso no artigo “O castigo irrita e impõe. Não educa pela razão.


O fanatismo da credulidade cria incrédulos, porque nada responde. Tira o indivíduo do controle sobre sua responsabilidade: se comete o mal, é culpa do diabo; se faz o bem, é graça divina.

O fanatismo da incredulidade, por outro lado, vai na mesma direção e produz a mesma coisa que o primeiro: o indivíduo, se faz o mal ou se faz o bem, é por conta do seu DNA.

Ambos transformam o ser em um autômato a quem resta, apenas, os prazeres mundanos, ante à perspectiva do nada ou da condenação eterna. A via intermediária, em sua excelência racional, é o Espiritualismo Racional e o Espiritismo (em sua origem). Veja esse estudo: https://www.youtube.com/watch?v=OCD2_iAQySw.


Recomendamos a todos o estudo seguinte:




A história do Espiritismo e o Movimento Espírita

O Espiritismo na atualidade, ou, antes, aquilo que o Movimento Espírita conhece e transmite dele está muito longe de ser realidade, e isso é muito sério, pois é justamente por essas distorções que criaram-se as falsas ideias que repelem os indivíduos e criam brigas, não somente internas, mas também com as religiões espiritualistas.

Um caso muito conhecido é o da Umbanda, que foi criada por conta de um indivíduo ter sido proibido de “receber” um Espírito de um “preto velho” num centro espírita. Não somente isso: na atualidade, pessoas de quaisquer religiões que tenham algum interesse pelo Espiritismo são levadas à questão: “preciso abandonar minha religião para ser espírita?”. Isso porque “ser espírita”, na modernidade, é frequentar um centro espírita que, segundo falsos conceitos, é onde “mora” o Espiritismo.

Estou aqui para demonstrar o quão erradas estão essas concepções e que, longe de uma disputa de verdades, é possível haver união e que, em verdade, foi assim que se desenvolveu o Espiritismo.

A história do Espiritismo como quase ninguém conheceu

É lógico dizer que, antes que o Espiritismo se estabelecesse como doutrina, ninguém era espírita. Como foi possível, então, formar essa ciência, de aspecto filosófico e consequências morais?

Erra quem diz ou pensa que foi Allan Kardec quem criou o Espiritismo. Não: o Espiritismo está na natureza, assim como as demais ciências. Caberia a alguém estudar, com metodologia científica e seriedade, os princípios dessa ciência, e foi o que Kardec fez. Ele nunca se deu o direito de tomar para si a verdade, simplesmente porque, como cientista honesto, sabia que a ciência não lida com verdades, mas sim com teorias que mais se aproximam da verdade.

Assim, Kardec dedicou-se a estudar os fenômenos e as comunicações dos Espíritos, pela principal ferramenta disponível: as evocações, através dos médiuns. E ele não fez isso sozinho: naquela época, os grupos de estudos espalhavam-se pela França e outros países próximos e, em verdade, precederam Kardec nas evocações. Quando ele se interessou pelo Espiritismo, já haviam diversas evocações registradas em papel, por ele reunidas, analisadas e organizadas, o que deu origem à primeira edição de O Livro dos Espíritos, com cerca de metade do tamanho que teria em sua segunda edição.

Rapidamente Kardec percebeu que esse esforço inicial na Doutrina necessitaria de um desenvolvimento, como toda ciência. Assim, em 1858, nasceu a Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, periódico mensal onde ele apresentava ao público resultados dos estudos sobre as evocações e as comunicações espontâneas no âmbito da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, além de conteúdos pertinentes, enviados por outros grupos. Também utilizava a Revista para reforçar a verdadeira face do Espiritismo, frequentemente apresentando contrapontos a opiniões e artigos carregados de desconhecimento e, por vezes, maldade.

Falamos em metodologia científica: bem, o Espiritismo nasceu como toda ciência: de uma observação sistemática e controlada sobre fatos verificáveis (embora não sob a nossa vontade), de onde se criaram hipóteses. Das hipóteses, se criou uma teoria, que então foi submetida a experimentos (evocações). Dos experimentos, verificaram-se os resultados e, daí, avaliava-se as hipóteses: se eram corroboradas, eram incorporadas à teoria; se não, eram reavaliadas e novas observações eram realizadas.

Inverdades

Uma das maiores inverdades que reinam sobre o Movimento Espírita atual é a de que as evocações não devem ser realizadas, o que está em oposto às características históricas do Espiritismo. Quem estuda o primeiro ano da Revista Espírita entende o quanto elas são indispensáveis para a ciência espírita, que, por ser uma ciência, não deve ser tomada como um conteúdo sagrado, que deva ficar intocado. Pelo contrário: o Espiritismo carece de desenvolvimento, mas esse desenvolvimento somente pode ser feito através da metodologia científica, que depende necessariamente da retomada das evocações. Um exemplo de uma prática ausente de método, ou tomada por falsos princípios, é a de que basta evocar um ou mais Espíritos, em um grupo isolado, e a ele perguntar (ou ouvir) sobre tudo, fazendo disso princípio doutrinário.

Outra grande inverdade é a suposição de que a mediunidade pertence à Doutrina Espírita. Tanto é, que demonstramos que o Espiritismo nasceu pelo esforço conjunto de grupos que não poderiam ser espíritas, já que a doutrina ainda não existia. Naquela época, pessoas de várias crenças e religiões praticavam a mediunidade em seus lares, em grupos pequenos, e colhiam bons ou maus resultados das evocações conforme seus empenhos em raciocinar sobre as comunicações. Kardec cita, na Revista, que os adeptos do Espiritismo contavam entre eles católicos, protestantes, muçulmanos, budistas, etc., realizando evocações e estudos e muitas vezes enviando-as à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, onde, junto a outros colaboradores, eram avaliadas, analisadas e separadas aquelas que poderiam representar um interesse para o público geral.

Aqui, temos mais duas inverdades do Movimento Espírita moderno: aquela que diz que a mediunidade somente pode ser praticada no centro espírita e aquela que diz que devemos ficar apenas aguardando a livre comunicação dos Espíritos. Dessas, nasce talvez o maior erro dos espíritas e adeptos modernos: a aceitação cega e não raciocinada de tudo o que dizem os Espíritos.

Outra inverdade, que não podemos deixar de citar, é a que diz que o Espiritismo seja uma religião. Já demonstramos que ele é uma ciência e que só pode ser tomado como religião no sentido filosófico da religião natural, abordada de maneira metafísica e moral pelo Espiritualismo Racional, do qual já falaremos. Esse é o motivo de encontrar, na época de Kardec, adeptos entre as religiões, que não deixavam suas religiões, com suas particularidades, para praticar o Espiritismo. Sobre isso, fique conosco até o final, pois a compreensão é sobremaneira importante.

Infelizmente, o Movimento Espírita apagou a ciência e transformou o Espiritismo em uma religião, que passou a criar falsas ideias e dogmas que, se agradam alguns, agradam por algum tempo, mas não podem enfrentar a razão nos momentos mais críticos da vida, criando, assim, descrentes. Esqueceram que os Espíritos não se tornam sábios por deixarem o corpo material e que, dentre eles, existem bons e maus, sábios e ignorantes, etc., e que é sobretudo quando se coloca apenas à disposição, sem diálogo, que se apresenta qualquer um.

Existem inúmeras falsas ideias, que alimentam o Movimento Espírita e adeptos em geral, que não passaram pelo crivo necessário, que não foram investigadas e questionadas, ainda que fossem opostas àquilo que, com metodogia, foi transformado em princípio pela observação psicológica de milhares de Espíritos, de todos os “tipos”.

Convidamos o leitor, se ainda não fez, a iniciar o estudo da Revista Espírita de 1858 e 1859 (ela vai até maio de 1869). Essa publicação, que deve ser tomada como um laboratório onde se pode acompanhar o desenvolvimento da Doutrina Espírita, através do método destacado anteriormente, e não como uma ideia final em cada artigo, demonstra o que de fato é o Espiritismo e o quanto nossa sociedade está longe dessa realidade.

Notem que dizemos inverdades, e não “mentiras”, pois a maioria dos que as divulgam, falam do que foram ensinados. Mas de onde vieram essas inverdades?

A virada materialista do século XIX

O Espiritismo não nasceu do nada. O terreno foi muito bem preparado antes disso e, no início do século XIX, nascia o movimento conhecido como Espiritualismo Racional, que, baseados na metafísica, buscava estudar a psiquê humana pelo seu mais elementar e indissociável aspecto: a alma. Autores como Maine de Biran, Victor Cousin e Paul Janet foram seus principais expoentes.

Provavelmente você não sabe, mas o Espiritualismo Racional definiu as Ciências Morais francesas em meados desse século, fazendo parte do ensino francês e definindo sua estrutura. Deixarei informações na descrição. Mas o ER abordava esse estudo apenas pela metafísica, e não de forma prática. Como Espiritismo, que foi o seu desenvolvimento, nasce a Psicologia Experimental (e agora você sabe o porquê do subtítulo da Revista Espírita). Não entrarei em muitos detalhes, que podem ser encontrados no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, de Paulo Henrique de Figueiredo. A questão aqui é outra.

No final do século XIX, a filosofia materialista alemã sobrepujou a filosofia espiritualista francesa que, segundo alguns governantes, teria sido a razão do fracasso da França na guerra. O Espiritualismo Racional foi varrido para baixo do tapete e o Espiritismo, que já sofria com adulterações (já falaremos sobre isso) tomou o golpe final, sendo praticamente esquecido na França, na Europa e, depois, no mundo. Novos ícones da filosofia do nada e da psicologia materialista (por mais paradoxal que seja essa ideia), como Nietzche e Freud, foram tomados como ídolos, substituindo a psicologia espiritualista racional pela perspectiva da nulidade de esforços morais e do egoísmo.

Adulterações no Espiritismo

Detalhes muito interessantes sobre os acontecimentos após a morte de Allan Kardec podem ser colhidos nos livros “O Legado de Allan Kardec”, de Simoni Privato, e “Ponto Final”, de Wilson Garcia. Resumindo: o fatídico e inesperado evento abalou os espíritas por toda a parte, que custaram por retomar alguma força. Junto a isso, vieram guerras e, na Sociedade Espírita, o sucessor de Kardec, Pierre Gaetan Leymarie, colocava abaixo os princípios científicos doutrinário, expulsava velhinhos, em pleno inverno, de lares criados por Kardec para espíritas pobres, queimava correspondências cuidadosamente guardadas pelo Professor e, por interesses pessoais, admitia na Revista Espírita conteúdos oriundos da ideologia de Roustaing, já falecido, que se considerava o revelador das verdades, acreditando cegamente em um ou mais Espíritos obsessores que se comunicavam através de uma médium. Acabou-se o cuidado com a racionalidade, com a concordância geral das comunicações espíritas e, para jogar a última pá-de-cal no Espiritismo francês, Leymarie foi levado a julgamento por publicar conteúdos provenientes de um charlatão, naquilo que ficou conhecido como “Processo dos Espíritas”.

Por conta de todo esse cenário, o Espiritismo fortaleceu-se no Brasil já distorcido. As origens da FEB, instituição, que tomou a liberdade de se proclamar dirigente geral do Espiritismo no Brasil, aliás, são completamente ligadas a essas distorções. A FEB foi fundada e guiada pelos princípios de Roustaing por longo tempo (leia Ponto Final, de Wilson Garcia). Esse é o principal motivo das distorções do Movimento Espírita brasileiro.

Somado a isso, a Revista Espírita somente veio ser traduzida na década de 1950. Aqui, formaram-se diversas falsas ideias, sendo, como demonstramos, o pressuposto de não julgar as comunicações e não evocar Espíritos para investigações as mais danosas delas.

A retomada

Quando falamos em retomar o Espiritismo, falamos em retomá-lo como ciência. Para isso, é necessário conhecimento, nascido do estudo, seriedade, vontade, propósito e colaboração. A mediunidade, que não pertence à Doutrina Espírita nem ao Movimento Espírita, pode ser praticada por todos, fora dos centros espíritas, inclusive. As evocações são necessárias e salutares, mas, aqui, precisamos alertar sobre alguns princípios da ciência dos Espíritos.

A Doutrina Espírita, como ciência, tem o mérito de ter produzido um conhecimento sobre a observação dos fenômenos e das comunicações dos Espíritos, espalhadas pelo mundo. Não nasceu do cérebro de Kardec, mas, sim, de milhares de evocações e de fatos, analisados de maneira científica. Repetimos muito isso, pois esse entendimento é substancial.

Já no tempo de Allan Kardec, a mediunidade era praticada por toda parte. De início, com muitos erros; depois, conforme o conhecimento foi se estabelecendo, cada vez tomou mais seriedade e mais racionalidade, restando apenas dissidentes e renitentes que, não querendo observar os princípios científicos e levados pelo amor-próprio, insistiam em erros banais, que quase sempre os levavam a obsessões. Citamos, há pouco, Roustaing, que, preferindo acreditar cegamente nas palavras de Espíritos que lhe alimentavam o ego, prontamente se virou contra Kardec quando este buscou alertá-lo. É como Ícaro, que, alertado de que não poderia se aproximar do sol sem se queimar, alimentado de ego por suas asas, ignorou os alertas e terminou queimado.

Esse alerta geral vem em encontro à finalização deste importante chamamento: o Espiritismo precisa ser retomado, e isso depende de conhecimento e de cuidados. As evocações precisam ser retomadas. A doutrina dos Espíritos precisa voltar a ser desenvolvida pelos pequenos grupos, cooperando entre si. Esse era o rumo que Kardec buscava dar à ao Espiritismo, pouco antes de sua morte (leia Revista espírita — 1868 > Dezembro > Constituição transitória do Espiritismo), onde o Espiritismo passaria a ser desenvolvido pelos grupos espalhados, coordenados entre si, observando os princípios já estabelecidos pelo método. Pessoas de quaisquer religiões podem fazê-lo, pois a mediunidade não pertence ao Movimento Espírita. O centros precisam voltar a ser centros de estudos, sérios, controlados. Ao retomar as evocações, é evidente que enfrentaremos desafios diferentes; é lógico supor que muitos encontrarão dificuldades e outros tantos cairão no erro da vaidade e do personalismo, lutando para estabelecerem falsas ideias, como já acontece. Infelizmente, os encontraremos sobretudo no Movimento Espírita. Mas são desafios que serão enfrentados e, se o forem com o conhecimento doutrinário já existente, serão rapidamente superados, se é que virão a existir.

Vislumbremos um novo futuro, onde não se briga entre religiões, mas onde indivíduos e grupos cooperam com a restauração das evocações com um propósito maior: o da retomada do desenvolvimento do Espiritismo. Retomaremos o Espiritismo nos lares, como na época de Kardec, onde evocações familiares consolavam, ensinavam e, por vezes, representavam interesse doutrinário. Serão espíritas, ou seus adeptos, pessoas de quaisquer religiões, quaisquer credos, ou mesmo descrentes, que, com o firme propósito de aprender e com a plena consciência de não serem os detentores da verdade, buscarão, pelas evocações e pela colaboração, restaurar o caminho momentaneamente interrompido do Espiritismo, doutrina capaz de revolucionar ideias e, assim, transformar indivíduos, famílias, grupos e, por fim, o mundo. A verdade não pertence a ninguém, mas as teorias que mais se aproximam dela poderão ser encontradas por aquela máxima expressa por Allan Kardec, representando o método científico no Espiritismo:

Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.

Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade.

Allan Kardec – A Gênese

Contamos com seus comentários abaixo.




Espiritismo e Ciência: superando desafios e erros modernos

O Espiritismo, como ciência de aspecto filosófico e consequências morais ((O Espiritismo somente pode ser visto como religião do ponto de vista filosófico, disse Kardec, justamente se baseando na filosofia de então, o Espiritualismo Racional, de onde o Espiritismo se desenvolveu.)), formada através do método científico, vive desafios de todos os lados. Colocado em figura, parece-se com a mais bela flor, do mais suave perfume e das maiores propriedades curativas, abafadas pelos espinhos e pelas ervas-daninhas.

Surgem de todos os lados as mais diversas dificuldades, nascidas principalmente de uma falta de empenho, de zelo e de cuidado. Sob essa nomenclatura, admitem quaisquer tipos de ideias, provenientes da boca ou da intermediação mediúnica de indivíduos tornados ícones inquestionáveis. Não bastasse isso, ausentes de conhecimento sobre o que seja ciência e sobre o necessário método científico, responsável justamente pela força inatacável da Doutrina nascida dos estudos coordenados por Allan Kardec, a maioria dos pesquisadores modernos promove, no meio espírita, novas ideias, novas teorias, distraindo-se do ponto essencial: as evocações, produzindo ensinamentos concordantes entre si, então submetidos à análise racional, frente à ciência humana e frente àquilo que já havia sido construído pelo mesmo método.

Método Científico

Retomemos, por um momento, a questão da definição do método científico, exemplificado na figura em anexo. Para quem se dedicou a estudar pelo menos o primeiro ano da Revista Espírita (1858), ficará muito fácil identificar os mesmos passos tomados por Kardec:

  • a observação sistemática e controlada de certos fenômenos e, depois, das evocações;
  • a verificação de fatos identificados;
  • a investigação de hipóteses, que formam uma teoria, coesa em si mesma, de onde se obtêm implicações, conclusões e previsões;
  • a realização de experimentos, através das evocações, de onde se obtém novas observações, analisadas racional e logicamente;
  • daí, a observação de novos fatos, que corroborarão ou não com a teoria;
  • por final, agregar os resultados dessas observações à teoria científica, se corroborarem com ela, ou reciclar hipóteses, realizando novas observações e percorrendo, novamente, o mesmo método.
Exemplificação do método científico

Um fato muito notável, que denota o rigor científico de Kardec e o seu compromisso indissolúvel com a ciência verdadeira, é que ele nunca se apegou a qualquer ideia no estudo do Espiritismo. Quem passou sobre o estudo da Revista Espírita de 1858 e 1859 já compreende isso muito bem. Um exemplo disso é o estudo tratado principalmente a partir da RE de julho de 1859, iniciando no artigo O Zuavo de Magenta e concluído (pelo menos de momento) nos artigos do mês seguinte. Destacamos o estudo no artigo Materialidade de Além-Túmulo.

E é justamente nesse ponto, o do apego às ideias, somados à ausência do método necessário, que erra a imensa maioria dos pesquisadores modernos do Espiritismo.

O erro do movimento espírita moderno

O grande problema surge a partir do momento em que, abandonando o método científico indispensável para a ciência espírita, o Movimento Espírita passou a admitir teorias contrárias aos princípios já solidificados pelo mesmo método, tais como as ideias de colônias espirituais, umbral, etc., caindo no erro mais básico do espírita empolgado: crer cegamente nas opiniões dos Espíritos.

Não dizemos que o Espiritismo, estudado por Kardec, já tenha observado tudo o que há para ser observado. É claro que não. O que dizemos é que o movimento espírita moderno criou um grande conjunto de teorias que não podem enfrentar o método científico, porque não passaram por ele!

Encontramos, muito frequentemente, mesmo aqueles pesquisadores dedicados e de boa vontade — não tomaremos deles esse ímpeto verdadeiro — que, contudo, apegam-se às mais diversas ideias e que muito rapidamente se mostram irritado pela contradita daquilo que, cientificamente, faz parte dos princípios doutrinários do Espiritismo.

A base da metodologia indispensável no Espiritismo

Retomemos, aqui, o que está destacado em nossa página inicial – uma citação de Allan Kardec em A Gênese:

Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.

Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade.

Allan Kardec — A Gênese

A afirmação acima destacada, feita por Kardec, não é mero fruto de uma sistematização pessoal. Muito pelo contrário: ela representa o método científico necessário para o estudo e o desenvolvimento do Espiritismo. Não basta que um mesmo princípio seja consagrado pela generalidade (o que requer o emprego das evocações, porque não basta que apenas nos coloquemos no papel de ouvir e aceitar o que dizem os Espíritos); não: é necessário, além disso, que essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos seja passada pelo critério da lógica, o que quer dizer confrontá-la frente à ciência humana e o método científico, para que, apenas assim, possa ser tomada como princípio do Espiritismo.

Note, ademais, o termo “opinião” utilizado por Kardec, não por acaso: o que dizem os Espíritos, através das comunicações mediúnicas, são opiniões próprias, nascidas de seus conhecimentos e suas próprias observações, quando não são frutos de uma deliberada intenção de mistificar, isto é, promover falsas ideias. Acontece nos melhores grupos. As opiniões dos Espíritos, como as opiniões dos seres humanos, podem estar carregadas de crenças, falsas ideias, pouco conhecimentos, ilusões, etc. Como, então, analisá-las de forma científica? Através da observação psicológica dessas comunicações.

As nuances em uma ciência psicológica

Quem já estudou pelo menos os dois primeiros anos da Revista Espírita nota que, ainda ao final do segundo ano, Kardec continua frequentemente questionando ao Espírito comunicante como ele chegou ali, como ele se apresenta, como ele vê outros Espíritos, etc. Se uma resposta destoar da teoria científica ou trouxer novos fatos, será investigado pelas evocações e segundo o método científico — o que não é realizado hoje em dia.

Kardec investigou, dentre tantas coisas, a questão da dor no Espírito. Houve aqueles que afirmaram sentirem frio ou calor; dores; fome; vermes roendo seu corpo, etc. Foi pelo estudo dedicado, pela análise racional nas nuances psicológicas dessas comunicações, que Kardec chegou a diversos princípios científicos doutrinários. Um exemplo disso é a comunicação do Espírito do assassino Lemaire na RE de março de 1858:

6. Imediatamente após a tua execução, tiveste consciência de tua nova existência? — Eu estava mergulhado numa perturbação imensa, da qual ainda não saí. Senti uma grande dor; parece que meu coração a sentiu. Vi qualquer coisa rolar ao pé do cadafalso. Vi o sangue correr e minha dor tornou-se mais pungente.

Kardec poderia facilmente, não fosse seu rigor científico, admitir que o Espírito sofria materialmente de uma dor no coração. Mas ele investiga:

7. Era uma dor puramente física, semelhante à causada por uma ferida grave, como, por exemplo, a amputação de um membro? — Não. Imagina um remorso, uma grande dor moral.

Poderíamos citar uma enorme diversidade de casos que ilustram esse princípio científico, mas deixamos a cargo da curiosidade sadia do leitor o propósito de estudar a Doutrina que abraça.

O Espiritismo precisa de defesa

Deixar de lado o método científico é um grande erro da maior parte dos pesquisadores modernos do Espiritismo, que visa construir novos princípios doutrinários sem passar por esse processo, quando deveria estar não só praticando as evocações, frente ao estudo dedicado da Revista Espírita, como também deveria estar a todo tempo incitando o movimento espírita a fazê-lo.

Por não fazê-lo, jogam mais uma pá de cal sobre o Espiritismo, produzindo, dele, uma má impressão e uma falsa ideia ante o meio científico, que não o reconhece como algo nascido da ciência, mas como uma mera crendice supersticiosa ou uma religião. Não são raras as vezes em que me deparo com alegações de pessoas que, não tendo tido a chance de conhecer o que realmente seja o Espiritismo, dele se afastaram por não poder admitir, pela razão, que, por exemplo, um Espírito tenha que tomar um ônibus voador para se locomover.

Temos muito a fazer e você já deve ter percebido que o primeiro passo é estudar.




Cidades no mundo Espiritual: Materialidade do Além-Túmulo

Recentemente, uma série de estudos da Revista Espírita nos suscitaram um interessante aprendizado, que vai diretamente de encontro com as ideias de cidades no mundo espiritual, que muitos acreditam e divulgam. O estudo foi realizado sobre os seguintes artigos da Revista Espírita:

  • Julho de 1859:

    • O zuavo de Magenta;

      • Um oficial superior morto em Magenta

  • Agosto de 1859:
    • Mobiliário de além-túmulo;
    • Pneumatografia ou escrita direta;
    • Um espírito serviçal;
    • O guia da senhora Mally

Além disso, utilizamos a conclusão de Kardec em A Gênese (Editora FEAL) — Natureza e Propriedade dos Fluidos.

Vamos destacar os pontos principais do estudo, onde relacionamos nossos comentários entre colchetes ([comentário]).

O zuavo de Magenta

45. ─ Sabeis a razão pela qual nos vedes, ao passo que nós não vos podemos ver?

─ Acredito que vossos óculos estão muito fracos.

[Ele não sabe. Por isso, usa uma metáfora ou figura de linguagem.]

46. ─ Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme?

─ Sim, mas ele não o veste todos os dias.

47. ─ Em que dias o veste?

─ Ora essa! Quando o chamam ao palácio.

[Os Espíritos, ignorantes de certas coisas, expressam-se como podem, e veem o mundo dos Espíritos conforme suas ideias, assim como uma criança, utilizando imagens mentais para descrever algo que ela não compreende, fala de coisas que imputamos apenas à imaginação, mas que, no fundo, tem seu significado. O erro, aqui, seria tomar o “palácio” como uma expressão da verdade espiritual permanente.]

48. ─ Por que estais aqui vestido de zuavo se não vos podemos ver?

─ Simplesmente porque ainda sou zuavo, mesmo depois de cerca de oito anos, e porque entre os Espíritos conservamos essa forma durante muito tempo. Mas isso apenas entre nós. Compreendeis que quando vamos a um mundo muito diferente, como a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer essa toalete toda.

[Isso aqui é muito interessante. O que entendemos é que ele está se referindo ao fato de Espírito adotar uma forma perispiritual de acordo com o mundo onde vai e de acordo com a existência de uma personalidade nesse mundo, sem nem perceberem. Se tivesse vivido em um mundo distante como, por exemplo, um vendedor de animais, ao ser lá evocado, se apresentaria dessa forma. Ao se deslocar no espaço, sem ser evocado, não toma forma específica, ou seja, “não precisa fazer essa toalete toda”.]

49. ─ Falais da Lua e de Júpiter. Porventura já lá estivestes depois de morto?

─ Não. Não estais me entendendo. Depois da morte nos informamos de muitas coisas. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte, o Espírito sofre uma metamorfose que não podeis compreender.

[Ele está tentando explicar o pensamento anterior, sem saber como fazê-lo.]

Um oficial superior morto em Magenta

13. ─ No momento da morte vos reconhecestes imediatamente?

─ Reconheci-me quase que imediatamente, graças às vagas noções que tinha do Espiritismo.

14. ─ Podeis dizer algo a respeito do Sr… também morto na última batalha?

─ Ele ainda está nas redes da matéria. Tem mais trabalho em se desvencilhar. Seus pensamentos não se tinham voltado para este lado.
OBSERVAÇÃO: Assim, o conhecimento do Espiritismo auxilia no desprendimento da alma após a morte e abrevia o período de perturbação que acompanha a separação. Isto é compreensível, pois o Espírito conhecia antecipadamente o mundo em que se encontra.

[Se esse conhecimento é tão importante, como conceber que justamente no momento em que o Espiritismo era estudado cientificamente, no melhor momento possível, nada foi falado a respeito dessa materialidade que hoje domina as comunicações?]

Mobiliário de além-túmulo

Até aqui nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, porém, que se apresentam com roupagens cujo aspecto mudam à vontade; por vezes mesmo têm certos acessórios de toalete, joias, etc. Nas duas aparições citadas no começo, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra, uma tabaqueira e tomava pitadas. Note-se, entretanto, o fato de que este Espírito era de uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que tinha ficado em casa. Que significam, então, essa tabaqueira, esse cachimbo, essas roupas e essas joias? Os objetos materiais que existem na Terra teriam uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos?

Eis um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma porção de coisas até aqui não explicadas. Foi essa tabaqueira que nos pôs no caminho, não apenas do fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o fenômeno da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos a seguir.

[Posição do verdadeiro cientista, em busca da verdade, sem nada descartar.]

3. ─ Essa tabaqueira tinha a forma daquela que ele usa habitualmente, e que estava em sua casa. O que era essa tabaqueira entre as mãos do Espírito?

─ Sempre aparência. Era para que as circunstâncias fossem notadas, como o foram, e para que a aparição não fosse tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde da vidente. O Espírito queria que essa senhora acreditasse na realidade de sua presença e tomou todas as aparências da realidade.

4. ─ Dizeis que é uma aparência, mas uma aparência nada tem de real; é como uma ilusão de óptica. Eu gostaria de saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem irreal, como, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.

(Um dos membros da Sociedade, o Sr. Sanson, faz observar que na imagem reproduzida pelo espelho há qualquer coisa de real. Se a imagem não fica no espelho, é que nada a fixa, mas se for projetada sobre uma chapa do daguerreótipo, deixa uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e que não é apenas uma ilusão de óptica).

4 (continuação) – A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de nos dizer se existe alguma analogia com a tabaqueira, isto é, se existe algo de material nessa tabaqueira?
─ Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta semelhante às que o Espírito usava quando vivo.

[Sabemos, hoje, o princípio da imagem refletida em um espelho e sua fixação em uma fotografia: o comportamento de ondas. A luz, como energia eletromagnética, reflete no espelho e impressiona o dispositivo de fotografia, seja ele qual for. Parece que é a esse mesmo princípio (de onda) que o Espírito se refere.]

OBSERVAÇÃO: Evidentemente o vocábulo aparência deve aqui ser tomado no sentido de imagem, de imitação. A tabaqueira real lá não estava. A que o Espírito tinha era apenas uma reprodução. Comparada à original, era apenas uma aparência, conquanto formada por um princípio material.

A experiência nos ensina que não devemos tomar ao pé da letra certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as segundo as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos, por isso devemos aprofundar o sentido de suas palavras, sempre que existe uma ambiguidade mínima. Eis uma recomendação feita constantemente pelos Espíritos. Sem a explicação que provocamos, o vocábulo aparência, repetido continuamente em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação [Pois “aparência” poderia dar lugar à ideia de algo que não existe.].

5. ─ Haveria um desdobramento da matéria inerte? Haveria, no mundo invisível, uma matéria essencial, revestindo a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, esses objetos teriam o seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?

OBSERVAÇÃO: Eis uma teoria como qualquer outra, e que era pensamento nosso. O Espírito, no entanto, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque sua explicação nos pareceu muito lógica e porque ela repousa sobre um princípio mais geral, do qual encontramos muitas explicações.

─ Isto não se passa dessa maneira. O Espírito tem sobre os elementos materiais disseminados em todo o espaço, na nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à vontade, concentrar esses elementos e lhes dar uma forma aparente, adequada a seus projetos.

6. ─ Faço novamente a pergunta de maneira categórica, a fim de evitar qualquer equívoco. As roupas com que se cobrem os Espíritos são alguma coisa?

─ Parece que a minha resposta anterior resolve a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. ─ Resulta desta explicação que os Espíritos fazem a matéria eterizada sofrer transformações à sua vontade e que, assim, no caso da tabaqueira, o Espírito não a encontrou perfeitamente acabada; ele mesmo a fez no momento em que dela necessitava, e depois a desfez. O mesmo deve acontecer com todos os outros objetos, tais como vestimentas, joias, etc.

─ Mas é evidente.

8. ─ Essa tabaqueira foi tão perfeitamente visível para a senhora R… a ponto de iludi-la. Poderia o Espírito tê-la tornado tangível?

─ Poderia.

9. ─ Nesse caso, a senhora R… poderia tê-la tomado nas mãos, julgando pegar uma autêntica tabaqueira?

─ Sim.

10. ─ Se a tivesse aberto teria provavelmente encontrado rapé. Se o tivesse tomado, ele a teria feito espirrar?

─ Sim.

11. ─ Pode então o Espírito dar não somente a forma, mas até propriedades especiais?

─ Se o quiser; é em virtude deste princípio que respondi afirmativamente às questões precedentes. Tereis provas da poderosa ação que o Espírito exerce sobre a matéria e que, como já vos disse, estais longe de suspeitar.

[Sabemos, hoje, que a Criação está longe de ser um “cada um por si”, e que, na verdade, é um “um por todos e todos por um”, sendo que aqueles mais inferiores são sempre “conduzidos” pelos mais elevados.]

12. ─ Suponhamos então que ele tivesse querido fazer uma substância venenosa e que uma pessoa a tivesse tomado. Esta teria sido envenenada?

─ Poderia, mas não teria feito, porque não teria tido permissão para fazê-lo.

13. ─ Teria podido fazer uma substância salutar e própria para curar, em caso de moléstias? Já houve esse caso?

─ Sim; muitas vezes.

OBSERVAÇÃO: Um fato desse gênero será encontrado com uma explicação teórica muito interessante no artigo que damos a seguir sob o título Um Espírito serviçal.

14. ─ Assim também poderia ele fazer uma substância alimentar; suponhamos que tivesse feito um fruto ou um petisco qualquer. Poderia alguém comê-lo e sentir-se alimentado?

─ Sim, sim. Mas não procureis tanto para encontrar aquilo que é fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço em cujo meio viveis. Não sabeis que o ar contém vapor d’água? Condensai-o e o levareis ao estado normal. Privai-o do calor e eis que suas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão corpo sólido e muito sólido. Outras matérias existem que levarão os químicos a vos apresentar maravilhas ainda mais assombrosas. Só o Espírito possui instrumentos mais perfeitos que os vossos: a sua própria vontade e a permissão de Deus. 

OBSERVAÇÃO: A questão da saciedade é aqui muito importante. Como uma substância que tem apenas existência e propriedades temporárias e, de certo modo, convencionais, pode produzir a saciedade? Por seu contato com o estômago, essa substância produz a sensação de saciedade, mas não a saciedade resultante da plenitude. Se tal substância pode agir sobre a economia orgânica e modificar um estado mórbido, também pode agir sobre o estômago e produzir a sensação da saciedade. Contudo, pedimos aos senhores farmacêuticos e donos de restaurantes que não tenham ciúmes, nem pensem que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros e excepcionais e jamais dependem da vontade. Do contrário, a alimentação e a cura seriam muito baratas.

15. ─ Do mesmo modo poderia o Espírito fabricar moedas?

─ Pela mesma razão.

16. ─ Desde que tornados tangíveis pela vontade do Espírito, poderiam esses objetos ter um caráter de permanência e de estabilidade?

─ Poderiam, mas isto não se faz. Está fora das leis.

17. ─ Todos os Espíritos têm esse mesmo grau de poder?

─ Não, não.

[Porque apenas os Espíritos superiores poderiam fazê-lo (resposta seguinte).]

18. ─ Quais os que têm mais particularmente esse poder?

─ Aqueles a quem Deus o concede, quando isto é útil.

19. ─ A elevação de um Espírito influi nesse caso?

─ É certo que quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder. Isto, porém, depende das circunstâncias. Espíritos inferiores também podem obtê-lo.

[E, nesse caso, são supridos pela assistência de Espíritos superiores, muitas vezes sem nem saberem disso. Ver O Livro dos Médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores > Segunda parte — Das manifestações espíritas > Capítulo V — Das manifestações físicas espontâneas > Arremesso de objetos.]

20. ─ A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou por vezes ele exerce esse poder malgrado seu?

─ Isso frequentemente acontece malgrado seu.

[Quer dizer: ele nem percebe, conscientemente, que faz o que faz.]

21. ─ Seria então esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma das propriedades, como a de ver e ouvir?─ Certamente. Mas por vezes ele mesmo o ignora. Então outro o exerce por ele, malgrado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem chistosa.

OBSERVAÇÃO: Encontramos um exemplo dessa faculdade em certos animais, como, por exemplo, no peixe-elétrico, que irradia eletricidade sem saber o que faz, nem como, e que nem ao menos conhece o mecanismo que a produz. Nós mesmos por vezes não produzimos certos efeitos por atos espontâneos dos quais não nos damos conta? Assim, pois, parece-nos muito natural que o Espírito opere nessa circunstância por uma espécie de instinto. Ele opera por sua vontade, sem saber como, assim como nós andamos sem calcular as forças que colocamos em jogo.

OBSERVAÇÃO: Esse era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação consta do nosso número de março de 1858, que ainda se julgava coberta de diamantes.

23. ─ Dois Espíritos podem reconhecer-se mutuamente pela aparência material que tinham em vida?

─ Não é por esse meio que eles se reconhecem, pois não tomarão essa aparência um para o outro. Se, porém, em certas circunstâncias, se acham em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?

[Isto aqui é importante! Nos romances mediúnicos, o mundo fantástico criado é todo material ou materialista, e a forma, nesses contos, é fundamental. Aqui, temos novamente a confirmação já feita antes que a forma não é importante para os Espíritos em geral, embora seja predominante para os Espíritos ainda muito presos à matéria (ou seja, de pensamento muito apegado). Decorre daí que faria sentido um Espírito em perturbação “se ver” numa condição como aquela do umbral de André Luiz, mas o mesmo não poderia se dar quando já desapegado dessas ideias, o que não parece ser algo tão distante, conforme o relato de vários Espíritos, dados a Kardec.]

24. ─ Como podem os Espíritos reconhecer-se no meio da multidão de outros Espíritos, e sobretudo como podem fazê-lo quando um deles vai procurar em lugar distante e muitas vezes em outros mundos, aqueles que chamamos?

─ Isto é uma pergunta cuja resposta levaria muito longe. É necessário esperar.

Não estais suficientemente adiantados. No momento contentai-vos com a certeza de que assim é, pois disso tendes provas suficientes.

25. ─ Se o Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas e dar a elas uma realidade temporária, com suas propriedades, também pode tirar dali o necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dá a chave do fenômeno da escrita direta((A escrita direta acontece quando um Espírito, pela vontade e com a utilidade em fazê-lo, faz aparecer, sobre um papel, uma escrita real, ora em grafite, ora em tinta, ora em formato de impressão. Recomendamos a leitura do artigo seguinte, “Pneumatografia ou escrita direta”, assim como do artigo de mesmo título, em maio de 1860, e também do Capítulo XII de O Livro dos Médiuns  — “Da pneumatografia ou escrita direta”. 

Pneuma: entre os antigos pensadores gregos, sobretudo os estoicos, designativo do espírito, sopro animador ou força criadora, usada pela razão divina para vivificar e dirigir todas as coisas.)).

─ Finalmente o compreendeis.

[amadurecimento científico]

26. ─ Se a matéria de que se serve o Espírito não é permanente, como não desaparecem os traços da escrita direta?

─ Não julgueis pelas palavras. Desde o início eu nunca disse jamais. Nos casos estudados, tratava-se de objetos materiais volumosos; aqui se trata de sinais que convém conservar e são conservados.

[Entendo que S. Luis afirma que essa matéria não é impermamente, e que ela se desfaz quando é “condensada” apenas por um efeito passageiro, por Espíritos inferiores. No caso da escrita direta, se há interesse em conservá-la, ela é conservada. O Cap. VI – Uranografia Geral – n’A Gênese, dá a chave para esse entendimento.]

A teoria acima pode resumir-se assim: O Espírito age sobre a matéria; tira da matéria primitiva universal os elementos necessários para, à vontade, formar objetos com a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Também pode operar sobre a matéria elementar, por sua vontade, uma transformação íntima que lhe dá determinadas propriedades. Essa faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce, quando necessário, como um ato instintivo, que não chega a perceber.

[É importante notar que, depois, parece ficar claro que essa interação sobre a matéria nunca é direta, mas que necessita do fluido perispiritual do encarnado para acontecer.]

Os objetos formados pelos Espíritos têm uma existência temporária, subordinada à sua vontade ou à necessidade. Ele pode fazê-los e desfazê-los à vontade. Em certos casos, aos olhos das pessoas vivas, esses objetos podem ter todas as aparências da realidade, isto é, tornar-se momentaneamente visíveis e até tangíveis. Há formação, mas não criação, visto que o Espírito nada pode tirar do nada. (O Livro dos Médiuns, questões 130 e 131).

O guia da senhora Mally

O artigo “Um espírito serviçal”, do mesmo número, apresenta o caso da senhora Mally, onde, ao seu redor, muitos fatos interessantes acontecem. Desde cedo tinha a capacidade de visão de Espíritos. Certas vezes, via seu Espírito guia; outras, via aparições desagradáveis, que tinham o intuito de chamar sua atenção para manter-se vigilante. Chegou a haver a materialização de um Espírito (agênere).

“Em 1856, a terceira filha da Senhora Mally, de quatro anos de idade, caiu doente. Foi em agosto. A criança estava continuamente mergulhada num estado de sonolência, interrompido por crises e convulsões. Durante oito dias eu mesmo [o correspondente] vi a criança, que parecia sair do seu abatimento, tomar uma expressão sorridente e feliz, de olhos semicerrados, sem olhar para os que a cercavam; estender a mão em gesto gracioso, como para receber alguma coisa; levá-la a boca e comer; depois agradecer com um sorriso encantador. Durante esses oito dias a menina foi sustentada por esse alimento invisível e seu corpo readquiriu a aparência de frescura habitual.”

[O artigo é interessante e recomendamos a leitura. Vamos seguir para a evocação do guia da Sra. Mally.]

A evocação inicia-se com o estabelecimento das relações daquele Espírito com a sra Mally: tinham uma relação de simpatia antiga. O Espírito era o de um menino de oito anos, falecido há muito tempo. Kardec pergunta se era sempre ele quem aparecia para ela, e ele diz que não, mas assevera que é ele mesmo quem produzia certos fenômenos materiais *:

13. ─ Então você tem o poder de se tornar visível à vontade?

─ Sim, mas eu disse que não era eu.

14. ─ Você também não tem nada a ver com as outras manifestações materiais produzidas na casa dela?

─ Perdão! Isto sim. Foi o que eu me impus, junto a ela, como trabalho material, mas faço para ela outro trabalho muito mais útil e muito mais sério.

* Kardec diz, no artigo anterior: “Por outras manifestações ele revela o seu estado moral. Esse Espírito tem um caráter pouco sério, entretanto, ao lado de sinais de leviandade, deu provas de sensibilidade e dedicação.”

16. ─ Você poderia tornar-se visível aqui, a um de nós?

─ Sim, se pedirdes a Deus para que isso aconteça. Eu posso, mas não ouso fazê-lo.

17. ─ Se você não quer tornar-se visível, poderia pelo menos dar-nos uma manifestação, como por exemplo trazer qualquer coisa para cima desta mesa?

─ Certamente, mas qual seria a utilidade? Para ela é assim que eu testemunho a minha presença, mas para vós isto seria inútil, pois estamos conversando.

18. ─ O obstáculo não seria a falta de um médium, necessário para produzir essas manifestações?

─ Não, isto é um pequeno obstáculo. Não vedes frequentemente aparições súbitas a pessoas sem nenhuma mediunidade?

19. ─ Então todo mundo é apto a ver aparições espontâneas?

─ Sim, pois todo ser humano é médium.

20. ─ Entretanto, o Espírito não encontra no organismo de certas pessoas uma facilidade maior para comunicar-se?

─ Sim, mas eu vos disse ─ e vós deveis sabê-lo ─ que os Espíritos têm o poder por si mesmos. O médium nada é. Não tendes a escrita direta? É necessário médium para isso? Não, mas apenas a fé e um ardente desejo. E ainda às vezes isto se produz a despeito dos homens, isto é, sem fé e sem desejo.

[Aqui, Kardec está aprofundando os estudos. Não podemos tomar isso como conclusivo, pois, talvez, o que diz esse Espírito não seja a verdade, mas apenas o que ele compreende. Contudo, não é difícil pensar que, se a Matéria forma-se pelo pensamento dos Espíritos puros, formas materiais muito simples possam ser formadas, sob essa influência e por sua utilidade, por Espíritos menos elevados.]

21. ─ Você acha que as manifestações, como a escrita direta, por exemplo, se tornarão mais comuns do que são hoje?

─ Certamente. Como compreendeis, então, a vulgarização do Espiritismo?

22. ─ Você pode explicar-nos o que é que a filha da senhora Mally pegava na mão e comia quando estava doente?

Maná, uma substância criada por nós, que encerra o princípio contido no maná ordinário e a doçura do confeito.

23. ─ Essa substância é formada da mesma maneira que as roupas e os outros objetos que os Espíritos produzem por sua vontade e pela ação que exercem sobre a matéria?

─ Sim, mas os elementos são muito diferentes. Os ingredientes que formam o maná não são os mesmos que eu arranjava para criar madeira ou roupa.

[“Não devemos tomar ao pé da letra certas expressões usadas pelos Espíritos”. Sigamos, antes de formar ideias]

24. ─ (A São Luís) Os elementos utilizados pelo Espírito para formar seu maná eram diferentes dos que ele tomava para formar outras coisas? Sempre nos disseram que há um só elemento primitivo universal, do qual os diferentes corpos são simples modificações.

[Aqui, por haver dúvida ou imprecisão na resposta daquele Espírito, Kardec questiona a São Luis, Espírito guia do grupo. É o princípio que demonstramos em nosso artigo recente]

─ Sim. Isto significa que esse elemento primitivo está no espaço, aqui sob uma forma, ali sob outra. É o que ele quer dizer. Ele obtém o seu maná de uma parte desse elemento, que supõe diferente, mas que é sempre o mesmo.

25. ─ A ação magnética pela qual se pode dar propriedades especiais a uma substância, como à da água, por exemplo, tem relação com a do Espírito que cria uma substância?

─ O magnetizador não emprega nada além da sua vontade. É um Espírito que o ajuda, que se encarrega de preparar o remédio.


Análise sobre passagem em “Nosso Lar”

Em Nosso Lar, vemos a seguinte passagem. Analisemo-la:

A mensageira do bem fixou o quadro, compreendeu a gravidade do momento e acrescentou:

– Não temos tempo a perder.

Antes de tudo, aplicou passes de reconforto ao doente, isolando-o das formas escuras, que se afastaram como por encanto. Em seguida, convidou-me com decisão:

– Vamos à Natureza.

Acompanhei-a sem hesitação e ela, notando-me a estranheza, acentuou:

– Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los. As forças naturais fazem o mesmo, nos reinos diversos em que se subdividem. Para o caso do nosso enfermo, precisamos das árvores. Elas nos auxiliarão eficazmente.

Admirado da lição nova, segui-a, silencioso. Chegados a local onde se alinhavam enormes frondes, Narcisa chamou alguém, com expressões que eu não podia compreender.

[É claro que os Espíritos não falavam pela boca. Isso é uma figura de linguagem. A expressão é do pensamento, e André Luiz não conseguia compreender esses pensamentos, ainda.]

Daí a momentos, oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo. Imensamente surpreendido, vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos. Devidamente informada pelos amigos, que me eram totalmente estranhos, a enfermeira explicou:

– São servidores comuns do reino vegetal, os irmãos que nos atenderam.

[Os mais elevados, SERVEM. Não são “duendes”. São Espíritos, ocupando suas atividades na natureza. Não vivem em meio à mata, mas se ocupam desse reino, como outros Espíritos se ocuparão de outros. Talvez não sejam mais adiantados que nós, mas são mais adiantados que aqueles que ainda estão na posição do Princípio Inteligente. Por isso, servem ao seu propósito. As obras mediúnicas precisam, com base no Espiritismo, ser relidas e, se ainda restar dúvida, esses Espíritos devem ser EVOCADOS!]

E, à vista da minha surpresa, rematou:

– Como vê, nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai. Em toda parte, se há quem necessite aprender, há quem ensine; e onde aparece a dificuldade, surge a Providência. O único desventurado, na obra divina, é o espírito imprevidente, que se condenou às trevas da maldade.

[Aqui, ela reforça o ensinamento, asseverando que o Espírito (portanto, consciente) que voluntariamente se condenou à trevas, isto é, que voluntariamente se apegou à imperfeição, é o único que se afasta do “caminho”, que é a relação constante dos Espíritos, aprendendo, cooperando e ensinando, em direção ao bem.]

Narcisa manipulou, em poucos instantes, certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira [“[o] elemento primitivo está no espaço, aqui sob uma forma, ali sob outra”] e, durante toda a noite, aplicamos o remédio ao enfermo, através da respiração comum e da absorção pelos poros.


Continuando: O guia da senhora Mally

26. ─ (Ao guia) Há tempos relatamos fatos curiosos de manifestações de um Espírito por nós designado com o nome de Duende de Bayonne. Você conhece esse Espírito?

─ Particularmente, não, mas acompanhei o que fizestes a seu respeito e foi dessa forma que tomei conhecimento dele.

27. ─ Ele é um Espírito de ordem inferior?

─ Inferior quer dizer mau? Não. Quer dizer, simplesmente: não inteiramente bom, pouco adiantado? Sim.

[Espírito inferior não é sinônimo de Espírito imperfeito, porque a imperfeição é algo adquirido pelo hábito e pela vontade. Na Escala Espírita, isso fica claro.

Tudo isso está sendo fantástico! Poder verificar, na RE, a confirmação, dada por toda parte, daquilo que se conclui nas obras finais. Mal sabem, os resistentes, a riqueza que existe nesse estudo!]

28. ─ Agradecemos pela bondade de ter vindo, e pelas explicações que nos deu.

─ Às vossas ordens.

OBSERVAÇÃO: Oferece-nos esta comunicação um complemento àquilo que dissemos nos dois artigos precedentes sobre a formação de certos corpos pelos Espíritos. A substância dada à criança, durante a doença, evidentemente era preparada por eles e objetivava restaurar a saúde. De onde tiraram os seus princípios? Do elemento universal, transformado para o uso desejado. O fenômeno tão estranho das propriedades transmitidas por ação magnética, problema até aqui inexplicado, e sobre o qual se divertiram os incrédulos, está agora resolvido. Com efeito, sabemos que não são apenas os Espíritos dos mortos que agem, mas que os dos vivos também têm a sua parte de ação no mundo invisível. O homem da tabaqueira dá-nos a prova disso. Que há, pois, de admirável em que a vontade de uma pessoa, agindo para o bem [Lei], possa operar uma transformação da matéria primitiva e dar-lhe determinadas propriedades? Em nossa opinião, aí está a chave de muitos efeitos supostamente sobrenaturais, dos quais teremos oportunidade de falar.

É assim que, pela observação, chegamos a perceber as coisas que fazem parte da realidade e do maravilhoso. Mas quem diz que esta teoria é verdadeira? Vá lá! Ela tem pelo menos o mérito de ser racional e de estar perfeitamente em concordância com os fatos observados. Se algum cérebro humano achar outra mais lógica do que esta dada pelos Espíritos, que sejam comparadas. Um dia talvez nos agradeçam por termos aberto o caminho ao estudo racional do Espiritismo.

Certo dia alguém nos dizia: “Eu bem que gostaria de ter um Espírito serviçal às minhas ordens, mesmo que tivesse de suportar algumas travessuras que me fizesse.”

É uma satisfação que a gente desfruta sem o perceber, porque nem todos os Espíritos que nos assistem se manifestam de maneira ostensiva, mas nem por isso deixam de estar ao nosso lado e, pelo fato de ser oculta, sua influência não é menos real.

A Gênese (FEAL) > Natureza e Propriedade dos Fluidos

Como já foi demonstrado, o fluido cósmico universal é a matéria elementar primitiva da qual as modificações e transformações constituem a inumerável variedade de corpos da natureza. Como princípio elementar do Universo, ela apresenta dois estados distintos: o de eterização ou de imponderabilidade que se pode considerar como o estado primitivo, e o de materialização ou de ponderabilidade, que vem a ser, de alguma forma, sua consequência. O ponto intermediário é o de transformação do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não existe transição brusca, pois pode-se considerar nossos fluidos imponderáveis como um ponto intermediário entre os dois estados ((Para compreender as afirmações de Allan Kardec é fundamental considerar que havia em seu tempo, na Física, a teoria de que a matéria seria constituída por duas classes: matéria comum, tangível ou ponderável, e matéria imponderável ou átomos representativos da luz, da eletricidade, do calor, etc. (são os fluidos luminoso, elétrico, calórico, etc.). Os fluidos psíquicos ou espirituais (tema deste capítulo) seriam, então, estados ainda mais sutis do fluido cósmico universal do que desses fluidos imponderáveis então aceitos. Haveria, então, numa sequência de maior para menor sutiliza: matéria comum, matéria imponderável, matéria psíquica. Atualmente sabemos que a hipótese da substância imponderável é falsa, e esses fenômenos são explicados como ondas eletromagnéticas. Transpondo o raciocínio de Kardec para a Física Moderna, poderíamos concluir que a matéria psíquica ou espiritual estaria acima da luz. Mas essa hipótese leva a questões e implicações mais complexas no atual paradigma científico para as quais não temos nesta obra os desenvolvimentos que permitam resolvê-las. (N. do E.) )).

Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do pensamento e da vontade, que são, para o Espírito, o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem no fluido essa ou aquela direção; eles os aglomeram, combinam ou dispersam e formam conjuntos com uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudam suas propriedades, como um químico muda as de um gás ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção, mas frequentemente são o produto de um pensamento inconsciente, pois basta o Espírito pensar numa coisa para que ela seja feita.

É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado, dotado da vista espiritual, sob a aparência que tinha quando estava vivo, na época em que o conheceu, embora já tenha tido várias outras encarnações. Ele se apresenta com as vestes, os sinais externos, enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc. que tinha; um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não digo que tenham conservado tais aparências; não, certamente, porque, como Espírito, ele não é coxo nem maneta, nem caolho nem decapitado. Mas seu pensamento, se reportando à época em que era assim, seu perispírito toma instantaneamente essa aparência, a qual muda também instantaneamente. Se ele havia sido uma vez negro e outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, de acordo com qual das duas encarnações ele seja evocado e para onde vá seu pensamento.

Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos que estava habituado a utilizar. Um avaro manejará ouro; um militar terá suas armas e seu uniforme; um fumante, seu cachimbo; um trabalhador, sua charrua e seus bois; uma velha mulher, sua roca.

Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito quanto seriam no estado material para o homem encarnado. Mas, pelo fato de serem criados pelo pensamento, sua existência é tão efêmera quanto ele [aqui Kardec faz referência ao artigo abordado anteriormente, Mobiliário de além-túmulo].

Observações nossas

  • O Espírito materializa, pela ação do pensamento, os fluidos, de acordo com sua elevação, seus apegos e suas ideias. Essa materialização pode ir de simples objetos a, provavelmente, amplos cenários, formados em grupo.
  • Espíritos às vezes pouco elevados, mas já desprendidos dos apegos materiais, demonstram não estar envolvidos nessa materialidade, tão predominante em outros.
  • Espíritos pouco esclarecidos formam imagens mentais para descrever algo que eles não compreendem, assim como crianças podem fazer. O papel de um estudioso da psicologia, em ambos os casos, é ir além das imagens e das figuras para entender o fundo do que dizem. 
  • O erro está em se apegar à palavra, de forma literal.
  • Longe de descartarmos como tolice, precisaremos estar prontos para, havendo uma retomada do Espiritismo científico, sabermos filtrar os diversos atavismos que os Espíritos, dominados por essas ideias amplamente disseminadas, poderão utilizar.
  • Como destacamos em artigo recente, é um grave erro formar sistemas sobre metáforas, retiradas de seu contexto e não entendidas corretamente. Para se desfazer desses erros, necessário será retomar o Espiritismo cientificamente, da mesma forma que Kardec realizou.
  • A “codificação” apresenta todos os elementos para entender que a materialidade do mundo espiritual está diretamente ligada ao materialismo dos Espíritos. Aqueles que são mais “espiritualizados”, não necessariamente esclarecidos, não a apresentam, enquanto aqueles que encontram-se em estado de perturbação, causado por imperfeições, frequentemente apresentam ideias de apego à matéria. São fartos esses exemplos. Perguntamos: como, justamente no momento mais importante do Espiritismo, essa suposta realidade de cidades e colônias, que seria tão importante, já que seria imediata à nossa morte, não ficou claramente estabelecida para Kardec? Já tratamos dessas questões em artigo recente, e não vamos repetí-la.