Espiritismo, método científico e o equívoco da exclusão epistemológica
A afirmação de que o Espiritismo não pode ser considerado ciência porque envolveria metafísica parte de um erro conceitual duplo: desconhece o critério histórico de cientificidade e ignora o papel estruturante da metafísica no próprio desenvolvimento das ciências modernas. Quando esse erro é corrigido, a objeção simplesmente não se sustenta.
No século XIX, ciência não era definida pelo objeto estudado, mas pelo método empregado. É nesse ponto que o Espiritismo original, tal como sistematizado por Allan Kardec, se ancora de modo rigoroso na tradição científica reconhecida de sua época — tradição esta que permanece válida em amplas áreas do conhecimento atual.
Com colaboração de Ariane Netto.
O método da concordância e a ciência empírica
O método central utilizado por Kardec foi o método da concordância, formalizado por John Stuart Mill em A System of Logic (1843). O princípio é claro: quando um fenômeno ocorre em múltiplos casos independentes e apenas um elemento comum se repete em todos eles, esse elemento é identificado como causa ou parte essencial da causa.
Esse método não é periférico. Ele fundamenta:
a epidemiologia observacional,
a clínica médica pré-experimental,
a sociologia comparativa,
a biologia evolutiva,
a linguística histórica.
Negar validade científica ao Espiritismo por empregar esse método implica negar, por coerência lógica, o estatuto científico dessas áreas. Não se trata de analogia; trata-se de identidade metodológica.
Kardec aplicou o método de forma estrita: comunicações obtidas por médiuns diferentes, em países distintos, sem contato entre si; rejeição sistemática de mensagens contraditórias; eliminação da autoridade do médium como critério; primazia da convergência factual. Isso caracteriza uma ciência de observação, exatamente como definida no século XIX e ainda praticada hoje fora do laboratório fechado.
Reprodutibilidade: padrão, não repetição mecânica
Um erro recorrente é exigir do Espiritismo a mesma forma de reprodutibilidade da física experimental. Isso é epistemologicamente inválido. Diversas ciências reconhecidas não reproduzem eventos idênticos; reproduzem padrões sob condições variadas. A regularidade observada, não a repetição mecânica, é o critério racional.
O Espiritismo kardeciano atende a esse critério. A negação disso exigiria descartar também história, geologia, paleontologia e cosmologia — áreas que inferem causas e entidades a partir de efeitos observáveis, não diretamente instrumentais.
Metafísica como fundamento da ciência, não seu oposto
A tentativa de desqualificar o Espiritismo chamando-o de “metafísica” falha por ignorar um dado elementar da história das ideias: a ciência moderna nasceu metafísica.
Sem os pressupostos ontológicos e conceituais elaborados por Gottfried Wilhelm Leibniz, em especial na Monadologia, a ciência não teria se organizado como se organizou. Conceitos como substância, identidade, causalidade, lei, continuidade e unidade não são empíricos; são metafísicos. Ainda assim, são indispensáveis para qualquer prática científica.
Leibniz introduziu:
unidades fundamentais não extensas,
causalidade interna,
correlação sistemática entre fenômenos sem contato direto.
Nada disso era observável empiricamente à época, mas tudo isso orientou o desenvolvimento da matemática, da física e da lógica modernas. O mesmo vale para Descartes, Newton e toda a ciência clássica. Eliminar a metafísica retrospectivamente é reescrever a história para atender a um preconceito contemporâneo.
Kardec e a inversão correta da metafísica dogmática
Importa notar: Kardec não construiu um sistema metafísico fechado e depois buscou fatos para confirmá-lo. Ele fez o inverso. Partiu de fenômenos observados e extraiu apenas as consequências ontológicas mínimas exigidas pelos dados. Isso não é metafísica especulativa; é metafísica derivada de observação — exatamente como ocorre em outras ciências.
A objeção moderna ao Espiritismo não é metodológica. É ontológica e cultural. O desconforto não está no método, mas no objeto. Confundir essas duas coisas não é ciência; é ideologia epistemológica.
Conclusão
Negar o caráter científico do Espiritismo kardeciano exige, por coerência, negar:
a indução em ciências não experimentais,
o método comparativo,
a reprodutibilidade por convergência,
a inferência a partir de dados mediatos,
e o papel histórico da metafísica na ciência.
Essa posição não é sustentável. Ou se aceita que o Espiritismo original é uma ciência de observação, com limites claros e método definido, ou se redefine “ciência” de forma tão estreita que grande parte do conhecimento hoje reconhecido cai junto.
O problema, portanto, não está no Espiritismo. Está no critério adotado para julgá-lo.
Ciência além do Empirismo: Modelos, Critérios e o Caso do Espiritismo
Introdução
O Espiritismo, codificado por Allan Kardec no século XIX, propôs-se como uma doutrina fundamentada na observação de fenômenos espirituais e na busca de um conhecimento racional sobre a natureza da alma e sua relação com o mundo material. Pergunta-se se essa proposta – formulada num contexto científico dominado pelo positivismo empirista – pode ser considerada compatível com os modelos contemporâneos de ciência.
Durante o final do século XIX e boa parte do século XX, era comum identificar “ciência” estritamente com empirismo positivista, isto é, com a obtenção de conhecimento apenas por meio de fatos observáveis repetíveis e verificados pelos sentidos. Esse reducionismo, característico do positivismo comteano e do empirismo lógico, gerou críticas posteriores por ignorar aspectos inferenciais e teóricos importantes do fazer científico. Hoje, a filosofia da ciência reconhece modelos alternativos ao mero empirismo, incluindo o método hipotético-dedutivo (testar predições lógicas de hipóteses) e concepções racionalistas que valorizam a coerência lógica e a inferência em domínios onde a experimentação direta é inviável (como cosmologia, paleontologia, arqueologia ou estudos sobre a consciência).
Neste artigo, analisamos comparativamente esses modelos de ciência e o modelo metodológico proposto por Kardec para o Espiritismo, discutindo em que medida há compatibilidade. Sustenta-se, em particular, que: (a) a ciência contemporânea admite formas de validação indireta de hipóteses (por inferência, modelagem e coerência teórica), não se limitando ao empirismo estrito; (b) entidades não observáveis diretamente – por exemplo, partículas subatômicas ou certos objetos astrofísicos – podem ser aceitas cientificamente, desde que seus efeitos sejam detectáveis e se possa testar indiretamente sua existência; (c) o Espiritismo delineou um método sistemático de investigação, baseado na repetição de comunicações mediúnicas independentes com controle de variáveis e comparação de resultados, buscando consistência; (d) a rejeição predominante ao Espiritismo no meio científico atual não deriva, propriamente, de uma falha em seu método investigativo, mas sim de sua ontologia não-materialista, ou seja, de pressuposições metafísicas (a existência de espíritos imortais) que conflitam com o naturalismo metodológico dominante na ciência. Estruturamos a discussão nas seções a seguir: primeiro revisamos os principais modelos de ciência (empirista-positivista, hipotético-dedutivo e científico-racional); depois descrevemos o método do Espiritismo segundo Kardec; então analisamos as compatibilidades e limites entre ambos; por fim, apresentamos as conclusões.
No modelo empirista-positivista, derivado do positivismo de Augusto Comte e, mais tarde, do empirismo lógico do Círculo de Viena, a ciência ideal é aquela baseada apenas em fatos observáveis e mensuráveis, obtidos por meio dos sentidos ou de instrumentos, com verificação repetível. Todo conhecimento deve ser induzido da experiência direta, evitando-se hipóteses metafísicas. Nesse marco, uma proposição científica precisa ser confirmada pela observação sensorial repetida; o que não puder ser observado ou experimentado diretamente seria considerado “não científico”. Essa visão levou à ênfase em experimentos controlados de laboratório e na quantificação rigorosa. Sem dúvida, tal modelo foi crucial para consolidar a metodologia experimental nas ciências naturais. Entretanto, filósofos da ciência subsequentes identificaram limitações sérias nesse empirismo estrito. Primeiro, observações puras não existem: toda observação é guiada por teoria (como notou Norwood Hanson e outros), de modo que confiar apenas nos sentidos ignoraria o papel das hipóteses na construção dos fatos. Segundo, a exigência de verificação estrita mostrou-se problemática – como apontaram os próprios positivistas lógicos ao evoluírem para uma noção de “confirmação” probabilística, já que poucas teorias podem ser verificadas de forma conclusiva. De fato, Popper criticou o verificacionismo, argumentando que mil observações favoráveis não provam uma teoria, mas uma única contrária pode refutá-la; daí a proposta popperiana de usar a falseabilidade como critério de demarcação. Além disso, o empirismo positivista tendia a rejeitar completamente qualquer discussão sobre entidades ou causas não acessíveis diretamente aos sentidos – uma postura que posteriormente foi considerada excessivamente restritiva. Hoje reconhece-se que identificar ciência com simples coleta de dados observáveis é uma postura ingênua. A própria prática científica real nunca foi puramente indutiva: mesmo durante o apogeu do positivismo, cientistas como Maxwell ou Darwin construíam modelos teóricos para explicar os dados, indo além do “que se vê”. Em suma, o modelo empirista-positivista legou a ênfase na objetividade e na repetição experimental, mas foi superado por concepções mais abrangentes.
O modelo hipotético-dedutivo descreve a ciência como um processo em que se formulam hipóteses e teorias e, em seguida, se deduzem consequências lógicas testáveis, confrontando-as com os dados empíricos. Essa concepção ganhou forma já no método científico de Galileo e Newton, e foi explicitada no século XX por filósofos como Karl Popper, que enfatizou o papel das conjecturas e refutações. Nessa abordagem, não se espera verificar definitivamente as teorias, mas sim corroborá-las ou falsificá-las através de testes rigorosos. Uma hipótese científica deve fazer previsões ou implicações que possam ser confrontadas com observações: se as previsões falham, a hipótese é refutada (ou deve ser revisada); se passam nos testes, ganha confiança (embora jamais seja comprovada de forma absoluta). Esse modelo deu conta de problemas que o empirismo ingênuo não resolvia: por exemplo, permitiu entender que ciência avança propondo ideias criativas (hipóteses) e não apenas coletando fatos brutos. O êxito do método hipotético-dedutivo está nas ciências físicas e biológicas: teorias complexas (como a teoria atômica, a evolução darwiniana ou a relatividade) puderam ser aceitas porque geraram predições confirmadas experimentalmente. A filosofia popperiana da ciência formalizou esse ideal, exigindo falseabilidade – a possibilidade de provar a teoria errada – como critério para distinguir ciência de pseudociência. Isso implicava rejeitar teorias que se tornassem tão flexíveis a ponto de explicarem qualquer resultado (ajustando-se ad hoc aos dados) e, portanto, escapassem de refutação. O modelo hipotético-dedutivo, portanto, valoriza a lógica e a testabilidade: mesmo entidades não observáveis podem entrar na ciência, desde que as hipóteses sobre elas impliquem resultados mensuráveis. Por exemplo, os físicos do século XX postularam a existência de partículas subatômicas invisíveis (como o neutrino) deduzindo efeitos que elas causariam e buscando essas evidências. Assim, o método hipotético-dedutivo ampliou o alcance da ciência para além do imediatamente visível, sem abandonar o rigor: aceita-se o teórico, mas exige-se confrontação com algo verificável (mesmo que seja de maneira indireta). Esse equilíbrio tornou-se um núcleo da concepção científica contemporânea. Ainda assim, filósofos notaram que na prática real da ciência as hipóteses não são testadas isoladamente (Quine-Duhem) e que a criatividade e contexto histórico influenciam quais hipóteses são consideradas – ideias exploradas por Thomas Kuhn ao mostrar que a ciência funciona por paradigmas e revoluções científicas, mais do que por um simples algoritmo lógico. Isso não invalida o modelo hipotético-dedutivo, mas tempera-o: entende-se hoje que o método científico não é totalmente linear ou infalível, e sim uma construção humana sujeita a revisões. Como afirmou Paul Feyerabend, “a ideia de um método científico especial é um conto de fadas”[1] – querendo dizer que na prática existe uma variedade de métodos e estratégias, não uma receita única.
Por fim, podemos falar de um modelo científico “racional” ou racionalista, prevalente em domínios em que a experimentação direta e repetível é difícil ou impossível. Nesses campos, a ciência opera principalmente por inferências lógicas a partir de evidências indiretas, construção de modelos teóricos coerentes e análise racional dos dados observacionais disponíveis. Exemplos incluem a cosmologia (que lida com eventos únicos como a origem do universo), a geologia histórica e a paleontologia (que reconstruem a história da Terra e da vida a partir de registros fósseis), a arqueologia (que infere civilizações passadas de artefatos) e mesmo áreas de ponta como pesquisas sobre a consciência e a mente. Nesses casos, o método científico precisa ser flexível: muitas vezes não se podem reproduzir os fenômenos em laboratório, então procura-se vestígios, indícios e coerência explicativa. O critério de cientificidade aqui repousa na validade inferencial e na aderência a outros conhecimentos estabelecidos, bem como na possibilidade de se fazer predições indiretas (por exemplo, a cosmologia faz predições sobre vestígios observáveis hoje, como a radiação cósmica de fundo, para confirmar teorias sobre o Big Bang). A validade indireta torna-se crucial: aceita-se que uma teoria seja científica se ela for capaz de explicar logicamente uma diversidade de fatos e for suscetível a algum tipo de teste, ainda que indireto ou estatístico. Isso implica admitir entidades não diretamente observáveis sempre que elas tenham poder explicativo e sejam acessíveis de algum modo à investigação. Nenhum cientista jamais “viu” diretamente um elétron ou um buraco negro, por exemplo, mas a comunidade os admite como reais porque é possível interagir com eles indiretamente, observando seus efeitos mensuráveis e controlando tais efeitos em experimentos ou observações sistemáticas. Na filosofia da ciência contemporânea, essa posição é sustentada por correntes como o realismo de entidades, segundo o qual é racional crer na existência de entidades não observáveis se temos como produzir fenômenos a partir delas ou detectá-las indiretamente[2]. Assim, a distinção rígida entre “observável” e “não observável” se atenua: desde que algo deixe pegadas confiáveis no mundo sensível, pode entrar no escopo da ciência. Esse modelo científico-racional enfatiza também a coerência lógica e a integração teórica. Em matemática aplicada e física teórica, por exemplo, muitas vezes se propõem estruturas ou simetrias invisíveis e, se elas trouxerem unidade e previsões confirmadas, a comunidade científica as adota – mesmo que a confirmação empírica direta leve décadas (caso típico do bóson de Higgs predito teoricamente nos anos 1960 e detectado apenas em 2012). Outra característica do modelo racional é valorizar a inferência por analogia e consistência: inferir causas pelas semelhanças de padrão com outros fenômenos. Em resumo, a ciência moderna não é apenas “ver para crer”, mas também raciocinar para crer – embora sempre com a exigência de não contradizer os dados empíricos.
Importante notar que esses três modelos não são excludentes, e sim complementares. A prática científica real combina experimentação empírica, formulação e teste de hipóteses e construção racional de teorias abrangentes. A química, por exemplo, baseou-se em experimentos reprodutíveis (empirismo), mas também em hipóteses atômicas dedutivas e em modelos teóricos. A paleontologia usa tanto evidências empíricas (fósseis) como inferências racionais para montar cenários não observados. Reconhecer essa pluralidade de métodos evita reduzir “ciência” a um só estereótipo e nos permite avaliar de forma mais justa saberes não convencionais, como o Espiritismo, sob diferentes ângulos metodológicos.
Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, estruturou o Espiritismo a partir de 1857 com a publicação de O Livro dos Espíritos, seguido por O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), A Gênese (1868), entre outras obras. Desde o princípio, Kardec apresentou o Espiritismo não como uma religião revelada baseada na fé cega, mas como uma ciência e filosofia voltadas ao estudo de uma “nova ordem de fenômenos” – as manifestações dos Espíritos – e das consequências morais dessa descoberta. Em O Que é o Espiritismo (1859), Kardec o define como “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, e de suas relações com o mundo corporal” (trazendo também um aspecto ético-religioso resultante desses conhecimentos). Interessa-nos aqui examinar o método adotado por Kardec para investigar e validar o conhecimento espírita, confrontando-o com os critérios científicos.
Kardec não era um cientista natural de formação, mas um educador com forte base em pedagogia e em filosofia racionalista (influenciado por pensadores como Pestalozzi e pela tradição espiritualista francesa). Ao deparar-se com os fenômenos das “mesas girantes” e comunicações mediúnicas, ele adotou uma postura investigativa e crítica. Seu primeiro passo foi reunir e observar fatos: sessões mediúnicas em diferentes grupos, onde supostamente inteligências invisíveis se comunicavam através de médiuns. Kardec aplicou uma estratégia de comparação sistemática dessas comunicações. Em vez de tomar uma revelação espiritual isolada como verdade absoluta (prática comum em círculos espiritualistas da época), ele coletou mensagens de múltiplos médiuns, em diferentes lugares, sem conexão entre si, e confrontou umas com as outras. Descartou, assim, contradições e reteve os pontos convergentes. Esse procedimento originou o que ele chamou de Controle Universal do Ensino dos Espíritos[3][4]. Conforme explicado na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo (item II), nenhum espírito comunicante individual ou médium isolado poderia ter autoridade para ditar a doutrina; a garantia de autenticidade estaria na concordância espontânea e reiterada do conteúdo transmitido por inúmeros Espíritos, através de diversos médiuns independentes e em vários lugares. “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares” — escreveu Kardec[3]. Se um médium obtinha uma teoria nova ou “exótica” trazida por um único Espírito, essa ideia permaneceria isolada e deveria ser recebida com reserva; apenas se instruções idênticas surgissem de forma independente em vários centros, poderia-se reconhecer nelas um ensinamento geral dos Espíritos superiores[5]. “O Espiritismo não poderia ser a obra de um único Espírito, nem de um único médium; ela (a doutrina) não poderia sair senão da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros” – resumiu Kardec em A Gênese[4]. Vê-se aqui uma clara analogia com o princípio científico da reprodutibilidade intersubjetiva: em vez de um laboratório, Kardec organizou uma rede de correspondentes e grupos mediúnicos que atuavam como “experimentos” replicados, e ele funcionou como um compilador e avaliador crítico dos resultados.
Além desse controle universal, Kardec estabeleceu outro critério fundamental: o controle da razão[6]. Ele recomendava que tudo que os Espíritos ensinassem deveria passar pelo crivo da lógica e do bom senso humanos. Se alguma comunicação espiritual contivesse teoria “em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos”, então deveria ser rejeitada, não importando quão venerável fosse o nome espiritual que a assinasse[6]. Ou seja, Kardec não abdicava do pensamento crítico: nenhum médium ou espírito gozava de infalibilidade; valia mais a coerência doutrinária e a concordância ampla do que a origem supostamente sagrada da mensagem. Em O Livro dos Médiuns, obra que é praticamente um manual de método para investigar fenômenos espirituais, Kardec dedicou capítulos a alertar contra fraudes, ilusão e mistificação espiritual. Reconheceu que Espíritos inferiores ou enganadores poderiam transmitir falsidades, inclusive usando nomes respeitáveis, e que somente um exame racional e comparativo poderia desmascará-los[7][6]. Nesse sentido, o Espiritismo se propunha a elevar o estudo dos “espíritos” à categoria de ciência de observação, saindo do terreno do misticismo arbitrário. “Até a aplicação do método científico ao testemunho dos Espíritos por Allan Kardec, as comunicações pelos médiuns eram consideradas revelações divinas, submetidas ao campo da fé cega e não do pensamento racional ou positivo” – observa Figueiredo[8]. O mérito de Kardec foi precisamente fazer uma “revolução” nessa abordagem: submeter as supostas revelações a um escrutínio metódico, coletando-as em grande quantidade, classificando, testando a consistência interna e confrontando-as com conhecimentos de outras áreas (ciência, filosofia). Ele transformou o que antes era matéria de crença religiosa (as comunicações de além-túmulo) em objeto de um estudo estruturado, fundando assim, nas palavras dele, “uma nova ciência, a ciência espírita”.
É importante ressaltar que Kardec distinguia duas partes na ciência espírita: uma parte experimental, “relativa às manifestações em geral” (especialmente os fenômenos físicos, como mesas girantes, batidas, materializações), e uma parte filosófica, “relativa às manifestações inteligentes” (o conteúdo das comunicações espirituais)[9]. Ele próprio afirma na Introdução de O Livro dos Espíritos: “A ciência espírita compreende duas partes: experimental, uma, […] filosófica, outra, relativa às manifestações inteligentes. Aquele que apenas haja observado a primeira se acha na posição de quem não conhecesse a física senão por experiências recreativas, sem haver penetrado no âmago da ciência”[9]. Ou seja, examinar fenômenos mediúnicos curiosos sem extrair deles princípios seria um conhecimento superficial; o núcleo da doutrina está no ensino transmitido pelos Espíritos sobre questões de fundo (a vida após a morte, as leis morais, etc.), cujo estudo exige profundidade e reflexão. Ainda assim, Kardec salienta que esse estudo filosófico deve ser feito com método rigoroso: “os conhecimentos […] são por demais profundos e extensos para serem adquiridos de qualquer modo, que não por um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento”[10]. Ele compara os investigadores espíritas a “alunos aplicados” e os Espíritos instrutores a “professores” que dominam o assunto[11]. Essa analogia deixa claro que Kardec via o processo como uma parceria entre observação/experimentação (a parte humana de coletar e analisar comunicações) e instrução teórica (a parte espiritual, trazendo conhecimentos que a humanidade sozinha talvez não atingisse).
Ademais, Kardec submeteu conceitos emergentes do Espiritismo a um refinamento lógico-dedutivo. Por exemplo, ao investigar fenômenos de mesas girantes, ele formulou a hipótese do perispírito – um envoltório semimaterial ligando o espírito ao corpo – para explicar como os espíritos poderiam agir sobre a matéria. Essa hipótese veio de observações, mas também de inferências baseadas no que os próprios Espíritos comunicavam. No capítulo final de O Livro dos Médiuns, Kardec discute a teoria da alavanca psíquica e da ação fluídica dos espíritos sobre objetos, demonstrando a preocupação em dar um quadro explicativo coerente aos fenômenos. Muitas vezes, Kardec procedia como um cientista deduzindo consequências de suas hipóteses espirituais e perguntando aos Espíritos se tais consequências eram válidas, num diálogo racional. Um exemplo ilustrativo está na questão da densidade do perispírito: os Espíritos lhe disseram que apenas os espíritos menos evoluídos produziam efeitos físicos fortes (batidas, movimentação de objetos) porque estariam “mais materializados”. Kardec então deduziu que isso deveria significar que o “corpo espiritual” deles (perispírito) era de matéria mais densa, conferindo-lhes força física, e questionou se mesmo os espíritos elevados poderiam produzir efeitos físicos se quisessem. A resposta foi que os espíritos superiores têm força moral e, quando necessitam de efeitos físicos, fazem uso dos espíritos inferiores como “executores”, assim como humanos adultos recorrem a carregadores para trabalho braçal[12][13]. Dessa troca, Kardec inferiu o conceito: “sendo o perispírito para o espírito o que o corpo é para o homem, e como à sua maior densidade corresponde menor superioridade espiritual, essa densidade substitui no espírito a força muscular”, de modo que espíritos de perispírito denso têm mais poder sobre os “fluidos” para provocar efeitos físicos[14]. Aqui vemos Kardec articulando observação (fenômeno das mesas) + hipótese (perispírito de densidade variável) + dedução lógica (densidade implica força física) + teste indireto (perguntar aos espíritos e verificar se não contradiz outras informações). Essa dinâmica é muito próxima do método hipotético-dedutivo adaptado às circunstâncias (com a peculiaridade de que os “experimentadores” e “observadores” incluem inteligências desencarnadas).
Em suas obras posteriores, Kardec explicitou o caráter progressivo e crítico do Espiritismo. Longe de pedir adesão acrítica, ele escreveu que “os espíritas devem crer somente depois de compreender”[15]. Ou seja, a compreensão racional precede a aceitação – princípio que o distanciava tanto do misticismo cego quanto do dogmatismo religioso. Ele chega a declarar na Revista Espírita: “queríamos nos dar conta [das explicações] e não crer nelas cegamente; […] queríamos fazer do Espiritismo uma ciência de raciocínio e não de credulidade”[16]. Essa frase, de 1867, mostra claramente que Kardec via o empreendimento espírita como uma ciência racional, que deveria se basear em evidências (mesmo que parcialmente fornecidas pelos próprios espíritos) e em inferências lógicas sólidas. Ele complementa apontando que “a teoria fundada sobre a experiência foi o freio que impediu a credulidade supersticiosa […] de fazê-lo [o Espiritismo] desviar de seu caminho”[16]. Ou seja, ao construir teoria apenas depois de acumular fatos confiáveis e concordantes, evitou-se que o movimento espírita derivasse para a superstição desenfreada ou para fantasias individuais. Esse cuidado metodológico é frequentemente ignorado pelos críticos modernos, que tendem a equiparar o Espiritismo a crenças sobrenaturais arbitrárias; na verdade, conforme argumentam autores como Figueiredo (2016, 2019), Kardec implantou um autêntico programa de pesquisa no século XIX, com critérios de controle de fontes, exigência de consistência e abertura a revisões.
Para sintetizar, podemos elencar os principais elementos do método kardecista original:
Observação de fenômenos mediúnicos (tanto físicos quanto intelectuais) de forma sistemática, registrando-se comunicações e ocorrências.
Hipótese básica da existência de Espíritos como agentes inteligentes por trás dos fenômenos e da mediunidade; e hipóteses auxiliares (como a existência do perispírito, de fluidos espirituais, etc.) para explicar mecanicamente os efeitos observados.
Experimentação distribuída e repetição: realização de inúmeras sessões e comunicações com médiuns diferentes, em diferentes locais, para verificar a repetibilidade qualitativa das mensagens e fenômenos.
Controle Universal: comparação cruzada dos conteúdos obtidos; aceitação apenas daquilo que aparece de forma concorde e espontânea em múltiplas fontes independentes[3]. Rejeição de revelações isoladas ou que contrariem o conjunto.
Submissão à lógica e aos fatos conhecidos: qualquer princípio espírita proposto deve estar de acordo com os dados científicos e morais reconhecidos (por exemplo, Kardec dialogou com conhecimentos da astronomia, geologia e biologia de sua época em A Gênese, tentando conciliar as informações dos espíritos com os fatos acadêmicos). Se houvesse choque, ou se a mensagem fosse intrinsecamente ilógica, prevaleceria a razão e as evidências contra a mensagem supostamente espiritual[6].
Dedução e coerência teórica: os ensinamentos espirituais coligidos foram organizados de modo racional, extraindo-se consequências lógicas e interligando-os em uma filosofia unificada. Kardec buscou dar unidade conceitual à Doutrina Espírita (por exemplo, elaborando a lei de causa e efeito, a pluralidade das existências, a escala espírita dos espíritos, etc.) de forma análoga a um cientista formulando teorias a partir de dados.
Finalidade prática e moral: embora não seja um aspecto “metodológico” no sentido estrito, vale mencionar que Kardec via a coerência moral como um selo de verdade. Ele esperava que uma doutrina oriunda de espíritos superiores promovesse aprimoramento ético. Portanto, comunicações que levassem ao mal, à discórdia ou ferissem os princípios de fraternidade seriam suspeitas. Isso lembra o critério pragmático de verdade: “pelos frutos se conhece a árvore”, também aplicado como prudência metodológica (se uma mensagem espiritual incitava algo moralmente absurdo, provavelmente não vinha de fonte elevada e, portanto, não seria incorporada à doutrina).
Com esses pilares, Kardec afirmava que o Espiritismo havia submetido os fenômenos “espirituais” ao método das ciências de observação, enquadrando-os numa teoria racional. Ele mesmo, na introdução de A Gênese, argumenta que os supostos “milagres” e fatos tidos como sobrenaturais, uma vez compreendida sua causa espiritual segundo leis, entram na ordem dos fenômenos naturais e o “maravilhoso desaparece”[17]. Essa declaração expressa uma visão desmistificadora: longe de explorar o mistério inexplicável, o Espiritismo pretendia explicar o extraordinário de modo que ele deixasse de o ser. Em outras palavras, Kardec queria tirar o Espiritismo do terreno sobrenatural e colocá-lo no âmbito da natureza, ampliando esta última para incluir dimensões sutis ainda não reconhecidas pela ciência acadêmica da época.
À luz do exposto, podemos agora confrontar o método e as premissas do Espiritismo com os modelos contemporâneos de ciência (empirista, hipotético-dedutivo e racional), destacando pontos de compatibilidade e também os limites que dificultam seu reconhecimento como “científico” pela comunidade acadêmica atual.
Observação empírica e repetição: Apesar de lidar com fenômenos incomuns, o Espiritismo de Kardec valorizou a observação sistemática e a repetição de fenômenos – um claro ponto de contato com o empirismo científico. As sessões mediúnicas funcionaram, em certo sentido, como experimentos controlados (havia condições definidas: médiuns, grupos, horários; registro de ocorrências; testes como mesas marcadas, cestos para psicografia, etc.). Kardec buscou repetibilidade qualitativa: por exemplo, obteve a mesma resposta a uma pergunta espiritual feita a médiuns diferentes e desconhecidos entre si, o que ele interpretou como repetição de um resultado sob condições variáveis. Essa ênfase lembra o ideal positivista de verificação repetida. Embora seja verdade que nem todos os fenômenos espíritas eram facilmente reprodutíveis sob demanda (um desafio também enfrentado em áreas como parapsicologia), a postura metodológica era empirista: coletar o máximo de fatos possível. Os fenômenos físicos espíritas (mesas girantes, aparições, raps etc.) foram documentados e estudados experimentalmente por Kardec e contemporâneos como Crookes e Richet, analogamente a como se estuda um fenômeno natural desconhecido. Assim, no aspecto de atitude observacional, há compatibilidade com o modelo empirista: o Espiritismo não se baseava apenas em argumentos de autoridade ou revelações únicas – fez apelo à experiência, ainda que numa região considerada heterodoxa.
Método hipotético-dedutivo e testabilidade indireta: O Espiritismo formulou hipóteses claras – p.ex., “Os espíritos dos humanos falecidos sobrevivem e podem se comunicar” – e tirou delas consequências que poderiam ser verificadas. Por exemplo, a hipótese do Espírito comunicante leva à previsão de que diferentes médiuns independentes possam transmitir mensagens substancialmente iguais oriundas do mesmo Espírito ou sobre o mesmo tema, ou ainda que certos médiuns apresentem informações desconhecidas por vias normais (lucidez paranormal). Kardec e outros pesquisadores realizaram testes assim: verificavam se médiuns podiam relatar fatos verificados posteriormente, se mensagens semelhantes surgiam em lugares distintos, ou se médiuns podiam influir em objetos físicos (tipologia, movimentação de mesas) em condições controladas. Em muitos casos, alegou-se sucesso nessas previsões, reforçando as hipóteses. Importante: o método de Kardec incluía falsificação prática de comunicações enganosas – ele deliberadamente fazia perguntas-capciosa ou pedia aos médiuns respostas a problemas, para identificar contradições ou ignorância dos espíritos comunicantes, descartando supostos espíritos sábios que caíssem em erro. Isso equivale a refutar hipóteses (no caso, a hipótese de autenticidade de tal comunicação ou identidade espiritual). Embora a natureza dos fenômenos espíritas torne difícil aplicar testes reprodutíveis sob demanda (um Espírito não “obedece” ao experimentador como um reagente químico obedeceria), a estrutura lógica é hipotético-dedutiva: postula-se um agente invisível e derivam-se seus efeitos observáveis. A própria ideia de controle universal se assemelha a um teste multicêntrico: se a hipótese “espírito X ensinou a doutrina Y” for verdadeira, espera-se que múltiplos médiuns recebam a doutrina Y independente e coerentemente; se isso não ocorre (se apenas um médium fala Y, outros trazem divergências profundas), então considera-se que a hipótese não se confirmou e Y não é aceito. Esse tipo de critério cumpre o papel de testabilidade. Além disso, muitas proposições espíritas admitem, pelo menos em princípio, testes indiretos ou predições. Exemplo: a doutrina reencarnacionista (Espíritos voltando à vida física) gera predições como existência de memórias espontâneas de vidas passadas em algumas pessoas – algo que, de fato, foi investigado por cientistas como Ian Stevenson no século XX. Outra: a existência de perispírito implica que fenômenos de aparição ou atuação de “corpos espirituais” possam ser registrados, o que motivou pesquisas de materialização no passado. Em suma, o Espiritismo não formula dogmas infalsificáveis por princípio; ele se abre a exames, mesmo que até agora tais exames não tenham convencido a maioria dos cientistas. Conceitos espíritas podem ser (e foram) confrontados com dados – por exemplo, a ideia de que Espíritos poderiam causar curas foi testada em estudos sobre passes e médiuns curadores; a ideia de influência espiritual foi testada em experiências de escrita automática controlada, etc. Portanto, no nível da estrutura de investigação, há semelhança relevante com o método científico: o Espiritismo estabelece um conjunto de hipóteses sobre causas invisíveis, deduz consequências e procura evidências delas.
Coerência racional e inferência lógica: Kardec insistiu que o Espiritismo fosse uma “ciência de raciocínio” e não de mera observação bruta[16]. Isso alinha-se fortemente ao modelo científico-racional discutido. Em campos científicos complexos, aceita-se que a coerência lógica interna de uma teoria e sua capacidade de explicar fenômenos diversos contam a favor de sua validade, mesmo antes de qualquer verificação final. No caso espírita, há um arcabouço teórico coerente: conceitos como reencarnação, lei de causa e efeito moral, diferentes ordens de espíritos, perispírito e fluidos formam um sistema interligado que pretende explicar desde diferenças de personalidade humana até fenômenos de assombração. Essa arquitetura teórica não surgiu do nada: foi construída indutivamente a partir de centenas de mensagens espirituais e experiências, e depois ajustada dedutivamente para eliminar contradições – um processo muito parecido com o que ocorre na formulação de teorias científicas abrangentes (compare-se com a evolução da teoria da evolução biológica, que agregou várias linhas de evidência num quadro unificado). A inferência por analogia também aparece: Kardec muitas vezes recorre a analogias com a ciência física (como comparar a densidade do perispírito com densidade de gases, ou comparar a pluralidade dos mundos habitados com o princípio de Copérnico) para fortalecer racionalmente as teses espíritas[18][19]. Ele argumentava, por exemplo, que aceitar a existência de um mundo espiritual habitado e regido por leis não era mais “anti-científico” do que admitir, na época, a existência de micróbios invisíveis – ambos seriam postulados para explicar efeitos observados. Entidades não observáveis são um ponto central de compatibilidade: o Espiritismo postula espíritos e perispíritos, que não vemos diretamente; porém, a ciência moderna também lida com entidades ocultas (partículas, campos, etc.), cuja aceitação se dá pelas consequências detectáveis. Se considerarmos os Espíritos como entidades teóricas, as manifestações mediúnicas seriam os efeitos observacionais que corroboram sua existência. Nesse sentido, o status epistemológico dos espíritos poderia ser equiparado ao de outras entidades teóricas: eles não são objetos “metafísicos” puros (além de qualquer detecção), mas sim causariam fenômenos objetivos (escrita mediúnica, curas, visões) que podem ser investigados. Os critérios que a ciência aplica a quarks ou matéria escura – consistência das detecções, ausência de explicação alternativa mais simples, capacidade preditiva – podem, em teoria, ser aplicados aos fenômenos espíritas. Por exemplo, se eu obtenho comunicações mediúnicas com informações verificáveis desconhecidas do médium, e isso se repete em vários casos, a inferência à melhor explicação poderia sugerir uma fonte inteligente extracorpórea (espírito) como hipótese mais plausível, ao invés de fraude ou acaso. Assim, a lógica inferencial usada na pesquisa espírita é da mesma natureza da empregada em ciências forenses, arqueologia ou história natural, onde se infere uma causa não diretamente vista a partir de vestígios. Não por acaso, Kardec chamou o Espiritismo de “ciência de observação” e o comparou às ciências históricas (ele menciona que, como na história e na geologia, o Espiritismo lida com fatos que não se podem reproduzir à vontade, mas que se observam quando ocorrem e dos quais se extrai leis)[20][21]. Em A Gênese, ele justifica o método empregado dizendo que “a observação e a concordância dos fatos conduziram à procura das causas; a procura das causas conduziu a reconhecer que as relações entre o mundo visível e o invisível existem em virtude de uma lei; conhecida essa lei, explicou-se uma multidão de fenômenos espontâneos até então incompreendidos […]; estabelecida a causa, esses fenômenos reentraram na ordem dos fatos naturais”[22][17]. Essa exposição poderia estar em um tratado de metodologia científica: é exatamente assim que procedem as ciências racionais – acumulam fatos, inferem uma causa ou lei unificadora, e então interpretam os fenômenos dispersos sob essa nova luz, retirando-lhes o aspecto misterioso. Em resumo, a maneira de raciocinar no Espiritismo de Kardec é compatível com a maneira científica: é indutiva-dedutiva, exigente de coerência interna e de consonância com outras verdades. Não se apoia em dogmas inquestionáveis, mas em uma rede de evidências e argumentos.
Validação indireta e utilidade prática: A ciência atual admite que uma teoria pode ser aceita com base em validação indireta, ou seja, pelo conjunto de evidências convergentes e pela capacidade explicativa, mesmo que não se possa verificar isoladamente cada componente. O Espiritismo se encontra numa posição similar. Conforme apontou Figueiredo (2016) analisando a epistemologia espírita, “se as hipóteses da teoria espírita não podem ser validadas uma a uma, de forma experimental como na ciência [convencional], sua coerência e utilidade podem ser reconhecidas em sua totalidade, como uma teoria filosófica”[23]. Ou seja, pode-se julgar o todo do edifício espírita pelo quão bem ele se articula e pelos frutos que produz, mesmo sem conseguir medir cada tijolo separadamente. Isso está em linha com critérios usados em campos científicos complexos: por exemplo, a teoria da evolução é aceita pelo conjunto robusto de evidências interdisciplinares, ainda que não possamos “repetir” a evolução do Cambriano; da mesma forma, poder-se-ia avaliar a teoria espírita pelo conjunto de fenômenos que ilumina (experiências de quase-morte, fenômenos mediúnicos, transcomunicação, etc.) e por sua consistência. Além disso, Kardec e seguidores argumentam que o Espiritismo tem uma utilidade moral e prática: ele proporciona sentido ético, consolação, mudança de mentalidade. Isso não é um critério científico em si, mas dentro da filosofia da ciência há quem reconheça que a fertilidade de uma teoria – isto é, o quanto ela abre novos caminhos de investigação e aplicação – também é um ponto a seu favor. Por exemplo, a mecânica quântica foi valorizada não só por explicar dados, mas por gerar tecnologias e novas perguntas. Analogamente, o Espiritismo gerou um vasto movimento cultural, inúmeras obras, práticas de assistência social e estudos psicológicos (como a psicologia espírita no Brasil). Isso pode ser visto como indicativo de que ele toca em aspectos reais da experiência humana (mesmo que só fosse na dimensão psicológica). Em termos de pesquisa, a doutrina espírita inspirou experimentações (desde as investigações de William Crookes com médiuns físicos no século XIX até pesquisas atuais sobre curas espirituais e neurofisiologia de médiuns). Tudo isso sugere que, pelo menos como programa de pesquisa (no sentido de Lakatos), o Espiritismo mostrou ter um “núcleo firme” (a hipótese espiritualista) com um cinturão de hipóteses auxiliares testáveis, algumas corroboradas e outras ajustadas ao longo do tempo. Então, do ponto de vista metodológico e heurístico, há diversos pontos de contato entre o Espiritismo e a ciência: ambos buscam explicar fenômenos observados, ambos usam tanto indução quanto dedução, ambos valorizam a coerência, ambos corrigem-se com novos dados e ambos aspiram a um conhecimento unificado não contraditório.
Em suma, se considerarmos apenas o método e a estrutura epistemológica, o Espiritismo poderia ser visto como compatível com os modelos de ciência contemporâneos: ele realiza observações empíricas (como o empirismo pede), formula hipóteses testáveis (como o método hipotético-dedutivo exige) e constrói uma teoria abrangente com inferências racionais (como no modelo científico-racional). Não por acaso, um Espírito comunicante chegou a declarar na Revista Espírita: “O Espiritismo é uma ciência positiva; os fatos sobre os quais repousa não estão ainda completados; […] essa ciência […] provará aos menos clarividentes que o seu objetivo todo moral é a regeneração da Humanidade, e que, fora de todas as ciências especulativas, seu ensino é o contrário do materialismo, que procede por hipótese. [O Espiritismo] procede com análise, estabelece fatos para remontar às causas, proclamar o elemento espiritual, depois de constatação, tal é a sua maneira limpa e sem evasivas; é a linha reta, a que deve ser o guia de todo espírita convicto”[24]. Essa mensagem (atribuída ao espírito Jobard em 1864) resume de forma impressionante a visão de que o Espiritismo seguia um caminho científico: analítico, factual, causal e anti-dogmático (“sem evasivas”). Vale destacar a contraposição ao materialismo “que procede por hipótese” – ou seja, do ponto de vista espírita, materialismo também é uma metafísica não comprovada. Chegamos, então, ao cerne da divergência atual.
Se o método espírita guarda tantas semelhanças com a atitude científica, por que o Espiritismo não é aceito como ciência convencional? Aqui entramos nos aspectos de ontologia e de contexto histórico-cultural. A principal barreira é que o Espiritismo afirma a existência de uma realidade não-material (os espíritos, a alma imortal, Deus como inteligência suprema, etc.), ao passo que a ciência moderna – desde o final do século XIX, passando pelo século XX – adotou como pressuposto fundamental o naturalismo materialista. Em outras palavras, a ciência profissional opera sob a suposição (não explicitamente provada, mas metodologicamente adotada) de que todos os fenômenos podem e devem ser explicados por causas materiais ou energia dentro do espaço-tempo físico, excluindo agentes extra-físicos intencionais. Esse pressuposto, claro, nasceu dos triunfos da fisica, química e biologia no século XIX ao explicar muito do que antes era atribuído a seres espirituais ou divinos (relâmpagos, doenças, a origem das espécies, etc.). Assim, formou-se uma espécie de “dogma” materialista no seio da cultura científica: qualquer hipótese que invoque Espíritos, almas ou forças sobrenaturais é descartada a priori como não-científica. Note-se: não se trata de refutação experimental – é uma definição prévia de escopo. Por convenção, a ciência acadêmica não considera seriamente hipóteses espiritualistas porque as julga reminiscentes de explicações pré-científicas. Mesmo quando pesquisadores espíritas ou parapsicólogos apresentam evidências intrigantes, frequentemente a comunidade as rejeita ou ignora, pois aceitar implicaria romper com o paradigma vigente.
Podemos enumerar alguns limites e objeções que a perspectiva científica atual levanta contra o Espiritismo (e correlatamente, por que tais objeções podem ser entendidas mais como escolhas metafísicas do que falhas do método espírita):
Incompatibilidade com o paradigma materialista vigente: Desde o começo do século XX (após o declínio do interesse pelos fenômenos psíquicos que houve no fin-de-siècle), a ciência se consolidou num paradigma onde consciência é produto do cérebro, não uma entidade autônoma. Toda a neurociência e psicologia materialista se baseiam nisso. O Espiritismo, ao postular o Espírito como substrato pensante independente do corpo, contraria frontalmente esse axioma. Assim, para a maioria dos cientistas, não importa quanta evidência de fenômenos anômalos se apresente, aceitar um “fantasma no maquinário” equivaleria a regredir a explicações pré-modernas. Thomas Kuhn argumentaria que dentro de um paradigma estabelecido, os fatos anômalos são descartados ou assimilados de forma a não abalar a estrutura teórica dominante. Os fenômenos espíritas têm sido tratados como anomalias marginais, ou atribuídos a fraudes, ilusão, histeria – explicações alternativas que preservam o paradigma materialista. Esse é um ponto de divergência ontológica: o Espiritismo e a ciência contemporânea partem de premissas diferentes sobre o que existe. Enquanto essa diferença perdurar, será difícil um diálogo genuíno. Figueiredo (2019) nota que vivemos sob um “materialismo dogmático, nos moldes da dominação conceitual imposta pela Igreja por séculos” e que, do ponto de vista espírita, o atual cenário cultural marginaliza qualquer abordagem espiritualista[25]. Ou seja, ele compara o dogmatismo materialista moderno ao antigo dogmatismo religioso: ambos rejeitam por princípio ideias que ameacem seus postulados básicos. “Jocosamente, detratores [do Espiritismo] dizem-no uma aberração do século 19, por fazer ciência considerando o ser humano uma alma encarnada. O materialista ri dessa ideia, como zombavam os sacerdotes de quem via a Terra dar voltas ao Sol” – escreve Figueiredo, evidenciando o paralelo histórico[26]. Essa citação ilustra perfeitamente o cenário: a rejeição moderna ao Espiritismo ocorre muitas vezes com escárnio, sem avaliação imparcial das evidências, análoga à recusa galileana baseada em dogma e não em experimentação. Portanto, a divergência central não está no método (o Espiritismo faz observações, propõe hipóteses e testa, assim como a ciência); está no referencial metafísico. A ciência diz: “mesmo que não tenhamos todas explicações, deve haver uma causa física por trás desses fenômenos” (se é que os fenômenos ocorrem); o Espiritismo diz: “os melhores explicadores desses fenômenos são agentes extra-físicos inteligentes”. Essa disputa não se resolve apenas com dados empíricos, porque os dados podem sempre ser reinterpretados dentro de cada cosmovisão. Exemplo: se médiuns descrevem um fato oculto corretamente, o espiritualista vê prova de comunicação de espíritos; o cético materialista alega sorte ou criptomnésia ou fraude ainda não descoberta. Cada lado acusa o outro de “violação da Navalha de Occam”: o espírita acha forçado supor mil fraudes e coincidências para negar o espírito; o materialista acha introduzir espíritos uma multiplicação desnecessária de entes. Em suma, há um impasse paradigmático.
Dificuldade de reproducibilidade estrita e controle: Do ponto de vista metodológico estrito, a ciência atual também critica o Espiritismo (e a pesquisa psíquica em geral) pela falta de fenômenos consistentemente reproduzíveis sob condições controladas de laboratório. Embora Kardec tenha perseguido a repetição qualitativa, ele não podia convocar espíritos on demand para repetir um efeito idêntico quantas vezes quisesse. Muitos fenômenos espíritas parecem ocorrer esporadicamente e dependem de múltiplas variáveis (personalidade do médium, ambiente espiritual, etc.) que não são facilmente isoláveis. Isso contrasta com, por exemplo, experimentos de física, onde qualquer laboratório pode seguir um protocolo e observar o mesmo resultado (dentro da estatística de erro). Essa baixa reprodutibilidade imediata coloca a pesquisa espírita numa situação similar à de ciências históricas ou sociais, que também lidam com fenômenos complexos e contingentes. A diferença é que, na psicologia ou medicina, os pesquisadores lidam com estatísticas sobre muitos indivíduos para inferir efeitos – enquanto nos fenômenos espíritas, cada evento é único e muitas vezes não se tem amostragens grandes (por exemplo, um médium de efeitos físicos notável surge a cada várias décadas). Assim, a exigência científica de repetibilidade mensurável em condições padronizadas é um limite prático para a aceitação do Espiritismo. Não é tanto uma diferença de método filosófico (pois vimos que Kardec tentou sim replicar e controlar), mas uma limitação de objeto: espíritos são agentes livres, não reagentes químicos. Portanto, convencer a comunidade científica requer evidências ainda mais robustas e explícitas. Pesquisas contemporâneas em parapsicologia tentam contornar isso com estatística (e.g. testes de percepção extrassensorial com milhares de tentativas para ver um desvio pequeno mas significativo do acaso). Há meta-análises sugerindo que certos efeitos existem, mas como não são grandes e facilmente demonstráveis, permanecem controvertidos. Logo, do ponto de vista da prática científica atual, o Espiritismo sofre pela escassez de resultados replicáveis de forma quantitativa e sob demanda. Entretanto, pode-se argumentar que isso não invalida o Espiritismo em si, mas apenas explica por que ele não ganhou legitimidade: a ciência mainstream favorece fenômenos que possa manipular à vontade. Fenômenos que escapam a esse controle são deixados de lado, mesmo que reais, até que se desenvolva metodologia adequada para eles.
Contaminação pela crença e falta de neutralidade: Outra divergência apontada é que muitos estudiosos espíritas já creem na doutrina e podem não ter o distanciamento crítico desejado. Ou seja, acusa-se viés de confirmação – ver o que se quer ver. Claro, isso ocorre também em outras áreas (pesquisadores se apaixonam por suas teorias), mas há mecanismos comunitários para corrigir (revisão por pares, replicação independente). No Espiritismo, historicamente, as pesquisas ficaram restritas ao círculo espírita ou a simpatizantes (com exceções de outsiders como William James ou alguns fisiologistas que se interessaram). A ciência convencional tende a desconfiar de resultados produzidos em “meio ideologizado”. Isso gera um círculo vicioso: por preconceito, cientistas independentes não replicam fenômenos espíritas, logo estes só são estudados por quem acredita; então a credibilidade cai. Kardec, contudo, convidava os céticos sinceros a conferir os fatos pessoalmente. Em O Livro dos Médiuns, ele fornece diretrizes para evitar autoengano, exatamente preocupado com a objetividade. Mas do ponto de vista da comunidade científica mais ampla, essa integração não ocorreu – o Espiritismo ficou apartado como movimento autônomo, o que dificulta a validação aos olhos da ciência institucional. Isso não é exatamente um “erro” metodológico do Espiritismo; é em parte consequência do contexto sociológico da ciência. Após a era vitoriana, estudar médiuns virou tabu acadêmico (com raras exceções), encerrando uma possível convergência. Se, hipoteticamente, um número suficiente de cientistas laicos se dispusesse a reproduzir investigações espíritas com rigor, talvez se conseguissem resultados que ultrapassassem o limiar de crença. De toda forma, a falta de reconhecimento científico também se retroalimenta da ausência de validação por fontes neutras.
Ausência de integração quantitativa e preditiva: Os modelos científicos modernos prezam teorias que, além de qualitativamente explicarem, forneçam quantificação e predição numérica. Por exemplo, a teoria gravitacional de Newton não só explica qualitativamente que planetas orbitam, mas quantifica órbitas e prevê novas posições. O Espiritismo oferece explicações qualitativas para muitos fenômenos (diz, por exemplo, que a afeição liga espiritualmente encarnados e desencarnados, explicando visões de entes queridos falecidos; ou que a moral elevada melhora a sintonia espiritual, explicando fenômenos de cura). Porém, dificilmente fornece leis matemáticas ou predições específicas que possam ser verificadas numericamente. Em parte isso decorre da natureza do objeto (consciências livres não se prestam bem a equações); ainda assim, do ponto de vista de filosofia da ciência atual, essa é uma fraqueza epistemológica. Torna o Espiritismo parecido com ciências sociais ou com teorias evolutivas iniciais – muita narrativa explicativa, pouca mensuração. Isso não quer dizer que não seja ciência (ciências históricas também são qualitativas em grande parte), mas confere um status epistemológico diferente do modelo das ciências físico-químicas. Talvez o Espiritismo pudesse se desenvolver nesse sentido – por exemplo, quantificar estatisticamente fenômenos de reencarnação (percentual de crianças que lembram vidas passadas sob certas condições), ou modelar a distribuição de tipos de espíritos comunicantes etc. Em Kardec, havia algumas tentativas de esboçar classificações e percentagens (como a escala espírita de pureza espiritual, ou afirmar que a maioria dos espíritos que se comunicam são de ordem mediana ou inferior). Porém, isso ficou no qualitativo. Em suma, para a ciência atual reconhecer algo como “bem estabelecido”, busca-se muitas vezes formalização. O Espiritismo, até por lidar com aspectos subjetivos e morais, não se formalizou quantitativamente. Isso é uma limitação inerente, mas que pesa na consideração de “é ciência?”.
Carga metafísica explícita: O Espiritismo assume explicitamente várias premissas de cunho metafísico/filosófico: existência de Deus, teleologia (finalidade moral da vida), concepção espiritual do ser humano, progresso moral universal. A ciência moderna, por escolha, evita noções teleológicas ou teológicas, preferindo explicações mecanicistas e localizadas. Embora muitos cientistas individualmente acreditem em Deus ou tenham visões pessoais, o método científico trabalha como se tais coisas não interferissem nos fenômenos (princípio da objetividade naturalista). Nesse sentido, o Espiritismo mistura proposições científicas com outras de caráter filosófico e ético. Por exemplo, a existência do espírito pode ser colocada à prova, mas a existência de Deus está fora de qualquer teste empírico; Kardec a afirma filosoficamente como causa primeira, mas isso a rigor não é ciência. Essa mistura dificulta o diálogo com a ciência, que tende a compartimentalizar. Entretanto, cabe frisar: muitas grandes teorias científicas nasceram também de visões metafísicas amplas (Newton, por exemplo, era influenciado pelo deísmo e isso permeou sua física; a ideia de ordem e simplicidade da natureza tem raízes filosóficas). O Espiritismo, como visão de mundo, extrapola o que a ciência considera seu domínio – nesse extrapolar está sua dimensão espiritual e moral. A crítica epistêmica aqui é que o Espiritismo talvez não possa jamais ser totalmente científico porque ele contém elementos de fé racional (ex.: a justiça divina, o propósito da existência) que não são falseáveis ou mensuráveis. Os próprios espíritas, porém, retrucam que essa porção moral/espiritual não invalida o caráter científico da porção fenomenológica: comparativamente, a cosmologia física tem modelos matemáticos (científicos) mas também lida com questões metafísicas (por que há algo e não nada, o que “causou” o Big Bang) que extravasam a ciência estrita – e nem por isso deixamos de considerá-la respeitável. Kardec concebia o Espiritismo como tríplice: ciência, filosofia e consequência moral. A parte científica ocupar-se-ia dos fatos espíritas e suas leis; a filosofia, das implicações sobre quem somos; e a moral, da aplicação ética. O entrelaçamento desses aspectos, se por um lado enriquece a doutrina, por outro destoa do recorte estreito das ciências naturais. Essa diferença de abordagem dificulta o reconhecimento do Espiritismo em ambientes onde se prega uma separação absoluta entre fato e valor, ciência e moral.
Concluindo essa seção, podemos dizer: o Espiritismo compartilha com a ciência o amor aos fatos, o uso da razão e a busca de leis universais, mas choca-se com a ciência instituída por postular uma ontologia espiritual que a maioria considera inadmissível. A discordância central é mais metafísica do que metodológica. E as dificuldades metodológicas que existem (fenômenos elusivos, baixo controle experimental) acabam sendo vistas pela lente do preconceito ontológico: para o cético, elas são prova de que não há nada de real ali, em vez de serem apenas desafios técnicos a superar. É um cenário onde, grosso modo, cada lado acusa o outro de não jogar pelas regras: o espírita acusa a ciência de fechar a mente a evidências incômodas por apego filosófico ao materialismo; a ciência acusa o espírita de não produzir evidências fortes o suficiente e de apelar ao sobrenatural sem necessidade. Para avançar, seria preciso um meio-termo: um esforço científico honesto e aberto para investigar fenômenos espirituais sem pressupor a impossibilidade destes, e um rigor ainda maior dos estudiosos espíritas para apresentar provas sob padrões cada vez mais exigentes. Enquanto isso não ocorre sistematicamente, a incompatibilidade “oficial” persiste.
A análise realizada indica que existe uma compatibilidade potencial entre o Espiritismo de Kardec e modelos contemporâneos de ciência, desde que o enfoque seja nos métodos e critérios de validação, e não nos pressupostos metafísicos de cada parte. O Espiritismo foi concebido com notável espírito científico para sua época: Kardec adotou a observação rigorosa, a comparação de dados, a formulação de hipóteses e a verificação pela concordância e pela razão – procedimentos que ecoam fortemente os métodos científicos (sejam eles do tipo empirista ou racionalista). Longe de ser um conjunto de dogmas místicos, a doutrina espírita originária apresentou-se como um programa de investigação da realidade espiritual, análogo, em suas intenções, a um programa científico. A ciência atual, por sua vez, já não é restrita ao positivismo sensorial: ela reconhece o papel indispensável de construções teóricas, aceita validações indiretas e considera legítimo inferir entidades não observáveis quando há respaldo empírico indireto e coerência lógica para tanto[2]. Nesse sentido, nada impede, em tese, que os fenômenos estudados pelo Espiritismo sejam objeto de pesquisa científica – de fato, áreas como a parapsicologia e a psicologia transpessoal têm abordado tópicos semelhantes, embora frequentemente sob forte ceticismo externo.
O ponto crítico que emergiu é que a divergência principal reside no aspecto ontológico: o Espiritismo requer admitir a existência objetiva de espíritos imateriais e da sobrevivência da consciência após a morte, ao passo que o establishment científico opera com a hipótese contrária (de que tudo se reduz a processos físico-químicos). Essa divergência não pode ser resolvida apenas invocando métodos – é um confronto de paradigmas. Enquanto o paradigma materialista dominar de forma incontestada, propostas espíritas serão automaticamente rechaçadas como não científicas, independentemente da qualidade de seus dados. É uma situação reminiscente do que Kuhn descreveu: paradigmas diferentes são incomensuráveis até que ocorra uma revolução científica ou uma acumulação de anomalias que forcem a mudança. Hoje, há quem argumente que fenômenos anômalos relacionados à consciência (experiências de quase-morte, memórias verídicas de vidas passadas, efeitos mente-matéria em física quântica etc.) são indícios de que o paradigma estritamente materialista talvez seja incompleto. Se essa percepção crescer, poderemos assistir a uma reavaliação de hipóteses espiritualistas sob luz mais benevolente. Não seria a primeira vez: a meteorologia já foi feitiçaria, a astronomia já foi astrologia, a química já foi alquimia – ideias precurssoras foram rejeitadas como pseudo-ciência até que métodos e conceitos adequados permitiram integrá-las num escopo científico legítimo. É possível imaginar, portanto, que o estudo da consciência e de eventuais aspectos não-locais ou não-materiais da mente venha a ser um ponto de virada nas próximas décadas, trazendo à tona perguntas nas quais o Espiritismo ofereceu respostas pioneiras.
Em conclusão, à pergunta se o Espiritismo é compatível com os modelos de ciência contemporâneos, a resposta é dupla. Por um lado, sim, é compatível no que tange à postura metodológica: Kardec empregou empiria, teste cruzado, lógica e construção teórica – elementos presentes nos modelos empirista, hipotético-dedutivo e racional. Ele mesmo enfatizou que o Espiritismo deve submeter-se ao crivo da razão e dos fatos, exatamente como se espera de uma disciplina científica[6]. Além disso, muitos conceitos espíritas não afrontam a ciência em si, mas apenas estendem seu escopo (por exemplo, a ideia de diferentes planos de existência não contradiz nenhuma lei física conhecida – apenas postula uma além). Por outro lado, há uma incompatibilidade atual sobretudo porque a ciência dominante limita arbitrariamente seu escopo ao mundo material mensurável, rejeitando fenômenos de ordem espiritual como inexistentes ou irrelevantes. A ontologia espírita colide com a ontologia materialista – e enquanto esta última for um postulado não negociável da ciência, o Espiritismo será considerado “não-científico” pelo mainstream, a despeito de seus méritos metodológicos intrínsecos. Em última instância, trata-se de um conflito entre pressupostos metafísicos, não entre evidências ou lógica. A própria ideia de ciência não é fixa: evoluiu e ampliou-se no tempo. Talvez num futuro em que a ciência integre a dimensão da consciência de forma mais plena, o abismo para com o Espiritismo diminua. Até lá, permanece um diálogo difícil – mas, como procuramos demonstrar, não por impossibilidade intrínseca de conciliar método espírita e método científico, e sim por uma escolha de visão de mundo.
Em termos de filosofia da ciência, o caso do Espiritismo ilustra como critérios epistemológicos podem ser influenciados por convenções e até preconceitos culturais. Se julgarmos o Espiritismo pelos critérios epistêmicos (coerência, testabilidade, abrangência explicativa, controle de erros), ele se sai muito melhor do que se costuma supor: Kardec previu e abordou questões de validação que muitos pseudocientistas ignoram. Ele buscou exatamente não cair nas armadilhas da subjetividade (por isso o controle universal e o veto ao ilógico). Onde o Espiritismo “peca” para a ciência atual é na sua pressuposição de que mente e espírito são realidades fundamentais – mas isso não é um pecado demonstrado, é uma divergência de partida. Como toda divergência filosófica, só pode ser resolvida pelo debate franco e pela consideração honesta das evidências.
Em suma, não há nada no método científico contemporâneo que proíba, em princípio, a investigação dos fenômenos e hipóteses espíritas; o que há é um consenso cultural que os despreza por serem associados ao “sobrenatural”. Quando examinamos historicamente, vemos que esse consenso pode mudar – já mudou em relação a outras ideias. Portanto, o Espiritismo pode reivindicar, se não hoje um estatuto de ciência aceita, ao menos o direito de ser avaliado segundo critérios científicos justos, e não descartado por pressupostos não provados. Afinal, conforme o próprio Kardec desafia retoricamente: “Por que aqueles que nos censuram por termos tomado a iniciativa não a tomaram eles mesmos?”[27]. Ou seja, se a comunidade científica acredita que o método espírita poderia ser melhor, que o aprimorem e tentem eles próprios investigar a questão da alma – é assim que a ciência avança, pela curiosidade e pelo teste, não pela negação apriorística. Em última análise, a compatibilidade ou não do Espiritismo com a ciência depende de como definimos ciência: se for uma busca livre e racional da verdade, nada impede o diálogo; se for um conjunto rígido de dogmas materialistas, então realmente não haverá acordo. As evidências sugerem que o divisor não está nas evidências, mas na atitude perante elas. A ciência atual admite planetas invisíveis, partículas fugidias e dez dimensões matemáticas – talvez um dia admita também que a consciência possa transcender o corpo, se evidências sólidas continuarem a emergir. Quando esse dia chegar, Allan Kardec possivelmente será revisitado sob uma ótica histórica interessante: a de um dos precursores de uma ciência mais ampla, que inclua o espírito na compreensão do real.
Allan Kardec – O Livro dos Espíritos (1857). Obra fundadora do Espiritismo, apresenta os princípios da doutrina em forma de perguntas e respostas atribuídas aos Espíritos. Destaca, na Introdução, a divisão entre parte experimental e filosófica da ciência espírita[9].
Allan Kardec – O Livro dos Médiuns (1861). Detalha os fenômenos da mediunidade e métodos de investigação. Kardec orienta a experimentação cuidadosa e o controle universal das comunicações. Exemplo: explicação sobre espíritos inferiores produzirem efeitos físicos pela “densidade do perispírito”[28][14].
Allan Kardec – O Evangelho segundo o Espiritismo (1864). Na Introdução (item II – Autoridade da Doutrina Espírita), expõe o Controle Universal do Ensino dos Espíritos: necessidade de concordância entre múltiplas comunicações para validar um princípio[3]; enfatiza submeter todo ensino espiritual ao crivo da razão e da lógica[6].
Allan Kardec – A Gênese (1868). Desenvolve aspectos científicos e filosóficos, discutindo método. Cap. I e introdutórios reafirmam que o Espiritismo procede pela observação, dedução de leis e rejeição do sobrenatural inexplicado[21][17].
Allan Kardec – Revista Espírita (periódico, 1858-1869). Contém reflexões metodológicas de Kardec e registros de investigações. Exemplos: Revista de maio de 1864, p.210, sobre opositores que compreendem mal o Espiritismo[29]; Revista de janeiro de 1867, p.27, onde Kardec afirma ter feito do Espiritismo “uma ciência de raciocínio e não de credulidade”[16].
Paulo Henrique de Figueiredo – Revolução Espírita: a Teoria Esquecida de Allan Kardec (2ª ed., FEAL/Maat, 2019). Obra de pesquisa histórica e filosófica que resgata o projeto original de Kardec. Analisa a estrutura epistemológica do Espiritismo e defende que Kardec aplicou um método científico adequado aos fatos espirituais. Destaca que o Espiritismo é “ciência de raciocínio” e discute a possibilidade de validar o conhecimento espírita por coerência global[30][23].
Paulo Henrique de Figueiredo – Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo (FEAL, 2019). Pesquisa histórica que contextualiza Kardec no cenário das ideias do século XIX. Contém capítulos sobre método científico nas ciências morais e nas ciências de observação, mostrando a influência do pensamento de Rivail/Kardec. Cita documentos de Kardec enfatizando a diversidade de origem das comunicações (“não poderia ser a obra de um único espírito ou médium”[4]) e o papel da razão crítica. Também aborda a posterior deturpação metodológica no movimento espírita e a necessidade de retorno ao rigor original.
Alan F. Chalmers – O que é Ciência, afinal? (1976, várias ed. bras.). Introdução à filosofia da ciência. Discute o declínio do verificacionismo positivista e destaca que teorias científicas incluem entidades não observáveis, cuja existência é assumida se podemos inferi-las de fenômenos[2]. Útil para compreender a legitimidade de hipóteses como as do Espiritismo dentro de um quadro realista.
Thomas Kuhn – A Estrutura das Revoluções Científicas (1962). Apresenta a ideia de paradigmas científicos e como ideias fora do paradigma são rejeitadas até crises paradigmáticas. Ajuda a contextualizar a rejeição do Espiritismo como resultado de um paradigma materialista estabelecido, mais do que da refutação empírica das ideias espíritas (já que a maioria delas nem chegou a ser testada formalmente pela ciência normal).
Karl Popper – A Lógica da Pesquisa Científica (1934). Define o método hipotético-dedutivo e a falseabilidade. Embora Popper visse fenômenos paranormais com ceticismo, seus critérios podem ser aplicados: as teses espíritas são falseáveis? (Ex: “Espíritos existem” – difícil falsificar diretamente, mas derivado “Médiuns devem fornecer informações verificáveis que não obteriam normalmente” é testável). Discute também o caráter conjetural de toda ciência, o que abre espaço para considerar conjeturas espíritas se elas forem tratadas criticamente.
Paul Feyerabend – Contra o Método (1975). Critica a noção de um método científico único e defende pluralismo metodológico (“anything goes”). Sua famosa citação de que não existe método científico fixo[31] dá respaldo à ideia de que a pesquisa espírita não deve ser descartada só por não seguir o padrão convencional, pois a própria história da ciência mostra episódios de métodos heterodoxos levando a descobertas.
Stanford Encyclopedia of Philosophy – verbetes “Scientific Realism and Instrumentalism” e “Theoretical Terms in Science”. Discutem a status de entidades teóricas e a questão da observabilidade. Fornecem base conceitual para argumentar que admitir espíritos não é diferente, em princípio, de admitir elétrons: trata-se de postular algo para explicar fenômenos, avaliando depois o sucesso explicativo.
Brian D. Josephson – “Pathological Disbelief” (2004). Artigo breve do físico Nobel Brian Josephson discutindo como a comunidade científica às vezes rejeita novos fenômenos por preconceito, citando o caso da pesquisa psíquica. Embora não trate de Espiritismo diretamente, reforça a tese de que mecanismos sociológicos – e não falta de evidência – frequentemente barram a aceitação de certos campos.
Ian Stevenson – Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (1974). Estudo empírico sobre crianças que alegam memórias de vidas passadas, conduzido rigorosamente com entrevistas e verificações. É um exemplo de investigação científica (publicada em periódicos) sobre um tema espírita central (reencarnação). Os resultados, embora controversos, mostram que é possível abordar essas questões com metodologia acadêmica e obter evidências sugestivas, desafiando explicações convencionais.
(As referências acima foram selecionadas para cobrir fontes primárias do Espiritismo, análises contemporâneas da metodologia espírita e obras de filosofia da ciência relevantes para os conceitos discutidos. Procurou-se privilegiar autores e documentos citados no texto, conforme indicado pelas notas referenciais.)[8][24]
[1][2][31] SciELO Brazil – Ciência: conceitos-chave em filosofia Ciência: conceitos-chave em filosofia
A Crise Metodológica do Espiritismo Pós-Kardec: Um Estudo Crítico a partir da Aceitação Cega da Comunicação dos Espíritos
Após a morte de Allan Kardec, o movimento espírita sofreu um deslocamento metodológico decisivo. O exame crítico das comunicações, a evocação controlada e a comparação sistemática — fundamentos estabelecidos na Codificação — foram gradualmente substituídos por uma postura de aceitação irrestrita das mensagens mediúnicas. Esse processo abriu caminho para que concepções estranhas à Doutrina se consolidassem, transformando a ciência espírita em algo mais próximo de uma religião dogmática.
O percurso dessa transformação, suas causas e consequências, pode ser visualizado no esquema que se segue.
1. O Ponto de Partida: Kardec e a Metodologia Espírita
É fundamental compreender que Kardec não criou o Espiritismo, mas organizou suas manifestações em um corpo doutrinário coerente mediante método científico. Esse método baseava-se em:
Evocação direta dos Espíritos, para testar a consistência das informações (cf. O Livro dos Médiuns, itens 230, 247, 266).
Comparação crítica de mensagens recebidas em diversos lugares e por médiuns diferentes (Revista Espírita, artigos sobre exame e controle).
Submissão de todo ensinamento ao crivo da razão (O Evangelho segundo o Espiritismo, introdução, item VI).
Distinção entre opinião de Espíritos e princípios da Doutrina (RE, novembro/1859: “Devemos publicar tudo quanto dizem os Espíritos?”).
O que Kardec deixou foi um método, não um dogma. O Espiritismo, sendo fato da natureza, só se legitima quando submetido ao critério racional e científico. O abandono dessa diretriz abriu caminho para a aceitação indiscriminada de comunicações mediúnicas.
2. A Ruptura: Do Controle ao Culto
O diagrama marca essa ruptura com o símbolo do X sobre a obra de Kardec. Ao invés de seguir o método do exame crítico, parte significativa do movimento espírita passou a:
Aceitar comunicações sem comparação ou controle.
Tomar como “revelação superior” mensagens que, por Kardec, seriam apenas opiniões particulares de Espíritos.
Relativizar ou desprezar a evocação, transformando-a em algo “proibido” ou “perigoso”, em oposição direta à prática kardeciana.
Essa ruptura abriu espaço para um fenômeno perigoso: a aceitação cega da comunicação dos Espíritos, que se tornou o novo eixo do movimento.
3. As Consequências da Aceitação Cega
O diagrama evidencia diversos desdobramentos dessa postura acrítica:
3.1 Emmanuel
Apresentado como guia de Chico Xavier, Emmanuel introduziu noções que confrontam diretamente a Doutrina Espírita:
Declaração de que o Espiritismo seria uma religião (Kardec definiu-o como ciência de observação e filosofia de consequências morais).
Proibição da evocação, em contradição frontal com O Livro dos Médiuns.
Ideia de almas gêmeas, rejeitada por Kardec.
Domínio sobre Chico, impondo condicionamentos e ameaças morais, o que fere a liberdade de consciência.
3.2 André Luiz
A série de livros psicografados por Chico Xavier, atribuídos a André Luiz, criou representações como:
Colônias espirituais (Nosso Lar).
Umbral como região intermediária. Esses conceitos materializam o mundo espiritual, estimulando apego a construções espaciais e institucionais, quando Kardec deixou claro que o Espiritismo aponta para a desmaterialização progressiva da existência espiritual.
3.3 Ramatis
Introduz comunicações recheadas de teorias esotéricas, misticismo e previsões catastrofistas, sem correspondência com o método kardeciano. Sua aceitação deriva da mesma lógica: qualquer Espírito comunicante seria fonte de verdade.
3.4 Vale dos Suicidas
Obras como Memórias de um Suicida reforçam a noção de “lugares fixos” no além, de caráter punitivo ou reformatório, em contradição com a ideia de que o estado espiritual é reflexo íntimo da consciência, não de geografias metafísicas.
3.5 Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho
Obra atribuída a Humberto de Campos (sob inspiração de Emmanuel), que apresenta o Brasil como nação predestinada espiritualmente. Essa concepção reforça um nacionalismo místico, estranho à universalidade do Espiritismo.
4. O Papel do ESDE
O Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), embora estruturado com boas intenções pedagógicas, reflete a consolidação dessa ruptura. Ao adotar como base não apenas Kardec, mas também obras mediúnicas pós-Kardec (Emmanuel, André Luiz, etc.), o ESDE institucionaliza o afastamento do critério crítico e instala o ecletismo acrítico.
Resultado: as novas gerações de espíritas passaram a considerar como “doutrina espírita” aquilo que é apenas opinião de Espíritos, reproduzindo a aceitação cega.
5. Problemas Doutrinários Decorrentes
O diagrama lista os efeitos concretos desse desvio:
Materialização do mundo espiritual: concepção de colônias, cidades, hospitais, prisões — reflexo de projeções humanas.
Promoção do apego a ideias materiais, quando o Espiritismo tem por missão justamente libertar da materialidade.
Falsa ideia de destinos geográficos do Espírito (lugares bons ou ruins), substituindo a compreensão de que o “céu” ou “inferno” são estados da alma.
6. A Substituição da Crítica pelo Dogma
O diagrama mostra, em última instância, como o movimento espírita passou:
Do exame crítico (Kardec, 1857–1869),
Para a aceitação cega (pós-Kardec, especialmente no Brasil).
Esse processo transformou a ciência espírita em religião institucionalizada, com dogmas, moralismo e submissão a “guias espirituais” não testados pelo método original.
7. Conclusão: Restauração da Metodologia Espírita
A mensagem central do diagrama é clara:
Enquanto a obra de Kardec permanecer afastada como critério, o Espiritismo viverá sob o domínio da aceitação cega.
O retorno ao método kardeciano de exame racional, evocação crítica e universalidade do ensino dos Espíritos é a única via de preservação do Espiritismo como ciência de observação.
O diagrama, portanto, não é apenas uma crítica histórica, mas um chamado à restauração metodológica: sem crítica, o Espiritismo se dissolve no misticismo; com crítica, mantém sua identidade científica e filosófica.
Daniel Gontijo e os ex-espíritas
Daniel Gontijo, materialista e ateu, em seu canal do Youtube, intitulado “Prof. Daniel Gontijo”, escolheu dar destaque a análises muito superficiais sobre o Espiritismo, ciência filosófica que, infelizmente, ele não conhece. Para isso, faz quórum com “ex-espíritas”, pessoas que também não conhecem o Espiritismo, e acaba emitindo ou repercutindo opiniões que terminam por refletir uma falsa ideia da Doutrina Espírita, com base em opiniões colhidas na superfície dos reflexos que, infelizmente, o Movimento Espírita produz.
Daniel Gontijo é graduado em Psicologia pela Universidade FUMEC (2009), além de mestre (2013) e doutor (2019) em Neurociências pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Apesar de tantos títulos, age em maneira absolutamente contrária à do bom pesquisador, que somente emite opinião após buscar conhecer muito bem o assunto, coisa que ele nunca fez (ele mesmo diz, em seus vídeos: “lembro de tal coisa por cima, porque uma vez certa pessoa disse que tem algo mais ou menos assim em uma das Revistas Espíritas”).
Porque, em boa lógica, a crítica só tem valor quando o crítico é conhecedor daquilo de que fala. Zombar de uma coisa que se não conhece, que se não sondou com o escalpelo do observador consciencioso, não é criticar, é dar prova de leviandade e triste mostra de falta de critério.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos
Longe de minhas intenções, porém, buscar fazer uma imagem de um carrasco maldoso. Não, pelo contrário: Daniel se mostra como uma pessoa alegre e afável. É isso, porém, o que me parece mais incongruente, porque, dessa leveza, não parte a necessária tarefa do bom pesquisador, que a tudo investiga, a tudo analisa, para poder depois emitir uma opinião. Infelizmente, com o apoio da opinião de pessoas que nunca chegaram a conhecer o Espiritismo verdadeiro, baseia-se nos erros do Movimento Espírita para julgar o Espiritismo, assim como muitos, levianamente, julgam a Jesus pelos absurdos feitos em seu nome.
É interessante notar que o Daniel seja graduado em Psicologia, em primeiro lugar. Será que ele nunca ouviu falar, nem leu, que a Revista Espírita carrega o subtítulo “Jornal de estudos psicológicos” em sua capa? E, se viu, será que não se interessou nem por um momento em saber o porquê desse nome?
Com certeza, Daniel Gontijo não sabe que a Psicologia, no tempo de Kardec, estava inscrita sob os estudos do Espiritualismo Racional, na grade das Ciências Morais do ensino francês (que se espalhou pelo mundo): para isso, seria necessário ler Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo. Ele provavelmente não conhece a história do desenvolvimento dessas ciências através da observação racional, culminando na racional conclusão de que a Vontade seja o atributo essencial da alma. Muito menos deve saber que, muito antes de Kardec se colocar a investigar a ciência espírita, pesquisadores ligados ao magnetismo animal e ao Espiritualismo Racional já colhiam, em certos estudos com pessoas em transe hipnótico induzido, centenas de “cartas” atribuídas a outras personalidades já mortas, dando detalhes confirmados por familiares ainda vivos:
Os magnetizadores comprovaram muito cedo as relações dos sonâmbulos com seres invisíveis. Deleuze, discípulo de Mesmer, em sua correspondência mantida com o doutor G. P. Billot por mais de quatro anos, de março de 1829 até agosto de 1833, inicialmente foi relutante, mas por fim afirmou: “O magnetismo demonstra a espiritualidade da alma e a sua imortalidade; ele prova a possibilidade da comunicação das inteligências separadas da matéria com as que lhes estão ainda ligadas.” (BILLOT, 1839)
Por sua vez, Deleuze afirmou: “Não vejo razão para negar a possibilidade da aparição de pessoas que, tendo deixado esta vida, ocupam-se daqueles que aqui amaram e a eles se venham manifestar, para lhes transmitir salutares conselhos. Acabo de ter disto um exemplo.” (Ibidem)
Foi com estas palavras que Deleuze introduziu a narração do caso de uma sonâmbula cujo falecido pai se manifestou por duas vezes a fim de aconselhá-la sobre a escolha do futuro marido da jovem. Em sua História crítica, ele já havia escrito: “Todos os sonâmbulos, deixados livres no transe, dizem-se esclarecidos e assistidos por um ser que lhes é desconhecido.” (DELEUZE, 1813) Por sua vez, Billot declarava receber instruções dos espíritos superiores, por intermédio dos magnetizados em transe sonambúlico, em suas pesquisas.
O tema da comunicação com os espíritos passou a fazer parte das discussões dos magnetizadores e das páginas de seus periódicos. Um estudo das obras de Chardel, Charpignon, Ricard, Teste e Aubin Gauthier revela diversas descrições de fenômenos experimentais que revelam a comunicação entre vivos e desencarnados.
Anos depois, o magnetizador Louis Alphonse Cahagnet (1809-1885), com coragem e determinação, conversou com os espíritos por meio de seus sonâmbulos em êxtase, principalmente Adèle Maginot, registrando em sua obra mais de cento e cinquenta atas assinadas por testemunhas que reconheceram a identidade dos espíritos comunicantes. Cahagnet antecipou em mais de dez anos esse instrumento de pesquisa da ciência espírita. Para Gabriel Delanne, “Era um lutador soberbo esse trabalhador, que teve a glória de se fazer o que foi: um dos pioneiros da verdade.” (DELLANE, 1899)
FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo
Certamente, Daniel também não conhece os fatos que levaram a Psicologia a deixar o Espiritualismo Racional e a se organizar sob o materialismo dogmático, cheio de afirmações categóricas e não científicas! Ele com certeza ainda não conhece os fatos que levaram Comte a tornar-se inimigo de Victor Cousin, tendo, depois, conseguido o que tanto queria: afirmar seus dogmas, após a queda forçada do Espiritualismo Racional. Para ele, Daniel, hoje talvez seja descabido sequer imaginar a existência de um Espiritualismo Racional, mas ele existiu. Digo mais: abriu caminho ao Espiritismo, que é seu desenvolvimento, formado através das características mais básicas da ciência — a observação racional — e do axioma científico — todo efeito tem uma causa e todo efeito inteligente tem uma causa inteligente (restando saber que causa é essa, sendo mesmo possível e investigada a fraude).
Houvesse estudado as Revistas Espíritas, ainda que para concluir em contrário (já que, em ciências, pessoas podem chegar a conclusões ou teorias diferentes), veria que, de todas as discordâncias possíveis, não se pode afirmar o trabalho da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, conduzido por Allan Kardec, como algo raso, sem seriedade ou sem metodologia científica. Muito menos se poderia afirmar Kardec sendo ingênuo ou tolo, mas muito pelo contrário: veria todas as considerações cuidadosas de Kardec a esse respeito, algo, aliás, que ninguém mais depois dele soube fazer:
Sem dúvida, dizem alguns contraditores, vós estáveis imbuídos de tais ideias e por isso os Espíritos concordaram com vossa maneira de ver. É um erro que prova, mais uma vez, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. Se, antes de julgar, tais pessoas se tivessem dado ao trabalho de ler o que escrevemos sobre o Espiritismo, ter-se-iam poupado ao trabalho de uma objeção tão leviana. Repetiremos, pois, o que já dissemos a respeito, isto é, que quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe de nosso pensamento, que havíamos construído um sistema completamente diferente sobre os antecedentes da alma, sistema aliás partilhado por muitas pessoas. Sobre este ponto, a doutrina dos Espíritos nos surpreendeu. Diremos mais: ela nos contrariou, porque derrubou as nossas próprias ideias. Como se vê, estava longe de ser um reflexo delas.
Isto não é tudo. Nós não cedemos ao primeiro choque. Combatemos; defendemos a nossa opinião; levantamos objeções e só nos rendemos ante a evidência e quando notamos a insuficiência de nosso sistema para resolver todas as questões relativas a esse problema.
KARDEC, Allan. Revista Espírita de novembro de 1858.
Encerro com a grande questão: será que Daniel Gontijo tem essa vontade de conhecer o que desconhece, ainda que termine concluindo de maneira divergente? Ou será que continuará dando “prova de leviandade e triste mostra de falta de critério”? Veremos.
Fiz uma análise em vídeo sobre o último caso do canal citado e sobre a resposta dele ao meu vídeo. Você pode conferir:
Foto de cottonbro studio: https://www.pexels.com/pt-br/foto/adulto-conselhos-orientacoes-assistencia-4100672/
Podemos, porém, acrescentar o pensamento de Kardec, em O Livro dos Médiuns:
Há, por fim, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se preferisse sempre o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo. No Espiritismo ele produz uma confiança cega e frequentemente pueril nas manifestações do mundo invisível, fazendo aceitar muito facilmente e sem controle aquilo que a reflexão e o exame demonstrariam ser absurdo ou impossível, pois o entusiasmo não esclarece, ofusca. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos capazes de convencer, porque se desconfia com razão do seu julgamento. São enganados facilmente por Espíritos mistificadores ou por pessoas que procuram explorar a sua credulidade. Se apenas eles tivessem de sofrer as consequências o mal seria menor, mas o pior é que oferecem, embora sem querer, motivos aos incrédulos que mais procuram zombar do que se convencer e não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Isso não é justo nem racional, sem dúvida, mas os adversários do Espiritismo, como se sabe, só reconhecem como boa a sua razão e pouco se importam de conhecer a fundo aquilo de que falam.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Lake, 23a Edição. Grifos nossos.
É evidente seu posicionamento: os descuidados que, com entusiasmo (e vaidade) acreditam em tudo cegamente, promovem mais mal do que bem à Doutrina.
Exageros, dizem alguns
É da opinião de alguns, que temos exagerado. Segundo eles, devemos “respeitar” a fé de cada um, limitando-nos a realizar o nosso trabalho. Em primeiro lugar, precisamos demonstrar que não existe desrespeito à fé de ninguém. Cada um tem o livre-arbítrio e o direito de acreditar no que quiser, racionalmente ou não. Mas, aqui, tratamos da ciência espírita, e aqui nasce o maior problema da ideia dessas pessoas: o não conhecimento dessa ciência. Basta ler a Revista Espírita e as demais obras de Kardec e verá não apenas ele, mas também os bons Espíritos, frequentemente destacando a necessidade de se expor os erros e, sobretudo, os charlatães e os inimigos da Doutrina Espírita que, vestindo suas ideias sob a roupagem do Espiritismo, voluntariamente ou não promovem o erro que alimenta o descrédito geral no Espiritismo, tal como se fosse mais uma religião nascida das ideias de alguém. Já demonstramos suficientemente o porquê o Espiritismo é uma ciência, e não uma religião.
O Espiritismo chegou distorcido ao Brasil
O fato é que o Espiritismo já se instalou no Brasil adulterado pelo Movimento Espírita iniciante ((fatos fartamente apresentados em Ponto Final, de Wilson Garcia)) e, na FEB (Federação Espírita Brasileira), autodenominada “casa mater” do Espiritismo brasileiro, longe de encontrar terreno para sua restauração, foi substituído pela doutrina de Roustaing, totalmente fundamentada nos velhos dogmas religiosos. Essa instituição, que acabou ditando os rumos do Espiritismo brasileiro por muito tempo, nunca se dedicou a recuperar a ciência espírita e o método necessário para a continuidade da Doutrina, sendo que as evocações particulares (e mesmo nos centros espíritas), ferramenta imprescindível para o estudo científico, foram abandonadas. Sem o método de Kardec, e pelo interesse na impressão e na venda de obras mediúnicas, qualquer ideia vinda de qualquer Espírito passou a ser veiculada e, assim, formou lentamente a crença geral do Movimento Espírita, hoje completamente perdido em ideias que, na verdade, são fundamentalmente antidoutrinárias.
Precisamos reconhecer, é claro, que parte dessas ideias fundamentou-se antes mesmo da vinda do Espiritismo ao Brasil, com a adulteração das obras O Céu e o Inferno (principalmente) e a A Gênese, após a morte de Kardec. Infelizmente, a FEB é a primeira a defender a ideia de que essas obras não tenham sido adulteradas, fato que, principalmente com relação à O Céu e o Inferno, é suficientemente evidenciado e irrefutável.
Falar em adulteração é criar descrença?
Aqui, enfim, chegamos a outra crítica de certas pessoas: “dizer que houve adulteração seria jogar lama em Kardec, suscitar descrença no Espiritismo”. “Aliás”, dizem elas, “que Doutrina é essa que os Espíritos permitem tal coisa, sem aviso?”. É um pensamento completamente ilógico.
Começamos lembrando que as palavras do próprio Cristo foram adulteradas e distorcidas em favor dos dogmas religiosos, e esse fato foi justamente o que levou à descrença de incontável número de pessoas no cristianismo. Voltaire foi um dos mais evidentes expoentes dessa descrença, que ainda hoje prevalece. Perguntamos: seria “lançar lama” em Jesus destacar as adulterações? Seria “suscitar descrença” no cristianismo, destacar as distorções, ao mesmo tempo em que se demonstra as ideias originais? Evidente que não. Se o problema aconteceu, precisamos encará-lo de frente (uma atitude científica e verdadeiramente kardeciana), e não varrê-lo para baixo do tapete, enquanto perduram seus efeitos avassaladores.
À ideia de que “os Espíritos não teriam permitido as adulterações”, opomos a forte recomendação de estudo da Doutrina, o que evidentemente não foi realizado por essas pessoas. Os Espíritos alertaram várias vezes sobre as tramas dos inimigos da Doutrina, como demonstramos em Profecia do Espírito da Verdade. Baseado nos alertas e nas evidências, Kardec também previa o futuro do Espiritismo, conforme destacou na Revista Espírita de dezembro de 1863, no artigo “Período de Lutas”:
A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso. Depois virá o quinto, o período intermediário, consequência natural do precedente e que, mais tarde, receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o da renovação social, que abrirá a era do século vinte. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas desejadas por Deus para a transformação da Terra terão desaparecido. A geração que surge, imbuída das ideias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que deve inaugurar a vitória definitiva da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1863.
Infelizmente, a previsão do sexto período está atrasada em mais de um século, por diversos fatos imprevisíveis àquela época, quais o abandono do Espiritualismo Racional e da Ciência Espírita, além da adulteração das obras citadas. Depois, as guerras, o esquecimento da Doutrina na França e na Europa e sua instalação no Brasil, completamente distorcido.
Os Espíritos não impedem o livre-arbítrio humano
Lembramos, para terminar, que o cerne da Doutrina Espírita, sempre demonstrado pelos Espíritos, é o livre-arbítrio, ao qual os Espíritos não podem se interpor. Podem aconselhar, mas não podem tolher a vontade humana. Assim fizeram: aconselharam largamente sobre a necessidade de cuidado que, infelizmente, faltou àqueles que deveriam cuidar do legado do mestre. Parece que o Movimento Espírita francês ficou muito confortável com o direcionamento de Kardec e, quando isso deveria mudar, a partir de meados de 1869 (conforme exposto na Revista Espírita de dezembro de 1868, “Constituição transitória do Espiritismo”) Kardec morreu, e todos ficaram sem rumo. Assumindo Leymarie a direção da Sociedade Espírita, desvirtuou o propósito da Revista Espírita, admitindo a doutrina roustainguista a troco de dinheiro, e o resto o leitor pode conhecer através da leitura das obras O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, Nem Céu, Nem Inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final, de Wilson Garcia.
O bem em meio aos enganos
Muitos dizem: “o Movimento Espirita, em meio a muitos enganos, ainda assim produz um bem. Não é de todo errado”. Não poderíamos discordar disso. Não dizemos que há erro ou engano em tudo e que nenhum bem se produz. Um romance mediúnico, por mais que seja repleto de ideias erradas, pode ser a porta de entrada para o indivíduo questionador ir atrás de mais informações, terminando por conhecer as obras de Kardec, enfim. Mas, perguntamos: não seria melhor que o Espiritismo fosse apresentado como ele é, simples e racional, sem os absurdos que produzem tantos contratempos e que muito frequentemente conduzem à descrença? Não podemos deixar de destacar que, quando se abre espaço para um engano, dentro de uma ciência, e esse engano não é remediado pela teoria e pelos fatos doutrinários, ele dá margem a muitos outros. É o que tem acontecido.
Restauração
É chegada a hora de restaurar o Espiritismo, o que já começou no Brasil e se espalhará pelo mundo. O primeiro passo é aprender o Espiritismo como ele verdadeiramente é, afastando-se dos erros. Aqueles que, ditos “espíritas”, não desejarem fazer assim, integrarão uma nova religião, se o quiserem, tão dogmática quanto as demais. Deixemos que o tempo se encarregue deles, mas nem por isso deixemos de fazer a nossa parte, apresentando os erros, frente à Doutrina Espírita, sem personalismo. Depois, virá o tempo da restauração do método de Kardec. Esses dois passos darão a possibilidade do sexto período previsto por Kardec: o da renovação social.
Faça parte dessa jornada, que é coletiva e somente se dará pela colaboração de muitos.
O Pensamento do Fundador do Espiritismo, Allan Kardec, nos dias atuais
Allan Kardec tem um papel ainda e, para sempre, muito importante no Espiritismo. Vejamos:
“Requer nossa reflexão para que possamos compreender cada vez mais e melhor o papel que a Filosofia Espírita desempenha em nossos dias e como interpretaremos seus postulados e propostas diante da realidade que nos é apresentada pelos tempos em que vivemos, acompanhados pelo progresso tecnológico e pelo avanço intelectual e moral que caracterizam este século.
Desde a fundação do Espiritismo, com a publicação de “O Livro dos Espíritos” em 18 de abril de 1857, e como uma clara expressão do pensamento lógico e racional de seu sistematizador, ficou registrado que: “O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que podem ser estabelecidas com os Espíritos; como doutrina filosófica, abrange todas as consequências morais que decorrem de tais relações.”
Dessa forma, respaldado pela experiência desenvolvida por Allan Kardec na classificação, avaliação e caracterização do fenômeno mediúnico como eixo principal e meio eficaz para desenvolver e precisar os princípios e as bases teóricas espíritas, a Filosofia Espírita é estabelecida como uma Doutrina de caráter científico, filosófico e moral.
A publicação sistemática e contínua de suas obras básicas e complementares permitiu que a difusão do ensinamento espírita aumentasse; nelas lemos: “A força do Espiritismo reside em sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso”; “O Espiritismo, sob pena de suicídio, não pode fechar as portas a nenhum progresso”; “O Espiritismo, avançando com o progresso, nunca será ultrapassado, pois se novas descobertas demonstrarem que ele está errado em algum ponto, ele se modificará nesse ponto e se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará.”
A clara expressão do pensamento kardecista nessas linhas nos apresenta uma Doutrina Evolutiva, nos coloca diante de uma Filosofia aberta, dinâmica, racional, coerente e, acima de tudo, prática. Ela nos incentiva, como adeptos, a abraçar uma proposta de livre pensamento e humanismo, na qual, através de seu estudo contínuo e de uma compreensão profunda, resultado de reflexões demoradas e experimentações conscientes e sérias, somos conduzidos à identificação clara e lógica de nosso ser como Espíritos imortais. Estamos vinculados à reencarnação presente neste mundo como resultado de inúmeras jornadas evolutivas que já experimentamos e que constituem nossa situação atual. Somos Espíritos conscientes e responsáveis por todo esse acervo espiritual de acertos e erros, conquistas e fracassos que temos vivenciado e que são essenciais para nossa evolução, progresso e compreensão mais profunda de nossa verdadeira situação espiritual.
Assim, encontramos nas exortações kardecistas, que formam a base e o ponto de partida da Filosofia Espiritista, um excelente guia, um plano experimental e racional que pode facilitar muito nossa visão e compreensão consciente das grandes Verdades Universais.
No entanto, é necessário, para preservar e atualizar o entendimento do “Legado Kardeciano”, a contextualização de cada um de seus conceitos, pontos de vista e ideias fundamentais. Esses princípios derivam dos fundamentos científicos, filosóficos e éticos que caracterizaram a segunda metade do século XIX na França.
O conjunto dos ensinamentos espíritas, bem como a precisa exposição de seus princípios e fundamentos, mantém sua indiscutível atualidade diante dos avanços tecnológicos, das descobertas científicas e das propostas de integração humanista e solidária de filosofias e religiões. No entanto, alguns pensamentos, procedimentos e concepções encontrados nas obras espíritas também refletem a visão pessoal e os pontos de vista expressos por seu fundador e pelos Espíritos desencarnados que o assessoraram em seu trabalho. Esses aspectos precisam ser valorizados, analisados, comparados e contextualizados, seguindo a própria exortação do Espiritismo, em benefício da própria Doutrina Espírita. Isso garante que ela continue sendo a expressão clara, lógica e racional dos princípios e postulados que se baseiam na manifestação objetiva e real das Leis Naturais, que regulam o funcionamento do Universo e a estabilidade de nossas individualidades.
É dever de todo estudioso espírita, de todo adepto comprometido com a fidelidade e preservação da Filosofia Espírita, adotar uma postura aberta, dialética, livre de dogmas e preconceitos, afastada de posições sectárias e movimentos radicais paralelos em seus pensamentos e concepções. Isso permite o estudo, a promoção e a divulgação das doutrinas espíritas conforme foram manifestadas em suas obras fundacionais, mas de acordo com a necessária evolução e atualização conceitual e na linguagem expressiva da Doutrina, que os tempos atuais demandam. Dessa forma, a Doutrina fica livre de ambiguidades e interpretações prejudiciais que poderiam afetar sua interpretação adequada e sua disseminação indispensável.
O pensamento do fundador do Espiritismo deve ser exposto exatamente como foi expresso, refletido, estudado, analisado, valorizado e adaptado aos tempos atuais, pois, dada a inegável atualidade desse pensamento, requer um estudo mais aprofundado e assimilação por parte dos adeptos espíritas. Deve ser considerado como uma orientação para a introdução ao conhecimento da Ciência Espírita, buscando aprofundamentos, mas nunca como a expressão de verdades definitivas ou revelações inquestionáveis.
A garantia para a preservação do Pensamento Espírita para as novas gerações está em nossas mãos e depende em grande parte da atitude que cada um de nós assume em relação a ele, com responsabilidade individual.
Walter Pérez
O texto acima foi submetido por Walter Pérez, do grupo CEEAK — Centro de Estudios Espiritas Allan Kardec — de Cuba. A ele, nada podemos acrescentar. Encerra a clareza transmitida pelo pensamento e pela atitude racional e científica de Kardec, responsável pelo nascimento da Doutrina Espírita e necessária para o seu desenvolvimento. Poderíamos apenas destacar que o título de “fundador” do Espiritismo cabe à parte da ciência espírita desenvolvida “do lado de cá”, mas não caberia ao Espiritismo como ciência da Natureza, que existe da eternidade e abarca a tudo o que possamos compreender.
Ramatis e o degredo planetário
É preciso tomar muito cuidado. Não é que fora de Kardec não exista verdade: é que, sem método científico na comunicação com os Espíritos, admitem-se mentiras, ilusões e verdades, cega e indiscriminadamente.
É muito patente observar que Ramatis (ou todo Espírito que se identifica com esse nome) transmite absurdos racionais e científicos, tendo muitos deles já sido desmentidos pela ciência elementar.
Esses Espíritos partem da ideia errada da queda pelo pecado, e, assim, ensinam, por acreditarem ou por vontade de mistificar, falsas ideias ligadas a um Deus punidor, que castiga o erro. É exatamente o princípio dos erros das religiões e, nesse sentido, aí não há nada de Espiritismo – basta estudar O Céu e o Inferno, A Gênese e a Revista Espírita, de 1858 a 1869, para certificar-se disso.
Por meio de um médium, pode falar qualquer Espírito. Se, do nosso lado, acreditamos cegamente, seremos facilmente fascinados por Espíritos mistificadores.
Temos dois aspectos atualmente defendidos pelo movimento espírita: o de o Espiritismo ser uma ciência e o de ele ser uma religião. Unindo esses dois aspectos, alguns afirmam que ele tenha um tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião.
Antes de mais nada, precisamos destacar que o Espiritismo somente pode ser visto como religião no aspecto filosófico, e não no aspecto ecumênico.
E o fato de ser uma religião no sentido filosófico, afirmado por Kardec, liga-se diretamente ao fato de a Doutrina Espírita ser um desenvolvimento do Espiritualismo Racional, Movimento Filosófico que delineou as ciências morais francesas e o ensino, naquele país, por grande parte do século XIX.
Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1868. Sessão anual comemorativa dos mortos.
O Espiritismo, portanto, não é uma religião como entendemos atualmente. É justamente por isso que Allan Kardec defende que o termo não seja usado, a fim de não causarmos más interpretações e não colocarmos o Espiritismo num campo em que ele não se encaixa e onde, deixando de ser ciência, é vencido pela disputa entre religiões e entre ciência e religião. Não, isto não é cabido nem merecido a essa doutrina nascida do método científico e presente na própria natureza.
Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir cada ideia, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.
Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.
Ibidem
Espiritismo-Religião
O Espiritismo-religião esconde-se, como religião, nos centros espíritas, como as demais religiões moram em suas igrejas e templos (há até quem já esteja chamando o centro espírita de “templo”). Não pratica as evocações e aceita cegamente o que dizem médiuns ou Espíritos isolados, ou, ainda, o que determinam instituições como a FEB – Federação Espírita Brasileira. O Espiritismo-religião se tornou dogmático e deixou de lado os princípios doutrinários e científicos nascidos do longo e exaustivo estudo de Allan Kardec. Enterrou seu legado, em grande parte, para ficar com as mais diversas falsas ideias modernas, oriundas do misticismo, que permitiu que se instalasse em seu seio.
Para ser adepto do Espiritismo-religião, o indivíduo é levado a crer que depende de deixar de lado sua própria religião, porque é assim que funciona nesse sentido. Pode-se estudar matemática ou botânica sendo católico ou evangélico, mas não se dá o mesmo com uma religião, não é mesmo?
Mas, muitas vezes, esse adepto sincero, sedento de conhecimentos, encontra no Espiritismo-religião nada mais que uma nova religião, cheia de dogmas. Às vezes, o Espiritismo-religião se torna até preconceituoso e afasta novos adeptos, ao ser taxativo em apontar para pessoas com certas características e dizer que são assim porque estariam pagando débitos de vidas passadas, dentre outras ideias que beiram o absurdo.
Mas isso não corresponde em nada ao Espiritismo-ciência.
O Espiritismo-Ciência
O Espiritismo-ciência não se escondia. Galgado na força do Espiritualismo Racional, que desenvolveu pela Psicologia Experimental, alastrava-se como pólvora, como qualquer outra ciência. Era não só aceito, mas estudado, em pessoa, por gente das camadas mais cultas da sociedade. Príncipes, princesas, reis, rainhas, filósofos, cientistas, médicos, doutores. Ele se disseminava, por ser algo puramente claro e racional, entre religiosos de todos os credos, encontrando, entre seus números, até mesmo católicos ortodoxos e muçulmanos.
IV. ─ Em relação à instrução:O grau de instrução é muito fácil de avaliar pela correspondência. Instrução cuidada, 30%; simples letrados, 30%; instrução superior, 20%; ─ semiletrados, 10%; ─ iletrados, 6%; ─ sábios oficiais, 4%.
V. ─ Em relação às ideias religiosas: católicos romanos, livres-pensadores, não ligados ao dogma, 50%; ─ católicos gregos, 15%; ─ judeus, 10%; ─ protestantes liberais, 10%; ─ católicos ligados aos dogmas, 10%; ─ protestantes ortodoxos, 3%; ─ muçulmanos, 2%.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, janeiro de 1869. Estatística do Espiritismo.
Ah!, como era maravilhoso e, ao mesmo tempo, simples, o Espiritismo-ciência. Era praticado nos lares. As famílias realizavam evocações particulares de seus entes queridos, e com eles aprendiam e se consolavam. Por vezes, evocavam Espíritos sofredores, e os ajudavam a se acalmarem, com novas compreensões. Muitas vezes, enviavam as anotações dessas evocações para Allan Kardec, que as analisava junto aos demais associados da SPEE. Quantas vezes essas evocações particulares deram lugares a novas hipóteses e novas investigações!
O Espiritismo-ciência era visto de maneira séria. Não se admitiam novos princípios doutrinários sem que fossem verificados pelo método do duplo controle: a comunicação de um mesmo princípio por todo parte, sendo avaliadas essas comunicações perante a lógica e a razão. Não se negava nem se aceitava nada sem realizar esse processo. Quantas vezes Kardec voltou atrás e abandonou uma hipótese, por vê-la inválida perante as evidências?
No Espiritismo-ciência, os centros eram centros sérios de estudos. Praticavam as evocações com a finalidade de aprendizado e, nos mais sérios, segundo preceitos de Kardec, não se admitiam nas reuniões mediúnicas nem os neófitos, nem os curiosos.
O Espiritismo-ciência faz falta. Nele, Kardec encontrava argumentos muito claros e racionais para descartar as mais absurdas e infundadas críticas contra o Espiritismo. Hoje, o Espiritismo-religião frequentemente perde adeptos para a descrença, porque as ideias nascidas da aceitação cega não conseguem enfrentar a razão.
Faríamos melhor se nem sequer falássemos em “Espiritismo-religião”, mas apenas em “Movimento Espírita Religioso”, talvez. Mas é importante destacar a incongruência entre os dois conceitos, pois precisamos fazer esforços para voltar ao “Espiritismo-ciência”, aquele que todo mundo pode estudar, sem abandonar suas religiões; aquele que dá a fé raciocinada, que pode enfrentar a razão, a qualquer tempo; aquele, enfim, que não terminou com Kardec, e que precisa continuar.
O Espiritismo-ciência encontra sua formação largamente registrada na Revista Espírita de 1858 a 1869, fruto de um extenuado trabalho de mais de 12 anos sobre comunicações espontâneas, evocações e manifestações de milhares de Espíritos, por milhares de médiuns, em milhares de grupos, por toda parte do mundo. Já o “Espiritismo-religião” encontra-se predominantemente em romances, frutos da opinião de um Espírito, que não se questiona pelo método necessário.
Na data em que se comemora o nascimento de Allan Kardec, penso que precisamos fazer muito mais pela defesa de seu legado, que, longe de ser uma criação religiosa para conduzir fiéis, abarca a toda a comunidade de Espíritos encarnantes no planeta Terra. Esse legado é maior que eu, que você, que nosso grupo. Não depende e nem deve depender da opinião de quem seja. Precisa ser recuperado em sua fonte. Eis o trabalho.
Até o último instante de sua existência física, Allan Kardec deixou profundos ensinamentos. Morreu como viveu: trabalhando pelo Espiritismo. Suas mãos laboriosas despediram-se deste mundo entregando a Revista Espírita — periódico no qual deixou registrados seus ensinamentos, suas lutas, suas vitórias e, naquele último momento, sua imortalidade.
[…]
No cemitério, os curiosos procuravam posicionar-se nos lugares de onde podiam escutar os discursos. No entanto, quando o ataúde desceu para o fundo da cova, a emoção calou as palavras; fez-se um grande silêncio.
PRIVATO, Simoni. O Legado de Allan Kardec.
Espiritismo e Ciência: superando desafios e erros modernos
O Espiritismo, como ciência de aspecto filosófico e consequências morais ((O Espiritismo somente pode ser visto como religião do ponto de vista filosófico, disse Kardec, justamente se baseando na filosofia de então, o Espiritualismo Racional, de onde o Espiritismo se desenvolveu.)), formada através do método científico, vive desafios de todos os lados. Colocado em figura, parece-se com a mais bela flor, do mais suave perfume e das maiores propriedades curativas, abafadas pelos espinhos e pelas ervas-daninhas.
Surgem de todos os lados as mais diversas dificuldades, nascidas principalmente de uma falta de empenho, de zelo e de cuidado. Sob essa nomenclatura, admitem quaisquer tipos de ideias, provenientes da boca ou da intermediação mediúnica de indivíduos tornados ícones inquestionáveis. Não bastasse isso, ausentes de conhecimento sobre o que seja ciência e sobre o necessário método científico, responsável justamente pela força inatacável da Doutrina nascida dos estudos coordenados por Allan Kardec, a maioria dos pesquisadores modernos promove, no meio espírita, novas ideias, novas teorias, distraindo-se do ponto essencial: as evocações, produzindo ensinamentos concordantes entre si, então submetidos à análise racional, frente à ciência humana e frente àquilo que já havia sido construído pelo mesmo método.
Método Científico
Retomemos, por um momento, a questão da definição do método científico, exemplificado na figura em anexo. Para quem se dedicou a estudar pelo menos o primeiro ano da Revista Espírita (1858), ficará muito fácil identificar os mesmos passos tomados por Kardec:
a observação sistemática e controlada de certos fenômenos e, depois, das evocações;
a verificação de fatos identificados;
a investigação de hipóteses, que formam uma teoria, coesa em si mesma, de onde se obtêm implicações, conclusões e previsões;
a realização de experimentos, através das evocações, de onde se obtém novas observações, analisadas racional e logicamente;
daí, a observação de novos fatos, que corroborarão ou não com a teoria;
por final, agregar os resultados dessas observações à teoria científica, se corroborarem com ela, ou reciclar hipóteses, realizando novas observações e percorrendo, novamente, o mesmo método.
Exemplificação do método científico
Um fato muito notável, que denota o rigor científico de Kardec e o seu compromisso indissolúvel com a ciência verdadeira, é que ele nunca se apegou a qualquer ideia no estudo do Espiritismo. Quem passou sobre o estudo da Revista Espírita de 1858 e 1859 já compreende isso muito bem. Um exemplo disso é o estudo tratado principalmente a partir da RE de julho de 1859, iniciando no artigo O Zuavo de Magenta e concluído (pelo menos de momento) nos artigos do mês seguinte. Destacamos o estudo no artigo Materialidade de Além-Túmulo.
E é justamente nesse ponto, o do apego às ideias, somados à ausência do método necessário, que erra a imensa maioria dos pesquisadores modernos do Espiritismo.
O erro do movimento espírita moderno
O grande problema surge a partir do momento em que, abandonando o método científico indispensável para a ciência espírita, o Movimento Espírita passou a admitir teorias contrárias aos princípios já solidificados pelo mesmo método, tais como as ideias de colônias espirituais, umbral, etc., caindo no erro mais básico do espírita empolgado: crer cegamente nas opiniões dos Espíritos.
Não dizemos que o Espiritismo, estudado por Kardec, já tenha observado tudo o que há para ser observado. É claro que não. O que dizemos é que o movimento espírita moderno criou um grande conjunto de teorias que não podem enfrentar o método científico, porque não passaram por ele!
Encontramos, muito frequentemente, mesmo aqueles pesquisadores dedicados e de boa vontade — não tomaremos deles esse ímpeto verdadeiro — que, contudo, apegam-se às mais diversas ideias e que muito rapidamente se mostram irritado pela contradita daquilo que, cientificamente, faz parte dos princípios doutrinários do Espiritismo.
A base da metodologia indispensável no Espiritismo
Retomemos, aqui, o que está destacado em nossa página inicial – uma citação de Allan Kardec em A Gênese:
Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.
Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade.
Allan Kardec — A Gênese
A afirmação acima destacada, feita por Kardec, não é mero fruto de uma sistematização pessoal. Muito pelo contrário: ela representa o método científico necessário para o estudo e o desenvolvimento do Espiritismo. Não basta que um mesmo princípio seja consagrado pela generalidade (o que requer o emprego das evocações, porque não basta que apenas nos coloquemos no papel de ouvir e aceitar o que dizem os Espíritos); não: é necessário, além disso, que essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos seja passada pelo critério da lógica, o que quer dizer confrontá-la frente à ciência humana e o método científico, para que, apenas assim, possa ser tomada como princípio do Espiritismo.
Note, ademais, o termo “opinião” utilizado por Kardec, não por acaso: o que dizem os Espíritos, através das comunicações mediúnicas, são opiniões próprias, nascidas de seus conhecimentos e suas próprias observações, quando não são frutos de uma deliberada intenção de mistificar, isto é, promover falsas ideias. Acontece nos melhores grupos. As opiniões dos Espíritos, como as opiniões dos seres humanos, podem estar carregadas de crenças, falsas ideias, pouco conhecimentos, ilusões, etc. Como, então, analisá-las de forma científica? Através da observação psicológica dessas comunicações.
As nuances em uma ciência psicológica
Quem já estudou pelo menos os dois primeiros anos da Revista Espírita nota que, ainda ao final do segundo ano, Kardec continua frequentemente questionando ao Espírito comunicante como ele chegou ali, como ele se apresenta, como ele vê outros Espíritos, etc. Se uma resposta destoar da teoria científica ou trouxer novos fatos, será investigado pelas evocações e segundo o método científico — o que não é realizado hoje em dia.
Kardec investigou, dentre tantas coisas, a questão da dor no Espírito. Houve aqueles que afirmaram sentirem frio ou calor; dores; fome; vermes roendo seu corpo, etc. Foi pelo estudo dedicado, pela análise racional nas nuances psicológicas dessas comunicações, que Kardec chegou a diversos princípios científicos doutrinários. Um exemplo disso é a comunicação do Espírito do assassino Lemaire na RE de março de 1858:
6. Imediatamente após a tua execução, tiveste consciência de tua nova existência? — Eu estava mergulhado numa perturbação imensa, da qual ainda não saí. Senti uma grande dor; parece que meu coração a sentiu. Vi qualquer coisa rolar ao pé do cadafalso. Vi o sangue correr e minha dor tornou-se mais pungente.
Kardec poderia facilmente, não fosse seu rigor científico, admitir que o Espírito sofria materialmente de uma dor no coração. Mas ele investiga:
7. Era uma dor puramente física, semelhante à causada por uma ferida grave, como, por exemplo, a amputação de um membro? — Não. Imagina um remorso, uma grande dor moral.
Poderíamos citar uma enorme diversidade de casos que ilustram esse princípio científico, mas deixamos a cargo da curiosidade sadia do leitor o propósito de estudar a Doutrina que abraça.
O Espiritismo precisa de defesa
Deixar de lado o método científico é um grande erro da maior parte dos pesquisadores modernos do Espiritismo, que visa construir novos princípios doutrinários sem passar por esse processo, quando deveria estar não só praticando as evocações, frente ao estudo dedicado da Revista Espírita, como também deveria estar a todo tempo incitando o movimento espírita a fazê-lo.
Por não fazê-lo, jogam mais uma pá de cal sobre o Espiritismo, produzindo, dele, uma má impressão e uma falsa ideia ante o meio científico, que não o reconhece como algo nascido da ciência, mas como uma mera crendice supersticiosa ou uma religião. Não são raras as vezes em que me deparo com alegações de pessoas que, não tendo tido a chance de conhecer o que realmente seja o Espiritismo, dele se afastaram por não poder admitir, pela razão, que, por exemplo, um Espírito tenha que tomar um ônibus voador para se locomover.
Temos muito a fazer e você já deve ter percebido que o primeiro passo é estudar.
A continuidade científica do Espiritismo
Por uma estranha ideia, adotamos o princípio de que não podemos evocar os Espíritos, e que o único que pôde fazer isso foi Kardec, porque tinha a permissão ou um propósito muito peculiar.
À luz do conhecimento, precisamos corrigir um pouquinho essa ideia, pois, na verdade, os únicos que puderam fazer as evocações foram os milhares de indivíduos e pequenos grupos, espalhados pelo mundo, não só na época de Kardec, mas antes mesmo dele, pois, quando Kardec se interessou pela nova ciência e antes mesmo de se dar o pseudônimo de Allan Kardec, o Espiritismo já era praticado em muitos pontos do mundo.
Interessante, não? Por que será que hoje, então, não podemos ou não devemos evocar os Espíritos? Não conheço essa lei, nem nunca a vi escrita em qualquer lugar, senão numa frase tirada de contexto, metafórica de Chico Xavier: “o telefone só toca de lá para cá”. Muito pelo contrário, vamos encontrar, ao estudar as obras de Kardec, a recomendação da prática do Espiritismo pelos pequenos grupos, prática essa que consistia, a seu ver, uma ciência: a constante investigação, junto aos Espíritos, das leis que regem a Criação.
Por essa estranhíssima ideia, passamos a colocar os médiuns na posição das antigas secretárias telefônicas automáticas, cuja única missão era atender a uma ligação e gravar a mensagem, e nada mais. Os médiuns se transformaram nisso:
Não só isso: os grupos espíritas, que hoje praticamente inexistem fora da figura dos centros espíritas, passaram a adotar uma ideia ainda mais estranha: passaram a ouvir as “gravações telefônicas” sem as questionar! Isso mesmo: não se questiona a mensagem dada, apenas as tomam pelo princípio de que são sempre dotadas de verdade e sabedoria, e de propósitos de bem. É muito, muito estranha essa ideia, porque ontem mesmo minha mãe recebeu uma mensagem de uma pessoa que se dizia ser eu, e que queria três mil reais para pagar uma conta urgente. Imagine se minha mãe adotasse a prática de muitos grupos espíritas e simplesmente confiasse no interlocutor!
Os sistemas
Por um princípio ainda mais estranho, certos indivíduos passaram a criar e defender sistemas erigidos justamente sobre essas comunicações passivamente recebidas e não verificadas, gastando precioso tempo e causando enormes dificuldades ao movimento espírita, que deixou de estudar Kardec para confiar nesses sistemas. Incongruentemente, os indivíduos que agem assim são, muitas vezes, aqueles que teriam plena capacidade, por terem conhecimentos científicos, para investigarem essas questões.
Mas nem só de comunicações espíritas não checadas se forma esse triste cenário. Outros tantos erigem verdadeiros sistemas de ideias sobre metáforas utilizadas por Kardec em seus estudos, não conseguindo compreender que os cientistas, sobretudo naquela época, vislumbrando novos aspectos científicos que não tinham como compreender, criavam metáforas para tentar dar luz à ideia que buscavam expressar, confiando à continuidade da ciência melhores explicações. Todos os grandes cientistas fizeram isso, sobretudo no aspecto filosófico e especialmente no âmbito metafísico dessas ideias. Kardec fez isso, por exemplo, ao tentar explicar a presença divina como sendo um oceano, onde tudo estaria imerso. Uma metáfora((Ainda hoje as metáforas são utilizadas para dar explicações científicas, chegando certos cosmólogos a dizer que o Espaço é como se fosse um shampoo ou um queijo! Pobre sujeito que erija um sistema sobre essas metáforas!))!
Mas não só a ciência humana usou metáforas. Os Espíritos também as utilizaram, frequentemente. Espíritos sábios utilizaram sábias metáforas para explicar ideias que, de forma científica, ainda não podíamos compreender. Jesus usou metáforas para explicar princípios da ciência espírita que os homens daquele tempo não podiam compreender. Espíritos ignorantes usaram metáforas para explicar causas e efeitos que nem eles conseguiam compreender de forma científica, mas que sabiam existir e funcionar.
A questão toda, aqui, é uma só:
METÁFORAS
Apenas para ficar muito claro e não restar dúvida, vamos definir o significado do termo: metáfora é a “figura de linguagem em que uma palavra que denota um tipo de objeto ou ação é usada em lugar de outra, de modo a sugerir uma semelhança ou analogia entre elas; translação (por metáfora se diz que uma pessoa bela e delicada é uma flor, que uma cor capaz de gerar impressões fortes é quente, ou que algo capaz de abrir caminhos é a chave do problema); símbolo.”((MICHAELIS. Moderno Português – Busca – Português Brasileiro – Metáfora. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/metafora. Acesso em: 29 mai. 2023.)). Do grego, metaphōrá.
São verdadeiros sistemas de ideias erigidas, muitas vezes, sobre nada mais que metáforas, tomando-as como se fossem literais. No âmbito das comunicações espíritas, o estudo da comunicação do soldado zuavo (“O zuavo de Magenta“), na Revista Espírita de julho de 1858, nos dá uma interessante perspectiva, pois, ao ser questionado sobre sua aparência espiritual naquela evocação (ou perispiritual), ele responde:
42. ─ Se vos pudéssemos ver, como o veríamos? ─ De turbante e culote.
43. ─ Pois bem! Suponhamos que nos aparecêsseis de turbante e culote. Onde teríeis arranjado essas roupas, desde que deixastes as vossas no campo de batalha? ─ Ora, ora! Não sei como é isto mas Tenho um alfaiate que mE as arranja.
44. ─ De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes ideia? ─ Não. Isto é lá com o trapeiro.
OBSERVAÇÃO: Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, foram completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos notícias disso no próximo número. Nosso bom zuavo não é suficientemente adiantado para resolver sozinho. Foi-nos preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.
Depois, questionado sobre seu general, também já morto, assim responde:
46. ─ Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme? ─ Sim, mas ele não o veste todos os dias.
47. ─ Em que dias o veste? ─ Ora essa! Quando o chamam ao palácio((Os Espíritos, ignorantes de certas coisas, expressam-se como podem, e veem o mundo dos Espíritos conforme suas ideias, assim como uma criança, utilizando imagens mentais para descrever algo que ela não compreende, fala de coisas que imputamos apenas à imaginação, mas que, no fundo, tem seu significado. O erro, aqui, seria tomar o “palácio” como uma expressão da verdade espiritual permanente.)).
Poderíamos tomar essa comunicação como mais uma base de suporte para o sistema das cidades espirituais. Kardec, porém, agindo de forma científica, não sistematizou sobre essa ideia, mas apenas viu nela algo muito interessante para ser pesquisado. Daí, surgiu a hipótese de que, no mundo dos Espíritos, a matéria terrestre poderia ter um “duplo etérico”. No artigo “Mobiliário de além-túmulo”, da Revista de agosto de 1859, ele pergunta a São Luis:
5. ─ Haveria um desdobramento da matéria inerte? Haveria no mundo invisível uma matéria essencial, revestindo a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, esses objetos teriam o seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?
─ Isto não se passa dessa maneira. O Espírito tem sobre os elementos materiais disseminados em todo o espaço, na nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à vontade, concentrar esses elementos e lhes dar uma forma aparente, adequada a seus projetos.
Não ficando satisfeito com a resposta, questiona:
6. ─ Faço novamente a pergunta de maneira categórica, a fim de evitar qualquer equívoco. As roupas com que se cobrem os Espíritos são alguma coisa? ─ Parece que a minha resposta anterior resolve a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?
No mesmo artigo, pouco antes, Kardec se refere especialmente ao caso do Espírito de um encarnado, que se apresentou em outro lugar, para uma pessoa, com as mesmas características do corpo físico e carregando sua tabaqueira. Reproduzimo-la, por ser autoexplicativa:
3. ─ Essa tabaqueira tinha a forma daquela que ele usa habitualmente, e que estava em sua casa. O que era essa tabaqueira entre as mãos do Espírito? ─ Sempre aparência. Era para que as circunstâncias fossem notadas, como o foram, e para que a aparição não fosse tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde da vidente. O Espírito queria que essa senhora acreditasse na realidade de sua presença e tomou todas as aparências da realidade.
4. ─ Dizeis que é uma aparência, mas uma aparência nada tem de real; é como uma ilusão de óptica. Eu gostaria de saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem irreal, como, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.
(Um dos membros da Sociedade, o Sr. Sanson, faz observar que na imagem reproduzida pelo espelho há qualquer coisa de real. Se a imagem não fica no espelho, é que nada a fixa, mas se for projetada sobre uma chapa do daguerreótipo, deixa uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e que não é apenas uma ilusão de óptica).
─ A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de nos dizer se existe alguma analogia com a tabaqueira, isto é, se existe algo de material nessa tabaqueira?
─ Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta semelhante às que o Espírito usava quando vivo. OBSERVAÇÃO: Evidentemente o vocábulo aparência deve aqui ser tomado no sentido de imagem, de imitação. A tabaqueira real lá não estava. A que o Espírito tinha era apenas uma reprodução. Comparada à original, era apenas uma aparência, conquanto formada por um princípio material.
A experiência nos ensina que não devemos tomar ao pé da letra certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as segundo as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos, por isso devemos aprofundar o sentido de suas palavras, sempre que existe uma ambiguidade mínima. Eis uma recomendação feita constantemente pelos Espíritos. Sem a explicação que provocamos, o vocábulo aparência, repetido continuamente em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação.
A imagem do espelho é aqui tomada como uma metáfora. Naquela época, não se conhecia os princípios físicos dessa imagem, crendo-se, em geral, que ela era algo irreal, uma “aparência“. A justa observação do Sr. Sanson demonstra que o reflexo no espelho tem algo de real, pois, se em lugar do espelho, fosse uma chapa fotossensível, como a do daguerreótipo, essa imagem ficaria gravada. Eles não tinham como explicar o fenômeno, por isso utilizavam metáforas. O Espírito de São Luis responde com a exatidão confirmada pela ciência moderna: assim como o reflexo no espelho e a gravação da fotografia agem por efeito da interação com fótons de luz, a aparência que toma o perispírito resulta da interação da vontade do Espírito sobre o elemento tomado do fluido cósmico universal. Isto se conclui na questão n.º 25:
25. ─ Se o Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas e dar a elas uma realidade temporária, com suas propriedades, também pode tirar dali o necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dá a chave do fenômeno da escrita direta. ─ Finalmente o compreendeis.
O propósito deste artigo
Se o leitor nos acompanhou até aqui, entendeu que estamos traçando uma linha de raciocínios bastante clara: é um erro erigir sistemas sobre metáforas. Isso não é científico. Tendo-se colocado de lado a ciência espírita, os modernos espíritas têm formado complexos sistemas de ideias e princípios que, muitas vezes, fixam-se sobre uma frágil vareta fincada na areia. A questão toda é: nós precisamos retomar o Espiritismo como ciência e, antes de demonstrar nossa visão sobre isso, vamos deixar bem claro que, para isso, uma condição é imprescindível: estudar e conhecer o Espiritismo e os princípios dessa ciência (portanto, é lógico, estudar as obras de Allan Kardec), bem como estar compenetrado do assunto que se queira estudar.
O ponto interessante é que temos diversas pessoas plenamente capazes de retomar essa ciência nas áreas que lhes interessam. Temos grandes conhecedores do Espiritismo e das diversas ciências humanas, espalhados mundo afora: físicos, biólogos, filósofos, matemáticos, etc. A diferença está em que, na época de Kardec, as ciências estavam todas interconectadas pela metafísica e que praticamente todos os cientistas conheciam várias áreas da ciência((Sugestão de leitura: Autonomia – A História Jamais Contada do Espiritismo, por Paulo Henrique de Figueiredo)). Além disso, é interessante destacar que o princípio que rege o bom cientista é o desapego ao orgulho. Pode-se ter uma ideia prévia, como Kardec as teve; pode-se questionar respostas que divirjam dessa ideia, defendendo-a, como fez Kardec; porém, frente à evidência inegável do contrário, quando não sobram dúvidas de que a ideia prévia não se sustenta, deve o bom cientista deixar essa ideia de lado, escolhendo ficar com aquilo que atende à razão e à lógica.
É nesse ponto que o bom cientista e a boa ciência experimental divergem dos cientistas sistemáticos, que querem impor à Natureza a adequação às suas próprias ideias, como se isso fosse possível. São esses últimos que, baseando-se em metáforas, distorcidas e retorcidas à sua conveniência, elaboram intrincados sistemas que, não raramente, dominam a humanidade por um tempo expressivo. Vimos isso em várias áreas, e a ciência espírita não escapou desse problema.
Chegamos, enfim, ao ponto crucial deste artigo.
A retomada da ciência espírita
Imbuídos do propósito da retomada do estudo; interessados no restabelecimento da ciência espírita; aderentes ao propósito do abandono ou, ao menos, do questionamento dos sistemas; compenetrados do fato de que Kardec relegou ao futuro a continuidade e a elucidação das questões que ele não pôde tratar senão de maneira metafórica, vamos dar nossa visão sobre o que requer a recuperação da pesquisa espírita do ponto de vista da ciência experimental, detentores da compreensão de que, sim, podemos e devemos evocar espíritos para esse propósito. Basearemos, porém, nossas ideias, no verdadeiro guia do laboratório espírita dado por Allan Kardec: a Revista Espírita.
É muito fácil compreender, com o estudo dos primeiros anos da Revista Espírita, os princípios básicos necessários para a pesquisa científica do Espiritismo. Vamos dividi-los em duas seções: princípios morais e princípios práticos.
Princípios morais
Compromisso pessoal com a moral; desapego das próprias ideias.
Interesse na investigação legítima da verdade
Humildade e espírito de cooperação
Seriedade e responsabilidade na pesquisa
Formação de grupos coesos em ideias e princípios
Princípios práticos
Elaboração de grupos de pesquisa e estudo, onde só participem pessoas verdadeiramente conhecedoras do Espiritismo
Cooperação de médiuns, de preferência psicógrafos, com especial interesse nos psicógrafos mecânicos((Porque o controle dos centros motores necessários à fala é mais difícil e porque às respostas “psicofônicas” são mais difíceis de ser analisadas em sua independência com relação às ideias do próprio médium.)), desapegados de suas próprias personalidades e de seus próprios interesses nesse trabalho.
Organização cuidadosa de estudos, capacidade de analisar e separar o que é metafórico do que é literal nas comunicações
A pesquisa através das evocações
Dotados de princípios legítimos e da vontade de pesquisar, seriamente, determinado tema, os pequenos grupos – que devem operar em âmbito fechado ao público geral – serão dirigidos por um ou mais Espíritos mais elevados, cuja autoridade moral poderá ser facilmente estabelecida se o grupo for realmente compenetrado da ciência espírita. Esse Espírito, que, no caso de Kardec, seria São Luís, é aquele que cuidará de auxiliar na parte espiritual, encaminhando Espíritos comunicantes, complementando ideias, etc.
A pesquisa sobre um determinado tema ou princípio deve seguir, então, os seguintes passos, onde EG é o Espírito guia do grupo:
Ousei resumir em um fluxograma a complexidade das evocações com fins de pesquisa científica, mas é claro que o digrama apenas exemplifica os passos que o próprio Allan Kardec demonstrou tomar, sem demonstrar toda a complexidade por trás disso, no sentido da necessidade de conhecimentos, seriedade, compromisso moral, etc.
O fluxograma é bem simples e autoexplicativo, basta seguir as setas direcionais. Ele demonstra os passos da preparação prévia de questões, da seleção de Espíritos a evocar (porque evocar Espíritos sem um propósito sério dá na mesma que ficar à disposição de qualquer Espírito, e pode ser ainda pior), da verificação da evocabilidade e da utilidade da evocação daquele Espírito em particular, da realização da evocação e da realização das perguntas e do registro das respostas, antes às quais, frente a questionamentos pontuais presentes, poderão ser realizadas novas questões para esclarecimento, ao próprio Espírito ou ao Espírito guia e, enfim, da documentação e da posterior análise das respostas dadas, com a criação de uma “base de dados” do grupo e com a disponibilização, quando pertinente, da evocação e do estudo para outros grupos, que poderão analisá-las e buscar confirmações ou refutações em seus próprios estudos. O médium não faz parte do fluxograma, mas é claro que também tem um papel fundamental, tratado com dedicação na obra O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
É evidente que cada resposta precisará ser analisada com um grande cuidado pelo grupo, considerando a Psicologia e sabendo que os Espíritos, simplesmente por estarem livre do corpo, não ganham plenas luzes instantaneamente – por isso, sempre, a recomendação do estudo da Revisa Espírita, que evidencia o fato de Kardec nunca ter formado sistemas sobre ideias incompletas ou de um só Espírito, o que teria condenado o Espiritismo ao misticismo, logo em seu primeiro ano de estudos.
E o que podemos perguntar? Com seriedade, honestidade e conhecimento do Espiritismo, tudo. Isto é: é claro que, satisfazendo as condições expressas, não iremos realizar uma evocação para pedir a previsão da loteria, nem para fazer o mal, isto é evidente. Mas, por exemplo, poderíamos evocar alguns Espíritos para buscar compreender mais a fundo essas ideias de fluidos, frente ao conhecimento da física moderna. Por que não? Talvez isso possa ser aprofundado ou, quem sabe, recebamos uma resposta do tipo “ainda faltam conhecimentos para que o ser humano possa compreender esses conceitos”.
As falsas ideias
É um erro pensar que os tempos modernos vão atrapalhar esse trabalho, imaginando que a facilidade da comunicação vai “contaminar” as ideias entre os grupos. Os Espíritos não revelam um conhecimento de forma exclusiva, mas, antes, o espalham por toda parte, onde houverem pessoas aptas ao estudo. Se uma falsa ideia for aceita por um grupo e divulgada aos outros, se os outros forem grupos sérios, facilmente a rejeitarão, porque verão os Espíritos demonstrando seu erro. A facilidade de comunicação, antes, vai facilitar esse trabalho, desde que exista a seriedade nos grupos que se comunicam.
Também é falso supor que o pesquisador espírita tenha que ser uma tela em branco. Não! O pesquisador sempre vai partir de uma ou mais hipóteses, que ele precisará testar numa população – no caso, a dos Espíritos. Ele pode ter uma ideia prévia porque, com base nos seus conhecimentos, é para onde lhe aponta a razão, e pode ver essa ideia ser confirmada ou refutada na prática das evocações. Se o pesquisador não tiver apego às suas próprias ideias, isto é, se não houver orgulho, ele as abandonará quando a razão apontar em outra direção, por novos fatos e evidências.
Eis aí, amigos, tudo o que é necessário para a retomada da pesquisa espírita. Ao invés de se apegarem às ideias erigidas sobre metáforas e figuras, arregacemos as mangas e nos coloquemos ao trabalho, que deve começar com o estudo e o entendimento da obra de Kardec, em seu contexto. Muito em breve, cremos, teremos um material ainda mais completo para essa correta compreensão. Sem atropelações, portanto, tomemos o primeiro passo e estudemos((Lembrando que, de acordo com o que nos mostram os fatos, as obras O Céu e o Inferno e A Gênese foram adulterados em suas respectivas 4.ª e 5.ª edições, motivo pelo qual indicamos a leitura das recentes edições da editora FEAL, que trazem na capa o termo “versão original” e com preciosas notas explicativas de Paulo Henrique de Figueiredo e outros)). O que virá disso será a consequência, pois bem sabemos que não estamos abandonados à própria sorte.
As adulterações
Outro fator importante nesse conjunto é a questão das adulterações das obras O Céu e o Inferno, a partir da 4.ª edição, e de A Gênese, a partir da 5.ª edição. Digam o que quiserem aqueles que querem transformar evidências em provas: para nós, a esta altura, não há outra forma de concluir senão pela adulteração dessas obras, posto que elas não condizem, nas edições alteradas, nem sequer com o que Kardec desenvolvia na Revista Espírita, além de introduzem pontos desconexos entre si e que mutuamente se contradizem. Baseados nessas edições, alguns sistemas foram elaborados, sendo um dos mais danosos a ideia do pagamento de dívidas através da encarnação, como um castigo. O restabelecimento das obras originais, sendo especialmente realizado pela Editora FEAL, foi de substancial importância nesse sentido.
A condição principal
Para que o desenvolvimento doutrinário seja retomado, será necessário desapego da personalidade, não só do pesquisador e do médium, mas também do Espírito evocado. A Doutrina demonstra a condição coletiva dos Espíritos e demonstra que, ao evocar, por exemplo, São Luis, outro Espírito pode responder em seu lugar. Para que esse seja um bom Espírito, que represente a mesma ideia, é necessário que o grupo esteja imbuído de tudo aquilo que demonstramos acima, evocando os bons Espíritos e, sob a tutela desses, realizando os estudos com Espíritos que, por ventura, sejam menos elevados. Além disso, para a retomada do Espiritismo, além da necessidade de recuperar a Doutrina “em Kardec”, de forma muito bem compreendida (porque os Espíritos só podem ensinar a partir de princípios verdadeiros), será necessário que isso se espalhe por diversos grupos pelo mundo, para que possa voltar a existir as condições de concordância universal do ensinamento.