Podemos, porém, acrescentar o pensamento de Kardec, em O Livro dos Médiuns:
Há, por fim, os espíritas exaltados. A espécie humana seria perfeita, se preferisse sempre o lado bom das coisas. O exagero é prejudicial em tudo. No Espiritismo ele produz uma confiança cega e frequentemente pueril nas manifestações do mundo invisível, fazendo aceitar muito facilmente e sem controle aquilo que a reflexão e o exame demonstrariam ser absurdo ou impossível, pois o entusiasmo não esclarece, ofusca. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos capazes de convencer, porque se desconfia com razão do seu julgamento. São enganados facilmente por Espíritos mistificadores ou por pessoas que procuram explorar a sua credulidade. Se apenas eles tivessem de sofrer as consequências o mal seria menor, mas o pior é que oferecem, embora sem querer, motivos aos incrédulos que mais procuram zombar do que se convencer e não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Isso não é justo nem racional, sem dúvida, mas os adversários do Espiritismo, como se sabe, só reconhecem como boa a sua razão e pouco se importam de conhecer a fundo aquilo de que falam.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Lake, 23a Edição. Grifos nossos.
É evidente seu posicionamento: os descuidados que, com entusiasmo (e vaidade) acreditam em tudo cegamente, promovem mais mal do que bem à Doutrina.
Exageros, dizem alguns
É da opinião de alguns, que temos exagerado. Segundo eles, devemos “respeitar” a fé de cada um, limitando-nos a realizar o nosso trabalho. Em primeiro lugar, precisamos demonstrar que não existe desrespeito à fé de ninguém. Cada um tem o livre-arbítrio e o direito de acreditar no que quiser, racionalmente ou não. Mas, aqui, tratamos da ciência espírita, e aqui nasce o maior problema da ideia dessas pessoas: o não conhecimento dessa ciência. Basta ler a Revista Espírita e as demais obras de Kardec e verá não apenas ele, mas também os bons Espíritos, frequentemente destacando a necessidade de se expor os erros e, sobretudo, os charlatães e os inimigos da Doutrina Espírita que, vestindo suas ideias sob a roupagem do Espiritismo, voluntariamente ou não promovem o erro que alimenta o descrédito geral no Espiritismo, tal como se fosse mais uma religião nascida das ideias de alguém. Já demonstramos suficientemente o porquê o Espiritismo é uma ciência, e não uma religião.
O Espiritismo chegou distorcido ao Brasil
O fato é que o Espiritismo já se instalou no Brasil adulterado pelo Movimento Espírita iniciante ((fatos fartamente apresentados em Ponto Final, de Wilson Garcia)) e, na FEB (Federação Espírita Brasileira), autodenominada “casa mater” do Espiritismo brasileiro, longe de encontrar terreno para sua restauração, foi substituído pela doutrina de Roustaing, totalmente fundamentada nos velhos dogmas religiosos. Essa instituição, que acabou ditando os rumos do Espiritismo brasileiro por muito tempo, nunca se dedicou a recuperar a ciência espírita e o método necessário para a continuidade da Doutrina, sendo que as evocações particulares (e mesmo nos centros espíritas), ferramenta imprescindível para o estudo científico, foram abandonadas. Sem o método de Kardec, e pelo interesse na impressão e na venda de obras mediúnicas, qualquer ideia vinda de qualquer Espírito passou a ser veiculada e, assim, formou lentamente a crença geral do Movimento Espírita, hoje completamente perdido em ideias que, na verdade, são fundamentalmente antidoutrinárias.
Precisamos reconhecer, é claro, que parte dessas ideias fundamentou-se antes mesmo da vinda do Espiritismo ao Brasil, com a adulteração das obras O Céu e o Inferno (principalmente) e a A Gênese, após a morte de Kardec. Infelizmente, a FEB é a primeira a defender a ideia de que essas obras não tenham sido adulteradas, fato que, principalmente com relação à O Céu e o Inferno, é suficientemente evidenciado e irrefutável.
Falar em adulteração é criar descrença?
Aqui, enfim, chegamos a outra crítica de certas pessoas: “dizer que houve adulteração seria jogar lama em Kardec, suscitar descrença no Espiritismo”. “Aliás”, dizem elas, “que Doutrina é essa que os Espíritos permitem tal coisa, sem aviso?”. É um pensamento completamente ilógico.
Começamos lembrando que as palavras do próprio Cristo foram adulteradas e distorcidas em favor dos dogmas religiosos, e esse fato foi justamente o que levou à descrença de incontável número de pessoas no cristianismo. Voltaire foi um dos mais evidentes expoentes dessa descrença, que ainda hoje prevalece. Perguntamos: seria “lançar lama” em Jesus destacar as adulterações? Seria “suscitar descrença” no cristianismo, destacar as distorções, ao mesmo tempo em que se demonstra as ideias originais? Evidente que não. Se o problema aconteceu, precisamos encará-lo de frente (uma atitude científica e verdadeiramente kardeciana), e não varrê-lo para baixo do tapete, enquanto perduram seus efeitos avassaladores.
À ideia de que “os Espíritos não teriam permitido as adulterações”, opomos a forte recomendação de estudo da Doutrina, o que evidentemente não foi realizado por essas pessoas. Os Espíritos alertaram várias vezes sobre as tramas dos inimigos da Doutrina, como demonstramos em Profecia do Espírito da Verdade. Baseado nos alertas e nas evidências, Kardec também previa o futuro do Espiritismo, conforme destacou na Revista Espírita de dezembro de 1863, no artigo “Período de Lutas”:
A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso. Depois virá o quinto, o período intermediário, consequência natural do precedente e que, mais tarde, receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o da renovação social, que abrirá a era do século vinte. Nessa época, todos os obstáculos à nova ordem de coisas desejadas por Deus para a transformação da Terra terão desaparecido. A geração que surge, imbuída das ideias novas, estará em toda a sua força e preparará o caminho da que deve inaugurar a vitória definitiva da união, da paz e da fraternidade entre os homens, confundidos numa mesma crença, pela prática da lei evangélica.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1863.
Infelizmente, a previsão do sexto período está atrasada em mais de um século, por diversos fatos imprevisíveis àquela época, quais o abandono do Espiritualismo Racional e da Ciência Espírita, além da adulteração das obras citadas. Depois, as guerras, o esquecimento da Doutrina na França e na Europa e sua instalação no Brasil, completamente distorcido.
Os Espíritos não impedem o livre-arbítrio humano
Lembramos, para terminar, que o cerne da Doutrina Espírita, sempre demonstrado pelos Espíritos, é o livre-arbítrio, ao qual os Espíritos não podem se interpor. Podem aconselhar, mas não podem tolher a vontade humana. Assim fizeram: aconselharam largamente sobre a necessidade de cuidado que, infelizmente, faltou àqueles que deveriam cuidar do legado do mestre. Parece que o Movimento Espírita francês ficou muito confortável com o direcionamento de Kardec e, quando isso deveria mudar, a partir de meados de 1869 (conforme exposto na Revista Espírita de dezembro de 1868, “Constituição transitória do Espiritismo”) Kardec morreu, e todos ficaram sem rumo. Assumindo Leymarie a direção da Sociedade Espírita, desvirtuou o propósito da Revista Espírita, admitindo a doutrina roustainguista a troco de dinheiro, e o resto o leitor pode conhecer através da leitura das obras O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, Nem Céu, Nem Inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final, de Wilson Garcia.
O bem em meio aos enganos
Muitos dizem: “o Movimento Espirita, em meio a muitos enganos, ainda assim produz um bem. Não é de todo errado”. Não poderíamos discordar disso. Não dizemos que há erro ou engano em tudo e que nenhum bem se produz. Um romance mediúnico, por mais que seja repleto de ideias erradas, pode ser a porta de entrada para o indivíduo questionador ir atrás de mais informações, terminando por conhecer as obras de Kardec, enfim. Mas, perguntamos: não seria melhor que o Espiritismo fosse apresentado como ele é, simples e racional, sem os absurdos que produzem tantos contratempos e que muito frequentemente conduzem à descrença? Não podemos deixar de destacar que, quando se abre espaço para um engano, dentro de uma ciência, e esse engano não é remediado pela teoria e pelos fatos doutrinários, ele dá margem a muitos outros. É o que tem acontecido.
Restauração
É chegada a hora de restaurar o Espiritismo, o que já começou no Brasil e se espalhará pelo mundo. O primeiro passo é aprender o Espiritismo como ele verdadeiramente é, afastando-se dos erros. Aqueles que, ditos “espíritas”, não desejarem fazer assim, integrarão uma nova religião, se o quiserem, tão dogmática quanto as demais. Deixemos que o tempo se encarregue deles, mas nem por isso deixemos de fazer a nossa parte, apresentando os erros, frente à Doutrina Espírita, sem personalismo. Depois, virá o tempo da restauração do método de Kardec. Esses dois passos darão a possibilidade do sexto período previsto por Kardec: o da renovação social.
Faça parte dessa jornada, que é coletiva e somente se dará pela colaboração de muitos.
A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec
São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.
Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:
Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem
121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?
“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”
133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?
“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”
a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?
“Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”
O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.
Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).
Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!
Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno
E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):
9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.
10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.
O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.
Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.
Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):
Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.
Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.
Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.
Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.
Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.
O Céu e o Inferno – Editora FEAL
Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):
Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?
“ Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”
Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:
“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).
Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.
Mais evidências da ideia original
Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):
“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”
KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.
Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:
A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:
N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?
Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.
O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.
ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I
É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.
Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:
132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?
“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]
O Livro dos Espíritos
Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.
Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.
O Livro dos Espíritos
O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.
É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?
A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)
KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.
Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.
Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.
Revista Espírita, 1864
Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.
[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.
“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”
KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.
Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.
Motivo da adulteração
Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.
Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.
O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,
[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?
Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.
Conclusão
De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.
Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.
A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:
“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.
ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59
Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:
16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.
O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.
Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?
São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.
Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo
É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.
Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.
Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.
Como agem os sacerdotes
Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.
Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:
Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.
Ego Sum Via Veritas et Vita (Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida) pixabay – didgeman
Por um tempo, desprezaram a mensagem de Kardec trazendo ideias falsas para dentro de sua doutrina. Suas obras conclusivas tiveram suas melhores ideias adulteradas. Uma divulgação persistente dos falsos princípios por refratários (( “22. Ao lado dos materialistas propriamente ditos, há uma terceira classe de incrédulos que, embora espiritualistas, pelo menos de nome, não são menos refratários ao Espiritismo: são os incrédulos de má vontade. Esses não querem crer, porque isso lhes perturbaria o gozo dos prazeres. Temem encontrar a condenação de sua ambição, de seu egoísmo e das vaidades humanas com que se deliciam. Fecham os olhos para não ver e tapam os ouvidos para não ouvir. Lamentá-los é tudo o que se pode fazer. ” A. Kardec, O livros dos Mediuns, Noções Preliminares, cap. III Método )), implantou a mentira entre muitos espíritas, causando divisão.
No entanto, numa sequência crescente, os documentos, fatos e ideias originais de Allan Kardec retornaram à luz. Suas obras foram recuperadas, como as obras O Céu e o Inferno de 1865 e A Genese de 1868 em suas traduções de suas versões originais. Os conteúdos apresentados são de extrema importancia, pois são ideias muito mais aprofundadas por Kardec.
Os novos tempos já se anunciam, as ideias reformadoras se espalham pelo mundo. É interessante notar como pelo estudo iluminado pela dedicação sincera e desinteressada, a mensagem espírita, que é a de Jesus, vai chegar a todos. E o Espiritismo será a alavanca da revolução moral, que vai regenerar a humanidade, abrindo caminho para o mundo feliz.
O mal no mundo representa a mentalidade falsa, que divide o mundo visando justificar o orgulho e egoísmo dos que se consideram superiores e privilegiados. Desta forma, eles conseguem dominar e, ainda pior, abusar das massas. Eles a consideram inferiores e impuras. O bem, a boa nova ou mentalidade verdadeira visa despertar o dever pela razão e liberdade, elegendo a solidariedade pela cooperação e apoio mútuo, visando a felicidade de toda a humanidade, em todos os seus níveis. Pela orientação e direção dos bons espíritos, que são ministros de Deus. Todos percorrem o caminho do bem que leva a Deus. O Espiritismo, enfim, explica e desenvolve a ideia de Jesus, mentalidade verdadeira ou boa nova. Como todas as revelações, enfrenta a oposição dos orgulhosos e egoístas que defendem a mentalidade falsa.
Qual é a ideia da mentalidade falsa? Difundir falsamente que temos 2 Deuses no mundo, Deus e o Diabo; espalhar a ideia que o mundo espiritual está divido em 2 partes, céu e inferno; que as pessoas são dividas em puras e impuras, superiores e inferiores, etc. Esta é a FALSA IDEIA.
Para que nós consigamos superar a falsa ideia, não podemos usar as “mesmas armas” da falsa ideia. Ela usa da imposição, da violência, da divisão, da mentira, dos escolhidos que entendem dos ensinamentos como superioridade intelectual inexistente: diz que se não entendeu é inferior, só superior compreende
A VERDADEIRA IDEIA depende do esforço de cada um! Cada um de nós precisa entender a ideia verdadeira!!
Basta voce ser indiferente que voce ajude a manter Falsa Ideia.!
Há um artigo muito interessante de 1859 que vamos destacar alguns pontos referente a essa ideia de Jesus descrita também pelo Espiritismo:
“Assim, pois, o Espiritismo se fundamenta em princípios gerais independentes de toda questão dogmática. É verdade que ele tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas. Essas consequências são compatíveis com o Cristianismo, porque o Cristianismo é, de todas as doutrinas, a mais esclarecida, a mais pura, razão por que, de todas as seitas religiosas do mundo, são as cristãs as mais aptas a compreender o Espiritismo em sua verdadeira essência.
A. Kardec, Revista Espirita, 1859 – Refutação de um artigo de “L ‘Univers” (( https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/893/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1859/4547/maio/refutacao-de-um-artigo-de-l-univers ))
O Espiritismo não é, pois, uma religião. (…) o Espiritismo ocupa-se da observação dos fatos e não das particularidades desta ou daquela crença; da pesquisa das causas; da explicação que os fatos podem dar dos fenômenos conhecidos, tanto na ordem moral quanto na ordem física, e não impõe nenhum culto aos seus partidários, do mesmo modo que a Astronomia não impõe o culto aos astros, nem a Pirotecnia o culto ao fogo. (…)
Hoje, graças às luzes do Cristianismo, podemos julgá-lo com mais segurança. Ele nos põe em guarda contra os sistemas errados, frutos da ignorância. E a própria religião pode haurir nele a prova palpável de muitas verdades contestadas por certas opiniões. Eis porque, contrariando a maior parte das ciências filosóficas, um dos seus efeitos é reconduzir às ideias religiosas aqueles que se tresmalharam num cepticismo exagerado.
O Céu e o Inferno e a esdrúxula campanha do CSI do Espiritismo e do Portal Luz Espírita
O portal Luz Espírita, sustentado por pesquisas enviesadas de Carlos Seth e outros, continua fazendo uma “campanha esdrúxula” ((Tomo a liberdade de utilizar o mesmo termo usado por eles contra quem eles discordam)) contra aqueles que concluem diferentemente deles, baseados em pilhas de evidências que eles escolhem desconsiderar. Notório dizer que, “do lado de cá”, longe de descartarmos as evidências por eles encontradas, apenas verificamos que elas não provam a impossibilidade de que as adulterações tenham ocorrido. Tudo o que eles têm são evidências de que Kardec havia iniciado a produção de novas edições de O Céu e o Inferno e A Gênese, mas não que ele as tenha concluído nem que as obras impressas após sua morte não tenham sofrido alterações. Além disso, não fazem o principal: explicar as diferenças absurdas, não anunciadas e mesmo contraditórias entre uma edição e outra.
A questão é que não desejamos obter o monopólio do bom-senso e da verdade, coisa que eles insistem em fazer, sem que tentem fazer o que mais importa: explicar o motivo das diferenças grotescas entre as edições em questão. Colocamos, por exemplo, algumas diferenças entre a quarta edição de O Céu e o Inferno, registrada após a morte de Kardec, e a terceira edição (igual à primeira). Respectivamente:
Quarta edição de O Céu e o Inferno
Registrada após a morte de Kardec.
Capítulo VIII tornou-se capítulo VII;
Removeu-se a maior parte da retórica filosófica com a qual Kardec abria o capítulo
O título “As penas futuras segundo o Espiritismo” tornou-se “Código penal da vida futura“.
7.º — O Espírito sofre pelo próprio mal que fez, de maneira que sua atenção estando incessantemente concentrada nas consequências desse mal, ele compreenda melhor seus inconvenientes e seja motivado a corrigir-se.
8.º — Sendo a justiça de Deus infinita, é mantida uma conta rigorosa do bem e do mal; se não há uma única má ação, um único mau pensamento que não tenha suas consequências fatais, não há uma única boa ação, um único bom movimento da alma, o mais leve mérito, numa palavra, que seja perdido, mesmo nos mais perversos, porque é um começo de progresso.
9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.
10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.
Capítulo VIII — As penas futuras segundo o Espiritismo
7. Sendo a justiça de Deus infinita, é mantida uma conta rigorosa do bem e do mal; se não há uma única má ação, um único mau pensamento que não tenha suas consequências fatais, não há uma única boa ação, nem um único bom movimento da alma — em suma, o mais singelo mérito — que seja perdido, mesmo nos mais perversos, porque é um começo de progresso.
8. A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação — em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem.
O espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem. Uma condenação por um tempo determinado qualquer teria o duplo inconveniente de ou continuar a atingir o espírito que se houvesse aperfeiçoado, ou cessar quando ele ainda estivesse no mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto este existe; e encerra a punição quando o mal não existe mais. Assim se acha confirmada esta expressão: Eu não quero a morte do pecador, mas que ele viva, e eu o acusarei ATÉ QUE ELE SE ARREPENDA.
9. Estando a duração do castigo subordinada ao arrependimento, resulta daí que o espírito culpado que não se arrependesse e jamais se aperfeiçoasse sofreria sempre, e que, para ele, a pena seria eterna. A eternidade das penas deve então ser entendida no sentido relativo, e não no sentido absoluto.
Podemos notar uma diferença gritante entre as edições. Da mesma forma, a quinta edição de A Gênese contém alterações inexplicáveis entre a edição publicada por Allan Kardec e a edição registrada quase três anos após sua morte.
Não poupamos esforços
Já abordamos o tema várias vezes. Aqueles mencionados anteriormente não poupam palavras e termos depreciativos para tentar lançar descrédito por aqueles que concluem diferentemente deles. Nós, portanto, fazemos a nossa parte, baseados em fartas evidências, e com a certeza de que a outra parte nunca se dedicou a ler e refletir com calma sobre todas elas. Não dizemos: “esta é a verdade final”, mas dizemos: “não se deixem guiar por quem tente tomar o monopólio da verdade”.
É interessante notar como os textos da outra parte são sempre apaixonados, isto é, carregam uma grande nota de emoção e de raiva ou inveja aparentes. Isso já denota uma urgência por provocar a crença por outros meios, que não os da razão. Aliás, nesse afã de dominar a verdade, Carlos Seth já cometeu gafes tão banais como querer dizer que falar em Espiritualismo Racional seria trazer uma divisão para o meio espírita.
É ainda mais interessante notar que eles nunca mencionam o nome de Paulo Henrique de Figueiredo, nem trazem suas evidências e seus argumentos para a discussão. Apenas se limitam a dizer que eles já refutaram tudo — ao que discordamos profundamente. Fazem o mesmo com a Simoni Privato, embora ainda citem seu nome.
Bem, sem buscar prolongar esse assunto de maneira cansativa, agradecemos sempre a livre propaganda que eles mesmos fazem contra as ideias que não podem aceitar.
O rapaz e o oásis: uma fábula de esperança
Em um determinado local, havia um grande deserto. Para onde se olhasse, não se via mais do que paisagens desoladas pelas areias que fustigavam qualquer coisa viva que tentasse sobreviver. Aqui e ali, porém, distinguiam-se pequenos agrupamentos de elementos: eram vilarejos formados nos pontos mais baixos das montanhas de areia e de pedras, onde, de alguma forma, era possível subsistir.
Esses pequenos vilarejos se mantinham graças aos locais onde alguma água subterrânea aflorava ou onde a água das chuvas esparsas se acumulava por algum tempo. Era pouca água, um tanto lamacenta, da qual se dessedentavam homens e animais. Ao redor dela, crescia alguma vegetação e plantava-se o pouco que mal dava para alimentar a todos — homens e animais.
Era assim a situação geral de todos aqueles vilarejos. Com o pouco que sabiam, transmitido de geração em geração, buscavam se manter e preservar o lamacento corpo de água. A vida era dura, e a saúde não era boa. Todos eram ensinados a acreditar que somente ali seria possível sobreviver, pois, ao redor, havia apenas areia e pedras, além de outros agrupamentos em situação semelhante.
De vez em quando, um ou outro, cansado daquela situação, decidia sair dos vilarejos em busca de algo além. Não se conformavam com aquela vida, mas saíam sem rumo, sem conhecimento algum sobre o que havia ao redor. Nunca mais voltavam. Muitos morriam no deserto, sem possibilidade de sobreviver. Outros terminavam em diferentes vilarejos.
Em um desses vilarejos vivia um rapaz, muito cedo orfanado e, por isso, criado em comum por outras pessoas. Desde pequeno, ensinado sobre as tradições ligadas à sobrevivência, esforçava-se para ajudar na conservação do ambiente que lhe permitia a subsistência, embora não se conformasse com aquele estilo de vida tão limitado. Era perquiridor: buscava meios de obter mais água, de cultivar mais alimentos… Mas tudo era muito limitado, e seus esforços não iam muito longe com o conhecimento de que dispunha.
Certo dia, caminhando pelas extremidades do vilarejo, uma forte rajada de vento, carregada de areia, trouxe consigo algo diferente: pétalas de flores e algumas folhas verdes. Ele as tomou do chão e as analisou. Eram diferentes de tudo o que havia naquele vilarejo e, além disso, eram muito viçosas e bem desenvolvidas. Aquilo lhe despertou a curiosidade. Rapidamente, voltou ao seu pequeno casebre, tomou um cantil de água e algum alimento e saiu, sem dizer nada a ninguém. Seguiu na direção de onde vinha o vento, sem saber o que encontraria.
O rapaz caminhou sob o sol forte, sempre buscando sinais das folhas e flores, que encontrava aqui e ali. Por vezes, quase perdia a esperança, quando não encontrava em parte alguma sinais daqueles elementos. Sem desistir, ampliava um pouco mais a largura de suas buscas, sempre tentando se manter na direção correta. Logo encontrava uma pequena folha ou alguma pétala que, embora desidratada, ele reconhecia como sendo do mesmo tipo das encontradas anteriormente.
Veio a noite, e o rapaz se acomodou ao lado de um rochedo, onde encontrou algum abrigo para passar a noite. Alimentou-se sobriamente e notou que seu cantil já se encontrava quase pela metade… A preocupação o atormentou por algum tempo, mas logo dormiu e, no dia seguinte, retomou a caminhada. Assim seguiu por mais dois dias…
Por algum tempo, no meio do terceiro dia, andou o rapaz na direção conhecida, mas já não encontrava sinais das folhas ou das flores. Andou mais longe, alargou a busca, mas nada. O desespero começou a alcançá-lo, pois seu cantil já continha apenas um resto de água, e ele estava muito distante de sua origem. Sabia que voltar seria muito difícil, senão impossível, pois a desidratação já lhe atormentava o corpo.
Foi então que, caindo de joelhos em meio à areia, com lágrimas nos olhos ressecados, angustiado e sem esperança, uma borboleta pousou em seu ombro. Espantado, levantou-se. Ele não conhecia aquele inseto de voo tão belo. Algo lhe tomou novamente o ser e, com ânimo renovado, decidiu segui-la.
Andou algumas centenas de metros e logo percebeu outras borboletas ao redor. Notou que o chão começava a mudar. Aqui e ali, em meio à areia, que começava a ficar menos fofa, uma espécie de grama, algo ressecada, brotava e resistia. Seguiu naquela direção, e a paisagem ia mudando sucessivamente, até que alguns arbustos mais encorpados começaram a surgir e, mais ao longe, ele pareceu divisar uma vegetação alta e densa…
Mas o sol o fustigava, a desidratação lhe causava tonturas e, de repente, um torpor o tomou. Ele caiu ao chão, crendo que ali seria o seu fim.
Algum tempo depois, o rapaz acordou com os lábios molhados de água fresca. Confuso, notou que estava encostado em uma grande árvore, que lhe fornecia uma sombra agradável. Seus olhos estavam embaçados. Parecia ver, ao redor, algumas pessoas, mas não passavam de sombras turvas.
Esfregou os olhos, buscando enxergar melhor, mas sem sucesso. Sentiu alguém se aproximar e jogar água sobre seu rosto. Levou novamente as mãos aos olhos umedecidos, limpou-os e, aos poucos, notou a visão retornando. Foi então que conseguiu observar três pessoas ao seu redor, portando ferramentas e algumas bolsas de pano. Sorriam para ele.
Uma delas entregou-lhe um cantil, do qual o rapaz bebeu com avidez. A água era fresca e límpida, como ele nunca havia ingerido antes, senão quando conseguia colher alguma água da chuva.
Refestelou-se com aquele líquido e, em alguns momentos, sentiu a energia retornando ao corpo. Teve forças e se levantou vagarosamente. Aquelas pessoas se aproximaram e quiseram falar com ele. Espantado, notou que falavam o seu idioma, embora com um sotaque diferente.
Convidaram-no a segui-las, ao que ele prontamente assentiu. Caminharam por algum tempo em meio a uma linda floresta. Ele percebia o perfume, a umidade que lhe acalentava a pele, os sons de diferentes animais e o vento balançando as folhas. Notou, no chão, flores e folhas que reconhecia. Próximo dali, viu um riacho de água limpa e cristalina correndo em meio à vegetação. Que alegria ele sentia naquele momento!
Chegaram ao centro de um vilarejo. Muitas pessoas viviam ali, todas de aparência saudável e rostos alegres. Havia também animais e, nas proximidades, ele enxergava plantações verdejantes e robustas, algo totalmente diferente da realidade de seu local de origem.
Levaram-no, então, a uma casinha simples, onde algumas pessoas se reuniam em alegre conversação. Pareciam trabalhar em colaboração com os alimentos oriundos das plantações. Rapidamente, aquela gente o acolheu. Deram-lhe de comer e de beber, acomodaram-no como se fosse um dos seus, ouviram sua história e lhe contaram muitas coisas em retorno.
Ali, o rapaz aprendeu que a água que brotava na superfície vinha de muito fundo e encontrava naquele ponto um local de saída. Para obter mais dessa água, seria necessário cavar um pouco mais e remover o barro. Poderiam ser feitos poços para obtê-la fresca e cristalina e, se as margens fossem cuidadas com o plantio de certas plantas e árvores, aos poucos o corpo de água ganharia volume e qualidade.
Ensinaram-lhe também que as plantações de alimentos deveriam ficar mais afastadas dessas áreas, de maneira a preservar melhor a água e reduzir sua evaporação. Ele rapidamente percebeu que aquilo era justamente o contrário do que faziam em seu vilarejo.
Também contaram ao rapaz que aqueles vilarejos espalhados pelo deserto haviam sido originalmente formados por pessoas oriundas daquele lugar, muito, muito tempo antes. Eram pessoas que, apesar de viverem e se beneficiarem do conhecimento e da produção dali, pouco ou nada faziam para aprender e colaborar.
Constantemente convidadas ao trabalho necessário, decidiram afastar-se em grupo e, depois, partir com a intenção de formar suas próprias aldeias, onde acreditavam que poderiam fazer as coisas melhor e de outra maneira. Isso acontecera muitos e muitos anos antes e, desde então, os habitantes daquele lugar não mais haviam tido notícias delas.
De vez em quando, algum bravo indivíduo saía em missão para buscá-las e ajudá-las. Quando as encontrava, porém, era rapidamente afastado pelas ideias que levava e acabava tendo de retornar.
O rapaz estava muito interessado. Questionava e queria saber mais. Compreendeu rapidamente que o conhecimento renegado fora a causa da miséria em que viviam aqueles vilarejos e aldeias.
Passou ali alguns dias, mas logo percebeu que precisava retornar, pois desejava compartilhar com os seus tudo aquilo que havia visto e aprendido. Tomada a decisão, iniciou a viagem de volta, dessa vez muito mais preparado, com alimento e água em abundância.
Conduziu-se sem maiores dificuldades até o seu vilarejo de origem, ao qual chegou após alguns dias de jornada.
Muito alegre e com energia renovada, o rapaz tomou as ruas arenosas da pequena vila. Seu rosto expressava decisão, embora aqui e ali revelasse alguma tristeza por ver seus companheiros, tristes e pouco saudáveis, encarando-o curiosamente.
Buscou, contudo, não se afetar demais e, dirigindo-se aos chefes da vila, cheio de entusiasmo, contou o que havia acontecido, pedindo que fosse realizada uma reunião naquela noite, na qual pudesse expor aos demais tudo o que vira e aprendera.
Os chefes da vila receberam suas palavras com olhares de espanto e incredulidade. Ao final, negaram-lhe a reunião solicitada, dizendo que tudo aquilo não passava de absurdos e que estavam certos dos ensinamentos de seus antepassados, aos quais se agarravam com paixão.
Além disso, repreenderam-no duramente por ter partido sem aviso, pois causara enorme preocupação em todos do vilarejo.
O rapaz não conseguia acreditar. Incrédulo diante daquela recepção amarga, tomou outro caminho: decidiu que ele mesmo buscaria reunir algumas pessoas e que, depois disso, se fosse expulso por seu atrevimento, teria para onde ir.
Assim, saiu pelas ruas do vilarejo. Encontrou muitos companheiros de vida e, um a um, foi contando resumidamente sua história e convocando-os para uma reunião em seu casebre.
Muitos expressavam um brilho no olhar, mas diziam não se sentir fortes o suficiente para abandonar seus hábitos; outros o acusavam de blasfemar contra os ensinamentos de sua tradição; outros, ainda, temiam ser expulsos pelos chefes do vilarejo por pensarem de maneira diferente.
Chegada a hora da reunião, esperava ansioso a chegada de muitos… Esperou, esperou, mas, além dele, compareceram apenas outros dois, amigos seus de infância, tímidos e incertos, mas que perceberam a importância daquilo que ouviram, pois eles mesmos pensavam que aquela situação e aqueles ensinamentos não eram suficientes ou corretos.
O rapaz entristeceu-se por alguns instantes, percebendo que nada seria fácil. Ele havia visto a felicidade de outras pessoas que colaboravam em um ambiente cuidado por seus próprios esforços. Vira a água cristalina, enquanto, sobre a mesa de seu casebre, restava um jarro de água lamacenta.
Ele precisava tentar.
Passados alguns momentos, tomou uma resolução diferente. Percebeu que aquele ambiente não aceitaria aquelas verdades senão depois de muito tempo e com a colaboração de pessoas que fossem compreendendo as ideias verdadeiras e originais.
Decidiu convidar os presentes a acompanhá-lo em jornada até aquela aldeia distante. Os dois amigos prontamente aceitaram o convite. Queriam aprender mais, queriam viver melhor e entenderam que, para ajudar aquelas pessoas, teriam de aprender muito mais e se fortalecer.
Assim, partiram no dia seguinte. Já certo de seu caminho, o rapaz cuidou para que viajassem mais preparados e com maior rapidez. Chegaram às margens da floresta em dois dias, sem maiores dificuldades.
Ali, logo encontrou pessoas que os receberam e os conduziram à vila, onde foram todos acolhidos com felicidade e integrados à sociedade daquele lugar.
Em pouco tempo, aprenderam muito. Sentiam-se felizes e contentes, pois não viviam apenas para subsistir nem para cuidar somente de si. Havia colaboração genuína no uso e no desenvolvimento do conhecimento que permitia manter aquele grande oásis, verdadeiro paraíso em meio ao deserto.
Mas esse senso de colaboração lhes dizia, no íntimo, que não poderiam ter tudo aquilo somente para si, pois, fora dali, seus semelhantes viviam em profunda miséria e infelicidade.
Assim, depois de algum tempo, os três formaram uma iniciativa à qual se juntaram outros jovens daquele lugar: deveriam planejar, de quando em quando, missões com destino àqueles vilarejos, buscando conquistar corações pela razão.
Aos poucos, mapearam diversos deles, para os quais partiam todos os anos, buscando encontrar ouvidos dispostos a escutá-los.
Em alguns, não encontravam senão hostilidade, sendo até mesmo banidos de um ou de outro. Em outros, eram aceitos com precaução, nunca encontrando mais do que frieza em seus chefes, que permitiam, contudo, que falassem.
Desses lugares, com certa raridade, retornavam acompanhados de algum novo companheiro, que frequentemente se juntava à mesma iniciativa.
E assim passaram seus anos de vida, buscando fazer o que acreditavam ser correto, sabendo que um dia seria vencida a distância entre os conhecimentos adulterados daqueles vilarejos e o conhecimento original que haviam redescoberto.
Sabiam que, nesse dia, as florestas verdejariam por todos os lugares, extinguindo progressivamente o deserto e dando lugar a um novo e saudável ambiente.
Um dia…
O grande oásis é o Espiritismo, construído pelo trabalho conjunto entre os Espíritos e os homens, mediante observação, comparação, análise e controle racional dos ensinamentos.
A água pura é o conhecimento resultante desse esforço, desenvolvido de maneira metodológica e científica.
O rapaz representa cada um que percebe a distância existente entre o movimento espírita e o Espiritismo.
Os vilarejos representam os agrupamentos de adeptos espíritas onde pouco ou nada se fala em Kardec e onde o questionamento é visto como subversivo e prontamente coibido.
O deserto representa a situação atual do nosso mundo.
Nossa posição final sobre as adulterações nas obras de Kardec
Estamos aqui apenas para deixar registrada nossa posição final sobre o assunto das adulterações nas obras de Kardec, sobre o qual não mais se discute, a não ser ante a evidências inquestionáveis ou provas irrefutáveis, coisa que nem o “CSI do Espiritismo” produziu. Apresentamos, sucintamente, os seguintes pontos:
A questão legal: O Depósito Legal de A Gênese foi realizado apenas em 1872, cerca de três anos após a morte de Kardec; o DL de O Céu e o Inferno, foi realizado cerca de três meses após sua morte. Isto já é fato legal suficiente para configurar crime a distribuição das obras alteradas, publicadas após o fatídico evento, e sobre isto não há discussão, nem, até hoje, nenhuma prova de que Kardec tenha realizado o processo legal, necessário para tal.
Esse ponto é importante, porque, ainda que tudo o que esteja ali publicado seja mesmo da mão de Kardec — o que implicaria no fato de ele ter voltado atrás de suas palavras, removido princípios e formado obras desconexas em si e entre si — ainda que tudo o que está ali seja das mãos de Kardec, ainda assim não podemos ter nem sequer a certeza de que ele desejaria que tudo aquilo fosse publicado, pela mera dúvida possível de que aquelas edições poderiam não estar finalizadas. É isso o que garante o direito autoral.
Mais que isso: legalmente, não importa se foram encontradas cartas (uma carta) em que Kardec mencionava a produção dessas novas edições. Se não houve o Depósito Legal da obra, pelas mãos de Allan Kardec, está configurado o crime contra a lei vigente à época e, do fato de o DL ser posterior à sua época, está configurado o crime contra o direito autoral.
Ainda que evidências apontem que Kardec estava finalizando ou mesmo que teria finalizado essas edições, nada prova que as edições impressas não tenham sido adulteradas. Resta dúvida, além do indiscutível fato legal.
Além disso, restam os fatos constatados pela razão, já discutidos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Portanto, repetindo sempre a nossa vontade de nos permanecer resguardado contra o erro, preferimos seguir o conselho de Erasto, dispensando dez verdades para não ser possível ficar com uma só mentira, um só engano. Há dúvida e, se há dúvida, a razão nos manda ficar com as obras originais, republicadas pela Editora FEAL, onde não apenas temos certeza de que todas as vírgulas vêm das mãos de Kardec, como também onde, pelo estudo, percebemos que as conexões intrínsecas das obras em si e entre si estão intactas e atendem à razão.
Assim, declaramos encerrado o assunto, tornando essa decisão parte de nossos princípios, não fazendo dele palco de discussões vazias, até que provas irrecusáveis venham a ser apresentadas. Até lá, ficamos com o que a nossa razão nos manda, por nossa livre vontade, respeitando quem, pela sua razão, chegue a outra conclusão, por mais estranho que isso nos pareça.
O Grupo.
O que deve ser a História do Espiritismo
O século XIX foi o Século da Razão! Isso quer dizer que não havia brecha para misticismo muito menos para dogmas. O dogma só desaparece quando debruçamos sobre o estudo dedicado e contínuo. Este Artigo que trazemos aqui é da Revista Espírita, outubro de 1862, “O que deve ser a história do Espiritismo“.
“A propósito dessa história, sobre a qual dissemos algumas palavras, várias pessoas nos perguntam o que compreenderia ela, e com esse objetivo nos enviaram diversos relatos de manifestações. Aos que pensaram assim trazer uma pedra ao edifício, agradecemos a intenção, mas diremos que se trata de algo mais sério que um catálogo de fenômenos espíritas encontradiço em muitas obras. Tendo o Espiritismo que marcar presença nos fastos da Humanidade, será interessante para as gerações futuras saber por que meios ter-se-á ele estabelecido. Será, pois, a história das peripécias que tiverem assinalado os seus primeiros passos; das lutas que tiver enfrentado; dos entraves que lhe terão oposto; de sua marcha progressiva no mundo inteiro.
O verdadeiro mérito é modesto e não busca impor-se. É preciso que a Humanidade conheça os nomes dos primeiros pioneiros da obra, daqueles cuja abnegação e devotamento merecerão ser inscritos em seus anais; das cidades que marcharam na vanguarda; dos que sofreram pela causa, a fim de que sejam abençoados; dos que fizeram sofrer, a fim de que orem por eles, para que sejam perdoados. Numa palavra, de seus amigos dedicados e de seus inimigos confessos ou ocultos.
É preciso que a intriga e a ambição não usurpem o lugar que lhes não pertence, nem um reconhecimento e uma honra que não lhes são devidos. Se há Judas, é preciso que eles sejam desmascarados.
Uma parte, que não será a menos interessante, será a das revelações que sucessivamente anunciaram todas as fases dessa era nova e os acontecimentos de toda ordem que as acompanharam.
Aos que acharem a tarefa presunçosa, diremos que não teremos outro mérito senão o de possuir, por nossa posição excepcional, documentos que não estão em poder de ninguém, e que estão ao abrigo de quaisquer eventualidades. Considerando-se que o Espiritismo está sendo chamado, incontestavelmente, a desempenhar um grande papel na História, é importante que esse papel não seja desnaturado, e que seja mostrada a história autêntica, em oposição às histórias apócrifas que o interesse pessoal poderia fabricar.
Quando aparecerá ela? Não será tão cedo, e talvez não em nossa vida, pois não se destina a satisfazer à curiosidade do momento. Se dela falamos por antecipação, é para que ninguém se equivoque quanto ao seu objetivo e seja anotada a nossa intenção. Aliás, o Espiritismo está em seu começo, e muitas outras coisas acontecerão até lá. Então, é preciso esperar que cada um tenha tomado o seu lugar, certo ou errado.” (grifos nossos)
Observação: É interessante notar como parece que Allan Kardec já sabia do que aconteceria no futuro. Tanta oposição nas historias apócrifas e tanto interesse pessoal fabricado nas costas do Espiritismo… Por garantia ele guardou documentos para essas eventualidades que volta e meia são publicados! Fiquemos atentos ao que mais interessa
Hoje percebemos que essa história ainda está em pleno desenvolvimento. Estamos ainda aprendendo a passos lentos os ensinamentos que os Espíritos trouxeram na época de Kardec. Que todos usemos da Vontade e da Imaginação para alcançar esse entendimento tão apoiado na Razão!
CSI do Espiritismo: o órgão oficial da Verdade
CSI do Espiritismo, de Carlos Seth, tornou-se órgão oficial da Verdade.
por Paulo Degering R. Junior
Ao contrário de respeitar a lei mundial, no que tange ao direito moral do autor e que classifica, peremptoriamente, sob ponto de vista jurídico, a quarta edição de O Céu e o Inferno e a quinta edição de A Gênese como adulterações fácticas, indiscutíveis, o grupo conhecido como CSI do Espiritismo, através de uma argumentação repleta de furos e falta de lógica, dando palavras finais sobre o assunto e atropelando o ordenamento jurídico, diz que não houve adulterações.
Lá, no CSI do Espiritismo, de Carlos Seth, Adair Ribeiro e Luciana Farias, não se discute mais sobre o assunto. Apesar de o registro legal da publicação da quinta edição de A Gênese datar apenas de 1872, como eles encontraram um (só um) suposto exemplar dessa edição, mas com a data de 1869, numa biblioteca da Suíça (não da França, mas da Suíça), logo ligaram esse exemplar perdido ao fato de Kardec ter declarado estar preparando uma nova versão — como se isso pudesse ser utilizado como prova de conclusão e de correspondência. E, no balaio, junto vai a afirmação de que a grotesca — e evidente — adulteração de O Céu e o Inferno não existiu!
A lógica da Verdade absoluta (CSI do Espiritismo) é esta: se Kardec declarou estar preparando uma nova edição de A Gênese e se um exemplar, datado de 1869, com alterações no mínimo estranhas, foi encontrado (na Suíça), então é evidente que ele só pode ter sido publicado pelas mãos de Kardec (apesar dos problemas, logo na capa), e mente quem disser o contrário!
É claro que aqui existe um detalhe: o fato de que, tendo o Depósito Legal da 5.ª edição sido realizado apenas em 1872, quase três anos após a morte de Kardec, isso, per se, classifica uma questão legal importante — a de que qualquer alteração realizada após a morte de um autor implica em adulteração. Mas é claro que o Ministério da Verdade tem a resposta: o exemplar único, sabe-se lá por que, esquecido numa biblioteca suíça (e não francesa) é a prova cabal contra a questão jurídica (não é)!
Tem também o fato de a esposa de Kardec ter assinado a ata de 1873 (se não me engano) onde estaria dando ciência da publicação daquela edição… Mas que essa senhora de mais de 70 anos, em luto, tenha sido afastada de suas funções, por Leymarie, como demonstra Simoni Privato, e que essa edição não tenha sido publicada na França, nos primeiros anos, é claro que não vem ao caso. Parece-nos que foi tudo pensado para que essa adulteração não ficasse em evidência no território francês.
Seria lógico, para um pensador incauto, imaginar que o fato de não ser possível encontrar, na França, exemplares dessa nova edição, “Revisada, Corrigida e Aumentada”, deva-se ao fato de que, na França, isso poderia ser considerado uma contravenção — já que ela não tinha depósito legal — mas não para quem aceita a Verdade Inquestionável.
Como eles encontraram diversas evidências de que Kardec, antes de morrer, havia encomendado uma nova edição de A Gênese; como encontraram evidências de que essa nova edição havia começado a ser impressa; como eles verificaram que a própria viúva de Kardec, três anos depois, assinou um documento dando ciência sobre a distribuição dessa nova edição, eles concluíram, é claro, que seria absolutamente impossível que alguém tomasse os tipos móveis, após a morte de Kardec, e produzisse uma segunda versão, apresentando cada uma conforme conveniência, ou que tivessem dado sumiço na versão alterada por Kardec, ficando apenas com uma versão adulterada. Não, nada disso pode ter acontecido, segundo o CSI do Espiritismo.
Evidências, agora, são suporte para dar a palavra final sobre algo que não pode ser provado — e que eles afirmam que não pode ser provado. O que precisamos entender e aceitar, “de nosso lado”, é que Kardec ficou — ele que me perdoe — gagá, nos seus últimos anos! Que, apesar de ter realizado obras tão profundas e sábias, em termos científicos e filosóficos — O Céu e o Inferno e A Gênese — pouco após isso, deve ter tido algum tipo de síncope que o deixou lesado, a ponto de ir contra a direção dos Espíritos, que diziam que a obra estava ótima e que NADA deveria ser removido.
“Minha opinião é que não há absolutamente nada de doutrina a ser retirado; tudo aí é útil e satisfatório sob todos os aspectos”
[…]
“É necessário deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público”.
No caso, além da demonstração jurídica da adulteração de A Gênese, também esta comunicação reforça o fato em razão das alterações doutrinárias identificadas na obra, com a supressão de diversos trechos em que Kardec critica a moral heterônoma do fanatismo religioso, dentre outras manipulações.
Ainda nesta comunicação, o espírito sugeriu também que ele trabalhasse sem pressa e sem dedicar muito tempo:
“Sobretudo, não se apresse demais. (…) Comece a trabalhar imediatamente, mas não de forma exagerada. Não se apresse”.
Kardec não só removeu pontos importantíssimos das obras, como o prefácio da nova edição de OCI (afinal, quem é que precisa de um prefácio explicando o caráter da obra e a propriedade que ela tem, como resultado do estudo da ciência espírita?), como fez um verdadeiro Frankenstein de AG, trocando ideias fundamentais antes declaradas e fazendo até mesmo referências a postulados que haveria de remover na nova edição de OCI. Logo ele, que, com uma habilidade assustadora, era capaz de conduzir uma linha de pensamentos perfeitamente encadeada entre vários números da Revista Espírita! Removeu um capítulo de OCI e transformou em lei do pós-morte aquilo que outrora dizia não ser possível tomar como lei — sem dar nenhuma explicação sobre isso!
Coitado do Kardec, deve ter soltado um parafuso de tanto falar com Espíritos. Segundo essa linha de pensamentos — a da Verdade Inquestionável — ele, por pouco, poderia ter se tornado um novo discípulo de Roustaing, tanto é que, segundo o Ministério da Verdade, devemos aceitar como fruto da mão de Kardec a inserção, no Cap. VII, item 10 do “Código Penal de Vida Futura” (sic), a ideia de que todas as vicissitudes que sofremos seriam expiações! Logo tu, Kardec, que sempre afirmou, consonante com os Espíritos, que a encarnação não é um castigo e que mesmo o Espírito que sempre escolheu o bem, ainda assim, precisa encarnar e passar por vicissitudes! Queria muito que Carlos Seth Investiga explicasse essa completa incongruência… Mas não precisa: devemos aceitar suas verdades sem questionar.
Pior: além de gagá, Kardec ficou MEDROSO. Ora, é a única coisa que podemos depreender da inquestionável verdade do CSI do Espiritismo, já que fez, n’A Gênese, pesadas assertivas sobre os adversários do Espiritismo, para depois removê-las na nova edição:
Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria. Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas e, por isso, dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.
KARDEC, Allan. A GÊNESE, 4.ª EDIÇÃO — EDITORA FEAL
Vai ver Kardec recebeu alguma carta ameaçadora — mais ameaçadora que as dezenas que deveria receber com ameaças. Ou então Kardec notou, enfim, seu erro em julgar que o Espiritismo fosse assim tão potente a ponto de despertar esse ódio implacável ao qual se referiu.
Bem, além de aceitarmos a Verdade Inquestionável do CSI do Espiritismo, aprendendo a deixar de lado esse negócio de “razão”, precisamos também aprender a enterrar certos autores, que nem sequer são citados pelo órgão representativo da verdade divina na Terra. Podemos até mesmo criticá-los, como fez Carlos Seth, mas não podemos, de forma alguma, utilizar seus vastos trabalhos de anos de pesquisa sobre Magnetismo, Espiritualismo Racional e Espiritismo. Jamais! Ao criticá-los, não devemos nem sequer citar nomes – vai que as pessoas despertem o interesse em ler as insanidades que diz esse tal “Paulo Henrique de Figueiredo”. Afinal, esse autor tem a ousadia de questionar o Ministério da Verdade, utilizando essa tal da “razão” e, afirmando que não consegue ver um Kardec tresloucado, diz que encontrou a plena concordância das ideias tratadas nas obras e na Revista Espírita com as primeiras edições dessas obras — edições essas que também não devem ser citadas.
Passemos uma régua por cima de todo esse imbróglio, e não mais falemos sobre isso. As evidências do “outro lado”, esse que “acredita” numa adulteração, devem ser sumariamente esquecidas, junto aos seus autores. Diferentemente do que dizia Kardec — que não podemos dar palavra final sobre aquilo que não pode ser provado — nós devemos aceitar a palavra final do CSI do Espiritismo. Desde que as evidências por eles encontradas tornaram-se expressão final da verdade inquestionável, todos — repito: todos — os argumentos do “outro lado” tornam-se automaticamente nulos! Aquele “caminhão” de argumentos trazidos por Simoni Privato em “O Legado de Allan Kardec”? N-U-L-O, pois diz Carlos Seth Investiga: “Nós demonstramos com FATOS que TODAS as evidências utilizadas para provar que “A Gênese” poderia ter sido adulterada NÃO se sustentaram”. Há quem discorde.
Ah, o FATO de Leymarie ter adulterado uma comunicação espiritual, em Obras Póstumas, removendo justamente o trecho em que o Espírito recomendava que Kardec não retirasse nenhuma ideia na nova edição de A Gênese também foi prontamente anulado pelas evidências do órgão da Verdade Inquestionável.
Também não devemos nem sequer trazer à tona esses argumentos contrários, pois do que é que vale, contra algumas evidências materiais, uma enorme quantidade de argumentos lógicos e o fato de que o registro, após a morte do autor, de uma edição alterada, configura adulteração? ? Absolutamente nada!
É claro que isso traz um “pequeno” problema, já que o Espiritismo não pode ser provado senão por meio da racionalidade, mas não devemos temer: o Ministério da Verdade com certeza terá uma solução para isso. Assim que o Espiritismo estiver um tanto mais minado pela desconfiança colocada sobre Kardec (quem, lembre-se, só pode ter ficado gagá) e pela descoberta de “fofocas da época”, obtidas mediante opiniões dos médiuns dissidentes, encontradas em documentos antigos, poderemos, quem sabe, passar um rodo sobre o Espiritismo “de Kardec” e fundar uma nova era de estudos históricos (não doutrinários, não morais, mas históricos, que é só o que importa para a Verdade Absoluta).
Mas não é tudo: devemos, além de declarar a nulidade de qualquer argumento em contrário, sem apresentá-los ao público, combater também qualquer ideia que venha da direção contrária, criticando obras sem nenhuma necessidade de compromisso científico. Se cometermos falácias, não tem problema. Afinal, estaremos combatendo a mentira e, para isso, devemos usar todas as armas.
Diz Carlos Seth, do CSI do Espiritismo:
Em meados de 1890 houve a consolidação da divisão entre o Espiritismo consolador e o Espiritismo científico, conforme já apontou o colega John Monroe.
A história se repetiu entre 2016 e 2020 agora no campo da moral, com o lançamento de livros que procuraram trazer pensamentos de Kant, Maine de Biran e Victor Cousin para dentro do Espiritismo, mesmo que para isso precisassem deturpar as ideias de Allan Kardec.
Sem sombra de dúvidas, Seth não leu absolutamente nada do que esse povo doido está falando por aí sobre o Espiritualismo Racional, nem leu a Revista Espírita, que é onde está firmada a base científica do Espiritismo, que ele parece criticar. Justamente na Revista Espírita, onde Kardec parece ter “perdido a cabeça”, ao afirmar o Espiritismo sendo um desenvolvimento do Espiritualismo Racional! Interessante é que a leitura (e o cuidado em não criticar o que não se conhece) faz se tornar evidente que o Espiritualismo Racional deu base ao Espiritismo, havendo um grande intercâmbio entre essas duas ciências, sendo que o Espiritismo vem dar a chave para aquilo que o Espiritualismo Racional não tinha como responder. Mas é aí que mora o problema: esse assunto é tratado por um autor cujo nome o Ministério da Verdade (CSI do Espiritismo) não permite nem sequer que seja citado — esse tal “Figueiredo”. Cito até a obra: “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”. Mas, por favor, não leiam esse livro, repleto de sandices! Devemos apenas colocá-la na sombra da inexistência, junto ao seu autor que, segundo o Ministério, está causando uma divisão no Espiritismo, “agora no campo moral”!
Se a Verdade Inquestionável age assim, é porque tem um motivo muito sério: é que esse autor pode dar aval às subversivas ideias da adulteração. Mostrando suas intenções malévolas e colocando seus livros no esquecimento, com algumas inofensivas e nada levianas afirmações falaciosas, age a Verdade em nome do Bem. Essas ideias de autonomia e Espiritualismo Racional — “racional” — se são tratadas por esse autor, ou são fruto de erro, ou devem apenas ser esquecidas, a fim de que, repetimos, não levem as pessoas a lerem as obras proibidas.
Preste muita atenção: a controvérsia sobre a adulteração das obras O Céu e o Inferno e A Gênese se mostrou inexistente! Sim, porque, para nós que aceitamos a Verdade Inquestionável do CSI do Espiritismo, o outro lado nem sequer existe! Como aceitamos evidências como provas (embora ciência seja sobre teorias, e não provas) e fazemos uma inferência que para muitos pode parecer forçada — mas o Ministério da Verdade afirma que não é — todo o restante torna-se automaticamente nulo. Apaguemos também a história, que nem sequer devemos citar. Sobre os autores que corroborem essa ideia de um complô ao redor de Kardec, não podemos fazer nada mais do que mostrá-los como são — impulsivos e levianos, embora tenham se dedicado a longos anos de pesquisas — para que, enfim, possamos guiar as pessoas pelo caminho correto — o da Verdade Inquestionável — não pela razão, mas pela coerção, já que a maioria é incapaz de pensar por si própria. Aquela história de deixar ao tempo e ao público julgar o que é correto — essas ideias malucas de Kardec — caem por terra, pois temos evidências que podem ser tomadas como provas cabais, segundo nossas teorias.
Aqueles, enfim, que não aceitam a Verdade Inquestionável, devemos tratá-los como são: resistentes e de mente fechada, que não aceitam as evidências que lhes apontamos. Preferem acreditar que Kardec jamais poderia ter realizado tais alterações, pois, dizem eles, não são racionais nem condizem com o método que ele teria utilizado por anos, nem muito menos com o restante da obra. Balela! Declaremos guerra a essas ideias sem nenhum nexo e proibamos, o quanto possível, que sejam sequer suscitadas, pois causam um mal gigantesco ao atiçarem, no povo, essa vontade absurda de pensar pela razão — tão absurda que não aceitam as evidências históricas como fato irrefutável da não adulteração. Aliás, devemos nomeá-los como tal: negacionistas, de modo que sejam desmoralizados onde quer que falem e não despertem a curiosidade de ninguém.
Ficam, assim, definidos alguns passos a serem seguidos para o restabelecimento da Verdade, segundo o CSI do Espiritismo:
Utilizar todo espaço possível, nas redes sociais e nos canais do Youtube, para afirmar que todos os argumentos contrários foram vencidos, sem nenhuma intenção de diálogo.
Escrever documentos e artigos mostrando uma série de evidências materiais que corroboram a tese, digo, a prova evidencial da Verdade — novamente, sem cogitar de apresentar argumentos contrários.
Escrever artigos que desmereçam autores e ideias em contraste à posição do Ministério do CSI do Espiritismo, sem se aventurar a conhecê-los, o que é óbvio, e sem nenhuma preocupação em cometer falácias. Lembre-se: tudo pelo Bem!
Criar espaços para estudos. Do Espiritismo? Não. De seu contexto científico? Muito menos! Para estudar as cartas antigas e investigar quem foram os médiuns que Kardec insistentemente dizia que não deviam ser colocados em relevância.
Ante qualquer discussão sobre a forma de ação do Ministério da Verdade, conduzir rápida e habilmente o assunto para a questão da adulteração, onde temos o total controle, já que o outro lado, já desmoralizado pelo enquadramento no negacionismo, não poderá sustentar fiabilidade ante o público.
Dizem eles que manchamos a imagem de Kardec e o próprio Espiritismo ao agir assim. Ora, a busca é pela Verdade, e tudo aquilo que sustente aquilo que temos como certeza, desde o início, deve ser exaltado, doa a quem doer. Mas chega desse assunto, pois não o discutiremos mais, agora que estamos de posse da Verdade Inquestionável do CSI do Espiritismo.
Explicações
Prezado leitor,
É claro que, se você estuda Kardec e nos acompanha, notou que o texto é apenas uma crítica, em tom de sátira, ao comportamento absurdo adotado por algumas pessoas que decidiram tomar, para elas, a verdade, deixando fatos importantes de lado. Sinto por ter te feito ler tudo isso. De nossa parte, não desejamos impor a nossa verdade ou as nossas conclusões. Deixamos a cada um a liberdade de julgar por si mesmo, de posse de evidências e fazendo uso da própria razão. O que nos entristece é que muitos, deixando-se conduzir, abstraem-se totalmente de conhecer obras como as de Paulo Henrique de Figueiredo e de Simoni Privato, que têm trazido uma contribuição ímpar para a compreensão do Espiritismo.
Qual é o cerne da questão, enfim? É que a 5.ª edição, com alterações, tem depósito legal realizado apenas em 1872. Isso, legalmente, configura adulteração. O restante, as evidências encontradas pelo “CSI do Espiritismo”, apontam apenas para o fato de que Kardec preparava uma nova versão, mas não prova que essa versão chegou a ser impressa. Constituem inferências forçadas todos os esforços no sentido de apontar que aquele único exemplar encontrado na Suíça corresponde a essa nova edição, apenas porque corresponde ao exemplar referente ao depósito legal de 1872, da 5.ª edição, feito por Leymarie. Esse é o ponto.
O que temos por segurança, sem nenhuma sombra de dúvida: Kardec realizou uma edição de A Gênese, da qual encomendou quatro reimpressões, sendo que cada uma delas configurava uma nova edição, embora iguais à primeira. A prova disso está no fato de ele não ter realizado depósito legal para as demais edições.
Também é um fato que Kardec preparava uma nova edição dessa obra e de O Céu e o Inferno. Mas não existe prova que de ele as concluiu, sendo outra inferência forçada afirmar que o pedido de reimpressão de dois mil exemplares de A Gênese, feito em fevereiro de 1869, refira-se à impressão dessa nova edição. Pode ser que sim, pode ser que não. Se sim, pode ser que essa edição tenha sido destruída, para, então, alguém realizar uma adulteração. Para o argumento sobre o tempo hábil para fazê-lo, basta lembrar que, naquele tempo, as pessoas tinham muito mais tempo que nós temos hoje e que, além disso, não existe prova de que a versão adulterada não tenha sido impressa apenas mais tarde; para o argumento da necessidade de convencimento do impressor, basta supor que seria necessário apenas dizer, por exemplo, que foi um pedido de Kardec, feito pouco antes de morrer, e que, não sendo aquilo uma edição final, mas apenas uma edição para avaliação e correções, não seria necessário o depósito legal (o que é um fato).
Um ponto importante, aliás: qual é o sentido de Kardec mudar o título de sua obra (A Gênese), inserindo o subtítulo “revisada, corrigida e aumentada”, se nunca fez isso antes, para nenhuma das outras obras? A meu ver, mais parece algo feito, por um adulterador, no sentido de reforçar que aquela edição seria uma importante “alteração”.
A comunicação espiritual, onde o Espírito afirma, através do médium Sr. M. Desliens, que Kardec não deveria remover nada, mas apenas condensar aquilo que possivelmente tenha ficado claro em outros pontos (que você pode conferir aqui), foi adulterada por P. G. Leymarie, quando foi incluída com cortes e alterações em Obras póstumas, organizada por ele, e publicada em 1890: segunda parte, capítulo: “A minha iniciação no Espiritismo”, item: “Minha nova obra sobre A Gênese” (onde “Minha” seria uma referência a Kardec, falando de si mesmo).
Ora, por que essa sanha de Leymarie em dar suporte, por intermédio de uma flagrante adulteração, à ideia de que a 5.ª edição de A Gênese foi produzida por Kardec?
Enfim, deixemos cada um a seu tempo e as suas escolhas, mas não nos ausentemos de apresentar a real proposta da ciência espírita, totalmente autônoma e libertadora e, conforme concluímos, muito afastada dos conceitos transformados em “Código Penal da Vida Futura”, naquilo que, para nós, somente pode ser configurado como uma adulteração.
Fato é que Carlos Seth, na busca por tudo o que possa suportar sua ideia, tem distorcido, ele mesmo, ideias e palavras, utilizando de falácias e argumentos lógicos, algumas vezes inválidos, para forçar conclusões. Foi leviano e deselegante ao afirmar, com grande desconhecimento, que “certo autor” estaria provocando uma divisão no Espiritismo, “agora no campo moral”, ao trazer, para dentro da Doutrina, o Espiritualismo Racional (já tratamos disso no artigo Espiritualismo Racional e Espiritismo – uma nova divisão no meio Espírita?) e é igualmente deselegante ao utilizar seus meios de comunicação para denegrir aqueles que, pela razão e pelos fatos, concluem diferentemente dele, imputando a eles os termos “negacionistas”.
Ademais, apresentamos um argumento final: o próprio Carlos Seth afirma que não tem prova de que as obras não foram adulteradas. Resta, portanto, espaço para alguma dúvida e, assim sendo, não seria muito mais prudente ficar com a primeira edição dessas obras, de quando Kardec era vivo, onde temos a total confiança de que tudo, absolutamente tudo o que existe ali, foi produzido por suas mãos? Isso, é claro, sem tratarmos as outras edições como inexistentes, pois elas servem, a nosso ver, justamente para demonstrar o tom das alterações e o que foi que elas removeram ou inseriram no pensamento de Kardec.
Deixamos ao leitor a reflexão.
Novos Horizontes
No primeiro semestre de 2021, tive — e eu nem lembro mais como — contato com a obra de Simoni Privato — O Legado de Allan Kardec — obra essa que muito me abalou, frente ao entendimento de tudo o que aconteceu com o Movimento Espírita francês, após a morte de Kardec, e o quanto isso definiu o rumo desse movimento no século seguinte, em especial no Brasil. Em seguida, “por acaso”, alguém postou, em um grupo, um questionamento sobre uma obra recém-lançada, na época: “Nem céu, nem inferno”, de Lucas Sampaio e Paulo Henrique de Figueiredo (PHF). O primeiro pensamento foi: deve ser um absurdo. Mas o título era desafiador demais para deixar passar. Resolvi pesquisar e encontrei um artigo, em um blog espírita, falando sobre a obra… E, para entender quais eram as bases do que os autores afirmavam, adquiri e li a obra, com grande avidez, devo confessar.
Da leitura dessas obras, além da constatação da distância mencionada (entre Movimento Espírita e o Espiritismo), me nasceu a necessidade de estudar o Espiritismo nas obras de Kardec, pois o fato patente constatado é que, com pelo menos 20 anos estudando ou lendo obras espíritas, eu não conhecia o Espiritismo. Demérito? Nenhum. Estudei o que estava ao meu alcance. Humilhação? Só se eu julgasse que a verdade era apenas o que eu conhecia e que, fora disso, nada existiria. Mas se tem uma coisa que eu conhecia sobre Kardec, por tradição de estudos de O Livro dos Espíritos, com meu pai, era o seu grandioso empenho na busca científica da verdade, motivo que me instigou a estudar, sem apegos. Mas… Estudar o quê? O Livro dos Espíritos eu já conhecia em grande parte. A essência de O Livro dos Médiuns, também. Quero dizer: frente àquilo que estava ao meu alcance, a essência moral e científica me parecia bem compreendida.
Um fato que me chamou a atenção e que talvez a intuição tenha reforçado é que deveria haver algo de importante nessa tal “Revista Espírita”, posto que esses autores frequentemente recorriam a citações muito pertinentes e perspicazes de Kardec ou de Espíritos, contidas nesses volumes. Assim, nasceu esta iniciativa e nosso grupo de estudos… Mas isso tudo vocês provavelmente já sabem. Não é esse o ponto, somente achei interessante demonstrar, mais uma vez, o caminho que percorri até aqui, pois esse caminho está me levando para lugares nunca antes visitados.
Um fato muito importante que aconteceu nessa trajetória foi a aproximação com o Grupo de Estudos Espiritismo para Todos, o que aconteceu porque, em contato com o Paulo Henrique, ele mesmo me indicou alguém desse grupo, que estudava junto a ele as obras de Kardec e seu contexto científico. Daí, veio o conhecimento sobre o Espiritualismo Racional, que várias vezes já abordamos por aqui, um pouco sobre o Magnetismo e, mais recentemente, um aprofundamento gigantesco em todo o contexto de Kardec, desconhecido atualmente. A metafísica, coisa totalmente desconhecida ou desconectada da ciência atual, era parte elementar dos estudos de qualquer cientista da época, e foi ela, juntamente a tudo o que a ciência fornecia, naquela época, que deu possibilidade à formação da Doutrina Espírita.
Da mesma forma que a Ciência propriamente dita tem como objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da natureza que reage incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, disso resulta que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro; que o Espiritismo e a Ciência se completam; que a Ciência sem o Espiritismo está impossibilitada de explicar certos fenômenos recorrendo somente às leis da matéria, e por ter prescindido do princípio espiritual se encontra em meio a tantas dificuldades; que o Espiritismo sem a Ciência careceria de apoio e de controle e poderia equivocar-se. Se o Espiritismo tivesse chegado antes das descobertas científicas, teria fracassado, como tudo o que ocorre antes do seu tempo.
KARDEC, Allan. A Gênese, 1868
É impossível descrever, somente neste artigo, tudo o que temos estudado até agora. O leitor que nos acompanha poderá identificar, na leitura dos textos deste site, diversas sugestões e pistas que frequentemente damos e que cabe a cada um o interesse de investigar ou não. O fato é que estamos chegando a um ponto, acompanhando os estudos do amigo Paulo Henrique, em que minhas primeiras indagações começam a ser respondidas: será possível retomar o Espiritismo, estudado cientificamente, como Kardec fazia? Será possível retomar o contato com os Espíritos, dando continuidade à formação, ou mesmo à recuperação doutrinária? Sim, é possível (e escrevo isso com um sorriso no rosto).
Veja: Kardec havia compreendido e avançado sobre pontos científicos que nós jamais suspeitávamos, e isso pôde ser constatado através de um método que, em breve, será conhecido por nós e pelo prezado leitor, porque o interesse é apresentá-lo para a humanidade. Não só o método, na verdade, mas o conhecimento encontrado através dele. Em estudo com PHF, onde esse conhecimento está sendo elaborado, não pude me sentir nada mais do que muito diminuído frente a Kardec. Me senti ignorante frente à minha compreensão prévia do Espiritismo. A cada nova constatação, eu ria, mas não era uma risada de desdém ou sarcasmo: era uma risada impossível de conter, que expressava meu nível de ignorância, frente ao tamanho que tomava a ciência espírita, formada pelos estudos de Kardec, através de anos de aprendizado junto aos Espíritos.
Nós já sabemos (e, se você não sabe, corra agora para estudar a Revista Espírita) que, no aprendizado com os Espíritos, não podemos tratá-los como reveladores, para os quais basta perguntar e eles respondem, com a teoria pronta. Não.
“… no mundo dos espíritos ocorre um fato muito singular, o qual seguramente ninguém havia suspeitado – os de existirem espíritos que não se consideram mortos. Pois bem: os Espíritos superiores, que conhecem perfeitamente esse fato, nunca vieram dizer por antecipação: “Há Espíritos que supõem ainda viver na vida terrestre; conservando seus gostos, hábitos e instintos”. Em lugar disso, provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para que os observássemos. Assim, depois de ver Espíritos inseguros em relação ao seu estado, ou afirmando pertencerem a este mundo e desempenhando suas ocupações habituais, do exemplo se deduz a regra. A multiplicidade de fatos semelhantes provou não se tratar de uma exceção, mas de uma das fases da vida espiritual, permitindo estudar todas as variedades e causas dessa singular ilusão, além de reconhecer, sobretudo, ser essa situação própria de Espíritos pouco avançados moralmente, e característica de determinados tipos de morte; que é apenas temporária, mas podendo durar dias, meses e anos. Assim, a teoria nasceu da observação. O mesmo aconteceu com todos os demais princípios da doutrina.”
KARDEC, Allan. Ibidem.
É fácil perceber, portanto, quantos conhecimentos esses estudos requerem e, num século onde cada área está nichada, isto é, onde o físico não estuda filosofia; onde o matemático não conhece botânica; onde o químico não conhece astronomia, e onde nenhum deles conhece metafísica, fica mais fácil ainda compreender a dificuldade que enfrentamos. De minha parte, reconheço: se aventurar nesses estudos não é para qualquer um, e eu só posso me portar como um ganso (porque não quero me comparar a uma galinha, seria muito humilhante), correndo atrás das migalhas que caem das mãos daquele que plantou e que agora colhe os grãos da plantação.
Bem, como eu dizia, novos horizontes estão se abrindo e, cada um que se interesse em aprender e espalhar o conhecimento, pode e deve se lançar aos estudos, da forma que for possível a cada um. É difícil colher todo o aprendizado para retomar, por mãos próprias, o estudo científico do Espiritismo, mas quem disse que nós precisamos ser tão geniais como Einstein para entender a essência das leis do nosso universo, demonstradas por esse grande gênio? Podemos nos portar da mesma forma com o Espiritismo: basta dedicação, colocar a cabeça para funcionar e, de nossa parte, pesquisar, questionar e se aprofundar em tudo o que nos parecer nebuloso. O mais importante de tudo é que não estamos sozinhos: em grupo, a construção torna-se muito mais proveitosa, pois cada um, estando na posição de ajudar e de ser ajudado, auxilia e participa da construção do conhecimento. O que precisamos é sair da condição de professores de Espiritismo.
Terminamos nosso último estudo com o Paulo dizendo algo mais ou menos assim: “se esse conhecimento é tão interessante e transformador para nós, que somos ignorantes, imaginem para quem é inteligente!”. Sim. Imagine o que será para um matemático verificar que o Espiritismo fala de matemática. Imagine o que será para o físico, para o químico, para o médico, para o filósofo, verificar que, no Espiritismo, trata-se de tudo isso, com aspecto moral e sem misticismo? De que tudo se depreende da Lei Natural, e de que é disso que o Espiritismo vem tratar?
Mas, para isso, é preciso vencer algumas barreiras concretadas pelo materialismo, não só na ciência, mas também dentro do movimento espírita. Primeiramente, será necessário demonstrar que a ciência moderna, ao virar as costas para a metafísica, tornou-se tão dogmática quanto a Igreja que, no passado, tratava como herege aquele que afirmava que a Terra girava ao redor do sol, ou que queimava “bruxas” por afirmarem estarem ouvindo ou vendo Espíritos. Depois, será necessário demonstrar que isso que eles acham que é Espiritismo — muitas vezes baseados em coisas absurdas que leem por aí, outras vezes baseados no que lhes apresentam conhecidos, ditos espíritas, mas dogmáticos e caminhando pelas falsas ideias, ou ainda pela falsa confusão entre Espiritismo e espiritualismo moderno, místico, supersticioso e também dogmático — será necessário demonstrar, eu dizia, que isso não é Espiritismo. Será preciso demonstrar que o Espiritismo foi (é) algo tão racional e sério, um fato inegável, que adiantou, há mais de 150 anos, verdades que apenas agora a Ciência está constatando. Enfim, para aqueles que chegarem, pelo uso do bom-senso, a esse ponto, será necessário demonstrar que o Espiritismo, como ciência muito bem instituída em sua época, formou-se da mesma forma que todas as outras ciências de observação, sendo, portanto, racional — tão racional quanto a busca, da física atual, pela existência da matéria negra ou da existência de outros universos, guiados por efeitos cujas causas não são, e talvez nunca sejam, diretamente observáveis. Eis o desafio.
E quanto ao Movimento Espírita materialista, apegado aos erros? Esse depende da vontade de cada um. Os Espíritos, nossos bons Espíritos protetores, nos intuem ou nos direcionam a situações, a obras, a pessoas, isto é, eles nos ajudam, quando sabem que temos um mínimo de disposição. A cada um cabe o interesse em investigar. A mim, não foi suficiente me conduzirem a um lar de idosos, em momento em que eu precisava de ajuda, onde, não obstante haver um predomínio de cultura religiosa católica, encontrei na estante alguns volumes da Revista Espírita! Não. Eu abri, folheei, mas, naquele momento, não fui adiante. Foi necessário passar o apuro, para, somente mais tarde, dar atenção a tal obra, pelo processo explicado anteriormente. Natural que cada um siga seu caminho, e devemos respeitar as escolhas de cada um. Talvez, aqueles que se apeguem e se fechem ao conhecimento, acreditem que estão fazendo o bem, tanto quanto muitos dos que queimavam obras científicas acreditavam estar fazendo o que era certo (o que não os exime de sua responsabilidade, mas o que atenua suas faltas, perante suas próprias consciências). Apresentemos o conhecimento, se desejarmos, mas, se desejarem queimá-lo, deixemo-los, enquanto fazemos a nossa parte. O tempo se encarrega de tudo.
Bem, escrevi bastante. Fico por aqui. Preciso colher alguns grãos que ficaram pelo caminho.
As adulterações em A Gênese após a morte de Kardec: fato ou questão de ponto de vista?
Por Paulo Degering Rosa Junior
“A interpretação de texto é dependente da chave de leitura utilizada pelo leitor“, disse-nos uma correspondente envolvida em estudos, ainda hoje, sobre evidências que sugeririam ou comprovariam que a 5.ª edição de A Gênese não foi uma adulteração.
Com certeza – respondo eu – a interpretação depende do conhecimento do leitor. É possível até mesmo não entender a autonomia – fundamento da moral espírita – e, pelo contrário, depreender os falsos conceitos, como aqueles ligados ao carma. O que eu não vejo como questão de interpretação, porém, é a REMOÇÃO de trechos tão essenciais e importantes da obra, como aquele do item 24 do cap. XVIII (“Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau…”) ou aquele que finaliza, na 4.ª edição, o item 19 do cap. III, a respeito dos instintos – “Todos os homens passam pelas paixões […]”. Além disso, temos a retirada ilógica do final do item 22 do cap. II, que explica o conceito da interação espiritual através do fluido perispiritual, indo em encontro à tese de Mesmer. Isso sem falar na carta manuscrita onde consta que, consultando os Espíritos, foi recomendado a Kardec que NADA fosse suprimido na nova edição.
Interessante, ademais, notar que se prende tanto às questões de A Gênese, fazendo um enorme silêncio sobre O Céu e o Inferno, que foi absurdamente destroçada, chegando a ficar contraditória., na 4.ª edição.
De verdade, eu não entendo como, ainda hoje, gasta-se tanto tempo nessa discussão que em nada agrega ao Espiritismo e à humanidade. Nós já sabemos que o Movimento Espírita foi completamente deturpado por pessoas como Leymarie, que também condenou o futuro da antes reconhecida Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; já sabemos da influência perniciosa de Roustaing e de seus discípulos; já sabemos das publicações dos discípulos leais de Kardec, que sinalizavam, em berros escritos, os fatos que se passavam então (conforme Beacoup de Lumière, de Berthe Fropo, amiga íntima do casal); sabemos, também, que se chegou ao ponto de queimarem-se manuscritos preciosos de Kardec, também pelas mãos de Leymarie; conhecemos os fatos amplamente apresentados por Simoni Privato, em O Legado de Allan Kardec. Apesar de tantos fatos e evidências, para alguns grupos é inconcebível que as obras citadas não tenham sido adulteradas, e gastam preciosos tempo e recursos em pesquisas que apenas apontam para evidências de que Kardec planejava novas edições – o que é mais que racional.
Enquanto isso, a compreensão do Espiritualismo Racional, do Magnetismo, da Educação e do Espiritismo – tudo muito intrinsecamente ligado – fica esquecida em terceiro plano, ao passo que o Movimento Espírita continua preso às falsas ideias, materialistas, vindas desde Aristóteles até os dias de hoje – as mesmas ideias que destroçaram a filosofia inatacável apresentada pela Doutrina Espírita. Respeito o tempo e a vontade de cada um, afinal, falamos de autonomia e, espero, hoje compreendemo-la. Mas não consigo ver, nisso tudo, senão mais uma forma de atrasar o passo da doutrina, enquanto, vivendo ainda na heteronomia, milhares de pessoas “esperam” um posicionamento oficial de órgãos como a FEB, a respeito não só das adulterações das obras, mas do reconhecimento da distância que tomaram da essência filosófica, científica e moral do Espiritismo.
É isso.
Hoje, 25 de agosto de 2022, é o primeiro aniversário do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. Nesse último ano, com a cooperação imprescindível de companheiros valorosos, o Grupo felicita-se de ter aprendido tanto, se desenvolvido tanto e de, a cada dia mais, se tornar mais útil pela compreensão da essência verdadeira – moral, científica e filosófica – do Espiritismo.
O Grupo nasceu justamente após a leitura de O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, que nos acendeu o alerta sobre os fatos que regularmente vimos destacando e comentando e esperamos que, daqui em diante, tenhamos forças e possibilidades de auxiliar cada vez mais na disseminação do verdadeiro caráter da Doutrina Espírita, afastado das falsas ideias, materialistas e dogmáticas.
Espiritismo não tem “lei do retorno”, “lei de ação e reação”, “carma”, “quitação de dívidas” ou qualquer ideia ligada ao dogma da queda pelo pecado; o Espiritismo demonstra que o Espírito é o autor, o fator determinante da vontade, não estando submetido – embora seja influenciado – pela matéria. Demonstra, acima de tudo, o princípio da autonomia e do livre-arbítrio, afastado dos falsos conceitos de um Deus punitivo ou de um diabo inquisidor.