Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrinatudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni PrivatoJúlio NogueiraLucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita

O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.

Tudo começou com a leitura de Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec, de Wilson Garcia. O fato inconteste, finalmente vem dar luz às nossas dúvidas: a Federação Espírita Brasileira é uma instituição de tradição e raízes roustainguistas, desde seus primeiros passos!

Roustaing

Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.

Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.

Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão ((Antônio Luis Sayão, esse mesmo, cultuado pela FEB)), ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.

FEB, roustainguista

Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.

“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.

O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Ata da Reunião Ordinária do CFN – 2018. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2019/01/CFN_FEB_Ata_da_Reuniao_Ordinaria_de_2018.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB ((NOGUEIRA, Julio. Breve exame dos estatutos da FEB. Disponível em: http://www.telma.org.br/artigos/breve-exame-dos-estatutos-da-federacao-espirita-brasileira-1883-1924-mudanca-de-orientacao-inicial-inclusao-de-roustaing-so-realizada-na-reforma-estatutaria-de-1917-criacao-de-sistema-de-poder-exclusivista-que-nao-nasce-do-consenso-ent. Acesso em: 24 jun. 2024.))”, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.

A FEB deixou o roustainguismo?

A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:

“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.

CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB – Federação Espírita Brasileira, 1938. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…

Cita Sérgio Aleixo:

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

ALEIXO, Sérgio. O roustainguismo nas obras de Chico Xavier. Disponível em: https://memoriaspirito.wordpress.com/roustainguismo-herculano-pires/roustainguismo-chico-xavier-sergio-aleixo/. Acesso em: 24 jun. 2024.

Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:

https://www.febnet.org.br/ba/file/Horarios/3_feira_O_Evangelho.pdf

Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:

http://www.sistemas.febnet.org.br/site/az/AZ-Vocabulos-e-Conceitos.php?CodVoc=380&L=3&busca=&CodLivro=

Movimento Espírita afastado do Espiritismo

Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:

Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.

Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:

Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:

“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”

ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.

Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.

É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…

Plano de Campanha

Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.

Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.

No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.




Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos

Boas-vindas

Bem-vindos a esta jornada, amigos de Kardec! Que satisfação vê-los aqui, almas queridas, buscando o aprendizado tão importante e do qual os espíritas se desviaram, há muito….

Atentem para a formação deste grupo ou dos demais. A iniciativa é seria e o assunto é grave. Os inimigos da doutrina novamente se agitam, pois que ela volta, agora, com toda a força, para cumprir aquilo que se propôs, há mais de um século. A humanidade grita: meu Deus, onde as respostas? Não encontrando a felicidade almejada, dia após dia, sem conseguir respostas satisfatórias, lançam-se às penúrias do materialismo desenfreado, do sensualismo, dos vícios e, muitos, não suportando ou não tendo maiores perspectivas, terminam por tirar a própria vida, para descobrir, afinal, que de nada isso adiantou.

O assunto, veem, é grave, e grave é a responsabilidade de todos os que se retiram do estudo, por orgulho e vaidade, para dar aos outros o lúgubre aspecto das opiniões construídas sobre distorções e adulterações.

É chegada a hora, meus amigos, de restabelecer aquilo que ficou para trás. É chegada a hora de multiplicar esforços e de semear, por toda a parte. Mas, atenção, pois os inimigos do bem, tristes indivíduos que ainda não conseguiram perceber o buraco que cavam para eles mesmos caírem, tentarão se estabelecer entre vocês. Mantenham-se em guarda, portanto, e não se esquivem da responsabilidade de manter a harmonia no grupo, abordando cada um que traga desarmonia ou desordem.

Confiem neste grupo, O Legado de Allan Kardec, que tem a particularidade de ser um raro grupo, neste planeta, formado com tanta identidade, tanta harmonia, tantos propósitos sérios, estabelecidos no passado, de trabalhar pela recuperação dessa Doutrina esquecida.

Sejam preces ambulantes, por suas disposições internas e pela aplicação dos princípios aprendidos às suas próprias vidas, e manterão, junto a vocês, a companhia de bons Espíritos, encarnados ou desencarnados. Não esqueçam: os bons Espíritos, seus anjos guardiões ou Espíritos protetores, abençoam esta empreitada e estarão junto a cada um de vocês, inspirando-os e intuindo-os.

União, fé, amor e caridade: este, o lema que cada indivíduo deve carregar no peito, aplicado em todo o seu entendimento e em toda a sua extensão, a si e no contato com os demais.

União: a unidade garantida pelos propósitos legítimos e pelo entendimento adequado do Espiritismo

Fé: a fé raciocinada, tão esquecida pelo Movimento Espírita, construída do entendimento racional, sem dúvidas possíveis, dos princípios da Doutrina Espírita.

Amor: o amor ao próximo, como a si mesmo. É necessário paciência e perseverança consigo mesmo, além de reconhecimento dos passos já dados, do caminho já percorrido. O mesmo deve ser aplicado aos demais.

Caridade: a caridade verdadeira é o dever moral, cumprido sem esperança de premiação ou reconhecimento. É o compartilhar, o aprender e o ensinar. Esse é o bem, a felicidade, e é por retirar-se desse papel que o indivíduo se lança nos despenhadeiros do personalismo, do egoísmo, do orgulho.

A partir de agora, esqueça os romances, esqueça o que aprendeu no Movimento Espírita ou no Centro Espírita. A partir de agora você está começando do zero e vai aprender o Espiritismo da maneira certa!

Orientações gerais

  1. A ideia é auxiliar na formação de um novo grupo ou mais, onde os participantes cuidarão de se organizarem a esse respeito. Nós daremos toda a orientação e o suporte necessários. Precisamos que uma ou mais pessoas se apresentem como iniciadores do núcleo central do grupo, de maneira pró-ativa.
  2. A proposta é que vocês criem um ou mais grupos, organizando-se entre vocês. Estaremos, junto ao meu grupo, no papel de apoiadores e orientadores.
  3. Pontualmente, poderemos elaborar estudos especiais, com a participação do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, ou de vocês conosco.
  4. Comecem estudando “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo” e “Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal”, de Paulo Henrique de Figueiredo. Alternativamente, assistam aos vídeos destacados no tópico Materiais para estudos.
  5. Estimulamos que vocês comecem necessariamente pelo estudo da Revista Espírita. Após o estudo dos dois primeiros anos, enquanto continuam esse estudo, poderão ver a necessidade de criar um novo horário para estudar O Livro dos Médiuns. Nesse ponto, vocês estarão muito mais maduros para esse estudo.
  6. O estudo deve ser ao-vivo, por vídeo ou pessoalmente. WhatsApp é ferramenta de apoio.
  7. Não devem existir professores. Todos devem se colocar na condição de estudante que não conhece nada do Espiritismo. Foi assim que começamos.
  8. Sugestão:

    • Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo.
    • Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo.
    • No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim o grupo sai da leitura maçante.
    • Quem não fizer o estudo antes acabará tendo a possibilidade de não entender adequadamente o conteúdo. Isso é um estímulo ao estudo.
    • Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos.
    • As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, poderão ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições;

  9. Criem regras. Vejam as nossas sugestões no tópico seguinte, Sugestão de regras.
  10. Aprendam a não sistematizar conclusões sobre os artigos da Revista Espírita. Kardec deixa bem claro quando um estudo qualquer está devidamente concluído, ao menos de momento. Muitos artigos são apresentados como hipóteses, apenas.
  11. Criem documentos no Google Drive com o conteúdo de cada estudo, e façam um estudo prévio, fazendo anotações e comentários nesse documento. Isso ajuda a enriquecer o aprendizado.
  12. Não visem números. Prefiram qualidade. Estudem em pequenos grupos, coesos, harmoniosos, e não tenham medo de chamar a atenção, com firmeza e caridade, daqueles que eventualmente destoem das regras e da harmonia do grupo.
  13. Deixem os romances mediúnicos e demais obras de lado. O estudo das obras de contextualização e das obras de Kardec já lhes tomará bons anos.
  14. Não busquem Espiritismo prático (reuniões mediúnicas), de início. Se houverem médiuns entre vocês, sobretudo com a mediunidade muito aflorada, é importante formar um grupo à parte, ainda mais coeso e harmonioso. Muitos cuidados serão necessários. Nesse caso, não deixem de buscar apoio em nós.
  15. Sobretudo, não se esqueçam de manter contato conosco. Cuidaremos de registrar sua(s) iniciativa(s) em nosso site e ficaremos muito felizes de podermos trocar experiências e aprendizados com vocês.
  16. Evitem apenas produzir longos vídeos para o Youtube. Foquem, principalmente, conforme o aprendizado for se estabelecendo, em produzir vídeos curtos e, principalmente, textos em blogs, de maneira colaborativa (textos em blogs são facilmente encontrados em pesquisas do Google).
  17. À medida do possível, envolvam também os jovens nesse trabalho de aprendizado, seja nos seus próprios grupos, seja incentivando-os a formarem novos grupos. Espalhem esse propósito.

Sugestão de regras

Estudos da Revista Espírita, em grupo

OBJETIVO DO GRUPO

  • O nosso principal objetivo é conhecer o Espiritismo em sua essência e aplicar esse conhecimento em nossas próprias vidas. Ao mesmo tempo, porém, desejamos fazer isso de uma forma simples, clara e amistosa, de modo que nossos estudos sejam facilmente entendidos pelo público, razão pela qual realizamos um estudo prévio e a elaboração de um conteúdo, de forma que possamos extrair o melhor de cada assunto.
  • Após cada estudo, visamos produzir artigos, neste site, que complementem e formalizem o estudo, mas que também permitam a inclusão de deficientes auditivos. É por isso, principalmente, que os estudos precisam ser simples e, em simultâneo, profundos como possível.
  • Diferentemente de outros estudos do Espiritismo, que partem de obras conclusivas, nós estamos partindo de um periódico que demonstra o método de exploração, de raciocínio e de dedução de Allan Kardec, na construção do Espiritismo (aqui entendido na parte humana dessa ciência). Existe um enorme ganho em fazer assim, mas não estamos desatentos aos assuntos que precisam ser complementados com conclusões posteriores, de modo a não ficarem “capengas”, como é o caso da teoria dos fluidos, abandonada por Kardec em sua obra final, A Gênese.
  • A Revista Espírita, diferentemente de outras obras, é um periódico que combina:

    • assuntos e “causos” da época — que, longe de serem desinteressantes, serviam para dar suporte à Doutrina, baseado no cotidiano dos fatos espíritas vivenciados dentre a população mundial, mas que, do ponto de vista atual, muitas vezes não tem muita relevância para o nosso estudo
    • escritos muito mais densos e bem elaborados por Kardec, com extrema perspicácia, que pouco a pouco, e de forma muito organizada, vão construindo toda essa ciência que é o Espiritismo — ciência desconhecida e esquecida atualmente.

  • A importância da Revista Espírita não é apenas moral, mas também prática. Ao estudá-la, vemos uma constante construção de conhecimentos, ao mesmo tempo em que constantemente vemos uma desconstrução de falsos conceitos atuais, como você precisa entender no artigo “O que é a Revista Espírita e como estudá-la?. Eis mais um motivo para o formato do nosso estudo, pois os falsos conceitos não se quebram aos golpes.
  • O Espiritismo precisa ser resgatado e conhecido em sua essência, tanto moral como prática, de modo que possamos retomar os estudos dessa Doutrina, junto aos Espíritos. Esse estudo tem um importantíssimo papel nesse sentido.
  • Hoje sabemos, afinal, que essa ciência não andava sozinha: muito longe disso, ela era um desenvolvimento do Espiritualismo Racional e uma “irmã gêmea”, como disse Kardec, do Magnetismo. É por isso que, oportunamente, abordamos esses conhecimentos, de forma simples, prática e pontual, já que, para se aprofundar sobre esses dois temas, recomendamos sempre a leitura das obras Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo e Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal, ambas de Paulo Henrique de Figueiredo, dentre outras (veja nossa lista de obras recomendadas).

Premissas

  • Neste grupo, partimos da conclusão que as duas últimas obras de Kardec, O Céu e o Inferno e A Gênese, foram adulteradas. Podemos indicar o porque de termos chegado a essa conclusão, mas não discutiremos sobre isso, posto que os fatos estão aí para cada um verificar.
  • Neste grupo, estuda-se o Espiritismo com base nas obras de Kardec, necessariamente. Isso não quer dizer que outras obras e outros autores não possam ser tratados, mas isso se fará desde que o que se busque seja a busca pela compreensão e pela aproximação, baseando-se no Espiritismo, e não para mero confronto.
  • A premissa mais básica de todas é o estudo. Ter lido aleatoriamente O Livro dos Espíritos ou O Evangelho Segundo o Espiritismo não é estudo. Estamos longe de ter abarcado o entendimento da doutrina por completo, mas existem pontos fundamentais que carecem de dedicação para serem compreendidos. Conte com o grupo para indicar e sugerir caminhos e conteúdos de importância.

REGRAS TÉCNICAS

  1. Entre nos nossos grupos do WhatsApp e do Telegram. É por eles que manteremos a comunicação direta com os demais integrantes. Se tiver os dois, entre nos dois.
  2. Não será dado a ninguém o direito de dar palavras finais sobre aquilo que não está devidamente estabelecido na Doutrina. Será, contudo, tomado o cuidado de, para cumprir essa regra, não recair em falta às regras n. 4, 5 e 6.
  3. Assim como Kardec tratava as opiniões de Espíritos desencarnados, tratamos as opiniões das almas encarnadas, isto é, aquilo que é apenas uma opinião, será tratado apenas como uma simples opinião e dela não faremos sistemas.
  4. Devemos evitar que qualquer tema que fuja daquele principal ou qualquer ponto de discórdia seja extenuadamente abordado durante o estudo, para não haver desvios e monopólio de palavras ou opiniões. O que fazer, nesses casos: buscar estudar, em Kardec, o assunto em questão e apresentar, em nova oportunidade, os resultados encontrados. O desrespeito a essa regra de bom-tom será prontamente interrompido por intercessão dos administradores.
  5. Todos têm a liberdade de chegar às suas próprias conclusões, levados pela própria razão, resguardados os objetivos do estudo e a base doutrinária. Por exemplo, o tema sobre a existência de colônias espirituais não está devidamente consolidado, mas a questão da reencarnação está. Se aquilo que está consolidado, na Doutrina, não foi aceito pela razão de determinada pessoa, ela com certeza se sentirá inclinada a deixar os estudos, já que não lhe falam à razão. O que não será aceito será a sistematização de opiniões pessoais no Grupo, conforme exposto acima.
  6. Não serão abordados temas políticos e religiosos (este, no sentido em que possa trazer qualquer inquietação ou humilhação. Lembramos que o Espiritismo está aberto a pessoas de todas as crenças). Aqui, parafraseamos Kardec, em Viagem Espírita em 1862:

[…] deve-se abster, nas reuniões, de discutir dogmas particulares, o que, certamente, melindraria certas consciências, ao passo que as questões de moral são de todas as religiões e de todos os países. O Espiritismo é um terreno neutro, sobre o qual todas as opiniões religiosas podem encontrar-se e se dar as mãos. Ora, a desunião poderia nascer da controvérsia. Não vos esqueçais de que a desunião é um dos meios pelos quais os inimigos do Espiritismo buscam atacá-lo; é com esse objetivo que muitas vezes eles induzem certos grupos a se ocuparem de questões irritantes ou comprometedoras, sob o pretexto especioso de que não se deve colocar a luz sob o alqueire. Não vos deixeis prender nessa armadilha, e que os dirigentes de grupos sejam firmes para repelirem todas as sugestões deste gênero, se não quiserem passar por cúmplices dessas maquinações”.

  1. O grupo não visa, atualmente, realizar qualquer tipo de “trabalho mediúnico”, o que, se um dia acontecer, demandará a criação de reuniões particulares e com os devidos cuidados para tanto.
  2. Pelo mesmo motivo acima, não vemos necessidade de sermos tão restritivos quanto às novas adesões, isto é, os novos aderentes não carecem de serem versados em Espiritismo, mas devem, de sua própria parte, fazerem estudos basilares necessários, quando não conhecerem a essência da Doutrina Espírita (que não é aquela adquirida pela leitura de romances). Recomendamos, para esse fim, ao menos a leitura das brochuras O que é o Espiritismo e Espiritismo em sua expressão mais simples.
  3. Nossas reuniões de estudo são transmitidas ao vivo no Youtube, ou são gravadas para posterior publicação nessa plataforma e em outras. Todo aquele que participar dos estudos deve estar ciente e de acordo com esse ponto fundamental.
  4. O Grupo faz uso do site https://www.geolegadodeallankardec.com.br e das plataformas virtuais diversas para divulgar o Espiritismo. Quem se sentir interessado em fazer parte disso, criando textos que possam auxiliar, devem contatar os administradores do Grupo.
  5. Todas as mídias digitais contam com outros colaboradores, igualmente colocados em função de administração, que possam cuidar do prosseguimento na eventual ausência, por tempo limitado ou indefinida, de minha parte.
  6. Tomaremos a liberdade de interromper qualquer áudio ou câmera que esteja atrapalhando a reunião.
  7. Ao participar da sala de reunião do Zoom, você está ciente que terá seu áudio e/ou vídeo compartilhados publicamente através da Internet (mais informações no formulário de inscrição, abaixo).
  8. O horário oficial de início dos estudos, com a transmissão via YouTube, é as 19:25.
  9. O período permitido para a entrada de participantes, na sala de espera (onde aprovaremos ou não sua entrada, segundo o preenchimento ou não do formulário abaixo) vai das 19:10 às 19:25. Depois disso, a permissão de entrada ficará exclusivamente sob critério dos anfitriões do grupo.
  10. A previsão de término da reunião é por volta de 20:40, às vezes se estendendo um pouquinho a mais.
  11. Antes de entrar, certifique-se de estar em ambiente favorável à participação, tanto visualmente quanto sonoramente, além de estar vestido adequadamente.
  12. De preferência, use um computador para a participação, onde será mais fácil interagir pelo chat do grupo.
  13. Por questões de organização, a reunião no Zoom e seus conteúdos didáticos são conduzidos por um integrante, que coordenará as participações de um e outro que desejem se expressar.
  14. Ao tomar a palavra, cuide para não estender demais o assunto para áreas que fujam do tema principal. Lembre-se: são 11 anos de Revista a abordar, dentre artigos acessórios e artigos fundamentais, muitas vezes com conteúdos intrinsecamente ligados entre edições diferentes, e, ainda por cima, junto aos conteúdos doutrinários complementares, tanto de Kardec, como de outros autores. Não queremos correr, mas não podemos perder tempo.
  15. Todos aqueles que desejem participar ativamente, questionando ou opinando sobre os artigos em pauta, devem observar a seguinte organização:

Fazer a leitura dos artigos relacionados ao tema ANTES da reunião de estudos. Isso permitirá que você sempre esteja a par dos assuntos, à medida que puderem ser abordados conforme o tempo disponível e a extensão de cada assunto. Reiteramos: a Revista Espírita, para estudos em grupo, não é algo que possa ser lido linha-a-linha, sem uma leitura prévia, já que muitos assuntos apresentam uma extensão formidável.

Sugestão:

  1. Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo. 
  2. Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo. 
  3. No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim a gente sai da leitura maçante
  4. Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos, como foi o caso do remorso e como poderá ser o caso, talvez, da frenologia (RE60/jun)
  5. As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, cremos que devem ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições.

22. Não se desmotive caso precise se afastar por algum tempo ou caso não possa estar sempre presente. Isso acontece com todos. Continue os estudos de sua parte e volte assim que possível.

23. Reitero, por fim, o nosso objetivo de construção sobre o diálogo. Assim, nos ajude a estabelecer esse diálogo, utilizando as redes sociais para isso também.

Preencha o formulário seguinte com os dados necessários para sua admissão na reunião. Não aceitaremos entradas de pessoas não registradas.

Materiais para estudos

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 > Dezembro > Organização do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868 > Dezembro > Constituição transitória do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Plano de campanha – Era nova – Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Os Espiões

O que é a Revista Espírita e como estudá-la? – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

Obras Recomendadas – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Andragogia

AUTONOMIA – A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA DO ESPIRITISMO – Paulo Henrique de Figueiredo

Seminário: “Magnetismo” com Paulo Henrique Figueiredo

O Bem e o Mal, Castigos e Recompensas, Sombra e Luz – Paulo Henrique de Figueiredo – 1a Parte

Link para download de todos os PDFs das obras de Kardec:

Allan Kardec Brasil

Como pesquisar nos PDFs: https://www.youtube.com/watch?v=kgjdgIiHLJk

Contato (Paulo): Clique aqui.

Foto de Greta Hoffman : https://www.pexels.com/pt-br/foto/jardim-fazenda-sitio-chacara-7728883/




A mais dura comunicação mediúnica recebida por Kardec: Plano de campanha contra o Espiritismo

No dia 10 de novembro de 1867, pelo médium Sr. T…, Kardec recebeu uma comunicação muito séria, a respeito do papel dos inimigos na luta contra o Espiritismo. Reproduzimos o artigo abaixo, na íntegra, dada a sua importância para todos os seriamente interessados no Espiritismo, já que ela demonstra os artifícios do plano de campanha contra o Espiritismo.

Plano de campanha — Era nova — Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

(Paris, 10 de novembro de 1867 — Médium: Sr. T… Em sono espontâneo)

NOTA: Nessa sessão, nenhuma pergunta prévia provocara o assunto que foi tratado. A princípio o médium se havia ocupado de saúde, depois, pouco a pouco, viu-se conduzido às reflexões cuja análise damos a seguir. Ele falou durante cerca de uma hora, sem interrupção.

Os progressos do Espiritismo causam aos seus inimigos um terror que eles não podem dissimular. No começo brincaram com as mesas girantes, sem pensar que acariciavam uma criança que devia crescer… A criança cresceu… então eles pressentiram o seu futuro e disseram para si mesmos que em breve estariam com a razão… Mas, como se costuma dizer, o menino tinha vida dura. Resistiu a todos os ataques, aos anátemas, às perseguições, mesmo às troças. Semelhante a certos grãos que o vento carrega, produziu inúmeros renovos… Para cada um que destruíam, surgiam cem outros.

A princípio empregaram contra ele as armas de outra época, as que outrora davam resultado contra as ideias novas, porque essas ideias eram apenas clarões esparsos que tinham dificuldade de vir à luz através da ignorância, e que ainda não tinham criado raízes nas massas… hoje é outra coisa; tudo mudou: os costumes, as ideias, o caráter, as crenças; a Humanidade não mais se emociona com as ameaças que amedrontam as crianças; o diabo, tão temido por nossos avós, já não mete medo: rimos dele.

Sim, as armas antigas entortaram-se na couraça do progresso. É como se, em nossos dias, um exército quisesse atacar uma praça-forte guarnecida de canhões, com as flechas, os aríetes e as catapultas dos nossos antepassados.

Os inimigos do Espiritismo viram, pela experiência, a inutilidade das armas carcomidas do passado contra a ideia regeneradora; longe de prejudicá-lo, seus esforços só serviam para dar-lhe autoridade.

Para lutar com vantagem contra as ideias do século, seria preciso estar à altura do século; às doutrinas progressistas seria necessário opor doutrinas ainda mais progressistas, pois mas o menos não pode vencer o mais.

Então, não podendo triunfar pela violência, recorreram à astúcia, a arma dos que têm consciência de sua fraqueza… De lobos, fizeram-se cordeiros, para se introduzirem no aprisco e aí semear a desordem, a divisão, a confusão. Porque chegaram a lançar a perturbação nalgumas fileiras, cedo de mais se julgaram senhores da praça. Nem por isto os adeptos isolados deixaram de continuar sua obra, e diariamente, a ideia abre o seu caminho sem muito alarido… Eles é que fizeram o alarido… Não a vedes perpassar tudo, nos jornais, nos livros, no teatro e mesmo na cátedra? Ela trabalha todas as consciências; ela arrasta os Espíritos para novos horizontes; é encontrada no estado de intuição mesmo naqueles que dela não ouviram falar. Eis um fato que ninguém pode negar e que a cada dia se torna mais evidente. Não é a prova de que a ideia é irresistível e que ela é um sinal dos tempos?

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

Que podem os homens contra a vontade de Deus? É possível desconhecê-la ante o que se passa? Seu dedo não é visível nesse progresso que desafia todos os ataques, nesses fenômenos que surgem de todos os lados como um protesto, como um desmentido dado a todas as negações?… A vida dos homens, a sorte da Humanidade não está em suas mãos?… Cegos!… Eles não contam com a nova geração que se ergue e que diariamente supera a geração que se vai… Ainda alguns anos e esta terá desaparecido, não deixando depois de si senão a lembrança de suas tentativas insensatas para deter o impulso do espírito humano, que avança a despeito de tudo… Eles não contam com os acontecimentos que vão apressar o desabrochar do novo período humanitário… com apoios que se vão erguer em favor da nova doutrina cuja voz poderosa imporá silêncio aos seus detratores por sua autoridade.

Oh! Como estará mudada a face do mundo para aqueles que virem o começo do próximo século!… Quanta ruína eles verão em sua retaguarda, e que esplêndidos horizontes abrir-se-ão à sua frente!… Será como a aurora afugentando as sombras da noite… Aos ruídos, aos tumultos, aos rugidos da tempestade sucederão cantos de alegria; depois das angústias, os homens renascerão para a esperança… Sim! O século XX será um século abençoado, porque verá a era nova anunciada pelo Cristo.

NOTA: Aqui o médium para, dominado por indizível emoção, e como que esgotado de fadiga. Após alguns minutos de repouso, durante os quais parece voltar ao grau de sonambulismo ordinário, ele retoma:

─ O que eu vos dizia eu então? ─ Vós nos faláveis do novo plano de campanha dos adversários do Espiritismo; depois falastes da era nova. ─ Continuo.

Enquanto esperam, disputam o terreno palmo a palmo. Eles renunciaram pouco mais ou menos às armas de outros tempos, cuja ineficácia reconheceram; agora ensaiam as que são onipotentes neste século de egoísmo, de orgulho e de cupidez: o ouro, a sedução do amor-próprio. Junto aos que são inacessíveis ao medo, exploram a vaidade, as necessidades terrenas. Aquele que resistiu à ameaça, às vezes dá ouvidos complacentes à adulação, ao gosto do bem-estar material… Prometem pão ao que o não o tem; trabalho ao artesão; freguesia ao negociante; promoção ao empregado; honras aos ambiciosos, se renunciarem às suas crenças. Ferem-no em sua posição, em seus meios de existência, em suas afeições, se forem indóceis; depois, a miragem do ouro produz sobre alguns o seu efeito ordinário. Entre esses encontram-se, necessariamente, alguns caracteres fracos que sucumbem à tentação. Há os que caem na armadilha de boa-fé, porque a mão que os manobra se esconde… Há também, e muitos, que cedem à dura necessidade, mas que não pensam menos nisso; sua renúncia é apenas aparente; eles se vergam, mas para se erguerem na primeira ocasião… Outros, aqueles que no mais alto grau têm a verdadeira coragem da fé, enfrentam o perigo resolutamente; esses vencem sempre, porque são sustentados pelos bons Espíritos… Alguns, ah!… mas estes jamais foram espíritas de coração… preferem o ouro da Terra ao ouro do Céu; eles ficam, pela forma, ligados à doutrina, e sob esse manto, apenas servem melhor à causa de seus inimigos… É uma triste troca que eles fazem, e que pagarão bem caro!

Nos tempos de cruéis provas que ides atravessar, felizes aqueles sobre os quais se estender a proteção dos bons Espíritos, porque jamais ela foi tão necessária!… Orai pelos irmãos desgarrados, a fim de que aproveitem os curtos instantes de moratória que lhes são concedidos, antes que a justiça do Altíssimo pese sobre eles… Quando eles virem rebentar a tempestade, mais de um pedirá graça!… Mas lhes será respondido: Que fizestes dos nossos ensinamentos? Como médiuns, não escrevestes centenas de vezes a vossa própria condenação?… Tivestes a luz e não a aproveitastes! Nós vos tínhamos dado um abrigo; por que o abandonastes? Sofrei, pois, a sorte daqueles que preferistes. Se vosso coração tivesse sido tocado por nossas palavras, teríeis ficado firmes no caminho do bem que vos era traçado; se tivésseis tido fé, teríeis resistido às seduções estendidas ao vosso amor-próprio e à vossa vaidade. Então acreditastes poder no-las impor, como aos homens, por falsas aparências? Sabei, se duvidastes, que não há um só movimento da alma que não tenha seu contragolpe no mundo dos Espíritos.

Credes que seja por nada que se desenvolve a faculdade da vidência em tão grande número de pessoas? Que seja para oferecer um alimento à curiosidade que hoje tantos médiuns adormecem espontaneamente em sono de êxtase? Não. Desenganei-vos. Esta faculdade, que há tanto tempo vos é anunciada, é um sinal característico dos tempos que são chegados; é um prelúdio da transformação, porque, como vos foi dito, este deve ser um dos atributos da nova geração. Essa geração, mais depurada moralmente, sê-lo-á também fisicamente. A mediunidade, sob todas as formas, será mais ou menos geral, e a comunhão com os Espíritos um estado, por assim dizer, normal.

Deus envia a faculdade de vidência nesses momentos de crise e de transição, para dar aos seus fiéis servidores um meio de frustrar a trama de seus inimigos, porque os maus pensamentos que eles julgam escondidos na sombra dos refolhos da consciência, repercutem nessas almas sensíveis como num Espelho, e se desvelam por si mesmos. Aquele que só emite bons pensamentos não teme que os conheçam.

Feliz aquele que pode dizer: Lede em minha alma como num livro aberto.

OBSERVAÇÃO: O sonambulismo espontâneo, do qual já falamos, não é, com efeito, senão uma forma de mediunidade vidente, cujo desenvolvimento era anunciado há já algum tempo, assim como o aparecimento de novas aptidões mediúnicas. É notável que em todos os momentos de crise geral ou de perseguição, as pessoas dotadas dessa faculdade são mais numerosas do que nos tempos normais. Houve muitos no momento da revolução; os Calvinistas das Cévènes, perseguidos como animais selvagens, tinham numerosos videntes que os advertiam do que se passava ao longe; por este fato, e por ironia, eram qualificados de iluminados; hoje começa-se a compreender que a visão à distância e independente dos órgãos da visão pode bem ser um dos atributos da natureza humana, e o Espiritismo a explica pela faculdade expansiva e pelas propriedades da alma. Os fatos deste gênero de tal modo se multiplicaram, que já nos admiramos menos; o que outrora a alguns parecia milagre ou sortilégio é hoje considerado como efeito natural. É uma das mil vias pelas quais penetra o Espiritismo, de sorte que, se estancam uma fonte, ele ressurge por outros caminhos.

Então, esta faculdade não é nova, mas ela tende a se generalizar, sem dúvida pelo motivo indicado na comunicação acima, mas também como meio de provar aos incrédulos a existência do princípio espiritual. No dizer dos Espíritos, ela se tornaria mesmo endêmica, o que naturalmente se explicaria pela transformação moral da Humanidade, transformação que deverá produzir no organismo modificações que facilitarão a expansão da alma.

Como outras faculdades mediúnicas, esta pode ser explorada pelo charlatanismo. Assim, é bom manter-se em guarda contra a charlatanice que, por um motivo qualquer, poderia tentar simulá-la e, por todos os meios possíveis, assegurar-se a boa-fé dos que dizem possuí-la. Além do desinteresse material e moral e da honorabilidade notória da pessoa, que são as primeiras garantias, convém observar com cuidado as condições e as circunstâncias nas quais se produz o fenômeno e ver se nada oferecem de suspeito.




O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

Há poucos dias, no canal Grupo Espírita Educare, foi publicado um vídeo muito bem elaborado, por sinal, feito com muito esmero e de aparência estética de fazer inveja. Esse vídeo, intitulado “O LIVRO “A GÊNESE” FOI MESMO ADULTERADO?”, traz, a despeito de tanto esmero, informações pela metade, deixando de lado detalhes tão indispensáveis para a legítima discussão do caso sobre a obra derradeira de Allan Kardec.

No vídeo, citam o seguinte trecho de uma psicografia a Kardec, a respeito das alterações que ele desejava produzir em A Gênese:

“Permita-me alguns conselhos pessoais sobre a sua obra A Gênese. Penso, como você, que ela deve sofrer certas modificações que a farão ganhar valor sob o aspecto metódico; […] esta revisão é um trabalho sério, e peço que você não espere muito para realizá-la.”

Há, porém, algo substancial, existente nesse trecho por eles omitido (nas reticências entre colchetes) e que leva, não por acaso, o espectador a uma conclusão errada: a recomendação, repetida, do Espírito comunicante para que Kardec nada removesse no que concerne à Doutrina e às ideias que apareciam pela primeira vez:

Conselhos sobre A Gênese

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa carta clicando aqui.

Kardec contrariou os sábios conselhos do Espírito?

Ora, a adulteração de A Gênese produziu justamente isso: removeu trechos importantes, que comprometem o entendimento, deixando de fora ideias doutrinárias e conduzindo o leitor a um entendimento, por vezes, contrário ao da versão anterior – o mesmo que fizeram com a adulteração de O Céu e o Inferno.

Cita Henri Netto, no artigo “À procura da dúvida: onde está a verdade?”:

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Cita também Paulo Henrique de Figueiredo em “Autonomia”:

Há uma questão inicial de Allan Kardec, bastante objetiva:

– Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Ou seja, era de iniciativa de Allan Kardec fazer uma modificação em sua obra, mas qual? Ele desejava acrescentar mais algumas coisas! Não tirar. E desejava fazer isso sem aumentar o volume do livro. O motivo de sua pergunta a Demeure está em saber se seria possível fazer isso, segundo a visão do Espírito. E a resposta é bastante objetiva e determinante. Ele respondeu, por meio do médium, enquanto Kardec anotava na folha:

– Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos. Mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Tirar alguma coisa? Nada quanto à Doutrina. Demeure foi bastante claro, mas ainda detalhou mais sua proposta:

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza. Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é no terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes.

Definitivamente não é o que encontramos na versão adulterada da obra de 1872! Foram centenas de supressões. Palavras, frases, parágrafos e até partes inteiras foram retiradas, algumas alterando o sentido do restante do texto. Basta dizer que a teoria sobre a conquista progressiva do livre-arbítrio, após o Espírito elaborar a consciência de si mesmo durante centenas de vidas, foi retirada depois de cuidadosamente elaborada por Kardec durante muitos anos, na Revista Espírita, e finalmente apresentada na obra A Gênese. Antes, o instinto dominava sozinho, mas a inteligência começa a se desenvolver, e aos poucos o instinto se enfraquece, então escreveu originalmente Kardec: “Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (KARDEC, [1868] 2018, p. 100). Esse importante trecho, fundamental para a Teoria Moral Espírita, foi deliberadamente retirado, contra a vontade de Kardec e as recomendações dos Espíritos, fato que agora comprovamos! Nas páginas desta obra detalhamos diversas dessas infames e criminosas falsificações.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Editora FEAL.

Não bastasse, há um extenso trabalho de pesquisa, produzido por Marco Milani, demonstrando o fato de que a adulteração removeu diversas ideias doutrinárias importantes, bem como adicionou ideias exíguas, comprometendo o entendimento da obra no conjunto e no detalhe:

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/03/alteracoes-ocorridas-no-cap-1-da-5-ed.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/05/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5_15.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/02/comentarios-sobre-as-alteracoes-do-cap.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5a.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/01/natureza-e-materia-nao-sao-sinonimos.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/09/comentarios-sobre-o-capitulo-xv-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/11/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/12/inconsistencias-doutrinarias-da-5.html

Como fica provado, foram removidas diversas ideias doutrinárias, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado a essas questões.

Não se quer o diálogo para chegar à verdade, mas a imposição

Quando Leymarie criou o livro Obras Póstumas, inseriu nele a psicografia apresentada anteriormente, porém, adulterada, removendo justamente os conselhos do Espírito para que nada, no concerne à Doutrina, fosse removido. Tudo para dar crédito à sua versão a quinta edição de A Gênese foi mesmo produzida por Allan Kardec. Agora, no vídeo citado, o canal Grupo Espírita Educare faz o mesmo, mas não para por aí.

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique. Foi assim que, finalmente, ocultaram do público meus comentários feitos nesse vídeo:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois fui ocultado no canal. Aparentemente, não desejam dialogar sobre os fatos e as evidências, ditas por eles, “sumariamente desclassificadas”.

Vemos, portanto, que a peça de animação é apenas mais uma tentativa de conduzir o público à conclusão que eles desejam, mesmo que para isso tenham que omitir informações importantes e fazer afirmações rasas. Por nossa vez, depois de tanto incentivar o leitor ao estudo da obra O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato (link abaixo), só podemos desejar que cada um chegue às suas próprias conclusões, frente aos fatos e às evidências, que existem de sobra, a despeito da falácia do grupo CSI do Espiritismo de que todos os argumentos contrários teriam sido derrubados (sic).

Live: Gênese Adulterada – análise doutrinária das alterações entre as edições




O canal Mesa Girante e as adulterações em O Céu e o Inferno

Recentemente o canal Mesa Girante, no Youtube, produziu um vídeo onde aborda outro vídeo, de Paulo Henrique de Figueiredo, falando sobre a obra “Nem Céu, Nem Inferno”, de cerca de 3 anos atrás. A obra trata do fato jurídico ((São fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.)) da adulteração de O Céu e o Inferno e do contexto da trama de traição ao redor de Kardec.

Nesse vídeo, o autor do canal Mesa Girante trata de, debochadamente, tentar invalidar a importância da obra por supostas precipitações de Paulo Henrique ao tratar do tema, no vídeo. Pergunto-me por que é que ele, o dono do canal Mesa Girante, não se dedicou primeiramente a ler essa obra, o que teria enriquecido demais o debate? Por que é que ele se concentrou apenas naquilo que lhe pareceu incongruente, pelas falas de Paulo Henrique, sem dar atenção aos demais pontos de relevância da obra? Digo isso porque eu mesmo o procurei, através dos comentários, para demonstrar que a adulteração de O Céu e o Inferno é o produto inquestionável dos dogmas roustainguistas, além do fato jurídico.

No dia seguinte, eu produzi um vídeo, sob efeito de uma irritação pela maneira como o tema foi abordado, com tom de deboche e sem nenhuma intenção de cooperação, e sim de competição, já que não foi procurar Paulo Henrique para conversar sobre as divergências de entendimentos. Esse vídeo, que eu produzi, eu resolvi apagar, pois acabei tratando com afetação um tema onde não deve haver absolutamente nada disso. Em lugar desse vídeo, gravei um novo, onde falo sobre o foco central da adulteração, como você pode ver ao final deste artigo.

Acontece, porém, que, assim que gravei, chegou ao meu conhecimento uma live com Lucas Sampaio, co-autor do livro Nem Céu, Nem Inferno, onde ele explica em detalhes todas as questões envolvidas nesse tema da adulteração. O conteúdo é muito explicativo por si só, de maneira que reproduzo abaixo o mesmo vídeo e aproveito para tecer comentários sobre seu conteúdo.

Comentários sobre a live do Lucas Sampaio

  • É fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.
  • Kardec estava, sim, fazendo revisões nessas obras, preparando novas edições. Isso está registrado em cartas. Contudo, menos de um mês depois da carta onde cita o trabalho de tradução para o alemão, existe uma carta de Kardec para um amigo seu, dizendo que, por problemas de saúde, ele precisou suspender todas as atividades que não fossem estritamente necessárias.
  • Os Espíritos, evocados por Kardec, dizem que ele não deveria suprimir nada nas novas edições. Foi feito justamente o contrário nas edições publicadas após sua morte, com a supressão de pontos importantes nas obras.
  • A psicografia original, onde os Espíritos diziam a Kardec para não suprimir nada nas novas edições, foi adulterada por Leymarrie em Obras Póstumas, retirando justamente esse conselho, para dar credibilidade à 5a edição de A Gênese. Isso se deu após a denúncia de Henry Sausse.
  • Os negacionistas dos fatos jurídicos e das evidências de adulteração chegam a usar depoimentos de pessoas ligadas a Leymarie para sustentar suas teses.
  • É importantíssimo ler a obra O Legado de Allan Kardec, que traz diversas evidências sobre os fatos acerca da adulteração de A Gênese.
  • Fala-se em registros contábeis da Sociedade, assinados pela esposa de Kardec, três anos após sua morte, onde estariam registrados os custos de impressão de O Céu e o Inferno a fevereiro de 1869. Faz sentido fazer contabilidade de algo passado à criação da Sociedade Anônima (empresa)? Faz sentido confiar em documentos da Sociedade Anônima, a mesma que deu o golpe post-mortem em Kardec? Como veremos a seguir, os documentos oficiais mostram que a obra não foi impressa naquela data.
  • Foi encontrada, nos registros legais da Biblioteca Nacional, a declaração de impressor n. 8.584 com pedido de autorização do tipógrafo Rouge registrado em 9/7/1869 para imprimir 2.000 exemplares da mesma quarta edição de O Céu e o Inferno, conforme a página 294 do documento F/18(II)/128, mais de três meses após a desencarnação de Allan Kardec.
  • Na Revista Espírita de junho de 1869, foi publicado, pela Sociedade Anônima, o artigo de título “À venda em 1° de junho de 1869”, tratando da edição que ficou pronta somente em 19 do mês seguinte. E o aviso ainda explica:

Quarta edição de O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo, contendo numerosos exemplos sobre a situação dos Espíritos no mundo espiritual e na Terra; 1 vol. in-12, preço: 3 fr. 50.

Observação – A parte doutrinária desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por Allan Kardec, passou por modificações significativas. Alguns capítulos em particular foram inteiramente reformulados e consideravelmente aumentados.

(SOCIEDADE ANÔNIMA, [RE] 1869, jul., p. 224)

  • Tudo indica que Amelie, com mais de 70 anos, em luto, foi enganada pela Sociedade Anônima, e confiou no que diziam ou apresentavam a ela. Berthe Froppo menciona que ela acreditava que a S.A. iria vender os livro de Kardec a preços populares (e fizeram o contrário). A doce Gabi, como a chamava Kardec, entregou tudo, crendo que o melhor seria feito, pois não tinha um espírito de liderança. Foi afastada de qualquer papel de decisão da S.A. Foi, em suma, ludibriada. Não se opôs às novas edições, pois sabia que seu marido trabalhava sobre elas. Escolheu entregar à S.A. toda a obra de Kardec, pois pensava, seguindo os propósitos de Kardec, que o Espiritismo deveria ser de todos, e não mais centralizado em ninguém. Era a promessa da Sociedade, finalmente não cumprida.
  • Existe uma falta de vontade (e aqui eu reitero: inclusive pelo CSI do Espiritismo e do dono do canal Mesa Girante) em fazer um estudo cuidadoso e aplicado, inclusive comparativo. Não: fica-se girando apenas na superfície das afirmações e das negações simplórias, numa sanha de negar o que vemos estar óbvio aos nossos olhos.
  • As teses de negação não respeitam o fato jurídico; não se importam com os planos de Kardec para o futuro do Espiritismo; não se importam com os vários golpes sofridos por Kardec e pelo Espiritismo; não se importam com o golpe à unidade de método e de organização, necessárias à continuidade doutrinária; não fazem análises doutrinárias sobre o conteúdo anterior e as alterações; não se importam com o fato de a Sociedade Anônima haver incendiado um grande número de manuscritos de Kardec, após sua morte; não falam do verdadeiro complô sendo formado ao redor de Kardec, por Roustaing e seus seguidores; não trazem à luz os incontáveis fatos e evidências dos interesses contrários ao bem, por pessoas ao redor de Kardec.

    Não, e nem podem, pois dar atenção ao fato dos descalabros sofridos por Kardec e pelo Espiritismo seria alimentar os argumentos da adulteração, o que não seria do interesse deles. Pelo contrário: esforçam-se por colocar dúvida injustificável sobre pessoas como Berthe Froppo, amiga íntima do casal Kardec, que fez algumas graves denúncias contra Leymarie e a sociedade anônima! Não, para eles o testemunho de Froppo não vale, mas valem as alegações do adulterador, Leymarie, e sua esposa, além dos demais envolvidos, por interesse, em seus negócios espíritas!

  • O prefácio de A Gênese e a introdução do capítulo 8º de O Céu e o Inferno (3a edição) tratam justamente do método do Espiritismo, que o protege de se transformar em um sistema pessoal, o que incomodava sobremaneira Roustaing e Pezzani, seu amigo pessoal, que tinham suas próprias concepções do que deveria ser o Espiritismo. Será acaso que tanto um como outro foram removidos nas novas edições?
  • Os trechos removidos na adulteração de A Gênese denunciam exatamente como pensam e agem os inimigos da verdadeira ideia.
  • Cada um dos 25 itens do capítulo VIII de O Céu e o Inferno tinham fundamentação no restante da obra. Na 4a edição, adulterada, muitos itens perderam essa correspondência, conforme se demonstra em O Céu e o Inferno, da editora FEAL (clique aqui para baixar gratuitamente).

Live com Lucas Sampaio sobre as Adulterações nas obras de Kardec

Vídeo do meu canal falando sobre o vídeo do canal Mesa Girante




A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.

Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:

Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).

Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!

Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno

E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):

9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.

10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.

O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.

Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.

Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):

Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.

Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.

Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.

Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.

Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.

O Céu e o Inferno – Editora FEAL

Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):

  1. Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?

Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”

Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:

“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).

Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.

Mais evidências da ideia original

Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):

“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”

KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.

Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:

A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:

N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?

Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.

O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I

É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.

Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:

132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]

O Livro dos Espíritos

Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.

Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.

O Livro dos Espíritos

O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.

  1. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?

A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)

KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.

Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.

Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.

Revista Espírita, 1864

Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.

[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.

“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”

KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.

Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.

Motivo da adulteração

Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.

Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.

O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,

[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.

Conclusão

De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.

Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.

A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:

“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59

Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:

16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.

Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?

São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.

Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo

É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.

Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.

Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.

Como agem os sacerdotes

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.

Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.




Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

O seguinte artigo contém os conteúdos gentilmente disponibilizados pelo Centro Espírita Nosso Lar – Casas André Luiz, e correspondem ao evento recentemente realizado por Paulo Henrique de Figueiredo sobre o tema em destaque.

A apresentação pode ser facilmente baixada através deste link e também pode ser ouvida em Podcast, cujo áudio disponibilizamos a seguir.

Amaciante estraga a roupa

A palestra de Paulo Henrique de Figueiredo explica exatamente o que essa afirmação tem a ver com a mudança de mentalidade. Clique abaixo para ouví-la:


A seguir estão os tópicos da palestra, que podem ser verificados na apresentação disponibilizada e no áudio acima exposto.

ENCONTRO COM A CULTURA ESPÍRITA – Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Paulo Henrique de Figueiredo – 28 e 29 out 2023




Espiritismo, método científico e o equívoco da exclusão epistemológica

A afirmação de que o Espiritismo não pode ser considerado ciência porque envolveria metafísica parte de um erro conceitual duplo: desconhece o critério histórico de cientificidade e ignora o papel estruturante da metafísica no próprio desenvolvimento das ciências modernas. Quando esse erro é corrigido, a objeção simplesmente não se sustenta.

No século XIX, ciência não era definida pelo objeto estudado, mas pelo método empregado. É nesse ponto que o Espiritismo original, tal como sistematizado por Allan Kardec, se ancora de modo rigoroso na tradição científica reconhecida de sua época — tradição esta que permanece válida em amplas áreas do conhecimento atual.

Com colaboração de Ariane Netto.

O método da concordância e a ciência empírica

O método central utilizado por Kardec foi o método da concordância, formalizado por John Stuart Mill em A System of Logic (1843). O princípio é claro: quando um fenômeno ocorre em múltiplos casos independentes e apenas um elemento comum se repete em todos eles, esse elemento é identificado como causa ou parte essencial da causa.

Esse método não é periférico. Ele fundamenta:

  • a epidemiologia observacional,
  • a clínica médica pré-experimental,
  • a sociologia comparativa,
  • a biologia evolutiva,
  • a linguística histórica.

Negar validade científica ao Espiritismo por empregar esse método implica negar, por coerência lógica, o estatuto científico dessas áreas. Não se trata de analogia; trata-se de identidade metodológica.

Kardec aplicou o método de forma estrita: comunicações obtidas por médiuns diferentes, em países distintos, sem contato entre si; rejeição sistemática de mensagens contraditórias; eliminação da autoridade do médium como critério; primazia da convergência factual. Isso caracteriza uma ciência de observação, exatamente como definida no século XIX e ainda praticada hoje fora do laboratório fechado.

Reprodutibilidade: padrão, não repetição mecânica

Um erro recorrente é exigir do Espiritismo a mesma forma de reprodutibilidade da física experimental. Isso é epistemologicamente inválido. Diversas ciências reconhecidas não reproduzem eventos idênticos; reproduzem padrões sob condições variadas. A regularidade observada, não a repetição mecânica, é o critério racional.

O Espiritismo kardeciano atende a esse critério. A negação disso exigiria descartar também história, geologia, paleontologia e cosmologia — áreas que inferem causas e entidades a partir de efeitos observáveis, não diretamente instrumentais.

Metafísica como fundamento da ciência, não seu oposto

A tentativa de desqualificar o Espiritismo chamando-o de “metafísica” falha por ignorar um dado elementar da história das ideias: a ciência moderna nasceu metafísica.

Sem os pressupostos ontológicos e conceituais elaborados por Gottfried Wilhelm Leibniz, em especial na Monadologia, a ciência não teria se organizado como se organizou. Conceitos como substância, identidade, causalidade, lei, continuidade e unidade não são empíricos; são metafísicos. Ainda assim, são indispensáveis para qualquer prática científica.

Leibniz introduziu:

  • unidades fundamentais não extensas,
  • causalidade interna,
  • correlação sistemática entre fenômenos sem contato direto.

Nada disso era observável empiricamente à época, mas tudo isso orientou o desenvolvimento da matemática, da física e da lógica modernas. O mesmo vale para Descartes, Newton e toda a ciência clássica. Eliminar a metafísica retrospectivamente é reescrever a história para atender a um preconceito contemporâneo.

Kardec e a inversão correta da metafísica dogmática

Importa notar: Kardec não construiu um sistema metafísico fechado e depois buscou fatos para confirmá-lo. Ele fez o inverso. Partiu de fenômenos observados e extraiu apenas as consequências ontológicas mínimas exigidas pelos dados. Isso não é metafísica especulativa; é metafísica derivada de observação — exatamente como ocorre em outras ciências.

A objeção moderna ao Espiritismo não é metodológica. É ontológica e cultural. O desconforto não está no método, mas no objeto. Confundir essas duas coisas não é ciência; é ideologia epistemológica.

Conclusão

Negar o caráter científico do Espiritismo kardeciano exige, por coerência, negar:

  • a indução em ciências não experimentais,
  • o método comparativo,
  • a reprodutibilidade por convergência,
  • a inferência a partir de dados mediatos,
  • e o papel histórico da metafísica na ciência.

Essa posição não é sustentável. Ou se aceita que o Espiritismo original é uma ciência de observação, com limites claros e método definido, ou se redefine “ciência” de forma tão estreita que grande parte do conhecimento hoje reconhecido cai junto.

O problema, portanto, não está no Espiritismo. Está no critério adotado para julgá-lo.




É Cansativo

É cansativo. Por toda parte, incontáveis pessoas se colocam a falar de “espiritismo”, sem o escrúpulo de, antes, terem se dedicado a conhecê-lo, demonstrando mais disposição para opinar do que para estudar. Mas isso não é o pior, já que “a força das coisas” criou esse estado de quase completo desconhecimento. Não: a parte pior é que, quando confrontadas pelo Espiritismo, se sentem atacadas pessoalmente, contrariadas em suas almas e, ao invés de buscarem o entendimento, optam pelo afastamento e pela continuação do erro. Kardec também sofreu isso, mas, hoje, a tecnologia nos coloca em contato muito mais rápido e fácil com a gigantesca massa de pessoas que opinam sem método e sem base, confundindo convicção com conhecimento.

Essa é a minha primeira ação, ligada ao Espiritismo, em aproximadamente um mês. Como eu disse, cansa. Mas o que cansa não é o Espiritismo, e sim os ininterruptos ataques de pessoas que não sabem separar a crítica à opinião da crítica pessoal e, enquanto criticamos as opiniões erradas — como Kardec fazia — somos pessoalmente atacados, sem cessar. O roustainguismo, especialmente instalado na FEB desde 1890, conseguiu o que desejava e substituiu a ciência espírita num sistema de crenças, formado meramente por opiniões, sem o método necessário, demonstrado exaustivamente por Kardec em TODAS as suas obras.

Há pouco tempo, no final de 2025, publicamos um artigo sobre uma evocação que fizemos do Espírito de Kardec. Buscávamos demonstrar a possibilidade, sem nenhuma intenção de fazer disso um artigo de autoridade, obtendo uma instrução geral, do mesmo modo que o próprio Kardec muitas vezes obtinha. Sabíamos que viriam críticas, e estávamos prontos, inclusive, para aceitar as críticas de bom grado, como importantes para nosso próprio estudo. Porém, uma das críticas mais negativamente relevantes veio justamente de Rodrigo Xavier, um influenciador nas redes sociais, que se apresenta como conhecedor do Espiritismo e atua como divulgador nas redes sociais, mas cuja crítica, como veremos, se afasta dos fundamentos metodológicos estabelecidos por Kardec, como demonstraremos.

A crítica de Rodrigo Xavier

De maneira surpreendente (ou não), sua crítica foi toda embasada em Aksakof, e não em Kardec. Pior ainda: apoiou-se numa leitura limitada do que Aksakof propõe, tratando indícios como se fossem exigências absolutas.

Segundo ele, o texto não teria excedido em nada o repertório intelectual comum de um espírita moderno: divisões no movimento, “retorno a Kardec”, regeneração, Jesus — temas conhecidos, repetidos, e portanto explicáveis como simples “memória latente”. Como não haveria novidade objetiva, nem revelação desconhecida, nem qualquer elemento que o médium “não pudesse saber”, o veredito já estaria pronto: animismo, isto é, a consciência sonambúlica do médium vestida de mensagem.

E não parou aí. Para Rodrigo, faltaria também qualquer prova de identidade. O tom — diz ele — seria emocional, levemente místico, com expressões como “Deus Pai todo-poderoso” e “bênçãos”, o que, na visão dele, destoaria do “Kardec histórico”, racional e professoral. A linguagem, por sua vez, seria simplesmente português atual, e nisso ele vê mais um indício de personificação: o inconsciente do médium fabricando um “personagem” com base no que imagina ser Kardec, em vez de um Espírito real mostrando independência através do francês do século XIX ou de traços inequívocos de estilo.

Por fim, Rodrigo ainda recorre ao que chama de “espelho”: a comunicação teria confirmado o grupo, validado seus esforços e criticado opositores — exatamente o que, segundo ele, um círculo desejaria ouvir ao evocar o Codificador. Para Aksakof e Hartmann, ele insiste, médiuns em transe seriam altamente sugestionáveis e tenderiam a refletir pensamentos e expectativas dos presentes; por isso, mensagens que concordam demais com o grupo seriam suspeitas. O arremate dele é previsível: animismo ou personismo; nenhum fato desconhecido, nenhuma superioridade intelectual, nenhum sinal externo de identidade. E, como “exigência científica”, chega a sugerir que se façam perguntas em francês, sem combinar com o médium, como se o idioma — e não o método — fosse a fronteira definitiva entre ilusão e realidade.

A refutação à crítica de Rodrigo

A refutação é simples: Rodrigo toma critérios auxiliares como se fossem leis absolutas, e nisso já começa errado. Kardec ensina o contrário. O Espírito não “fala” uma língua humana; comunica pensamento, e para transformar pensamento em palavras precisa, por via mediúnica, do vocabulário do médium. A xenoglossia pode ocorrer, sim, mas é acidental, rara, e depende de condições específicas; para comunicações extensas e usuais, os Espíritos preferem a língua familiar ao médium, por apresentar menos obstáculos materiais. Portanto, exigir francês do século XIX como condição necessária não é ‘ciência’: é um rigor apenas aparente, que confunde indícios raros com condições necessárias.. É, além disso, um critério que, se levado às últimas consequências, invalidaria uma massa enorme de comunicações perfeitamente compreensíveis e úteis — inclusive aquelas registradas nas evocações da Revista Espírita, com Espíritos que, em vida, falavam idiomas diversos, sem que isso impedisse o intercâmbio.

Do mesmo modo, Rodrigo transforma “prova de identidade” em eixo central, quando Kardec é explícito: a identidade de personagens antigas é frequentemente impossível de demonstrar materialmente e, quando muito, se aprecia moralmente pela qualidade da linguagem. E mais: em comunicações filosóficas e morais, a identidade é questão acessória. Se o conteúdo é digno, coerente e conforme o caráter atribuído ao nome, há probabilidade moral; mas mesmo quando essa certeza não existe, a comunicação não se anula por isso. O ônus de quem acusa animismo não é apontar ausência de espetáculo probatório; é demonstrar incongruência doutrinária, erro de fundo, contradição séria — não apenas dizer “não houve fato desconhecido” e chamar isso de conclusão científica.

Quanto ao “espelho”, Rodrigo erra até o alvo: a comunicação não fala do nosso grupo como um clube fechado, mas do conjunto de Espíritos e encarnados que se dedicam à disseminação da verdade, e isso foi dito de modo explícito. E, no conteúdo, não há combustível para a tese de vaidade ou autoconfirmação: não se afirma infalibilidade, não se estabelece autoridade exclusiva, não se introduz inovação doutrinária; ao contrário, reconhecem-se limites, provas e dificuldades. Espelhamento, quando é hipótese séria, aparece como confirmação sistemática de interesses pessoais e engrandecimento humano — aqui, não. Resultado: a crítica de Rodrigo revela mais pressa do que método, e mais desconhecimento da ciência espírita do que zelo científico.

É cansativo

Como eu disse, é cansativo e, mesmo, desanimador. Como Rodrigo Xavier, muitos outros, dizendo-se autênticos espíritas, abordam o Espiritismo de maneira equivocada, baseando-se em sistemas de crenças oriundos de opiniões — de encarnados ou desencarnados — e não na ciência espírita. Assim se portam, também, muitos nomes conhecidos ou em ascensão: opiniões passam a ser repetidas como se fossem princípios, e o debate se desloca do método para a adesão.

Dentre esses, cito exemplos públicos e verificáveis: Luís Fernando Amaral, ao sustentar em vídeos a tese de que o Brasil seria governado pelo “anjo” Ismael; Nibi Pensa, ao defender a ideia de que a justiça divina operaria por lógica de débito e crédito, contrariando o princípio kardeciano e o próprio ensino moral do Cristo; Maira Rocha, cujas psicografias são frequentemente questionadas quanto ao conteúdo e finalidade; Haroldo Dutra Dias, ao endossar a mesma construção do “anjo” Ismael e a leitura de “Nosso Lar” como destino assegurado. São pontos concretos, e é sobre eles que a crítica deve recair: não sobre pessoas, mas sobre afirmações.

Quiséramos que, antes de ir ao microfone, houvesse maior dedicação ao estudo da ciência espírita, tão bem fundamentada e séria. Em vez disso, tem-se preferido a substituição do Espiritismo de 1857 por uma crença sistemática, montada sem método, sem controle e sem o devido critério, amparada em comunicações tomadas como incontestáveis, como se fossem imunes à possibilidade de mistificação.

É, realmente, muito cansativo… Mas não podemos deixar nos abater. Começo o ano de 2026 com este primeiro desabafo, para tentar retomar as atividades que me competem, por livre e espontânea vontade.




Por que evocamos Allan Kardec

Se você ainda não está sabendo, recentemente, após o amadurecimento de nosso grupo mediúnico, realizando sempre o exame crítico das comunicações mediúnicas, achamos que momento era justo e, com a motivação mais séria possível, buscamos obter orientações gerais do Espírito de Allan Kardec, sabendo, como ele mesmo asseverou, que:

Podem evocar-se todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam permitidas fazer-nos.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

A maneira como se realiza a evocação, e o resultado bom ou mau dela, residem naquilo que ele diz, imediatamente após o parágrafo anterior:

Os Espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem, de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os Espíritos inferiores que, inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que existam maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois que muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

Julgamos, no momento citado, que nosso ambiente justamente o das reuniões sérias e, de fato, recebemos uma resposta, que, conforme analisamos, em nada desmente o caráter esperado na resposta, tenha ela vindo diretamente desse Espírito ou de um preposto, por ele enviado.

Qual foi, porém, a intenção nessa evocação? Exibicionismo? Vaidade? Tentativa de obter um argumento de autoridade? De forma alguma. Consideramos nosso grupo como um laboratório e, posto que ainda operamos sem a colaboração de outros grupos, não devemos e nem desejamos obter nada de novo sobre a Doutrina Espírita, de modo que nome algum nos fará adotar nenhum princípio novo, que requeira a metodologia colaborativa utilizada por Kardec. Dizemos: primeiro precisamos constituir um agrupamento central, com a participação de delegados (representantes) de outros grupos mediúnicos, formados pelos mesmos princípios, para que possamos voltar a realizar pesquisas quaisquer.

Nosso objetivo, portanto, é o de demonstrar ao público que, com a reserva e a seriedade necessárias, além da unidade doutrinária (conhecimento sobre a Ciência Espírita), sim, é possível e benéfica a evocação dos Espíritos, que nos auxiliarão sempre que demonstremos boa-vontade.

Muito longe de nós passa a ideia de, a partir de agora, temos o Espírito de Allan Kardec ao nosso dispor. Não, isso seria um erro — com qualquer Espírito, aliás. Continuaremos o nosso processo de aprendizado, evocando outros Espíritos, como o de Ermance Dufaux, cuja evocação, a priori, nos pareceu render uma mistificação que, não tendo uma forma melhor de investigar, justamente porque nos faltam os grupos parceiros, nos faz apenas colocar, por enquanto, esse diálogo no rol das incertezas.

Esperamos, avidamente, que mais grupos se formem, nessa mesma unidade doutrinária, após o estudo necessário. Lamentamos, porém, a morosidade nas intenções de muitos, que ainda esperam que o trabalho seja feito por eles.

Uma palavra final: sim, o que já temos, da Doutrina Espírita, é suficiente para nos elevar muitos degraus na evolução. Porém, como muitos dizem, a obra de Kardec não encerra o Espiritismo. Há um desenvolvimento necessário sobre várias questões, o que, seguramente, não será feito de maneira isolada, por um só Espírito ou por um só grupo.

Aguardamos o porvir.




Diálogos de Além-Túmulo — Evocação de Ermance Dufaux

Ermance Dufaux de La Jonchère foi uma médium e escritora francesa nascida em Cambrai em 8 de março de 1839 e falecida em Suresnes em 3 de março de 1915, reconhecida como uma das mais relevantes figuras da primeira geração do Espiritismo. Ela manifestou mediunidade precocemente e, como membro-fundadora da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ao lado de seu pai, colaborou de forma significativa com Allan Kardec na consolidação da doutrina, participando diretamente da revisão de O Livro dos Espíritos e contribuindo com comunicações mediúnicas que resultaram em importantes obras literárias espiritualistas. Sua produção inclui relatos psicográficos atribuídos a espíritos históricos e sua participação ativa nos círculos espíritas de Paris consolidou sua influência no movimento espírita emergente no século XIX.

Por ocasião da reunião do Grupo Mediúnico Semear, nosso grupo, achamos por bem buscar a evocação desse Espírito, na reunião de 02/11/2025. Obtivemos, disso, o seguinte diálogo:

– Evocação.
Ermance: Perguntem.
A: Você é feliz, Ermance?
Ermance: Sim, sou.
A: Você está encarnada ou desencarnada?
Ermance: Desencarnada.
A: Você se percebeu que estava no mundo espiritual imediatamente, assim que deixou o corpo físico?
Ermance: O que chamas de imediatamente?
A: Logo após a sua morte.
Ermance: Já via meu corpo sem força, imóvel. Aprendi que já tinha me desprendido.
A: Quais foram suas primeiras impressões imediatamente após a morte?
Ermance: Já tinha esclarecido o que me ocorria. Posso lhes dizer que não houve sofrimento. Já havia percebido que já me encontrava com o Espírito. Mas agora, sem o meu corpo. Foi só um estágio. Só um período.
M: Quanto tempo durou para você se reconhecer no plano espiritual após a sua morte?
Ermance: Vou fazer uma analogia com o tempo de vocês. Foi rápido. Talvez, alguns dias. Talvez, alguns dias.
M: Poucos, poucos dias. Você foi no seu funeral?
Ermance: Sim.
M: Como você se sentiu lá?
Ermance: Percebi o meu corpo imóvel. Percebi que já não me encontrava mais aqui. Em algum momento, o círculo espectro, porque nos deparamos com o nosso corpo, que foi a nossa morada por um período, que nos serviu de instrumento, mas já tinha consciência de que não me encontrava mais aí.
M: Minha pergunta era justamente isso. Quando você viu o seu funeral, você já tinha reconhecido que não fazia mais parte desse mundo. Então, essa perturbação, você tem certeza de que foram dias?
Ermance: Mesmo quando vemos o nosso corpo imóvel e percebemos que já não fazemos mais parte dele, ainda nos é difícil entendermos que já não estamos mais ali. Que ao falarmos com nossos familiares, nossos amigos, nossos amores, eles não nos respondem. Sempre existe uma perturbação, mesmo que pequena, meu irmão. Mas logo compreendi. Logo compreendi que precisava seguir o meu caminho.
M: Agora uma pergunta mais específica, Ermance: Qual foi o primeiro tema que o Espírito Joana D’arc que te ditou que só vocês sabiam? Só você e Kardec?
Ah, desculpa, Ermance, o Espírito Amigo quer falar alguma coisa, se você puder. Aguardar só um minutinho, Ermance?
Ermance: Pois não.
EA: É preciso vocês lembrarem que o tempo é diferente em ambos os mundos. Quando ela fala em dias, para o Espírito é um piscar de olhos. Para vocês é diferente.
A: Muito obrigada. Ermance, você pode responder à pergunta da Joana D’arc? Qual que ela te ditou, o primeiro tema?
Ermance: Não, não posso.
A: Qual foi o maior erro que você fez durante o exercício da Mediunidade?
Ermance: Deixei-me mistificar por alguns Espíritos.
A: Nessa sua existência como Ermance, qual foi a definição que você dá para essa existência?
Ermance: Fui feliz.
A: E você conseguiu alcançar o objetivo dessa encarnação como Ermance?
Ermance: Na nossa jornada, sempre temos programado tantas coisas. Mas nem sempre conseguimos concluir tudo. Tudo aquilo que foi programado, tudo aquilo que pelo nosso livre-arbítrio escolhemos.
A: Quando você foi Ermance, você já estava programada para ser médium para aquela encarnação? Ermance: Sim.
A: Então você cumpriu uma programação, né?
M: Essa programação que você conseguiu executar te colocou em uma situação melhor no plano espiritual?
Ermance: Sim. Sim, me coloquei sim. Avancei mais um pouco, evoluí mais um pouco. A cada encarnação, mesmo que não tenhamos concluído a nossa proposta, sempre avançamos um pouco mais. Esta me causou um avanço muito grande.
A: Como nós estamos querendo chamar você para poder ajudar mais os nossos médiuns, e outros médiuns que porventura a gente conheça, qual é o maior perigo para um médium? O que você poderia indicar para a gente, para nos ajudar?
Ermance: A fascinação. Ser fascinado por um espírito que dita os seus pensamentos e o médium se torna escravizado por ele, repetindo as suas sintonias, os seus pensamentos. Isso é um grande erro e acaba influenciando outros.
A: Isso não é nada bom.
M: Você habita a Terra ainda ou outro orbe?
Ermance: Não, eu não habito a Terra.
M: Você já reviu suas reencarnações anteriores, Ermance?
Ermance: Sim.
M: Foi imediatamente após a sua morte ou demorou?
Ermance: Levou algum tempo, mas eu as vi.
M: Nessas reencarnações anteriores, você tinha contato direto com o professor Rivail?
Ermance: Sim. Nós nos comunicávamos pelo pensamento na tentativa da organização do que estava por vir.
A: Você se mantém conectada com ele até hoje?
Ermance: Sim.
M: Então você consegue lembrar nitidamente as suas existências anteriores à Ermance, correto?
Ermance: Sim. Nos é passado como filme as nossas encarnações anteriores, os nossos aprendizados.
M: Você lembra dos pormenores dessas reencarnações?
Ermance: Elas nos são passadas como um flash. Não poderia lidar com os pormenores das encarnações.
M: E só mais uma pergunta. Se você consegue lembrar dessas existências anteriores, qual seria o motivo de você não lembrar o que a Joanna D’arc ditou a você quando encarnada como a Ermance?
Ermance: Como eu disse, até as encarnações anteriores não me lembro com detalhes. São passadas como um flash. Vamos adquirindo todo o aprendizado em cada uma delas que nos é concedido como um tesouro. Mas não é fácil lembrar dos detalhes de cada uma delas.
A: Na última reunião mediúnica que nós tivemos, o Espírito comunicante falou por duas médiuns ao mesmo tempo. Como foi isso possível, irmã?
Ermance: Posso assegurar que isso não pode ocorrer exatamente no mesmo momento da reunião entre dois médiuns. Mas o mesmo Espírito pode dar a comunicação a dois médiuns na mesma reunião.
A: O que fez você preferir conversar por essa médium do que pela outra? Nós temos duas médiuns aqui agora.
Ermance: Consigo perceber nesse momento o Espírito que sempre guia as reuniões. Que sempre está presente. É esse que se encontra com a médium.
A: Ermance, eu agradeço muito você ter conversado conosco, a sua disposição. Agradeço muito você ter podido vir aqui e gostaria que você desse uma saudação final e uma instrução para os nossos médiuns. Se você puder, claro.
Ermance: Meus irmãos, continuem o seu trabalho, continuem os estudos, as evocações; e sempre lembrem que cada médium, cada aparelho tem a sua limitação. Dentro das suas limitações, como o irmão falou, a boa vontade, a solicitude. Nunca se esqueçam disso. Sempre há aprendizado em cada uma das comunicações. Agradeço a oportunidade de aqui me encontrar e me despeço de vocês.
A: Que Deus te acompanhe, Ermance… Muito obrigada.

O diálogo apresenta conformidades, mas também incongruências com o que aprendemos com a Doutrina Espírita. Dois pontos mais incongruentes nos chamaram a atenção: ela não se lembrar daquilo que foi publicado no livro sobre Joanna D’arc, e ela dizer que os Espíritos não conseguem se comunicar por dois médiuns simultaneamente, o que é demonstrado como possível na obra de Kardec (O Livro dos Médiuns, item 282, sub-item 29).

Isso nos levantou dúvidas de ser realmente o Espírito de Dufaux quem se apresentou. Aqui, enfrentamos aquele dilema: não tendo outros grupos parceiros aptos a realizarem tais pesquisas, fazendo as mesmas evocações ou perguntas pertinentes, ficamos, de certa forma, de mãos atadas, deixando essa comunicação no rol da incerteza, aguardando o dia em que pudermos ver constituído um grupo de colaboração para isso.




Comunicações Espontâneas – Allan Kardec

Em nossa última reunião de estudos mediúnicos, após algumas evocações, resolvemos, com seriedade e confiança, e sentindo que era um momento propício, buscar algumas orientações, ainda que de maneira indireta, do Espírito de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo. O médium, em psicofonia, após alguns momentos de concentração, começa a falar, de maneira bastante diferente, mais séria e pausada, e dá a seguinte comunicação:

Observo a divisão de grupos dentro da doutrina consoladora que me foi transmitida pelos Espíritos superiores, e que eles próprios me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios que aconteceriam. Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz, seguindo os conselhos que me eram oferecidos por tantos amigos dedicados. Sinto, porém, a resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas, na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.

Busco, junto aos meus, Espíritos Superiores que me acompanharam na jornada, enviar inspirações àqueles que se abrem para recebê-las, a fim de restaurar aquilo que foi deturpado após a minha ausência. Nosso grupo cresce, amparado pelas bênçãos de Deus Pai todo-poderoso. Nossa compreensão hoje é muito maior do que já foi, mas ainda não temos todas as respostas.

Gostaríamos que o verdadeiro Espiritismo, aquele que irá transformar a humanidade e trazer a época da Regeneração, seja difundido de maneira correta. O trabalho nessa tarefa será duro. As provas virão. Muitos sucumbirão. Mas o Espiritismo sempre estará vivo e sobreviverá aos golpes daqueles que continuam apegados às falsas crenças. Os desígnios de Deus são claros. As leis são claras, imutáveis.

Que aqueles que buscam por mim busquem além. Sou apenas mais um dentre tantos que propagam a verdade e desejam colocar nos corações aquilo que Jesus trouxe para nós há mais de 2000 anos. Que o Espiritismo seja para vocês a luz verdadeira e consoladora. Que continue progredindo, evoluindo, modificando mentes e corações. Desejo a vocês que alcancem o sucesso nesse grande trabalho de reconstrução, mesmo que o tempo não lhes permita vislumbrar, em vida, as sementes que estão plantando. 

Que Deus os abençoe.

Após o final da comunicação, fizemos, como de praxe, nossa análise, sendo essa em especial acompanhada de muita atenção. Não vimos, nela, nada que contrariasse o cunho de seriedade esperado, nem ideia alguma que fosse contrária ao Espiritismo, aos fatos históricos ou às ideias de Kardec. Se foi ele próprio, ou se foi um Espírito por ele designado, não sabemos, mas já ficamos plenamente felizes por vermos mais uma vez provada a afirmativa de que os Espíritos não deixam sem resposta ou acolhimento a aqueles que tenham seriedade e propósitos honestos na busca pelas comunicações.

Resolvemos, além de nossa análise, submeter ao NotebookLM, confrontando com toda a obra de Kardec. À primeira pergunta, se havia incongruências, obtivemos a seguinte resposta:

Ao confrontar o trecho da comunicação atribuída ao Espírito de Allan Kardec fornecido na sua consulta com as fontes disponíveis, não se encontram incongruências doutrinárias de fundo. Pelo contrário, o teor da mensagem reflete preocupações centrais e princípios metodológicos que Allan Kardec defendeu vigorosamente durante sua vida, especialmente em seus últimos anos e nas obras fundamentais.

Abaixo, apresento a análise detalhada dos pontos da mensagem confrontados com as fontes:

1. A Divisão de Grupos e os Avisos dos Espíritos

Mensagem: “Observo a divisão de grupos… e que eles próprios [os Espíritos] me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios…”

Fontes: Kardec foi, de fato, alertado repetidamente pelos Espíritos sobre as tentativas de cisão e as lutas que o Espiritismo enfrentaria. O Espírito Erasto, por exemplo, advertiu explicitamente: “Não ignoro… que se empregará de tudo para semear a divisão entre vós; que se procurará armar-vos emboscadas… que vos oporão uns aos outros”. Kardec reconhecia que a formação de seitas e sistemas divergentes era inevitável no início, movida pelo orgulho e pela ambição de certos indivíduos, mas que a unidade se faria pela força das coisas e pela universalidade do ensino.

2. A Insistência na Metodologia

Mensagem: “Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz…”

Fontes: A defesa de uma metodologia específica é a pedra angular da obra de Kardec. Ele insistia que o Espiritismo não era fruto de uma opinião pessoal, mas o resultado do “ensino coletivo e concordante dos Espíritos”. O método preconizado por ele não era aceitar cegamente o que diziam os Espíritos, mas submeter tudo ao “controle universal” e ao crivo da razão e da lógica,. Ele afirmava que aqueles que não seguissem esse método de concordância universal e se baseassem em opiniões isoladas estariam sujeitos ao erro e a criar sistemas efêmeros,. Portanto, a valorização de grupos que seguem essa metodologia é perfeitamente coerente com o pensamento do Codificador.

3. O Combate ao Misticismo e aos Dogmas

Mensagem: “…resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas…”

Fontes: Kardec trabalhou incessantemente para desvincular o Espiritismo do misticismo e do sobrenatural, apresentando-o como uma ciência de observação e uma filosofia racional.

    ◦ Sobre o Misticismo: Ele afirmava que o Espiritismo não aceita os fatos qualificados de maravilhosos ou sobrenaturais, explicando-os por leis naturais, e combatia práticas que pudessem levar ao fanatismo ou à superstição. Ele declarou explicitamente: “O Espiritismo é uma ciência positiva, que destrói os últimos vestígios do maravilhoso”.

    ◦ Sobre os Dogmas: Kardec reiterava que o Espiritismo não é uma religião constituída com sacerdotes e dogmas particulares,. Ele criticava a fé cega e defendia que a fé inabalável é aquela que pode encarar a razão face a face. Ele também alertou contra Espíritos que tentam impor sistemas absolutos ou dogmáticos, considerando isso um sinal de ignorância ou mistificação.

4. A Inversão de Palavras e Distorções

Mensagem: “…insistem… na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.”

Fontes: Kardec estava ciente de que as palavras e os princípios poderiam ser mal interpretados ou distorcidos. Ele se preocupou em criar neologismos (como “Espiritismo” e “perispírito”) justamente para evitar a confusão de termos e garantir a clareza das definições,. Ele também observou que adversários e falsos amigos tentariam desnaturar o espírito da doutrina ou criar sistemas contraditórios,. A própria história das adulterações póstumas de suas obras (como A Gênese e O Céu e o Inferno) confirma a existência fática dessas “distorções dos conteúdos da base da doutrina” mencionadas na mensagem,.

Conclusão

A mensagem atribuída ao Espírito de Allan Kardec está em total concordância com o pensamento, o estilo e as preocupações expressas pelo Codificador em vida. As fontes demonstram que ele:

1. Previa e combatia divisões baseadas em personalismo.

2. Defendia um método rigoroso de controle universal e racionalidade.

3. Rejeitava categoricamente o misticismo supersticioso e a imposição dogmática,.

4. Temia e alertava contra a alteração e distorção dos princípios fundamentais da Doutrina.

Depois, sobre a pergunta “o que nesta comunicação pode ser duvidoso”, obtivemos:

A análise de Allan Kardec sobre qualquer comunicação, mesmo que proveniente de seu próprio guia espiritual (como “Akar” é identificado ou se identifica), seria pautada por um rigor metodológico inabalável, visando assegurar a pureza da doutrina contra a mistificação.

Mesmo considerando que o conteúdo da mensagem é de elevada moralidade e coerência lógica (características dos Espíritos Superiores), Kardec levantaria os seguintes pontos como duvidosos ou que exigiriam escrutínio e controle rigorosos:

1. A Questão da Identidade (Autenticidade do Nome)

Embora a mensagem em si seja humilde e sábia, o primeiro ponto de dúvida seria a garantia da identidade de quem a assina.

  • Usurpação de Nomes: Kardec sabia que Espíritos inferiores (pseudo-sábios ou mistificadores) frequentemente usurpam nomes respeitáveis e venerados para dar mais peso às suas palavras e impingir suas utopias. O Espírito que se apresenta deve ser julgado pela linguagem e pelas máximas que formula, pois um Espírito que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ofendesse o bom-senso e a moral, provaria o embuste.
  • Aparência de Sabedoria: Os Espíritos enganadores “podem tudo imitar, tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento”. Portanto, mesmo a sabedoria demonstrada na mensagem de Akar teria de ser verificada pela concordância do ensino. A sabedoria e a lógica presentes no texto apenas provam que se trata de um Espírito de certa elevação, mas não necessariamente atestam a identidade histórica que ele insinua.

2. O Conceito de “Nosso Grupo Cresce”

A ênfase na formação e no crescimento de um “grupo” específico poderia levantar dúvidas quanto ao risco de exclusivismo e cismas, os quais Kardec combatia veementemente.

  • Riscos de Criação de Seitas: Kardec alertava que ambição e orgulho levam Espíritos a criar sistemas particulares e a ligar seus nomes a uma inovação. Quando um Espírito insufla a separação ou o isolamento dos adeptos, este trai a sua inferioridade.
  • Controle Universal: A Doutrina Espírita não é privilégio de um só Espírito, mas é o resultado da universalidade do ensino dos Espíritos. Akar declara que seu grupo “cresce” (Nosso grupo cresce), o que, para Kardec, seria menos importante do que a qualidade da união e a aderência à doutrina universal. Ele insistiria em saber se esse grupo se prega a união ou a separação das demais fileiras.
  • Evitar Superioridade Pessoal: Embora a afirmação de Akar de que ele é “apenas mais um” que propaga a verdade seja um sinal de superioridade moral, Kardec usaria o princípio da humildade para se precaver contra qualquer tentativa de estabelecer esse “grupo” como a única fonte verdadeira, pois todo Espírito que “pretende ter o privilégio da verdade” é inferior.

3. As Revelações sobre Lutas e o Futuro

Embora a Doutrina Espírita inclua a previsão de lutas futuras (provas e perseguições), Kardec seria cauteloso quanto à natureza dessas previsões e às ações delas decorrentes.

  • Garantia de Infalibilidade: Kardec repetia que “os Espíritos não têm nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência”, e que seu conhecimento é limitado ao seu grau de depuração. Por isso, a Doutrina Espírita exige que as ideias isoladas sejam aceitas com reservas.
  • Previsões de Datas/Fatos Materiais: A comunicação de Akar não contém datas específicas, mas é um aviso sobre a dureza das “provas” e que “Muitos sucumbirão”. Kardec aceitava pressentimentos de acontecimentos futuros quando úteis, mas desconfiava de previsões circunstanciais, especialmente sobre fatos materiais e datas fixas, pois estas são indícios de mistificação.

Em resumo, Kardec utilizaria o princípio do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (comparando essa mensagem com outras recebidas em diferentes centros e médiuns) e o crivo da razão para confirmar a autenticidade e a pureza de todos os pontos levantados por Akar, garantindo que a doutrina não se desviasse para o dogmatismo ou misticismo.

Notamos serem muito pertinentes as análises feitas pelo NotebookLM, mostrando-se uma ferramenta muito útil na pesquisa mediúnica. Porém, quando ele fala do grupo, notamos que a comunicação não se refere a algo exclusivista, mas sim no sentido do grupo de Espíritos que buscam a disseminação da verdade. Ademais, não notamos nada, nessa comunicação, que aponte para problemas de misticismo ou embuste. Na verdade, pensamos que tudo nela demonstra o caráter que se esperaria, como já dissemos.

Deixamos, enfim, a comunicação para apreciação dos demais, e também como uma incitação à retomada da pesquisa mediúnica, o que carece de que muitos grupos se formem, fazendo o mesmo, por toda parte, e colocando-se em colaboração, para realizar o método de Kardec.




Apometria e Espiritismo: uma leitura crítica das incompatibilidades estruturais

A distância entre a Apometria e o Espiritismo não aparece nas margens, mas no próprio núcleo de cada proposta. Quando examinamos detidamente o sistema apométrico atribuído a José Lacerda de Azevedo e o confrontamos com os princípios doutrinários consolidados nas obras de Allan Kardec — O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno, Obras Póstumas e os doze anos da Revista Espírita — o resultado não é uma gradação, mas uma cisão. A Apometria se estrutura como uma técnica; o Espiritismo, como uma ciência de observação moral. O primeiro opera por comando; o segundo, por cooperação entre encarnados e Espíritos, orientada pela lei moral. A inconciliação é inevitável.

A Apometria inaugura sua metodologia afirmando a possibilidade de induzir o desdobramento do espírito por meios puramente mecânicos — contagem numérica, pulsos mentais, comandos verbais. Em essência: se o operador der a ordem e marcar um ritmo, o espírito se separa, consciente, pronto para ser conduzido. Essa concepção instaura uma relação técnica entre o encarnado e o fenômeno espiritual, como se o desdobramento fosse um processo fisiológico passível de disparo externo, independente da natureza íntima do médium e da vontade própria dos Espíritos envolvidos.

Nada disso encontra fundamento na obra kardequiana. Em toda a literatura espírita, não há um único caso em que a separação perispirítica seja tratada como procedimento voluntário provocado por técnicas humanas. Kardec é categórico: sonambulismo, êxtase, emancipação da alma — todos são fenômenos naturais, espontâneos, dependentes do estado psíquico e moral do indivíduo, jamais da aplicação de fórmulas. E quando se discute a influência de ordens, rituais, palavras ou contagens, a resposta dos Espíritos Superiores é sempre a mesma: qualquer virtude atribuída a tais métodos é superstição, e doutrinas que prescrevem processos mecânicos são inspiradas por Espíritos ignorantes.

No universo apométrico, contudo, a técnica substitui o fenômeno natural. O operador assume o papel de agente ativo, capaz de “abrir” e “fechar” o desdobramento, de “recolher” o espírito do paciente, de projetá-lo a ambientes espirituais específicos ou mesmo de conduzi-lo a situações pretéritas ou futuras. O espírito passa a ser tratado como objeto manipulável, submetido a comandos exteriores. Em Espiritismo, ao contrário, a autonomia do Espírito é inviolável. Kardec estabelece que, entre Espíritos, encarnados ou desencarnados, só existe supremacia pela superioridade moral — jamais pela força. Nenhum Espírito pode ser constrangido por autoridade técnica, e nenhum processo legítimo de assistência espiritual se baseia em qualquer forma de coação.

Outro ponto de ruptura aparece na maneira como a Apometria concebe o perispírito e o mundo espiritual. O sistema presume a existência de múltiplas camadas perispirituais que podem ser separadas umas das outras, operadas individualmente e tratadas como níveis funcionais distintos, cada qual suscetível a manipulação direta pelo operador. Não há, em Kardec, nada que se aproxime dessa visão fragmentada. O perispírito, para a Doutrina Espírita, é uma unidade funcional, elástica, plástica, submetida à vontade do Espírito — e não ao bisturi vibratório de um técnico humano. A fragmentação operacional do ser espiritual é estranha à ontologia espírita.

As divergências tornam-se ainda mais evidentes quando se observa a introdução de aparelhos, mecanismos, estruturas tecnológicas e “equipamentos astrais” nas práticas apométricas. A presença de dispositivos implantados, máquinas, instrumentos de natureza supostamente eletrônica ou eletromagnética no plano espiritual contrasta radicalmente com a ciência espírita, segundo a qual os fenômenos espíritas são essencialmente fluídicos, derivados da vontade e da moralidade dos Espíritos, e não da mecânica. Kardec jamais descreve engenharias espirituais dotadas de parafusos, emissores, módulos ou ferramentas de intervenção física. Para ele, cura, obsessão, alívio ou perturbação se estabelecem por processos morais, vibratórios, magnéticos, mas nunca por instrumentos.

Mais profunda que qualquer divergência técnica é a ruptura filosófica. O Espiritismo sustenta que toda evolução procede da transformação moral do Espírito, e que nenhum processo externo — seja ritual, aparelho, técnica ou comando — pode substituir o esforço íntimo. A Apometria, ao contrário, atribui ao operador a capacidade de corrigir, reorganizar e redefinir estados espirituais pela técnica, como se o aperfeiçoamento moral fosse suplementar e não estrutural. A ética kardequiana é abolida quando o progresso deixa de ser trabalho interior do Espírito e passa a ser função de um processo técnico aplicado de fora.

Por fim, a Apometria apresenta-se como doutrina nova, com leis próprias, terminologia própria, aparato conceitual independente e objetivos distintos — mas reivindica proximidade com o Espiritismo. A posição de Kardec sobre doutrinas novas, entretanto, é inequívoca: qualquer sistema que introduza princípios que não se harmonizam com a universalidade do ensino dos Espíritos, ou que crie divisões, exclusivismos, grupos fechados, ou identidades paralelas ao Espiritismo, é necessariamente estranho à Doutrina Espírita. E mais: quando uma teoria carece de confirmação universal, ou apresenta elementos contrários às leis morais e fluídicas demonstradas, ela não deve ser incorporada ao corpo doutrinário.

A Apometria, portanto, não é apenas um acréscimo ao Espiritismo; é um corpo estranho. Opera por comandos onde o Espiritismo opera por moral. Usa técnica onde o Espiritismo usa observação. Manipula espíritos onde o Espiritismo coopera com eles. Introduz tecnologia onde o Espiritismo descreve fluido. Oferece leis artificiais onde o Espiritismo reconhece leis naturais e morais.

Não há conciliação possível.
E isso não desmerece a Apometria enquanto construção espiritualista particular; apenas a coloca no lugar correto: um sistema independente, não espírita, não kardequiano, não compatível com a ciência dos Espíritos tal como estabelecida por Kardec.




Herculano, Espiritismo e Socialismo: a confusão causada pela terminologia

Desde os primórdios do movimento espírita, certos equívocos terminológicos criaram distorções que ainda hoje dificultam a compreensão precisa da Doutrina. Palavras tomadas de outros campos — carregadas de significados consolidados, disputadas por correntes divergentes ou marcadas por tradições alheias ao Espiritismo — foram incorporadas ao discurso espírita com sentidos particulares, diferentes dos sentidos predominantes no uso comum. Essa prática, embora muitas vezes bem-intencionada, produziu ambiguidades profundas, aproximando o Espiritismo ora de estruturas religiosas que ele não possui, ora de correntes políticas que jamais integraram seu corpo doutrinário. O resultado foi um terreno fértil para confusões, apropriações indevidas e interpretações que se afastam do método claro, simples e racional estabelecido por Kardec.

1. A gênese do problema terminológico

Desde cedo, parte do movimento espírita insistiu em qualificar o Espiritismo como “religião”, ainda que apenas “em sentido filosófico”. A escolha do termo, porém, contradizia a própria estrutura doutrinária: no uso comum, religião implica culto, rito, autoridade espiritual, dogma e hierarquia institucional — elementos estranhos à ciência espírita organizada por Allan Kardec. O resultado dessa insistência foi a consolidação de um ruído permanente. Uma única palavra, tomada de outro campo semântico, aproximou o Espiritismo de estruturas alheias ao seu método racional, criando uma ambiguidade que se perpetuou.

2. A questão do “socialismo” em Denis e Herculano

O mesmo processo se repete no emprego do termo “socialismo” por Léon Denis e, posteriormente, por Herculano Pires. Denis utiliza o vocábulo para expressar um ideal de fraternidade, cooperação moral e solidariedade entre os homens — um uso espiritualista, ético, baseado na perfectibilidade do indivíduo. Contudo, o cenário intelectual do século XIX já era marcado por múltiplas correntes socialistas coexistindo e competindo entre si. Entre elas, uma se destacava com força crescente: o socialismo científico, materialista, construído por Marx e Engels a partir da década de 1840, dotado de corpo teórico robusto, vocabulário próprio e influência concreta no movimento operário europeu.

O termo “socialismo”, portanto, já estava profundamente saturado de sentidos divergentes, quando não abertamente antagônicos. Não possuía neutralidade semântica. Não havia um “socialismo”, mas “socialismos”, dos quais apenas uma parcela guardava afinidade com valores espiritualistas. Assim, quando Denis e Herculano optam por preservar a palavra tentando diferenciá-la do materialismo marxista, acabam enfrentando um obstáculo inevitável: o termo não lhes pertence. Ele carrega consigo a força do uso dominante, e essa força prevalece sobre a intenção particular do autor.

3. A captura dos termos pelo sentido predominante

O fenômeno é idêntico ao que ocorreu com a expressão “religião em sentido filosófico”. Palavras carregadas por usos amplos e consolidados não se submetem à redefinição artificial. Ao entrar no discurso espírita, esses vocábulos acionam imediatamente as conotações predominantes no imaginário social. Assim, o “socialismo” de Denis — moral, espiritual, humanitário — torna-se facilmente tomado como o “socialismo” marxista — materialista, coletivista, partidário, centrado na luta de classes. O mesmo vale para “religião”: a tentativa de limitar o termo a um sentido filosófico não impede que seus significados tradicionais sejam evocados.

Essa captura semântica produz efeitos doutrinários concretos:

  1. Denis e Herculano passam a ser usados como legitimadores de correntes políticas modernas.
  2. A crítica moral à desigualdade é confundida com adesão a programas ideológicos.
  3. O Espiritismo é deslocado para disputas políticas que não lhe dizem respeito.
  4. Correntes materialistas encontram brecha para se infiltrar no discurso espírita.

A confusão não nasce do conteúdo doutrinário, mas da escolha terminológica mal calibrada para o ambiente semântico em que circula.

4. A autosuficiência racional do Espiritismo

O Espiritismo organizado por Kardec não necessita dessas categorias externas. É uma doutrina clara, simples, lógica, fundada na observação dos fatos e na análise racional dos fenômenos. Sua visão da vida repousa sobre leis morais e sobre a evolução espiritual do indivíduo — não sobre estruturas teológicas, nem sobre projetos políticos.

E é precisamente essa estrutura racional, quando preservada em sua forma original, que conduz de modo natural à transformação social. Não se trata de intervenção estatal, planejamento coletivista ou programas de reforma impostos de fora para dentro. A mudança social derivada do Espiritismo ocorre pela modificação progressiva das consciências: esclarecimento moral, responsabilidade, livre adesão ao bem, percepção das consequências espirituais das ações. É uma mudança autônoma, espontânea e não coercitiva. Esse ponto é fundamental, pois o Espiritismo contraria e refuta claramente as doutrinas materialistas e coercitivas de mudança social, demonstradas como apenas artificiais e não duradouras, como é o caso do socialismo científico, do comunismo e do marxismo (usando esse termo apenas para ficar claro).

Quando a doutrina é mantida íntegra — fiel à metodologia kardeciana — a transformação moral do indivíduo inevitavelmente irradia para as estruturas sociais. Não há necessidade de vestir o Espiritismo com termos de campos alheios, nem de aproximá-lo artificialmente de correntes políticas. Quando isso ocorre, o efeito é contrário: a natureza da Doutrina é distorcida, perde clareza e abre espaço para leituras indevidas.

5. A consequência inevitável da ambiguidade terminológica

Enxertar termos carregados como “religião” ou “socialismo” sobre o Espiritismo é sempre contraproducente. Cada vocábulo traz consigo um universo de significados que obscurece, confunde e dá azo a interpretações errôneas. A semântica dominante domina o pensamento. A doutrina, então, acaba envolvida em disputas que não pertencem ao seu campo de atuação.

Restituir precisão conceitual significa recuperar a linguagem própria do Espiritismo — aquela construída por Kardec, rigorosa, racional, desprovida de ambiguidades. Significa impedir que conceitos externos deformem sua estrutura. Significa preservar as condições para que sua ação social se dê da única forma compatível com sua natureza: pela liberdade de consciência, pela compreensão das leis espirituais, pelo amadurecimento interior, sem imposições, sem alinhamentos ideológicos e sem empréstimos terminológicos que desviem o foco da Doutrina.




A questão da identidade dos Espíritos

A presente questão foi elaborada por conta da presença de uma mensagem atribuída a Allan Kardec, na introdução do livro “O Espiritismo é obra de Jesus”, de Paulo Henrique de Figueiredo e outros autores:

Percorram o caminho que trilhei. Teve, sim, dor, medo, revezes e pedras. Mas nada me deteve; ainda mais: me encorajaram e ampliaram a determinação. Cada um de nós, em determinado momento da jornada, vai vivenciar a prova máxima, a realização verdadeira, onde encontramos nosso valor ao servir dedicadamente, humildemente, ao nosso Criador. Ontem fui eu, amanhã será cada um de vocês. Os mundos esperam na eternidade que a luz indique o caminho. A luz do mundo foi Jesus; eu apenas repeti suas palavras. Juntos servimos ao comando de Deus. Venha fazer parte dessa festa resplandecente. Os tempos se realizaram. Basta seguir em frente.

Allan Kardec

Página psicografada no dia 12 de setembro de 2025.

Grupo mediúnico Mateus.

“Se nós evocássemos Kardec e um Espírito, dizendo ser Kardec, trouxesse uma mensagem elevada, de cunho moral, e não nos aprofundando mais do que isso, seria importante conseguirmos procar a identidade desse Espírito? O que Kardec demonstrava sobre esse tipo de situação?”

Esta é uma questão que toca no cerne do método de Allan Kardec para o discernimento das comunicações espirituais, especialmente quando se trata de ensinamentos morais elevados.

De acordo com Allan Kardec, no cenário que você descreve — onde um Espírito se apresenta com um nome respeitável (como o dele) e traz uma mensagem elevada, de cunho moral — a identidade absoluta desse Espírito seria uma questão secundária e sem importância real.

Abaixo está o que Kardec demonstrou e ensinou sobre essa situação, priorizando o valor do conteúdo em detrimento do nome.

1. A Prioridade do Conteúdo Moral

Kardec estabeleceu uma regra fundamental para julgar as comunicações, aplicável quando a instrução é o foco principal:

O que importa é a natureza do ensino: se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina. Esta é a questão capital.

• O nome nunca é uma garantia. A única e verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira pela qual ele é expresso.

• Se o ensino for bom e racional, pouco importa o nome que o Espírito tome.

• Para as instruções gerais, se o Espírito só disser coisas aproveitáveis, o nome pelo qual se dá a conhecer é indiferente. Muitas vezes, um Espírito toma um nome conhecido (como o de um apóstolo ou de uma pessoa respeitada) para fixar as ideias do evocador.

• Se um Espírito que só prega o bem fosse capaz de mentir conscientemente e sem utilidade alguma, teríamos que supor que é um Espírito mau, o que não é lógico. O objetivo essencial e exclusivo do Espiritismo é o aperfeiçoamento moral dos homens. Uma mensagem moral elevada serve a esse propósito.

Em resumo, o juízo sobre um Espírito que se comunica sob um nome respeitável, mas fornece uma mensagem pura, sem contradições e à altura do caráter esperado (como Kardec), deve ser feito primariamente pela apreciação moral da linguagem e das máximas.

2. A Traição pela Linguagem

Kardec advertia que os Espíritos que se apropriam de nomes respeitáveis, como forma de mistificação, são rapidamente desmascarados quando sua linguagem é analisada.

• Os Espíritos impostores se traem logo pela linguagem que empregam e pelas máximas que formulam. Se, por exemplo, o Espírito ofender o bom-senso ou a moral, ele demonstrará, por esse simples fato, o embuste.

• Os Espíritos enganadores podem imitar tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento.

• A linguagem dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica e isenta de contradições, e nela se respira a sabedoria, a benevolência e a mais pura moral.

• Se um ensino for bom, racional e não provocar objeções sérias, a conclusão é que a fonte é superior, mesmo que o nome seja apócrifo.

3. Quando a Identidade é Crucial

Embora a identidade seja secundária para a instrução geral, ela é considerada importante ou mais fácil de verificar em outros contextos:

1. Evocações Íntimas: Se o objetivo é a comunicação com um parente ou amigo, a pessoa mesma interessa, e é razoável tentar certificar-se da identidade, que é mais facilmente comprovada quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos caracteres e hábitos são conhecidos.

2. Mistificações Sistêmicas: A atenção deve se concentrar na distinção dos bons e dos maus Espíritos, cuja qualidade nunca é indiferente, mesmo que a individualidade seja. O Espírito de ordem inferior que se adorna com um nome respeitável para que suas palavras mereçam crédito exige grande precaução.

O que Kardec demonstrou sobre a situação:

Allan Kardec demonstrou que o discernimento contínuo, baseado na lógica e no bom senso, é a ferramenta mais segura. Ele e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não aceitavam como verdade irrefutável tudo o que vinha dos Espíritos, sabendo que eles podem se enganar ou mistificar.

A experiência (a observação contínua dos fatos e da linguagem) é que dá os meios para desmascarar as mistificações.

Em síntese, se a mensagem do Espírito que diz ser Kardec for elevada e moral, ela é, por definição, útil para o seu adiantamento moral, que é a meta essencial do Espiritismo. Nesses casos, a qualidade do ensinamento é a prova suficiente de que o Espírito é elevado (seja Kardec ou um Espírito de igual elevação que se apresenta sob esse nome). Provar a identidade materialmente seria pueril ou desnecessário, pois o valor do intercâmbio já estaria estabelecido pelo conteúdo moral.

Para melhor compreensão, podemos usar uma analogia: na Doutrina Espírita, ao receber uma mensagem moral elevada, é como se você recebesse um cheque assinado por uma figura de grande reputação. Se o cheque for genuinamente endossado por uma instituição financeira sólida (a moralidade e a razão), a validade da riqueza (o ensinamento) é garantida, mesmo que você não tenha certeza se a pessoa que o entregou pessoalmente era o próprio signatário, pois a intenção caridosa e a fonte de valor são incontestáveis. O foco está no valor inegável da moeda (a moralidade), e não na autenticidade da assinatura para fixar o valor. O Espírito de ordem inferior, por sua vez, seria como alguém que tenta passar uma nota falsa, mas o material (a moralidade) não resiste à inspeção minuciosa.




Análise de Comunicação Mediúnica – A Metodologia Espírita: Fé, Provas e o Estudo em Grupo

Hoje trouxemos mais uma análise de comunicação mediúnica. O foco sempre é destacar as características lógicas das mensagens através do corpo da mensagem, análises ponto a ponto, e conclusões.

No mês de novembro de 2025, em uma de nossas reuniões mediúnicas, um dos médiuns recebeu a seguinte comunicação psicográfica espontânea de um Espírito:

Houve um tempo em que a necessidade das provas era necessária. Hoje, de acordo com a evolução dos habitantes do mundo, ela é ainda mais necessária, visto que a humanidade está cada vez mais imbuída de más intenções, visando o egoísmo e o ganho pessoal acima do coletivo. Estudos estão sendo feitos sobre médiuns e mediunidade. Os pesquisadores, no entanto, focados em cartas consoladoras, esquecem o básico da doutrina. Ou esquecem ou desconhecem.

Quando buscam por cartas consoladoras com o intuito da comprovação, o mundo espiritual, muitas vezes, se cala. A pesquisa carece de um ponto essencial: a fé. Também carece do entendimento do mundo espiritual.

Se fossemos enumerar, aqui, esses pontos, teríamos que ditar a codificação desde o seu princípio.

Ainda na época de Kardec, tentaram os mesmos experimentos. De lá, para cá, nada mudou nas Leis de Deus, nem na conduta dos Espíritos.

Mas não se preocupem. A hora das provas concretas está próxima e até os incrédulos tremerão.

Já dissemos: se for preciso, voltaremos a bater nas mesas.

Os médiuns são falhos. As Leis de Deus, não.

O estudo desses cientistas deveria ser feito em um grupo mediúnico. Só assim, poderiam entender o funcionamento básico dos fenômenos. Isolar médiuns para evocar espíritos não é um estudo correto. Analisar, no entanto, médiuns em transe nos grupos, poderia dar a eles material para abrirem as pesquisas.

Mas somos apenas mensageiros. Nossas palavras nem sempre são bem entendidas.

Desejamos, e faremos a nossa parte para que eles cheguem às suas melhores conclusões, sem retirar da humanidade a fé do amanhã, pelo contrário, informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo. (( entendemos que esta parte da mensagem seja melhor entendida desta forma: “Desejamos informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo. E faremos a nossa parte para que eles cheguem às suas melhores conclusões, sem retirar a fé do amanhã da humanidade” ))

Um Espirito – nov 2025

Esta comunicação tem a característica da firmeza doutrinária, lógica rigorosa e foco na utilidade moral. Aferiremos se as asserções do Espírito são coerentes com o ensinamento geral. Assim como se ela promove o progresso e o bem, em vez do sensacionalismo ou da especulação.

A mensagem pode ser classificada como profundamente instrutiva e em total conformidade com a moral dos Espíritos Superiores. Ela serve como um guia prático e uma severa advertência aos pesquisadores e médiuns.

Aqui está a análise ponto a ponto:

1. Sobre a Condição da Humanidade e a Necessidade das Provas

A avaliação da Humanidade — que está cada vez mais imbuída de más intenções, visando o egoísmo e o ganho pessoal acima do coletivo” — é uma constatação que reflete a realidade do nosso planeta de expiações e provas. O egoísmo e o orgulho são as verdadeiras chagas da Humanidade. O Espiritismo tem como meta essencial justamente o aperfeiçoamento moral do ser humano.

A declaração de que a necessidade das provas é ainda maior é lógica, pois as manifestações espíritas têm um fim providencial: convencer os incrédulos da sobrevivência da alma.

O aviso de que a “hora das provas concretas está próxima” e que “se for preciso, voltaremos a bater nas mesas”. está em sintonia com a lei do progresso. Os Espíritos iniciaram as suas manifestações com os efeitos físicos (as pancadas — tiptologia), que serviram como o vestíbulo da Ciência para despertar a atenção. Kardec observou que os Espíritos conduzem o ensino de modo gradativo e prudente. A retomada dos fenômenos físicos seria um meio poderoso para a implantação universal da doutrina na nova fase. Isto chocaria aqueles que ainda precisam de evidências materiais. ((https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/889/viagem-espirita-em-1862/1983/discursos-pronunciados-nas-reunioes-gerais-dos-espiritas-de-lyon-e-bordeaux ))

A afirmação de que “nada mudou nas Leis de Deus, nem na conduta dos Espíritos” é perfeitamente exata, pois as leis divinas são imutáveis. (( O Céu e o Inferno – Primeira Parte: Doutrina – Capítulo VIII. As penas futuras segundo o espiritismo – 14°. Diante dessa lei cai igualmente a objeção tirada da presciência divina. Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude de seu livre-arbítrio, ela tomará o bom ou o mau caminho; sabe que ela será punida se agir mal; mas sabe também que esse castigo temporário é um meio de fazê-la compreender seu erro e de fazê-la adentrar no bom caminho, a que chegará cedo ou tarde. Segundo a doutrina das penas eternas, Deus sabe que a alma falhará e está de antemão condenada a torturas sem fim. A razão diz também de qual lado está a verdadeira justiça de Deus. ))

2. Sobre a Metodologia de Pesquisa, a Fé e o Silêncio Espiritual

A crítica aos pesquisadores que “focados em cartas consoladoras, esquecem o básico da doutrina” e agem com a “curiosidade” é um ponto essencial reiterado nas obras espíritas.

Necessidade de Fé e Estudo: O ensino afirma corretamente que a pesquisa carece de e de entendimento do mundo espiritual. Kardec sempre sublinhou que a fé inabalável é aquela que pode encarar frente a frente a razão. O estudo sério e perseverante é a primeira condição para conhecer o Espiritismo. (( https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/47/introducao-ao-estudo-da-doutrina-espirita/xvii ))

O Silêncio Espiritual: O fato de que “o mundo espiritual, muitas vezes, se cala” quando a busca é pela comprovação (por interesse ou curiosidade) é uma verdade constante. Os Espíritos Superiores não gostam dos curiosos. Eles não se prestam a experiências frívolas, ociosas ou para dar espetáculo, e se recusam a auxiliar qualquer tipo de cupidez ou egoísmo.

A mensagem está correta ao sugerir “ditar a codificação desde o seu princípio” para esclarecer esses pontos. isto demonstraria que, sem a base filosófica (Deus, alma, imortalidade), o estudo da manifestação é inútil. (( Livro dos Médiuns capítulo III – Do método https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/884/o-livro-dos-mediuns-ou-guia-dos-mediuns-e-dos-evocadores/1009/primeira-parte-nocoes-preliminares/capitulo-iii-do-metodo/18)))

3. Sobre a Falibilidade do Médium e a Importância do Grupo

A comunicação fornece instruções práticas vitais sobre a prática mediúnica:

A Falibilidade: A distinção “Os médiuns são falhos. As Leis de Deus, não” é fundamental. A faculdade mediúnica é orgânica e independe do moral do médium. Contudo, a aplicação e a qualidade das comunicações dependem das qualidades do médium.

O Escolho do Isolamento: A crítica de que “Isolar médiuns para evocar espíritos não é um estudo correto” é uma máxima de segurança. O isolamento do médium é um dos maiores escolhos da mediunidade. Aquele que trabalha sozinho se torna facilmente presa de Espíritos mentirosos e hipócritas que o dominam. (( Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo Das manifestações espíritas Capítulo XXIII — Da obsessão – Causas da obsessão – 248. Acontece muito frequentemente que um médium só se pode comunicar com um único Espírito, que a ele se liga e responde pelos que são chamados por seu intermédio. Nem sempre há nisso uma obsessão, porquanto o fato pode derivar da falta de maleabilidade do médium, de uma afinidade especial sua com tal ou tal Espírito. Somente há obsessão propriamente dita, quando o Espírito se impõe e afasta intencionalmente os outros, o que jamais é obra de um Espírito bom. Geralmente, o Espírito que se apodera do médium, tendo em vista dominá-lo, não suporta o exame crítico das suas comunicações; quando vê que não são aceitas, que as discutem, não se retira, mas inspira ao médium o pensamento de se insular, chegando mesmo, não raro, a ordenara-lo. Todo médium, que se melindra com a crítica das comunicações que obtém, faz-se eco do Espírito que o domina, Espírito esse que não pode ser bom, desde que lhe inspira um pensamento ilógico, qual o de se recusar ao exame. O insulamento do médium é sempre coisa deplorável para ele, porque fica sem uma verificação das comunicações que recebe. Não somente deve buscar a opinião de terceiros para esclarecer-se, como também necessário lhe é estudar todos os gêneros de comunicações, a fim de as comparar. Restringindo-se às que lhe são transmitidas, expõe-se a se iludir sobre o valor destas, sem considerar que não lhe é dado tudo saber e que elas giram quase sempre dentro do mesmo círculo.))

A Força do Grupo: O conselho de que o estudo “deveria ser feito em um grupo mediúnico” é a única forma de evitar a obsessão. O grupo sério fornece o controle, a análise e o exame crítico das comunicações por pessoas desinteressadas e benevolentes, o que desmascara os Espíritos enganadores. (( O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Segunda parte — Das manifestações espíritas. Capítulo XXIX — Das reuniões e das sociedades espíritas. Das reuniões em geral. 329.As reuniões de estudo são, além disso, de imensa utilidade para os médiuns de manifestações inteligentes, para aqueles, sobretudo, que seriamente desejam aperfeiçoar-se e que a elas não comparecerem dominados por tola presunção de infalibilidade. Constituem um dos grandes tropeços da mediunidade, como já tivemos ocasião de dizer, a obsessão e a fascinação. Eles, pois, podem iludir-se de muito boa-fé, com relação ao mérito do que alcançam e facilmente se concebe que os Espíritos enganadores têm o caminho aberto, quando apenas lidam com um cego. Por essa razão é que afastam o seu médium de toda fiscalização; que chegam mesmo, se for preciso, a fazê-lo tomar aversão a quem quer que o possa esclarecer. Graças ao insulamento e à fascinação, conseguem sem dificuldade levá-lo a aceitar tudo o que eles queiram. Nunca será demais repetir: aí se encontra não somente um tropeço, mas um perigo; sim, verdadeiro perigo, dizemos. O único meio, para o médium, de escapar-lhe é a análise praticada por pessoas desinteressadas e benevolentes que, apreciando com sangue frio e imparcialidade as comunicações, lhe abram os olhos e o façam perceber o que, por si mesmo, ele não possa ver. Ora, todo médium que teme esse juízo já está no caminho da obsessão; aquele que acredita ter sido a luz feita exclusivamente em seu proveito está completamente subjugado. Se toma a mal as observações, se as repele, se se irrita ao ouvi-las, dúvida não cabe sobre a natureza má do Espírito que o assiste. Temos dito que um médium pode carecer dos conhecimentos necessários para perceber os erros; que pode deixar-se iludir por palavras retumbantes e por uma linguagem pretensiosa, ser seduzido por sofismas, tudo na maior boa-fé. Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos veem mais do que dois e — ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espírito a sua inferioridade. Todo médium, que sinceramente deseje não ser joguete da mentira, deve, portanto, procurar produzir em reuniões serias, levando-lhes o que obtenha em particular, aceitar agradecido, solicitar mesmo o exame crítico das comunicações que receba. Se estiver às voltas com Espíritos enganadores, esse o meio mais seguro de se desembaraçar deles, provando-lhes que não o podem enganar. Aliás, ao médium, que se irrita com a crítica, tanto menos razão assiste para semelhante irritação, quanto o seu amor-próprio nada tem que ver com o caso, pois que não é seu o que lhe sai da boca, ou do lápis, e que mais responsável não é por isso, do que o seria se lesse os versos de um mau poeta. Insistimos nesse ponto, porque, assim como esse é um escolho para os médiuns, também o é para as reuniões, nas quais importa não se confie levianamente em todos os intérpretes dos Espíritos. O concurso de qualquer médium obsidiado, ou fascinado, lhes seria mais nocivo do que útil; não devem elas, pois, aceitá-lo. Julgamos já ter expendido observações suficientes, de modo a lhes tornar impossível equivocarem-se acerca dos caracteres da obsessão, se o médium não a puder reconhecer por si mesmo. Um dos mais evidentes é, da parte deste, a pretensão de ter sempre razão contra toda gente. Os médiuns obsidiados, que se recusam a reconhecer que o são, se assemelham a esses doentes que se iludem sobre a própria enfermidade e se perdem, por se não submeterem a um regime salutar. ))

Análise em Transe: A sugestão de “analisar, no entanto, médiuns em transe nos grupos” é uma metodologia válida. O estado de sonambulismo ou êxtase permite que o Espírito do médium se manifeste mais livremente, revelando manifestações mais elevadas e profundas.

4. Sobre a Identidade e a Missão

A ausência de um nome específico do Espírito, apresentando-se apenas como “somos apenas mensageiros”, seria visto como um sinal de seriedade e humildade, típicos de Espíritos que se importam com a ideia e não com o homem. Pela análise, podemos afirmar que é o mesmo espirito que se comunicou anteriormente na nesta mensagem aqui

O Foco na Mensagem: A prioridade de “informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo” é a finalidade máxima e essencial da Doutrina Espírita. ((https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo/1320/capitulo-ii-nocoes-elementares-de-espiritismo/fim-providencial-das-manifestacoes-espiritas))

Veredito Final de nossa análise:




O falso “Allan Kardec”, a FEB e a unificação sob Ismael

Sob o título de “INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL”, no livro “A Prece Segundo o Evangelho”, encontramos uma comunicação de um Espírito que se apresenta, no grupo Sayão, grupo roustainguista que tomou a FEB e desviou o Movimento Espírita Brasileiro, sob o nome de Allan Kardec. Analisemos essa comunicação, fazendo observações e proposições de perguntas que poderiam ter colocado esse Espírito mistificador em seu lugar:

INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL

I — EXORTAÇÃO AO ESTUDO, À CARIDADE E À UNIFICAÇÃO

Paz e amor convosco.
Que possamos ainda uma vez, unidos pelos laços da fraternidade, estudar essa doutrina de paz e de amor, de justiça e de esperanças, graças à qual encontraremos a estreita porta da salvação futura — o gozo indefinido e imorredouro para as nossas almas humildes.

Antes de ferir os pontos que fazem o objetivo da minha manifestação, devo pedir a todos vós que me ouvis — a todos vós espíritas a quem falo neste momento — que me perdoeis se porventura, na externação dos meus pensamentos, encontrardes alguma coisa que vos magoe, algum espinho que vos vá ferir a sensibilidade do coração.

O cumprimento do dever nos impõe usemos de linguagem franca, rude mesmo. Por isso que cada um de nós tem uma responsabilidade individual e coletiva e, para salvá-la, lançamos mão de todos os meios que se nos oferecem, sem contarmos, muitas vezes, com a pobreza da nossa inteligência, que não nos permite dizer aquilo que sentimos sem magoar, não raro, corações amigos, para os quais só desejamos a paz, o amor e as doçuras da caridade.

Certo de que ouvireis a minha súplica; certo de que, falando aos espíritas, falo a uma agremiação de homens cheios de benevolência, encetei o meu pequeno trabalho, cujo único fim é desobrigar-me de graves compromissos que tomei para com o nosso Criador e Pai!

Sempre compassivo e bom, volvendo os piedosos olhos à Humanidade escrava dos erros e das paixões do mundo, Deus torna uma verdade as palavras do Cristo, e manda o Consolador — o Espírito de Verdade — que abertamente fale da revelação messiânica a essa mesma Humanidade esquecida dAquele que foi levado pelas ruas da amargura, sob o peso das iniqüidades e das ingratidões dos homens!

A forma de falar de Jesus é inteiramente devocional, emocional, sem qualquer traço do cuidado terminológico kardeciano. Kardec distingue constantemente o Cristo-homem histórico da função de “modelo e guia”, analisa o ensino moral, evita esse tipo de pintura dramática e sentimental como argumento. Aqui, Jesus é usado como gatilho afetivo para legitimar o discurso que vem em seguida.

O Espíritismo NUNCA foi algo messiânico, posto que é uma ciência, construída pela metodologia sempre exposta por Kardec, com a colaboração de milhares de pessoas, espalhadas por toda parte. Messiânica era como ser vista a tarefa misticista de Jean-Baptiste Roustaing. Diz Kardec, em “O Espiritismo em sua mais simples expressão”:

“A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não a tem em indivíduo algum. As duas primeiras foram individuais, a terceira coletiva; aí está um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada como privilégio a pessoa alguma: ninguém, por conseqüência, pode inculcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada simultaneamente, por sobre a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais alta da escala, conforme esta predição registrada pelo autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei o meu espírito sobre toda a carne; os vossos filhos e filhas profetizarão, os mancebos terão visões, e os velhos, sonhos”. (Atos, 2:17 e 18.) Ela não proveio de nenhum culto especial, a fim de servir um dia, a todos, de ponto de ligação”.

Algumas perguntas que poderiam ter colocado esse Espírito em seu devido lugar:

  1. Onde Kardec classificou o Espiritismo como “revelação messiânica”?
  2. Como conciliar “revelação messiânica” com a declaração explícita de Kardec de que a terceira revelação não tem missionário único e é coletiva?
  3. De onde você extraiu autorização para alterar a natureza da revelação, se o controle universal exige concordância entre múltiplas fontes independentes?
  4. Você pretende substituir a revelação coletiva por uma revelação centralizada em você, Ismael ou Roustaing?

Corridos os séculos, desenvolvido intelectualmente o espírito humano, Deus, na sua sabedoria, achou que era chegado o momento de convidar os homens à meditação do Evangelho — precioso livro de verdades divinas — até então ensombrado pela letra, devido à deficiência da percepção humana para compreendê-lo em espírito.

Por toda a parte se fez luz; revelou-se à Humanidade o Consolador prometido, recebendo os povos — de acordo com o seu preparo moral e intelectual — missões importantes, tendentes a acelerar a marcha triunfante da Boa-Nova!

Todos foram chamados: a nenhum recesso da Terra deixou de apresentar-se o Consolador em nome desse Deus de misericórdia, que não quer a morte do pecador — nem o extermínio dos ingratos — e sim os deseja ver remidos dos desvarios da carne, da obcecação dos instintos.

Sendo assim, a esse pedaço de terra, a que chamais Brasil, foi dada também a Revelação da Revelação, firmando os vossos Espíritos, antes de encarnarem, compromissos de que ainda não vos desobrigastes. E perdoai que o diga: tendes mesmo retardado o cumprimento deles e de graves deveres, levados por sentimentos que não convém agora perscrutar.

Aqui há uma referência direta e inequívoca aos Evangelhos de Roustaing, e não à ciência espírita: “Os Espíritos do Senhor vêm trazer aos homens a nova revelação, a que podeis chamar, como já vos dissemos, “revelação da revelação”, e, por meio dela, clarear e desenvolver as inteligências, purificar os corações no crisol da ciência, da caridade e do amor.” (Roustaing, OQE)

Há outro desvio doutrinário aqui: a ideia de uma missão nacional privilegiada (“esse pedaço de terra… foi dada também a Revelação da Revelação”, encarnando “compromissos” especiais). Kardec admite que povos podem ter missões históricas, mas sempre com muita prudência, sem investir nenhum país com papel sagrado. O uso de “Revelação da Revelação” + Brasil é a matriz ideológica de todo o mito posteriormente reforçado em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. É um espiritualismo nacionalista que não tem base na metodologia kardeciana, mas é funcional para construir um centro de poder religioso no Brasil.

Perguntas para recolocar o Espírito em seu lugar:

  1. Mostre onde Kardec atribuiu a qualquer país uma missão religiosa exclusiva.
  2. Se a revelação é universal, como pode ter “segunda camada” (“da revelação”) reservada a uma única nação?
  3. Você está afirmando que o Brasil tem privilégio espiritual? Com base em qual lei universal?
  4. Que comparação metódica (controle universal) valida essa sua afirmação? Quais médiuns independentes confirmam isso?

Ismael, o vosso Guia, tomando a responsabilidade de vos conduzir ao grande templo do amor e da fraternidade humana, levantou a sua bandeira, tendo inscrito nela — Deus, Cristo e Caridade. Forte pela dedicação, animado pela misericórdia de Deus, que nunca falta aos trabalhadores, sua voz santa e evangélica ecoou em todos os corações, procurando atraí-los para um único agrupamento onde, unidos, teriam a força dos leões e a mansidão dos pombos; onde, unidos, pudessem afrontar todo o peso das iniqüidades humanas; onde, enlaçados num único sentimento — o do amor — pudessem adorar o Pai em Espírito e Verdade; onde se levantasse a grande muralha da fé, contra a qual viessem quebrar-se todas as armas dos inimigos da Luz; onde, finalmente, se pudesse formar um grande dique à onda tempestuosa das paixões, dos crimes e dos vícios que avassalam a Humanidade inteira!

A unidade, em Kardec, é doutrinária e metodológica, nunca orgânica e institucional sob um centro único. Ele recusa explicitamente a ideia de “papa espírita” e de direção centralizada. O discurso aqui é outro: todos devem convergir para um agrupamento único, sob a bandeira de Ismael. É a proposta de unificação pela submissão a um polo “sagrado”, exatamente o caminho que Kardec rejeita:

“Vale mais, portanto, haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos, em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única sociedade que a todos reunisse. Esse fracionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios, desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim” – Kardec, VE

  1. Por que você descreve a ação espiritual em termos de guerra maniqueísta, se Kardec explica essas influências de modo natural e racional?
  2. Em qual obra de Kardec há referência a uma união organizada dos “maus Espíritos pelo amor do mal”?
  3. Que finalidade doutrinária teria essa linguagem dramática, ausente do estilo sóbrio adotado por Kardec?

Constituiu-se esse agrupamento; a voz de Ismael foi sentida nos corações. Mas, à semelhança das sementes lançadas no pedregulho, elas não encontram terra boa para as suas raízes, e quando aquele anjo bom — aquele Enviado de Deus — julgava ter em seu seio amigos e irmãos capazes de ajudá-lo na sua grande tarefa, santa e boa, as sementes foram mirrando ao fogo das paixões, foram-se encravando na rocha, apesar de o orvalho da misericórdia divina as banhar constantemente para sua vivificação.

Ali, onde a humildade devera ter erguido tenda, o orgulho levantou o seu reduto; ali, onde o amor devia alçar-se, sublime e esplêndido, até junto do Cristo, a indiferença cavou sulcos, à justiça se chamou injustiça, à fraternidade — dissensão!

Mas, pela ingratidão de uns, haveria de sacrificar-se a gratidão e a boa-vontade de outros?

Pelo orgulho dos que já se arvoraram em mestres na sua ignorância, havia de sacrificar-se a humildade do discípulo perfeitamente compenetrado dos seus deveres? Não!

Assim, quando os inimigos da Luz — quando o espírito das trevas julgava esfacelada a bandeira de Ismael, símbolo da trindade divina; quando a voz iníqua já reboava no Espaço, glorificando o reino das trevas e amaldiçoando o nome do Mártir do Calvário, ele recolheu o seu estandarte e fez que se levantasse pequena tenda de combate com o nome — Fraternidade!

Uma linguagem fortemente misticista e até esotérica, coroada de ideias contrárias ao Espiritismo, com fortes concepções religiosas, contrárias àquilo que se mostra em O Céu e o Inferno (Editora Mundo Maior – edição não adulterada).

Aqui se monta uma narrativa típica de grupo sectário:

  1. Há um projeto divino (bandeira de Ismael).
  2. Ele “quase” fracassa por culpa dos homens.
  3. Os “inimigos da Luz” se regozijam.
  4. Deus/Ismael intervém e funda um novo “núcleo eleito” (a tal Fraternidade).

O efeito psicológico é claro: legitimar uma instituição concreta (grupo “Fraternidade”) como único guardião fiel do plano divino, o “resto fiel” cercado de trevas em torno. Isso é totalmente estranho ao modo como Kardec lida com sociedades e grupos: ele sempre relativiza, adverte contra a fascinação local, e submete qualquer grupo ao crivo do conjunto dos Espíritos e da razão, nunca o sacraliza.

Era este, com certeza, o ponto para o qual deviam convergir todas as forças dispersas — todos os que não recebiam a semente do pedregulho.

Certos de que acaso é palavra sem sentido, e testemunhas dos fatos que determinaram o levantamento dessa tenda, todos os espíritas tinham o dever sagrado de vir aqui se agruparem — ouvir a palavra sagrada do bom Guia Ismael — único que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta e único que tem a responsabilidade da sua marcha e desenvolvimento.

Diversas concepções contrárias ao Espiritismo. Não há palavra sagrada, no que tange aos Espíritos, não importa o nome pelo qual ele se apresente: há ideias e concepções que devem ser analisadas à luz da razão. Ismael é um Espírito mistificador – talvez o próprio, que escreve essa mensagem – e dos mais inteligentes (e, por isso mesmo, dos mais perigosos aos desavisados). Note a palavra “único” (que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta e que tem a responsabilidade da sua marcha e desenvolvimento), que é tão absurdamente falsa, já que os Espíritos não agem sozinhos, muito menos aqueles que incitam a humanidade ao bem. Essa ideia é apenas mais uma forma de manter os crentes em sua palavra na fascinação obsessiva.

Do ponto de vista espírita kardeciano, esse parágrafo é um sinal vermelho de fascinação:

  • “Palavra sagrada” de um Espírito;
  • Esse Espírito é “único” diretor da propaganda e da marcha da doutrina numa região inteira.

Kardec insiste em que:

  • nenhum Espírito deve ser aceito cegamente;
  • a verdade resulta do concurso de muitos Espíritos, médiuns e centros independentes, confrontados pela razão;
  • qualquer Espírito que se arrogue privilégio, exclusividade, missão absoluta, autoridade incontestável deve ser imediatamente posto em suspeita (isso está ligado às descrições de mistificação e fascinação em O Livro dos Médiuns).

Aqui o texto pede exatamente o contrário: renúncia crítica em favor da “palavra sagrada” de um “único guia”.

Perguntas que teriam recolocado o Espírito em seu devido lugar:

  1. Por que você solicita submissão a um agrupamento específico, se Kardec afirma que as sociedades espíritas são livres e autônomas?
  2. Que fundamento da Codificação permite transformar uma sociedade particular em eixo obrigatório da Doutrina?
  3. Como justificar uma centralização institucional, se Kardec rejeita qualquer forma de supremacia orgânica?

Mas, infelizmente, meus amigos, não pudestes compreender ainda a grande significação da palavra — Fraternidade!

Não é um termo, é um fato; não é uma palavra vazia, é um sentimento, sem o qual vos achareis sempre fracos para essa luta que vós mesmos não podeis medir, tal a sua extraordinária grandeza!

Ismael tem o seu Templo, e sobre ele a sua bandeira — Deus, Cristo e Caridade! Ismael tem a sua pequenina tenda, onde procura reunir todos os seus irmãos — todos aqueles que ouviram a sua palavra e a aceitaram por verdadeira: e chama-se Fraternidade!

Mais um ponto anti-espírita (no sentido kardeciano):

  1. Não existe, em Kardec, a ideia de “Templo de um Espírito”. Os “templos” que ele admite são, no máximo, os da consciência e da prática moral. A instituição espírita, para ele, é escola, laboratório, grupo de estudo, não santuário consagrado a um Guia.
  2. A tríade “Deus, Cristo e Caridade” em bandeira de templo lembra lema confessional, não conceito doutrinário. Em Kardec, caridade é consequência natural da compreensão da lei de justiça, amor e caridade; aqui vira um slogan de bandeira de seita.

Pergunto-vos: Pertenceis à Fraternidade? Trabalhais para o levantamento desse Templo cujo lema é: Deus, Cristo e Caridade?

Como, e de que modo?

Meus amigos! É possível que eu seja injusto para convosco naquilo que vou dizer: o vosso trabalho, feito todo de acordo — não com a Doutrina — mas com o que interessa exclusivamente aos vossos sentimentos, não pode dar bom fruto. Esse trabalho, sem regime, sem disciplina, só pode, de acordo com a doutrina que esposastes, trazer espinhos que dilacerem vossas almas, dores pungentes aos vossos Espíritos, por isso que, desvirtuando os princípios em que ela assenta, dais entrada constante e funesta àquele que, encontrando-vos desunidos pelo egoísmo, pelo orgulho, pela vaidade, facilmente vos acabrunhará com todo o peso da sua iniqüidade.

Chega a ser cômico, tamanho o nível de hipocrisia desse Espírito. Se essas palavras fossem aplicadas a todos esses que não estudam a Doutrina Espírita onde ela realmente existe – nas obras de Kardec – elas seriam absolutamente justas… Mas esse Espírito conhece bem o terreno onde pisa, o que faz com que a ideia central seja convertida no sentido contrário, enquanto ele fala de si mesmo.

Entretanto, dar-se-ia o mesmo se estivésseis unidos? Porventura acreditais na eficiência de um grande exército dirigido por diversos generais, cada qual com o seu sistema, com o seu método de operar e com pontos de mira divergentes? Jamais! Nessas condições só encontrareis a derrota, porquanto — vede bem —, o que não podeis fazer com o Evangelho: unir-vos pelo amor do bem, fazem os vossos inimigos, unindo-se pelo amor do mal!

Eles não obedecem a diversas orientações, nem colimam objetivos diversos; tudo converge para a Doutrina Espírita — Revelação da Revelação — que não lhes convém e que precisam destruir, para o que empregam toda a sua inteligência, todo o seu amor do mal, submetendo-se a uma única direção!

Nova referência ridícula à obra de Roustaing. O padrão aqui é de vitimização milenarista: a doutrina (na verdade, a leitura roustainguista sob Ismael) é “Revelação da Revelação” perseguida por “inimigos da Luz” que se unem “pelo amor do mal”. Esse tipo de dicotomia maniqueísta é estranho a Kardec, que tem uma visão bem mais graduada dos Espíritos e dos homens. Ele não fala de “inimigos do Espiritismo” organizados numa frente única maligna; fala de ignorância, interesses, más influências, mas sempre recomendando calma, paciência, discernimento — nunca esse clima de guerra cósmica em torno de um templo específico.

A luta cresce dia a dia, pois que a vontade de Deus, iniciando as suas criaturas nos mistérios da vida de além-túmulo, cada vez mais se torna patente. Encontrando-se, porém, os vossos Espíritos em face da Doutrina, no estado precário que acabo de assinalar, pergunto: — Com que elemento contam eles, os vossos Espíritos, na temerosa ação em que se vão empenhar, cheios de responsabilidade?

Em que canto da Terra já se ergue o grande tabernáculo onde ireis elevar os vossos pensamentos; em que canto da Terra construístes a grande muralha contra a qual se hão de quebrar as armas dos vossos adversários?

Será possível que, à semelhança das cinco virgens pouco zelosas, todo o cuidado da vossa paz tenhais perdido? Que conteis com as outras, que não dormem e que ansiosamente aguardam a vinda do seu Senhor?

Mas, se é assim, em que consiste o aproveitamento das lições que constantemente vos são dadas a fim de tornar uma verdade a vossa vigilância e uma santidade a vossa oração?

Se assim é, onde os frutos desse labor fecundo de todos os dias, dos vossos amigos de além-túmulo?

Acaso apodreceram roídos pela traça — tocados pelo bolor os vossos arquivos repletos de comunicações?

Onde, torno a perguntar, a segurança da vossa fé, a estabilidade da vossa crença, se, tendo uma única doutrina para apoio forte e inabalável, a subdividis, a multiplicais ao capricho das vossas individualidades, sem contar com a coletividade que vos poderia dar a força, se constituísseis um elemento homogêneo, perfeitamente preparado pelos que se encarregam da revelação?

Mas, onde a vantagem das subdivisões? Onde o interesse real para a Doutrina e seu desenvolvimento, na dispersão que fazeis do vosso grande todo, dando já, desse modo, um péssimo exemplo aos profanos, por isso que pregais a fraternidade e vos dividis cheios de dissensões?

Onde as vantagens de tal proceder? Estarão na diversidade dos nomes que dais aos grupos? Por que isso? Será porque este ou aquele haja recebido maior doação do patrimônio divino? Será porque convenha à propaganda que fazeis?

Aqui, ele está apenas preparando o caminho, com ideias torpes, para, logo mais, vir com a solução para a “divisão”.

Mas, para a propaganda, precisamos dos elementos construtivos dela. Pergunto: — onde a escola dos médiuns? Existe?

Porventura os homens que têm a boa-vontade de estudar convosco os mistérios do Criador, preparando seus Espíritos para o ressurgir da outra vida, encontram em vós os instrumentos disciplinados — os médiuns perfeitamente compenetrados do importante papel que representam na família humana e cheios dessa seriedade, que dá uma idéia da grandeza da nossa Doutrina?

Ou a vossa propaganda se limita tão-somente a falar do Espiritismo? Ou os vossos deveres e as vossas responsabilidades individuais e coletivas se limitam a dar a nota do ridículo àqueles que vos observam julgando-vos doidos e visionários?

Meus amigos! Sei quanto é doloroso tudo isto que vos digo, pois que cada um dos meus pensamentos é uma dor que atinge profundamente o meu Espírito. Sei que as vossas consciências sentem perfeitamente todo o peso das verdades que vos exponho. Mas, eu vos disse ao começar: — temos responsabilidades e compromissos tomados, dos quais procuramos desobrigar-nos por todos os meios ao nosso alcance!

Se completa não está a minha missão na Terra; se mereço ainda do Senhor a graça de vir esclarecer a doutrina que aí me foi revelada, dando-vos novos conhecimentos compatíveis com o desenvolvimento das vossas inteligências; se vejo que cada dia que passa da vossa existência — iluminada pela sublime luz da revelação, sem produzirdes um trabalho à altura da graça que vos foi concedida — é um motivo de escândalo para as vossas próprias consciências; devo usar desta linguagem rude de amigo, a fim de que possais, compenetrados verdadeiramente dos vossos deveres de cristãos e de espíritas, unir-vos num grande agrupamento fraterno, onde — avigorados pelo apoio mútuo e pela proteção dos bons — possais enfrentar o trabalho extraordinário que vos cumpre realizar para emancipação dos vossos Espíritos, trabalho que inegavelmente ocasionará grande revolução na Humanidade, não só quanto à parte da Ciência e da Religião, mas também na dos costumes!

Uma vez por todas vos digo, meus amigos: — Os vossos trabalhos, os vossos labores não podem ficar no estreito limite da boa-vontade e da propaganda, sem os meios elementares indicados pela mais simples razão.

Não vem absolutamente ao caso o reportar-vos às palavras de Jesus-Cristo quando disse que — a luz não se fez para ser colocada debaixo do alqueire. Não vem ao caso e não tem aplicação, porque não possuis luz própria!

Fazei a luz pelo vosso esforço; iluminai todo o vosso ser com a doce claridade das virtudes; disciplinai-vos pelos bons costumes no Templo de Ismael, templo onde se adora a Deus, se venera o Cristo e se cultiva a Caridade. Então, sim; distribuí a luz, ela vos pertence!

A frase diz, na prática:

  • Você só tem “luz” legítima se se disciplinar dentro do Templo de Ismael.
  • Fora dele, seu trabalho “causa embriaguez à vista”, dá frutos “amargos”, etc.

É um mecanismo de controle: desloca-se o critério de autenticidade da doutrina (razão, universalidade, método) para o critério de pertencer ao templo “certo”. Isso é a negação do princípio da universalidade da revelação espírita.

E vos pertence, porque é um produto sagrado do vosso próprio esforço, uma brilhante conquista do vosso Espírito — empenhado nas lutas sublimes da Verdade.

Fora desses termos, podeis produzir trabalhos que causem embriaguez à vista, mas nunca que falem sinceramente ao coração. Podeis produzir emoções fortes, por isso que muitos são os que gostosamente se entregam ao culto do maravilhoso; nunca, porém, deixarão as impressões suaves da Verdade vibrando as cordas do amor divino no grande coração humano.

Fora dessa convenção ortodoxa, é possível que as plantas cresçam nos vossos grupos, mas é bem possível que também seus frutos sejam bastante amargos, bastante venenosos, determinando, ao contrário do que devia acontecer, a morte moral do vosso Espírito — a destruição, pela base, do vosso Templo de trabalho!

Se o Evangelho não se tornar realmente em vossos espíritos um broquel, quem vos poderá socorrer, uma vez que a Revelação tende a absorver todas as consciências, emancipando o vosso século? Se o Evangelho nas vossas mãos apenas tem a serventia dos livros profanos, que deleitam a alma e encantam o pensamento, quem vos poderá socorrer no momento dessa revolução planetária que já se faz sentir, que dará o domínio da Terra aos bons, preparados para o seu desenvolvimento, que ocasionará a transmigração dos obcecados e endurecidos para o mundo que lhes for próprio?

Kardec realmente fala da transição da Terra de mundo de expiação para mundo de regeneração e da migração de Espíritos refratários para mundos menos adiantados. Mas:

  1. Ele evita todo tom apocalíptico de “revolução planetária iminente” para assustar.
  2. Ele não amarra esse processo a nenhum “templo”, nem a um “movimento” dirigido por um Espírito particular.
  3. Ele insiste em que tudo se faz por leis gerais, sem milagre, sem privilégio, sem clero.

Aqui, a mesma ideia geral (transição, migração) é apropriada como recurso retórico de urgência a serviço do templo de Ismael: se você não se alinhar com a Fraternidade, com esse “trabalho extraordinário”, corre risco de estar entre os “transmigrados”.

Que será de vós — quem vos poderá socorrer — se, à lâmpada do vosso Espírito, faltar o elemento de luz com que possais ver a chegada inesperada do Cristo, testemunhando o valor dos bons e a fraqueza moral dos maus e dos ingratos?

Se fostes chamados às bodas do filho do vosso Rei, por que não tomam os vossos Espíritos as roupagens dignas do banquete, trocando conosco o brinde do amor e da caridade pelo consórcio do Cristo com o seu povo?

Se tudo está preparado, se só faltam os convivas, por que cedeis o vosso lugar aos coxos e estropiados que, últimos, virão a ser os primeiros na mesa farta da caridade divina?

A parábola evangélica é usada de modo exclusivista e invertido: quem não entrar na “tenda” perde o lugar; os “coxos e estropiados” (os de fora) é que o ocuparão. O subtexto é: não percam o privilégio de estar no grupo “certo” (Fraternidade sob Ismael). Em Kardec, a mesma parábola serve para mostrar que os “primeiros” (privilégiados, instruídos, ortodoxos) podem ser os últimos, mas sempre num sentido moral, nunca institucional (“entrar no templo de tal guia”).

Esses pontos do Evangelho de Jesus-Cristo, apesar da Revelação, ainda não provocaram a vossa meditação?

Esse eco que reboa por toda a atmosfera do vosso planeta, dizendo — Os tempos são chegados! — será um gracejo dos enviados de Deus, com o fim de apavorar os vossos espíritos?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, vivendo cheios de dissensões e de lutas, como se não constituíssemos uma única família, tendo para regência dos nossos atos e dos nossos sentimentos uma única doutrina?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, dando a todo momento e a todos os instantes a nota do escândalo, apresentando-nos aos homens sob o aspecto de homens cheios de ambições, que não trepidam em lançar mão até das coisas divinas para o gozo da carne e satisfação das paixões do mundo?

Mas seria simplesmente uma obcecação do Espírito — pretender desobrigar-se dos seus compromissos e penetrar, no reino de Deus, coberto dessas paixões e dessas misérias humanas!

Isso eqüivaleria não acreditardes naquilo mesmo em que dizeis crer; seria zombar do vosso Criador que, não exigindo de vós sacrifício, vos pede, entretanto, não transformeis a sua casa de oração em covil de ladrões!

Meus amigos! Sem caridade não há salvação — sem fraternidade não pode haver união.

Uni-vos, pois, pela fraternidade, debaixo das vistas do bom Ismael, vosso Guia e Protetor. Salvai-vos pela Caridade, distribuindo o bem por toda a parte, indistintamente, sem pensamento oculto, àqueles que vos pedem lhes deis da vossa crença ao menos um testemunho moral, que os possa obrigar a respeitar em vós o indivíduo bem-intencionado e verdadeiramente cristão.

A frase condensa o núcleo ideológico do texto:

  1. A união não é apenas em torno de princípios (como Kardec propõe), mas “debaixo das vistas” de um Guia, com G maiúsculo.
  2. Esse Guia é “vosso”, nacional/regional.
  3. A figura do “Protetor” é centralizada e personalista.

Kardec aceita a ideia de Espíritos protetores individuais e coletivos, mas nunca os transforma em autoridade normativa sobre a doutrina. A proteção é íntima, moral, silenciosa; não se traduz em revelações exclusivas, bandeiras, templos com nome do Espírito, nem em monopólio de direção.

Perguntas:

  1. Por que você coloca um Espírito — Ismael — acima da metodologia da Codificação, se Kardec nunca atribuiu autoridade diretora a um Espírito isolado?
  2. Que justificativa doutrinária legitima subordinação espiritual a um Espírito específico?
  3. Se Kardec defende independência crítica, como explicar essa ordem de submissão?

Sobre a propaganda que procurais fazer, exclusivamente para chamar ao vosso seio maior número de adeptos, direi — se os meios mais fáceis que tendes encontrado são a cura dos vossos irmãos obsessos, são as visitas domiciliárias e a expansão dos fluidos — ai tendes um modesto trabalho para vossa meditação e estudo.

E, lendo, compreendendo, chamai-me todas as vezes que for do vosso agrado ouvir a minha palavra e eu virei esclarecer os pontos que achardes duvidosos — virei, em novos termos, se preciso for, mostrar-vos que esse lado que vos parece fácil para a propaganda da Doutrina — é o maior escolho lançado no vosso caminho — é a pedra colocada às rodas do vosso carro triunfante — será, finalmente, o motivo da vossa queda desastrosa, se não souberdes guiar-vos com o critério exigível de quantos se empenham numa tão grande causa.

Fechamento típico de Espírito que se propõe como oráculo permanente. Em termos de crítica espírita:

  • Cria-se dependência psicológica do médium/grupo em relação a esse comunicante.
  • Desestimula-se o controle universal (confrontar comunicações, procurar outras fontes independentes) porque “ele” está sempre disponível para esclarecer.

No método kardeciano, um Espírito sério:

  • estimula a dúvida metódica;
  • convida ao exame racional e à comparação;
  • evita se colocar como fonte única de esclarecimento.

Aqui ocorre o oposto.

Permita Deus que os espíritas a quem falo, que os homens a quem foi dada a graça de conhecer em espírito e verdade a Doutrina do Cristo, tenham a boa-vontade de me compreender — a boa-vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhes consagro.

Allan Kardec

O texto inteiro desloca o Espiritismo de ciência filosófico-moral de revelação coletiva para um sistema religioso messiânico centrado em:

  • um Guia nacional nomeado (Ismael),
  • um templo/bandeira/lema específicos,
  • um grupo institucional (“Fraternidade”) apresentado como núcleo eleito.

Vários trechos configuram exatamente aquilo que Kardec descreve como sinais de mistificação e fascinação: Espírito que se declara único, que reclama obediência, que sacraliza a própria palavra, que se coloca no centro da revelação numa região do planeta.

Pontos parcialmente verdadeiros (necessidade de estudo, disciplina, seriedade mediúnica, perigo da dispersão) são usados como gancho para legitimar a solução sectária: a centralização sob Ismael e sob a “Fraternidade”.

A retórica é fortemente religiosa, emocional, com traços milenaristas, em contraste com o estilo racional, analítico e metódico de Kardec. Mesmo quando toca temas caros ao Espiritismo (transição planetária, migração de Espíritos, importância do Evangelho), o faz dentro de um molde confessional, não científico-filosófico.

O Livro em questão – A Prece Segundo o Evangelho, atribuído ao Espírito de Allan Kardec – termina assim:

A Casa de Ismael
A Federação Espírita Brasileira é uma sociedade civil religiosa, educacional, cultural e filantrópica, dotada de personalidade jurídica e reconhecida como de Utilidade Pública Federal, Estadual (RJ) e no Distrito Federal (DF), conforme os seguintes decretos: nº 47.695/1960, nº 4.765/1934 e nº 7.399/1983, respectivamente.

Tem por objeto e fins:
– o estudo teórico e prático do Espiritismo;
– a observância e a difusão de seus ensinos;
– a prática da caridade espiritual, moral e material;
– e, por fim, a integração das Sociedades Espíritas do Brasil em seu organismo.

Compete ao seu Conselho Federativo Nacional desenvolver, ampliar e coordenar os planos da Organização Federativa, visando alcançar completa harmonia de pensamento, bem como unidade de programa e de ação.

A Federação [que não é] Espírita Brasileira, de maneira incrivelmente hipócrita, ainda hoje ostenta, com orgulho, o título de “Casa de Ismael”. Realmente, esse Espírito mistificador fez casa nesse “Vaticano” do Movimento [que não é] Espírita Brasileiro. Declara-se como sociedade civil religiosa, provocando desvio de finalidade do Espiritismo e, com muita hipocrisia, diz observar a difusão de seus ensinos, enquanto, na prática, passou os últimos 130 anos contrariando-os paulatinamente. O motivo do presente artigo, aliás, se deu por conta da publicação recente de um vídeo na conta da FEB Editora, divulgando a falsa ideia de que essa comunicação acima analisada seria de Kardec, incitando à unificação, projeto perseguido pelo Vaticano Espiritualista Brasileiro (vulgo FEB) desde 1890, aproximadamente (como já demonstramos no artigo sobre os desvios da FEB).

Cabe a todos os Espíritas verdadeiros defenderem a verdade sobre o Espiritismo e demonstrarem a todos esses desvios – a tentativa de substituir o Consolador Prometido por uma versão religiosa, dogmática, ridícula e antidoutrinária!