Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita

O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.

Tudo começou com a leitura dos livros Autonomia – A História Jamais Contada Do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec, de Wilson Garcia. O fato inconteste, finalmente vem dar luz às nossas dúvidas: a Federação Espírita Brasileira é uma instituição de tradição e raízes roustainguistas, desde seus primeiros passos!

Roustaing

Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.

Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.

Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão ((Antônio Luis Sayão, esse mesmo, cultuado pela FEB)), ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.

O “anjo” Ismael

Esse tão aclamado “anjo” Ismael é tão cínico, tão hipócrita, que, demonstrando sua imperfeição, chega ao nível de dizer que Kardec teria tido uma opinião isolada a respeito da encarnação de Jesus:

Se a opinião isolada do vosso bom mestre Allan Kardec pôde, de alguma sorte, influir no entendimento de alguns, fazendo-lhes crer que o Redentor do mundo viera revestir-se da matéria grosseira dos corpos comuns, para dar o exemplo das maiores virtudes, encaminhando a humanidade inteira para a terra da promissão, hoje, que todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente, que o seu corpo apenas se constituíra de fluidos concentrados no seio da sempre Virgem Maria, não há mais razão de ser para duas opiniões a tal respeito.

As virtudes do céu: a admirável coleção de mensagens recebidas nos primórdios do Grupo Ismael e constantes da segunda edição de Elucidações Evangélicas, de Antônio Luiz Sayão / organizador: Marco Aurélio L. de Assis. — Rio de Janeiro: CRBBM, 2012.

É interessante ver como, sendo a dele uma opinião isolada, ele busca inverter o jogo, ao mentir dizendo que, hoje, “todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente”. É o velho dogma de Roustaing, de que o corpo é imundo, que a encarnação é um castigo e que, portanto, Jesus não poderia ter encarnado. Importa dizer que essa concepção da encarnação como castigo se instalou no Movimento Febiano-Espírita em grande parte, pois repete-se por todo canto a ideia de que o indivíduo que passa por uma dificuldade qualquer, mesmo quando imposta por outrém (como no caso de um crime) ou quando por conta de uma doença, apenas estaria “resgatando débitos de vidas passadas”.

FEB, roustainguista

Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.

“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.

O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Ata da Reunião Ordinária do CFN – 2018. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2019/01/CFN_FEB_Ata_da_Reuniao_Ordinaria_de_2018.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB ((NOGUEIRA, Julio. Breve exame dos estatutos da FEB. Disponível em: http://www.telma.org.br/artigos/breve-exame-dos-estatutos-da-federacao-espirita-brasileira-1883-1924-mudanca-de-orientacao-inicial-inclusao-de-roustaing-so-realizada-na-reforma-estatutaria-de-1917-criacao-de-sistema-de-poder-exclusivista-que-nao-nasce-do-consenso-ent. Acesso em: 24 jun. 2024.))”, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.

A FEB deixou o roustainguismo?

A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:

“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.

CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB – Federação Espírita Brasileira, 1938. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…

Cita Sérgio Aleixo:

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

ALEIXO, Sérgio. O roustainguismo nas obras de Chico Xavier. Disponível em: https://memoriaspirito.wordpress.com/roustainguismo-herculano-pires/roustainguismo-chico-xavier-sergio-aleixo/. Acesso em: 24 jun. 2024.

Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:

https://www.febnet.org.br/ba/file/Horarios/3_feira_O_Evangelho.pdf

Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:

http://www.sistemas.febnet.org.br/site/az/AZ-Vocabulos-e-Conceitos.php?CodVoc=380&L=3&busca=&CodLivro=

Atualização de maio de 2026

Não, a FEB não deixou o Roustainguismo para trás. Como vocês podem ver na imagem abaixo, obtida do instagram oficial da FEB, temos, no dia 19/05, a realização de duas palestras (até o momento não pulicadas) baseadas em QE, que nada mais é que Os Quatro Evangelhos de Roustaing!

Movimento Espírita afastado do Espiritismo

Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:

Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.

Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:

Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:

“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”

ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.

Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.

É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…

Plano de Campanha

Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.

Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.

No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.




Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos

Boas-vindas

Bem-vindos a esta jornada, amigos de Kardec! Que satisfação vê-los aqui, almas queridas, buscando o aprendizado tão importante e do qual os espíritas se desviaram, há muito….

Atentem para a formação deste grupo ou dos demais. A iniciativa é seria e o assunto é grave. Os inimigos da doutrina novamente se agitam, pois que ela volta, agora, com toda a força, para cumprir aquilo que se propôs, há mais de um século. A humanidade grita: meu Deus, onde as respostas? Não encontrando a felicidade almejada, dia após dia, sem conseguir respostas satisfatórias, lançam-se às penúrias do materialismo desenfreado, do sensualismo, dos vícios e, muitos, não suportando ou não tendo maiores perspectivas, terminam por tirar a própria vida, para descobrir, afinal, que de nada isso adiantou.

O assunto, veem, é grave, e grave é a responsabilidade de todos os que se retiram do estudo, por orgulho e vaidade, para dar aos outros o lúgubre aspecto das opiniões construídas sobre distorções e adulterações.

É chegada a hora, meus amigos, de restabelecer aquilo que ficou para trás. É chegada a hora de multiplicar esforços e de semear, por toda a parte. Mas, atenção, pois os inimigos do bem, tristes indivíduos que ainda não conseguiram perceber o buraco que cavam para eles mesmos caírem, tentarão se estabelecer entre vocês. Mantenham-se em guarda, portanto, e não se esquivem da responsabilidade de manter a harmonia no grupo, abordando cada um que traga desarmonia ou desordem.

Confiem neste grupo, O Legado de Allan Kardec, que tem a particularidade de ser um raro grupo, neste planeta, formado com tanta identidade, tanta harmonia, tantos propósitos sérios, estabelecidos no passado, de trabalhar pela recuperação dessa Doutrina esquecida.

Sejam preces ambulantes, por suas disposições internas e pela aplicação dos princípios aprendidos às suas próprias vidas, e manterão, junto a vocês, a companhia de bons Espíritos, encarnados ou desencarnados. Não esqueçam: os bons Espíritos, seus anjos guardiões ou Espíritos protetores, abençoam esta empreitada e estarão junto a cada um de vocês, inspirando-os e intuindo-os.

União, fé, amor e caridade: este, o lema que cada indivíduo deve carregar no peito, aplicado em todo o seu entendimento e em toda a sua extensão, a si e no contato com os demais.

União: a unidade garantida pelos propósitos legítimos e pelo entendimento adequado do Espiritismo

Fé: a fé raciocinada, tão esquecida pelo Movimento Espírita, construída do entendimento racional, sem dúvidas possíveis, dos princípios da Doutrina Espírita.

Amor: o amor ao próximo, como a si mesmo. É necessário paciência e perseverança consigo mesmo, além de reconhecimento dos passos já dados, do caminho já percorrido. O mesmo deve ser aplicado aos demais.

Caridade: a caridade verdadeira é o dever moral, cumprido sem esperança de premiação ou reconhecimento. É o compartilhar, o aprender e o ensinar. Esse é o bem, a felicidade, e é por retirar-se desse papel que o indivíduo se lança nos despenhadeiros do personalismo, do egoísmo, do orgulho.

A partir de agora, esqueça os romances, esqueça o que aprendeu no Movimento Espírita ou no Centro Espírita. A partir de agora você está começando do zero e vai aprender o Espiritismo da maneira certa!

Orientações gerais

  1. A ideia é auxiliar na formação de um novo grupo ou mais, onde os participantes cuidarão de se organizarem a esse respeito. Nós daremos toda a orientação e o suporte necessários. Precisamos que uma ou mais pessoas se apresentem como iniciadores do núcleo central do grupo, de maneira pró-ativa.
  2. A proposta é que vocês criem um ou mais grupos, organizando-se entre vocês. Estaremos, junto ao meu grupo, no papel de apoiadores e orientadores.
  3. Pontualmente, poderemos elaborar estudos especiais, com a participação do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, ou de vocês conosco.
  4. Comecem estudando “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo” e “Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal”, de Paulo Henrique de Figueiredo. Alternativamente, assistam aos vídeos destacados no tópico Materiais para estudos.
  5. Estimulamos que vocês comecem necessariamente pelo estudo da Revista Espírita. Após o estudo dos dois primeiros anos, enquanto continuam esse estudo, poderão ver a necessidade de criar um novo horário para estudar O Livro dos Médiuns. Nesse ponto, vocês estarão muito mais maduros para esse estudo.
  6. O estudo deve ser ao-vivo, por vídeo ou pessoalmente. WhatsApp é ferramenta de apoio.
  7. Não devem existir professores. Todos devem se colocar na condição de estudante que não conhece nada do Espiritismo. Foi assim que começamos.
  8. Sugestão:

    • Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo.
    • Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo.
    • No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim o grupo sai da leitura maçante.
    • Quem não fizer o estudo antes acabará tendo a possibilidade de não entender adequadamente o conteúdo. Isso é um estímulo ao estudo.
    • Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos.
    • As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, poderão ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições;

  9. Criem regras. Vejam as nossas sugestões no tópico seguinte, Sugestão de regras.
  10. Aprendam a não sistematizar conclusões sobre os artigos da Revista Espírita. Kardec deixa bem claro quando um estudo qualquer está devidamente concluído, ao menos de momento. Muitos artigos são apresentados como hipóteses, apenas.
  11. Criem documentos no Google Drive com o conteúdo de cada estudo, e façam um estudo prévio, fazendo anotações e comentários nesse documento. Isso ajuda a enriquecer o aprendizado.
  12. Não visem números. Prefiram qualidade. Estudem em pequenos grupos, coesos, harmoniosos, e não tenham medo de chamar a atenção, com firmeza e caridade, daqueles que eventualmente destoem das regras e da harmonia do grupo.
  13. Deixem os romances mediúnicos e demais obras de lado. O estudo das obras de contextualização e das obras de Kardec já lhes tomará bons anos.
  14. Não busquem Espiritismo prático (reuniões mediúnicas), de início. Se houverem médiuns entre vocês, sobretudo com a mediunidade muito aflorada, é importante formar um grupo à parte, ainda mais coeso e harmonioso. Muitos cuidados serão necessários. Nesse caso, não deixem de buscar apoio em nós.
  15. Sobretudo, não se esqueçam de manter contato conosco. Cuidaremos de registrar sua(s) iniciativa(s) em nosso site e ficaremos muito felizes de podermos trocar experiências e aprendizados com vocês.
  16. Evitem apenas produzir longos vídeos para o Youtube. Foquem, principalmente, conforme o aprendizado for se estabelecendo, em produzir vídeos curtos e, principalmente, textos em blogs, de maneira colaborativa (textos em blogs são facilmente encontrados em pesquisas do Google).
  17. À medida do possível, envolvam também os jovens nesse trabalho de aprendizado, seja nos seus próprios grupos, seja incentivando-os a formarem novos grupos. Espalhem esse propósito.

Sugestão de regras

Estudos da Revista Espírita, em grupo

OBJETIVO DO GRUPO

  • O nosso principal objetivo é conhecer o Espiritismo em sua essência e aplicar esse conhecimento em nossas próprias vidas. Ao mesmo tempo, porém, desejamos fazer isso de uma forma simples, clara e amistosa, de modo que nossos estudos sejam facilmente entendidos pelo público, razão pela qual realizamos um estudo prévio e a elaboração de um conteúdo, de forma que possamos extrair o melhor de cada assunto.
  • Após cada estudo, visamos produzir artigos, neste site, que complementem e formalizem o estudo, mas que também permitam a inclusão de deficientes auditivos. É por isso, principalmente, que os estudos precisam ser simples e, em simultâneo, profundos como possível.
  • Diferentemente de outros estudos do Espiritismo, que partem de obras conclusivas, nós estamos partindo de um periódico que demonstra o método de exploração, de raciocínio e de dedução de Allan Kardec, na construção do Espiritismo (aqui entendido na parte humana dessa ciência). Existe um enorme ganho em fazer assim, mas não estamos desatentos aos assuntos que precisam ser complementados com conclusões posteriores, de modo a não ficarem “capengas”, como é o caso da teoria dos fluidos, abandonada por Kardec em sua obra final, A Gênese.
  • A Revista Espírita, diferentemente de outras obras, é um periódico que combina:

    • assuntos e “causos” da época — que, longe de serem desinteressantes, serviam para dar suporte à Doutrina, baseado no cotidiano dos fatos espíritas vivenciados dentre a população mundial, mas que, do ponto de vista atual, muitas vezes não tem muita relevância para o nosso estudo
    • escritos muito mais densos e bem elaborados por Kardec, com extrema perspicácia, que pouco a pouco, e de forma muito organizada, vão construindo toda essa ciência que é o Espiritismo — ciência desconhecida e esquecida atualmente.

  • A importância da Revista Espírita não é apenas moral, mas também prática. Ao estudá-la, vemos uma constante construção de conhecimentos, ao mesmo tempo em que constantemente vemos uma desconstrução de falsos conceitos atuais, como você precisa entender no artigo “O que é a Revista Espírita e como estudá-la?“. Eis mais um motivo para o formato do nosso estudo, pois os falsos conceitos não se quebram aos golpes.
  • O Espiritismo precisa ser resgatado e conhecido em sua essência, tanto moral como prática, de modo que possamos retomar os estudos dessa Doutrina, junto aos Espíritos. Esse estudo tem um importantíssimo papel nesse sentido.
  • Hoje sabemos, afinal, que essa ciência não andava sozinha: muito longe disso, ela era um desenvolvimento do Espiritualismo Racional e uma “irmã gêmea”, como disse Kardec, do Magnetismo. É por isso que, oportunamente, abordamos esses conhecimentos, de forma simples, prática e pontual, já que, para se aprofundar sobre esses dois temas, recomendamos sempre a leitura das obras Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo e Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal, ambas de Paulo Henrique de Figueiredo, dentre outras (veja nossa lista de obras recomendadas).

Premissas

  • Neste grupo, partimos da conclusão que as duas últimas obras de Kardec, O Céu e o Inferno e A Gênese, foram adulteradas. Podemos indicar o porque de termos chegado a essa conclusão, mas não discutiremos sobre isso, posto que os fatos estão aí para cada um verificar.
  • Neste grupo, estuda-se o Espiritismo com base nas obras de Kardec, necessariamente. Isso não quer dizer que outras obras e outros autores não possam ser tratados, mas isso se fará desde que o que se busque seja a busca pela compreensão e pela aproximação, baseando-se no Espiritismo, e não para mero confronto.
  • A premissa mais básica de todas é o estudo. Ter lido aleatoriamente O Livro dos Espíritos ou O Evangelho Segundo o Espiritismo não é estudo. Estamos longe de ter abarcado o entendimento da doutrina por completo, mas existem pontos fundamentais que carecem de dedicação para serem compreendidos. Conte com o grupo para indicar e sugerir caminhos e conteúdos de importância.

REGRAS TÉCNICAS

  1. Entre nos nossos grupos do WhatsApp e do Telegram. É por eles que manteremos a comunicação direta com os demais integrantes. Se tiver os dois, entre nos dois.
  2. Não será dado a ninguém o direito de dar palavras finais sobre aquilo que não está devidamente estabelecido na Doutrina. Será, contudo, tomado o cuidado de, para cumprir essa regra, não recair em falta às regras n. 4, 5 e 6.
  3. Assim como Kardec tratava as opiniões de Espíritos desencarnados, tratamos as opiniões das almas encarnadas, isto é, aquilo que é apenas uma opinião, será tratado apenas como uma simples opinião e dela não faremos sistemas.
  4. Devemos evitar que qualquer tema que fuja daquele principal ou qualquer ponto de discórdia seja extenuadamente abordado durante o estudo, para não haver desvios e monopólio de palavras ou opiniões. O que fazer, nesses casos: buscar estudar, em Kardec, o assunto em questão e apresentar, em nova oportunidade, os resultados encontrados. O desrespeito a essa regra de bom-tom será prontamente interrompido por intercessão dos administradores.
  5. Todos têm a liberdade de chegar às suas próprias conclusões, levados pela própria razão, resguardados os objetivos do estudo e a base doutrinária. Por exemplo, o tema sobre a existência de colônias espirituais não está devidamente consolidado, mas a questão da reencarnação está. Se aquilo que está consolidado, na Doutrina, não foi aceito pela razão de determinada pessoa, ela com certeza se sentirá inclinada a deixar os estudos, já que não lhe falam à razão. O que não será aceito será a sistematização de opiniões pessoais no Grupo, conforme exposto acima.
  6. Não serão abordados temas políticos e religiosos (este, no sentido em que possa trazer qualquer inquietação ou humilhação. Lembramos que o Espiritismo está aberto a pessoas de todas as crenças). Aqui, parafraseamos Kardec, em Viagem Espírita em 1862:

“[…] deve-se abster, nas reuniões, de discutir dogmas particulares, o que, certamente, melindraria certas consciências, ao passo que as questões de moral são de todas as religiões e de todos os países. O Espiritismo é um terreno neutro, sobre o qual todas as opiniões religiosas podem encontrar-se e se dar as mãos. Ora, a desunião poderia nascer da controvérsia. Não vos esqueçais de que a desunião é um dos meios pelos quais os inimigos do Espiritismo buscam atacá-lo; é com esse objetivo que muitas vezes eles induzem certos grupos a se ocuparem de questões irritantes ou comprometedoras, sob o pretexto especioso de que não se deve colocar a luz sob o alqueire. Não vos deixeis prender nessa armadilha, e que os dirigentes de grupos sejam firmes para repelirem todas as sugestões deste gênero, se não quiserem passar por cúmplices dessas maquinações”.

  1. O grupo não visa, atualmente, realizar qualquer tipo de “trabalho mediúnico”, o que, se um dia acontecer, demandará a criação de reuniões particulares e com os devidos cuidados para tanto.
  2. Pelo mesmo motivo acima, não vemos necessidade de sermos tão restritivos quanto às novas adesões, isto é, os novos aderentes não carecem de serem versados em Espiritismo, mas devem, de sua própria parte, fazerem estudos basilares necessários, quando não conhecerem a essência da Doutrina Espírita (que não é aquela adquirida pela leitura de romances). Recomendamos, para esse fim, ao menos a leitura das brochuras O que é o Espiritismo e Espiritismo em sua expressão mais simples.
  3. Nossas reuniões de estudo são transmitidas ao vivo no Youtube, ou são gravadas para posterior publicação nessa plataforma e em outras. Todo aquele que participar dos estudos deve estar ciente e de acordo com esse ponto fundamental.
  4. O Grupo faz uso do site https://www.geolegadodeallankardec.com.br e das plataformas virtuais diversas para divulgar o Espiritismo. Quem se sentir interessado em fazer parte disso, criando textos que possam auxiliar, devem contatar os administradores do Grupo.
  5. Todas as mídias digitais contam com outros colaboradores, igualmente colocados em função de administração, que possam cuidar do prosseguimento na eventual ausência, por tempo limitado ou indefinida, de minha parte.
  6. Tomaremos a liberdade de interromper qualquer áudio ou câmera que esteja atrapalhando a reunião.
  7. Ao participar da sala de reunião do Zoom, você está ciente que terá seu áudio e/ou vídeo compartilhados publicamente através da Internet (mais informações no formulário de inscrição, abaixo).
  8. O horário oficial de início dos estudos, com a transmissão via YouTube, é as 19:25.
  9. O período permitido para a entrada de participantes, na sala de espera (onde aprovaremos ou não sua entrada, segundo o preenchimento ou não do formulário abaixo) vai das 19:10 às 19:25. Depois disso, a permissão de entrada ficará exclusivamente sob critério dos anfitriões do grupo.
  10. A previsão de término da reunião é por volta de 20:40, às vezes se estendendo um pouquinho a mais.
  11. Antes de entrar, certifique-se de estar em ambiente favorável à participação, tanto visualmente quanto sonoramente, além de estar vestido adequadamente.
  12. De preferência, use um computador para a participação, onde será mais fácil interagir pelo chat do grupo.
  13. Por questões de organização, a reunião no Zoom e seus conteúdos didáticos são conduzidos por um integrante, que coordenará as participações de um e outro que desejem se expressar.
  14. Ao tomar a palavra, cuide para não estender demais o assunto para áreas que fujam do tema principal. Lembre-se: são 11 anos de Revista a abordar, dentre artigos acessórios e artigos fundamentais, muitas vezes com conteúdos intrinsecamente ligados entre edições diferentes, e, ainda por cima, junto aos conteúdos doutrinários complementares, tanto de Kardec, como de outros autores. Não queremos correr, mas não podemos perder tempo.
  15. Todos aqueles que desejem participar ativamente, questionando ou opinando sobre os artigos em pauta, devem observar a seguinte organização:

— Fazer a leitura dos artigos relacionados ao tema ANTES da reunião de estudos. Isso permitirá que você sempre esteja a par dos assuntos, à medida que puderem ser abordados conforme o tempo disponível e a extensão de cada assunto. Reiteramos: a Revista Espírita, para estudos em grupo, não é algo que possa ser lido linha-a-linha, sem uma leitura prévia, já que muitos assuntos apresentam uma extensão formidável.

Sugestão:

  1. Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo. 
  2. Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo. 
  3. No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim a gente sai da leitura maçante
  4. Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos, como foi o caso do remorso e como poderá ser o caso, talvez, da frenologia (RE60/jun)
  5. As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, cremos que devem ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições.

22. Não se desmotive caso precise se afastar por algum tempo ou caso não possa estar sempre presente. Isso acontece com todos. Continue os estudos de sua parte e volte assim que possível.

23. Reitero, por fim, o nosso objetivo de construção sobre o diálogo. Assim, nos ajude a estabelecer esse diálogo, utilizando as redes sociais para isso também.

Preencha o formulário seguinte com os dados necessários para sua admissão na reunião. Não aceitaremos entradas de pessoas não registradas.

Materiais para estudos

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 > Dezembro > Organização do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868 > Dezembro > Constituição transitória do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Plano de campanha – Era nova – Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Os Espiões

O que é a Revista Espírita e como estudá-la? – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

Obras Recomendadas – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Andragogia

AUTONOMIA – A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA DO ESPIRITISMO – Paulo Henrique de Figueiredo

Seminário: “Magnetismo” com Paulo Henrique Figueiredo

O Bem e o Mal, Castigos e Recompensas, Sombra e Luz – Paulo Henrique de Figueiredo – 1a Parte

Link para download de todos os PDFs das obras de Kardec:

Allan Kardec Brasil

Como pesquisar nos PDFs: https://www.youtube.com/watch?v=kgjdgIiHLJk

Contato (Paulo): Clique aqui.

Foto de Greta Hoffman : https://www.pexels.com/pt-br/foto/jardim-fazenda-sitio-chacara-7728883/




A mais dura comunicação mediúnica recebida por Kardec: Plano de campanha contra o Espiritismo

No dia 10 de novembro de 1867, pelo médium Sr. T…, Kardec recebeu uma comunicação muito séria, a respeito do papel dos inimigos na luta contra o Espiritismo. Reproduzimos o artigo abaixo, na íntegra, dada a sua importância para todos os seriamente interessados no Espiritismo, já que ela demonstra os artifícios do plano de campanha contra o Espiritismo.

Plano de campanha — Era nova — Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

(Paris, 10 de novembro de 1867 — Médium: Sr. T… Em sono espontâneo)

NOTA: Nessa sessão, nenhuma pergunta prévia provocara o assunto que foi tratado. A princípio o médium se havia ocupado de saúde, depois, pouco a pouco, viu-se conduzido às reflexões cuja análise damos a seguir. Ele falou durante cerca de uma hora, sem interrupção.

Os progressos do Espiritismo causam aos seus inimigos um terror que eles não podem dissimular. No começo brincaram com as mesas girantes, sem pensar que acariciavam uma criança que devia crescer… A criança cresceu… então eles pressentiram o seu futuro e disseram para si mesmos que em breve estariam com a razão… Mas, como se costuma dizer, o menino tinha vida dura. Resistiu a todos os ataques, aos anátemas, às perseguições, mesmo às troças. Semelhante a certos grãos que o vento carrega, produziu inúmeros renovos… Para cada um que destruíam, surgiam cem outros.

A princípio empregaram contra ele as armas de outra época, as que outrora davam resultado contra as ideias novas, porque essas ideias eram apenas clarões esparsos que tinham dificuldade de vir à luz através da ignorância, e que ainda não tinham criado raízes nas massas… hoje é outra coisa; tudo mudou: os costumes, as ideias, o caráter, as crenças; a Humanidade não mais se emociona com as ameaças que amedrontam as crianças; o diabo, tão temido por nossos avós, já não mete medo: rimos dele.

Sim, as armas antigas entortaram-se na couraça do progresso. É como se, em nossos dias, um exército quisesse atacar uma praça-forte guarnecida de canhões, com as flechas, os aríetes e as catapultas dos nossos antepassados.

Os inimigos do Espiritismo viram, pela experiência, a inutilidade das armas carcomidas do passado contra a ideia regeneradora; longe de prejudicá-lo, seus esforços só serviam para dar-lhe autoridade.

Para lutar com vantagem contra as ideias do século, seria preciso estar à altura do século; às doutrinas progressistas seria necessário opor doutrinas ainda mais progressistas, pois mas o menos não pode vencer o mais.

Então, não podendo triunfar pela violência, recorreram à astúcia, a arma dos que têm consciência de sua fraqueza… De lobos, fizeram-se cordeiros, para se introduzirem no aprisco e aí semear a desordem, a divisão, a confusão. Porque chegaram a lançar a perturbação nalgumas fileiras, cedo de mais se julgaram senhores da praça. Nem por isto os adeptos isolados deixaram de continuar sua obra, e diariamente, a ideia abre o seu caminho sem muito alarido… Eles é que fizeram o alarido… Não a vedes perpassar tudo, nos jornais, nos livros, no teatro e mesmo na cátedra? Ela trabalha todas as consciências; ela arrasta os Espíritos para novos horizontes; é encontrada no estado de intuição mesmo naqueles que dela não ouviram falar. Eis um fato que ninguém pode negar e que a cada dia se torna mais evidente. Não é a prova de que a ideia é irresistível e que ela é um sinal dos tempos?

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

Que podem os homens contra a vontade de Deus? É possível desconhecê-la ante o que se passa? Seu dedo não é visível nesse progresso que desafia todos os ataques, nesses fenômenos que surgem de todos os lados como um protesto, como um desmentido dado a todas as negações?… A vida dos homens, a sorte da Humanidade não está em suas mãos?… Cegos!… Eles não contam com a nova geração que se ergue e que diariamente supera a geração que se vai… Ainda alguns anos e esta terá desaparecido, não deixando depois de si senão a lembrança de suas tentativas insensatas para deter o impulso do espírito humano, que avança a despeito de tudo… Eles não contam com os acontecimentos que vão apressar o desabrochar do novo período humanitário… com apoios que se vão erguer em favor da nova doutrina cuja voz poderosa imporá silêncio aos seus detratores por sua autoridade.

Oh! Como estará mudada a face do mundo para aqueles que virem o começo do próximo século!… Quanta ruína eles verão em sua retaguarda, e que esplêndidos horizontes abrir-se-ão à sua frente!… Será como a aurora afugentando as sombras da noite… Aos ruídos, aos tumultos, aos rugidos da tempestade sucederão cantos de alegria; depois das angústias, os homens renascerão para a esperança… Sim! O século XX será um século abençoado, porque verá a era nova anunciada pelo Cristo.

NOTA: Aqui o médium para, dominado por indizível emoção, e como que esgotado de fadiga. Após alguns minutos de repouso, durante os quais parece voltar ao grau de sonambulismo ordinário, ele retoma:

─ O que eu vos dizia eu então? ─ Vós nos faláveis do novo plano de campanha dos adversários do Espiritismo; depois falastes da era nova. ─ Continuo.

Enquanto esperam, disputam o terreno palmo a palmo. Eles renunciaram pouco mais ou menos às armas de outros tempos, cuja ineficácia reconheceram; agora ensaiam as que são onipotentes neste século de egoísmo, de orgulho e de cupidez: o ouro, a sedução do amor-próprio. Junto aos que são inacessíveis ao medo, exploram a vaidade, as necessidades terrenas. Aquele que resistiu à ameaça, às vezes dá ouvidos complacentes à adulação, ao gosto do bem-estar material… Prometem pão ao que o não o tem; trabalho ao artesão; freguesia ao negociante; promoção ao empregado; honras aos ambiciosos, se renunciarem às suas crenças. Ferem-no em sua posição, em seus meios de existência, em suas afeições, se forem indóceis; depois, a miragem do ouro produz sobre alguns o seu efeito ordinário. Entre esses encontram-se, necessariamente, alguns caracteres fracos que sucumbem à tentação. Há os que caem na armadilha de boa-fé, porque a mão que os manobra se esconde… Há também, e muitos, que cedem à dura necessidade, mas que não pensam menos nisso; sua renúncia é apenas aparente; eles se vergam, mas para se erguerem na primeira ocasião… Outros, aqueles que no mais alto grau têm a verdadeira coragem da fé, enfrentam o perigo resolutamente; esses vencem sempre, porque são sustentados pelos bons Espíritos… Alguns, ah!… mas estes jamais foram espíritas de coração… preferem o ouro da Terra ao ouro do Céu; eles ficam, pela forma, ligados à doutrina, e sob esse manto, apenas servem melhor à causa de seus inimigos… É uma triste troca que eles fazem, e que pagarão bem caro!

Nos tempos de cruéis provas que ides atravessar, felizes aqueles sobre os quais se estender a proteção dos bons Espíritos, porque jamais ela foi tão necessária!… Orai pelos irmãos desgarrados, a fim de que aproveitem os curtos instantes de moratória que lhes são concedidos, antes que a justiça do Altíssimo pese sobre eles… Quando eles virem rebentar a tempestade, mais de um pedirá graça!… Mas lhes será respondido: Que fizestes dos nossos ensinamentos? Como médiuns, não escrevestes centenas de vezes a vossa própria condenação?… Tivestes a luz e não a aproveitastes! Nós vos tínhamos dado um abrigo; por que o abandonastes? Sofrei, pois, a sorte daqueles que preferistes. Se vosso coração tivesse sido tocado por nossas palavras, teríeis ficado firmes no caminho do bem que vos era traçado; se tivésseis tido fé, teríeis resistido às seduções estendidas ao vosso amor-próprio e à vossa vaidade. Então acreditastes poder no-las impor, como aos homens, por falsas aparências? Sabei, se duvidastes, que não há um só movimento da alma que não tenha seu contragolpe no mundo dos Espíritos.

Credes que seja por nada que se desenvolve a faculdade da vidência em tão grande número de pessoas? Que seja para oferecer um alimento à curiosidade que hoje tantos médiuns adormecem espontaneamente em sono de êxtase? Não. Desenganei-vos. Esta faculdade, que há tanto tempo vos é anunciada, é um sinal característico dos tempos que são chegados; é um prelúdio da transformação, porque, como vos foi dito, este deve ser um dos atributos da nova geração. Essa geração, mais depurada moralmente, sê-lo-á também fisicamente. A mediunidade, sob todas as formas, será mais ou menos geral, e a comunhão com os Espíritos um estado, por assim dizer, normal.

Deus envia a faculdade de vidência nesses momentos de crise e de transição, para dar aos seus fiéis servidores um meio de frustrar a trama de seus inimigos, porque os maus pensamentos que eles julgam escondidos na sombra dos refolhos da consciência, repercutem nessas almas sensíveis como num Espelho, e se desvelam por si mesmos. Aquele que só emite bons pensamentos não teme que os conheçam.

Feliz aquele que pode dizer: Lede em minha alma como num livro aberto.

OBSERVAÇÃO: O sonambulismo espontâneo, do qual já falamos, não é, com efeito, senão uma forma de mediunidade vidente, cujo desenvolvimento era anunciado há já algum tempo, assim como o aparecimento de novas aptidões mediúnicas. É notável que em todos os momentos de crise geral ou de perseguição, as pessoas dotadas dessa faculdade são mais numerosas do que nos tempos normais. Houve muitos no momento da revolução; os Calvinistas das Cévènes, perseguidos como animais selvagens, tinham numerosos videntes que os advertiam do que se passava ao longe; por este fato, e por ironia, eram qualificados de iluminados; hoje começa-se a compreender que a visão à distância e independente dos órgãos da visão pode bem ser um dos atributos da natureza humana, e o Espiritismo a explica pela faculdade expansiva e pelas propriedades da alma. Os fatos deste gênero de tal modo se multiplicaram, que já nos admiramos menos; o que outrora a alguns parecia milagre ou sortilégio é hoje considerado como efeito natural. É uma das mil vias pelas quais penetra o Espiritismo, de sorte que, se estancam uma fonte, ele ressurge por outros caminhos.

Então, esta faculdade não é nova, mas ela tende a se generalizar, sem dúvida pelo motivo indicado na comunicação acima, mas também como meio de provar aos incrédulos a existência do princípio espiritual. No dizer dos Espíritos, ela se tornaria mesmo endêmica, o que naturalmente se explicaria pela transformação moral da Humanidade, transformação que deverá produzir no organismo modificações que facilitarão a expansão da alma.

Como outras faculdades mediúnicas, esta pode ser explorada pelo charlatanismo. Assim, é bom manter-se em guarda contra a charlatanice que, por um motivo qualquer, poderia tentar simulá-la e, por todos os meios possíveis, assegurar-se a boa-fé dos que dizem possuí-la. Além do desinteresse material e moral e da honorabilidade notória da pessoa, que são as primeiras garantias, convém observar com cuidado as condições e as circunstâncias nas quais se produz o fenômeno e ver se nada oferecem de suspeito.




O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

Há poucos dias, no canal Grupo Espírita Educare, foi publicado um vídeo muito bem elaborado, por sinal, feito com muito esmero e de aparência estética de fazer inveja. Esse vídeo, intitulado “O LIVRO “A GÊNESE” FOI MESMO ADULTERADO?”, traz, a despeito de tanto esmero, informações pela metade, deixando de lado detalhes tão indispensáveis para a legítima discussão do caso sobre a obra derradeira de Allan Kardec.

No vídeo, citam o seguinte trecho de uma psicografia a Kardec, a respeito das alterações que ele desejava produzir em A Gênese:

“Permita-me alguns conselhos pessoais sobre a sua obra A Gênese. Penso, como você, que ela deve sofrer certas modificações que a farão ganhar valor sob o aspecto metódico; […] esta revisão é um trabalho sério, e peço que você não espere muito para realizá-la.”

Há, porém, algo substancial, existente nesse trecho por eles omitido (nas reticências entre colchetes) e que leva, não por acaso, o espectador a uma conclusão errada: a recomendação, repetida, do Espírito comunicante para que Kardec nada removesse no que concerne à Doutrina e às ideias que apareciam pela primeira vez:

Conselhos sobre A Gênese

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa carta clicando aqui.

Kardec contrariou os sábios conselhos do Espírito?

Ora, a adulteração de A Gênese produziu justamente isso: removeu trechos importantes, que comprometem o entendimento, deixando de fora ideias doutrinárias e conduzindo o leitor a um entendimento, por vezes, contrário ao da versão anterior – o mesmo que fizeram com a adulteração de O Céu e o Inferno.

Cita Henri Netto, no artigo “À procura da dúvida: onde está a verdade?”:

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Cita também Paulo Henrique de Figueiredo em “Autonomia”:

Há uma questão inicial de Allan Kardec, bastante objetiva:

– Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Ou seja, era de iniciativa de Allan Kardec fazer uma modificação em sua obra, mas qual? Ele desejava acrescentar mais algumas coisas! Não tirar. E desejava fazer isso sem aumentar o volume do livro. O motivo de sua pergunta a Demeure está em saber se seria possível fazer isso, segundo a visão do Espírito. E a resposta é bastante objetiva e determinante. Ele respondeu, por meio do médium, enquanto Kardec anotava na folha:

– Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos. Mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Tirar alguma coisa? Nada quanto à Doutrina. Demeure foi bastante claro, mas ainda detalhou mais sua proposta:

– Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza. Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é no terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes.

Definitivamente não é o que encontramos na versão adulterada da obra de 1872! Foram centenas de supressões. Palavras, frases, parágrafos e até partes inteiras foram retiradas, algumas alterando o sentido do restante do texto. Basta dizer que a teoria sobre a conquista progressiva do livre-arbítrio, após o Espírito elaborar a consciência de si mesmo durante centenas de vidas, foi retirada depois de cuidadosamente elaborada por Kardec durante muitos anos, na Revista Espírita, e finalmente apresentada na obra A Gênese. Antes, o instinto dominava sozinho, mas a inteligência começa a se desenvolver, e aos poucos o instinto se enfraquece, então escreveu originalmente Kardec: “Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (KARDEC, [1868] 2018, p. 100). Esse importante trecho, fundamental para a Teoria Moral Espírita, foi deliberadamente retirado, contra a vontade de Kardec e as recomendações dos Espíritos, fato que agora comprovamos! Nas páginas desta obra detalhamos diversas dessas infames e criminosas falsificações.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Editora FEAL.

Não bastasse, há um extenso trabalho de pesquisa, produzido por Marco Milani, demonstrando o fato de que a adulteração removeu diversas ideias doutrinárias importantes, bem como adicionou ideias exíguas, comprometendo o entendimento da obra no conjunto e no detalhe:

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/03/alteracoes-ocorridas-no-cap-1-da-5-ed.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/05/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5_15.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/02/comentarios-sobre-as-alteracoes-do-cap.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5a.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/01/natureza-e-materia-nao-sao-sinonimos.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/09/comentarios-sobre-o-capitulo-xv-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/11/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/12/inconsistencias-doutrinarias-da-5.html

Como fica provado, foram removidas diversas ideias doutrinárias, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado a essas questões.

Não se quer o diálogo para chegar à verdade, mas a imposição

Quando Leymarie criou o livro Obras Póstumas, inseriu nele a psicografia apresentada anteriormente, porém, adulterada, removendo justamente os conselhos do Espírito para que nada, no concerne à Doutrina, fosse removido. Tudo para dar crédito à sua versão a quinta edição de A Gênese foi mesmo produzida por Allan Kardec. Agora, no vídeo citado, o canal Grupo Espírita Educare faz o mesmo, mas não para por aí.

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique. Foi assim que, finalmente, ocultaram do público meus comentários feitos nesse vídeo:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois fui ocultado no canal. Aparentemente, não desejam dialogar sobre os fatos e as evidências, ditas por eles, “sumariamente desclassificadas”.

Vemos, portanto, que a peça de animação é apenas mais uma tentativa de conduzir o público à conclusão que eles desejam, mesmo que para isso tenham que omitir informações importantes e fazer afirmações rasas. Por nossa vez, depois de tanto incentivar o leitor ao estudo da obra O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato (link abaixo), só podemos desejar que cada um chegue às suas próprias conclusões, frente aos fatos e às evidências, que existem de sobra, a despeito da falácia do grupo CSI do Espiritismo de que todos os argumentos contrários teriam sido derrubados (sic).

Live: Gênese Adulterada – análise doutrinária das alterações entre as edições




O canal Mesa Girante e as adulterações em O Céu e o Inferno

Recentemente o canal Mesa Girante, no Youtube, produziu um vídeo onde aborda outro vídeo, de Paulo Henrique de Figueiredo, falando sobre a obra “Nem Céu, Nem Inferno”, de cerca de 3 anos atrás. A obra trata do fato jurídico ((São fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.)) da adulteração de O Céu e o Inferno e do contexto da trama de traição ao redor de Kardec.

Nesse vídeo, o autor do canal Mesa Girante trata de, debochadamente, tentar invalidar a importância da obra por supostas precipitações de Paulo Henrique ao tratar do tema, no vídeo. Pergunto-me por que é que ele, o dono do canal Mesa Girante, não se dedicou primeiramente a ler essa obra, o que teria enriquecido demais o debate? Por que é que ele se concentrou apenas naquilo que lhe pareceu incongruente, pelas falas de Paulo Henrique, sem dar atenção aos demais pontos de relevância da obra? Digo isso porque eu mesmo o procurei, através dos comentários, para demonstrar que a adulteração de O Céu e o Inferno é o produto inquestionável dos dogmas roustainguistas, além do fato jurídico.

No dia seguinte, eu produzi um vídeo, sob efeito de uma irritação pela maneira como o tema foi abordado, com tom de deboche e sem nenhuma intenção de cooperação, e sim de competição, já que não foi procurar Paulo Henrique para conversar sobre as divergências de entendimentos. Esse vídeo, que eu produzi, eu resolvi apagar, pois acabei tratando com afetação um tema onde não deve haver absolutamente nada disso. Em lugar desse vídeo, gravei um novo, onde falo sobre o foco central da adulteração, como você pode ver ao final deste artigo.

Acontece, porém, que, assim que gravei, chegou ao meu conhecimento uma live com Lucas Sampaio, co-autor do livro Nem Céu, Nem Inferno, onde ele explica em detalhes todas as questões envolvidas nesse tema da adulteração. O conteúdo é muito explicativo por si só, de maneira que reproduzo abaixo o mesmo vídeo e aproveito para tecer comentários sobre seu conteúdo.

Comentários sobre a live do Lucas Sampaio

  • É fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.
  • Kardec estava, sim, fazendo revisões nessas obras, preparando novas edições. Isso está registrado em cartas. Contudo, menos de um mês depois da carta onde cita o trabalho de tradução para o alemão, existe uma carta de Kardec para um amigo seu, dizendo que, por problemas de saúde, ele precisou suspender todas as atividades que não fossem estritamente necessárias.
  • Os Espíritos, evocados por Kardec, dizem que ele não deveria suprimir nada nas novas edições. Foi feito justamente o contrário nas edições publicadas após sua morte, com a supressão de pontos importantes nas obras.
  • A psicografia original, onde os Espíritos diziam a Kardec para não suprimir nada nas novas edições, foi adulterada por Leymarrie em Obras Póstumas, retirando justamente esse conselho, para dar credibilidade à 5a edição de A Gênese. Isso se deu após a denúncia de Henry Sausse.
  • Os negacionistas dos fatos jurídicos e das evidências de adulteração chegam a usar depoimentos de pessoas ligadas a Leymarie para sustentar suas teses.
  • É importantíssimo ler a obra O Legado de Allan Kardec, que traz diversas evidências sobre os fatos acerca da adulteração de A Gênese.
  • Fala-se em registros contábeis da Sociedade, assinados pela esposa de Kardec, três anos após sua morte, onde estariam registrados os custos de impressão de O Céu e o Inferno a fevereiro de 1869. Faz sentido fazer contabilidade de algo passado à criação da Sociedade Anônima (empresa)? Faz sentido confiar em documentos da Sociedade Anônima, a mesma que deu o golpe post-mortem em Kardec? Como veremos a seguir, os documentos oficiais mostram que a obra não foi impressa naquela data.
  • Foi encontrada, nos registros legais da Biblioteca Nacional, a declaração de impressor n. 8.584 com pedido de autorização do tipógrafo Rouge registrado em 9/7/1869 para imprimir 2.000 exemplares da mesma quarta edição de O Céu e o Inferno, conforme a página 294 do documento F/18(II)/128, mais de três meses após a desencarnação de Allan Kardec.
  • Na Revista Espírita de junho de 1869, foi publicado, pela Sociedade Anônima, o artigo de título “À venda em 1° de junho de 1869”, tratando da edição que ficou pronta somente em 19 do mês seguinte. E o aviso ainda explica:

Quarta edição de O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo, contendo numerosos exemplos sobre a situação dos Espíritos no mundo espiritual e na Terra; 1 vol. in-12, preço: 3 fr. 50.

Observação – A parte doutrinária desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por Allan Kardec, passou por modificações significativas. Alguns capítulos em particular foram inteiramente reformulados e consideravelmente aumentados.

(SOCIEDADE ANÔNIMA, [RE] 1869, jul., p. 224)

  • Tudo indica que Amelie, com mais de 70 anos, em luto, foi enganada pela Sociedade Anônima, e confiou no que diziam ou apresentavam a ela. Berthe Froppo menciona que ela acreditava que a S.A. iria vender os livro de Kardec a preços populares (e fizeram o contrário). A doce Gabi, como a chamava Kardec, entregou tudo, crendo que o melhor seria feito, pois não tinha um espírito de liderança. Foi afastada de qualquer papel de decisão da S.A. Foi, em suma, ludibriada. Não se opôs às novas edições, pois sabia que seu marido trabalhava sobre elas. Escolheu entregar à S.A. toda a obra de Kardec, pois pensava, seguindo os propósitos de Kardec, que o Espiritismo deveria ser de todos, e não mais centralizado em ninguém. Era a promessa da Sociedade, finalmente não cumprida.
  • Existe uma falta de vontade (e aqui eu reitero: inclusive pelo CSI do Espiritismo e do dono do canal Mesa Girante) em fazer um estudo cuidadoso e aplicado, inclusive comparativo. Não: fica-se girando apenas na superfície das afirmações e das negações simplórias, numa sanha de negar o que vemos estar óbvio aos nossos olhos.
  • As teses de negação não respeitam o fato jurídico; não se importam com os planos de Kardec para o futuro do Espiritismo; não se importam com os vários golpes sofridos por Kardec e pelo Espiritismo; não se importam com o golpe à unidade de método e de organização, necessárias à continuidade doutrinária; não fazem análises doutrinárias sobre o conteúdo anterior e as alterações; não se importam com o fato de a Sociedade Anônima haver incendiado um grande número de manuscritos de Kardec, após sua morte; não falam do verdadeiro complô sendo formado ao redor de Kardec, por Roustaing e seus seguidores; não trazem à luz os incontáveis fatos e evidências dos interesses contrários ao bem, por pessoas ao redor de Kardec.

    Não, e nem podem, pois dar atenção ao fato dos descalabros sofridos por Kardec e pelo Espiritismo seria alimentar os argumentos da adulteração, o que não seria do interesse deles. Pelo contrário: esforçam-se por colocar dúvida injustificável sobre pessoas como Berthe Froppo, amiga íntima do casal Kardec, que fez algumas graves denúncias contra Leymarie e a sociedade anônima! Não, para eles o testemunho de Froppo não vale, mas valem as alegações do adulterador, Leymarie, e sua esposa, além dos demais envolvidos, por interesse, em seus negócios espíritas!

  • O prefácio de A Gênese e a introdução do capítulo 8º de O Céu e o Inferno (3a edição) tratam justamente do método do Espiritismo, que o protege de se transformar em um sistema pessoal, o que incomodava sobremaneira Roustaing e Pezzani, seu amigo pessoal, que tinham suas próprias concepções do que deveria ser o Espiritismo. Será acaso que tanto um como outro foram removidos nas novas edições?
  • Os trechos removidos na adulteração de A Gênese denunciam exatamente como pensam e agem os inimigos da verdadeira ideia.
  • Cada um dos 25 itens do capítulo VIII de O Céu e o Inferno tinham fundamentação no restante da obra. Na 4a edição, adulterada, muitos itens perderam essa correspondência, conforme se demonstra em O Céu e o Inferno, da editora FEAL (clique aqui para baixar gratuitamente).

Live com Lucas Sampaio sobre as Adulterações nas obras de Kardec

Vídeo do meu canal falando sobre o vídeo do canal Mesa Girante




A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.

Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:

Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

“Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).

Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!

Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno

E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):

9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.

10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.

O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.

Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.

Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):

Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.

Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.

Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.

Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.

Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.

O Céu e o Inferno – Editora FEAL

Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):

  1. Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?

“ Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”

Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:

“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).

Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.

Mais evidências da ideia original

Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):

“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”

KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.

Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:

A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:

N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?

Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.

O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I

É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.

Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:

132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]

O Livro dos Espíritos

Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.

Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.

O Livro dos Espíritos

O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.

  1. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?

A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)

KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.

Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.

Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.

Revista Espírita, 1864

Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.

[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.

“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”

KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.

Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.

Motivo da adulteração

Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.

Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.

O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,

[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.

Conclusão

De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.

Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.

A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:

“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59

Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:

16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.

Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?

São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.

Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo

É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.

Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.

Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.

Como agem os sacerdotes

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.

Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.




Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

O seguinte artigo contém os conteúdos gentilmente disponibilizados pelo Centro Espírita Nosso Lar – Casas André Luiz, e correspondem ao evento recentemente realizado por Paulo Henrique de Figueiredo sobre o tema em destaque.

A apresentação pode ser facilmente baixada através deste link e também pode ser ouvida em Podcast, cujo áudio disponibilizamos a seguir.

Amaciante estraga a roupa

A palestra de Paulo Henrique de Figueiredo explica exatamente o que essa afirmação tem a ver com a mudança de mentalidade. Clique abaixo para ouví-la:


A seguir estão os tópicos da palestra, que podem ser verificados na apresentação disponibilizada e no áudio acima exposto.

ENCONTRO COM A CULTURA ESPÍRITA – Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Paulo Henrique de Figueiredo – 28 e 29 out 2023




Diálogo com as Sombras em confronto com a Ciência Espírita

A obra Diálogo com as Sombras: Teoria e Prática da Doutrinação, de Hermínio C. Miranda, tornou-se uma referência para reuniões de desobsessão no movimento espírita brasileiro. Contudo, quando seu conteúdo é submetido ao exame da Ciência Espírita desenvolvida por Allan Kardec, aparecem divergências metodológicas, doutrinárias e conceituais que merecem análise.

Kardec estruturou o Espiritismo sobre observação, experimentação, análise racional e comparação das comunicações mediúnicas, recusando a autoridade isolada de médiuns ou Espíritos como critério suficiente de verdade.

Em Diálogo com as Sombras, por outro lado, encontramos a incorporação de conceitos provenientes principalmente de obras atribuídas a Emmanuel e André Luiz, além da aceitação de ideias relacionadas a talismãs, números, astrologia e descrições detalhadas da vida espiritual.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se essas ideias são interessantes ou se foram difundidas no movimento espírita. A questão científica é outra:

Elas resistem ao método e aos princípios estabelecidos por Allan Kardec?

1. Talismãs, símbolos e a “mística” dos números

Diálogo com as Sombras reproduz ideias atribuídas a Emmanuel sobre uma “simbologia sagrada das palavras”, uma “mística natural” dos números e até a possibilidade de o talismã funcionar como uma espécie de “condensador de energias psíquicas emanadas do operador”.

O problema aparece quando confrontamos essas proposições com O Livro dos Médiuns.

Ao tratar diretamente da possibilidade de objetos possuírem influência sobre os Espíritos, Kardec apresenta uma resposta inequívoca:

“Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes só são atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.”

O princípio é relevante porque retira dos objetos qualquer suposta eficácia espiritual intrínseca.

Para a Ciência Espírita, não é o objeto que possui poder oculto. A ação espiritual relaciona-se ao pensamento, à vontade e às condições morais dos agentes envolvidos.

Atribuir eficácia espiritual própria a números, símbolos, fórmulas ou objetos aproxima-se justamente das concepções mágicas e supersticiosas das quais Kardec procurou distinguir o Espiritismo.

2. Astrologia e influência dos astros

Outro ponto que merece exame é a utilização de afirmações atribuídas a Emmanuel segundo as quais:

“As antigas assertivas astrológicas têm a sua razão de ser.”

A argumentação relaciona conjunções planetárias e campos magnéticos dos astros ao organismo humano.

Essa concepção precisa ser confrontada com o tratamento dado por Kardec às antigas crenças astrológicas.

Na concepção espírita, os astros são mundos materiais submetidos às leis naturais. O desenvolvimento moral do Espírito não está subordinado a um sistema oculto de determinações planetárias.

Kardec apresenta historicamente a astrologia como uma etapa ligada ao desenvolvimento inicial da observação astronômica, mas isso não significa validar suas pretensões divinatórias ou deterministas.

A Ciência Espírita desloca a explicação da existência humana para outros elementos: livre-arbítrio, responsabilidade individual, progresso espiritual, pluralidade das existências e consequências naturais dos próprios atos.

3. Desobsessão: a técnica do doutrinador ou a transformação moral?

Em Diálogo com as Sombras, grande parte da atenção é direcionada à atuação do doutrinador diante do Espírito obsessor.

Desenvolve-se uma metodologia extensa de diálogo, argumentação, investigação e convencimento durante a manifestação mediúnica. Em determinadas situações, aparecem ainda procedimentos relacionados à recuperação de acontecimentos anteriores e à exploração das motivações do Espírito comunicante.

Em Kardec, entretanto, a questão da obsessão possui um eixo fundamentalmente moral.

No capítulo XXIII de O Livro dos Médiuns, a obsessão é estudada em suas causas, mecanismos e meios de combate. O problema não se resume a retirar determinado Espírito de perto de determinada pessoa.

É necessário atuar sobre as condições que tornam possível ou sustentam aquela influência.

Isso modifica profundamente a compreensão da desobsessão.

Não basta afastar temporariamente um Espírito se permanecem no indivíduo pensamentos, disposições ou comportamentos que favoreçam novas influências.

Por isso, transformar a desobsessão predominantemente numa técnica de diálogo entre doutrinador e obsessor corre o risco de deslocar o centro do problema.

Na perspectiva kardeciana, assumem papel fundamental:

  • a transformação moral;
  • a vigilância sobre pensamentos e ações;
  • a prece sincera;
  • a resistência às sugestões inferiores;
  • a autoridade moral daqueles que auxiliam;
  • e a eliminação das condições que favorecem a influência obsessiva.

A eficácia não decorre simplesmente da habilidade retórica ou técnica daquele que conversa com o Espírito.

4. André Luiz, Emmanuel e o problema das revelações particulares

Este talvez seja um dos pontos metodológicos mais importantes.

Diálogo com as Sombras utiliza extensamente obras atribuídas a André Luiz e Emmanuel, incorporando descrições sobre colônias espirituais, alimentação no mundo espiritual, técnicas empregadas por Espíritos, organizações existentes na erraticidade e outros detalhes.

O problema não está na possibilidade de estudar essas comunicações.

O problema está em determinar qual valor científico e doutrinário pode ser atribuído a elas.

Uma comunicação mediúnica não se transforma automaticamente em princípio da Ciência Espírita porque foi recebida por determinado médium ou atribuída a determinado Espírito.

Kardec estabeleceu mecanismos justamente para evitar que opiniões particulares de Espíritos fossem transformadas em doutrina.

Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da autoridade da Doutrina Espírita, Kardec desenvolve o princípio da concordância dos ensinos.

Uma ideia nova não deve depender da autoridade de:

  • um único Espírito;
  • um único médium;
  • um único grupo;
  • uma única localidade.

É necessária uma concordância suficientemente ampla e independente, além da submissão das comunicações ao exame racional.

Esse princípio é essencial.

A fama do médium não constitui prova.

O nome atribuído ao Espírito comunicante não constitui prova.

A beleza literária da mensagem não constitui prova.

A riqueza de detalhes da narrativa também não constitui prova.

Assim, comunicações atribuídas a André Luiz, Emmanuel ou qualquer outro Espírito podem ser estudadas e examinadas. O que não se pode fazer, seguindo o método de Kardec, é transformá-las automaticamente em princípios estabelecidos da Ciência Espírita.

5. O problema do devassamento de vidas passadas

Outro aspecto que merece atenção é a utilização de informações sobre encarnações anteriores durante determinados diálogos mediúnicos.

Crimes, conflitos, relacionamentos e acontecimentos do passado podem aparecer como elementos utilizados para confrontar ou convencer o Espírito comunicante.

Kardec, entretanto, recomenda extrema prudência nesse campo.

O esquecimento das existências anteriores possui finalidade providencial. Além disso, O Livro dos Médiuns adverte contra perguntas destinadas simplesmente a descobrir acontecimentos íntimos, crimes anteriores, segredos pessoais ou informações cuja revelação não possua verdadeira utilidade.

Uma revelação sobre o passado pode eventualmente ocorrer quando exista finalidade séria e útil.

Isso é muito diferente de transformar a investigação das existências anteriores em procedimento habitual de uma reunião mediúnica.

O princípio metodológico continua sendo o mesmo: a curiosidade não deve ser confundida com investigação científica.

6. A materialização da vida espiritual

Também merece exame crítico a tendência de descrever a erraticidade reproduzindo estruturas e necessidades características da existência corporal.

Nesse tipo de literatura aparecem descrições minuciosas de:

  • alimentação;
  • instalações;
  • organizações administrativas;
  • procedimentos técnicos;
  • instituições;
  • funções burocráticas;
  • mecanismos e equipamentos.

Quanto mais específica é uma descrição sobre uma realidade cuja verificação direta é difícil, maior deve ser a exigência crítica, e não menor.

O detalhamento de uma narrativa não constitui evidência de sua veracidade.

Uma comunicação extremamente detalhada pode continuar sendo apenas uma comunicação particular.

É precisamente nesse tipo de situação que o método comparativo desenvolvido por Kardec se torna indispensável.

7. Quadro comparativo

Talismãs e símbolos

Diálogo com as Sombras: admite conceitos como talismãs funcionando como “condensadores” de energias.

Kardec: nenhum sinal, palavra cabalística ou talismã possui ação própria sobre os Espíritos; o pensamento é o elemento fundamental.


Astrologia

Diálogo com as Sombras: reproduz a ideia de que antigas concepções astrológicas possuiriam fundamento e relaciona os astros ao organismo humano.

Kardec: trata criticamente as antigas concepções astrológicas e não estabelece determinações planetárias como fundamento da existência moral humana.


Desobsessão

Diálogo com as Sombras: atribui grande importância à atuação do doutrinador sobre o Espírito obsessor.

Kardec: enfatiza as causas da obsessão, a transformação moral, a vigilância, a prece e as condições que permitem a influência espiritual.


Fonte do conhecimento

Diálogo com as Sombras: utiliza extensamente revelações atribuídas a André Luiz e Emmanuel.

Kardec: estabelece critérios destinados justamente a impedir que comunicações particulares sejam automaticamente transformadas em princípios doutrinários.


Vidas passadas

Diálogo com as Sombras: utiliza informações de existências anteriores em determinados diálogos mediúnicos.

Kardec: recomenda prudência extrema diante de revelações íntimas e rejeita a curiosidade indiscreta sobre o passado.

8. O problema central não é Hermínio Miranda: é o método

Reduzir essa discussão a uma disputa entre autores seria perder seu aspecto mais importante.

A questão fundamental é metodológica.

Como distinguir uma comunicação mediúnica verdadeira de uma falsa?

Como distinguir uma observação legítima de uma interpretação pessoal?

Como impedir que um Espírito mistificador introduza gradualmente suas próprias ideias?

Como evitar que o prestígio de um médium transforme uma narrativa particular em crença coletiva?

Essas questões já estavam presentes no trabalho de Allan Kardec.

Foi justamente para enfrentá-las que ele insistiu na análise racional, na comparação das comunicações, na independência em relação aos nomes dos Espíritos e na concordância dos ensinos obtidos por diferentes meios.

Abandonar esses critérios significa alterar profundamente o modo pelo qual o conhecimento espírita é produzido.

Conclusão: Kardec ou autoridade mediúnica?

Diálogo com as Sombras possui importância histórica para compreender determinadas práticas que se consolidaram no movimento espírita brasileiro durante o século XX.

Isso, entretanto, não significa que todas as suas proposições possam ser identificadas automaticamente com a Ciência Espírita.

Quando suas ideias são confrontadas com O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, a Revista Espírita e os demais trabalhos de Allan Kardec, surgem divergências que não devem ser ignoradas.

A questão fundamental permanece aquela estabelecida pelo próprio método espírita:

qual é a evidência?

No Espiritismo, a autoridade de um nome — seja médium, escritor ou Espírito comunicante — não substitui demonstração.

Uma afirmação não se torna verdadeira porque foi atribuída a Emmanuel.

Não se torna verdadeira porque foi atribuída a André Luiz.

Não se torna verdadeira porque foi psicografada por Chico Xavier.

E também não se torna verdadeira simplesmente porque Hermínio C. Miranda a incorporou a uma obra amplamente aceita.

É justamente nesse ponto que o método de Allan Kardec permanece indispensável: observar, comparar, analisar, submeter as comunicações à razão e distinguir aquilo que pode ser estabelecido pela investigação espírita daquilo que permanece como opinião, hipótese ou relato particular.




O Conselho Espírita Internacional e a internacionalização do modelo federativo brasileiro

No artigo anterior, “A Revista Espírita (Revue Spirite), do Conselho Espírita Internacional, é uma afronta ao trabalho de Kardec”, examinei principalmente um problema metodológico: a distância entre a maneira pela qual Allan Kardec utilizava a Revue Spirite como instrumento de observação, exame e confronto das comunicações mediúnicas e o modo pelo qual a publicação contemporânea do Conselho Espírita Internacional — CEI — incorpora elementos da tradição mediúnica e institucional construída posteriormente.

Mas aquela análise deixa uma questão inevitável: o que exatamente é o Conselho Espírita Internacional?

Como ele surgiu?

Por que uma organização supostamente internacional apresenta tamanha proximidade histórica, cultural e doutrinária com o modelo desenvolvido pela Federação Espírita Brasileira?

Essa proximidade não é apenas uma impressão produzida pela leitura de sua atual Revue Spirite. A história institucional do CEI, os personagens envolvidos em sua formação, sua estrutura administrativa, a literatura que ajudou a difundir e até o endereço utilizado pela organização revelam uma relação muito mais estreita com o movimento federativo brasileiro do que normalmente se percebe.

1. O que é o Conselho Espírita Internacional

O Conselho Espírita Internacional foi formalmente constituído em 28 de novembro de 1992, em Madri, na Espanha, durante uma assembleia de representantes de instituições espíritas nacionais.

Segundo o próprio CEI, trata-se de uma organização sem fins lucrativos resultante da associação de instituições representativas de movimentos espíritas nacionais. Sua missão declarada é promover a “unificação do Movimento Espírita no mundo”, com base nos princípios de Allan Kardec. Entre seus objetivos estão a divulgação do Espiritismo, a realização de congressos, o intercâmbio entre instituições nacionais e a cooperação em atividades doutrinárias, administrativas, assistenciais e editoriais.

O modelo é federativo.

Os membros do CEI não são, formalmente, indivíduos nem centros espíritas isolados, mas organizações nacionais — federações, confederações, uniões e instituições equivalentes. A estrutura institucional compreende Assembleia Geral, Comissão Executiva e Conselho Fiscal. A própria Comissão Executiva é composta por instituições representando diferentes países.

Em princípio, portanto, não se trata de uma estrutura brasileira.

O problema começa quando se examina como essa organização internacional foi formada e quais forças já estavam organizadas quando ela surgiu.

2. O CEI não apareceu num vazio institucional

Quando o Conselho Espírita Internacional foi criado, em 1992, a situação do movimento espírita mundial estava longe de ser equilibrada.

O Espiritismo havia nascido na França no século XIX, mas o movimento francês perdeu grande parte da importância social e institucional que possuíra anteriormente. No Brasil ocorreu justamente o inverso: durante o século XX, o movimento espírita cresceu enormemente, desenvolveu editoras, federações, congressos, centros, programas de formação e uma vasta produção mediúnica própria.

Quando se inicia a organização internacional contemporânea do Espiritismo, o maior aparato institucional espírita do mundo já não estava na França, mas no Brasil.

Essa assimetria é essencial para compreender o CEI.

Não se reuniram, em 1992, movimentos nacionais de dimensões e recursos equivalentes para construir do zero uma nova organização. Um dos participantes já possuía décadas de experiência federativa, um sistema nacional de unificação, enorme capacidade editorial e um patrimônio simbólico formado por nomes como Bezerra de Menezes, Chico Xavier, Emmanuel e, posteriormente, Divaldo Franco como grande divulgador internacional.

Esse participante era o movimento organizado em torno da Federação Espírita Brasileira.

3. A FEB aparece desde a formação do organismo internacional

A presença brasileira não começou depois da fundação do CEI.

Ela aparece no próprio processo preparatório.

As articulações que levariam à criação da organização internacional ganharam força no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Nestor João Masotti, então ligado à Federação Espírita Brasileira, participou diretamente dessas iniciativas e posteriormente se tornou uma das figuras centrais do CEI.

A formação institucional culminou em Madri, em 1992. A partir dali consolidou-se progressivamente a estrutura internacional que passaria a organizar congressos mundiais, publicações, traduções e programas de intercâmbio.

Não seria correto afirmar que a FEB “inventou” sozinha o Conselho Espírita Internacional. Representantes de diversos países participaram efetivamente de sua formação.

Mas seria igualmente incorreto tratar a participação brasileira como apenas mais uma entre várias equivalentes.

Ao longo dos anos seguintes, a FEB e seus dirigentes ocuparam posições centrais no desenvolvimento da organização.

4. Nestor Masotti personifica a ligação entre FEB e CEI

Nestor João Masotti é provavelmente o melhor exemplo dessa sobreposição institucional.

Ele se tornou secretário-geral do Conselho Espírita Internacional e também presidiu a Federação Espírita Brasileira.

Durante parte importante da expansão do CEI, portanto, o dirigente máximo da FEB acumulava uma posição executiva central no organismo internacional.

Esse detalhe ajuda a compreender a transferência de práticas administrativas, conceitos de “unificação”, políticas editoriais e referências doutrinárias brasileiras para a estrutura internacional.

Não estamos falando apenas de afinidades ideológicas.

Estamos falando de pessoas concretas circulando entre as duas organizações.

A proximidade chegou a ser também física.

5. CEI e FEB chegaram a compartilhar o mesmo endereço institucional

O site atual do Conselho Espírita Internacional informa como endereço:

Av. L2 Norte – Q. 603, Conjunto F (SGAN), Brasília – DF, Brasil.

A Federação Espírita Brasileira informa sua sede no mesmo local:

SGAN 603 – Conjunto F – Avenida L2 Norte, Brasília – DF.

Isso é bastante revelador.

Uma organização internacional que representa instituições de diversos países mantém como endereço de referência justamente a sede da Federação Espírita Brasileira.

Esse dado, isoladamente, não provaria dependência administrativa ou doutrinária.

Mas, somado à trajetória de seus dirigentes, à história de sua formação e à literatura que passou a circular internacionalmente por sua estrutura, ele se torna mais significativo.

Há uma diferença importante entre afirmar que CEI e FEB são a mesma instituição, o que seria incorreto, e reconhecer que houve entre elas uma proximidade institucional excepcionalmente forte.

A documentação permite afirmar a segunda coisa com segurança.

6. A pesquisa acadêmica já descreveu esse fenômeno como “brasilianização”

Existe ainda um elemento externo ao próprio movimento espírita que merece atenção.

Em 2008, o antropólogo Bernardo Lewgoy publicou na revista acadêmica Religião & Sociedade o artigo “A transnacionalização do espiritismo kardecista brasileiro: uma discussão inicial”.

Sua análise é particularmente relevante porque não se trata de um texto produzido dentro das disputas doutrinárias entre kardecistas, roustainguistas ou federativos.

Lewgoy examina o fenômeno sociologicamente.

Logo no resumo, ele fala em uma “participação hegemônica do kardecismo brasileiro na organização internacional do movimento espírita” e destaca tanto o papel da Federação Espírita Brasileira quanto a atuação internacional de Divaldo Franco.

O conceito utilizado por ele é bastante esclarecedor: brasilianização do movimento espírita internacional.

O que foi exportado não teria sido simplesmente o conhecimento das obras de Allan Kardec.

Segundo Lewgoy, foram internacionalizados elementos formados historicamente no Brasil: o modelo federativo da FEB, a organização das casas espíritas, práticas, ênfases religiosas e um vasto patrimônio bibliográfico brasileiro, especialmente a literatura mediúnica de Chico Xavier e Divaldo Franco.

Isso muda completamente a interpretação do processo.

O que se espalhou pelo mundo nas últimas décadas não foi apenas o Espiritismo francês do século XIX.

Espalhou-se também uma forma brasileira de organizar, praticar e interpretar o Espiritismo.

7. Internacionalização não significa simples retorno a Kardec

Esse ponto merece particular atenção.

À primeira vista, uma organização internacional poderia parecer o caminho natural para recuperar a universalidade pretendida pelo Espiritismo.

Mas o processo ocorreu numa direção diferente.

O Brasil não funcionou apenas como conservador das obras francesas.

Ao longo do século XX, desenvolveu uma cultura espírita própria, na qual passaram a ter grande importância autores espirituais e médiuns posteriores a Kardec.

Chico Xavier tornou-se praticamente inseparável da imagem pública do Espiritismo brasileiro.

Emmanuel passou a funcionar, para grande parte do movimento, como uma espécie de intérprete espiritual autorizado.

André Luiz forneceu uma vasta cosmologia sobre o mundo espiritual.

Bezerra de Menezes adquiriu a condição simbólica de grande dirigente espiritual do movimento brasileiro.

A narrativa de Ismael consolidou-se através da tradição ligada à FEB.

Divaldo Franco tornou-se um dos maiores divulgadores internacionais dessa mesma cultura.

Quando esse movimento se expandiu internacionalmente, não levou apenas O Livro dos Espíritos.

Levou consigo todo esse patrimônio.

8. A diferença entre “Espiritismo brasileiro” e “febianismo”

É importante, contudo, fazer uma distinção.

Nem tudo o que existe no Espiritismo brasileiro pode ser classificado simplesmente como “febianismo”.

O movimento brasileiro sempre foi plural. Houve oposição histórica ao roustainguismo, críticas à FEB, diferentes interpretações de Kardec e instituições que nunca aceitaram determinadas narrativas consolidadas no campo federativo.

Quando utilizamos aqui o termo febianismo, portanto, não estamos falando de tudo aquilo que surgiu no Brasil.

Estamos nos referindo a uma tradição institucional mais específica: aquela construída em torno da FEB e de seu sistema federativo, com sua concepção de unificação, seus programas de formação, sua literatura de referência e sua valorização de determinadas autoridades mediúnicas.

Dentro desse ambiente aparecem, em diferentes momentos históricos, elementos como:

a tradição de Ismael;

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho;

a literatura de Chico Xavier e Emmanuel;

a influência histórica de Roustaing;

a centralidade da unificação federativa;

a valorização de mensagens atribuídas a dirigentes espirituais do movimento.

Isso não significa que cada pessoa ligada ao CEI aceite necessariamente todas essas ideias.

Seria uma generalização indevida.

O que se pode demonstrar é que essa cultura institucional brasileira teve influência desproporcional na formação do organismo internacional.

9. O caso de Divaldo Franco ajuda a compreender a expansão

A internacionalização do Espiritismo brasileiro também não aconteceu apenas por meio de dirigentes administrativos.

Divaldo Pereira Franco exerceu papel extraordinariamente importante.

Durante décadas, realizou viagens, palestras e congressos em diversos países, tornando-se uma das figuras mais conhecidas do Espiritismo fora do Brasil.

Bernardo Lewgoy inclui explicitamente Divaldo em sua análise sobre a exportação da tradição espírita “made in Brazil”.

Isso produziu um efeito importante.

Quando comunidades espíritas relativamente pequenas da Europa, América do Norte ou América Latina entravam em contato com um movimento brasileiro altamente organizado, recebiam não apenas literatura de Kardec, mas também palestrantes, livros psicografados, programas de estudo, métodos administrativos e modelos de funcionamento de centros.

O crescimento internacional ocorreu, portanto, através de um pacote cultural muito mais amplo.

10. O peso brasileiro aparece até em congressos realizados fora do Brasil

A assimetria também se revelou na composição dos grandes encontros internacionais.

Lewgoy relata que, no Congresso Espírita Mundial realizado em Paris em 2004, a participação brasileira era numericamente muito superior à dos demais países.

Esse dado não deve ser interpretado como alguma irregularidade. Se havia mais brasileiros interessados e com capacidade de participação, era natural que fossem numerosos.

Mas ele revela onde estava o verdadeiro centro de gravidade do movimento internacional.

O congresso podia ocorrer em Paris.

A origem histórica do Espiritismo podia estar na França.

O discurso podia ser internacional.

Ainda assim, o movimento brasileiro possuía uma presença social e institucional muito maior.

É difícil imaginar que uma diferença dessa magnitude não produzisse consequências culturais.

11. O modelo da “unificação” também veio do Brasil

Outro elemento frequentemente tratado como se fosse neutro é a própria ideia de “unificação”.

O CEI declara que uma de suas principais missões é promover a unificação do movimento espírita mundial.

Mas essa linguagem já era profundamente familiar ao movimento federativo brasileiro.

Depois do Pacto Áureo de 1949, a FEB consolidou um sistema nacional de articulação das entidades federativas através do Conselho Federativo Nacional.

Com o passar dos anos, “unificação” deixou de significar apenas aproximação fraterna entre espíritas e passou a designar também um complexo sistema de orientações, programas, encontros, materiais de estudo e estruturas administrativas.

Quando o CEI surge décadas depois, encontra esse modelo pronto.

É difícil não perceber a correspondência.

No plano nacional:

FEB → federações estaduais → centros espíritas.

No plano internacional:

CEI → instituições nacionais de unificação → movimentos nacionais.

O formato não é idêntico juridicamente, mas a lógica federativa é claramente semelhante.

12. O problema começa quando organização e doutrina passam a se misturar

Até esse ponto, poderíamos estar diante apenas de uma exportação administrativa.

Uma instituição brasileira possuía experiência federativa e ajudou outras instituições a se organizar.

Nada haveria de necessariamente problemático nisso.

A questão muda quando os elementos especificamente religiosos da tradição brasileira começam a acompanhar a estrutura administrativa.

É justamente aí que o artigo anterior sobre a atual Revue Spirite se conecta a esta investigação.

O CEI não divulgou somente Kardec.

Ele também difundiu literatura e comunicações ligadas ao universo mediúnico brasileiro.

E alguns exemplos são particularmente reveladores.

13. Ismael atravessa a fronteira brasileira

Em 2019, após reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, uma mensagem atribuída a Bezerra de Menezes foi recebida psicofonicamente por Divaldo Franco.

O texto foi divulgado pelo Conselho Espírita Internacional.

Nele aparece novamente a ideia de que o Brasil possuiria uma missão confiada por Jesus a Ismael.

Essa narrativa é profundamente brasileira.

Ela não provém da investigação realizada por Kardec na França.

Não nasceu da concordância universal de comunicações obtidas independentemente em diversos países.

Está ligada historicamente à tradição que se desenvolveu no ambiente da Federação Espírita Brasileira.

Quando o organismo internacional passa a publicar esse tipo de mensagem, ocorre algo muito significativo:

uma crença produzida dentro da história particular do movimento brasileiro ganha circulação através de uma instituição que se apresenta como representação mundial do Espiritismo.

É assim que uma tradição local pode adquirir aparência universal.

14. Até os “desencarnados do CEI” aparecem na narrativa institucional

Outro episódio é ainda mais expressivo.

Na Assembleia Geral do CEI realizada na Cidade do México em outubro de 2019, foi divulgada uma mensagem psicográfica atribuída a Nestor João Masotti e à “equipe dos membros desencarnados do CEI”, recebida por Marta Antunes de Moura. O próprio site do CEI publicou a comunicação junto ao relato da assembleia.

A expressão merece atenção:

“membros desencarnados do CEI”.

O Conselho deixa de aparecer apenas como associação administrativa constituída por instituições encarnadas.

Surge, paralelamente, uma representação espiritual da própria organização.

Isso é extremamente característico do imaginário religioso que se desenvolveu em setores do Espiritismo brasileiro: instituições terrenas acompanhadas por supostas estruturas espirituais correspondentes, dirigentes encarnados auxiliados por dirigentes desencarnados, missões institucionais confirmadas através da mediunidade.

O problema metodológico é o mesmo analisado no artigo anterior.

Não basta dizer que determinado dirigente desencarnado enviou uma mensagem.

É preciso demonstrar por quais critérios sua identidade foi estabelecida e que estatuto aquela comunicação possui.

15. A Revue Spirite entrou exatamente nesse ambiente

A situação se torna ainda mais delicada quando lembramos que o Conselho Espírita Internacional passou a administrar a própria Revue Spirite.

Documentos institucionais do CEI registram negociações entre o Conselho e a Union Spirite Française et Francophone envolvendo a revista e sua continuidade. Em documentação disponibilizada pelo próprio CEI aparece uma proposta de acordo relativa à Revue Spirite, apresentada conjuntamente pelo dirigente francês Roger Perez e pelo então secretário-geral do CEI, Nestor Masotti.

Esse ponto é essencial para compreender o artigo anterior.

A revista histórica de Kardec não chegou simplesmente ao século XXI por uma sucessão intelectual linear.

Ela passou por transformações institucionais e acabou inserida numa organização internacional que havia sido construída sob forte influência do modelo espírita brasileiro.

Essa organização, por sua vez, carregava consigo uma cultura doutrinária muito diferente daquela encontrada na França de Kardec.

16. A própria revista atual revela essa mistura

Na edição contemporânea da Revue Spirite, encontram-se Kardec, reflexões filosóficas, ciência, religião e referências oriundas da literatura mediúnica brasileira.

No número de julho de 2023, por exemplo, a revista se identifica formalmente como Journal d’Études Psychologiques, fundada por Allan Kardec, mas utiliza também referências posteriores como Francisco Cândido Xavier e Emmanuel.

Novamente, o problema não é citar Chico Xavier.

Ele faz parte da história do Espiritismo brasileiro e merece ser estudado.

A questão está em saber com que estatuto suas obras são colocadas ao lado das fontes que deram origem à própria Doutrina Espírita.

Essa distinção desaparece facilmente num ambiente cultural que, há décadas, acostumou-se a tratar autores espirituais brasileiros como extensões naturais da obra de Kardec.

Quando essa mesma cultura passa a administrar uma revista internacional que reivindica o legado histórico da Revue Spirite, a confusão ganha dimensão mundial.

17. A influência brasileira continua, mas o CEI não é simplesmente uma filial da FEB

É necessário evitar um exagero.

O CEI possui atualmente participação de instituições de numerosos países e dispõe de mecanismos próprios de decisão.

Em 2019, por exemplo, 22 países participaram com direito a voto em sua Assembleia Geral na Cidade do México. A escolha do local do Congresso Espírita Mundial de 2025 contou com candidaturas do Brasil, dos Estados Unidos e do Uruguai, tendo vencido a proposta uruguaia.

Isso demonstra que o CEI não funciona simplesmente como uma repartição subordinada à FEB.

Sua composição é efetivamente internacional.

A questão é outra.

Uma instituição pode ser juridicamente independente e ainda carregar profundamente a cultura de quem mais influenciou sua formação.

Aliás, isso é comum em processos de internacionalização.

A organização torna-se multinacional, enquanto categorias, métodos e pressupostos culturais do grupo fundador permanecem incorporados em sua estrutura.

18. Os dirigentes atuais também mostram uma rede transnacional complexa

A página institucional do CEI lista, para o triênio 2023–2025, uma Comissão Executiva formada por representantes de vários países. Entre eles estava Jussara Pretti Korngold, representando os Estados Unidos como secretária-geral, além de representantes de Portugal, Chile, Cuba, Guatemala e outros movimentos nacionais.

A própria trajetória de muitos participantes mostra, porém, como nacionalidade institucional e formação cultural nem sempre coincidem.

Há brasileiros ou pessoas formadas no ambiente espírita brasileiro atuando em organizações de outros países.

A diáspora brasileira ajudou a estabelecer centros e federações em vários lugares.

Assim, contar quantas bandeiras aparecem numa comissão não é suficiente para medir influência cultural.

Uma federação norte-americana pode ser institucionalmente dos Estados Unidos e, ainda assim, ter sido profundamente formada por brasileiros.

Uma associação europeia pode estar juridicamente estabelecida na Europa e utilizar bibliografia, palestrantes e métodos originados no Brasil.

É justamente por isso que Lewgoy fala em transnacionalização, e não simplesmente em expansão territorial.

19. O CEI é internacional; o modelo que o alimentou, porém, foi fortemente brasileiro

A formulação mais precisa parece ser esta:

o Conselho Espírita Internacional é uma organização internacional real, composta por instituições de diversos países, mas sua formação ocorreu durante um período de acentuada hegemonia organizacional do Espiritismo brasileiro.

Essa hegemonia permitiu que o modelo federativo da FEB, sua literatura e parte de seu universo simbólico adquirissem uma presença internacional que ultrapassava muito o peso demográfico dos movimentos espíritas de outras nações.

Lewgoy chega a falar explicitamente em participação hegemônica do kardecismo brasileiro na organização internacional do movimento.

A palavra é forte, mas não foi empregada por um polemista do movimento.

Foi utilizada numa análise acadêmica.

20. O ponto mais delicado: quando “internacional” passa a significar “universal”

Aqui está talvez a consequência mais importante.

Uma organização possuir representantes de diversos países não transforma automaticamente suas crenças em princípios universais do Espiritismo.

Essa confusão precisa ser evitada.

Uma mensagem pode circular por vinte países e ainda continuar sendo uma mensagem particular.

Um livro pode ser traduzido para quinze idiomas e continuar contendo a opinião de um único Espírito.

Uma instituição internacional pode adotar determinada narrativa e isso ainda não equivaler ao Controle Universal do Ensino dos Espíritos.

Esse cuidado é fundamental porque a própria existência do CEI pode produzir um efeito psicológico de legitimação.

Se algo aparece no Conselho Espírita Internacional, pode parecer que “o movimento espírita mundial” reconhece aquilo.

Mas representação administrativa não é comprovação doutrinária.

Kardec jamais estabeleceu que uma assembleia de federações pudesse substituir o exame dos fatos.

21. O problema da Revue Spirite torna-se então mais fácil de compreender

É nesse contexto que o artigo anterior deve ser lido.

A atual Revue Spirite não surgiu simplesmente como uma revista isolada que, por acaso, passou a publicar elementos do Espiritismo brasileiro.

Ela está inserida numa história institucional muito maior.

O movimento francês perdeu centralidade.

O brasileiro cresceu enormemente.

A FEB desenvolveu uma poderosa estrutura federativa.

Essa estrutura participou da criação e consolidação do CEI.

Dirigentes transitaram entre FEB e CEI.

A organização internacional operou durante períodos a partir do mesmo endereço da Federação brasileira — e o site do CEI ainda hoje indica o SGAN 603, Conjunto F, em Brasília, que é também a sede da FEB.

A literatura brasileira foi internacionalizada.

O conceito federativo de unificação foi internacionalizado.

Autores espirituais brasileiros foram internacionalizados.

Narrativas como a de Ismael chegaram ao próprio CEI.

Por fim, a Revue Spirite passou para a esfera dessa organização.

Vista assim, a situação deixa de parecer uma coincidência editorial.

Ela é consequência de um processo histórico.

22. A questão não é expulsar o Brasil do Espiritismo internacional

Seria absurdo concluir que, por ser brasileira, determinada contribuição deva ser rejeitada.

O Brasil produziu uma história espírita riquíssima, grandes pesquisadores, médiuns, escritores, instituições e enorme quantidade de documentação.

A origem nacional de uma ideia não determina sua verdade.

A crítica necessária é outra.

Da mesma maneira que uma teoria francesa não se torna verdadeira porque surgiu no país de Kardec, uma crença brasileira não se torna universal porque foi incorporada por uma organização internacional.

Tudo deve passar pelo mesmo exame.

Se uma informação atribuída a Emmanuel estiver correta, poderá ser confirmada pelos fatos.

Se uma afirmação de André Luiz descrever realmente uma lei espiritual, ela deverá resistir à investigação.

Se a missão de Ismael for uma realidade objetiva, não dependerá da autoridade da FEB para existir.

E se Roustaing estiver correto sobre determinado ponto, também deverá ser possível demonstrá-lo sem recorrer ao prestígio de qualquer instituição.

Essa simetria é indispensável.

Conclusão

O Conselho Espírita Internacional não pode ser compreendido apenas pela palavra “internacional” contida em seu nome.

Sua história está profundamente relacionada à expansão mundial do Espiritismo brasileiro nas últimas décadas do século XX.

A FEB possuía estrutura, recursos, experiência federativa e produção editorial num grau incomparavelmente superior ao de grande parte dos movimentos espíritas nacionais quando o CEI começou a ser organizado.

Seus dirigentes participaram diretamente desse processo.

Nestor Masotti simboliza essa ligação ao ter exercido papéis centrais tanto na FEB quanto no CEI.

O mesmo endereço em Brasília utilizado pelas duas organizações materializa uma proximidade que já existia na formação institucional.

A pesquisa acadêmica de Bernardo Lewgoy ajuda a compreender o fenômeno em termos mais amplos: não ocorreu apenas uma internacionalização do Espiritismo, mas uma transnacionalização do Espiritismo brasileiro, acompanhada da exportação do modelo federativo da FEB, de suas práticas e de seu patrimônio bibliográfico.

É nesse ambiente que a atual Revue Spirite precisa ser situada.

Ao passar para a esfera do CEI, a revista fundada por Kardec entrou numa organização internacional já profundamente marcada pela cultura espírita brasileira.

Por isso encontramos, lado a lado, o nome de Allan Kardec, a reivindicação do histórico Journal d’Études Psychologiques, literatura psicográfica brasileira, mensagens atribuídas a dirigentes espirituais e até a continuidade da narrativa de Ismael.

O ponto decisivo não é negar ao Brasil o direito de contribuir para o Espiritismo mundial.

É impedir que hegemonia institucional seja confundida com universalidade doutrinária.

Uma federação pode tornar uma ideia popular.

Uma editora pode imprimir milhões de exemplares.

Um médium pode falar para milhares de pessoas em dezenas de países.

Um conselho internacional pode difundir uma mensagem pelo mundo inteiro.

Nada disso substitui o método.

E justamente esse é o elo entre este estudo e o artigo anterior: quanto mais internacional se torna uma instituição que reivindica representar o Espiritismo, maior deveria ser seu compromisso em distinguir tradição cultural, autoridade institucional e conhecimento efetivamente demonstrado.

Foi para realizar essa distinção que Kardec criou instrumentos como a crítica racional, a comparação independente e o controle universal.

Sem eles, o que se internacionaliza não é necessariamente o Espiritismo.

Pode ser apenas uma tradição particular que adquiriu alcance mundial.


Referências bibliográficas

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. “Missão do Conselho Espírita Internacional”. O CEI informa ter sido fundado em 28 de novembro de 1992, em Madri, como associação de instituições nacionais de unificação espírita.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. “Members”. Página institucional que descreve a composição do CEI, sua Assembleia Geral, Comissão Executiva e Conselho Fiscal, além da Comissão Executiva indicada para o triênio 2023–2025.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. “Assembleia Geral do Conselho Espírita Internacional”, 2019. Registro da reunião realizada na Cidade do México, da participação de 22 países, da eleição da Comissão Executiva e da mensagem atribuída a Nestor João Masotti e à “equipe dos membros desencarnados do CEI”.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. Site institucional. O endereço divulgado pelo CEI é Av. L2 Norte, Q. 603, Conjunto F, SGAN, Brasília – DF.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Documentação institucional e editorial. A FEB informa sua sede no SGAN 603, Conjunto F, Avenida L2 Norte, Brasília – DF.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL; UNION SPIRITE FRANÇAISE ET FRANCOPHONE. Documentação relativa à Revue Spirite. Registra proposta apresentada por Roger Perez e Nestor Masotti acerca da continuidade e administração da publicação.

LEWGOY, Bernardo. “A transnacionalização do espiritismo kardecista brasileiro: uma discussão inicial”. Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 28, n. 1, p. 84–104, 2008. O autor analisa a influência da FEB e de Divaldo Franco na internacionalização do modelo espírita brasileiro e utiliza a noção de participação hegemônica do kardecismo brasileiro na organização internacional do movimento.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques, ano 166, nº 12, julho de 2023. A edição se apresenta como continuidade nominal da revista fundada por Allan Kardec e é propriedade do CEI.

PIRES, J. Herculano; ABREU FILHO, Júlio. O Verbo e a Carne: duas análises do roustainguismo. São Paulo: Paidéia. Obra relevante para compreender as divergências históricas entre o modelo kardeciano de exame doutrinário e a tradição roustainguista difundida em setores do movimento federativo brasileiro.

GARCIA, Wilson. Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec. Capivari: EME, 2020. Estudo sobre a implantação e desenvolvimento do roustainguismo brasileiro e suas relações com a história institucional do movimento.




A Revista Espírita (Revue Spirite), do Conselho Espírita Internacional, é uma afronta ao trabalho de Kardec

Quando Allan Kardec publicou, em janeiro de 1858, o primeiro número da Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques, não estava simplesmente criando uma revista para divulgar mensagens de Espíritos ou oferecer textos de edificação moral. A publicação nasceu como parte integrante do desenvolvimento experimental do Espiritismo. Ali se examinavam fenômenos, confrontavam-se comunicações, registravam-se casos, discutiam-se hipóteses e, sobretudo, colocavam-se as ideias provenientes dos Espíritos diante da razão, da observação e da comparação.

Mais de um século e meio depois, o Conselho Espírita Internacional — CEI — publica uma revista que conserva não apenas o nome Revue Spirite, mas também o subtítulo histórico Journal d’Études Psychologiques e a indicação de que foi fundada por Allan Kardec em 1º de janeiro de 1858. Na edição de julho de 2023, a publicação declara expressamente ser propriedade do CEI e traz como editora a Federação Espírita Portuguesa.

Para entender a história da formação do CEI, leia nosso artigo “O Conselho Espírita Internacional e a internacionalização do modelo federativo brasileiro“.

O problema começa justamente aí. Não porque alguém esteja impedido de utilizar uma publicação contemporânea para falar de Espiritismo, religião ou mediunidade, mas porque a evocação direta do nome e da história da revista de Kardec estabelece uma responsabilidade intelectual: não basta conservar a aparência da antiga Revue Spirite; é preciso demonstrar fidelidade ao método que lhe dava sentido.

E é nesse ponto que a distância se torna evidente.

1. O que fazia da Revue Spirite de Kardec algo diferente

Kardec jamais estabeleceu a autoridade da Doutrina Espírita sobre o prestígio de médiuns ou sobre a assinatura atribuída a determinado Espírito. Essa distinção é fundamental para compreender seu trabalho e, ao mesmo tempo, para perceber boa parte dos problemas que se desenvolveram posteriormente no movimento espírita.

Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, ao discutir a autoridade do ensino dos Espíritos, Kardec estabelece a razão como primeiro instrumento de controle. Não é suficiente que uma informação seja recebida mediunicamente. Tampouco basta que ela venha assinada por um nome respeitado.

O problema era bastante conhecido por ele. Espíritos poderiam apresentar opiniões próprias, reproduzir conhecimentos ou preconceitos humanos e até utilizar nomes venerados para conferir peso às suas mensagens. Por isso, a identidade anunciada pelo comunicante nunca poderia substituir o exame daquilo que ele dizia.

Kardec resumiu o princípio de forma muito clara:

“O primeiro controle é, incontestavelmente, o da razão.”

A frase é pequena; sua consequência é enorme.

Nenhuma comunicação fica dispensada desse controle.

Isso vale para uma mensagem atribuída a Santo Agostinho, São Luís ou Erasto no século XIX. Vale igualmente para mensagens atribuídas a Bezerra de Menezes, Emmanuel, André Luiz, Ismael ou ao próprio Allan Kardec nos séculos XX e XXI.

O nome pode justificar interesse pelo documento. Não pode servir como certificado de verdade.

2. O controle universal não é uma votação entre Espíritos

Kardec também compreendeu que o julgamento individual possui limites. Alguém pode considerar perfeitamente racional uma ideia que, na realidade, apenas confirma suas próprias convicções. Por isso, o exame racional não era o único mecanismo empregado por ele.

Para as questões que pudessem modificar ou ampliar os princípios do Espiritismo, Kardec exigia concordância obtida através de fontes independentes. Não bastava perguntar a vários Espíritos no mesmo grupo; tampouco bastava que diferentes médiuns, inseridos no mesmo ambiente intelectual e sujeitos às mesmas influências, repetissem a mesma concepção.

A universalidade estava justamente na independência das fontes.

Foi esse mecanismo que posteriormente passou a ser conhecido como Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Não significa que uma proposição se torne verdadeira porque muitos Espíritos a disseram. Significa que uma revelação que se pretenda geral não pode depender da autoridade de uma pessoa, de um médium, de um grupo ou de uma tradição localizada.

Essa precaução é ainda mais importante quando a informação recebida interessa diretamente à instituição que a publica.

Imagine-se, por exemplo, uma comunicação que afirme que determinado grupo possui uma missão especial, que determinado Espírito é responsável pela condução daquele movimento ou que uma instituição ocupa posição providencial no desenvolvimento do Espiritismo. Quanto mais conveniente for a mensagem para quem a recebe, maior deveria ser o cuidado com sua verificação, e não o contrário.

Foi exatamente para evitar esse tipo de circularidade que Kardec retirou do médium e do Espírito individual a condição de árbitros da Doutrina.

3. Roustaing é um exemplo histórico de como esse método deveria funcionar

O caso de Jean-Baptiste Roustaing é especialmente instrutivo porque Kardec teve contato direto com sua obra.

Quando Os Quatro Evangelhos apareceu em 1866, Kardec não reagiu simplesmente rejeitando tudo aquilo que Roustaing havia publicado. Reconheceu pontos compatíveis com conhecimentos já admitidos pelo Espiritismo e examinou as ideias apresentadas.

Entretanto, quando chegou às teorias novas — justamente aquilo que poderia representar uma ampliação da doutrina — adotou posição muito diferente.

As explicações oferecidas pelos Espíritos ligados ao trabalho de Roustaing deveriam permanecer no campo das opiniões pessoais, enquanto não recebessem uma confirmação mais ampla. Kardec não concedeu àquelas comunicações o estatuto de nova revelação doutrinária apenas porque os comunicantes afirmavam possuir elevada identidade espiritual.

Essa atitude é decisiva.

Não se tratava de decidir se Roustaing era uma pessoa sincera. Não se tratava sequer de demonstrar imediatamente que todos os Espíritos que se comunicavam com ele estavam errados. A questão vinha antes: com que direito uma revelação particular poderia ser incorporada ao Espiritismo sem passar pelo processo de controle aplicado às demais?

Herculano Pires, ao estudar décadas mais tarde a implantação do roustainguismo no Brasil, retomou exatamente esse aspecto. Em O Verbo e a Carne, registra que a Federação Espírita Brasileira sustentou durante longo período a ideia de Roustaing como complemento de Kardec, a chamada “revelação da revelação”.

Ao discutir o Pacto Áureo e as divergências provocadas pelo roustainguismo, Herculano recusou a solução conveniente do silêncio. Para ele, era necessário voltar aos textos, submetê-los ao exame objetivo e colocá-los, como dizia, no “crivo da razão”.

Sua análise do próprio processo de produção de Os Quatro Evangelhos vai além. Roustaing dizia ter recebido manifestações de personagens como João Batista, Pedro e os evangelistas. Para Herculano, entretanto, a grandiosidade dos nomes não resolvia o problema; permanecia faltando justamente aquilo que Kardec havia exigido: método, verificação e consenso independente.

É possível concordar ou discordar das conclusões particulares de Herculano. O procedimento adotado, porém, é reconhecível: não se pergunta primeiro quem assinou a mensagem, mas o que ela afirma e como essa afirmação pode ser sustentada.

4. Quando a autoridade do nome volta pela porta dos fundos

A atual Revue Spirite do CEI apresenta uma estrutura que, à primeira vista, parece preservar a pluralidade característica do projeto original. A edição de julho de 2023 possui seções denominadas “Espiritismo e Ciência”, “Espiritismo e Filosofia”, “Espiritismo e Religião”, “Revisitando a Revista”, “Plano Histórico” e “Espiritismo e Sociedade”.

Mas há também uma seção particularmente significativa: “Palestras Familiares de Além-túmulo Hoje”. Entre os colaboradores listados no próprio sumário aparece inclusive “Espírito Carlos”.

Nada disso seria, por si só, contrário ao trabalho de Kardec.

A revista original publicou incontáveis comunicações mediúnicas. Publicar uma mensagem não é o problema. O problema aparece quando se perde a fronteira entre publicar uma comunicação como documento para exame e utilizá-la como fonte autorizada de conhecimento.

Essa diferença parece pequena, mas altera tudo.

Na ciência espírita praticada por Kardec, receber uma mensagem constituía o início da investigação. No modelo religioso que se consolidou posteriormente em parte considerável do movimento brasileiro, frequentemente parece ocorrer o inverso: a comunicação atribuída ao Espírito prestigiado encerra a discussão.

“Bezerra disse.”

“Emmanuel explicou.”

“Ismael determinou.”

A fórmula já contém sua própria validação. O argumento deixa de estar no conteúdo e passa para a identidade atribuída ao comunicante.

É precisamente o tipo de autoridade que o método de Kardec procurava neutralizar.

5. Ismael não pertence apenas ao passado da FEB

Poder-se-ia argumentar que a tradição de Ismael, de Roustaing e da missão espiritual brasileira pertence a uma fase antiga da Federação Espírita Brasileira e que não seria correto projetá-la automaticamente sobre o Conselho Espírita Internacional.

Há, entretanto, documentação contemporânea que impede uma separação tão simples.

Em novembro de 2019, durante o encerramento de uma reunião do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira, Divaldo Pereira Franco transmitiu psicofonicamente uma mensagem atribuída ao Espírito Bezerra de Menezes. O texto foi posteriormente publicado no site oficial do Conselho Espírita Internacional.

A mensagem afirma que o Brasil permanece chamado a desempenhar uma missão que teria sido confiada a Ismael pelo próprio Jesus. O site do CEI ainda acrescenta que o texto teria sido “revisado pelo autor espiritual”.

Essa pequena observação editorial merece muito mais atenção do que normalmente recebe.

Dizer que uma mensagem foi revisada pelo “autor espiritual” pressupõe que se reconheceu novamente a identidade do comunicante. Como se chegou a essa conclusão? Houve comunicação através do mesmo médium? De outro? Que elementos permitiram excluir uma interferência diferente? Como se determinou que o revisor era precisamente o mesmo Espírito que teria produzido a mensagem anterior?

Não é necessário negar a possibilidade da comunicação para perceber o problema. Pelo contrário: é justamente admitindo seriamente a mediunidade que essas perguntas se tornam necessárias.

Kardec dedicou páginas inteiras de O Livro dos Médiuns ao problema da identidade dos Espíritos. A comunicação mediúnica não se transforma em conhecimento apenas porque o médium ou os participantes de uma reunião reconheceram determinado estilo ou aceitaram uma assinatura.

Quando um órgão que reivindica a continuidade da Revue Spirite publica como fato que determinado texto foi “revisado pelo autor espiritual”, mas não apresenta ao leitor os elementos pelos quais essa identidade foi estabelecida, abandona justamente a prudência metodológica que caracterizava Kardec.

6. A missão do Brasil e a criação de uma história sagrada

A comunicação de 2019 é ainda mais significativa por aquilo que afirma sobre Ismael.

Segundo essa tradição, o Brasil possuiria uma missão espiritual particular, confiada por Jesus a esse Espírito. Trata-se do mesmo universo narrativo difundido por Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, obra psicografada por Francisco Cândido Xavier e atribuída a Humberto de Campos.

O problema histórico dessa narrativa já foi discutido inúmeras vezes. Entre seus elementos mais controversos encontra-se a tentativa de inserir Roustaing numa espécie de planejamento espiritual da formação do Espiritismo, apresentando-o como alguém encarregado de colaborar com Kardec.

Essa versão chegou ao material de estudo da FEB. Em edição do ESDE citada em artigo do O Legado de Allan Kardec, Roustaing aparecia ao lado de Léon Denis, Gabriel Delanne e Camille Flammarion como um dos personagens destinados a auxiliar o desenvolvimento da obra. Em revisão posterior do material, seu nome foi retirado da passagem reproduzida.

O fato é relevante porque o próprio Kardec não conferiu às ideias novas de Roustaing o estatuto que essa narrativa posterior lhe atribuiu.

Herculano Pires registra ainda outro elemento histórico importante: o Pacto Áureo produziu, segundo sua interpretação, uma “cortina de silêncio” sobre o problema roustainguista, até que a própria FEB voltou a promover Os Quatro Evangelhos no início da década de 1970.

Wilson Garcia retomou posteriormente parte dessa história em Ponto Final – O reencontro do Espiritismo com Allan Kardec. Na apresentação da obra, Paulo Henrique de Figueiredo recorda o trabalho de autores que enfrentaram o roustainguismo no século XX e reproduz a crítica severa de Herculano ao “Cristo agênere”, entendido por ele como uma regressão mitológica.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se alguém “gosta” ou “não gosta” de Roustaing.

Existe uma divergência de método.

Kardec encontra uma obra mediúnica que pretende trazer novas revelações e suspende o reconhecimento doutrinário de suas novidades.

A tradição febiana posterior coloca seu autor dentro de uma narrativa providencial.

São operações intelectuais muito diferentes.

7. O problema do corpo fluídico de Jesus

Entre as teses mais conhecidas de Roustaing está a concepção do chamado corpo fluídico de Jesus.

O Verbo e a Carne, de Herculano Pires e Júlio Abreu Filho, dedica parte considerável de sua análise exatamente a essa questão. O próprio sumário da obra reserva capítulos ao “corpo fluídico de Jesus”, às “repetições e retrocesso”, à reencarnação, à metempsicose e aos erros doutrinários atribuídos ao sistema roustainguista.

A tese possui evidente parentesco conceitual com formas antigas de docetismo cristão, nas quais a realidade carnal de Jesus era enfraquecida em favor de uma corporeidade aparente. Isso ajuda a compreender por que críticos do roustainguismo recorreram também às epístolas joaninas, especialmente 1 João 4:1-3 e 2 João 1:7, que insistem na vinda de Jesus “em carne”.

Não é necessário dizer que aqueles textos bíblicos foram escritos “contra Roustaing”, o que seria historicamente absurdo. O ponto é outro: uma doutrina apresentada no século XIX como desenvolvimento espiritual superior termina reproduzindo um problema cristológico antiquíssimo.

Para Herculano, essa não era uma questão secundária. Em sua análise, a concepção agênere comprometia a coerência do sistema e reintroduzia elementos mitológicos justamente onde o Espiritismo se propunha a buscar explicações naturais.

8. A institucionalização de uma revelação particular

Há ainda uma característica da narrativa de Ismael que merece atenção especial.

O artigo “O falso ‘Allan Kardec’, a FEB e a unificação sob Ismael” examina uma comunicação atribuída ao próprio Kardec, produzida no ambiente do Grupo Sayão. Nela aparecem ideias como “revelação da revelação”, missão especial do Brasil, direção de Ismael e necessidade de convergência do movimento sob determinado núcleo.

Independentemente da conclusão que se tire acerca da identidade do comunicante, existe um problema objetivo: tais ideias favorecem diretamente um modelo de centralização espiritual e institucional.

Kardec, ao contrário, não propôs uma Igreja Espírita centralizada. Sua preocupação com unidade dizia respeito sobretudo aos princípios e ao método. Ele chegou a considerar preferível a existência de muitos grupos relativamente pequenos a uma única organização que concentrasse autoridade sobre os demais.

Essa diferença ajuda a explicar por que a questão de Ismael não pode ser tratada como simples detalhe folclórico do Espiritismo brasileiro.

Ao dizer que determinado Espírito dirige uma missão nacional, que uma instituição participa dessa missão e que comunicações produzidas dentro desse mesmo ambiente confirmam a autoridade espiritual que o sustenta, cria-se um sistema de validação circular.

A comunicação legitima a instituição.

A instituição publica a comunicação.

A repetição histórica transforma a comunicação em tradição.

A tradição passa a ser citada como confirmação.

É exatamente nesse ponto que o controle independente concebido por Kardec perde sua função.

9. Uma comunicação mediúnica pode ser importante sem ser verdadeira

Esse talvez seja um dos aspectos mais esquecidos do método espírita.

Uma comunicação não precisa ser verdadeira para ser digna de estudo.

Ela pode revelar a opinião do Espírito que a produziu. Pode mostrar os limites intelectuais do médium. Pode trazer elementos corretos misturados a concepções falsas. Pode refletir o ambiente cultural em que surgiu. Pode até constituir material psicologicamente interessante sem possuir qualquer autoridade doutrinária.

Kardec sabia disso.

Por essa razão, a Revue Spirite não deve ser confundida com uma coleção de pronunciamentos oficiais do mundo espiritual. Ela era, entre outras coisas, um arquivo de materiais submetidos à investigação.

Essa distinção é indispensável para ler a própria produção mediúnica.

Uma mensagem atribuída a Bezerra de Menezes pode ser estudada.

Uma mensagem atribuída a Allan Kardec pode ser estudada.

Uma mensagem atribuída a Humberto de Campos pode ser estudada.

Mas nenhuma delas adquire imunidade crítica porque carrega um desses nomes.

Aliás, quanto maior a autoridade atribuída ao nome, maior deveria ser a vigilância, porque maior será também a capacidade da mensagem de influenciar milhares de pessoas.

10. A Revue Spirite contemporânea e o deslocamento do problema

A edição de julho de 2023 da revista do CEI declara que trabalha com abordagens que privilegiam as vertentes “científica, filosófica e religiosa da Doutrina Espírita”. Entre suas referências aparecem não apenas Kardec, mas também obras psicográficas posteriores, inclusive de Francisco Cândido Xavier e Emmanuel.

Nada impede que esses autores sejam estudados.

O problema aparece quando as diferenças de estatuto entre as fontes deixam de ser explicitadas.

Uma resposta de O Livro dos Espíritos, uma teoria construída por Kardec após comparação de observações, uma comunicação isolada do século XIX e uma psicografia brasileira do século XX não ocupam automaticamente o mesmo nível de evidência.

Misturá-las numa mesma cultura doutrinária sem esclarecer como cada afirmação foi estabelecida produz uma falsa impressão de continuidade.

É assim que conceitos desconhecidos da investigação original de Kardec podem, depois de décadas de repetição editorial e institucional, adquirir aparência de elementos constitutivos do Espiritismo.

Não é necessário que alguém declare formalmente: “isto agora é dogma”.

A tradição faz esse trabalho silenciosamente.

11. Progresso não significa acumulação de revelações

Existe uma objeção previsível: Kardec afirmou que o Espiritismo deveria acompanhar o progresso.

Isso é verdade.

Em A Gênese, ele escreveu que, caso novas descobertas demonstrassem erro em algum ponto, o Espiritismo deveria modificar-se; diante de uma nova verdade demonstrada, deveria aceitá-la.

Essa abertura não transforma, porém, qualquer novidade mediúnica em progresso.

Há uma diferença profunda entre progresso do conhecimento e acumulação de literatura espiritualista.

Wilson Garcia recorda essa dimensão progressiva no prólogo de Ponto Final: fidelidade aos princípios de Kardec não deveria significar imobilismo, mas capacidade de revisão diante de descobertas efetivamente estabelecidas.

A palavra decisiva aqui é demonstração.

Se amanhã determinado princípio presente nas obras de Kardec for efetivamente refutado por fatos melhor estabelecidos, deverá ser revisto.

Mas o contrário também é verdadeiro: uma ideia surgida depois de 1869 não se torna superior simplesmente porque é posterior.

Psicografia não é sinônimo de progresso.

Novidade não é sinônimo de descoberta.

Repetição não é comprovação.

Tradição não é controle universal.

12. O problema não está na mediunidade, mas na ausência de exame

É importante insistir nesse ponto porque a crítica pode ser facilmente deturpada.

Não se está propondo eliminar comunicações mediúnicas das publicações espíritas. Isso seria completamente estranho ao trabalho de Kardec.

Também não se pretende reduzir o Espiritismo a uma filosofia abstrata, afastada dos fenômenos que lhe deram origem.

O problema é justamente o inverso.

Levar a mediunidade a sério exige examiná-la.

Uma mensagem mediúnica não deveria receber menos rigor porque trata de assuntos espirituais. Deveria receber mais, porque sua fonte não pode ser diretamente interrogada pelos mesmos procedimentos utilizados para verificar um documento ordinário.

A identidade do comunicante precisa ser examinada.

O conteúdo precisa ser confrontado.

As contradições precisam ser expostas.

As condições de produção precisam ser registradas.

Novos princípios precisam encontrar confirmações independentes.

E deve permanecer sempre aberta a possibilidade de erro.

Sem isso, a mediunidade deixa de integrar uma investigação e retorna ao velho modelo da revelação religiosa: alguém fala em nome do invisível e os demais recebem.

Foi justamente desse mecanismo que Kardec procurou afastar o Espiritismo.

13. O nome Revue Spirite não transmite o método por herança

A atual publicação do Conselho Espírita Internacional possui juridicamente sua marca, sua direção editorial e sua própria linha de trabalho. Isso não está em discussão.

A questão levantada aqui é intelectual.

Na edição de 2023, o próprio expediente proclama a ligação histórica:

Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques – Fondée par Allan Kardec le 1er janvier 1858.

Ao lado dessa identificação aparece: “Propriedade do Conselho Espírita Internacional (CEI)”.

A proximidade gráfica entre as duas afirmações torna inevitável a associação histórica.

Mas uma tradição científica ou filosófica não é transmitida pela propriedade de um título.

O que permitia a Kardec publicar uma comunicação atribuída a um Espírito e, logo depois, questioná-la era exatamente sua recusa em converter o nome espiritual em argumento de autoridade.

O que lhe permitiu examinar Roustaing sem aceitar automaticamente sua chamada “revelação da revelação” foi o mesmo princípio.

O que o autorizava a admitir a possibilidade de corrigir o próprio Espiritismo diante de novos fatos era, outra vez, o mesmo compromisso.

A unidade está no método.

Sem ele, conserva-se apenas a embalagem.

14. Uma revista pode chamar-se Revue Spirite e já não fazer aquilo que Kardec fazia

É por essa razão que considero a utilização contemporânea do título uma afronta ao trabalho de Kardec.

Não porque toda a revista seja destituída de valor. Ela contém artigos, estudos históricos e reflexões que podem perfeitamente merecer leitura e discussão. Fazer uma crítica metodológica séria exige inclusive evitar a caricatura de que absolutamente tudo o que o CEI publica seria falso.

A questão é mais profunda.

Uma publicação que reivindica tão diretamente a herança da revista fundada por Kardec deveria ser especialmente cuidadosa ao separar documentação mediúnica de conhecimento estabelecido, tradição institucional de história demonstrada e autoridade espiritual alegada de comprovação.

Isso se torna ainda mais necessário quando o próprio CEI continua divulgando uma mensagem em que Bezerra de Menezes, por intermédio de Divaldo Franco, reafirma em pleno século XXI a missão do Brasil confiada a Ismael — uma narrativa profundamente ligada à tradição religiosa construída em torno da FEB.

Não se resolve esse problema dizendo que a mensagem é bonita, consoladora ou atribuída a um Espírito respeitado.

Kardec ensinou justamente a não proceder assim.

O exame começa onde termina a reverência ao nome.

15. Retomar Kardec não significa congelar o Espiritismo em 1869

A saída também não está em transformar Kardec em outra autoridade infalível.

Seria contraditório combater o dogmatismo dos sucessores criando um dogmatismo em torno do fundador.

O valor do trabalho de Kardec está, em grande medida, no procedimento que tornou possível inclusive ultrapassar suas próprias conclusões quando os fatos exigissem.

Uma ciência que não possa corrigir seus resultados não é ciência.

Mas uma doutrina em que cada nova psicografia possa acrescentar cosmologias, missões nacionais, autoridades espirituais, revelações complementares e interpretações particulares sem apresentar demonstração também deixou de funcionar como ciência.

Entre o imobilismo e a credulidade existe o caminho que Kardec tentou percorrer: observação, comparação, crítica, prudência e revisão.

Foi isso que permitiu à antiga Revue Spirite servir de laboratório para o Espiritismo.

Conclusão

O problema da atual Revue Spirite não está no papel, no logotipo nem no direito de utilizar determinado título. Tampouco está simplesmente na existência de textos religiosos ou de comunicações mediúnicas em suas páginas.

Está no significado atribuído a esse nome.

A Revue Spirite de Allan Kardec participou da construção de uma ciência de observação. As comunicações eram matéria-prima, não escrituras sagradas. Os Espíritos eram interlocutores, não autoridades infalíveis. Seus nomes não dispensavam exame. Uma revelação particular não se convertia automaticamente em doutrina.

Foi esse procedimento que permitiu a Kardec manter reservas diante das novidades de Roustaing.

Foi a ausência desse mesmo cuidado que possibilitou, no Brasil, a consolidação de uma tradição na qual Roustaing pôde ser apresentado como colaborador providencial de Kardec e Ismael transformado em dirigente espiritual de uma missão nacional.

Décadas depois, o problema não desapareceu. O CEI ainda conserva e divulga uma mensagem na qual essa missão de Ismael é reafirmada; a própria Revue Spirite contemporânea publica comunicações espirituais e incorpora referências provenientes da tradição mediúnica brasileira.

Nada disso precisa ser proibido ou silenciado.

Precisa ser examinado.

Se uma comunicação atribuída a Bezerra de Menezes diz que Jesus confiou uma missão brasileira a Ismael, o problema espírita não termina quando se identifica o médium que a recebeu. É justamente ali que começa.

Por quais meios isso foi estabelecido?

Que controles independentes o confirmam?

Como se determinou a identidade do comunicante?

Que elementos permitem separar uma realidade espiritual de uma tradição cultural formada durante mais de um século?

A Revue Spirite de Kardec existia para perguntas dessa natureza.

Uma publicação que conserve seu nome, mas deixe essas perguntas em segundo plano enquanto reproduz as respostas fornecidas pela tradição, pode preservar a continuidade editorial. Não preserva, por isso, a continuidade epistemológica.

E é nesse sentido que a atual Revue Spirite, do Conselho Espírita Internacional, constitui uma afronta ao trabalho de Allan Kardec: não por falar dos Espíritos, mas por utilizar o nome da revista que ajudou a instituir seu exame crítico sem demonstrar, com o mesmo rigor, que esse exame continua sendo aplicado.


Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Introdução, item II — Autoridade da Doutrina Espírita e Controle Universal do Ensino dos Espíritos.

KARDEC, Allan. “Os Evangelhos explicados pelo Sr. Roustaing”. Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques, junho de 1866. Nesse exame, Kardec distingue os princípios já confirmados das novas proposições da obra de Roustaing, que deveriam permanecer como opiniões dos Espíritos enquanto não recebessem confirmação suficiente.

KARDEC, Allan. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. 1ª edição francesa, 1868, cap. I, item 55. Sobre o caráter progressivo do Espiritismo e sua obrigação de modificar-se diante de novas descobertas demonstradas.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Especialmente os capítulos relativos à identidade dos Espíritos, mistificações, contradições e meios de reconhecer a qualidade das comunicações.

PIRES, J. Herculano; ABREU FILHO, Júlio. O Verbo e a Carne: duas análises do roustainguismo. São Paulo: Paidéia, edição digital de 2020. A obra analisa as teses de Roustaing, o problema do corpo fluídico de Jesus, a implantação do roustainguismo no Brasil e sua relação histórica com a Federação Espírita Brasileira.

GARCIA, Wilson. Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec. Capivari: Editora EME, 2020. A obra recupera documentação e controvérsias históricas relacionadas a Roustaing, ao Grupo Sayão e ao desenvolvimento do roustainguismo brasileiro.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. Revue Spirite – Journal d’Études Psychologiques. Ano 166, nº 12, julho de 2023. Publicação de propriedade do CEI, editada pela Federação Espírita Portuguesa.

CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL. “Mensagem 10 de novembro de 2019”. Comunicação atribuída ao Espírito Bezerra de Menezes, transmitida psicofonicamente por Divaldo Pereira Franco durante reunião do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira. O texto divulgado pelo CEI reafirma a missão brasileira associada a Ismael.

DEGERING R JR., Paulo. “A FEB e sua contínua tentativa de manipular o Movimento Espírita”. Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, 2 maio 2025. O artigo documenta, entre outros pontos, alteração de trecho do material do ESDE no qual figurava anteriormente o nome de Roustaing.

DEGERING R JR., Paulo. “Roustaing, Ismael e ‘Brasil, Coração do Mundo’”. Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. O artigo reúne elementos da controvérsia histórica acerca da presença de Roustaing na narrativa atribuída ao Espírito Humberto de Campos.

DEGERING R JR., Paulo. “O falso ‘Allan Kardec’, a FEB e a unificação sob Ismael”. Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. Estudo crítico de comunicação atribuída a Allan Kardec no ambiente do Grupo Sayão, com destaque para “revelação da revelação”, Ismael e centralização institucional.

DEGERING R JR., Paulo. “As Sombras de Ismael no Movimento Febiano-Espírita”. Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. Análise da formação e permanência da tradição de Ismael no movimento federativo brasileiro.




Carma e dívidas espirituais: um confronto entre Joanna de Ângelis e a moral espírita de Allan Kardec

Expressões como “carma”, “dívida espiritual”, “resgate”, “Lei de Causa e Efeito” e “compensação” tornaram-se tão comuns no movimento espírita brasileiro que muitas pessoas passaram a considerá-las componentes naturais da Doutrina Espírita. Repetidas durante décadas em palestras, estudos e obras mediúnicas, essas ideias acabaram adquirindo aparência de princípios doutrinários.

Mas repetição não é demonstração.

Quando algumas afirmações presentes nas obras atribuídas ao Espírito Joanna de Ângelis, psicografadas por Divaldo Pereira Franco, são confrontadas com a teoria da justiça divina estabelecida por Allan Kardec — sobretudo na primeira edição de O Céu e o Inferno, de 1865 — aparecem diferenças que não podem ser reduzidas a mera escolha de palavras.

Kardec admite consequências morais das faltas, expiação, reparação e relações entre diferentes existências. Portanto, seria incorreto afirmar simplesmente que toda referência a uma “dívida” ou a consequências de atos anteriores seja estranha ao Espiritismo.

A divergência começa quando essa responsabilidade moral é transformada numa espécie de contabilidade espiritual, na qual atos produzem débitos, determinados sofrimentos aparecem como instrumentos de compensação e boas ações funcionariam quase como créditos destinados a neutralizar um passivo acumulado.

É necessário distinguir essas duas concepções.

O carma apresentado em O Ser Consciente

Em O Ser Consciente, a ideia de carma não aparece apenas como uma palavra emprestada de outra tradição religiosa. O livro descreve um mecanismo:

“Esses quadros das ações morais geram as reações correspondentes, como leis de causa e efeito, propelindo a resgates idênticos aos danos e prejuízos produzidos.”

(Joanna de Ângelis, O Ser Consciente, p. 48).

Logo em seguida, esses efeitos são identificados expressamente como carma:

“Conhecidos esses efeitos como carma, também esse pode ser positivo e edificante conforme as realizações anteriores, que propiciem felicidade e paz.”

(Joanna de Ângelis, O Ser Consciente, p. 48).

A construção avança para uma espécie de mecanismo de compensação:

“As realizações morais geram energias positivas que anulam aquelas negativas, que propiciam o sofrimento de qualquer natureza.”

(Joanna de Ângelis, O Ser Consciente, p. 48).

Não se trata, portanto, apenas de utilizar “carma” como sinônimo informal de responsabilidade. Há uma estrutura definida: ações gerariam reações correspondentes, haveria “resgates idênticos”, carmas positivos e negativos e até “energias positivas” capazes de anular “energias negativas”.

No mesmo trecho, o chamado “carma negativo” é relacionado não apenas a problemas de saúde, mas também a culpa, timidez, medo, ansiedade, insegurança, baixa autoestima e diferentes complexos psicológicos.

A questão, portanto, não é se a expressão “carma” soa agradável ou desagradável. A questão científica é outra: esse mecanismo foi estabelecido por Kardec como princípio da Doutrina Espírita?

“Dívida moral” e “cobradores espirituais” em Triunfo Pessoal

Em Triunfo Pessoal, a palavra carma nem sequer é necessária para que uma estrutura semelhante apareça.

Ao tratar do transtorno obsessivo-compulsivo, a obra relaciona determinados desencadeadores psicológicos a atos de existências anteriores e à influência de antigas vítimas transformadas em perseguidores espirituais:

“Porque permanece impressa nos painéis do inconsciente pessoal, nos refolhos do períspirito, a dívida moral, os pacientes assimilam as ondas mentais das suas antigas vítimas […]”

(Joanna de Ângelis, Triunfo Pessoal, p. 87).

O texto associa essa situação a comportamentos como lavagem excessiva das mãos, sensação permanente de sujeira e até percepção de odores pútridos, atribuídos também à atuação daqueles que denomina “cobradores espirituais”.

Na página seguinte, prossegue:

“esses endividados espirituais reencarnam com os fatores neurológicos e orgânicos em geral impressos no corpo perispiritual […] de forma a experimentarem a recuperação moral através do processo depurador a que ora fazem jus.”

(Joanna de Ângelis, Triunfo Pessoal, p. 88).

Aqui o conceito ultrapassa bastante a simples afirmação de que o Espírito conserva consequências morais de sua história.

Temos uma sequência relativamente concreta:

ato anterior → dívida moral → registro no perispírito → repercussão neurológica ou orgânica → sofrimento psicológico → influência das antigas vítimas → processo depurador.

A dívida deixa de funcionar apenas como metáfora de responsabilidade. Ela passa a participar de uma teoria causal sobre doença, transtorno psicológico e sofrimento.

Em Conflitos Existenciais, boas ações “compensam dívidas”

A linguagem contábil torna-se particularmente clara em Conflitos Existenciais:

“a aplicação dos valiosos equipamentos do bem, em forma de ações meritórias, não somente é gratificante para a emoção, como é compensador de dívidas transatas, de agressões à vida em outras paragens do tempo e do espaço”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 48).

A construção merece atenção: existem “dívidas transatas” e ações meritórias presentes funcionariam como seu “compensador”.

Em outro capítulo, uma dificuldade afetiva é explicada por acontecimentos de outras existências, sendo uma das pessoas envolvidas chamada expressamente de:

“Espírito endividado”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 65).

A palavra “carma” também aparece no livro, mas aqui é necessário fazer uma distinção para não deformar o texto. Em determinada passagem, a obra critica indivíduos que se julgam “marcados por carmas dolorosos” e, por isso, permanecem na lamentação e na inatividade:

“Acreditam-se sem sorte, marcados por carmas dolorosos e, enquanto lamentam e mantêm a ociosidade, mais se enfermam e mais se desestruturam.”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 119).

Essa passagem, isoladamente, não constitui defesa do fatalismo cármico. O contexto censura precisamente a passividade diante da vida.

O problema mais relevante está em outros trechos, nos quais dívida, causa e efeito e sofrimento expiatório são apresentados positivamente como mecanismos explicativos.

Fobias explicadas por crimes de outras existências

O exemplo mais contundente encontra-se no capítulo dedicado às fobias.

Depois de apresentar explicações psicológicas e comportamentais, Conflitos Existenciais afirma que, aprofundando-se a investigação, seriam encontrados no Espírito fatores causais decorrentes de comprometimentos morais anteriores:

“encontrar-se-ão, no Espírito, os fatores causais, quando houve comprometimentos morais e emocionais, decorrentes de situações lamentáveis e ações deploráveis contra o próximo ou a sociedade, mediante atos criminosos ou odientos experienciados.”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 124).

Na página seguinte, a explicação torna-se ainda mais categórica:

“Por fenômeno natural, em face da Lei de Causa e Efeito, as ações hediondas praticadas sempre ressumam dos depósitos da memória inconsciente, graças ao períspirito, convidando o calceta à reparação.”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 125).

Logo depois, afirma-se que:

“de maneira inevitável, a mesma consciência estabelece o sofrimento”

e que:

“Essa expiação do erro é indispensável ao reequilíbrio da emoção.”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 125).

O texto chega a relacionar determinados medos infantis a essas experiências anteriores, descrevendo-os como:

“filhos do remorso dos erros cometidos.”

(Joanna de Ângelis, Conflitos Existenciais, p. 125).

Na página seguinte, até fatores atuais capazes de desencadear transtornos fóbicos são apresentados como decorrentes de “impositivos divinos”, pelos quais o infrator seria colocado em circunstâncias destinadas ao restabelecimento da ordem anteriormente perturbada.

Já não estamos simplesmente diante da afirmação de que o Espírito pode trazer tendências e consequências de experiências anteriores. Estamos diante de uma etiologia espiritual para determinados transtornos psicológicos, associando-os a crimes, remorsos e reparações de existências pretéritas.

O que Allan Kardec efetivamente estabelece sobre a justiça divina

Para saber se essas construções pertencem ao Espiritismo, não basta compará-las com outras obras mediúnicas posteriores. É necessário retornar à teoria estabelecida por Kardec.

Na primeira edição de O Céu e o Inferno, ele dedica o capítulo VIII da primeira parte às “Penas futuras segundo o Espiritismo”.

Seu ponto de partida já é metodologicamente decisivo: ninguém possui autoridade individual para elaborar aquilo que chama de “código penal divino”. Uma teoria sobre a justiça de Deus não se transforma em princípio espírita porque parece plausível, porque foi transmitida por determinado médium ou porque é atribuída a um Espírito considerado elevado. Kardec exige fatos, concordância e generalidade das observações.

Ao resumir as conclusões obtidas, estabelece:

“A alma ou espírito sujeita-se, na vida espiritual, às consequências de todas as imperfeições das quais ela não se despojou durante a vida corporal. Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou de suas imperfeições.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 1º, p. 132).

E prossegue:

“Toda imperfeição é uma causa de sofrimento, da mesma forma que toda qualidade adquirida é uma causa de satisfação e de atenuação dos sofrimentos.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 3º, p. 132).

Esse é um ponto fundamental da moral espírita.

O sofrimento moral está ligado ao estado do próprio Espírito, às imperfeições que ele ainda conserva.

Não aparece aqui a necessidade de um saldo de sofrimento equivalente ao dano praticado, muito menos um sistema de energias positivas e negativas que se anulam.

A punição é consequência natural, não cobrança de uma dívida

Kardec continua:

“A punição é sempre a consequência natural da falta cometida. O espírito sofre pelo próprio mal que fez […] e é motivado a corrigir-se.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 4º, p. 132).

É indispensável compreender corretamente o que significa “consequência natural”.

Isso não autoriza uma equivalência mecânica como:

fez alguém sofrer fisicamente → deverá sofrer fisicamente da mesma maneira;

causou medo → deverá desenvolver uma fobia;

cometeu determinada violência → deverá adquirir determinada enfermidade;

prejudicou alguém → aquela vítima retornará necessariamente como cobrador espiritual.

Se essa fosse a teoria de Kardec, os itens seguintes de seu próprio resumo seriam contraditórios.

Kardec rejeita regras absolutas de correspondência

Kardec estabelece:

“a mesma falta pode […] dar lugar a punições diferentes, segundo as circunstâncias atenuantes ou agravantes nas quais ela foi cometida.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 5º, p. 133).

E imediatamente acrescenta:

“Não há, em relação à natureza, a intensidade e a duração do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 6º, p. 133).

Esse princípio é incompatível com qualquer tentativa de transformar casos particulares em leis gerais.

Pode um Espírito escolher uma prova relacionada a erro anterior? Sim.

Pode haver relações difíceis decorrentes de acontecimentos de outras existências? Sim.

Pode existir reparação entre indivíduos que se prejudicaram anteriormente? Sim.

Mas dessas possibilidades não se pode deduzir uma mecânica universal segundo a qual determinados sofrimentos, enfermidades ou transtornos psicológicos seriam necessariamente manifestações de débitos específicos.

E a “conta rigorosa” de Kardec?

Há uma passagem que precisa ser considerada para que o confronto seja intelectualmente honesto.

No item 7º, Kardec realmente emprega uma expressão aparentemente contábil:

“Sendo a justiça de Deus infinita, é mantida uma conta rigorosa do bem e do mal”

e explica que nenhuma má ação, mau pensamento ou bom movimento da alma deixa de produzir suas consequências.

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 7º, p. 133).

Mas essa “conta” não significa uma quantidade de sofrimento que precisa ser paga.

O item seguinte elimina essa interpretação.

O sofrimento termina pelo aperfeiçoamento, não pela quitação de um saldo

Kardec ensina:

“A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele.”

E prossegue:

“O espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 8º, p. 133).

Esta passagem é decisiva.

Se existisse uma dívida cuja quitação exigisse determinada quantidade de sofrimento, o aperfeiçoamento moral não poderia abreviar livremente a punição.

Seria necessário terminar de pagar.

Mas Kardec ensina exatamente o contrário: a duração do sofrimento está subordinada ao aperfeiçoamento do Espírito.

Portanto, a estrutura não é:

falta → dívida → sofrimento equivalente → dívida quitada.

É:

imperfeição → sofrimento moral → conscientização → aperfeiçoamento → reparação → retorno ao bem.

Expiação não significa pagar uma dívida pela dor

Outro ponto central é o significado de expiação.

Uma interpretação religiosa tradicional entende expiar como pagar uma culpa mediante sofrimento. A dor assumiria, assim, uma espécie de função purificadora.

Em Kardec, porém, o centro do processo é o aperfeiçoamento consciente do Espírito.

Depois de mencionar arrependimento, expiação e reparação, ele resume o que Deus exige como:

“um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. VIII, item 8º, p. 133).

O núcleo da teoria está, portanto, na transformação moral.

Sofrer não é moeda espiritual.

Um Espírito pode sofrer durante muito tempo e permanecer moralmente estacionário. Outro pode reconhecer seu erro, arrepender-se, modificar-se profundamente e iniciar a reparação.

Não é a dor, por si mesma, que aperfeiçoa.

Reparar não significa sofrer o mesmo mal

Kardec não elimina a necessidade de reparação. Pelo contrário, ela é parte fundamental da moral espírita.

Mas reparar não significa necessariamente reproduzir sobre si o sofrimento causado a outro.

Quem prejudicou alguém financeiramente pode restituir, ajudar e transformar sua relação com os bens materiais.

Quem foi cruel pode desenvolver compaixão.

Quem explorou pode aprender a servir.

Quem agiu por egoísmo pode desenvolver abnegação.

A reparação verdadeira exige transformação e ação no bem.

A justiça divina não necessita organizar uma reprodução simétrica de cada erro para produzir uma pena equivalente.

E a “pena de talião” existente em O Céu e o Inferno?

Também seria incorreto ocultar um exemplo que, à primeira vista, poderia parecer favorável a uma interpretação de “ação e reação” literal.

Na segunda parte de O Céu e o Inferno, há um caso intitulado “A pena de talião”. O Espírito Antonio B. relata que, em existência anterior, emparedara viva sua esposa e que posteriormente experimentara uma morte semelhante:

“Foi a pena de talião, que a mim deveria ser aplicada. Olho por olho, dente por dente.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, segunda parte, cap. VIII, “A pena de talião”, p. 418).

Mas a continuação impede que esse exemplo seja convertido em princípio universal.

O próprio Espírito afirma que havia aceitado aquela morte antes de reencarnar, e a instrução que acompanha o caso esclarece que desfechos dessa natureza eram raros e que ele próprio solicitara aquela experiência.

Portanto, Kardec não estabelece uma regra:

emparedou alguém → será emparedado.

Apresenta um caso particular de uma prova específica.

Isso permanece perfeitamente coerente com o princípio doutrinário anteriormente estabelecido:

“Não há […] nenhuma regra absoluta e uniforme.”

Dívida como metáfora e dívida como mecanismo

Essa distinção resolve boa parte da questão.

Nada impede o emprego figurado da palavra “dívida”.

Se alguém prejudicou outra pessoa, pode-se dizer que possui uma “dívida moral” no sentido de que existe uma responsabilidade de reparar o dano.

O problema começa quando a metáfora ganha existência própria e passa a explicar o funcionamento da justiça divina.

Quando se afirma que o Espírito possui “dívidas transatas”, que boas ações as “compensam”, que a dívida fica impressa no perispírito, que o “endividado espiritual” traz repercussões orgânicas e neurológicas, que antigas vítimas tornam-se “cobradores”, que transtornos psicológicos decorrem de crimes anteriores, que a expiação dolorosa é “indispensável”, que existem “resgates idênticos” aos danos produzidos e que energias positivas anulam energias negativas, já não estamos diante de uma simples maneira de falar.

Estamos diante de uma teoria específica da justiça espiritual.

E uma teoria nova não se transforma em Espiritismo apenas porque foi publicada em uma obra mediúnica.

“Lei de Causa e Efeito” não pode ser confundida com determinismo moral

Que os atos produzam consequências é perfeitamente compatível com Kardec.

Mas disso não decorre uma lei mecânica de equivalência.

No mundo físico, determinadas causas produzem efeitos segundo as condições e leis da matéria. No mundo moral existe um elemento fundamental: a vontade livre do Espírito.

Kardec afirma que a alma sofre as consequências de suas más ações até que tenha:

“melhorado pelos esforços da sua própria vontade.”

(Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 1ª ed. de 1865, primeira parte, cap. IV, item 6º).

O Espírito não é uma partícula arrastada por uma equação cármica.

É um agente moral.

Ele pensa, escolhe, arrepende-se, aprende, modifica hábitos, desenvolve virtudes e repara seus erros.

Sua situação muda quando ele muda.

O risco de transformar doenças e transtornos em cobrança espiritual

A discussão não é apenas terminológica.

Há consequências práticas importantes.

Quando se afirma que determinados transtornos psicológicos podem decorrer de crimes cometidos em existências anteriores, abre-se espaço para uma perigosa moralização do sofrimento.

Uma pessoa com fobia pode passar a ser interpretada como alguém que praticou um crime.

Um paciente com transtorno obsessivo-compulsivo pode ser visto como “endividado” perante antigas vítimas.

Uma criança ansiosa ou medrosa pode ter sua condição explicada como manifestação de culpa por ações de outra existência.

Uma doença pode passar a ser interpretada como “processo depurador” de um devedor espiritual.

Essas afirmações não podem ser apresentadas como Ciência Espírita simplesmente porque constam de uma comunicação mediúnica.

Kardec foi explícito: princípios gerais não são estabelecidos pela opinião de um único Espírito ou por um ensino recebido isoladamente. As leis da doutrina decorrem da concordância de grande número de observações independentes.

Atribuir a determinada doença ou transtorno psicológico uma causa moral específica em outra existência exige demonstração.

A autoridade presumida do comunicante não substitui o método.

A diferença fundamental entre as duas concepções

A diferença pode ser resumida de maneira simples.

Na lógica cármica ou contábil:

pratiquei um mal → contraí uma dívida → essa dívida produz consequências correspondentes → preciso resgatá-la ou compensá-la.

Na moral apresentada por Kardec:

desenvolvi uma imperfeição e pratiquei o mal → sofro as consequências naturais dessa condição → reconheço meu erro → arrependo-me → trabalho pelo meu aperfeiçoamento → reparo o mal → retorno ao bem.

A primeira estrutura tende à equivalência.

A segunda está centrada na transformação.

A primeira pode transformar sofrimento em pagamento.

A segunda faz do aperfeiçoamento o elemento central.

A primeira pensa em saldo e compensação.

A segunda pensa em responsabilidade, liberdade e progresso moral.

A moral espírita não necessita de uma contabilidade cármica

Não é necessário importar a teoria do carma para explicar a justiça divina segundo o Espiritismo.

Também não é necessário imaginar um sistema invisível de créditos, débitos, energias positivas, energias negativas e compensações.

A teoria de Kardec possui coerência própria.

Toda ação possui consequências.

Toda imperfeição é causa de sofrimento moral.

Toda qualidade conquistada aproxima o Espírito da felicidade.

O mal precisa ser reconhecido e reparado.

Mas ninguém está condenado a cumprir uma quantidade previamente estabelecida de sofrimento.

Não existe uma pena uniforme.

Não existe uma tabela universal que vincule determinado crime a determinada enfermidade, determinado erro a determinada fobia ou determinada agressão a um sofrimento corporal específico.

O Espírito permanece livre.

Por isso Kardec consegue afirmar, ao mesmo tempo, a responsabilidade do indivíduo por seus atos e a possibilidade de abreviar o sofrimento por seu próprio aperfeiçoamento.

Esse ponto é decisivo.

O Espiritismo não ensina irresponsabilidade. Muito pelo contrário: responsabiliza profundamente o indivíduo, porque coloca nele próprio os meios de sua transformação.

Mas responsabilidade não significa condenação a uma dívida cósmica.

Reparação não significa necessariamente sofrer aquilo que se fez sofrer.

Expiação não transforma a dor em moeda.

Justiça divina não significa contabilidade espiritual.

Por isso, conceitos encontrados em obras mediúnicas posteriores — ainda que assinadas por Espíritos famosos e amplamente aceitas no movimento espírita — precisam ser submetidos ao mesmo exame crítico que Kardec exigia de qualquer comunicação.

A pergunta científica continua sendo simples:

essas ideias foram efetivamente demonstradas e integradas à Ciência Espírita por seu método, ou passaram a ser chamadas de “Espiritismo” apenas porque foram repetidas durante décadas?

Confundir uma coisa com a outra é abandonar justamente o método que permitiu a Kardec constituir a Doutrina Espírita.

Bibliografia

FRANCO, Divaldo Pereira. O Ser Consciente. Ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador, 1993. Edição digital consultada.

FRANCO, Divaldo Pereira. Triunfo Pessoal. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Série Psicológica Joanna de Ângelis, v. 12. 7. ed. Salvador: LEAL, 2013. 188 p. ISBN 978-85-61879-93-8.

FRANCO, Divaldo Pereira. Conflitos Existenciais. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Série Psicológica Joanna de Ângelis, v. 13. 6. ed. Salvador: LEAL, 2014. 240 p. ISBN 978-85-8266-057-7.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo. Texto original da primeira edição francesa de 1865. São Paulo: Fundação Espírita André Luiz — FEAL, 2021.




Não, o Espiritismo NÃO É uma religião!

O Espiritismo não foi apresentado por Allan Kardec como uma religião fundada em dogmas, ritos ou autoridade sacerdotal, mas como uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Seu ponto de partida está no estudo dos fatos, na comparação das manifestações e no raciocínio aplicado às leis que regem as relações entre o mundo corporal e o mundo espiritual.

Essa definição é essencial para compreender a própria estrutura da Doutrina Espírita. Em Kardec, a moral não surge como um conjunto de preceitos impostos à fé, mas como consequência racional do conhecimento das leis espirituais. A sobrevivência da alma, a reencarnação, a responsabilidade pelos próprios atos e o progresso do Espírito conduzem, por sua própria lógica, a determinadas consequências morais.

Partindo dessa perspectiva, este artigo examina três pontos fundamentais: o Espiritismo como ciência de observação e raciocínio, sua distinção em relação à religião no sentido tradicional e a moral como consequência direta da compreensão das leis espirituais.

Abaixo, os trechos e demonstrativos são apresentados organizados por eixos temáticos, com as devidas referências bibliográficas detalhadas.

1. O Espiritismo como Ciência de Observação e Raciocínio

Allan Kardec define a Ciência Espírita pelo uso do método experimental e indutivo: parte-se da observação rigorosa dos fatos para, remontando dos efeitos às causas, deduzir as leis naturais que os regem.

Definição Fundamental da Ciência Espírita

“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações. Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.”

Bibliografia: O que é o Espiritismo (1859), Capítulo I, “Primeiro Diálogo – O Crítico”; Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas (1864), Item 1; Revista Espírita (Abril de 1864), p. 115.

O Método Experimental Aplicado ao Princípio Espiritual

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege… Não foram os fatos que vieram a posteriori confirmar a teoria: a teoria é que veio subseqüentemente explicar e resumir os fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.”

Bibliografia: A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo (1ª ed. 1868 / Edição Autêntica FEAL), Capítulo I (“Natureza da Revelação Espírita”), Item 14; O Espiritismo na Sua Expressão Mais Simples (1868), Seção III (“Caráter da Revelação Espírita”), Item 14.

A Constituição da Ciência pela Dedução Lógica

“Toda ciência deve estar baseada sobre fatos; mas só os fatos não constituem a ciência; a ciência nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos: é o conjunto de leis que os regem.”

Bibliografia: Revista Espírita (Janeiro de 1858), “Introdução”.

Positivismo dos Fatos Naturais

“Não, o Espiritismo não é uma concepção individual, um produto da imaginação; não é uma teoria, um sistema inventado para a necessidade de uma causa; tem sua fonte nos fatos da própria Natureza, nos fatos positivos, que se produzem a cada instante sob nossos olhos… É, pois, um resultado da observação, uma ciência, em uma palavra: a ciência das relações do mundo visível e do mundo invisível…”

Bibliografia: Revista Espírita (Novembro de 1864), “O Espiritismo é uma Ciência Positiva” (Alocução de Kardec em Bruxelas e Anvers).

Ciência de Raciocínio

“O Espiritismo é, sem dúvida, uma ciência de observação, mas é mais ainda, talvez, uma ciência de raciocínio; o raciocínio é o único meio de fazê-lo avançar e triunfar de certas resistências.”

Bibliografia: Revista Espírita (Setembro de 1859), “A Tabaqueira” (Nota de Kardec).

2. A Demonstração de que o Espiritismo NÃO é uma Religião no Sentido Vulgar

Kardec esclareceu reiteradamente a distinção semântica entre o sentido filosófico da palavra religião (laço de fraternidade) e a sua acepção vulgar ou institucional (igreja, culto exterior, sacerdócio e dogmas), negando que o Espiritismo constitua uma religião no sentido tradicional.

A Ausência de Dogmas, Culto e Sacerdotes

“O Espiritismo é uma ciência ou, dizendo melhor, uma filosofia espiritualista que ensina a moral. Ela não é uma religião, naquilo que não tem nem dogmas, nem culto, nem sacerdotes, nem artigos de fé…”

Bibliografia: Revista Espírita (Fevereiro de 1866), “O Espiritismo toma lugar na filosofia e nos conhecimentos usuais”.

Recusa da Estrutura Clerical e das Práticas Exteriores

“Por que, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? – Porque só temos uma idéia para exprimir duas idéias diferentes e porque, na opinião geral, a palavra é inseparável de ‘culto’; revela exclusivamente uma idéia de práticas exteriores. E o Espiritismo não é isso. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público só veria nele uma nova edição, uma variante dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias…”

Bibliografia: Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas (1858), “Nota Especial sobre Religião”; Revista Espírita (Dezembro de 1868), “Discurso de Abertura da Sessão Anual em Memória dos Mortos”.

Afastamento do Formato de Seita ou Igreja

“Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião… O Espiritismo não é, pois, uma religião: de outro modo teria seu culto, seus templos, seus ministros. Cada um, sem dúvida, pode se fazer uma religião de suas opiniões… mas daí à constituição de uma nova Igreja, há distância… Em resumo, o Espiritismo se ocupa com a observação dos fatos, e não com as particularidades de tal ou tal crença…”

Bibliografia: O que é o Espiritismo (1859), Capítulo I, “Terceiro Diálogo – O Padre”; Revista Espírita (Março de 1859), “Resposta à Réplica do Senhor Abade Chesnel”.

Independência em Relação a Ritos e Templos

“A essa primeira questão: O Espiritismo é uma religião, os Espíritas dizem: Não, o Espiritismo não é uma religião, não pretende ser uma religião… Ele tem conseqüências morais, é verdade, no sentido do cristianismo, mas não tem nem culto, nem templos, nem ministros; cada um pode se fazer uma religião de suas opiniões, mas daí à constituição de uma nova Igreja, há distância…”

Bibliografia: Revista Espírita (Julho de 1862), “O Espiritismo é provado por milagres?”.

3. A Moral como Consequência Direta e Racional da Ciência Espírita

Na Codificação, a moral não é o ponto de partida dogmático, mas o corolário e a aplicação prática derivados do conhecimento científico das leis espirituais (imortalidade, perispírito, reencarnação e lei de causa e efeito).

A Moral como “Código das Consequências” da Lei Científica

“O Espiritismo repudia, nos limites do que lhe pertence, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das leis da Natureza; ele não faz milagres nem prodígios, antes explica, em virtude de uma dessas leis, certos efeitos… Ele amplia, igualmente, o domínio da Ciência, e é nisto que ele próprio se torna uma ciência; como, porém, a descoberta dessa nova lei traz conseqüências morais, o código das conseqüências faz dele, ao mesmo tempo, uma doutrina filosófica.”

Bibliografia: O que é o Espiritismo (1859), Capítulo I, “O Maravilhoso e o Sobrenatural”.

A Ciência como Vestíbulo e a Moral como Finalidade

“A Ciência Espírita teve como vestíbulo as manifestações físicas, mas sua finalidade é moral e suas pesquisas devem desenvolver-se nesse sentido. Provada a sobrevivência espiritual e a comunicabilidade, o Espiritismo deve aprofundar-se na investigação dos processos de comunicação, da situação dos Espíritos após a morte, das leis que regulam as relações permanentes entre os Espíritos e os homens…”

Bibliografia: O Livro dos Médiuns (1861), Prefácio (Análise teórica do método da Codificação).

A Hierarquia do Conhecimento: Do Fato à Prática Moral

“O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o dos princípios e da filosofia que delas decorrem e o da aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: 1° os que crêem nas manifestações e se limitam a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência experimental; 2° os que lhe percebem as conseqüências morais; 3° os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral.”

Bibliografia: O Livro dos Espíritos (1857 / 1860), “Conclusão”, Item VII.

Consequências Morais como Utilidade Real da Ciência

“As manifestações não são, pois, destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas conseqüências morais que delas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resultado senão fazer conhecer uma nova lei da Natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e sua imortalidade, e já isso seria muito, porque era largo caminho novo aberto à Filosofia.”

Bibliografia: O que é o Espiritismo (1859), Capítulo I, “Dos Médiuns”.

A Sanção das Leis Naturais sobre a Doutrina Moral

“O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que regem as relações entre os mortos e os vivos, princípios que completam as noções vagas que se tinham da alma, de seu passado e de seu futuro, dando por sanção à doutrina cristã as próprias leis da Natureza.”

Bibliografia: A Gênese (1ª ed. 1868), Capítulo I, Item 56; O Espiritismo na Sua Expressão Mais Simples (1868), Seção III, Item 56.

Quadro Resumo Bibliográfico das Obras Citadas

Obra de Allan Kardec Localização Exata Tema Demonstrado
O Livro dos Espíritos (1857/1860) Conclusão, Item VII. O aspecto científico experimental e a escala de compreensão moral.
O que é o Espiritismo (1859) Cap. I (Diálogos 1 e 3; O Maravilhoso; Dos Médiuns). Definição de ciência de observação, rejeição da forma religiosa e moral como consequência.
Instruções Práticas (1858) Nota Especial sobre Religião. Explicitação de por que o Espiritismo não é uma religião tradicional.
O Livro dos Médiuns (1861) Prefácio / Introdução. A Ciência Espírita como meio e a moral como finalidade.
Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas (1864) Item 1. Definição do Espiritismo como ciência de observação e filosofia moral.
A Gênese (1868 – 1ª Edição Autêntica) Cap. I, Itens 14, 16 e 56. O método experimental, a complementariedade entre Ciência e Espiritismo e as leis naturais.
Revista Espírita (1858–1868) Jan/1858, Mar/1859, Jul/1862, Nov/1864, Fev/1866, Dez/1868. Argumentação continuada sobre o método científico, a ausência de culto/sacerdotes e a moral racional.

Estes textos comprovam que Allan Kardec definiu o Espiritismo como um campo do conhecimento científico e filosófico, no qual a pesquisa experimental dos fatos revela as leis do mundo invisível, e cuja assimilação racional produz compulsoriamente a renovação moral e a prática da caridade.




Livro dos Espíritos II em confronto com Kardec

Uma análise metodológica e doutrinária à luz de Allan Kardec

A obra de Suzi Mariah se apresenta como continuação de O Livro dos Espíritos. O problema, porém, não está apenas no uso desse título. Ao reivindicar a condição de complemento da obra fundamental de Allan Kardec, o livro reivindica, por consequência, uma ligação com o corpo de conhecimentos que Kardec chamou de ciência espírita.

Esse ponto é decisivo. O Espiritismo, em Kardec, não é simplesmente um conjunto de crenças acerca da sobrevivência da alma, da reencarnação ou da mediunidade. Ele se constitui a partir do estudo dos fenômenos produzidos pelos Espíritos, da observação comparada, do exame crítico das comunicações e da tentativa de separar o fato constatado da hipótese, da opinião pessoal e da mistificação.

Por isso, uma proposição não se torna espírita simplesmente porque foi atribuída a um Espírito ou recebida por um médium. Também não se torna parte da ciência espírita porque parece plausível, consoladora ou revestida de linguagem espiritual. É necessário distinguir uma comunicação mediúnica, uma hipótese explicativa e um conhecimento que tenha resistido ao exame.

É justamente nessa distinção que Livro dos Espíritos II encontra sua maior dificuldade. O volume não apenas introduz ideias ausentes em Kardec: em diversos pontos modifica princípios centrais já integrados à estrutura doutrinária e, ao mesmo tempo, não apresenta o percurso de investigação capaz de justificar essas mudanças.

Nota editorial. Nas referências a A Gênese e O Céu e o Inferno, foram consideradas exclusivamente as primeiras edições francesas, publicadas em vida de Allan Kardec. Nenhuma redação póstuma desses dois títulos fundamenta esta análise.

A promessa de continuidade

O título Livro dos Espíritos II não é neutro. Ele coloca a obra sob a sombra direta do livro que inaugurou a codificação e convida o leitor a entendê-la como sequência. O próprio prefácio reforça essa expectativa ao afirmar que o novo volume jamais se contrapõe a Allan Kardec e que seu propósito seria de “agregação e complemento”.

“O trabalho deste livro foi feito através de uma única médium […] e por mais de 300 profissionais e atuantes de diversas áreas […] Jamais contrapondo as experiências, mas como forma de agregação e complemento.”

Livro dos Espíritos II, prefácio, p. 9

A questão, portanto, não é saber se o livro contém ideias espirituais, mensagens edificantes ou relatos interessantes. A pergunta correta é outra: suas proposições podem ser apresentadas como continuidade de um conhecimento obtido por método investigativo?

Há convergências morais no volume, como a defesa da caridade, da responsabilidade e da sobrevivência da alma. Elas devem ser reconhecidas. Mas afinidade moral geral não elimina divergências sobre a natureza do Espírito, o mecanismo do progresso, a vida depois da morte, a classificação dos fenômenos e o exercício da mediunidade.

Antes da doutrina, existe um problema de método

Há uma tendência recorrente no movimento espírita de reduzir qualquer controvérsia à pergunta “Kardec disse isso ou não disse?”. Esse critério é insuficiente. A ciência espírita não pode ser reduzida a um catálogo de frases de Allan Kardec.

Kardec não pretendeu estabelecer sua autoridade pessoal como critério de verdade. Procurou estabelecer um método de investigação de uma ordem de fenômenos. Por isso, uma descoberta posterior pode ampliar, corrigir ou até modificar uma conclusão anterior. Se fatos novos, bem constatados, exigirem revisão, rejeitá-los apenas porque Kardec não os conheceu seria contrário ao próprio espírito de investigação.

Mas a consequência inversa é igualmente importante: não basta que alguma coisa seja nova para constituir progresso científico. Uma comunicação mediúnica não adquire autoridade simplesmente por sua origem alegadamente espiritual. A mediunidade fornece o fenômeno e o material de investigação; não fornece automaticamente a verdade.

Kardec verificou que os Espíritos apresentam graus diferentes de conhecimento e moralidade, podem enganar-se, reproduzir opiniões pessoais, contradizer-se e até procurar mistificar. A existência do fenômeno mediúnico, portanto, não resolve a questão da confiabilidade de seu conteúdo. Ao contrário: cria a necessidade de controles.

Daí a importância da comparação, da repetição, da independência das fontes, do exame racional, da coerência e da confrontação com fatos conhecidos. A ciência espírita nasce precisamente da passagem do fenômeno bruto para a análise crítica do fenômeno.

Nesse contexto, a menção a “mais de 300 profissionais e atuantes de diversas áreas” poderia ser o início de uma investigação, mas não é uma demonstração. Para que esse número possuísse valor metodológico seria necessário saber como o trabalho foi realizado: se as mesmas questões foram submetidas independentemente a médiuns diferentes; como foram registradas respostas divergentes; que procedimentos limitaram influência recíproca; quais critérios permitiram aceitar ou rejeitar comunicações; e que documentos possibilitariam a terceiros examinar o processo.

Ademais, que profissionais são esses? Apômetras? Terapeutas quânticos? Regressores de vidas passadas? Ufólogos? Suspeito que sim.

O livro não fornece essas informações de maneira suficiente. O problema, portanto, não é quantitativo, mas metodológico. Trezentas pessoas não equivalem a trezentas confirmações independentes; e trezentas opiniões não constituem, por si, experiência científica.

A reencarnação deixa de ser lei

“A reencarnação é uma regra? Uma regra obrigatória, não. É uma possibilidade entre as ferramentas existentes para a evolução.”

Livro dos Espíritos II, questão 449, p. 184

Aqui não há simples mudança de vocabulário. Em O Livro dos Espíritos, a encarnação é apresentada como condição necessária ao desenvolvimento dos Espíritos. A questão 132 afirma que Deus lhes impõe a encarnação com a finalidade de fazê-los chegar à perfeição. As questões 166 a 170 integram as existências sucessivas ao mecanismo regular do progresso. A questão 330 relaciona a reencarnação à necessidade da vida espírita, e a questão 333 exclui a permanência indefinida do Espírito em estado estacionário.

A questão científica, porém, vai além da oposição entre duas frases. Se a reencarnação é apenas uma ferramenta opcional, seria necessário apresentar fatos que demonstrem outro mecanismo regular pelo qual Espíritos atinjam a perfeição sem passar pelas existências corporais necessárias ao seu desenvolvimento.

Quais observações mostram isso? Em que condições ocorre? Como esse modelo explica as desigualdades intelectuais e morais? Como se articula com reparação, aprendizado e responsabilidade? O novo livro não oferece uma série de observações capaz de responder a essas perguntas. Ele substitui a explicação anterior, mas não apresenta o conjunto de fatos necessário para justificar essa substituição.

A metempsicose é admitida

“Sendo ela a possibilidade de reencarnar em outra espécie, sim, ela é possível.”

Livro dos Espíritos II, questão 456, p. 186

“Isso quer dizer que ela existe? Sim, exatamente.”

Livro dos Espíritos II, questão 458, p. 186

A resposta de Kardec à mesma tese é frontal. Na questão 612 de O Livro dos Espíritos, pergunta-se se o Espírito que animou um homem poderia encarnar num animal. A resposta é negativa: isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. A questão 611 já havia distinguido a metempsicose da doutrina das existências sucessivas.

Uma ciência, entretanto, não está obrigada a conservar eternamente uma conclusão. Se fossem observados fatos inequívocos demonstrando que Espíritos humanos efetivamente retornam a organismos animais, a questão deveria ser reaberta. O ponto é precisamente esse: Livro dos Espíritos II não apresenta tais fatos. Responde simplesmente que a metempsicose existe.

Isso converte aquilo que deveria ser objeto de investigação em conclusão antecipada. A questão 530 amplia o problema ao afirmar que animais podem reencarnar como humanos. Em Kardec, a passagem do princípio inteligente até a humanidade é tratada como elaboração e transformação, não como reencarnação comum de um animal individualizado em pessoa humana.

A individualidade espiritual pode desaparecer

“O espírito pode escolher que seu campo se dissolva como identidade, deixando de existir como “um” […] É como uma gota que volta ao mar.”

Livro dos Espíritos II, questão 462, p. 187

“O espírito deixa de ser uma unidade consciente e retorna ao Todo […] permanece integrado à Consciência Universal, mas sem a individualidade.”

Livro dos Espíritos II, questão 464, p. 188

Esse é um dos contrastes mais profundos. Na questão 83 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se os Espíritos têm fim. A resposta afirma que sua existência não termina. A questão 149 acrescenta que a alma conserva a individualidade depois da morte.

A ideia de que os seres humanos seriam “partículas” ou “pedaços” destacados de Deus e de que, ao final do processo evolutivo ou após a morte, “retornariam a Deus” dissolvendo-se na Divindade é uma concepção filosófica antiga (associada ao Panteísmo e ao Absorcionismo) que foi profunda e expressamente refutada por Allan Kardec na Codificação Espírita:

Que nos importa ter uma alma, se, extinguindo-se-nos a vida, ela desaparece na imensidade, como as gotas d’água no Oceano? A perda da nossa individualidade não eqüivale, para nós, ao nada?

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, pergunta 148.

Em O Céu e o Inferno, contrapõe firmemente:

Há outra doutrina que nega ser materialista porque admite a existência de um princípio inteligente, fora da matéria, que é a doutrina da absorção no Todo Universal. Segundo essa doutrina, cada indivíduo absorve em si, ao nascer, uma parcela desse princípio, que é sua alma e que lhe dá a vida, a inteligência e o sentimento. Quando morre, essa alma volta ao ponto de origem, perdendo-se no infinito, como uma gota d’água no oceano.

Essa doutrina é, sem dúvida, um passo adiante com relação ao materialismo puro, já que ela admite algo além da matéria, enquanto o outro nada admite, mas as consequências de ambas são as mesmas. Ser o homem mergulhado no nada ou num reservatório comum é, para ele, a mesma coisa. Se, no primeiro caso, ele é aniquilado, no segundo perde sua individualidade e é como se não existisse, e suas relações sociais estarão igualmente extintas para sempre.

O essencial para o homem é a preservação de seu eu, sem o que não importa ser ou não ser! O futuro, para ele, é igualmente nulo, e o presente é a única coisa que lhe importa e o preocupa. Do ponto de vista das consequências morais, essa doutrina é igualmente prejudicial, igualmente desesperadora, incitando ao egoísmo tanto quanto o materialismo propriamente dito.

Kardec, Allan. O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior (correspondente à 1a edição)

E completa:

Cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é ele mesmo Deus. Nenhum ser superior e independente comanda o conjunto; o Universo é uma imensa república sem chefe, ou antes, onde cada um é chefe com poder absoluto.

A esse sistema podemos opor numerosas objeções, das quais são estas as principais: a Divindade, não podendo ser concebida sem o infinito das perfeições, perguntamo-nos como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas e tendo a necessidade de progredir? Cada parte estando submetida à lei do progresso, daí resulta que o próprio Deus deve progredir; se Ele progride incessantemente, deve ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito.

Como um ser imperfeito, formado de vontades e de ideias tão divergentes, pôde conceber as leis tão harmoniosas, tão admiráveis de unidade, de sabedoria e de previdência que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade, todas concorreram para as leis da natureza; como pode ser então que elas murmurem sem cessar contra essas leis, que são obras suas?

Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira, senão com a condição de satisfazer a razão e dar conta de todos os fatos que abrange. Se um só fato a desmente, é porque ela não encerra a verdade absoluta.

Idem.

É fácil perceber que, se alguém chamou Suzi para realizar uma obra, destruindo pontos fundamentais da moral produzida pela ciência espírita, esse alguém não foi o Espírito de Allan Kardec.

A ressurreição física retorna como possibilidade

“E na matéria? É tão possível quanto a reencarnação.”

Livro dos Espíritos II, questão 471, p. 189

“O espírito pode reconstruir ou materializar um corpo com base em uma célula original […] utilizando uma força energética imensa e uma supermatéria.”

Livro dos Espíritos II, questão 472, p. 190

Kardec dedica a questão 1010 de O Livro dos Espíritos à ressurreição da carne. Sua conclusão é explícita: a reconstituição do mesmo corpo é materialmente impossível, porque seus elementos se dispersam e passam a compor outros organismos. A ressurreição é interpretada como figura da reencarnação, não como retorno definitivo do cadáver recomposto:

Efetivamente, a ciência demonstra a impossibilidade da ressurreição, segundo a ideia vulgar. Se os despojos do corpo humano se conservassem homogêneos, embora dispersos e reduzidos a pó, ainda se conceberia que pudessem reunir-se em dado momento. As coisas, porém, não se passam assim.

[…]

Racionalmente, pois, não se pode admitir a ressurreição da carne, senão como uma figura simbólica do fenômeno da reencarnação. E, então, nada mais há que aberre da razão, que esteja em contradição com os dados da ciência.

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos.

O novo livro faz o movimento inverso: recupera a ressurreição literal mediante uma “célula original”, energia e “supermatéria”. Esses termos, porém, não vêm acompanhados de definição operacional, observações reproduzíveis ou fatos controláveis que permitam examiná-los. A linguagem técnica não substitui a demonstração.

Anjos criados em condição superior e pureza reversível

“Há seres que já foram criados em níveis de elevada consciência, constituídos por uma matriz energética própria, que não percorre o mesmo caminho evolutivo dos demais.”

Livro dos Espíritos II, questão 643, p. 244

Nas questões 115, 128 e 129 de O Livro dos Espíritos, a resposta é outra. Todos os Espíritos são criados simples e ignorantes; os anjos são Espíritos puros que alcançaram o grau mais elevado depois de percorrer os demais graus. Não formam uma criação privilegiada.

O problema se agrava quando o novo livro admite que Espíritos da escala de Jesus poderiam ser novamente afetados pelos prazeres e ilusões de mundos densos, trazendo de volta “fragmentos de ego”. Kardec define os Espíritos puros pela completa superioridade moral e afirma, na questão 118, que eles não retrogradam.

Se uma obra pretende rever essa conclusão, precisa apresentar casos verificáveis de regressão de Espíritos puros e demonstrar de que modo sua identificação foi estabelecida. Sem isso, a afirmação permanece uma hipótese particular.

A segunda morte do perispírito

“Na segunda morte, os seres desencarnados perdem também o perispírito.”

Livro dos Espíritos II, questão 441, p. 180

Kardec descreve o perispírito como o envoltório semimaterial que acompanha o Espírito e é tomado do fluido próprio de cada mundo. Ele se depura e pode tornar-se extremamente etéreo, mas isso não equivale à formulação de uma segunda morte universal.

A questão 93 de O Livro dos Espíritos e os capítulos XI e XIV da primeira edição francesa de A Gênese tratam o perispírito como elemento funcional da relação entre Espírito e matéria. Pode-se investigar transformações profundas desse envoltório; o que não se pode fazer, sem demonstração, é transformar seu abandono em etapa obrigatória e depois apresentá-la como extensão natural do modelo kardeciano.

A mediunidade torna-se serviço cobrável

“Todo trabalho envolve algum tipo de troca […] O ato de cobrar, por si só, não é o ponto central.”

Livro dos Espíritos II, questão 942, p. 342

“Aplicável a qualquer forma de mediunidade, inclusive incorporação […] O ponto central não é a cobrança em si, mas a ética, a intenção e o destino dos valores recebidos.”

Livro dos Espíritos II, questão 943, p. 342

O contraste com O Evangelho segundo o Espiritismo é direto. No capítulo XXVI, itens 7 a 10, Kardec distingue a remuneração de um trabalho humano da venda de uma faculdade que não pertence ao médium e depende da vontade dos Espíritos. Sua conclusão é inequívoca: a mediunidade séria não pode tornar-se profissão.

A diferença não é meramente moralista. Existe um problema metodológico. Quanto maior o interesse material ligado à manifestação, maior a necessidade de controlar fraude, encenação, autossugestão, seleção conveniente dos resultados e dependência econômica da crença do público. A gratuidade funciona, nesse sentido, também como proteção da investigação contra conflitos de interesse.

Termos kardecianos recebem novos sentidos

“Pneumatógrafos – Escrita sem controle consciente; forma mais profunda do mesmo fenômeno.”

Livro dos Espíritos II, questão 949, p. 347

Em O Livro dos Médiuns, item 146, pneumatografia significa escrita direta produzida pelo Espírito sem intermediário. A escrita realizada pela mão do médium é psicografia, seja mecânica, semimecânica ou intuitiva.

A precisão terminológica não é mero apego a palavras. Em ciência, termos servem para separar fenômenos conforme seu modo de produção. Se o mesmo nome passa a designar mecanismos diferentes, observações distintas são agrupadas como se fossem equivalentes e a comparação histórica se torna imprecisa.

A lista de 33 tipos de médiuns apresentada pelo novo volume inclui ainda consteladores e apômetras. Isso pode descrever práticas contemporâneas, mas não autoriza apresentá-las automaticamente como continuação da classificação experimental de Kardec.

Sentir paz não basta para verificar uma comunicação

“Como se sentir seguro? Quando a comunicação não causa sensações ruins, densas ou negativas.”

Livro dos Espíritos II, questão 650, p. 246

“Observe o que a mensagem provoca em seu interior.”

Livro dos Espíritos II, questão 653, p. 247

Aqui aparece uma divergência que não é apenas doutrinária, mas epistemológica. O critério de verificação é deslocado da análise da mensagem para a sensação produzida em quem a recebe.

Uma comunicação falsa pode consolar. Uma mensagem equivocada pode corresponder exatamente às expectativas de quem a recebe. Um Espírito mistificador pode utilizar linguagem elevada. E uma informação verdadeira pode ser desagradável ou contrariar convicções anteriores.

Por isso, em O Livro dos Médiuns, Kardec insiste na linguagem, na lógica, no conhecimento demonstrado, na coerência, na finalidade, nas características do comunicante e na comparação entre manifestações. O critério subjetivo favorece justamente aquilo que um método de investigação precisa reduzir: a confirmação das próprias expectativas.

Uma hipótese não se transforma em fato porque é mediúnica

“Alguns buscam matéria-prima e recursos naturais; outros realizam pesquisas e testes genéticos […] Há também os que procuram explorar o planeta.”

Livro dos Espíritos II, questão 606, p. 229

“Existem aparelhos decodificadores universais.”

Livro dos Espíritos II, questão 661, p. 250

A pluralidade dos mundos habitados pertence à doutrina espírita. Dela não decorrem automaticamente abduções, experimentos genéticos extraterrestres, infiltrados, exploração de recursos terrestres, naves espirituais ou aparelhos decodificadores.

Cada afirmação possui carga probatória própria. Admitir a existência de outros mundos habitados não demonstra que determinada espécie extraterrestre visite a Terra. Reconhecer a ação dos Espíritos sobre a matéria não demonstra automaticamente qualquer tecnologia atribuída ao mundo invisível.

Essas ideias podem ser formuladas como hipóteses. O problema começa quando são apresentadas como fatos conhecidos sem exposição das observações que permitiriam estabelecê-las.

Na ciência espírita, a origem mediúnica de uma informação não é equivalente à sua confirmação. A própria existência de Espíritos ignorantes, equivocados ou mistificadores torna essa distinção indispensável.

O que seria necessário para modificar uma conclusão da ciência espírita?

Esse talvez seja o ponto central de todo o debate. A ciência avança quando fatos novos obrigam a modificar explicações anteriores. Nenhuma conclusão estabelecida por Kardec deve ser tratada como intocável simplesmente por ter sido publicada no século XIX. Porém, uma revisão exige método e evidência proporcional ao que está sendo revisado:

Generalidade e concordância no ensino — esse é o caráter essencial da doutrina espírita, a condição mesmo de sua existência, de onde resulta que todo princípio que não tenha recebido a consagração do controle de generalidade não pode ser considerado como parte integrante dessa mesma doutrina, mas como uma simples opinião isolada, cuja responsabilidade o Espiritismo não pode assumir.

Essa coletividade concordante de opinião dos Espíritos, submetida, além disso, ao critério da lógica, constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela fosse alterada, seria preciso que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e que eles viessem, um dia, dizer o contrário do que disseram anteriormente.

Kardec, Allan. A Gênese – Editora Mundo Maior.

Esse cuidado é especialmente importante em pesquisas mediúnicas porque o instrumento de observação – o médium – é um ser humano dotado de memória, crenças, expectativas, vocabulário e referências culturais. Kardec conhecia esse problema, como também sabia, logo pelas primeiras observações, que as opiniões dos Espíritos não devem ser cegamente aceitas, tanto quanto não devem ser as dos homens – por isso não transformou cada mensagem recebida em princípio doutrinário.

Em participações públicas, em canais do Youtube, Suzi tem afirmado que recebeu essa missão do Espíritos de Kardec, que a teria chamado para ir ao seu túmulo para conversar com ele. Isso é um verdadeiro escárnio com tudo o que Kardec sempre nos demonstrou, em seus escritos sobre as conclusões da ciência Espírita.

O nome de “continuação” não resiste ao confronto

Livro dos Espíritos II reúne elementos de Espiritismo, esoterismo, linguagem terapêutica, ufologia e espiritualismo contemporâneo. O sincretismo pode ter valor para leitores que procuram essa combinação, mas o problema está em apresentá-lo como complemento fiel de Kardec e, sobretudo, como continuidade da ciência espírita.

Parece ser a velha receita daqueles que buscam surfar na fama do Espiritismo: misturar ideias fundamentalmente antagônicas entre si e apresentá-las como se fossem Espiritismo. A própria FEB também fez isso, por mais de um século, e continua fazendo. Aqui, preciso fazer menção à enorme responsabilidade que ela, Federação Espírita Brasileira, tem sobre tudo isso, pois esse cenário é apenas o resultado da grande força que ela fez para criar um “Espíritismo à moda da casa”.

Reencarnação facultativa, metempsicose, dissolução da individualidade, ressurreição física, anjos criados em condição superior, pureza espiritual reversível e cobrança da mediunidade não são detalhes periféricos. Eles alteram a origem, o destino e a responsabilidade do Espírito.

Do mesmo modo, a redefinição de categorias mediúnicas, a validação emocional das mensagens e a apresentação de descrições tecnológicas do mundo espiritual sem exposição de método enfraquecem o próprio mecanismo pelo qual se deveria separar conhecimento de opinião mediúnica.

Conclusão: o problema não é discordar de Kardec; é abandonar o método que permitiria superá-lo

O confronto realizado neste artigo não transforma Allan Kardec em autoridade infalível nem congela o Espiritismo em 1869. Isso seria contrário à própria natureza da ciência espírita.

Se novos fatos demonstrarem que determinada conclusão estava incompleta ou equivocada, a posição coerente com o método kardeciano será reconhecer os fatos e revisar a teoria. É exatamente por isso que Livro dos Espíritos II encontra seu maior problema.

O volume não se limita a apresentar fenômenos novos ainda desconhecidos no século XIX. Ele modifica princípios fundamentais e introduz numerosas descrições sobre a realidade espiritual, mas não oferece ao leitor o percurso experimental capaz de transformar essas afirmações em conhecimento.

Isso não significa que suas teses sejam falsas simplesmente porque contradizem Kardec. Significa que quem pretende substituir uma conclusão estabelecida precisa demonstrar por que ela deve ser substituída.

O mesmo vale para colônias, veículos, equipamentos espirituais, sistemas de tradução, extraterrestres, estruturas dimensionais ou qualquer outra hipótese. O fato de essas ideias serem atribuídas a Espíritos não lhes concede, por si, estatuto científico.

Uma comunicação mediúnica é um dado. Várias comunicações concordantes podem constituir um indício. Uma hipótese organiza esses dados. Mas uma proposição somente pode aspirar à condição de conhecimento da ciência espírita depois de submetida ao exame dos fatos, à crítica racional, à comparação e aos controles destinados a reduzir erro, influência pessoal e mistificação.

É nesse ponto que a expressão Livro dos Espíritos II se torna problemática. O livro pode ser estudado como produção espiritualista contemporânea. Pode apresentar hipóteses dignas de investigação. Pode conter ensinamentos morais compatíveis com princípios espíritas. O que ele não demonstra é aquilo que seu título e seu prefácio sugerem: que suas proposições constituam uma continuação científica de O Livro dos Espíritos.

A ciência espírita não progride pelo simples acréscimo de novas revelações. Ela progride quando novos fatos resistem ao exame e obrigam o conhecimento anterior a avançar.

Referências utilizadas

MARIAH, Suzi. Livro dos Espíritos II. Arquivo digital examinado, 416 páginas.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição definitiva publicada em vida do autor.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Paris, 1861.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Paris, 1864.

KARDEC, Allan. Le Ciel et l’Enfer ou la justice divine selon le spiritisme. Paris, 1865. Primeira edição francesa.

KARDEC, Allan. La Genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme. Paris, 1868. Primeira edição francesa.

Critério de citação. As páginas atribuídas a Livro dos Espíritos II correspondem à paginação impressa no PDF examinado. As citações foram abreviadas apenas com reticências entre colchetes quando necessário, sem alteração do sentido.

Livro dos Espíritos II em confronto com a ciência espírita




A Cura do Perispírito

Há anos, ao estudar as obras de Allan Kardec, uma pergunta sempre nos inquietava: se o Espírito é imortal, inteligente e perfectível, por que seu envoltório padece? Como pode uma doença do corpo físico atingir aquilo que é, afinal, o veículo da alma? Não foi nos tratados de patologia que encontramos a resposta, mas na compreensão de que o períspirito é um espelho e o que vemos nele é, antes de tudo, o que é o Espírito.

A expressão “cura do perispírito” encerra, assim, uma aparente contradição. Se o Espírito é o princípio inteligente, aquele que pensa, sente, deseja e progride, como poderia uma doença recair sobre o seu envoltório? E, sendo o períspirito uma forma de matéria, ainda que fluídica e semi material, como poderia o progresso moral do Espírito operar uma transformação efetiva nesse invólucro?

A dificuldade se dissolve quando se compreende, em profundidade, a relação orgânica que mantêm o Espírito, o perispírito e o corpo.

O Espírito é a inteligência e a moralidade em essência. O corpo é o envoltório carnal, transitório, para a experiência da encarnação. O perispírito, por sua vez, é o laço fluídico que os une ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 135; O que é o Espiritismo)) . Longe de atuarem como realidades justapostas, esses três elementos encontram-se em permuta incessante, reagindo uns sobre os outros numa dinâmica contínua de influências ((ALLAN KARDEC. Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas.)) .

É exatamente nessa trama de relações que se encontra a chave para o que denominamos doença e cura do perispírito.

1. O perispírito como espelho da alma

O primeiro passo é estabelecer uma distinção fundamental, por vezes esquecida: o perispírito não é a causa da desarmonia, mas a sua manifestação. O Espírito é o ser pensante e volitivo; nele residem a vontade, os afetos e as disposições que definem seu estado moral. O perispírito, por sua vez, é um corpo fluídico e semimaterial ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 93.)), extraído do fluido universal de cada globo ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 94.)), que, durante a encarnação, penetra o organismo em todas as suas partes, atuando como mensageiro e tradutor. Ele transmite aos órgãos a vontade do Espírito que o dirige ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns, Cap. VI.)).

Não se trata, portanto, de uma segunda entidade, dotada de existência autônoma. O perispírito é uma extensão do Espírito, um prolongamento de sua natureza no plano fluídico.

Quando se fala em alteração ou doença do perispírito, não se sugere que o envoltório adoeça por si mesmo. O que ocorre é uma modificação de sua condição fluídica, produzida diretamente pelo estado íntimo do Espírito. A causa reside na alma; o perispírito não faz mais do que refletir, no plano semimaterial, o que se passa no plano moral ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

2. A ação do pensamento sobre a matéria fluídica

Mas o que significa, de fato, “doença” num corpo que não é órgão?

A resposta está na própria natureza do perispírito. Embora seja material, não é matéria tangível e inerte, mas matéria fluídica, expansível e plástica ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns, Cap. VI.)), cuja constituição é suficientemente maleável para sofrer a ação direta do pensamento e da vontade.

O pensamento não é um fenômeno imaterial desconectado do mundo físico; é uma força viva, um atributo atuante do Espírito. Conforme explicado em A Gênese, o pensamento modifica as qualidades dos fluidos espirituais, e o perispírito recebe essas impressões permanentemente ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)). O Espírito pode, por sua vontade, dar-lhes direção, aglomerá-los e modificar suas propriedades. Assim, o estado íntimo do Espírito repercute imediatamente sobre seu envoltório. Os pensamentos maus, emoções inferiores, sentimentos egoístas viciam os fluidos que circundam o Espírito, tornando o perispírito mais denso, opaco e perturbado. Não se trata de uma matéria que se transforma por impulso próprio, mas de uma matéria modelada incessantemente pelo pensamento que a anima ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)).

O inverso também é verdadeiro: se o pensamento vicia, pode igualmente purificar. O Espírito, ao elevar-se, projeta sobre seus fluidos uma influência salutar, reordenando o que estava disperso e refinando o que era grosseiro.

3. Afinidade Fluídica

A matéria, mesmo em sua forma fluídica, nunca é indiferente ao Espírito. O perispírito é extraído do fluido universal, que é o elemento básico que permeia o cosmos, mas o Espírito não o assimila de modo aleatório. A natureza moral do Espírito determina aquilo que ele atrai e incorpora ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 94.)). Um Espírito adiantado atrai as porções mais puras e etéreas do fluido cósmico. Um Espírito ainda dominado por imperfeições, ao contrário, atrai fluidos mais grosseiros e densos, que lhe são afins.

Há, portanto, uma correspondência rigorosa entre o estado do ser e a qualidade de seu envoltório ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). Não se trata de um castigo ou de uma imposição externa, mas de uma lei natural: cada Espírito se reveste da matéria que lhe é proporcional.

Por isso, o progresso moral não modifica o perispírito por um mecanismo exterior. O próprio Espírito, ao transformar-se, passa a produzir e a atrair condições fluídicas diferentes. O processo assemelha-se a uma depuração progressiva: os fluidos mais densos vão sendo naturalmente substituídos por outros mais sutis, à medida que o Espírito se desprende do egoísmo e se aproxima da caridade desinteressada.

4. A Doença do Perispírito é Desarmonia Fluídica

É aqui que a expressão “doença do perispírito” ganha seu sentido justo. Não se trata de uma patologia orgânica, como a que atinge o corpo físico. Trata-se de uma desarmonia de natureza fluídica e molecular , como um vício nos fluidos que constituem o envoltório, provocado pela persistência de pensamentos e sentimentos inferiores ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, março de 1868.)).

Nós nos detemos aqui, porque é comum encontrar espíritas que acreditam que a cura perispiritual se dá apenas por passes ou por intervenções externas. Ora, se assim fosse, a reforma moral seria supérflua e sabemos que não é. A desarmonia não é uma ferida, nem uma chaga; é antes um desajuste entre o que o Espírito pensa e o que os fluidos registram.

Essa alteração, durante a vida corporal, repercute sobre o organismo, pois o perispírito funciona como intermediário. A cadeia de influências é clara:

Isso não significa, porém, reduzir todas as doenças físicas a causas morais. O corpo possui suas próprias condições orgânicas, e muitas enfermidades decorrem de acidentes ou de heranças materiais, sem relação direta com o estado espiritual. O perispírito, nesse contexto, é o elo que explica como duas naturezas tão distintas, a espiritual e a orgânica, podem interferir mutuamente, sem se confundir.

5. O que persiste após a morte?

Ao desencarnar, o Espírito deixa o corpo físico, mas conserva seu envoltório perispiritual. Se o corpo estava enfermo, isso não implica que o Espírito carregue essa doença para a eternidade. O organismo material se dissolve, e o Espírito passa a manifestar-se unicamente por seu perispírito (( ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

Contudo, podem permanecer, por algum tempo, impressões relacionadas à existência recém-concluída. Um Espírito muito apegado à matéria pode conservar, após a morte, a sensação das dores e das limitações que experimentou no corpo ((ALLAN KARDEC. O Livro dos Espíritos, q. 257.)). Em Espíritos mais desprendidos da matéria, o alívio é quase imediato ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

Lembramos, ao ler o caso do Zuavo de Magenta na Revista Espírita de janeiro de 1859, de como ficamos impressionado com a ideia de que um Espírito pode, por algum tempo, conservar as aparências do corpo que deixou, assim como suas vestimentas, os ferimentos, até a postura do último instante. O rompimento brusco dos laços perispirituais do corpo faz com que o Espírito se sinta, por algum tempo, ainda vivo e ferido ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, janeiro de 1859 (caso do Zuavo de Magenta).)).

Essas manifestações, entretanto, são transitórias. O perispírito é maleável; à medida que o Espírito se desprende das fixações da vida anterior, essas impressões se desvanecem. A cura, nessa condição, é a recuperação da consciência de si mesmo, livre das imagens do corpo que ficou para trás.

6. A mudança de mundo não opera, por si só, a transformação moral

Outra questão delicada: ao passar para um mundo mais elevado, o Espírito elabora um novo perispírito ((Allan Kardec – A Genese – cap XIV item 10 em diante)), adaptado àquele ambiente ((ALLAN KARDEC. Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas — Vocabulário Espírita.)). Isso não significa, contudo, que a simples mudança de esfera opere uma transformação moral.

O Espírito leva consigo sua natureza íntima. Se não se depurou, continuará atraindo fluidos correspondentes ao seu estado. O novo envoltório poderá ser mais sutil, mas a causa da desarmonia permanece inalterada enquanto o Espírito não modificar a si mesmo ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)).

O progresso, portanto, não se reduz a uma mudança de cenário. O Espírito precisa transformar-se em seu íntimo. E, ao transformar-se, seu perispírito se eleva com ele; não porque o envoltório mude por si, mas porque o Espírito agora é capaz de assimilar fluidos mais puros.

7. A Cura do Perispírito e o Papel da Mudança de Pensamentos

Se a doença do perispírito é uma desarmonia fluídica, sua recuperação pode ser auxiliada por intervenções externas: magnetismo, passes, prece, ação de Espíritos curadores. Trata-se de uma medicação fluídica já que os fluidos sadios e purificados que atuam sobre o envoltório alterado, substituiem gradualmente os elementos deteriorados ((ALLAN KARDEC. Revista Espírita, março de 1868.)).

A prece, nesse contexto, funciona como uma magnetização, capaz de projetar correntes fluídicas benéficas que limpam, desobstruem e neutralizam os fluidos nocivos. Mas de que adianta substituir os fluidos se o Espírito continua a produzir os mesmos pensamentos que geraram a desarmonia?

A substituição de fluidos trata o efeito; a mudança moral atinge a causa. Enquanto o Espírito permanecer preso ao orgulho, ao egoísmo ou à vaidade, seus fluidos continuarão a se viciar, e a desarmonia renascerá. A verdadeira cura perispiritual é aquela em que o Espírito, modificando seus pensamentos, modifica sua ação sobre os fluidos. Assim, deixa, assim, de produzir a condição que antes mantinha o mal ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV; O Livro dos Espíritos, q. 1012.)).

A ação magnética, a prece e o auxílio dos Espíritos superiores são recursos valiosos, mas são coadjuvantes. O protagonista da cura é o próprio Espírito, em seu esforço deliberado de transformação.

8. O perispírito como testemunho da evolução

O perispírito é, assim, um termômetro da alma. À medida que o Espírito progride, seu envoltório torna-se mais luminoso, mais etéreo, mais sutil ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). As emoções densas cedem lugar a sentimentos puros, e a matéria fluídica que o reveste acompanha essa elevação.

Não se trata de uma mudança imposta, mas de uma consequência natural. O Espírito que se eleva atrai fluidos menos pesados; o Espírito que se degrada, ao contrário, atrai fluidos mais pesados. O perispírito não é um acidente de percurso, mas um registro vivo da trajetória evolutiva do ser.

—

9. Conclusão: curar o perispírito é restaurar a harmonia no Espírito

Retomemos a pergunta que abriu este artigo: como pode o Espírito, ser inteligente e moral, ser afetado por uma doença de seu envoltório? E como pode o moral modificar o material?

A resposta, agora mais clara, é que o perispírito não adoece por si mesmo; ele reflete a doença moral do Espírito ((ALLAN KARDEC. O Céu e o Inferno.)). E o Espírito, por sua vez, transforma seu envoltório porque este é moldado por seu pensamento ((ALLAN KARDEC. A Gênese, Cap. XIV.)).

A cura do perispírito, portanto, não é a mera substituição de um fluido por outro. É o restabelecimento de uma harmonia que começa na intimidade do Espírito. Toda intervenção fluídica é bem-vinda, mas é apenas preparatória. A verdadeira regeneração, aquela que persiste, que não se desfaz com o tempo; é a que nasce da mudança íntima.

O perispírito é o eco material da alma. Para curá-lo, não basta tocar suas superfícies: é preciso purificar a fonte que o alimenta. E essa fonte é o próprio Espírito, em sua incessante caminhada rumo à perfeição.




A Aplicação Prática dos Princípios do Espiritismo

A relação entre O Livro dos Espíritos (1861) e O Céu e o Inferno revela a continuidade do pensamento dos Espíritos Superiores e que Kardec codificou. e a forma como os princípios fundamentais da Doutrina Espírita são desenvolvidos e aplicados. Se O Livro dos Espíritos apresenta as bases fundamentais e a pedra angular do Espiritismo, O Céu e o Inferno aprofunda essas bases ao examinar suas consequências na experiência da alma, especialmente diante da morte, da desencarnação e de sua condição espiritual.

Essa relação pode ser compreendida a partir de quatro grandes eixos de estudo: a natureza de Deus e a questão dos anjos e demônios; o processo da desencarnação; a justiça das penas e dos gozos futuros; e o significado do purgatório e das expiações terrestres.


1. Deus, anjos e demônios: a lógica dos atributos divinos

Um primeiro ponto de ligação está na relação entre o estudo de Deus, desenvolvido na Primeira Parte, capítulo I, de O Livro dos Espíritos, e a abordagem dos anjos e demônios, presente na Segunda Parte, capítulo I((Relaciona o estudo sobre Deus (Parte 1, Cap. I) e a escala espírita/anjos e demônios 128 e seguintes (Parte 2, Cap. I))), da mesma obra, em diálogo com os capítulos de anjos e demônios ((capitulo IX e X respectivamente da parte primeira de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)) de O Céu e o Inferno.

O ponto central dessa relação está nos atributos divinos, especialmente na justiça e na bondade infinitas de Deus.

A partir dessa lógica, as duas obras examinam concepções tradicionais segundo as quais existiriam seres criados originalmente como anjos que teriam se rebelado contra Deus, tornando-se eternamente condenados, ou seres criados especificamente para praticar o mal. Essas ideias entram em contradição com a própria concepção de um Criador perfeito dos dogmas das religiões. Se Deus é infinitamente justo e bom, não seria coerente atribuir-lhe a criação de seres destinados ao mal ou a condenação eterna de criaturas que, originalmente, teriam sido criadas boas.

Assim, o estudo dos anjos e demônios não aparece isoladamente. Ele está diretamente relacionado à compreensão dos atributos de Deus e à necessidade de manter coerência entre aquilo que se afirma sobre o Criador e as consequências atribuídas à sua ação.


2. O processo do passamento: a separação da alma e do corpo

O segundo eixo estabelece uma relação direta entre o estudo da separação da alma e do corpo e da perturbação espiritual, apresentado na Segunda Parte, capítulo III((item 154 em diante de O Livro dos Espíritos)), de O Livro dos Espíritos, e o capítulo “O Passamento”, de O Céu e o Inferno.((primiro capítulo de parte segunda de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior))

As duas obras permitem compreender a morte não como o desaparecimento do ser, mas como um processo de separação entre a alma e o corpo. Nesse processo, o desprendimento do perispírito ocorre de maneira gradual, e sua experiência pode variar de acordo com a condição espiritual do indivíduo. Para as almas moralmente mais adiantadas, o desligamento tende a ser mais rápido e menos penoso. Já para aquelas que permaneceram fortemente ligadas à matéria, o processo pode ser mais lento e acompanhado de maior dificuldade.

A diferença fundamental está, portanto, na condição espiritual de cada indivíduo. O modo como ocorre o passamento não é apresentado como uma experiência absolutamente igual para todos, mas como algo relacionado ao grau de desprendimento e à natureza dos vínculos que a alma mantém com a existência material.

Dessa forma, O Céu e o Inferno desenvolve, em situações concretas, princípios que O Livro dos Espíritos apresenta de maneira sistemática.


3. A justiça das penas e dos gozos futuros

O terceiro eixo relaciona o capítulo “Penas e gozos futuros”, da Quarta Parte de O Livro dos Espíritos((item 958 em diante de O Livro dos Espíritos)), com o capítulo “As penas futuras segundo o Espiritismo”((capitulo VIII da primeira parte de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)), de O Céu e o Inferno. Aqui aparece uma mudança fundamental na compreensão tradicional do céu e do inferno. Em vez de serem entendidos como lugares físicos ou regiões geográficas circunscritas no Universo, a felicidade e a infelicidade são apresentadas como estados da própria alma.

A condição espiritual do indivíduo está relacionada às suas qualidades e imperfeições. A felicidade decorre do desenvolvimento das boas qualidades, enquanto a infelicidade está relacionada às imperfeições que permanecem na alma. Essa compreensão estabelece uma relação direta entre a condição moral do indivíduo e as consequências de seus próprios atos. O sofrimento, portanto, não é apresentado simplesmente como uma punição externa imposta arbitrariamente. A situação da alma decorre de sua própria condição espiritual e é proporcional ao conjunto de suas qualidades e imperfeições.

O Céu e o Inferno aprofunda, assim, a compreensão da justiça divina apresentada em O Livro dos Espíritos, mostrando suas consequências na situação concreta da alma.


4. O verdadeiro purgatório: provas e expiações na Terra

O quarto eixo relaciona a definição de purgatório, apresentada na Quarta Parte, capítulo II((item 920 em diante)), de O Livro dos Espíritos, com o capítulo “O Purgatório”((capitulo VI – parte primeira de O Céu e o Inferno)), de O Céu e o Inferno, e com os casos reunidos em “Expiações Terrestres”((capítulo VIII – parte segunda de O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior)).

A partir dessa relação, o purgatório deixa de ser compreendido como um lugar físico caracterizado por chamas materiais. Ele pode ser entendido como a própria condição de provas e expiações pela qual a alma passa em seu processo de aperfeiçoamento. A existência terrestre assume, nesse contexto, um significado particular. As dificuldades e experiências enfrentadas durante a vida não são vistas simplesmente como acontecimentos sem finalidade, mas podem constituir oportunidades para o desenvolvimento e o melhoramento da alma. A reencarnação, nesse sentido, apresenta-se como parte desse processo de trabalho sobre si mesmo. É na experiência terrestre que a alma enfrenta suas provas, suas expiações e as condições necessárias ao seu próprio aperfeiçoamento.

Os casos de “Expiações Terrestres” tornam essa compreensão mais concreta, permitindo observar como os princípios apresentados anteriormente podem se manifestar nas experiências individuais.


A continuidade entre as duas obras

Os quatro eixos mostram que O Livro dos Espíritos e O Céu e o Inferno não devem ser compreendidos como obras isoladas.

O Livro dos Espíritos estabelece os princípios fundamentais. O Céu e o Inferno retoma esses princípios e os aplica à situação da alma, especialmente diante da morte e de suas consequências.

Eixo de estudo O Livro dos Espíritos O Céu e o Inferno
Deus, anjos e demônios Apresenta os atributos de Deus e aborda a escala espírita, os anjos e os demônios. Desenvolve as consequências desses princípios ao examinar a ideia de anjos decaídos e demônios.
O passamento Explica a separação da alma e do corpo e a perturbação espiritual. Desenvolve o processo do passamento e suas diferentes condições.
Penas e gozos futuros Apresenta os princípios relativos à felicidade e à infelicidade futuras. Explica as penas futuras segundo os princípios espíritas.
Purgatório e expiações Define o purgatório e apresenta as provas e expiações. Desenvolve o conceito de purgatório e apresenta casos de expiações terrestres.

Dos princípios à experiência da alma

A relação entre as duas obras pode, portanto, ser sintetizada como uma passagem dos princípios à experiência.

O Livro dos Espíritos estabelece as bases para compreender Deus, a alma, a vida espiritual, a desencarnação, as penas e os gozos futuros e as provas e expiações.

O Céu e o Inferno retoma essas bases e mostra suas consequências na condição concreta da alma. A morte, nesse contexto, não encerra a existência, mas constitui uma mudança de estado; o céu e o inferno deixam de ser lugares físicos e passam a ser compreendidos a partir da condição moral da alma; e o purgatório deixa de representar um espaço material para ser relacionado às experiências de provas e expiações.

Existe, assim, uma continuidade lógica entre as duas obras: primeiro são apresentados os princípios; depois, suas consequências são examinadas na experiência espiritual.

É justamente nessa complementaridade que se evidencia a estrutura do Espiritismo: compreender os princípios que regem a existência permite compreender também a situação da alma durante a vida, no momento do passamento e depois dele.

Nos próximos artigos, vamos desenvolver mais e melhor cada um dos 4 apresentados aqui.




Por Trás da Moral: O Fundamento Científico e Natural do Espiritismo

A relação entre as obras do pensamento dos Espíritos Superiores trazido por Kardec revela uma estrutura metódica na Codificação Espírita, em que cada livro desempenha uma função específica, ao mesmo tempo em que se articula com os demais. Compreender a relação entre O Evangelho segundo o Espiritismo e A Gênese permite perceber a ligação entre o ensino moral e a compreensão das leis naturais que regem a existência.

1. As Leis da Natureza como fundamento do Ensino Moral

O Evangelho segundo o Espiritismo (1864) concentra-se no ensino moral do Cristo e em sua aplicação à vida cotidiana. Seu objetivo é orientar a conduta, as relações humanas e o aperfeiçoamento íntimo, apresentando a transformação moral como caminho para o desenvolvimento do indivíduo.

A Gênese (1868) , por sua vez, amplia essa compreensão ao examinar os fenômenos da natureza, os mecanismos relacionados ao princípio espiritual e o funcionamento do mundo invisível. É justamente nessa complementaridade que se estabelece a conexão entre as duas obras. A Gênese procura mostrar que os ensinamentos morais e as parábolas de Jesus não constituem determinações arbitrárias, mas podem ser compreendidos à luz de leis naturais cuja compreensão ainda não estava plenamente desenvolvida.

Assim, enquanto O Evangelho Segundo o Espiritismo apresenta a orientação moral, A Gênese contribui para compreender os princípios que dão sustentação a essa orientação.

2. A Reencarnação e a igualdade entre os seres humanos

Em A Gênese, a reencarnação é apresentada sob a perspectiva da dinâmica espiritual. O Espírito pode retornar à existência corporal em diferentes corpos, sexos e condições sociais. Essa perspectiva modifica profundamente a maneira de compreender as diferenças existentes entre os indivíduos e oferece uma base para a igualdade essencial entre os seres humanos. Nesse contexto, o texto retoma o diálogo de Jesus com Nicodemos e estabelece a relação com o retorno de Elias, inserindo a ideia da reencarnação na compreensão dos ensinamentos de Jesus.

O Evangelho segundo o Espiritismo, por sua vez, conduz essa compreensão para o campo da prática moral. Se todos os seres humanos participam de um processo de desenvolvimento espiritual e podem ocupar diferentes posições ao longo da existência, a fraternidade, a tolerância e o respeito deixam de ser apenas recomendações abstratas e passam a constituir deveres fundamentais da convivência. A reencarnação, portanto, aproxima a compreensão da lei espiritual da prática da fraternidade.

3. O alicerce da fé raciocinada

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, encontra-se o princípio de que a fé verdadeira não pode estar em oposição à razão. A fé que permanece firme é aquela capaz de enfrentar o exame racional em todas as épocas da Humanidade.

A Gênese retoma esse princípio ao abordar a revelação espírita e sua relação com o conhecimento. A fé, quando apoiada pela razão, deixa de depender exclusivamente da aceitação de dogmas e passa a participar de um processo de compreensão.

Desse modo, as duas obras convergem na valorização de uma fé que não se opõe ao pensamento. O Evangelho segundo o Espiritismo estabelece a necessidade dessa atitude diante da vida moral; A Gênese a relaciona à compreensão racional dos princípios espirituais e naturais.

4. O princípio unificador da caridade

O Evangelho segundo o Espiritismo apresenta a caridade como princípio fundamental da transformação moral, sintetizada na máxima “Fora da caridade não há salvação”.

A caridade, nesse sentido, não se limita a uma prática individual. Ela estabelece uma forma de relacionamento baseada na fraternidade, na tolerância e na consideração pelo outro.

Em A Gênese, essa perspectiva pode ser relacionada à ideia de união e cooperação entre os seres humanos. Em lugar da fragmentação provocada pelo sectarismo, a fraternidade estabelece um princípio comum capaz de aproximar os indivíduos.

A caridade torna-se, assim, um ponto de convergência entre o aperfeiçoamento individual e a transformação das relações sociais.

Visão Comparativa das Obras

Aspeto Analisado O Evangelho segundo o Espiritismo (1864) A Gênese (1868)
Foco Central Prática moral e orientação da conduta. Explicação dos princípios e das leis naturais relacionadas ao mundo espiritual e material.
Visão do Cristianismo Os ensinamentos morais de Jesus aplicados à vida prática. A compreensão racional dos ensinamentos, parábolas e alegorias.
A Reencarnação Fundamenta deveres de fraternidade, tolerância e respeito entre os seres humanos. Apresenta a reencarnação como princípio relacionado ao desenvolvimento espiritual e à condição humana.
Conceito de Fé Fé orientada pela razão e capaz de enfrentar o exame racional. Fé raciocinada como instrumento de compreensão e emancipação intelectual.

A complementaridade entre as duas obras

A relação entre O Evangelho segundo o Espiritismo e A Gênese pode ser compreendida, portanto, como uma relação entre orientação moral e compreensão dos princípios que a sustentam.

O Evangelho segundo o Espiritismo dirige o indivíduo para a transformação de sua conduta: mostra o que fazer diante de si mesmo e dos outros. A Gênese, por sua vez, amplia a compreensão dos mecanismos e das leis naturais envolvidos nesse processo, ajudando a compreender como e por que essa transformação se insere na ordem geral da existência.

Não se trata, portanto, de duas perspectivas independentes, mas de dois momentos complementares de uma mesma construção. A prática moral encontra sua explicação nos princípios apresentados pela Codificação, enquanto a compreensão das leis naturais encontra sua finalidade na transformação do indivíduo e de suas relações com os demais.

Nesse sentido, a Codificação apresenta uma unidade de pensamento: compreender as leis da existência conduz à transformação moral, e a transformação moral dá sentido prático à compreensão dessas leis.




A Lógica dos Atributos Divinos em A Gênese e O Céu e O Inferno

Há uma conexão conceitual profunda entre o Capítulo II de A Gênese e o Capítulo VII de O Céu e o Inferno. Em ambas as obras, Allan Kardec parte de uma mesma concepção de Deus e utiliza os atributos divinos como critério racional para avaliar as doutrinas religiosas.

Em A Gênese, essa concepção é apresentada como um princípio de análise: qualquer ideia sobre Deus que contradiga seus atributos essenciais não pode ser logicamente aceita. Em O Céu e o Inferno, Kardec aplica esse mesmo critério ao exame da doutrina das penas eternas.

Deus como ponto de partida da análise

No Capítulo II de A Gênese, Kardec estabelece que Deus deve ser concebido como único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, além de infinito em todas as suas perfeições.

Essa definição não é apresentada apenas como uma formulação teológica. Ela funciona como um critério lógico. Se uma determinada concepção de Deus atribui à Divindade uma característica incompatível com a perfeição, essa concepção entra em contradição consigo mesma.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se determinado dogma é tradicional ou amplamente aceito. É verificar se ele é compatível com a própria ideia de Deus que pretende sustentar.

É justamente esse método que Kardec emprega posteriormente ao analisar as penas eternas.

A infinitude de uma perfeição exclui a imperfeição contrária

O raciocínio desenvolvido por Kardec baseia-se em uma ideia simples:

Se Deus é infinitamente bom, não pode possuir qualquer parcela de maldade. Se é infinitamente justo, não pode praticar uma injustiça. Se é infinitamente misericordioso, não pode ser eternamente implacável diante do arrependimento sincero.

Em A Gênese, Kardec utiliza uma comparação para tornar esse princípio compreensível: aquilo que é absolutamente perfeito em determinada qualidade não pode conter o menor grau da qualidade contrária.

Essa lógica é fundamental porque transforma os atributos divinos em um verdadeiro critério de coerência. Não se trata de escolher arbitrariamente quais características de Deus devem prevalecer; trata-se de verificar se uma determinada doutrina pode coexistir com a ideia de uma Divindade infinitamente perfeita.

A aplicação do princípio à doutrina das penas eternas

É nesse ponto que a relação com O Céu e o Inferno se torna especialmente significativa.

Ao examinar a doutrina das penas eternas, Kardec não começa simplesmente afirmando que ela é injusta. Ele procura demonstrar por que ela é incompatível com os atributos atribuídos a Deus.

Se uma falta cometida durante uma existência limitada pudesse produzir uma punição absolutamente interminável, haveria uma questão de proporcionalidade. Uma ação finita produziria uma consequência infinita e irreversível.

Para Kardec, isso não corresponde à ideia de justiça soberana.

A justiça divina, por ser perfeita, não poderia estabelecer uma penalidade cuja duração não guardasse qualquer relação com a natureza da falta e que tornasse impossível qualquer recuperação do Espírito.

A pena, nessa perspectiva, precisa possuir uma finalidade. O sofrimento decorrente do erro deve conduzir o Espírito à compreensão, ao arrependimento e à transformação. Uma punição que jamais termina e que não permite qualquer possibilidade de regeneração deixa de possuir finalidade educativa.

Justiça, bondade e misericórdia

A incompatibilidade torna-se ainda mais evidente quando se considera a bondade divina.

Um Deus infinitamente bom não poderia desejar eternamente o sofrimento de uma criatura. Tampouco seria coerente conceber uma Divindade que recusasse para sempre o arrependimento de um ser que, tendo reconhecido seu erro, desejasse modificar-se.

Isso não significa eliminar a responsabilidade pelos atos praticados. Ao contrário: a doutrina espírita preserva a responsabilidade individual e a consequência dos atos. O que ela rejeita é a ideia de uma condenação definitiva e sem possibilidade de progresso.

A diferença é fundamental.

A justiça não deixa de existir porque existe possibilidade de recuperação. O Espírito continua enfrentando as consequências de suas escolhas, mas essas consequências passam a ter uma função: fazê-lo compreender o erro e conduzi-lo ao progresso.

Nesse sistema, justiça e misericórdia não são atributos concorrentes. A misericórdia integra a própria justiça divina porque oferece ao Espírito a possibilidade de reparar e transformar-se.

A finalidade da punição

Outro ponto importante do raciocínio de Kardec é a finalidade da pena.

Uma punição puramente retributiva, cujo único objetivo fosse fazer sofrer indefinidamente, não produziria qualquer aperfeiçoamento. Se o Espírito estivesse condenado eternamente ao mal, não haveria razão para esperar dele arrependimento, reparação ou progresso.

A pena eterna, portanto, entraria em conflito não apenas com a bondade e a justiça, mas também com a própria finalidade da existência espiritual.

Na perspectiva espírita, o sofrimento não constitui um fim em si mesmo. Ele está relacionado às consequências das escolhas e ao processo de aprendizado do Espírito. O objetivo último é o progresso.

Assim, a possibilidade de regeneração não enfraquece a justiça divina. É precisamente o que permite que justiça, bondade e finalidade educativa permaneçam coerentes entre si.

Uma mesma estrutura de raciocínio

A relação entre os dois capítulos pode ser compreendida como uma sequência lógica.

Em A Gênese, Kardec estabelece o critério: Deus deve ser concebido como infinitamente perfeito, e qualquer teoria que contradiga seus atributos deve ser rejeitada.

Em O Céu e o Inferno, esse critério é aplicado a uma questão específica: a possibilidade de penas eternas.

O raciocínio pode ser resumido da seguinte maneira:

1. Deus é infinitamente perfeito.

2. Uma perfeição infinita exclui a existência de sua qualidade contrária.

3. Portanto, uma doutrina atribuída a Deus não pode implicar injustiça, crueldade ou ausência absoluta de misericórdia.

4. A condenação eterna de um Espírito por faltas cometidas durante uma existência limitada implicaria uma punição sem possibilidade de reparação ou progresso.

5. Tal concepção é incompatível com a justiça, a bondade e a misericórdia infinitas atribuídas a Deus.

6. Logo, a ideia de penas eternas não é compatível com a concepção de Deus apresentada por Kardec.

Essa é a força do argumento: a rejeição das penas eternas não aparece como uma preferência moral isolada, mas como consequência da própria definição de Deus adotada pelo autor.

Da definição de Deus à consequência doutrinária

A importância desse paralelo está justamente no método.

Kardec não constrói uma concepção de Deus para depois abandonar seus próprios critérios quando analisa outras questões. Ao contrário, utiliza os atributos divinos como referência constante.

O Capítulo II de A Gênese fornece a base conceitual; o exame das penas eternas em O Céu e o Inferno mostra uma aplicação dessa base a um problema doutrinário concreto.

Pode-se dizer, portanto, que há entre os dois textos uma continuidade de raciocínio: primeiro se estabelece o que deve ser entendido por Deus; depois se verifica quais consequências doutrinárias são compatíveis com essa definição.

A questão das penas eternas torna-se, assim, um teste de coerência.

Se Deus é soberanamente justo e bom, sua justiça não pode ser injusta; sua bondade não pode conter crueldade; sua misericórdia não pode ser anulada por uma condenação irrevogável; e sua perfeição não pode coexistir com uma imperfeição que a contradiga.

É nesse sentido que a crítica de Kardec às penas eternas não depende apenas de uma interpretação particular sobre o castigo. Ela decorre de uma estrutura filosófica mais ampla: a concepção de Deus deve ser coerente com seus próprios atributos, e qualquer doutrina que negue esses atributos não pode ser aceita como verdadeira.

Assim, A Gênese apresenta o princípio geral, enquanto O Céu e o Inferno demonstra uma de suas consequências. A definição de Deus não permanece uma afirmação abstrata: ela funciona como instrumento de análise e permite avaliar racionalmente as consequências das doutrinas religiosas.