A Cura do Perispírito

Há anos, ao estudar as obras de Allan Kardec, uma pergunta sempre nos inquietava: se o Espírito é imortal, inteligente e perfectível, por que seu envoltório padece? Como pode uma doença do corpo físico atingir aquilo que é, afinal, o veículo da alma? Não foi nos tratados de patologia que encontramos a resposta, mas na compreensão de que o períspirito é um espelho e o que vemos nele é, antes de tudo, o que é o Espírito.

A expressão “cura do perispírito” encerra, assim, uma aparente contradição. Se o Espírito é o princípio inteligente, aquele que pensa, sente, deseja e progride, como poderia uma doença recair sobre o seu envoltório? E, sendo o períspirito uma forma de matéria, ainda que fluídica e semi material, como poderia o progresso moral do Espírito operar uma transformação efetiva nesse invólucro?

A dificuldade se dissolve quando se compreende, em profundidade, a relação orgânica que mantêm o Espírito, o perispírito e o corpo.

O Espírito é a inteligência e a moralidade em essência. O corpo é o envoltório carnal, transitório, para a experiência da encarnação. O perispírito, por sua vez, é o laço fluídico que os une ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 135; O que é o Espiritismo)) . Longe de atuarem como realidades justapostas, esses três elementos encontram-se em permuta incessante, reagindo uns sobre os outros numa dinâmica contínua de influências ((ALLAN KARDEC. Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas.)) .

É exatamente nessa trama de relações que se encontra a chave para o que denominamos doença e cura do perispírito.

1. O perispírito como espelho da alma

O primeiro passo é estabelecer uma distinção fundamental, por vezes esquecida: o perispírito não é a causa da desarmonia, mas a sua manifestação. O Espírito é o ser pensante e volitivo; nele residem a vontade, os afetos e as disposições que definem seu estado moral. O perispírito, por sua vez, é um corpo fluídico e semimaterial ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 93.)), extraído do fluido universal de cada globo ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 94.)), que, durante a encarnação, penetra o organismo em todas as suas partes, atuando como mensageiro e tradutor. Ele transmite aos órgãos a vontade do Espírito que o dirige ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns, Cap. VI.)).

Não se trata, portanto, de uma segunda entidade, dotada de existência autônoma. O perispírito é uma extensão do Espírito, um prolongamento de sua natureza no plano fluídico.

Quando se fala em alteração ou doença do perispírito, não se sugere que o envoltório adoeça por si mesmo. O que ocorre é uma modificação de sua condição fluídica, produzida diretamente pelo estado íntimo do Espírito. A causa reside na alma; o perispírito não faz mais do que refletir, no plano semimaterial, o que se passa no plano moral ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

2. A ação do pensamento sobre a matéria fluídica

Mas o que significa, de fato, “doença” num corpo que não é órgão?

A resposta está na própria natureza do perispírito. Embora seja material, não é matéria tangível e inerte, mas matéria fluídica, expansível e plástica ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns, Cap. VI.)), cuja constituição é suficientemente maleável para sofrer a ação direta do pensamento e da vontade.

O pensamento não é um fenômeno imaterial desconectado do mundo físico; é uma força viva, um atributo atuante do Espírito. Conforme explicado em A Gênese, o pensamento modifica as qualidades dos fluidos espirituais, e o perispírito recebe essas impressões permanentemente ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)). O Espírito pode, por sua vontade, dar-lhes direção, aglomerá-los e modificar suas propriedades. Assim, o estado íntimo do Espírito repercute imediatamente sobre seu envoltório. Os pensamentos maus, emoções inferiores, sentimentos egoístas viciam os fluidos que circundam o Espírito, tornando o perispírito mais denso, opaco e perturbado. Não se trata de uma matéria que se transforma por impulso próprio, mas de uma matéria modelada incessantemente pelo pensamento que a anima ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)).

O inverso também é verdadeiro: se o pensamento vicia, pode igualmente purificar. O Espírito, ao elevar-se, projeta sobre seus fluidos uma influência salutar, reordenando o que estava disperso e refinando o que era grosseiro.

3. Afinidade Fluídica

A matéria, mesmo em sua forma fluídica, nunca é indiferente ao Espírito. O perispírito é extraído do fluido universal, que é o elemento básico que permeia o cosmos, mas o Espírito não o assimila de modo aleatório. A natureza moral do Espírito determina aquilo que ele atrai e incorpora ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 94.)). Um Espírito adiantado atrai as porções mais puras e etéreas do fluido cósmico. Um Espírito ainda dominado por imperfeições, ao contrário, atrai fluidos mais grosseiros e densos, que lhe são afins.

Há, portanto, uma correspondência rigorosa entre o estado do ser e a qualidade de seu envoltório ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). Não se trata de um castigo ou de uma imposição externa, mas de uma lei natural: cada Espírito se reveste da matéria que lhe é proporcional.

Por isso, o progresso moral não modifica o perispírito por um mecanismo exterior. O próprio Espírito, ao transformar-se, passa a produzir e a atrair condições fluídicas diferentes. O processo assemelha-se a uma depuração progressiva: os fluidos mais densos vão sendo naturalmente substituídos por outros mais sutis, à medida que o Espírito se desprende do egoísmo e se aproxima da caridade desinteressada.

4. A Doença do Perispírito é Desarmonia Fluídica

É aqui que a expressão “doença do perispírito” ganha seu sentido justo. Não se trata de uma patologia orgânica, como a que atinge o corpo físico. Trata-se de uma desarmonia de natureza fluídica e molecular , como um vício nos fluidos que constituem o envoltório, provocado pela persistência de pensamentos e sentimentos inferiores ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, março de 1868.)).

Nós nos detemos aqui, porque é comum encontrar espíritas que acreditam que a cura perispiritual se dá apenas por passes ou por intervenções externas. Ora, se assim fosse, a reforma moral seria supérflua e sabemos que não é. A desarmonia não é uma ferida, nem uma chaga; é antes um desajuste entre o que o Espírito pensa e o que os fluidos registram.

Essa alteração, durante a vida corporal, repercute sobre o organismo, pois o perispírito funciona como intermediário. A cadeia de influências é clara:

Isso não significa, porém, reduzir todas as doenças físicas a causas morais. O corpo possui suas próprias condições orgânicas, e muitas enfermidades decorrem de acidentes ou de heranças materiais, sem relação direta com o estado espiritual. O perispírito, nesse contexto, é o elo que explica como duas naturezas tão distintas, a espiritual e a orgânica, podem interferir mutuamente, sem se confundir.

5. O que persiste após a morte?

Ao desencarnar, o Espírito deixa o corpo físico, mas conserva seu envoltório perispiritual. Se o corpo estava enfermo, isso não implica que o Espírito carregue essa doença para a eternidade. O organismo material se dissolve, e o Espírito passa a manifestar-se unicamente por seu perispírito (( ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

Contudo, podem permanecer, por algum tempo, impressões relacionadas à existência recém-concluída. Um Espírito muito apegado à matéria pode conservar, após a morte, a sensação das dores e das limitações que experimentou no corpo ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 257.)). Em Espíritos mais desprendidos da matéria, o alívio é quase imediato ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

Lembramos, ao ler o caso do Zuavo de Magenta na Revista Espírita de janeiro de 1859, de como ficamos impressionado com a ideia de que um Espírito pode, por algum tempo, conservar as aparências do corpo que deixou, assim como suas vestimentas, os ferimentos, até a postura do último instante. O rompimento brusco dos laços perispirituais do corpo faz com que o Espírito se sinta, por algum tempo, ainda vivo e ferido ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, janeiro de 1859 (caso do Zuavo de Magenta).)).

Essas manifestações, entretanto, são transitórias. O perispírito é maleável; à medida que o Espírito se desprende das fixações da vida anterior, essas impressões se desvanecem. A cura, nessa condição, é a recuperação da consciência de si mesmo, livre das imagens do corpo que ficou para trás.

6. A mudança de mundo não opera, por si só, a transformação moral

Outra questão delicada: ao passar para um mundo mais elevado, o Espírito elabora um novo perispírito ((Allan Kardec – A Genese – cap XIV item 10 em diante)), adaptado àquele ambiente ((ALLAN KARDEC. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas — Vocabulário Espírita.)). Isso não significa, contudo, que a simples mudança de esfera opere uma transformação moral.

O Espírito leva consigo sua natureza íntima. Se não se depurou, continuará atraindo fluidos correspondentes ao seu estado. O novo envoltório poderá ser mais sutil, mas a causa da desarmonia permanece inalterada enquanto o Espírito não modificar a si mesmo ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

O progresso, portanto, não se reduz a uma mudança de cenário. O Espírito precisa transformar-se em seu íntimo. E, ao transformar-se, seu perispírito se eleva com ele; não porque o envoltório mude por si, mas porque o Espírito agora é capaz de assimilar fluidos mais puros.

7. A Cura do Perispírito e o Papel da Mudança de Pensamentos

Se a doença do perispírito é uma desarmonia fluídica, sua recuperação pode ser auxiliada por intervenções externas: magnetismo, passes, prece, ação de Espíritos curadores. Trata-se de uma medicação fluídica já que os fluidos sadios e purificados que atuam sobre o envoltório alterado, substituiem gradualmente os elementos deteriorados ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, março de 1868.)).

A prece, nesse contexto, funciona como uma magnetização, capaz de projetar correntes fluídicas benéficas que limpam, desobstruem e neutralizam os fluidos nocivos. Mas de que adianta substituir os fluidos se o Espírito continua a produzir os mesmos pensamentos que geraram a desarmonia?

A substituição de fluidos trata o efeito; a mudança moral atinge a causa. Enquanto o Espírito permanecer preso ao orgulho, ao egoísmo ou à vaidade, seus fluidos continuarão a se viciar, e a desarmonia renascerá. A verdadeira cura perispiritual é aquela em que o Espírito, modificando seus pensamentos, modifica sua ação sobre os fluidos. Assim, deixa, assim, de produzir a condição que antes mantinha o mal ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV; O Livro dos Espíritos, q. 1012.)).

A ação magnética, a prece e o auxílio dos Espíritos superiores são recursos valiosos, mas são coadjuvantes. O protagonista da cura é o próprio Espírito, em seu esforço deliberado de transformação.

8. O perispírito como testemunho da evolução

O perispírito é, assim, um termômetro da alma. À medida que o Espírito progride, seu envoltório torna-se mais luminoso, mais etéreo, mais sutil ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). As emoções densas cedem lugar a sentimentos puros, e a matéria fluídica que o reveste acompanha essa elevação.

Não se trata de uma mudança imposta, mas de uma consequência natural. O Espírito que se eleva atrai fluidos menos pesados; o Espírito que se degrada, ao contrário, atrai fluidos mais pesados. O perispírito não é um acidente de percurso, mas um registro vivo da trajetória evolutiva do ser.

9. Conclusão: curar o perispírito é restaurar a harmonia no Espírito

Retomemos a pergunta que abriu este artigo: como pode o Espírito, ser inteligente e moral, ser afetado por uma doença de seu envoltório? E como pode o moral modificar o material?

A resposta, agora mais clara, é que o perispírito não adoece por si mesmo; ele reflete a doença moral do Espírito ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). E o Espírito, por sua vez, transforma seu envoltório porque este é moldado por seu pensamento ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)).

A cura do perispírito, portanto, não é a mera substituição de um fluido por outro. É o restabelecimento de uma harmonia que começa na intimidade do Espírito. Toda intervenção fluídica é bem-vinda, mas é apenas preparatória. A verdadeira regeneração, aquela que persiste, que não se desfaz com o tempo; é a que nasce da mudança íntima.

O perispírito é o eco material da alma. Para curá-lo, não basta tocar suas superfícies: é preciso purificar a fonte que o alimenta. E essa fonte é o próprio Espírito, em sua incessante caminhada rumo à perfeição.




A Lógica dos Atributos Divinos em A Gênese e O Céu e O Inferno

Há uma conexão conceitual profunda entre o Capítulo II de A Gênese e o Capítulo VII de O Céu e o Inferno. Em ambas as obras, Allan Kardec parte de uma mesma concepção de Deus e utiliza os atributos divinos como critério racional para avaliar as doutrinas religiosas.

Em A Gênese, essa concepção é apresentada como um princípio de análise: qualquer ideia sobre Deus que contradiga seus atributos essenciais não pode ser logicamente aceita. Em O Céu e o Inferno, Kardec aplica esse mesmo critério ao exame da doutrina das penas eternas.

Deus como ponto de partida da análise

No Capítulo II de A Gênese, Kardec estabelece que Deus deve ser concebido como único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, além de infinito em todas as suas perfeições.

Essa definição não é apresentada apenas como uma formulação teológica. Ela funciona como um critério lógico. Se uma determinada concepção de Deus atribui à Divindade uma característica incompatível com a perfeição, essa concepção entra em contradição consigo mesma.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se determinado dogma é tradicional ou amplamente aceito. É verificar se ele é compatível com a própria ideia de Deus que pretende sustentar.

É justamente esse método que Kardec emprega posteriormente ao analisar as penas eternas.

A infinitude de uma perfeição exclui a imperfeição contrária

O raciocínio desenvolvido por Kardec baseia-se em uma ideia simples:

Se Deus é infinitamente bom, não pode possuir qualquer parcela de maldade. Se é infinitamente justo, não pode praticar uma injustiça. Se é infinitamente misericordioso, não pode ser eternamente implacável diante do arrependimento sincero.

Em A Gênese, Kardec utiliza uma comparação para tornar esse princípio compreensível: aquilo que é absolutamente perfeito em determinada qualidade não pode conter o menor grau da qualidade contrária.

Essa lógica é fundamental porque transforma os atributos divinos em um verdadeiro critério de coerência. Não se trata de escolher arbitrariamente quais características de Deus devem prevalecer; trata-se de verificar se uma determinada doutrina pode coexistir com a ideia de uma Divindade infinitamente perfeita.

A aplicação do princípio à doutrina das penas eternas

É nesse ponto que a relação com O Céu e o Inferno se torna especialmente significativa.

Ao examinar a doutrina das penas eternas, Kardec não começa simplesmente afirmando que ela é injusta. Ele procura demonstrar por que ela é incompatível com os atributos atribuídos a Deus.

Se uma falta cometida durante uma existência limitada pudesse produzir uma punição absolutamente interminável, haveria uma questão de proporcionalidade. Uma ação finita produziria uma consequência infinita e irreversível.

Para Kardec, isso não corresponde à ideia de justiça soberana.

A justiça divina, por ser perfeita, não poderia estabelecer uma penalidade cuja duração não guardasse qualquer relação com a natureza da falta e que tornasse impossível qualquer recuperação do Espírito.

A pena, nessa perspectiva, precisa possuir uma finalidade. O sofrimento decorrente do erro deve conduzir o Espírito à compreensão, ao arrependimento e à transformação. Uma punição que jamais termina e que não permite qualquer possibilidade de regeneração deixa de possuir finalidade educativa.

Justiça, bondade e misericórdia

A incompatibilidade torna-se ainda mais evidente quando se considera a bondade divina.

Um Deus infinitamente bom não poderia desejar eternamente o sofrimento de uma criatura. Tampouco seria coerente conceber uma Divindade que recusasse para sempre o arrependimento de um ser que, tendo reconhecido seu erro, desejasse modificar-se.

Isso não significa eliminar a responsabilidade pelos atos praticados. Ao contrário: a doutrina espírita preserva a responsabilidade individual e a consequência dos atos. O que ela rejeita é a ideia de uma condenação definitiva e sem possibilidade de progresso.

A diferença é fundamental.

A justiça não deixa de existir porque existe possibilidade de recuperação. O Espírito continua enfrentando as consequências de suas escolhas, mas essas consequências passam a ter uma função: fazê-lo compreender o erro e conduzi-lo ao progresso.

Nesse sistema, justiça e misericórdia não são atributos concorrentes. A misericórdia integra a própria justiça divina porque oferece ao Espírito a possibilidade de reparar e transformar-se.

A finalidade da punição

Outro ponto importante do raciocínio de Kardec é a finalidade da pena.

Uma punição puramente retributiva, cujo único objetivo fosse fazer sofrer indefinidamente, não produziria qualquer aperfeiçoamento. Se o Espírito estivesse condenado eternamente ao mal, não haveria razão para esperar dele arrependimento, reparação ou progresso.

A pena eterna, portanto, entraria em conflito não apenas com a bondade e a justiça, mas também com a própria finalidade da existência espiritual.

Na perspectiva espírita, o sofrimento não constitui um fim em si mesmo. Ele está relacionado às consequências das escolhas e ao processo de aprendizado do Espírito. O objetivo último é o progresso.

Assim, a possibilidade de regeneração não enfraquece a justiça divina. É precisamente o que permite que justiça, bondade e finalidade educativa permaneçam coerentes entre si.

Uma mesma estrutura de raciocínio

A relação entre os dois capítulos pode ser compreendida como uma sequência lógica.

Em A Gênese, Kardec estabelece o critério: Deus deve ser concebido como infinitamente perfeito, e qualquer teoria que contradiga seus atributos deve ser rejeitada.

Em O Céu e o Inferno, esse critério é aplicado a uma questão específica: a possibilidade de penas eternas.

O raciocínio pode ser resumido da seguinte maneira:

1. Deus é infinitamente perfeito.

2. Uma perfeição infinita exclui a existência de sua qualidade contrária.

3. Portanto, uma doutrina atribuída a Deus não pode implicar injustiça, crueldade ou ausência absoluta de misericórdia.

4. A condenação eterna de um Espírito por faltas cometidas durante uma existência limitada implicaria uma punição sem possibilidade de reparação ou progresso.

5. Tal concepção é incompatível com a justiça, a bondade e a misericórdia infinitas atribuídas a Deus.

6. Logo, a ideia de penas eternas não é compatível com a concepção de Deus apresentada por Kardec.

Essa é a força do argumento: a rejeição das penas eternas não aparece como uma preferência moral isolada, mas como consequência da própria definição de Deus adotada pelo autor.

Da definição de Deus à consequência doutrinária

A importância desse paralelo está justamente no método.

Kardec não constrói uma concepção de Deus para depois abandonar seus próprios critérios quando analisa outras questões. Ao contrário, utiliza os atributos divinos como referência constante.

O Capítulo II de A Gênese fornece a base conceitual; o exame das penas eternas em O Céu e o Inferno mostra uma aplicação dessa base a um problema doutrinário concreto.

Pode-se dizer, portanto, que há entre os dois textos uma continuidade de raciocínio: primeiro se estabelece o que deve ser entendido por Deus; depois se verifica quais consequências doutrinárias são compatíveis com essa definição.

A questão das penas eternas torna-se, assim, um teste de coerência.

Se Deus é soberanamente justo e bom, sua justiça não pode ser injusta; sua bondade não pode conter crueldade; sua misericórdia não pode ser anulada por uma condenação irrevogável; e sua perfeição não pode coexistir com uma imperfeição que a contradiga.

É nesse sentido que a crítica de Kardec às penas eternas não depende apenas de uma interpretação particular sobre o castigo. Ela decorre de uma estrutura filosófica mais ampla: a concepção de Deus deve ser coerente com seus próprios atributos, e qualquer doutrina que negue esses atributos não pode ser aceita como verdadeira.

Assim, A Gênese apresenta o princípio geral, enquanto O Céu e o Inferno demonstra uma de suas consequências. A definição de Deus não permanece uma afirmação abstrata: ela funciona como instrumento de análise e permite avaliar racionalmente as consequências das doutrinas religiosas.




Obrigações do Espiritismo

O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então, os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconsequência, subtrair-se às obrigações que ele impõe.

(Revista Espírita, Paris, abril de 1866 ─ Médium: Sra. B…)

[grifos nossos; leia até o fim]

Essas obrigações são de duas ordens.

A primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de cada um de seus atos, melhor sondar todos os refolhos de sua consciência, melhor apreciar a infinita bondade de Deus, que não quer a morte do pecador mas que ele se converta e viva, e que para lhe deixar a possibilidade de erguer-se de suas quedas, lhe deu a longa série de existências sucessivas, em cada uma das quais, levando o peso de suas faltas passadas, ele pode adquirir novos conhecimentos e novas forças, fazendo-o evitar o mal e praticar o que é conforme à justiça e à caridade. Que dizer daquele que, assim esclarecido sobre os seus deveres para com Deus, para com os irmãos, permanece orgulhoso, cúpido, egoísta? Não parece que a luz o tenha enceguecido, porque não estava preparado para recebê-la? Desde então marcha nas trevas, embora esteja em meio à luz. Ele só é espírita de nome. A caridade fraterna dos que veem realmente, deve esforçar-se por curá-lo dessa cegueira intelectual. Mas, para muitos dos que se lhe assemelham, será necessária a luz que o túmulo traz, porque seu coração está muito ligado aos prazeres materiais e seu espírito não está maduro para receber a verdade. Numa nova encarnação compreenderão que os planetas inferiores, como a Terra, não passam de uma espécie de escola mútua, onde a alma começa a desenvolver suas faculdades, suas aptidões, para em seguida aplicá-las ao estudo dos grandes princípios da ordem, da justiça, do amor e da harmonia que regem as relações das almas entre si e as funções que elas desempenham na direção do Universo. Eles sentirão que, chamada a uma tão alta dignidade, qual a de se tornar mensageira do Altíssimo, a alma humana não deve aviltar-se, degradar-se ao contato dos prazeres imundos da volúpia; das ignóbeis tentações da avareza que subtrai a alguns filhos de Deus o gozo dos bens que ele deu para todos; compreenderão que o egoísmo, nascido do orgulho, cega a alma e a faz violar os direitos da justiça, da humanidade, porquanto ele engendra todos os males que fazem da Terra um lugar de dores e expiações. Instruído pelas duras lições da adversidade, seu espírito será amadurecido pela reflexão, e seu coração, depois de ter sido ralado pela dor, se tornará bom e caridoso. É assim que aquilo que nos parece um mal, por vezes é necessário para reconduzir os endurecidos. Esses pobres retardatários, regenerados pelo sofrimento, esclarecidos por essa luz interior que podemos chamar de batismo do Espírito, velarão com cuidado sobre si mesmos, isto é, sobre os movimentos do seu coração e o emprego de suas faculdades, para dirigi-los conforme as leis da justiça e da fraternidade. Eles compreenderão que não são apenas obrigados, eles próprios, a se melhorarem, cálculo egoísta que impede o atingimento do objetivo visado por Deus, mas que a segunda ordem das obrigações do espírita, que decorre necessariamente da primeira e a completa, é a do exemplo, que é o melhor meio de propagação e renovação.

Com efeito, aquele que está convencido da excelência dos princípios que lhe são ensinados e que devem, se a eles conformar a sua conduta, proporcionar-lhe uma felicidade duradoura, não pode, se estiver verdadeiramente animado dessa caridade fraterna que está na própria essência do Espiritismo, senão desejar que sejam compreendidos por todos os homens. Daí a obrigação moral de conformar sua conduta com a sua crença e de ser um exemplo vivo, um modelo, como o Cristo o foi para a Humanidade.

Vós, fracas centelhas oriundas do eterno foco do amor divino, certamente não podeis pretender uma tão vasta radiação quanto a do Verbo de Deus encarnado na Terra, mas cada um, na vossa esfera de ação, pode espalhar os benefícios do bom exemplo. Podeis fazer com que a virtude seja amada, cercando-a do encanto dessa benevolência constante que atrai, cativa e mostra, enfim, que a prática do bem é coisa fácil; que gera a felicidade íntima da consciência que se colocou sob sua lei, pois ela é o cumprimento da vontade divina que nos fez dizer, por intermédio do seu Cristo: Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.

Ora, o Espiritismo não é senão a aplicação verdadeira dos princípios da moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de fazê-la por todos compreendida, a fim de que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal mani­festação do Espírito, vindo explicar-vos o que vos parecia obscuro e vos ensinar toda a verdade. Ele vem, como o Cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior pelas próprias consequências de cada um de seus atos, de cada um de seus pensamentos, porque nenhuma emanação fluídica, boa ou má, escapa do coração ou do cérebro do homem sem deixar uma impressão em algum lugar. O mundo invisível que vos cerca é para vós esse Livro de Vida onde tudo se inscreve com uma incrível fidelidade, e a Balança da Justiça divina não é senão uma figura que revela cada um dos vossos atos, cada um dos vossos sentimentos. É, de certo modo, o peso que sobrecarrega a vossa alma e a impede de elevar-se, ou que traz o equilíbrio entre o bem e o mal.

Feliz aquele cujos sentimentos partem de um coração puro. Ele espalha em seu redor uma suave atmosfera que faz amar a virtude e atrai os bons Espíritos; seu poder de radiação é tanto maior quanto mais humilde for, e consequentemente mais desprendido das influências materiais que atraem a alma e a impedem de progredir.

As obrigações impostas pelo Espiritismo são, portanto, de uma natureza essencialmente moral, porque são uma consequência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que ele traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam os pusilânimes, e é por isso que ele é rejeitado por tantas pessoas. Outros tratam de conciliar a reforma que sua razão lhes demonstra ser uma necessidade com as exigências da Sociedade atual. Daí uma mistura heterogênea, uma falta de unidade que faz da época atual um estado transitório. É muito difícil para a vossa pobre natureza corporal despojar-se de suas imperfeições para revestir o homem novo, isto é, o homem que vive segundo os princípios de justiça e de harmonia desejados por Deus. Com esforços perseverantes, nada obstante, lá chegareis, porque as obrigações impostas à consciência, quando suficientemente esclarecida, têm mais força do que jamais terão as leis humanas baseadas no constrangimento de um obscurantismo religioso que não suporta exame. Mas se, graças às luzes do alto, fordes mais instruídos e compreenderdes mais, também deveis ser mais tolerantes e não empregar, como meio de propagação, senão o raciocínio, porque toda crença sincera é respeitável. Se vossa vida for um belo modelo em que cada um possa achar bons exemplos e sólidas virtudes, onde a dignidade se alia a uma graciosa amenidade, rejubilai-vos, porque tereis compreendido, pelo menos em parte, a que obriga o Espiritismo.

LUÍS DE FRANÇA (São Luís)

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O problema da atual ideia da “reforma íntima” não é uma questão de palavras, mas isso ter se tornado ponto central, como se a missão do indivíduo fosse se melhorar, somente. A cada dia, está demonstrado que o verdadeiro espírita, porque entendeu a luz que se lhe abriu ante os horizontes espirituais, se melhora de forma humilde, auxiliando o seu próximo com a mesma humildade, não lhe fustigando a consciência a golpes de murros e facas. A verdadeira face do bem é a cooperação, e não a disputa. O mais elevado, serve.

Luís inicia o texto afirmando: o Espiritismo é uma ciência e, como tal, espalha claridades intelectuais. O Espiritismo serve ao conhecimento, que é peça necessária para o progresso do indivíduo. Mas não basta isso: é necessário o exemplo, e disso temos várias provas na humanidade, sendo o Cristo a mais expressiva delas. Ele, que veio lavar nossos pés, demonstrou: o mais elevado, serve, dando de si mesmo o exemplo abnegado.

Ao final, Luís destaca: se somos mais instruídos, é graças às “luzes do alto”, não porque não nos cabe o esforço pessoal, mas porque, sem a cooperação caridosa daquele que está mais alto, não aprenderíamos! Aliás, aquele que entra na falsa ideia e se isola pelo egoísmo e pelo orgulho, sai da possibilidade desse aprendizado, por algum tempo. Essa é a face mais verdadeira possível da Criação, conforme o Espiritismo demonstra! A disputa, a ideia de que o mundo seja dos mais espertos, o egoísmo, o orgulho, enfim, são todas falsas concepções, ligadas às falsas ideias humanas, que conduzem o ser aos abismos que os aprisionam e dos quais cabe apenas dele o esforço em escapar. Em absoluto, são ideias que não representam a verdade sobre a Criação ou as relações como Espíritos!

Essa é uma comunicação que deve ser lida, relida, discutida e, quem sabe, colocada à cabeceira.




Somos todos Espíritos imperfeitos?

Nem todos somos imperfeitos. Essa é uma falsa ideia, quando entendida sob um determinado ângulo, como vamos demonstrar.

O Espiritismo demonstra, complementando o Espiritualismo Racional, que a imperfeição é algo desenvolvido pela repetição consciente (hábito) do erro. Ao se tornar imperfeição (chama-se “imperfeição adquirida”), pode até se tornar um vício, que demandará o esforço autônomo e também consciente para ser superado, através da escolha de provas e oportunidades em novas encarnações.

É nisso que consiste o mal: afastar-se do bem, que é a moral das leis divinas, através do desenvolvimento de imperfeições. E nem todos fazem isso. O Espírito que não desenvolveu imperfeições, ou aquele que está lutando bravamente para superá-las, está no bem ou caminhando para ele… E isso o fortalece o suficiente para vencer, também, influências exteriores, e até mesmo para repeli-las.

Mas há também o aspecto da imperfeição partindo do ponto de vista que somos todos perfectíveis. Assim, enquanto não nos tornamos Espíritos relativamente perfeitos (porque perfeito, mesmo, somente Deus pode ser), seremos imperfeitos.

Ambos os aspectos do termo são tratados por Kardec na Doutrina Espírita, e podemos provar:

Os que não se interessam apenas pelos fatos e compreendem o aspecto filosófico do Espiritismo, admitindo a moral que dele decorre, mas sem a praticarem. A influência da Doutrina sobre o seu caráter é insignificante ou nula. Não modificam em nada os seus hábitos e não se privariam de nenhum de seus prazeres. O avarento continua insensível, o orgulhoso cheio de amor-próprio, o invejoso e o ciumento sempre agressivos. Para eles, a caridade cristã não passa de uma bela máxima. São os espíritas imperfeitos.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 23a Edição. Editora LAKE

O trecho consta da parte em que Kardec está classificando os tipos de espíritas. Ora, não haveria porque classificar uma parte deles como “imperfeitos” se somos todos imperfeitos. Isso demonstra que, nesse ponto, Kardec está tratando das imperfeições adquiridas, conforme explicadas acima.

Falamos também sobre isso no artigo recente Reforma íntima e Espiritismo e, no estudo abaixo, o tema foi tratado em grupo.

É fato: estamos longe da perfeição. Na verdade, nunca atingiremos a perfeição absoluta, pois, se atingíssemos, seríamos como Deus. Atingiremos a perfeição relativa… Porém, isso não nos faz imperfeitos, mas apenas relativamente simples e ignorantes, isto é, desenvolvendo ainda a vontade e a consciência.

Em O Céu e o Inferno, na versão original e não adulterada (vide a edição produzida pela editora FEAL), essa filosofia está claramente exposta, em toda a sua racionalidade inatacável; contudo, desde o início da formação da Doutrina, essa informação já era conhecida. Basta verificar a Escala Espírita, em O Livro dos Espíritos, e veremos que, na Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos, estão apenas os Espíritos que desenvolveram imperfeições: “Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes”. E basta raciocinar: nem todo mundo desenvolve essas imperfeições, porque alguns podem escolher não repetir os erros, como já se encontra expresso em O Livro dos Espíritos:

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Mas como pode se dar isso?

Para entender esse fundamento da lei natural, precisamos compreender que o Espírito simples e ignorante é aquele em sua primeira encarnação consciente, no reino humano. Nesse estado, recém-saído do reino animal, guarda ainda todos os resquícios do instinto, que o governaram inconscientemente até então, no bem, porque o bem é estar na lei natural, e o animal que mata o outro para se alimentar está seguindo a lei natural, agindo apenas para suprir suas necessidades instintivas, com inteligência, mas sem consciência. Ao entrar no reino do homem, o Espírito consciente passa a fazer escolhas — não entre bem e mal, mas entre agir desta ou daquela forma. Essas escolhas produzirão resultados, que poderão configurar um acerto — estão dentro da lei divina — ou um erro — estão fora da lei divina, isto é, excedem a necessidade racional. O indivíduo pode, então, escolher não repetir esse erro, mas pode também escolher repeti-lo, pois é algo que, de alguma forma, lhe agrada às emoções ou lhe dá prazer. É nesse momento que desenvolve a imperfeição, se repete o erro constantemente. Mas ele pode também escolher não repetir o erro, pois percebe que lhe causa um mau efeito. Nesse sentido, ele é feliz em suas simplicidade e ignorância, sendo essa felicidade relativa à sua capacidade atual.

Isso também está em Kardec, em A Gênese:

“Se estudarmos todas as paixões, e até mesmo todos os vícios, vemos que eles têm seu princípio no instinto de conservação. Esse instinto, em toda sua força nos animais e nos seres primitivos que estão mais próximos da vida animal, ele domina sozinho, porque, entre eles, ainda não há de contrapeso o senso moral. O ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto enfraquece, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque domina a matéria. Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos”.

Na versão original dessa obra, conforme apresentada na edição da editora FEAL, Kardec complementa, dizendo que:

“Todos os homens passam pelas paixões. Os que as superaram, e não são, por natureza, orgulhosos, ambiciosos, egoístas, rancorosos, vingativos, cruéis, coléricos, sensuais, e fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é porque progrediram na sequência de suas existências anteriores, tendo se livrado desse incômodo peso. É injusto dizer que eles têm menos mérito quando fazem o bem, em comparação com os que lutam contra suas tendências. Acontece que eles já alcançaram a vitória, enquanto os outros ainda não. Mas, quando alcançarem, serão como os outros. Farão o bem sem pensar nele, como crianças que leem correntemente sem ter necessidade de soletrar. É como se fossem dois doentes: um curado e cheio de força enquanto o outro está ainda em convalescença e hesita caminhar; ou como dois corredores, um dos quais está mais próximo da chegada que o outro.”

Então, aquele que desenvolveu uma imperfeição é inferior aos que não as desenvolveram? É um mau Espírito? Deve ser castigado por isso? Não, não e não!

Aquele que desenvolveu uma imperfeição, o fez por não conhecer, em realidade, o bem, caso contrário teria agido adversamente. É apenas um erro — repetido conscientemente — e não passa disso. Não é uma característica do Espírito. Deus não cria ninguém mau, nem cria o mal. O mal não existe! É apenas a ausência do bem. É claro, portanto, que Deus não castigaria um filho seu por errar. Não: ele lhe dá a capacidade de raciocinar e a autonomia, de modo que ele mesmo possa perceber que os resultados de seus erros lhe causam sofrimento e, percebendo isso, se arrependa e demande a correção dessas imperfeições.

É nesse ponto que o espiritualismo moderno e o movimento espírita atual divergem da moral espírita original: para esses, ao entender o erro, o Espírito é obrigado a reparar OS EFEITOS, enquanto, para o último, o Espírito é deixado livre para escolher como e quando tentará reparar A IMPERFEIÇÃO (em si), o que pode ou não envolver a reparação de efeitos danosos que tenha realizado.

Aqui, cabe uma conclusão: a doutrina da “lei do retorno” ou do carma, que nunca fez parte do Espiritismo, afirma que, ao fazer mal para uma pessoa, teremos que reencarnar com ela para reparar esse erro. Contudo, já ficou estabelecido que o mal fazemos apenas para nós mesmos — se, ao cometer um erro com alguém, esse alguém escolhe cultivar um sentimento de cólera, ódio ou vingança, está fazendo o mal a si mesmo. Cabe, portanto, à autonomia de cada um se desapegar de tais sentimentos. Se o algoz fosse obrigado a reencarnar com sua vítima para reparar um erro e, por mais que se esforçasse por ter uma atitude irrepreensível no bem, a vítima escolhesse não desapegar de tais sentimentos, quer dizer que o erro não teria sido pago e demandaria quantas encarnações fossem necessárias para isso, vinculando o progresso do outro, que já voltou ao bem, à escolha do outro? E se, por outro lado, a vítima não se apegou, seguiu em frente, mas o algoz continua em suas imperfeições? Ela terá que reencarnar com ele para que ele, que ainda nem sequer entendeu seu sofrimento, “quite suas dívidas”? Não faz sentido!

Voltando ao nosso ponto, falávamos do retorno do Espírito ao bem. Em O Céu e o Inferno (editora FEAL, baseado na versão original, não adulterada), temos o seguinte:

“8º) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem”.

Sendo o castigo – ou a punição, pois não sabemos ao certo qual foi a intenção da palavra original – uma consequência do erro realizado, será um verdadeiro castigo o sofrimento inerente às imperfeições. Não é uma punição arbitrária divina, mas uma consequência da lei natural. Não há condenação: tudo depende da vontade do indivíduo em arrepender-se e demandar a reparação da imperfeição, retornando, assim, ao bem.

Finalizamos reproduzindo, uma vez mais, a recomendação de Paul Janet ((Em Pequenos Elementos de Moral, disponível aqui para download.)) a repeito dos hábitos:

É verdade que os hábitos se tornam, com o tempo, quase irresistíveis. É um fato observado com frequência; mas, por um lado, se um hábito inveterado é irresistível, o mesmo não ocorre com um hábito que começa; e assim o homem permanece livre para prevenir a invasão dos maus hábitos. É por isso que os moralistas nos aconselham acima de tudo a vigiar a origem de nossos hábitos. “Toma sobretudo cuidado com os inícios.”




Rivail e educação: “O castigo irrita e impõe. Não educa pela razão.”

Allan Kardec, antes desse pseudônimo, já produzia textos sobre a educação. É claro que seus pensamentos se modificaram e se ampliaram após o advento do Espiritismo, mas, como Hypolite Leon Denizard Rivail, muitos deles já apresentavam uma lucidez de raciocínio invejável.


Muito falamos em heteronomia e autonomia, e muito destacamos o quanto as doutrinas religiosas, adulteradas pelos cleros, e também a doutrina materialista, exercem de influência perniciosa na propagação do pensamento heterônomo. Contudo, convenhamos que, em se tratando de doutrinas, são efetivamente mais presentes na fase pós-infantil, quando o indivíduo tem a razão mais desenvolvida.

Há, contudo, um gênero de [má] educação que afeta o indivíduo desde seus primeiros passos e por toda sua infância, habituando-o aos hábitos heterônomos: aquela comumente reproduzida, irrefletidamente, pela família e pela escola, ainda hoje baseada na punição de erros pelo castigo – das mais diversas formas – e na formação de uma cultura de disputa e do “jeitinho”, isto é, de contornar as regras para vencer, posto que este se tornou o único objetivo.

Reproduziremos, muito sucintamente, uma parte do texto de Rivail, apresentado no Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública (clique aqui para baixar), que exprime muito bem algumas considerações a tal respeito.


“Há hábitos de três naturezas diferentes: são eles físicos, intelectuais ou morais. Os primeiros são os que modificam mais particularmente nossa constituição animal; os segundos consistem na posse mais ou menos perfeita de uma ciência. Assim, por exemplo, aquele que está muito familiarizado com uma língua, a fala sem esforço e sem pensar; aquele que possui perfeitamente a matemática, faz seus cálculos sem dificuldades: é isto que se pode chamar ter o hábito de uma ciência; e diga-se de passagem, é a aquisição do hábito, que se negligencia, no método comum; limita-se geralmente a uma teoria muito fugidia, que apenas roça o espírito. Por fim, os hábitos morais são aqueles que nos levam, mau-grado nosso, a fazer qualquer coisa de bom ou de mau.

A fonte desses últimos hábitos se acha, dissemos nós, nas impressões longamente ressentidas ou percebidas na infância. Concebe-se, assim, o quanto importa evitar cuidadosamente tudo o que possa fazer a criança experimentar impressões perigosas; mas não encaro apenas como más impressões, o exemplo do vício, os maus conselhos ou as conversações pouco adequadas; ninguém duvida dos funestos efeitos de semelhantes modelos e não há mãe de família que não coloque todos os seus cuidados em evitá-los; mas há um grande número de outras, minúcias em aparência, e que não deixam de exercer uma influência frequentemente mais perniciosa que o feio espetáculo do vício, de que se pode mesmo às vezes tirar partido para se fazer conceber o seu horror; quero sobretudo falar daquelas que a criança recebe diretamente nas suas relações com as pessoas que a cercam, que, sem lhe dar nem maus exemplos, nem maus conselhos, dão, porém, nascimento a vícios muito graves, como os pais, por sua fraqueza ou os mestres por uma rigidez mal entendida ou quando se toma pouco cuidado em apropriar a sua conduta ao caráter da criança quando se cede, por exemplo, às suas importunações, quando se tolera seus defeitos sob vãos pretextos, quando se submete aos seus caprichos, quando se lhe deixa perceber que se é vítima de suas artimanhas, quando não se sabe o móvel que a faz agir, e que assim se toma defeitos ou germes de vícios por qualidades, o que acontece frequentemente aos pais; quando não se leva em consideração as circunstâncias sutis que podem modificar tal ou qual ação da criança, quando sobretudo não se leva em conta as nuanças de caráter, faz-se que ela experimente impressões que são frequentemente a fonte de vícios muito graves. Um sorriso, quando seria preciso ser sério; uma fraqueza quando seria preciso ser firme; a severidade quando seria preciso a doçura; uma palavra sem pensar, um nada, enfim, bastam às vezes para produzir uma impressão indelével e para fazer germinar um vício.
Que se passará então quando essas impressões forem ressentidas desde o berço, e frequentemente durante toda a infância? Nesse aspecto, o sistema de punições é uma das partes mais importantes a serem consideradas na educação; pois elas são comumente a fonte da maior parte de defeitos e vícios. Frequentemente muito severas ou infligidas com parcialidade e num momento de mau-humor, elas irritam as crianças em vez de convencê-las. Quantas artimanhas, quantos meios de desvio, quantas fraudes não empregam elas para as evitar! É assim que se joga nelas as sementes da má-fé e da hipocrisia e este é muitas vezes o único resultado que se obtém. A criança irritada, e não persuadida, se submete somente à força; nada lhe prova que ela agiu mal; ela sabe apenas que não agiu conforme a vontade do mestre; e esta vontade ele a considera, não como justa e razoável, mas como um capricho e uma tirania; ela se acredita sempre submetida ao arbítrio.

Como se faz com que ela sinta comumente mais a superioridade física do que a superioridade moral, ela espera com impaciência ter ela própria bastante força para se subtrair a isso; daí este espírito hostil que reina entre os mestres e os seus alunos. Não há entre eles nenhuma confiança recíproca, nenhum apego; há ao contrário uma troca contínua de ardis; leva a melhor quem é bastante esperto para surpreender o outro e sabe-se já quem ganha o mais frequentemente. São dois partidos que, quando não estão em guerra aberta, estão continuamente desconfiando um do outro. Como é possível fazer uma boa educação em semelhante estado de coisas?

RIVAIL, H.L.D. Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública. Paris, 1828.


Constatamos o quão importante é resgatar essa base educacional, pautada pela moral. Adicionamos a importância de entender a moral trazida por pensadores como Paul Janet (clique aqui para baixar uma de suas obras). Se você gostou deste artigo e vê sua importância, faça mais: compartilhe-o com quem você puder!




O que o Espiritismo diz sobre a pornografia?

O que o Espiritismo tem a dizer sobre a pornografia? Esse é um assunto complicado, porque não é um assunto que tenha sido tratado diretamente pela Doutrina. Para falar sobre isso, precisamos extrapolar conhecimentos e entendimentos que a Doutrina nos dá.

O Espiritismo coloca, acima de tudo, a liberdade de consciência e a autonomia. Fique isso constado, como resultado do estudo da Doutrina Espírita em seu conteúdo moral e filosófico.

À parte desse princípio, vamos verificar no Espiritismo, desenvolvendo o pensamento do Espiritualismo Racional, que o homem pode adquirir maus hábitos pela repetição de um ato relacionado ao prazer. Isso pode se transformar em uma imperfeição, que se torna um vício, do qual muito custará ao Espírito o trabalho de superação, através do esforço reencarnatório CONSCIENTE e AUTÔNOMO.

Paul Janet fala sobre isso em Pequenos Elementos de Moral, o qual recomendo muito a leitura (clique aqui para baixar):

20 Os hábitos. – É verdade que os hábitos se tornam, com o tempo, quase irresistíveis. É um fato observado com frequência; mas, por um lado, se um hábito inveterado é irresistível, o mesmo não ocorre com um hábito que começa; e assim o homem permanece livre para prevenir a invasão dos maus hábitos. É por isso que os moralistas nos aconselham acima de tudo a vigiar a origem de nossos hábitos. “Toma sobretudo cuidado com os inícios.”

O grande problema de entrar nos hábitos materialistas – que são aqueles que sobrepujam as necessidades fisiológicas – é que, desenvolvendo apegos, não só nos será mais difícil e dolorosa a desligação da matéria, no momento da morte, como também atrairemos as “nuvens de testemunhas”, Espíritos também apegados a tais vícios. Normalmente, isso nos levará a viver num contexto espiritual e social conturbado e difícil.

Mas, veja: não existe pecado. Existe erro. Ninguém será castigado por errar, nem por escolher, conscientemente, se apegar a um vício ou mau hábito qualquer; contudo, os resultados de nossas escolhas podem ser danosos para nós, o que podemos chamar de punição, o que, de todo, não é uma imposição deliberada de Deus.

Cumpre destacar que ninguém deveria se martirizar por uma imperfeição ou mau hábito qualquer a ponto de ficar mal. É preciso o trabalho de formiguinha, talvez lento, mas constante, de modo a não fazer como aqueles que prometem não comer doces no novo ano, mas, sendo um compromisso muito pesado, falem após os primeiros dias, dizendo, então: “não sou forte, é impossível. Vou, portanto, comer tudo o que quiser, sempre que quiser”. Essa figura, aliás, representa a exata imagem da não utilização da razão para conter o instinto. Kardec, em A Gênese, complementa:

O homem que só pelo instinto agisse constantemente poderia ser muito bom, mas conservaria adormecida a sua inteligência. Seria qual criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse utilizar-se de seus membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteligente, porém, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.

Todos os homens passam pelas paixões. Os que as superaram, e não são, por natureza, orgulhosos, ambiciosos, egoístas, rancorosos, vingativos, cruéis, coléricos, sensuais, e fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é porque progrediram na sequência de suas existências anteriores, tendo se livrado desse incômodo peso. É injusto dizer que eles têm menos mérito quando fazem o bem, em comparação com os que lutam contra suas tendências. Acontece que eles já alcançaram a vitória, enquanto os outros ainda não. Mas, quando alcançarem, serão como os outros. Farão o bem sem pensar nele, como crianças que leem correntemente sem ter necessidade de soletrar. É como se fossem dois doentes: um curado e cheio de força enquanto o outro está ainda em convalescença e hesita caminhar; ou como dois corredores, um dos quais está mais próximo da chegada que o outro.”

Kardec, A Gênese, 4.ª edição — Editora FEAL




Um convite à cooperação

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Iremos para algum lugar após a morte? O que ensina o Espiritismo sobre a vida futura?

Por Suely G. O. Caine

Sabemos o quão é instintivo e data dos primórdios a ideia de continuidade da existência do espírito, após a morte do corpo. Os comentários à pergunta 148 de O Livro dos Espíritos destacam essa questão:

(…) O homem tem instintivamente a convicção de que tudo não se acaba para ele com a vida; tem horror ao nada; é em vão que se obstina contra a ideia da vida futura, e quando chega o momento supremo, são poucos os que não perguntam o que deles vai ser, porque a ideia de deixar a vida para sempre tem qualquer coisa de pungente. Quem poderia, com efeito, encarar com indiferença uma separação absoluta e eterna de tudo o que ama? 

(…)

Ninguém, costuma-se dizer, voltou de lá para nos dar conta do que existe. Isto, porém, é um erro, e a missão do Espiritismo é precisamente a de nos esclarecer sobre esse futuro, a de nos fazer, até certo ponto, vê-la e tocá-lo, não mais pelo raciocínio, mas através dos fatos. Graças às comunicações espíritas, isto não é mais uma presunção, uma probabilidade sobre a qual cada um imagina à vontade, que os poetas embelezam com suas ficções ou enfeitam de imagens alegóricas que nos seduzem. É a realidade que nos mostra a sua face, porque são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm contar a sua situação, dizer-nos o que fazem, permitem-nos assistir, por assim dizer, a todas as peripécias da sua nova vida e por esse meio nos mostram a sorte inevitável que nos está reservada, segundo os nossos méritos ou os nossos delitos.”

Pois bem! Não há que se considerar que ninguém tenha “voltado” para contar como se encontra no plano espiritual, eis que são inúmeros os relatos, estudos realizados em torno de narrativas obtidas em sessões mediúnicas, às vezes com ricos detalhes, que Kardec colheu e reuniu através de um método científico desenvolvido, e no capítulo VIII, As penas futuras segundo o Espiritismo, de o livro O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, esclarece:

“A Doutrina Espírita, no que se refere às penas futuras, não é mais fundada sobre uma teoria preconcebida do que suas outras partes. Em tudo ela se apoia sobre observações, sendo isso o que lhe dá autoridade. Ninguém então imaginou que as almas, após a morte, devessem se encontrar nesta ou naquela situação. São os próprios seres que deixaram a Terra que vêm hoje – com a permissão de Deus e porque a humanidade entra numa nova fase – nos iniciar nos mistérios da vida futura, descrever sua posição feliz ou infeliz, suas impressões e sua transformação na morte do corpo. Os espíritos vêm hoje, em suma, completar nesse ponto o ensino do Cristo.”

Mas… afinal… nos encontraremos em um lugar circunscrito na vida espiritual? A resposta é negativa; não há registros na doutrina espírita de locais reservados aos sofredores ou felizes e nem eventuais subdivisões.

O Espiritismo nos ensina que o espírito necessitado de progresso, que guarda apego à matéria, comunga do mundo ao qual, naturalmente, mantém afinidade, ao qual possui uma atração, ao passo que aquele que evoluiu, tendo se desapegado da matéria, percorre mundos diferentes. As respostas 232 e 233 de O Livro dos Espíritos esclarecem a questão:

232. No estado errante os Espíritos podem ir a todos os mundos? – Conforme. Quando o Espírito deixa o corpo, ainda não está completamente desligado da matéria e pertence ainda ao mundo em que viveu ou a um mundo do mesmo grau; a menos que, durante sua vida, tenha se elevado. Esse é o objetivo a que deve voltar-se, pois sem isso jamais se aperfeiçoaria. Ele pode, entretanto, ir a alguns mundos superiores, passando por eles como estrangeiro. Nada mais faz do que os entrever, e é isso que lhe dá o desejo de se melhorar, para ser digno da felicidade que neles se desfruta e poder habitá-los.

233. Os Espíritos já purificados vêm aos mundos inferiores? – Vêm frequentemente, a fim de os ajudar a progredir; sem isso, esses mundos estariam entregues a si mesmos, sem guias para os orientar.

Não obstante, frequentemente, nos depararmos com mensagens de espíritos que narram que se encontram em determinados locais de sofrimento, ou que experimentam sensações físicas, tais retratam as ilusões que o espírito apegado à matéria pode criar para si, mas que não passam de uma percepção pessoal do espírito que o narra, e que, portanto, não é universal. 

Do que podemos depreender é que o estado feliz ou infeliz é inerente ao grau da depuração ou das imperfeições do espírito, conforme podemos concluir através da leitura dos itens 1° até 25° do capítulo VIII As penas futuras segundo o Espiritismo, de o livro O Céu e o Inferno, ou a justiça divina segundo o Espiritismo, com destaque aos itens 1° ao 3° abaixo transcritos:

1°) A alma ou espírito sujeita-se, na vida espiritual, às consequências de todas as imperfeições das quais ela não se despojou durante a vida corporal. Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou de suas imperfeições. 

2°) Sendo todos os espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso, trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futura e os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprio adiantamento. 

3°) A felicidade perfeita está ligada à perfeição, ou seja, à depuração completa do espírito. Toda imperfeição é uma causa de sofrimento, da mesma forma que toda qualidade adquirida é uma causa de satisfação e de atenuação dos sofrimentos; donde resulta que a soma da felicidade e da infelicidade está na razão da soma das qualidades boas ou más que possui o espírito.

Todavia, nos atentemos para o estudo da primeira edição de o livro O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo e de o livro A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, eis que sobre tal edição não pairam as adulterações constatadas nas 4ª e 5ª edições dos mencionados livros, respectivamente.

Outra informação obtida através do método da universalidade dos espíritos, e que compõe a doutrina espírita é que os espíritos se reúnem por uma espécie de afinidade (não associada à ideia de afinidade meramente material) e formam grupos, de acordo com a resposta 278 de O Livro dos Espíritos:

278. Os Espíritos de diferentes ordens estão misturados? – Sim e não; quer dizer, eles se veem, mas se distinguem uns dos outros. Afastam-se ou se aproximam segundo a semelhança ou divergência de seus sentimentos, como acontece entre vós. É todo um mundo, do qual o vosso é o reflexo obscuro. Os da mesma ordem se reúnem por uma espécie de afinidade, e formam grupos ou famílias de Espíritos unidos pela simpatia e pelos propósitos; os bons, pelo desejo de fazer o bem; os maus, pelo desejo de fazer o mal, pela vergonha de suas faltas e pela necessidade de se encontrarem entre os seres semelhantes a eles. Igual a uma grande cidade, onde os homens de todas as classes e de todas as condições se veem e se encontram, sem se confundirem, onde as sociedades se formam pela similitude de gostos, onde o vício e a virtude se acotovelam, sem se falarem.

Na Revista Espírita maio/1858, sob o título Metades Eternas , o espírito São Luís também deixa interessantes apontamentos: 

“Não. Não existe uma união particular e fatal de duas almas. Existe a união entre todos os Espíritos, mas em graus diferentes, segundo a posição que ocupam, isto é, segundo a perfeição adquirida: quanto mais perfeitos, mais unidos. Da discórdia brotam todos os males humanos; da concórdia resulta a felicidade completa.

(…) 3 ─ Uma vez unidos, dois Espíritos perfeitamente simpáticos permanecem unidos para a eternidade ou podem separar-se e unir-se a outros Espíritos? Todos os Espíritos estão unidos entre si. Falo dos que chegaram à perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito se eleva, não é mais simpático àqueles que deixou. 4 ─ Dois Espíritos simpáticos são o complemento um do outro ou essa simpatia é o resultado de uma perfeita identidade? A simpatia que atrai um Espírito para outro resulta da perfeita concordância de suas inclinações e de seus instintos. Se um devesse completar o outro, perderia sua individualidade.”

Essas são reduzidas reflexões a respeito do assunto. E quais são as suas? Quais textos você conhece que poderiam ampliar nossos estudos? Bora estudar conosco?!

Fontes de estudo:




Estamos com a faca e o queijo em mãos, e com fome

“Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora. Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade. – Constantino, Espírito Protetor. (Bordéus, 1863.)”

“Não mais vos assusteis! As línguas de fogo estão sobre as vossas cabeças. Ó verdadeiros adeptos do Espiritismo!. . . sois os escolhidos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai. Convosco estão os Espíritos elevados.” – Erasto, anjo-da-guarda do médium. Paris, 1863.

O Evangelho segundo o Espiritismo » Capítulo XX – Os trabalhadores da última hora » Instruções dos Espíritos » Os últimos serão os primeiros.

Como sempre, não podemos tomar nada literalmente. É claro que não podemos deixar de lado o trabalho, necessário para o sustento da carne, nem mesmo os momentos de alegria ou relaxamento, necessários à saúde do corpo… Também não significa sair às ruas incomodando os outros com falatórios sobre reencarnação. Mas significa estudar e produzir. Podemos, com um pouco que cada possa estudar e fazer, fazer muito mais. Trabalhemos, amigos.

É fato que somos eternos, mas não queremos alcançar mais cedo a felicidade daquele que vive no bem, sem a mácula das imperfeições? E não desejamos isso também para nossos irmãos? Faz cerca de 150 anos que a moral espírita deixou de se desenvolver. Estamos com a faca e o queijo em mãos, e com fome. Vamos estudar?




Grupos de Estudos do Espiritismo

Ficam, aqui, algumas sugestões de estudos importantes do Espiritismo, realizados por nós e por grupos irmãos.

Estudos da Revista Espírita – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec:

Estudos da obra Revolução Espírita – Filosofia e Educação Moral

Estudos de O Céu e o Inferno – Grupo de Estudos Espiritismo para Todos – EPT:

Estudos de A Gênese – Grupo de Estudos Espiritismo para Todos – EPT:

Estudos da obra Ponto Final, de Wilson Garcia – Grupo de Estudos Espiritismo para Todos – EPT:

Bate-papo do EPT

Clique para conhecer:

https://www.geolegadodeallankardec.com.br/artigos/category/bate-papo-espiritismo-para-todos/