A vida é feita de escolhas. Às vezes, são escolhas lúcidas, isto é, sabemos bem que algo é correto ou não; outras vezes, são escolhas “ignorantes”, isto é, não conhecemos o suficiente para supor os resultados. Destas, podemos colher erros ou acertos e, no caso de erro, não existe “pecado”, pois o erro faz parte da evolução. Desde que não se apegue a ele, “está tudo certo”. Basta seguir em frente e não repetir o erro. Não há condenação, nem houve propósito de mal.
A grande questão é quando a escolha por aquilo que é errado se dá de forma mais consciente — e aqui não considero uma plena consciência, porque, se ela existisse, não se faria a má escolha. O indivíduo, dotado de consciência e de inteligência, age em favor do apego àquilo que é errado ou que traz maus frutos. Sim, age envolto numa confusão de ideias, que nasceram em primeiro lugar do seu ímpeto de se satisfazer em algum aspecto — daí a assertividade em dizer que o egoísmo e o orgulho são as mães de todas as demais imperfeições — e, muitas vezes, nem pensa em fazer o mal, mas sim em satisfazer seus próprios desejos ou [falsas] necessidades. Esse é o ponto problemático das más escolhas, onde o próprio indivíduo se condena a um turbilhão de maus efeitos em que a causa é ele mesmo e ninguém mais, e onde se afasta do Bem, que é o caminho, para tomar um desvio que duras penas lhe custarão para retomar, pois requer o exercício do desapego.
Dito isto, muitos se perguntarão: em ambos os casos, mas especialmente no segundo, então, como errar menos? Como julgar melhor nossas próprias ações? Como evitar o erro pontual e como exercitar o desapego antes que certo hábito se torne uma terrível imperfeição?
Resumidamente, a resposta é uma pergunta retórica: por que você acha que os próprios Espíritos dos indivíduos antes encarnados — Espíritos sábios e Espíritos ignorantes; Espíritos bondosos e Espíritos maldosos; Espíritos felizes e Espíritos sofredores — dedicaram seu tempo para nos contar de suas próprias aventuranças? Por que você acha que um indivíduo de ciências, dedicado filósofo da educação e conhecedor de tantas outras ciências, tendo vislumbrado algo nessas comunicações, dedicou, à exaustão, cerca de 14 anos de sua vida, de suas finanças, de suas alegrias, e de sua saúde em estudar e disseminar esse conhecimento, que formou o que conhecemos por Espiritismo ou Doutrina Espírita? POR QUÊ?
Quando a criança vê seu irmão sofrer uma queimadura por colocar a mão em brasa quente, muito provavelmente pensará duas vezes antes de fazer o mesmo. Imagine o que pode fazer um adulto, pleno de suas capacidades cerebrais, como esse conhecimento?! É, ainda assim, quantas pessoas, passando por anos e anos de sofrimentos tolamente cultivados, ESCOLHEM manter essas obras fechadas nas estantes, esquecidas em seus locais virtuais?
A passagem de Zaqueu, que, ao ver Jesus passar por sua porta, subiu em uma árvore para tentar vê-lo, sem se deixar ver interessado pelos cidadãos da cidade, pode ser a nossa mesma: basta ter interesse. A diferença é que nós não temos a necessidade de nos esconder de ninguém para ler um livro, a não ser quando ESCOLHEMOS nossa esconder de NÓS MESMOS, por um tolo medo de, vendo-se descoberto por si mesmo, ter que realizar o movimento de correção. Bem, a essa altura, se você agir assim, eu já posso lhe perguntar: por que é que você gosta tanto da infelicidade?
A salvação é o conhecimento. A cura é realizada por você mesmo. E tudo isso está tão perto quanto a sua vontade QUEIRA. Essa é a mensagem: para fazer melhores escolhas, você precisa ENTENDER como funciona a Lei.
Ótimos novos dias para você.
A continuidade científica do Espiritismo
Por uma estranha ideia, adotamos o princípio de que não podemos evocar os Espíritos, e que o único que pôde fazer isso foi Kardec, porque tinha a permissão ou um propósito muito peculiar.
À luz do conhecimento, precisamos corrigir um pouquinho essa ideia, pois, na verdade, os únicos que puderam fazer as evocações foram os milhares de indivíduos e pequenos grupos, espalhados pelo mundo, não só na época de Kardec, mas antes mesmo dele, pois, quando Kardec se interessou pela nova ciência e antes mesmo de se dar o pseudônimo de Allan Kardec, o Espiritismo já era praticado em muitos pontos do mundo.
Interessante, não? Por que será que hoje, então, não podemos ou não devemos evocar os Espíritos? Não conheço essa lei, nem nunca a vi escrita em qualquer lugar, senão numa frase tirada de contexto, metafórica de Chico Xavier: “o telefone só toca de lá para cá”. Muito pelo contrário, vamos encontrar, ao estudar as obras de Kardec, a recomendação da prática do Espiritismo pelos pequenos grupos, prática essa que consistia, a seu ver, uma ciência: a constante investigação, junto aos Espíritos, das leis que regem a Criação.
Por essa estranhíssima ideia, passamos a colocar os médiuns na posição das antigas secretárias telefônicas automáticas, cuja única missão era atender a uma ligação e gravar a mensagem, e nada mais. Os médiuns se transformaram nisso:
Não só isso: os grupos espíritas, que hoje praticamente inexistem fora da figura dos centros espíritas, passaram a adotar uma ideia ainda mais estranha: passaram a ouvir as “gravações telefônicas” sem as questionar! Isso mesmo: não se questiona a mensagem dada, apenas as tomam pelo princípio de que são sempre dotadas de verdade e sabedoria, e de propósitos de bem. É muito, muito estranha essa ideia, porque ontem mesmo minha mãe recebeu uma mensagem de uma pessoa que se dizia ser eu, e que queria três mil reais para pagar uma conta urgente. Imagine se minha mãe adotasse a prática de muitos grupos espíritas e simplesmente confiasse no interlocutor!
Os sistemas
Por um princípio ainda mais estranho, certos indivíduos passaram a criar e defender sistemas erigidos justamente sobre essas comunicações passivamente recebidas e não verificadas, gastando precioso tempo e causando enormes dificuldades ao movimento espírita, que deixou de estudar Kardec para confiar nesses sistemas. Incongruentemente, os indivíduos que agem assim são, muitas vezes, aqueles que teriam plena capacidade, por terem conhecimentos científicos, para investigarem essas questões.
Mas nem só de comunicações espíritas não checadas se forma esse triste cenário. Outros tantos erigem verdadeiros sistemas de ideias sobre metáforas utilizadas por Kardec em seus estudos, não conseguindo compreender que os cientistas, sobretudo naquela época, vislumbrando novos aspectos científicos que não tinham como compreender, criavam metáforas para tentar dar luz à ideia que buscavam expressar, confiando à continuidade da ciência melhores explicações. Todos os grandes cientistas fizeram isso, sobretudo no aspecto filosófico e especialmente no âmbito metafísico dessas ideias. Kardec fez isso, por exemplo, ao tentar explicar a presença divina como sendo um oceano, onde tudo estaria imerso. Uma metáfora((Ainda hoje as metáforas são utilizadas para dar explicações científicas, chegando certos cosmólogos a dizer que o Espaço é como se fosse um shampoo ou um queijo! Pobre sujeito que erija um sistema sobre essas metáforas!))!
Mas não só a ciência humana usou metáforas. Os Espíritos também as utilizaram, frequentemente. Espíritos sábios utilizaram sábias metáforas para explicar ideias que, de forma científica, ainda não podíamos compreender. Jesus usou metáforas para explicar princípios da ciência espírita que os homens daquele tempo não podiam compreender. Espíritos ignorantes usaram metáforas para explicar causas e efeitos que nem eles conseguiam compreender de forma científica, mas que sabiam existir e funcionar.
A questão toda, aqui, é uma só:
METÁFORAS
Apenas para ficar muito claro e não restar dúvida, vamos definir o significado do termo: metáfora é a “figura de linguagem em que uma palavra que denota um tipo de objeto ou ação é usada em lugar de outra, de modo a sugerir uma semelhança ou analogia entre elas; translação (por metáfora se diz que uma pessoa bela e delicada é uma flor, que uma cor capaz de gerar impressões fortes é quente, ou que algo capaz de abrir caminhos é a chave do problema); símbolo.”((MICHAELIS. Moderno Português – Busca – Português Brasileiro – Metáfora. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/metafora. Acesso em: 29 mai. 2023.)). Do grego, metaphōrá.
São verdadeiros sistemas de ideias erigidas, muitas vezes, sobre nada mais que metáforas, tomando-as como se fossem literais. No âmbito das comunicações espíritas, o estudo da comunicação do soldado zuavo (“O zuavo de Magenta“), na Revista Espírita de julho de 1858, nos dá uma interessante perspectiva, pois, ao ser questionado sobre sua aparência espiritual naquela evocação (ou perispiritual), ele responde:
42. ─ Se vos pudéssemos ver, como o veríamos? ─ De turbante e culote.
43. ─ Pois bem! Suponhamos que nos aparecêsseis de turbante e culote. Onde teríeis arranjado essas roupas, desde que deixastes as vossas no campo de batalha? ─ Ora, ora! Não sei como é isto mas Tenho um alfaiate que mE as arranja.
44. ─ De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes ideia? ─ Não. Isto é lá com o trapeiro.
OBSERVAÇÃO: Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, foram completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos notícias disso no próximo número. Nosso bom zuavo não é suficientemente adiantado para resolver sozinho. Foi-nos preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.
Depois, questionado sobre seu general, também já morto, assim responde:
46. ─ Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme? ─ Sim, mas ele não o veste todos os dias.
47. ─ Em que dias o veste? ─ Ora essa! Quando o chamam ao palácio((Os Espíritos, ignorantes de certas coisas, expressam-se como podem, e veem o mundo dos Espíritos conforme suas ideias, assim como uma criança, utilizando imagens mentais para descrever algo que ela não compreende, fala de coisas que imputamos apenas à imaginação, mas que, no fundo, tem seu significado. O erro, aqui, seria tomar o “palácio” como uma expressão da verdade espiritual permanente.)).
Poderíamos tomar essa comunicação como mais uma base de suporte para o sistema das cidades espirituais. Kardec, porém, agindo de forma científica, não sistematizou sobre essa ideia, mas apenas viu nela algo muito interessante para ser pesquisado. Daí, surgiu a hipótese de que, no mundo dos Espíritos, a matéria terrestre poderia ter um “duplo etérico”. No artigo “Mobiliário de além-túmulo”, da Revista de agosto de 1859, ele pergunta a São Luis:
5. ─ Haveria um desdobramento da matéria inerte? Haveria no mundo invisível uma matéria essencial, revestindo a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, esses objetos teriam o seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?
─ Isto não se passa dessa maneira. O Espírito tem sobre os elementos materiais disseminados em todo o espaço, na nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à vontade, concentrar esses elementos e lhes dar uma forma aparente, adequada a seus projetos.
Não ficando satisfeito com a resposta, questiona:
6. ─ Faço novamente a pergunta de maneira categórica, a fim de evitar qualquer equívoco. As roupas com que se cobrem os Espíritos são alguma coisa? ─ Parece que a minha resposta anterior resolve a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?
No mesmo artigo, pouco antes, Kardec se refere especialmente ao caso do Espírito de um encarnado, que se apresentou em outro lugar, para uma pessoa, com as mesmas características do corpo físico e carregando sua tabaqueira. Reproduzimo-la, por ser autoexplicativa:
3. ─ Essa tabaqueira tinha a forma daquela que ele usa habitualmente, e que estava em sua casa. O que era essa tabaqueira entre as mãos do Espírito? ─ Sempre aparência. Era para que as circunstâncias fossem notadas, como o foram, e para que a aparição não fosse tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde da vidente. O Espírito queria que essa senhora acreditasse na realidade de sua presença e tomou todas as aparências da realidade.
4. ─ Dizeis que é uma aparência, mas uma aparência nada tem de real; é como uma ilusão de óptica. Eu gostaria de saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem irreal, como, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.
(Um dos membros da Sociedade, o Sr. Sanson, faz observar que na imagem reproduzida pelo espelho há qualquer coisa de real. Se a imagem não fica no espelho, é que nada a fixa, mas se for projetada sobre uma chapa do daguerreótipo, deixa uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e que não é apenas uma ilusão de óptica).
─ A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de nos dizer se existe alguma analogia com a tabaqueira, isto é, se existe algo de material nessa tabaqueira?
─ Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta semelhante às que o Espírito usava quando vivo. OBSERVAÇÃO: Evidentemente o vocábulo aparência deve aqui ser tomado no sentido de imagem, de imitação. A tabaqueira real lá não estava. A que o Espírito tinha era apenas uma reprodução. Comparada à original, era apenas uma aparência, conquanto formada por um princípio material.
A experiência nos ensina que não devemos tomar ao pé da letra certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as segundo as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos, por isso devemos aprofundar o sentido de suas palavras, sempre que existe uma ambiguidade mínima. Eis uma recomendação feita constantemente pelos Espíritos. Sem a explicação que provocamos, o vocábulo aparência, repetido continuamente em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação.
A imagem do espelho é aqui tomada como uma metáfora. Naquela época, não se conhecia os princípios físicos dessa imagem, crendo-se, em geral, que ela era algo irreal, uma “aparência“. A justa observação do Sr. Sanson demonstra que o reflexo no espelho tem algo de real, pois, se em lugar do espelho, fosse uma chapa fotossensível, como a do daguerreótipo, essa imagem ficaria gravada. Eles não tinham como explicar o fenômeno, por isso utilizavam metáforas. O Espírito de São Luis responde com a exatidão confirmada pela ciência moderna: assim como o reflexo no espelho e a gravação da fotografia agem por efeito da interação com fótons de luz, a aparência que toma o perispírito resulta da interação da vontade do Espírito sobre o elemento tomado do fluido cósmico universal. Isto se conclui na questão n.º 25:
25. ─ Se o Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas e dar a elas uma realidade temporária, com suas propriedades, também pode tirar dali o necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dá a chave do fenômeno da escrita direta. ─ Finalmente o compreendeis.
O propósito deste artigo
Se o leitor nos acompanhou até aqui, entendeu que estamos traçando uma linha de raciocínios bastante clara: é um erro erigir sistemas sobre metáforas. Isso não é científico. Tendo-se colocado de lado a ciência espírita, os modernos espíritas têm formado complexos sistemas de ideias e princípios que, muitas vezes, fixam-se sobre uma frágil vareta fincada na areia. A questão toda é: nós precisamos retomar o Espiritismo como ciência e, antes de demonstrar nossa visão sobre isso, vamos deixar bem claro que, para isso, uma condição é imprescindível: estudar e conhecer o Espiritismo e os princípios dessa ciência (portanto, é lógico, estudar as obras de Allan Kardec), bem como estar compenetrado do assunto que se queira estudar.
O ponto interessante é que temos diversas pessoas plenamente capazes de retomar essa ciência nas áreas que lhes interessam. Temos grandes conhecedores do Espiritismo e das diversas ciências humanas, espalhados mundo afora: físicos, biólogos, filósofos, matemáticos, etc. A diferença está em que, na época de Kardec, as ciências estavam todas interconectadas pela metafísica e que praticamente todos os cientistas conheciam várias áreas da ciência((Sugestão de leitura: Autonomia – A História Jamais Contada do Espiritismo, por Paulo Henrique de Figueiredo)). Além disso, é interessante destacar que o princípio que rege o bom cientista é o desapego ao orgulho. Pode-se ter uma ideia prévia, como Kardec as teve; pode-se questionar respostas que divirjam dessa ideia, defendendo-a, como fez Kardec; porém, frente à evidência inegável do contrário, quando não sobram dúvidas de que a ideia prévia não se sustenta, deve o bom cientista deixar essa ideia de lado, escolhendo ficar com aquilo que atende à razão e à lógica.
É nesse ponto que o bom cientista e a boa ciência experimental divergem dos cientistas sistemáticos, que querem impor à Natureza a adequação às suas próprias ideias, como se isso fosse possível. São esses últimos que, baseando-se em metáforas, distorcidas e retorcidas à sua conveniência, elaboram intrincados sistemas que, não raramente, dominam a humanidade por um tempo expressivo. Vimos isso em várias áreas, e a ciência espírita não escapou desse problema.
Chegamos, enfim, ao ponto crucial deste artigo.
A retomada da ciência espírita
Imbuídos do propósito da retomada do estudo; interessados no restabelecimento da ciência espírita; aderentes ao propósito do abandono ou, ao menos, do questionamento dos sistemas; compenetrados do fato de que Kardec relegou ao futuro a continuidade e a elucidação das questões que ele não pôde tratar senão de maneira metafórica, vamos dar nossa visão sobre o que requer a recuperação da pesquisa espírita do ponto de vista da ciência experimental, detentores da compreensão de que, sim, podemos e devemos evocar espíritos para esse propósito. Basearemos, porém, nossas ideias, no verdadeiro guia do laboratório espírita dado por Allan Kardec: a Revista Espírita.
É muito fácil compreender, com o estudo dos primeiros anos da Revista Espírita, os princípios básicos necessários para a pesquisa científica do Espiritismo. Vamos dividi-los em duas seções: princípios morais e princípios práticos.
Princípios morais
Compromisso pessoal com a moral; desapego das próprias ideias.
Interesse na investigação legítima da verdade
Humildade e espírito de cooperação
Seriedade e responsabilidade na pesquisa
Formação de grupos coesos em ideias e princípios
Princípios práticos
Elaboração de grupos de pesquisa e estudo, onde só participem pessoas verdadeiramente conhecedoras do Espiritismo
Cooperação de médiuns, de preferência psicógrafos, com especial interesse nos psicógrafos mecânicos((Porque o controle dos centros motores necessários à fala é mais difícil e porque às respostas “psicofônicas” são mais difíceis de ser analisadas em sua independência com relação às ideias do próprio médium.)), desapegados de suas próprias personalidades e de seus próprios interesses nesse trabalho.
Organização cuidadosa de estudos, capacidade de analisar e separar o que é metafórico do que é literal nas comunicações
A pesquisa através das evocações
Dotados de princípios legítimos e da vontade de pesquisar, seriamente, determinado tema, os pequenos grupos – que devem operar em âmbito fechado ao público geral – serão dirigidos por um ou mais Espíritos mais elevados, cuja autoridade moral poderá ser facilmente estabelecida se o grupo for realmente compenetrado da ciência espírita. Esse Espírito, que, no caso de Kardec, seria São Luís, é aquele que cuidará de auxiliar na parte espiritual, encaminhando Espíritos comunicantes, complementando ideias, etc.
A pesquisa sobre um determinado tema ou princípio deve seguir, então, os seguintes passos, onde EG é o Espírito guia do grupo:
Ousei resumir em um fluxograma a complexidade das evocações com fins de pesquisa científica, mas é claro que o digrama apenas exemplifica os passos que o próprio Allan Kardec demonstrou tomar, sem demonstrar toda a complexidade por trás disso, no sentido da necessidade de conhecimentos, seriedade, compromisso moral, etc.
O fluxograma é bem simples e autoexplicativo, basta seguir as setas direcionais. Ele demonstra os passos da preparação prévia de questões, da seleção de Espíritos a evocar (porque evocar Espíritos sem um propósito sério dá na mesma que ficar à disposição de qualquer Espírito, e pode ser ainda pior), da verificação da evocabilidade e da utilidade da evocação daquele Espírito em particular, da realização da evocação e da realização das perguntas e do registro das respostas, antes às quais, frente a questionamentos pontuais presentes, poderão ser realizadas novas questões para esclarecimento, ao próprio Espírito ou ao Espírito guia e, enfim, da documentação e da posterior análise das respostas dadas, com a criação de uma “base de dados” do grupo e com a disponibilização, quando pertinente, da evocação e do estudo para outros grupos, que poderão analisá-las e buscar confirmações ou refutações em seus próprios estudos. O médium não faz parte do fluxograma, mas é claro que também tem um papel fundamental, tratado com dedicação na obra O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
É evidente que cada resposta precisará ser analisada com um grande cuidado pelo grupo, considerando a Psicologia e sabendo que os Espíritos, simplesmente por estarem livre do corpo, não ganham plenas luzes instantaneamente – por isso, sempre, a recomendação do estudo da Revisa Espírita, que evidencia o fato de Kardec nunca ter formado sistemas sobre ideias incompletas ou de um só Espírito, o que teria condenado o Espiritismo ao misticismo, logo em seu primeiro ano de estudos.
E o que podemos perguntar? Com seriedade, honestidade e conhecimento do Espiritismo, tudo. Isto é: é claro que, satisfazendo as condições expressas, não iremos realizar uma evocação para pedir a previsão da loteria, nem para fazer o mal, isto é evidente. Mas, por exemplo, poderíamos evocar alguns Espíritos para buscar compreender mais a fundo essas ideias de fluidos, frente ao conhecimento da física moderna. Por que não? Talvez isso possa ser aprofundado ou, quem sabe, recebamos uma resposta do tipo “ainda faltam conhecimentos para que o ser humano possa compreender esses conceitos”.
As falsas ideias
É um erro pensar que os tempos modernos vão atrapalhar esse trabalho, imaginando que a facilidade da comunicação vai “contaminar” as ideias entre os grupos. Os Espíritos não revelam um conhecimento de forma exclusiva, mas, antes, o espalham por toda parte, onde houverem pessoas aptas ao estudo. Se uma falsa ideia for aceita por um grupo e divulgada aos outros, se os outros forem grupos sérios, facilmente a rejeitarão, porque verão os Espíritos demonstrando seu erro. A facilidade de comunicação, antes, vai facilitar esse trabalho, desde que exista a seriedade nos grupos que se comunicam.
Também é falso supor que o pesquisador espírita tenha que ser uma tela em branco. Não! O pesquisador sempre vai partir de uma ou mais hipóteses, que ele precisará testar numa população – no caso, a dos Espíritos. Ele pode ter uma ideia prévia porque, com base nos seus conhecimentos, é para onde lhe aponta a razão, e pode ver essa ideia ser confirmada ou refutada na prática das evocações. Se o pesquisador não tiver apego às suas próprias ideias, isto é, se não houver orgulho, ele as abandonará quando a razão apontar em outra direção, por novos fatos e evidências.
Eis aí, amigos, tudo o que é necessário para a retomada da pesquisa espírita. Ao invés de se apegarem às ideias erigidas sobre metáforas e figuras, arregacemos as mangas e nos coloquemos ao trabalho, que deve começar com o estudo e o entendimento da obra de Kardec, em seu contexto. Muito em breve, cremos, teremos um material ainda mais completo para essa correta compreensão. Sem atropelações, portanto, tomemos o primeiro passo e estudemos((Lembrando que, de acordo com o que nos mostram os fatos, as obras O Céu e o Inferno e A Gênese foram adulterados em suas respectivas 4.ª e 5.ª edições, motivo pelo qual indicamos a leitura das recentes edições da editora FEAL, que trazem na capa o termo “versão original” e com preciosas notas explicativas de Paulo Henrique de Figueiredo e outros)). O que virá disso será a consequência, pois bem sabemos que não estamos abandonados à própria sorte.
As adulterações
Outro fator importante nesse conjunto é a questão das adulterações das obras O Céu e o Inferno, a partir da 4.ª edição, e de A Gênese, a partir da 5.ª edição. Digam o que quiserem aqueles que querem transformar evidências em provas: para nós, a esta altura, não há outra forma de concluir senão pela adulteração dessas obras, posto que elas não condizem, nas edições alteradas, nem sequer com o que Kardec desenvolvia na Revista Espírita, além de introduzem pontos desconexos entre si e que mutuamente se contradizem. Baseados nessas edições, alguns sistemas foram elaborados, sendo um dos mais danosos a ideia do pagamento de dívidas através da encarnação, como um castigo. O restabelecimento das obras originais, sendo especialmente realizado pela Editora FEAL, foi de substancial importância nesse sentido.
A condição principal
Para que o desenvolvimento doutrinário seja retomado, será necessário desapego da personalidade, não só do pesquisador e do médium, mas também do Espírito evocado. A Doutrina demonstra a condição coletiva dos Espíritos e demonstra que, ao evocar, por exemplo, São Luis, outro Espírito pode responder em seu lugar. Para que esse seja um bom Espírito, que represente a mesma ideia, é necessário que o grupo esteja imbuído de tudo aquilo que demonstramos acima, evocando os bons Espíritos e, sob a tutela desses, realizando os estudos com Espíritos que, por ventura, sejam menos elevados. Além disso, para a retomada do Espiritismo, além da necessidade de recuperar a Doutrina “em Kardec”, de forma muito bem compreendida (porque os Espíritos só podem ensinar a partir de princípios verdadeiros), será necessário que isso se espalhe por diversos grupos pelo mundo, para que possa voltar a existir as condições de concordância universal do ensinamento.
Explorando a Teoria do Duplo Material no Mundo dos Espíritos com Allan Kardec
As manifestações espiritas sempre foram um ponto nevrálgico na Doutrina Espirita. Foi através dessas manifestações e sua melhor compreensão que Kardec conseguiu estabelecer a sua filosofia moral. Assim, destacamos esse estudo de 1859 exposto na Revista Espirita de agosto de 1859.
Segue.
Extraímos a passagem seguinte de uma carta que uma correspondente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas nos enviou do departamento do Jura:
“…Como vos disse, senhor, os Espíritos gostavam da nossa velha habitação. Em outubro último (1858), a senhora Condessa de C…, amiga íntima de minha filha, veio com seu filhinho de 8 anos passar uns dias em nossa mansão. A criança dormia no mesmo quarto que sua mãe, e a porta de comunicação para o quarto de minha filha ficava aberta, a fim de prolongar as horas do dia e da conversa. O menino não dormia e dizia à mãe: ‘Que é que a senhora vai fazer com esse homem que está sentado junto à sua cama? Ele está fumando um grande cachimbo. Veja como enche o quarto de fumaça! Mande-o embora, pois está sacudindo as cortinas.’ “Essa visão durou a noite toda. A mãe não conseguiu que a criança se calasse, e ninguém conseguiu fechar os olhos. Esta circunstância não espantou nem a mim, nem à minha filha, pois sabemos que há manifestações espíritas. A mãe, entretanto, acreditava que a criança estivesse sonhando acordada ou se divertindo.
RE 1859
Observação: A visão era mediúnica por isso só a criança via.
“Eis outro fato que testemunhei pessoalmente e que me aconteceu no mesmo aposento, em maio de 1858. É o caso da aparição do Espírito de uma pessoa viva, que ficou muito admirado por ter vindo visitar-me. Eis as circunstâncias: Eu estava muito doente e há tempos não dormia, quando vi, às dez horas da noite, um amigo de minha família sentado junto à minha cama. Manifestei-lhe minha surpresa por sua visita àquela hora. Ele me disse: “Não faleis, pois venho velar-vos; não faleis, pois é preciso que durmais”, e estendeu a mão sobre minha cabeça. Várias vezes abri os olhos para ver se ainda lá estava, e a cada vez ele me fazia sinal para fechá-los e calar-me. Rodava a tabaqueira entre os dedos, e de vez em quando tomava uma pitada, como era seu costume. Por fim adormeci, e quando despertei a visão tinha desaparecido.
Idem
OBSERVAÇÃO: Kardec faz uma breve citação das explicações sobre os fatos de aparições de encarnados e de Espíritos (condensação do perispírito ou modificação molecular).
Ele segue:
Opera-se na sua contextura uma modificação molecular, que o torna visível e mesmo tangível, e que lhe pode dar, até certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos. Sabemos que corpos perfeitamente transparentes se tornam opacos pela simples mudança na posição das moléculas ou pela adição de outro corpo, igualmente transparente. Não sabemos bem como fazem os Espíritos para tornar visível o seu corpo etéreo. A maior parte deles não chega mesmo a se dar conta disso, mas, pelos exemplos que temos citado, compreendemos a sua possibilidade física, o que é bastante para tirar do fenômeno aquilo que, à primeira vista, poderia parecer sobrenatural. Pode, pois, o Espírito fazê-lo, quer por simples modificação íntima, quer assimilando uma porção de fluido estranho que altera momentaneamente o aspecto de seu perispírito. É, na verdade, esta última hipótese que ressalta das explicações que nos têm sido dadas, e que relatamos ao tratar do assunto (maio, junho e dezembro).
Até aqui nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, porém, que se apresentam com roupagens cujo aspecto mudam à vontade; por vezes mesmo têm certos acessórios de toalete, joias, etc. Nas duas aparições citadas no começo, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra, uma tabaqueira e tomava pitadas. Note-se, entretanto, o fato de que este Espírito era de uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que tinha ficado em casa. Que significam, então, essa tabaqueira, esse cachimbo, essas roupas e essas joias? Os objetos materiais que existem na Terra teriam uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos?
OBSERVAÇÃO: Posição do verdadeiro cientista, em busca da verdade, sem nada descartar.
Eis um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma porção de coisas até aqui não explicadas. Foi essa tabaqueira que nos pôs no caminho, não apenas do fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o fenômeno da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos a seguir.
Todas as teorias que apresentamos, relativas ao Espiritismo, nos foram fornecidas pelos Espíritos, que muitas vezes contraditaram as nossas próprias ideias, como aconteceu no caso presente, provando que as respostas não eram reflexo do nosso pensamento. Mas a maneira de se obter uma solução não é coisa sem importância.
Sabemos por experiência própria que não basta pedir bruscamente uma coisa para a obtermos. Nem sempre as respostas são bastante explícitas; é necessário desenvolver o assunto com certas precauções; chegar ao objetivo progressivamente e por um encadeamento de deduções que requerem um trabalho prévio. Em princípio, a maneira de formular as questões, a ordem, o método e a clareza são coisas que não podem ser negligenciadas e que agradam aos Espíritos sérios, porque veem nisso um objetivo sério.
OBSERVAÇÃO: Isto significa que, é claro, o pesquisador pode ter uma ideia prévia, mas que, agindo de boa-fé, não pode se apegar a ela. E também, claro, que a intenção da pergunta é tão importante quanto.
Eis a conversa que tivemos com o Espírito de São Luís, a propósito da tabaqueira, visando a solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível. (Sociedade, 24 de junho de 1859).
1. ─ No relato da senhora R…, trata-se de uma criança que viu perto do leito da mãe um homem fumando um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito tenha podido tomar a aparência de um fumante; parece, entretanto, que fumava realmente, pois o menino via o quarto cheio de fumaça. O que era essa fumaça?
─ Uma aparência produzida para o menino.
2. ─ A senhora R… também cita o caso de uma aparição, vista por ela, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma tabaqueira e tomava rapé. Poderia ele experimentar a sensação que a gente tem ao tomar uma pitada?
─ Não.
3. ─ Essa tabaqueira tinha a forma daquela que ele usa habitualmente, e que estava em sua casa. O que era essa tabaqueira entre as mãos do Espírito?
─ Sempre aparência. Era para que as circunstâncias fossem notadas, como o foram, e para que a aparição não fosse tomada por uma alucinação produzida pelo estado de saúde da vidente. O Espírito queria que essa senhora acreditasse na realidade de sua presença e tomou todas as aparências da realidade.
4.1 ─ Dizeis que é uma aparência, mas uma aparência nada tem de real; é como uma ilusão de óptica. Eu gostaria de saber se essa tabaqueira não era senão uma imagem irreal, como, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.
NOTA de A.K.:Um dos membros da Sociedade, o Sr. Sanson, faz observar que na imagem reproduzida pelo espelho há qualquer coisa de real. Se a imagem não fica no espelho, é que nada a fixa, mas se for projetada sobre uma chapa do daguerreótipo, deixa uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e que não é apenas uma ilusão de óptica.
4.2 – A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de nos dizer se existe alguma analogia com a tabaqueira, isto é, se existe algo de material nessa tabaqueira?
─ Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta semelhante às que o Espírito usava quando vivo.
NOTA de A.K.: Evidentemente o vocábulo aparência deve aqui ser tomado no sentido de imagem, de imitação. A tabaqueira real lá não estava. A que o Espírito tinha era apenas uma reprodução. Comparada à original, era apenas uma aparência, conquanto formada por um princípio material. A experiência nos ensina que não devemos tomar ao pé da letra certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as segundo as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos, por isso devemos aprofundar o sentido de suas palavras, sempre que existe uma ambiguidade mínima. Eis uma recomendação feita constantemente pelos Espíritos. Sem a explicação que provocamos, o vocábulo aparência, repetido continuamente em casos análogos, poderia dar lugar a uma falsa interpretação.
OBSERVAÇÃO: Sabemos, hoje, o princípio da imagem refletida em um espelho e sua fixação em uma fotografia: o comportamento de ondas. A luz, como energia eletromagnética, reflete no espelho e impressiona o dispositivo de fotografia, seja ele qual for. Parece que é a esse mesmo princípio (de onda) que o Espírito se refere.
5. ─ Haveria um desdobramento da matéria inerte? Haveria, no mundo invisível, uma matéria essencial, revestindo a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, esses objetos teriam o seu duplo etéreo no mundo invisível, como os homens aí são representados em Espírito?
NOTA de A.K.: Eis uma teoria como qualquer outra, e que era pensamento nosso. O Espírito, no entanto, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque sua explicação nos pareceu muito lógica e porque ela repousa sobre um princípio mais geral, do qual encontramos muitas explicações. ─ Isto não se passa dessa maneira. O Espírito tem sobre os elementos materiais disseminados em todo o espaço, na nossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à vontade, concentrar esses elementos e lhes dar uma forma aparente, adequada a seus projetos.
6. ─ Faço novamente a pergunta de maneira categórica, a fim de evitar qualquer equívoco. As roupas com que se cobrem os Espíritos são alguma coisa?
─ Parece que a minha resposta anterior resolve a questão. Não sabeis que o próprio perispírito é alguma coisa?
7. ─ Resulta desta explicação que os Espíritos fazem a matéria eterizada sofrer transformações à sua vontade e que, assim, no caso da tabaqueira, o Espírito não a encontrou perfeitamente acabada; ele mesmo a fez no momento em que dela necessitava, e depois a desfez. O mesmo deve acontecer com todos os outros objetos, tais como vestimentas, joias, etc.
─ Mas é evidente.
8. ─ Essa tabaqueira foi tão perfeitamente visível para a senhora R… a ponto de iludi-la. Poderia o Espírito tê-la tornado tangível?
─ Poderia.
9. ─ Nesse caso, a senhora R… poderia tê-la tomado nas mãos, julgando pegar uma autêntica tabaqueira?
─ Sim.
10. ─ Se a tivesse aberto teria provavelmente encontrado rapé. Se o tivesse tomado, ele a teria feito espirrar?
─ Sim.
11. ─ Pode então o Espírito dar não somente a forma, mas até propriedades especiais?
─ Se o quiser; é em virtude deste princípio que respondi afirmativamente às questões precedentes. Tereis provas da poderosa ação que o Espírito exerce sobre a matéria e que, como já vos disse, estais longe de suspeitar.
OBSERVAÇÃO: Kardec nunca foi tão claro em suas indagações no transcorrer desse 1 ano e meio de Revista Espirita. Evidentemente ele está elaborando tanto a nova edição aumentada de O livro dos Espiritos e depois o que seria O Livro dos Mediuns, publicado alguns anos depois.
12. ─ Suponhamos então que ele tivesse querido fazer uma substância venenosa e que uma pessoa a tivesse tomado. Esta teria sido envenenada?
─ Poderia, mas não teria feito, porque não teria tido permissão para fazê-lo.
OBSERVAÇÃO: Sabemos, hoje, que a Criação está longe de ser um “cada um por si”, e que, na verdade, é um “um por todos e todos por um”, sendo que aqueles mais inferiores são sempre “conduzidos” pelos mais elevados. Os pensamentos do espíritos mais elevados serem irresistíveis aos menos elevados. Tendemos a nos julgar abandonados à própria sorte, mas, cada vez mais, entendo que isso não é verdade. Os Espíritos superiores nos “conduzem” para o bem, isto é, oferecem uma atração irresistível, através do pensamento. É possível compreender o motivo de os Espíritos imperfeitos, inclinados ao mal, não conseguirem romperem essa Lei para fazer o mal.
“Tudo se encadeia no Universo”
13. ─ Teria podido fazer uma substância salutar e própria para curar, em caso de moléstias? Já houve esse caso?
─ Sim; muitas vezes.
14. ─ Assim também poderia ele fazer uma substância alimentar; suponhamos que tivesse feito um fruto ou um petisco qualquer. Poderia alguém comê-lo e sentir-se alimentado? ─ Sim, sim. Mas não procureis tanto para encontrar aquilo que é fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço em cujo meio viveis. Não sabeis que o ar contém vapor d’água? Condensai-o e o levareis ao estado normal. Privai-o do calor e eis que suas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão corpo sólido e muito sólido. Outras matérias existem que levarão os químicos a vos apresentar maravilhas ainda mais assombrosas. Só o Espírito possui instrumentos mais perfeitos que os vossos: a sua própria vontade e a permissão de Deus.
OBSERVAÇÃO de A.K.: A questão da saciedade é aqui muito importante. Como uma substância que tem apenas existência e propriedades temporárias e, de certo modo, convencionais, pode produzir a saciedade? Por seu contato com o estômago, essa substância produz a sensação de saciedade, mas não a saciedade resultante da plenitude. Se tal substância pode agir sobre a economia orgânica e modificar um estado mórbido, também pode agir sobre o estômago e produzir a sensação da saciedade. Contudo, pedimos aos senhores farmacêuticos e donos de restaurantes que não tenham ciúmes, nem pensem que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros e excepcionais e jamais dependem da vontade. Do contrário, a alimentação e a cura seriam muito baratas.
15. ─ Do mesmo modo poderia o Espírito fabricar moedas?
─ Pela mesma razão.
16. ─ Desde que tornados tangíveis pela vontade do Espírito, poderiam esses objetos ter um caráter de permanência e de estabilidade?
─ Poderiam, mas isto não se faz. Está fora das leis.
17. ─ Todos os Espíritos têm esse mesmo grau de poder?
─ Não, não.
18. ─ Quais os que têm mais particularmente esse poder?─ Aqueles a quem Deus o concede, quando isto é útil.
19. ─ A elevação de um Espírito influi nesse caso?
─ É certo que quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder. Isto, porém, depende das circunstâncias. Espíritos inferiores também podem obtê-lo.
20. ─ A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou por vezes ele exerce esse poder malgrado seu?
─ Isso frequentemente acontece malgrado seu.
21. ─ Seria então esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma das propriedades, como a de ver e ouvir?─ Certamente. Mas por vezes ele mesmo o ignora. Então outro o exerce por ele, malgrado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem chistosa
OBSERVAÇÃO: Encontramos um exemplo dessa faculdade em certos animais, como, por exemplo, no peixe-elétrico, que irradia eletricidade sem saber o que faz, nem como, e que nem ao menos conhece o mecanismo que a produz. Nós mesmos por vezes não produzimos certos efeitos por atos espontâneos dos quais não nos damos conta? Assim, pois, parece-nos muito natural que o Espírito opere nessa circunstância por uma espécie de instinto. Ele opera por sua vontade, sem saber como, assim como nós andamos sem calcular as forças que colocamos em jogo.
22. ─ Compreendemos que nos dois casos citados pela Senhora R.., um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma tabaqueira para impressionar a visão de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se caso não tivesse chegado a fazê-la ver, poderia o Espírito pensar que tinha esses objetos, criando para si mesmo uma ilusão?
─ Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque terá perfeita consciência de sua condição. Já o mesmo não se dá com os Espíritos inferiores.
OBSERVAÇÃO de A. K. : Esse era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação consta do nosso número de março de 1858, que ainda se julgava coberta de diamantes. (Clique aqui para o artigo sobre Rainha de Oude)
23. ─ Dois Espíritos podem reconhecer-se mutuamente pela aparência material que tinham em vida?
─ Não é por esse meio que eles se reconhecem, pois não tomarão essa aparência um para o outro. Se, porém, em certas circunstâncias, se acham em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?
OBSERVAÇÃO: sto aqui é importante! Nos romances mediúnicos, o mundo fantástico criado é todo material ou materialista, e a forma, nesses contos, é fundamental. Aqui, temos novamente a confirmação já feita antes que a forma não é importante para os Espíritos em geral, embora seja predominante para os Espíritos ainda muito presos à matéria (ou seja, de pensamento muito apegado). Decorre daí que faria sentido um Espírito em perturbação “se ver” numa condição como aquela do umbral de André Luiz, mas o mesmo não poderia se dar quando já desapegado dessas ideias, o que não parece ser algo tão distante, conforme o relato de vários Espíritos, dados a Kardec.
24. ─ Como podem os Espíritos reconhecer-se no meio da multidão de outros Espíritos, e sobretudo como podem fazê-lo quando um deles vai procurar em lugar distante e muitas vezes em outros mundos, aqueles que chamamos?
─ Isto é uma pergunta cuja resposta levaria muito longe. É necessário esperar.Não estais suficientemente adiantados. No momento contentai-vos com a certeza de que assim é, pois disso tendes provas suficientes.
PARA PENSAR: Entendo que ele quis dizer, ao final: “como um Espírito pode reconhecer o outro que assume outra aparência, ao visitar outros mundos?”. SE bem que nós sempre esquecemos que nosso mundo, onde vivemos agora, é material e precisa de olhos e luz para ver. na espiritualidade não tem necessidade de aparencia muito menos os espíritos tem olhos para ver. Será que é isso?
25. ─ Se o Espírito pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas e dar a elas uma realidade temporária, com suas propriedades, também pode tirar dali o necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dá a chave do fenômeno da (( escrita direta *Esclarecimento: A escrita direta acontece quando um Espírito, pela vontade e com a utilidade em fazê-lo, faz aparecer, sobre um papel, uma escrita real, ora em grafite, ora em tinta, ora em formato de impressão. Recomendamos a leitura do artigo seguinte, “Pneumatografia ou escrita direta”, assim como do artigo de mesmo título, em maio de 1860, e também do Capítulo XII de O Livro dos Médiuns — “Da pneumatografia ou escrita direta”. Pneuma: entre os antigos pensadores gregos, sobretudo os estoicos, designativo do espírito, sopro animador ou força criadora, usada pela razão divina para vivificar e dirigir todas as coisas. )) .
─ Finalmente o compreendeis.
26. ─ Se a matéria de que se serve o Espírito não é permanente, como não desaparecem os traços da escrita direta?
─ Não julgueis pelas palavras. Desde o início eu nunca disse jamais. Nos casos estudados, tratava-se de objetos materiais volumosos; aqui se trata de sinais que convém conservar e são conservados.
PARA PENSAR: Isto aqui envolve uma questão profunda. Kardec havia entendido que a matéria fluídica de que servem os Espíritos é sempre impermanente, posto que, nos casos citados, ela sempre se desfaz. Contudo, os casos de escrita direta não se desfazem. Como poderia ser isso?
*Esclarecimento: A escrita direta acontece quando um Espírito, pela vontade e com a utilidade em fazê-lo, faz aparecer, sobre um papel, uma escrita real, ora em grafite, ora em tinta, ora em formato de impressão. Recomendamos a leitura do artigo seguinte, “Pneumatografia ou escrita direta”, assim como do artigo de mesmo título, em maio de 1860, e também do Capítulo XII de O Livro dos Médiuns — “Da pneumatografia ou escrita direta”. Pneuma: entre os antigos pensadores gregos, sobretudo os estoicos, designativo do espírito, sopro animador ou força criadora, usada pela razão divina para vivificar e dirigir todas as coisas.
A teoria acima pode resumir-se assim: O Espírito age sobre a matéria; tira da matéria primitiva universal os elementos necessários para, à vontade, formar objetos com a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Também pode operar sobre a matéria elementar, por sua vontade, uma transformação íntima que lhe dá determinadas propriedades. Essa faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce, quando necessário, como um ato instintivo, que não chega a perceber.
Os objetos formados pelos Espíritos têm uma existência temporária, subordinada à sua vontade ou à necessidade. Ele pode fazê-los e desfazê-los à vontade. Em certos casos, aos olhos das pessoas vivas, esses objetos podem ter todas as aparências da realidade, isto é, tornar-se momentaneamente visíveis e até tangíveis. Há formação, mas não criação, visto que o Espírito nada pode tirar do nada. ( LM 130 e 131)
Após a evocação do Zuavo de Magenta, Kardec faz evocação de outro oficial da mesma batalha. Neste caso ele era um conhecido deles, como podemos observar na questão numero 4,
1. ─ (Evocação).
─ Eis-me aqui.
2. ─ Poderíeis dizer como atendestes tão prontamente ao nosso apelo?
─ Eu estava prevenido do vosso desejo.
3. ─ Por quem fostes prevenido?
─ Por um emissário de Luís.
4. ─ Tínheis conhecimento da existência de nossa sociedade?
─ Vós o sabeis.
NOTA DE A.K.: O oficial em questão tinha realmente ajudado a sociedade a ser registrada.
5. ─ Sob que ponto de vista consideráveis a nossa sociedade, quando ajudastes na sua formação?
─ Eu não estava ainda inteiramente decidido, mas me inclinava muito a crer. Sem os acontecimentos que sobrevieram, certamente teria ido instruir-me no vosso círculo.
6. ─ Há muitas grandes notabilidades que comungam as ideias espíritas, mas não o confessam de público. Seria desejável que pessoas influentes arvorassem abertamente essa bandeira?
─ Paciência. Deus o quer, e desta vez a expressão corresponde à verdade.
7. ─ De que classe influente da sociedade pensais que deverá partir o exemplo?─ De todas as classes. Inicialmente de algumas, depois de todas.
8. ─ Do ponto de vista do estudo, poderíeis dizer-nos, embora morto mais ou menos na mesma época em que foi morto o zuavo que há pouco aqui esteve, se vossas ideias são mais lúcidas do que as dele?
─ Muito. Aquilo que ele vos pôde dizer testemunhando uma certa elevação foi-lhe soprado. Ele é muito bom, mas muito ignorante, e um pouco leviano.
9. Ainda vos interessais pelo sucesso das nossas armas?
─ Muito mais do que nunca, pois hoje conheço o objetivo.
10. ─ Podeis definir o vosso pensamento? O objetivo sempre foi confessado publicamente e, sobretudo em vossa posição, deveríeis conhecê-lo?
─ O objetivo estabelecido por Deus, vós o conheceis?
NOTA DE A.K. : Ninguém ignorará a gravidade e a profundidade desta resposta. Quando vivo, ele conhecia o objetivo dos homens, como Espírito, vê o que há de providencial nos acontecimentos.
11. ─ De um modo geral, que pensais da guerra?
─ Meu desejo é que progridais rapidamente, para que ela se torne tão impossível quanto inútil.
12. ─ Credes que chegará o dia em que ela será impossível e inútil?
─ Penso que sim, e não duvido. Posso dizer-vos que esse momento não está tão longe quanto pensais, embora não vos dê a esperança de que o vejais.
13. ─ No momento da morte vos reconhecestes imediatamente?
─ Reconheci-me quase que imediatamente, graças às vagas noções que tinha do Espiritismo.
14. ─ Podeis dizer algo a respeito do Sr… também morto na última batalha?
─ Ele ainda está nas redes da matéria. Tem mais trabalho em se desvencilhar. Seus pensamentos não se tinham voltado para este lado.
NOTA de A.K.: Assim, o conhecimento do Espiritismo em vida auxilia no desprendimento da alma após a morte e abrevia o período de perturbação que acompanha a separação. Isto é compreensível, pois o Espírito conhecia antecipadamente o mundo em que se encontra.
Para Pensar: Se esse conhecimento é tão importante, como conceber que justamente no momento em que o Espiritismo era estudado cientificamente, no melhor momento possível, nada foi falado a respeito dessa materialidade que hoje domina as comunicações?
15. ─ Assististes à entrada de nossas tropas em Milão?
─ Sim, e com alegria. Fiquei encantado com a ovação que acolheu as nossas tropas, a princípio por patriotismo, depois, pelo futuro que as aguarda.
16. ─ Como Espírito podeis exercer alguma influência sobre os planos estratégicos?
─ Credes que isto não tenha sido feito desde o princípio e tendes dificuldades de imaginar por quem?
17. ─ Como foi que os austríacos abandonaram tão rapidamente uma praça forte como Pavia?
─ Por medo.
OBSERVAÇÃO: A Sardenha buscava expandir seu território e estabelecer uma posição mais forte no cenário político europeu, enquanto a França via a guerra como uma oportunidade para aumentar sua influência na Itália e consolidar sua posição como potência europeia. Por sua vez, o Império Austríaco buscava manter sua posição dominante na região e evitar a fragmentação de seu império.
18. ─ Então estão desmoralizados?
─ Completamente. Ademais, se agimos sobre os nossos num sentido, deveis pensar que sobre eles age uma influência de outra natureza.
NOTA de A.K.: Aqui a intervenção dos Espíritos nos acontecimentos é inequívoca. Eles preparam as vias para a realização dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que era obra dos Deuses. Nós dizemos que é obra dos Espíritos, por ordem de Deus.
19. ─ Podeis dar a vossa opinião sobre o General Giulay como militar, pondo de lado qualquer sentimento nacionalista?
─ Pobre, pobre general!
OBSERVAÇÃO: Ferenc Gyulai de Marosnémeti et Nádaska (Peste, 1 de setembro de 1799 — Viena, 1 de setembro de 1868) foi um general húngaro exército austro-húngaro. Em 1849 foi nomeado ministro da Guerra pelo imperador Francisco José I, porém permaneceria no cargo somente um ano. Como militar se destacou por sua participação na invasão do Piemonte durante a Reunificação da Itália. Comandando suas tropas atravessou o rio Ticino em 29 de abril de 1859, invadindo o território piemontês. Nesta invasão sofreu duas duras derrotas: na Batalha de Montebello e na Batalha de Magenta, perdendo em ambas milhares de homens e pendendo a guerra a favor do lado italiano. Depois da derrota em Magenta foi destituído de seu cargo, retornando à Áustria-Hungria, onde morreu nove anos mais tarde.
20. ─ Voltaríeis com prazer se vos pedíssemos?
─ Estou à vossa disposição e prometo vir, mesmo sem o vosso chamado. Deveis acreditar que a simpatia que tinha por vós não pode senão aumentar. Adeus.
Materialidade de além-túmulo: o Zuavo de Magenta
Apresentamos na ultima LIVE uma das Conversas Além Túmulo da Revista Espírita de 1859, tratando do tema Materialidade de além-túmulo.
Desta vez, eles conversam com um soldado morto em batalha.
O governo permitiu que os jornais apolíticos dessem notícias da guerra*. Como, porém, são abundantes os relatos sob todas as formas, seria inútil repeti-los aqui. A maior novidade para os nossos leitores é uma história vinda do outro mundo.
Embora não seja extraída da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menos interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo que daí pudéssemos extrair alguma instrução útil. Semelhantes temas de estudo, e principalmente de atualidade, não se apresentam a cada passo. Não conhecendo pessoalmente nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos que nos assistem que nos enviassem alguém. Chegamos a pensar que a presença de um estranho seria preferível à de amigos ou de parentes dominados pela emoção. Dada uma resposta afirmativa, obtivemos as seguintes comunicações.
RE 1859 O Zuavo de Magenta
Isso se passou na Segunda Guerra Italiana de Independência. A guerra ocorreu em 1859, e foi travada entre o Reino da Sardenha, liderado por Camillo di Cavour, e a França, liderada pelo Imperador Napoleão III, contra o Império Austríaco. Exporemos alguns trechos dessa longa conversa além túmulo.
1. ─ Rogamos a Deus Todo Poderoso permita ao Espírito de um militar morto na batalha de Magenta vir comunicar-se conosco.
─ Que quereis saber?
2. ─ Onde vos encontráveis quando vos chamamos?
─ Não saberia dizer.
3. ─ Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco?
─ Alguém mais sagaz do que eu.
4. ─ Quando em vida duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?
─ Oh! Isso não.
5. ─ Que sensação experimentais por estardes aqui?
─ Isto me causa prazer. Segundo me dizem, tendes grandes coisas a fazer.
6. ─ A que corpo do exército pertencíeis? (Alguém diz a meia-voz: Pela linguagem parece um “zuzu”)
─ Ah! Bem o dizes!
7. ─ Qual era o vosso posto?
─ O de todo o mundo.
8. ─ Como vos chamáveis?
─ Joseph Midard.
9. ─ Como morrestes?
─ Quereis saber tudo sem pagar nada?
10. ─ Ainda bem que não perdestes a jovialidade. Dizei, dizei; nós pagaremos depois. Como morrestes?
─ De uma ameixa [projétil] que recebi.
11. ─ Ficastes contrariado com a morte?
─ Palavra que não! Estou bem, aqui.
12. ─ No momento da morte percebestes o que houve?
─ Não. Eu estava tão atordoado que não podia acreditar.[nota a seguir]
NOTA de A. K.: Isto está de acordo com o que temos observado nos casos de morte violenta. Não se dando conta imediatamente da sua situação, o Espírito não se julga morto. Este fenômeno se explica muito facilmente. É análogo ao dos sonâmbulos, que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo, a ideia de sono é sinônima de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme. Só mais tarde se convence, quando familiarizado com o sentido ligado a esse vocábulo. Dá-se o mesmo com um Espírito surpreendido por uma morte súbita, quando nada está preparado para a separação do corpo. Para ele, a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que ele vive, sente e pensa, entende que não está morto. É preciso algum tempo para reconhecer-se.
13. ─ No momento de vossa morte, a batalha não havia terminado. Seguistes as suas peripécias?
─ Sim, pois como vos disse, não me julgava morto. Eu queria continuar batendo nos outros cães.
14. ─ Que sensação experimentastes então?
─ Eu estava encantado, pois me sentia muito leve.
15. ─ Víeis os Espíritos dos vossos camaradas deixando os corpos?
─ Eu nem pensava nisso, pois não me acreditava morto.
16. ─ Em que se transformava, nesse momento, a multidão de Espíritos que perdia a vida no tumulto da batalha?─ Creio que faziam o mesmo que eu
17. ─ Encontrando-se reunidos nesse mundo dos Espíritos, que pensavam aqueles que se batiam mais encarniçadamente? Ainda se atiravam uns contra os outros?
─ Sim. Durante algum tempo, e conforme o seu caráter.
18. ─ Reconhecei-vos melhor agora?
─ Sem isto não me teriam mandado aqui.
19. ─ Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos de soldados mortos há muito tempo ainda se encontravam alguns interessados no resultado da batalha? (Rogamos a São Luís que o ajudasse nas respostas, a fim de que, para nossa instrução, fossem tão explícitas quanto possível).─ Em grande quantidade. É bom que saibais que esses combates e suas consequências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se envolveriam em crimes, como fizeram, se a isto não tivessem sido compelidos em razão das consequências futuras, que não tardareis a conhecer.
20. ─ Deveria haver ali Espíritos que se interessavam no sucesso dos austríacos. Haveria então dois campos de batalha entre eles?
─ Evidentemente.
OBSERVAÇÃO: Não parece que estamos vendo aqui os deuses de Homero tomando partido, uns pelos Gregos, outros pelos Troianos? Na verdade, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindade? Não temos razão quando dizemos que o Espiritismo é uma luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas?
21. ─ Eles exerciam alguma influência sobre os combatentes?
─ Muito considerável.
22. ─ Podeis descrever-nos de que maneira eles exerciam tal influência?
─ Da mesma maneira que todas as influências dos Espíritos se exercem sobre os homens. [pelo pensamento]
OBSERVAÇÃO: É fato, como fica cada vez mais constatado, que a mentalidade do Espírito cria cenários de matéria fluídica ao seu redor. Outra coisa também pode ser possível: eles continuam no campo de batalha terreno, provavelmente com algumas “adições fluídicas”. Tudo isso deve ser indistinguível, de início, quando no estado de perturbação. Contudo, não é regra, ou seja, não constitui uma verdade geral para todo soldado, morto em guerra (vide O Tambor de Beresina, RE, julho de 1858). O erro, sempre, é tomar as palavras de Espíritos quaisquer sem analisar o seu fundo, principalmente quando o Espírito está em perturbação pós-morte ou é pouco esclarecido, o que se denota de suas próprias ideias. Eis o longo trabalho de Psicologia Experimental de Kardec!
23. ─ Que esperais fazer agora?
─ Estudar mais do que o fiz em minha última etapa.
24. ─ Ides voltar como espectador aos combates que ainda serão travados?
─ Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, espero de vez em quando dar uma fugida, para me divertir com as surras subsequentes.
25. ─ Que gênero de afeição vos retém ainda?
─ Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.
26. ─ Peço que me desculpeis o mau pensamento que me atravessou o espírito, relativamente à afeição que o retém.
─ Não tem importância. Digo bobagens para vos fazer rir um pouco. É natural que não me tomeis por grande coisa, tendo em vista o regimento medíocre a que pertenci. Ficai tranquilos, eu só me engajei por causa dessa pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.
27. ─ Quando vos encontráveis entre os Espíritos, ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?
─ A princípio eu a perdi de vista, mas depois de algum tempo via muito melhor, porque percebia todas as artimanhas. [está falando no sentido dos pensamentos]
28. ─ Pergunto se escutáveis o troar do canhão.
─ Sim.
29. ─ No momento da ação, pensáveis na morte e naquilo em que vos tornaríeis, caso fosseis morto?
─ Eu pensava no que seria de minha mãe.
30. ─ Era a primeira vez que entráveis em fogo?
─ Não, não. E a África?
31. ─ Vistes a entrada dos franceses em Milão?
─ Não.
32. ─ Aqui sois o único dos que morreram na Itália?
─ Sim.
33. ─ Pensais que a guerra durará muito tempo?
─ Não. É fácil e por isso mesmo pouco meritório fazer tal predição.
34. ─ Quando vedes, entre os Espíritos, um dos vossos chefes, ainda o reconheceis como vosso superior?
─ Se ele o for, sim; se não, não. [nota a seguir]
NOTAde A. K. : Na sua simplicidade e no seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita, a superioridade moral é a única reconhecida. Quem não a teve na Terra, fosse qual fosse a sua posição, não tem, de fato, superioridade nenhuma. Lá o chefe pode estar abaixo do soldado e o patrão abaixo do servidor. Que lição para o nosso orgulho!
35. ─ Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?
─ Quem não pensaria nisso? Felizmente não tenho muito o que temer. Eu resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, as poucas leviandades que cometi como “zuzu”, como dizeis.
36. ─ Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos companheiros e desviar dele um golpe fatal?
─ Não. Não podemos fazer isso. A hora da morte é marcada por Deus. Se tem que acontecer, nada o impedirá, do mesmo modo ninguém poderá atingi-la se sua hora não tiver soado.
37. ─ Vedes o General Espinasse?
─ Não o vi ainda. Mas espero vê-lo em breve.
SEGUNDA CONVERSA
(17 DE JUNHO DE 1859)
38. (Evocação).
─ Presente! Firme! Em frente!
39. ─ Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito dias?
─ Como não?!
40. ─ Disseste-nos que ainda não tínheis visto o General Espinasse. Como poderíeis reconhecê-lo, já que ele não levou consigo seu uniforme de general?─ Não, mas eu o conheço de vista. Ademais, não temos uma porção de amigos junto a nós, prontos a nos revelar a senha? Aqui não é como no quartel. A gente não tem medo de dar um encontrão com alguém, e eu vos garanto que só os velhacos ficam sozinhos.
41. ─ Sob que aparência aqui vos encontrais?
─ Zuavo.
42. ─ Se vos pudéssemos ver, como o veríamos?
─ De turbante e culote.
43. ─ Pois bem! Suponhamos que nos aparecêsseis de turbante e culote. Onde teríeis arranjado essas roupas, desde que deixastes as vossas no campo de batalha?
─ Ora, ora! Não sei como é isto, mas tenho um alfaiate que me as arranja.
44. ─ De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes ideia?
─ Não. Isto é lá com o trapeiro.
NOTA de A. K. : Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, foram completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos notícias disso no próximo número. Nosso bom zuavo não é suficientemente adiantado para resolver sozinho. Foi-nos preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.
45. ─ Sabeis a razão pela qual nos vedes, ao passo que nós não vos podemos ver?
─ Acredito que vossos óculos estão muito fracos.
46. ─ Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme?
─ Sim, mas ele não o veste todos os dias.
47. ─ Em que dias o veste?
─ Ora essa! Quando o chamam ao palácio.
48. ─ Por que estais aqui vestido de zuavo se não vos podemos ver?─ Simplesmente porque ainda sou zuavo, mesmo depois de cerca de oito anos, e porque entre os Espíritos conservamos essa forma durante muito tempo. Mas isso apenas entre nós. Compreendeis que quando vamos a um mundo muito diferente, como a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer essa toalete toda.
OBSERVAÇÂO: Isso aqui é muito interessante. O que eu entendo é que ele está se referindo ao fato de Espírito adotar uma forma perispiritual de acordo com o mundo onde vão e de acordo com a existência de uma personalidade nesse mundo, sem nem perceberem. Se tivesse vivido em um mundo distante como, por exemplo, um vendedor de animais, ao ser lá evocado, se apresentaria dessa forma.
49. ─ Falais da Lua e de Júpiter. Porventura já lá estivestes depois de morto?
─ Não. Não estais me entendendo. Depois da morte nos informamos de muitas coisas. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte, o Espírito sofre uma metamorfose que não podeis compreender.
50. ─ Revistes o corpo deixado no campo de batalha?
─ Sim. Ele não está bonito.
51. ─ Que impressão vos deixou essa vista?
─ De tristeza.
52. ─ Tendes conhecimento de vossa existência anterior?
─ Sim, mas não é suficientemente gloriosa para que possa me pavonear.
53. ─ Dizei-nos apenas o gênero de vida que tínheis.
─ Simples mercador de peles de animais selvagens.
54. ─ Nós vos agradecemos a bondade de ter vindo pela segunda vez.
─ Até breve. Isto me diverte e me instrui. Já que sou bem tolerado aqui, voltarei de boa vontade.
OBSERVAÇÂO: A tolerância é uma das consequências da caridade. O zuavo se sentiu “acolhido” na comunicação.
A próxima publicação trará a evocação do oficial superior que estava na mesma batalha que este zuavo.
Nossa posição final sobre as adulterações nas obras de Kardec
Estamos aqui apenas para deixar registrada nossa posição final sobre o assunto das adulterações nas obras de Kardec, sobre o qual não mais se discute, a não ser ante a evidências inquestionáveis ou provas irrefutáveis, coisa que nem o “CSI do Espiritismo” produziu. Apresentamos, sucintamente, os seguintes pontos:
A questão legal: O Depósito Legal de A Gênese foi realizado apenas em 1872, cerca de três anos após a morte de Kardec; o DL de O Céu e o Inferno, foi realizado cerca de três meses após sua morte. Isto já é fato legal suficiente para configurar crime a distribuição das obras alteradas, publicadas após o fatídico evento, e sobre isto não há discussão, nem, até hoje, nenhuma prova de que Kardec tenha realizado o processo legal, necessário para tal.
Esse ponto é importante, porque, ainda que tudo o que esteja ali publicado seja mesmo da mão de Kardec — o que implicaria no fato de ele ter voltado atrás de suas palavras, removido princípios e formado obras desconexas em si e entre si — ainda que tudo o que está ali seja das mãos de Kardec, ainda assim não podemos ter nem sequer a certeza de que ele desejaria que tudo aquilo fosse publicado, pela mera dúvida possível de que aquelas edições poderiam não estar finalizadas. É isso o que garante o direito autoral.
Mais que isso: legalmente, não importa se foram encontradas cartas (uma carta) em que Kardec mencionava a produção dessas novas edições. Se não houve o Depósito Legal da obra, pelas mãos de Allan Kardec, está configurado o crime contra a lei vigente à época e, do fato de o DL ser posterior à sua época, está configurado o crime contra o direito autoral.
Ainda que evidências apontem que Kardec estava finalizando ou mesmo que teria finalizado essas edições, nada prova que as edições impressas não tenham sido adulteradas. Resta dúvida, além do indiscutível fato legal.
Além disso, restam os fatos constatados pela razão, já discutidos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Portanto, repetindo sempre a nossa vontade de nos permanecer resguardado contra o erro, preferimos seguir o conselho de Erasto, dispensando dez verdades para não ser possível ficar com uma só mentira, um só engano. Há dúvida e, se há dúvida, a razão nos manda ficar com as obras originais, republicadas pela Editora FEAL, onde não apenas temos certeza de que todas as vírgulas vêm das mãos de Kardec, como também onde, pelo estudo, percebemos que as conexões intrínsecas das obras em si e entre si estão intactas e atendem à razão.
Assim, declaramos encerrado o assunto, tornando essa decisão parte de nossos princípios, não fazendo dele palco de discussões vazias, até que provas irrecusáveis venham a ser apresentadas. Até lá, ficamos com o que a nossa razão nos manda, por nossa livre vontade, respeitando quem, pela sua razão, chegue a outra conclusão, por mais estranho que isso nos pareça.
O Grupo.
Nossa posição final sobre as colônias espirituais e o umbral
Este artigo é bem sucinto e serve apenas para destacar nossa posição final, como grupo, sobre a questão das colônias espirituais, sobre a qual muitos insistem em dedicar tempo precioso em debates sem fim. Sendo sucinto, não dedicaremos tempo em longas explicações ou citações de Kardec, posto que o que falamos, aqui, está baseado no Espiritismo, do ponto de vista científico — o que quase absolutamente se encerrou com a morte de Kardec. Assim, que cada um tome, ou não, a decisão de estudar e raciocinar.
Adianto que este artigo não é para aquele que acredita já saber de tudo e que prefere seguir o que os outros dizem, mas sim para aqueles que buscam raciocinarem por si mesmos, com base em conhecimento cientificamente produzido.
Os estudos de Allan Kardec
São fartas, nas obras do dedicado cientista, obtidas das comunicações dos Espíritos, passadas pelo método do duplo controle — generalidade dos ensinamentos, submetidos ao crivo da razão — as assertivas sobre a materialidade do mundo espiritual. Não é demais asseverar que não foram ideias que nasceram de sua cabeça, mas muito pelo contrário: nasceram da observação dos próprios Espíritos, milhares deles, por milhares de médiuns, espalhados pelo mundo. Muitas vezes, os próprios Espíritos demonstraram o erro das hipóteses que Kardec considerava.
O Livro dos Espíritos dá o princípio geral, que se confirma na Revista Espírita e que se conclui em A Gênese, após mais de uma década de estudos. Resumimos:
O Espírito pouco evoluído não se desprende fácil das ideias da matéria. Muitas vezes, nem percebe que o corpo morreu. Como, pelo pensamento, é capaz de manipular a matéria fluídica, condensa, assim, sem nem o perceber, suas próprias criações, que, contudo, são efêmeras, isto é, passageiras, e que duram apenas enquanto seu pensamento esteja sobre elas.
Juntos, Espíritos afins criam verdadeiros cenários, ora mais alegres, ora verdadeiramente infernais.
Os cenários, individuais ou coletivos, refletem as crenças e os atavismos desses Espíritos, apegados às ideias materiais. É justamente por isso, o que é fácil perceber, que os Espíritos infelizes, através do tempo, transmitiram ideias que refletiram essas ideias: o inferno, o purgatório, o nada, os profundos vales, a caverna escura, etc. Por outro lado, é muito fácil perceber que os Espíritos mais felizes transmitem as ideias em sentido figurado, referindo-se ao sétimo céu, à cidade das flores, ao banquete espiritual, etc.
Os Espíritos infelizes externalizam suas dores morais e seus vícios, mas é justamente por não poder atender a esses últimos que sofrem, como um “castigo”.
Até onde a Doutrina se desenvolveu como ciência, isso está bem estabelecido. Depois dela, nasceram e se fortaleceram ideias de um materialismo absoluto no mundo dos Espíritos, onde até banheiro se usa e sopa se come. Um mundo fantástico foi formado pelos espíritas e adeptos que, pouco afeitos ao estudo, se permitiram dominar pelas ideias fantásticas, narradas em romances mediúnicos, cuja culpa não é do médium, nem do Espírito, mas sim de quem não julgou tais comunicações, não questionou, como deve ser – afinal, não saímos por aí acreditando na palavra de qualquer um, não é?
Ideias nascidas de opiniões
Hoje, esse folclore está de tal forma estabelecido que muitos se perguntam até “onde ficam as 58 colônias espirituais no Brasil”. Até quantidade estabelecida já tem. “Para qual colônia espiritual eu vou?” é outra indagação frequentemente feita…
Perguntamos: por que é que os Espíritos superiores não trouxeram essa verdade justamente a Kardec, que poderia muito bem explorá-la cientificamente? O argumento de que “o entendimento na época não seria possível” é completamente falso e não se sustenta, pois, na época de Kardec, as cidades, o desenvolvimento científico e industrial, a inteligência, enfim, todo o desenvolvimento científico humano encontrava-se na sua mais alta luz. Por que não, então? Se Kardec abordou todo tipo de questão concernente ao mundo espiritual, repito: por que não? Se essa é uma verdade tão importante, já que estaria diretamente ligada ao nosso futuro próximo, após a morte, por que os Espíritos superiores não conduziram Espíritos nas mais diversas condições para tratar desse assunto, pela exploração científica, como fizeram com todos os outros assuntos? Por que conduziram aqueles que levaram, aliás, para o entendimento contrário, que conduz ao desapego a essa materialidade? Por quê?
Será que os apaixonados partidários dos sistemas nascidos desses romances nunca se fizeram essas perguntas? Será que a ausência dessas ideias sobre colônias espirituais e outras, no estudo científico de Kardec, se deve justamente ao fato de elas não refletem a verdade espiritual e só são transmitidas por Espíritos pouco desenvolvidos ou até por Espíritos mistificadores, que seriam prontamente vistos em erro, tal como acontece na Revista Espírita de julho de 1858 — O Falso Padre Ambrósio?
16. ─ Por que não sustentas a impostura em nossa presença?
─ Porque minha linguagem é uma pedra de toque, com a qual não vos podeis enganar.
A Gênese, obra final, reunindo mais de 10 anos de estudos
Para não deixar de fora algumas conclusões muito importantes de Kardec, citaremos A Gênese, no cap. XIV — Os Fluidos:
Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do pensamento e da vontade, que são para o Espírito o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem no fluido essa ou aquela direção; eles os aglomeram, combinam ou dispersam e formam conjuntos com uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudam suas propriedades, como um químico muda as de um gás ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.
Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção, mas frequentemente são o produto de um pensamento inconsciente, pois basta o Espírito pensar numa coisa para que ela seja feita.
É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado, dotado da vista espiritual, sob a aparência que tinha quando estava vivo, na época em que o conheceu, embora já tenha tido várias outras encarnações. Ele se apresenta com as vestes, os sinais externos, enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc. que tinha; um decapitado se apresentará sem a cabeça. Não digo que tenham conservado tais aparências; não, certamente, porque, como Espírito, ele não é coxo nem maneta, nem caolho nem decapitado. Mas seu pensamento, se reportando à época em que era assim, seu perispírito toma instantaneamente essa aparência, a qual muda também instantaneamente. Se ele havia sido uma vez negro e outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, de acordo com qual das duas encarnações ele seja evocado e para onde vá seu pensamento.
Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos que estava habituado a utilizar. Um avaro manejará ouro; um militar terá suas armas e seu uniforme; um fumante, seu cachimbo; um trabalhador, sua charrua e seus bois; uma velha mulher, sua roca.
Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito quanto seriam no estado material para o homem encarnado. Mas, pelo fato de serem criados pelo pensamento, sua existência é tão efêmera quanto ele((Veja sobre objetos fluídicos na Revista Espírita, julho de 1859, página 184. Livro dos Médiuns, 2a parte, cap. VIII. (Nota de Allan Kardec.))).
Vale a pena ler também o artigo da Revista Espírita, citado por Kardec na nota de rodapé. Leia com atenção. A pergunta n.º 22 e sua resposta resumem tudo:
22. ─ Compreendemos que nos dois casos citados pela Senhora R.., um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma tabaqueira para impressionar a visão de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se caso não tivesse chegado a fazê-la ver, poderia o Espírito pensar que tinha esses objetos, criando para si mesmo uma ilusão?
─ Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque terá perfeita consciência de sua condição. Já o mesmo não se dá com os Espíritos inferiores.
OBSERVAÇÃO: Esse era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação consta do nosso número de março de 1858, que ainda se julgava coberta de diamantes.
Conclusão
Longe de nós endeusarmos a personalidade de Allan Kardec, como se ele não estivesse sujeito ao erro. Apenas nos perguntamos, uma vez mais: como é que, em mais de uma década de estudos, onde Kardec penetrou em tantas verdades sobre o mundo dos Espíritos, ele não chegou a essa verdade, defendida apaixonadamente por certas pessoas? Como, em contrário, ele foi conduzido, pelos Espíritos superiores, para o entendimento de que a materialidade do mundo espiritual está ligado à ignorância do Espírito e que, portanto, é efêmera, não sendo possível cogitar, dessa forma, de cidades espirituais, erguidas e comandadas por Espíritos elevados, feitas para sustentar as ideias materialistas e atrasar o seu desapego, as cultivando, pelo contrário? São perguntas que não podem ser respondidas pelos sistemas, mas que estão muito clara e pacificamente respondidas pela ciência espírita.
Sabemos de tudo sobre o mundo dos Espíritos? Não, longe disso. Mas, daí a sistematizar ideias que não passaram pelo método científico, vai um largo (e torto) passo. Não o daremos, pois preferimos ficar com o conselho de Erasto, asseverando que “mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa“.
E, com isso, encerramos esse assunto, até que ele possa voltar ao campo científico, se necessário for, para ser continuado.
Deus não se vinga
O artigo presente, “Deus não se vinga”, foi extraído textualmente de Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1865 > Maio > Dissertações espíritas.
I – As idéias preconcebidas
Nós vos temos dito muitas vezes que examineis as comunicações que vos são dadas, submetendo-as à análise da razão, e que não tomeis sem exame as inspirações que vêm agitar o vosso espírito, sob a influência de causas por vezes muito difíceis de constatar pelos encarnados, submetidos a distrações sem número.
As ideias puras que, por assim dizer, flutuam no espaço (segundo a ideia platônica), levadas pelos Espíritos, nem sempre podem alojar-se sós e isoladas no cérebro dos vossos médiuns. Muitas vezes elas encontram o lugar ocupado por ideias preconcebidas que se escoam com o jacto de inspiração, que o perturbam e o transformam de maneira inconsciente, é certo, mas algumas vezes de maneira bastante profunda para que a ideia espiritual seja, assim, inteiramente desnaturada.
A inspiração encerra dois elementos: o pensamento e o calor fluídico destinado a aquecer o espírito do médium, dando-lhe o que chamais a verve da composição. Se a inspiração encontrar o lugar ocupado por uma ideia preconcebida, da qual o médium não pode ou não quer desligar-se, nosso pensamento fica sem intérprete, e o calor fluídico se gasta em aquecer um pensamento que não é o nosso. Quantas vezes, em vosso mundo egoísta e apaixonado, vimos trazer o calor e a ideia! Desdenhais a ideia, que vossa consciência deveria fazer-vos reconhecer, e vos apoderais do calor em proveito de vossas paixões terrestres, assim por vezes dilapidando o bem de Deus em proveito do mal. Assim, quantas contas terão que prestar um dia todos os advogados das causas perdidas!
Sem dúvida seria desejável que as boas inspirações pudessem dominar sempre as ideias preconcebidas, mas, então, nós entravaríamos o livre-arbítrio da vontade do homem, e este último escaparia, assim, à responsabilidade que lhe pertence. Mas se somos apenas os conselheiros auxiliares da Humanidade, quantas vezes nos temos que felicitar, quando nossa ideia, batendo à porta de uma consciência reta, triunfa da ideia preconcebida e modifica a convicção do inspirado! Contudo, não se deveria crer que nosso auxílio mal-empregado não traia um pouco o mau uso que dele podem fazer. A convicção sincera encontra acentos que, partidos do coração, chegam ao coração; a convicção simulada pode satisfazer a convicções apaixonadas, vibrando em uníssono com a primeira, mas carrega um frio particular, que deixa a consciência insatisfeita e denota uma origem duvidosa.
Quereis saber de onde vêm os dois elementos da inspiração medianímica? A resposta é fácil: a ideia vem do mundo extraterreno, é a inspiração própria do Espírito. Quanto ao calor fluídico da inspiração, nós o encontramos e o tomamos de vós mesmos; é a parte quintessenciada do fluido vital em emanação. Algumas vezes tomamo-la do próprio inspirado, quando este é dotado de um certo poder fluídico (ou medianímico, como dizeis); o mais das vezes nós o tomamos em seu ambiente, na emanação de benevolência de que ele está mais ou menos rodeado. É por isto que se pode dizer com razão que a simpatia torna eloquente.
Se refletirdes atentamente nestas causas, encontrareis a explicação de muitos fatos que a princípio causam admiração, mas dos quais cada um possui uma certa intuição. Só a ideia não bastaria ao homem, se não lhe dessem a força para exprimila. O calor é para a ideia o que o perispírito é para o Espírito, o que o vosso corpo é para a alma. Sem o corpo a alma seria impotente para agitar a matéria; sem o calor, ideia seria impotente para comover os corações.
A conclusão desta comunicação é que jamais deveis abdicar de vossa razão, no exame das inspirações que vos são submetidas. Quanto mais ideias adquiridas tem o médium, mais é ele susceptível de ideias preconcebidas; também mais deve fazer tábula rasa de seus próprios pensamentos, depositar as influências que o agitam e dar à sua consciência a abnegação necessária a uma boa comunicação.
II – Deus não se vinga
O que precede é apenas um preâmbulo destinado a servir de introdução a outras ideias. Falei de ideias preconcebidas, mas há outras além das que vêm das inclinações do inspirado; há as que são consequência de uma instrução errônea, de uma interpretação acreditada num tempo mais ou menos longo, que tiveram sua razão de ser numa época em que a razão humana estava insuficientemente desenvolvida e que, passadas ao estado crônico, não podem ser modificadas senão por heróicos esforços, sobretudo quando têm por si a autoridade do ensino religioso e de livros reservados. Uma destas ideias é esta: Deus se vinga. Que um homem, ferido em seu orgulho, em sua pessoa ou em seus interesses se vingue, isto se concebe. Essa vingança, embora culposa, está dentro dos limites das imperfeições humanas, mas um pai que se vinga em seus filhos levanta a indignação geral, porque cada um sente que um pai, com a tarefa de formar os seus filhos, pode redirecionálos nos seus erros e corrigir seus defeitos por todos os meios ao seu alcance, mas que a vingança lhe é interdita, sob pena de tornar-se estranho a todos os direitos da paternidade.
Sob o nome de vindita pública, a Sociedade que está desaparecendo vingava-se dos culpados; a punição infligida, muitas vezes cruel, era a vingança que ela tomava do homem perverso. Ela não tinha a menor preocupação com a reabilitação desse homem e deixava a Deus o cuidado de puni-lo ou de perdoá-lo. Bastava-lhe ferir pelo terror, que julgava salutar, os futuros culpados. A Sociedade que vêm não mais pensa assim; se ela ainda não age em vista da emenda do culpado, ao menos compreende o que a vingança encerra de odioso por si mesma; salvaguardar a Sociedade contra os ataque de um criminoso lhe basta, auxiliada pelo medo de um erro judiciário. Em breve a pena capital desaparecerá dos vossos códigos.
Se hoje a Sociedade se sente grande demais diante de um culpado, para se deixar ir à cólera e dele vingar-se, como quereis que Deus, participando de vossas fraquezas, se tome de um sentimento irascível e fira por vingança um pecador chamado ao arrependimento? Crer na cólera de Deus é um orgulho da Humanidade, que imagina ter um grande peso na balança divina. Se a planta do vosso jardim vem mal, se se desvia, ireis encolerizar-vos e vos vingar dela? Não; endireitá-la-eis, se puderdes, dar-lhe-eis um apoio, forçareis, por entraves, as suas más tendências, se necessário a transplantareis, mas não vos vingareis. Assim faz Deus.
Deus vingar-se, que blasfêmia! Que diminuição da grandeza divina! Que ignorância da distância infinita que separa a criação de sua criatura! Que esquecimento de sua bondade e de sua justiça!
Deus viria, numa existência em que não vos resta nenhuma lembrança de vossos erros passados, fazer-vos pagar caro pelas faltas que podeis ter cometido numa época apagada em vosso ser! Não, não! Deus não age assim. Ele entrava o impulso de uma paixão funesta, corrige o orgulho inato por uma humildade forçada, endireita o egoísmo do passado pela urgência de uma necessidade presente que leva a desejar a existência de um sentimento que o homem não conheceu nem experimentou. Como pai, ele corrige, mas, também como pai, Deus não se vinga.
Guardai-vos dessas ideias preconcebidas de vingança celeste, restos dispersos de um erro antigo. Guardai-vos dessas tendências fatalistas, cuja porta está aberta para vossas doutrinas novas, e que vos conduziriam diretamente ao quietismo oriental. A parte de liberdade do homem já não é bastante grande para apequená-la ainda mais por crenças errôneas. Quanto mais sentirdes vossa liberdade, sem dúvida maior será a vossa responsabilidade, e tanto mais os esforços de vossa vontade vos conduzirão à frente, na via do progresso.
Pascal
O que deve ser a História do Espiritismo
O século XIX foi o Século da Razão! Isso quer dizer que não havia brecha para misticismo muito menos para dogmas. O dogma só desaparece quando debruçamos sobre o estudo dedicado e contínuo. Este Artigo que trazemos aqui é da Revista Espírita, outubro de 1862, “O que deve ser a história do Espiritismo“.
“A propósito dessa história, sobre a qual dissemos algumas palavras, várias pessoas nos perguntam o que compreenderia ela, e com esse objetivo nos enviaram diversos relatos de manifestações. Aos que pensaram assim trazer uma pedra ao edifício, agradecemos a intenção, mas diremos que se trata de algo mais sério que um catálogo de fenômenos espíritas encontradiço em muitas obras. Tendo o Espiritismo que marcar presença nos fastos da Humanidade, será interessante para as gerações futuras saber por que meios ter-se-á ele estabelecido. Será, pois, a história das peripécias que tiverem assinalado os seus primeiros passos; das lutas que tiver enfrentado; dos entraves que lhe terão oposto; de sua marcha progressiva no mundo inteiro.
O verdadeiro mérito é modesto e não busca impor-se. É preciso que a Humanidade conheça os nomes dos primeiros pioneiros da obra, daqueles cuja abnegação e devotamento merecerão ser inscritos em seus anais; das cidades que marcharam na vanguarda; dos que sofreram pela causa, a fim de que sejam abençoados; dos que fizeram sofrer, a fim de que orem por eles, para que sejam perdoados. Numa palavra, de seus amigos dedicados e de seus inimigos confessos ou ocultos.
É preciso que a intriga e a ambição não usurpem o lugar que lhes não pertence, nem um reconhecimento e uma honra que não lhes são devidos. Se há Judas, é preciso que eles sejam desmascarados.
Uma parte, que não será a menos interessante, será a das revelações que sucessivamente anunciaram todas as fases dessa era nova e os acontecimentos de toda ordem que as acompanharam.
Aos que acharem a tarefa presunçosa, diremos que não teremos outro mérito senão o de possuir, por nossa posição excepcional, documentos que não estão em poder de ninguém, e que estão ao abrigo de quaisquer eventualidades. Considerando-se que o Espiritismo está sendo chamado, incontestavelmente, a desempenhar um grande papel na História, é importante que esse papel não seja desnaturado, e que seja mostrada a história autêntica, em oposição às histórias apócrifas que o interesse pessoal poderia fabricar.
Quando aparecerá ela? Não será tão cedo, e talvez não em nossa vida, pois não se destina a satisfazer à curiosidade do momento. Se dela falamos por antecipação, é para que ninguém se equivoque quanto ao seu objetivo e seja anotada a nossa intenção. Aliás, o Espiritismo está em seu começo, e muitas outras coisas acontecerão até lá. Então, é preciso esperar que cada um tenha tomado o seu lugar, certo ou errado.” (grifos nossos)
Observação: É interessante notar como parece que Allan Kardec já sabia do que aconteceria no futuro. Tanta oposição nas historias apócrifas e tanto interesse pessoal fabricado nas costas do Espiritismo… Por garantia ele guardou documentos para essas eventualidades que volta e meia são publicados! Fiquemos atentos ao que mais interessa
Hoje percebemos que essa história ainda está em pleno desenvolvimento. Estamos ainda aprendendo a passos lentos os ensinamentos que os Espíritos trouxeram na época de Kardec. Que todos usemos da Vontade e da Imaginação para alcançar esse entendimento tão apoiado na Razão!
O Movimento Espírita Brasileiro está ruindo
Olhe para os centros espíritas: a cada dia mais vazios. Eu mesmo poderia citar aqui, agora, ao menos uma dezena de centros espíritas que se encontram cada dia mais vazios, lutando para manterem suas portas abertas, e você com certeza conhece outros assim. Aqueles que se encontram mais cheios, na maioria, tendem ao misticismo, que agrada à curiosidade.
Cada vez que entra uma mãe que perdeu um filho, em busca de consolação, e recebe uma resposta errada, uma suposta psicografia genérica ou mesmo ouve o pensamento de que ele passou o que passou por estar resgatando dívidas passadas; cada vez que uma pessoa ouve que seus conflitos familiares devem ser suportados com resignação, pois se trata de um resgate coletivo; cada vez que uma pessoa ouve que, se não frequentar o centro, não vai melhorar; cada vez, enfim, que o MEB reforça ao público geral a erradíssima ideia de que as pessoas que morreram em um desastre foram “soldados nazistas na vida anterior, que queimavam judeus”, o MEB perde, para o descrédito, pessoas que poderiam ser reconduzidas à fé e à esperança pela razão.
Não só: o MEB também perde ao tratar da caridade pelo viés puramente material. Entrega-se uma sacola de mantimentos, muitas vezes sob uma linda faixa onde lê-se “Distribuição dos Pobres”, ou algo assim, e diz-se “adeus, até o próximo mês”. Basta que essa pessoa encontre uma distribuição de alimentos mais próxima ao seu lar, e ela prontamente deixa de “visitar” o centro espírita. O espírita perde valiosas oportunidades de acolher uma pessoa e realmente consolá-la, porque não sabe como fazê-lo, pois não conhece, de fato, o Espiritismo.
De forma alguma acuso quem quer que seja por agir assim de caso pensado. Não. Na maioria das vezes, a ação é feita na mais boa-vontade, acreditando que se faz o bem. Contudo, se dos nossos antepassados poderíamos dizer que a ausência de conhecimento se deu por incapacidade, mesmo, de acesso ao conhecimento, hoje não mais podemos nos desculpar sobre isso, pois toda a obra de Kardec está a cerca de dois cliques de nosso alcance.
Kardec, na Revista Espírita de 1864, assim se expressa (grifos meus):
Não há centro espírita onde não haja encontrado um número mais ou menos grande desses pioneiros da obra, desses arroteadores do terreno, desses lutadores infatigáveis que, sustentados por uma fé sincera e esclarecida, pela consciência de cumprir um dever, não desanimam ante nenhuma dificuldade, considerando seu devotamento como uma dívida de reconhecimento pelos benefícios morais que receberam do Espiritismo. Não é justo que os nomes daqueles, dos quais a Doutrina se honra, estejam perdidos para nossos descendentes e que um dia se possa inscrevê-los no panteão espírita?
Infelizmente, ao lado deles, às vezes, se encontram as crianças terríveis da causa, os impacientes que, não calculando a importância de suas palavras e de seus atos, podem comprometê-la; aqueles que, por um zelo irrefletido, idéias intempestivas e prematuras, fornecem, sem o querer, armas aos nossos adversários. Depois vêm aqueles que, não tomando do Espiritismo senão a superfície, sem dele serem tocados no coração, dão, por seu próprio exemplo, uma falsa opinião de seus resultados e de suas tendências morais.
Aí está, sem contradita, o maior escolho que encontram os sinceros propagadores da Doutrina, porque, freqüentemente, vêem a obra que penosamente esboçaram, desfeita por aqueles mesmos que deveriam secundá-los. É um fato constatado que o Espiritismo é mais entravado por aqueles que o compreendem mal do que por aqueles que não o compreendem de todo, e mesmo por seus inimigos declarados; e há a anotar-se que aqueles que o compreendem mal, geralmente, têm a pretensão de compreendê-lo melhor do que os outros; não é raro ver noviços pretenderem, ao cabo de alguns meses, ser superiores àqueles que tiveram para eles a experiência adquirida por estudos sérios. Essa pretensão, que trai o orgulho, é ela mesma uma prova da ignorância dos verdadeiros princípios da Doutrina.
Na Viagem Espírita de 1862, expressa o seguinte (grifos meus):
É preciso que se saiba que o Espiritismo sério se faz patrono, com alegria e apressuramento, de toda obra realizada com critério, qualquer que seja o país de onde provém, mas que, igualmente, repudia todas as publicações excêntricas. Todos os espíritas que, de coração, vigiam para que a doutrina não seja comprometida, devem, pois, sem hesitação, denunciá-las, tanto mais porque, se algumas delas são produtos da boa-fé, outras constituem trabalho dos próprios inimigos do Espiritismo, que visam desacreditá-lo e poder motivar acusações contra ele. Eis porque, repito, é necessário que saibamos distinguir aquilo que é doutrina espírita aceita daquilo que ela repudia.
KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862. Tradução de Wallace Leal V. Rodrigues. 4. ed. São Paulo: EDICEL, 2010.
Tenhamos o cuidado, porém, de não gastar tempo em embates desnecessários e em nos prendermos ao ataque a certas figuras, o que seria um erro, pois não podemos julgar seus intuitos. Devemos, sim, agir quando oportuno. Esclarecer, sempre que pudermos, sobre uma ideia errada; alertar sobre um princípio que vá contra a doutrina; mas, sobretudo, buscarmos nós mesmos o conhecimento fundamental, construído através dos anos, que nos permita fazer a nossa parte, da forma mais correta e completa possível, isto é, para que, lentamente, o erro nascido da opinião e da incompreensão ceda lugar àquilo que a Doutrina nos fornece. Se, nesse processo, encontrarmos os indivíduos ou os grupos que decididamente resistam ao conhecimento, deixemo-los à própria sorte, porque o tempo, o infalível tempo, se encarregará de esclarecê-los. Ideias erradas isoladas e definharão, quando a opinião da maioria estiver sustentada pelos fatos e pelo conhecimento.
“Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão”. O espírita ativo, ao não estudar, joga pérolas aos porcos.