Uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec

Prezado leitor, seremos breves sobre o assunto, colocando uma pedra sobre o negacionismo ao redor das adulterações das obras de Allan Kardec. A bibliografia utilizada consta ao final. O texto será apresentado em tópicos sucintos, para facilitar a leitura.

Antes de começar, saiba que você pode obter as obras originais de Kardec, já liberadas em PDF pela editora FEAL, clicando aqui.

1. A figura de Roustaing

Por volta da década de 1860, emerge a figura de Jean-Baptiste Roustaing, influente e rico advogado francês, buscando se projetar no meio espírita. Esse senhor passa a receber psicografias, por meio de apenas uma médium, de um ou mais Espíritos que se diziam os próprios evangelistas, reproduzindo dogmas absurdos, dentre os quais ((ROUSTAING, Os Quatro Evangelhos, volumes I a IV, FEB)):

  • o dogma da queda pelo pecado, afirmando que o indivíduo só precisa encarnar depois que comete um erro;
  • o dogma do corpo fluídico de Jesus, afirmando que ele nunca esteve encarnado entre nós, sendo apenas uma materialização;
  • o dogma da retrogradação da alma (“involução”), ao afirmar que o Espírito que erra muito encarna como uma lesma (“criptógamo carnudo”).

2. Roustaing odiava a ciência espírita

Roustaing e seus seguidores passaram a odiar a ciência espírita e o método de Kardec, pois esse método era o seu calcanhar-de-aquiles, facilmente colocando abaixo sua teoria. Esse ódio transparece na publicação, em 1882, do panfleto Les quatre évangiles de J. B. Roustaing- réponse à ses critiques et à ses adversaires, édité par les élèves de J. B. Roustaing (Os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing — resposta a seus críticos e a seus adversários, editado pelos discípulos de J. B. Roustaing), um panfleto escrito dezesseis anos antes por Roustaing.

As intenções de Roustaing são confirmadas pelos Espíritos, quando Kardec, em 16 de setembro de 1862, questiona a respeito desse senhor, que desejava que Kardec fosse até sua casa, ao invés de visitar os espíritas operários:

Não, em geral, ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Nem Céu, Nem Inferno: as leis da alma segundo o Espiritismo. Editora FEAL, 2020.

3. A nova edição de O Céu e o Inferno

Logo após a morte de Kardec, surge uma nova edição de O Céu e o Inferno, contendo, dentre tantas alterações terríveis:

  • A remoção do prefácio da obra, onde Kardec expõe justamente o método científico necessário para a Doutrina Espírita;
  • A alteração completa do capítulo VIII, tornando-se VII, com a criação do subtítulo “Código Penal da Vida Futura”, um título absurdo, nele inserindo o item 10, onde se diz que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — o mesmo dogma de Roustaing, extenuadamente combatido por Kardec e pelos Espíritos.
  • A perda da correspondência entre os 25 itens do capítulo VIII com o restante do livro.

4. A nova edição de A Gênese

Em 1872, surge a nova edição de A Gênese, onde constam adulterações muito importantes:

Removido o item 2 do capítulo IV, onde Kardec fala justamente sobre os princípios de fé cega e obediência passiva: “A veneração aos livros sagrados, quase sempre considerados como tendo descido do céu, ou inspirados pela divindade, proibiam qualquer exame”.

  • Sobre a desaparição do corpo de Jesus, foi removido o item 67, em que Kardec trata da questão do desaparecimento do corpo de Jesus, afirmando que a questão ainda não havia sido completamente solucionada pela ciência espírita: “Ora, até o presente, nenhuma das [opiniões pessoais] que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle”. Lembre-se: Roustaing admitia o dogma de que Jesus estava entre nós apenas em materialização do corpo fluídico, e odiava o método do duplo controle ((“Esse duplo controle é basilar e obrigatório para a aceitação de qualquer novo conceito fundamental da doutrina espírita por Kardec. Enquanto isso não tenha ocorrido, será considerada simples opinião, quer tenha vindo de um homem, quer de um Espírito” — FIGUEIREDO, 2021)).
  • No capítulo XVIII, item 20, foi removido todo o trecho em que Kardec diz: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência”.
  • No item 24 do mesmo capítulo, foi removido todo o item 24, em que Kardec faz grave observação acerca dos inimigos do progresso moral (grifos nossos):

Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria.

Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.

5. Adulteração publicada em Obras Póstumas

Na publicação de Obras Póstumas, por Pierre Gaetan Leymarrie, o autor insere uma psicografia adulterada, na qual Kardec está solicitando conselhos sobre a nova edição de A Gênese, que ele estava, sim, elaborando:

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrinatudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa psicografia clicando aqui.

Leymarie, buscando reforçar a ideia de que a quinta edição de A Gênese (já colocada sob questionamento desde aquela época) teria sido produzida pelas mãos de Kardec, utiliza apenas o trecho final desse diálogo, descartando o início dele e inserindo um trecho que não existia, no começo:

22 de fevereiro de 1868.
(Comunicação particular — Médium: Sr. D…)
A gênese

Em seguida a uma comunicação em que o Dr. Demeure me deu conselhos muito sábios sobre modificações a serem feitas no livro A gênese, para a sua reimpressão, da qual ele me concitava a cuidar sem demora, eu lhe disse:

— A venda, até aqui tão rápida, sem dúvida esfriará; foi um efeito do primeiro momento. Creio bem que a quarta e a quinta edições custarão mais a esgotar-se. Todavia, como é preciso certo tempo para a revisão e a reimpressão, cumpre que eu não esteja desprevenido. Poderias dizer-me de quanto tempo, mais ou menos, disponho para tratar disso?

Resposta — É um trabalho sério essa revisão e eu te aconselho que não tardes muito a começá-lo. Será melhor que o tenhas pronto antecipadamente, do que ficarem à tua espera. Contudo, não te apresses demais. Sem embargo da aparente contradição das minhas palavras, tu de certo me compreendes. Põe-te desde já a trabalhar, porém, não lhe consagres excessivo tempo. Faze-o com o devido vagar; as ideias se te apresentarão mais claras e o teu corpo lucrará, fatigando-se menos.

Deves, entretanto, contar com um esgotamento rápido dos volumes. Quando nós te dizíamos que esse livro seria um grande êxito entre os que tens tido, referíamo-nos simultaneamente a êxito filosófico e material. Como vês, eram justas as nossas previsões. Importa estejas pronto para qualquer momento; as coisas se passarão com maior rapidez do que supões.

6. O fato jurídico insuperável

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal — assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni PrivatoJúlio NogueiraLucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, leigos em matéria de direito autoral têm encontrado ressonância em alguns indivíduos e, também, na Federação Espírita Brasileira, trabalhando por manter uma tese negacionista e contrariando a lei.

7. Late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, mas é um pássaro?

Tendo chegado aqui, tendo dado a devida atenção aos fatos, verificáveis na bibliografia indicada, o prezado leitor, além de tudo agindo de maneira racional e lógica (e respeitando a lei) não poderá ter nenhuma dúvida sobre os fatos das adulterações. Dizer em contrário seria contraria a lei e renegar aquilo que é transparente. Afinal, se late como cão, abana o rabo como cão, tem forma de cão, definitivamente é um cão, e não um pássaro — mas “alguns” querem que seja.

Ora, prezado leitor, para dar azo à tese negacionista desses senhores, tentando sustentar que não foram adulterações, mas sim modificações feitas pelas mãos de Kardec:

  • seria, em primeiro lugar, necessário contrariar a lei;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Roustaing odiava a ciência espírita e que queria tomar o lugar de Kardec;
  • seria necessário ignorar, voluntariamente, que Guerin, influente e rico seguidor de Roustaing, ofereceu sua influência ao redor dos novos presidentes da Sociedade Anônima;
  • seria necessário admitir que Kardec, sem nenhuma explicação possível, removeu trechos tão importantes justamente nos pontos de maior choque com as teses roustainguistas ou seu modus operandi;
  • seria necessário admitir que Kardec contrariou a ciência espírita, para dizer, na adulteração de O Céu e o Inferno, que todas as vicissitudes que aqui sofremos seriam resultados de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, nesta ou em outras vidas. O efeito dessa ideia é, por força de lógica, admitir que todas as dificuldades que passamos seriam fruto de imperfeições adquiridas, como espécie de castigo, levando à ideia de que só encarnariam aqui Espíritos imperfeitos, necessitando de correção — exatamente a tese roustainguista, “por acaso”. Isso é falso e, aliás, é desmentido inclusive na Gênese adulterada, na análise da passagem do Cego de Nascença: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso”.
  • seria, necessário ignorar voluntariamente que Leymarie, para dar suporte à tese de que a 5⁠ª edição de A Gênese teria sido produzida por Kardec, publicou uma psicografia adulterada, cortando a parte que toca na importância de NÃO REMOVER NENHUMA IDEIA DOUTRINÁRIA, coisa feita na adulteração.
  • seria necessário aposentar a racionalidade frente a coisas tão óbvias, deixando de lado a orientação tão importante de Erasto: “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230 de O Livro dos Médiuns).

8. Conclusão

Não estamos aqui para tentar forçar o entendimento de quem não quer entender e, por desejar admitir sofismas, dá azo à fascinação — como Roustaing fez, frente a ideias tão absurdas como aquelas. Para quem quer entender, está claro como água. Que cada um cuide de investigar melhor para chegar às suas próprias conclusões — após ter investigado tudo, e não antes.

9. Bibliografia




O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita

O que se conhece de Espiritismo no Brasil passa, necessariamente, pela imagem de um Movimento Espírita formado majoritariamente pela influência da Federação Espírita Brasileira. Contudo, quanto mais estudamos, mas estranhamos a distância inquestionável desse Movimento com o Espiritismo original. Começamos a nos perguntar, então: “o que aconteceu?”. Informações recentemente descobertas nos colocaram a par daquilo que, para alguns, já é muito claro, há muito tempo.

Tudo começou com a leitura dos livros Autonomia – A História Jamais Contada Do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo e Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec, de Wilson Garcia. O fato inconteste, finalmente vem dar luz às nossas dúvidas: a Federação Espírita Brasileira é uma instituição de tradição e raízes roustainguistas, desde seus primeiros passos!

Roustaing

Roustaing — Jean-Baptiste Roustaing — para quem não sabe, foi um poderoso advogado à época de Kardec. Resumidamente, passou a receber comunicações espíritas através de uma médium — sim, apenas uma médium. Nessas comunicações, “os Espíritos” (provavelmente era apenas um) apresentavam-se como sendo os quatro evangelistas e diziam que ele, Roustaing, era o Revelador das Revelações. Não é necessário dizer que isso era uma flagrante mistificação, é? Diremos: isso era uma flagrante mistificação, facilmente reconhecida por alguém que conhecesse profundamente a ciência espírita. Esse alguém, Kardec, critica a obra transmitida por esses Espíritos, “Os Evangelhos”, e, assim, tocando no orgulho e na vaidade gritantes daquele senhor, cria um novo inimigo.

Dentre os dogmas admitidos por esse senhor, estava a ideia de que um Espírito que erra muito é enviado para um planeta inferior, onde encarnaria como uma lesma (“criptógamos carnudos”). Havia também o dogma da queda pelo pecado, onde o ser humano somente teria que encarnar após cometer um erro e, assim, adquirir uma culpa que o projetaria a um castigo, pela encarnação — a mesma ideia inserida na adulteração de O Céu e o Inferno — bem como o dogma de que Jesus era apenas um agênere, ou seja, jamais encarnou entre nós.

Ideias místicas, por alguma razão que não compreendemos, agradam a muitos, por mais complicadas e sem sentido que possam nos parecer, frente à inquebrantável cristalinidade do Espiritismo. Assim, essas ideias encontraram coro ainda em território Francês, inclusive por Leymarrie, responsável maior pela adulteração dos propósitos da Sociedade Anônima e da Revista Espírita, após a morte de Kardec. Logo, essas ideias foram importadas para solo brasileiro, onde se fundou o Grupo Sayão ((Antônio Luis Sayão, esse mesmo, cultuado pela FEB)), ou Grupo dos Humildes, ou Grupo Ismael. Nesse grupo, aliás, comunicava-se o Espírito do “Anjo” Ismael, reproduzindo diversos absurdos misticistas, o mesmo “Anjo” Ismael que aparece em “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, uma obra produzida por um Espírito mistificador, repleta de absurdos misticistas e mesmo de mentiras. Desse grupo fazia parte, também, o tão conhecido Dr. Bezerra de Menezes. É.

O “anjo” Ismael

Esse tão aclamado “anjo” Ismael é tão cínico, tão hipócrita, que, demonstrando sua imperfeição, chega ao nível de dizer que Kardec teria tido uma opinião isolada a respeito da encarnação de Jesus:

Se a opinião isolada do vosso bom mestre Allan Kardec pôde, de alguma sorte, influir no entendimento de alguns, fazendo-lhes crer que o Redentor do mundo viera revestir-se da matéria grosseira dos corpos comuns, para dar o exemplo das maiores virtudes, encaminhando a humanidade inteira para a terra da promissão, hoje, que todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente, que o seu corpo apenas se constituíra de fluidos concentrados no seio da sempre Virgem Maria, não há mais razão de ser para duas opiniões a tal respeito.

As virtudes do céu: a admirável coleção de mensagens recebidas nos primórdios do Grupo Ismael e constantes da segunda edição de Elucidações Evangélicas, de Antônio Luiz Sayão / organizador: Marco Aurélio L. de Assis. — Rio de Janeiro: CRBBM, 2012.

É interessante ver como, sendo a dele uma opinião isolada, ele busca inverter o jogo, ao mentir dizendo que, hoje, “todos os Espíritos bem iluminados afirmam que o nascimento de Jesus foi todo aparente”. É o velho dogma de Roustaing, de que o corpo é imundo, que a encarnação é um castigo e que, portanto, Jesus não poderia ter encarnado. Importa dizer que essa concepção da encarnação como castigo se instalou no Movimento Febiano-Espírita em grande parte, pois repete-se por todo canto a ideia de que o indivíduo que passa por uma dificuldade qualquer, mesmo quando imposta por outrém (como no caso de um crime) ou quando por conta de uma doença, apenas estaria “resgatando débitos de vidas passadas”.

FEB, roustainguista

Antes do Grupo Sayão, fundou-se o Grupo Confúcio. A esse Grupo pertenceram, entre outros, o Dr. Siqueira Dias, Dr. Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Dr. Antonio da Silva Neto, Dr. Joaquim Carlos Travassos, Prof. Casimir Lieutaud. Muitos desses vocês verão no material disponibilizado, declarando sua “fé” em Roustaing e nos seus quatro Evangelhos. A esse grupo seguiu a Sociedade de Estudos Espíritas “Deus, Cristo e Caridade”, fundada em março de 1876. “Deus, Cristo e Caridade” é, até hoje, o lema da FEB.

“Acedendo Bezerra de Menezes em aceitar a Presidência da Federação, em 1895, o ‘Grupo Ismael’ acompanhou o apóstolo, apoiou-o na direção da Casa e integrou-se a ela”, conforme se lê no portal da própria FEB (A FEB – Origens), acessado em 23/06/2024. Assim, passou a dominar a FEB um grupo roustainguista, que se estabeleceu e criou raízes que atravessariam o século XX, adentrariam o século XXI e, nos primeiros anos desse, em 2018, embora deixassem o estatuto febiano, que anteriormente obrigavam o estudo e a disseminação dessas obras, continuaram em suas entranhas, posto até hoje essa instituição não ter assumido publicamente seus desvios e se comprometido à reparação.

O coordenador da Assessoria jurídica do CFN, Francisco Ferraz Batista, apresentou o resultado dos processos havidos na 29o Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, sobre a retirada, do Estatuto da FEB, da parte do item referente à divulgação e estudo das obras de J.B Roustaing. Os resultados foram favoráveis à FEB, para a retirada do referido trecho do item do seu Estatuto, o que deverá ocorrer, formalmente, em reunião da Assembleia Geral.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Ata da Reunião Ordinária do CFN – 2018. Disponível em: https://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2019/01/CFN_FEB_Ata_da_Reuniao_Ordinaria_de_2018.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

Julio Nogueira, no artigo “Breve exame dos estatutos da FEB ((NOGUEIRA, Julio. Breve exame dos estatutos da FEB. Disponível em: http://www.telma.org.br/artigos/breve-exame-dos-estatutos-da-federacao-espirita-brasileira-1883-1924-mudanca-de-orientacao-inicial-inclusao-de-roustaing-so-realizada-na-reforma-estatutaria-de-1917-criacao-de-sistema-de-poder-exclusivista-que-nao-nasce-do-consenso-ent. Acesso em: 24 jun. 2024.))”, explica bem sobre o estatuto febiano e suas relações com Roustaing.

A FEB deixou o roustainguismo?

A retirada desse trecho do estatuto da FEB obviamente não retirou Roustaing de suas entranhas, posto que continua constando a obrigatoriedade do estudo de “Brasil, Coração do Mundo”, obra que continua sustentando a mentira sobre Roustaing, destacada por nós em negrito:

“Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário, no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, designados particularmente para coadjuvá-lo, nas individualidades de João-Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico”.

CAMPOS, Humberto de. Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB – Federação Espírita Brasileira, 1938. Disponível em: https://files.comunidades.net/portaldoespirito/Brasil_Coracao_do_Mundo_Patria_do_Evangelho.pdf. Acesso em: 24 jun. 2024.

É assim que, “para ser espírita”, na generalidade dos centros espíritas em que se pise, te direcionarão à catequização febiana, estudando o “Espiritismo” não nas obras de Kardec, mas nas apostilas da Federação Espírita Brasileira, onde, trazendo como obra básica “Brasil, Coração do Mundo”, valida-se ao mesmo tempo a mentira sobre a figura de Roustaing e o misticismo do “anjo” Ismael. Valida-se, por conseguinte, toda a tradição febiana e o descarte de toda a metodologia e toda a organização necessárias para a continuidade do desenvolvimento do Espiritismo, substituindo-se toda a ciência espírita pela crença cega nos Espíritos e nas personalidades chanceladas pela FEB…

Cita Sérgio Aleixo:

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Máter do rustenismo no mundo, que registra:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.

ALEIXO, Sérgio. O roustainguismo nas obras de Chico Xavier. Disponível em: https://memoriaspirito.wordpress.com/roustainguismo-herculano-pires/roustainguismo-chico-xavier-sergio-aleixo/. Acesso em: 24 jun. 2024.

Poderíamos estender este artigo longamente, demonstrando que os presidentes dessa instituição sempre foram roustainguistas; que a FEB, várias vezes, conforme se lê em O Reformador, colocou Roustaing acima de Kardec; que a FEB, no início do século XX, publicou a obra Os Evangelhos, de Roustaing, trazendo, no prefácio, uma verdadeira afronta a Kardec, ao Espiritismo e aos espíritas confessos. Deixaremos essa constatação a cargo do prezado leitor, que encontrará no material aqui disponibilizado, obtido em grande parte do próprio site da FEB (no Google, pesquise assim: “site:febnet.org.br Roustaing”), a prova do que ora dizemos. Limitamo-nos a destacar a seguinte imagem, obtida de um documento oriundo do site da própria FEB:

https://www.febnet.org.br/ba/file/Horarios/3_feira_O_Evangelho.pdf

Importante também destacar que, no domínio da FEB, consta um glossário, “Espiritismo de A a Z”, constando a explicação de termos e vocábulos — à luz do Espiritismo, óbvio? Não. À sombra de Roustaing:

http://www.sistemas.febnet.org.br/site/az/AZ-Vocabulos-e-Conceitos.php?CodVoc=380&L=3&busca=&CodLivro=

Atualização de maio de 2026

Não, a FEB não deixou o Roustainguismo para trás. Como vocês podem ver na imagem abaixo, obtida do instagram oficial da FEB, temos, no dia 19/05, a realização de duas palestras (até o momento não pulicadas) baseadas em QE, que nada mais é que Os Quatro Evangelhos de Roustaing!

Movimento Espírita afastado do Espiritismo

Ocuparemo-nos, porém, de avaliar os efeitos de um Movimento Espírita formado pela FEB:

Espíritas que desconhecem o Espiritismo; espíritas que têm medo dos Espíritos; espíritas que não evocam os Espíritos, questionando as comunicações evidentemente enganosas; espíritas que creem cegamente nas comunicações dos Espíritos, aceitando tudo à guisa de “complemento doutrinário”; espíritas que não praticam a mediunidade no lar, crendo que isso atrairia obsessores e que – um absurdo – somente no centro espírita teriam proteção dos bons Espíritos, que se eles não fossem aos lares dos bem intencionados; espíritas, enfim, que reproduzem as diversas falsas ideias, colhidas das comunicações aceitas cegamente e das opiniões de médiuns idolatrados, provocando verdadeiro vexame ao Espiritismo e dando munição aos seus críticos.

Devemos citar que, dentre esses médiuns idolatrados, figura Divaldo Franco, que, nas palavras de Augusto dos Anjos:

Divaldo Pereira Franco, o primeiro vintém, por mais de uma vez fez a mim, pessoalmente, a afirmativa de que não há como explicar os Evangelhos senão à luz da “Revelação da Revelação”. Seria uma posição reservada, apenas para meu conhecimento particular? Claro que não. Antes que tudo porque os homens de bem não têm por vezo, sob nenhum pretexto, formar posições dúbias, uma pública e outra para os amigos particulares. Esse comportamento anfibológico não cabe nos espíritos de boa moral. Depois, porque a mesma afirmativa o estimado médium baiano já a fez da tribuna, a plenos pulmões, do alto da autoridade e da retumbância que lhe reconhecemos e que tanto têm servido à iluminação espiritual de nós todos, espíritas do Brasil e de fora do Brasil. Para prová-lo, transcrevo a seguir, «verbo ad verbum», as mais recentes palavras de Divaldo Pereira Franco pro- nunciadas do alto da tribuna do Grupo Espírita Fabiano (um dos mais sérios e bem orientados grupos que existem na Guanabara), na noite do dia 6 de Outubro de 1969, estando como de costume superlotado o auditório. Eis o trecho da memorável alocução, gravada em fita magnética, com o conhecimento do orador:

“Durante muitos anos eu não entendia. Eu fui a Roustaing, que é a minha fonte inexaurível de estudo evangélico! Há quase vinte anos que eu leio o benfeitor João Batista Roustaing, meditando na sua palavrazinha, nas belas informações da Sra. Collignon, provindas da Espiritualidade. Mas é de uma interpretação maravilhosa!”

ANJOS, Luciano dos. Um gosto e 4 vinténs. Reformador, Rio de Janeiro, p. 9-11, jan. 1970. Extraído do livro A Posição Zero.

Infelizmente, esse não foi o único caso de um médium idolatrado ou de suas psicografias defendendo a figura de Roustaing e suas ideias, como poderão constatar neste artigo. Lembramos que, aqui, estamos discutindo ideias, e não julgando pessoas.

É evidente que, embora nem todo o Movimento Espírita seja filiado à FEB, os tentáculos do roustainguismo e do misticismo envolveram todo o Movimento Espírita Brasileiro. Infelizmente, esses tentáculos também atravessaram os oceanos…

Plano de Campanha

Vemos, enfim, cumprida a “profecia” realizada em 1867 e apresentada na Revista Espírita de agosto do mesmo ano, artigo “Plano de Campanha”:

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

A tão desejada unidade do Movimento Espírita não se dará pela afiliação a uma instituição que mais se assemelha ao clero católico. Não. Isso, aliás, contraria os planos para o Espiritismo, idealizados por Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1868 — Constituição Transitória do Espiritismo. Essa unidade somente se dará entre aqueles que, de boa vontade, mergulharem no estudo da ciência espírita, voltando a, depois disso, praticarem a mediunidade no lar, em pequenos grupos, harmoniosos, coesos, realizando a análise das comunicações e das evocações. Esses grupos, espalhados por toda parte, colaborando entre si, sem nenhuma submissão ao controle de uma instituição, mas, sim, ao controle da generalidade dos ensinamentos dos Espíritos, submetidos ao crivo da razão, poderão, então, voltar a trabalhar no desenvolvimento doutrinário. Não antes, não sem isso.

Por isso, destacamos a necessidade da formação de grupos de estudos – no lar, pela internet, no centro espírita – para o estudo dedicado das obras de Kardec não adulteradas e das obras de contextualização. Deixamos, aqui, nossa modesta colaboração nesse sentido: Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos.

No dia em que a Federação Espírita Brasileira assumir seu desvio, comprometendo-se à reparação e subtraindo-se ao propósito de determinar os rumos do Espiritismo no Brasil, voltaremos a valorizá-la. Não antes, não sem isso.




Projeto Semear — Formação de Grupos de Estudos

Boas-vindas

Bem-vindos a esta jornada, amigos de Kardec! Que satisfação vê-los aqui, almas queridas, buscando o aprendizado tão importante e do qual os espíritas se desviaram, há muito….

Atentem para a formação deste grupo ou dos demais. A iniciativa é seria e o assunto é grave. Os inimigos da doutrina novamente se agitam, pois que ela volta, agora, com toda a força, para cumprir aquilo que se propôs, há mais de um século. A humanidade grita: meu Deus, onde as respostas? Não encontrando a felicidade almejada, dia após dia, sem conseguir respostas satisfatórias, lançam-se às penúrias do materialismo desenfreado, do sensualismo, dos vícios e, muitos, não suportando ou não tendo maiores perspectivas, terminam por tirar a própria vida, para descobrir, afinal, que de nada isso adiantou.

O assunto, veem, é grave, e grave é a responsabilidade de todos os que se retiram do estudo, por orgulho e vaidade, para dar aos outros o lúgubre aspecto das opiniões construídas sobre distorções e adulterações.

É chegada a hora, meus amigos, de restabelecer aquilo que ficou para trás. É chegada a hora de multiplicar esforços e de semear, por toda a parte. Mas, atenção, pois os inimigos do bem, tristes indivíduos que ainda não conseguiram perceber o buraco que cavam para eles mesmos caírem, tentarão se estabelecer entre vocês. Mantenham-se em guarda, portanto, e não se esquivem da responsabilidade de manter a harmonia no grupo, abordando cada um que traga desarmonia ou desordem.

Confiem neste grupo, O Legado de Allan Kardec, que tem a particularidade de ser um raro grupo, neste planeta, formado com tanta identidade, tanta harmonia, tantos propósitos sérios, estabelecidos no passado, de trabalhar pela recuperação dessa Doutrina esquecida.

Sejam preces ambulantes, por suas disposições internas e pela aplicação dos princípios aprendidos às suas próprias vidas, e manterão, junto a vocês, a companhia de bons Espíritos, encarnados ou desencarnados. Não esqueçam: os bons Espíritos, seus anjos guardiões ou Espíritos protetores, abençoam esta empreitada e estarão junto a cada um de vocês, inspirando-os e intuindo-os.

União, fé, amor e caridade: este, o lema que cada indivíduo deve carregar no peito, aplicado em todo o seu entendimento e em toda a sua extensão, a si e no contato com os demais.

União: a unidade garantida pelos propósitos legítimos e pelo entendimento adequado do Espiritismo

Fé: a fé raciocinada, tão esquecida pelo Movimento Espírita, construída do entendimento racional, sem dúvidas possíveis, dos princípios da Doutrina Espírita.

Amor: o amor ao próximo, como a si mesmo. É necessário paciência e perseverança consigo mesmo, além de reconhecimento dos passos já dados, do caminho já percorrido. O mesmo deve ser aplicado aos demais.

Caridade: a caridade verdadeira é o dever moral, cumprido sem esperança de premiação ou reconhecimento. É o compartilhar, o aprender e o ensinar. Esse é o bem, a felicidade, e é por retirar-se desse papel que o indivíduo se lança nos despenhadeiros do personalismo, do egoísmo, do orgulho.

A partir de agora, esqueça os romances, esqueça o que aprendeu no Movimento Espírita ou no Centro Espírita. A partir de agora você está começando do zero e vai aprender o Espiritismo da maneira certa!

Orientações gerais

  1. A ideia é auxiliar na formação de um novo grupo ou mais, onde os participantes cuidarão de se organizarem a esse respeito. Nós daremos toda a orientação e o suporte necessários. Precisamos que uma ou mais pessoas se apresentem como iniciadores do núcleo central do grupo, de maneira pró-ativa.
  2. A proposta é que vocês criem um ou mais grupos, organizando-se entre vocês. Estaremos, junto ao meu grupo, no papel de apoiadores e orientadores.
  3. Pontualmente, poderemos elaborar estudos especiais, com a participação do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec, ou de vocês conosco.
  4. Comecem estudando “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo” e “Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal”, de Paulo Henrique de Figueiredo. Alternativamente, assistam aos vídeos destacados no tópico Materiais para estudos.
  5. Estimulamos que vocês comecem necessariamente pelo estudo da Revista Espírita. Após o estudo dos dois primeiros anos, enquanto continuam esse estudo, poderão ver a necessidade de criar um novo horário para estudar O Livro dos Médiuns. Nesse ponto, vocês estarão muito mais maduros para esse estudo.
  6. O estudo deve ser ao-vivo, por vídeo ou pessoalmente. WhatsApp é ferramenta de apoio.
  7. Não devem existir professores. Todos devem se colocar na condição de estudante que não conhece nada do Espiritismo. Foi assim que começamos.
  8. Sugestão:

    • Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo.
    • Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo.
    • No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim o grupo sai da leitura maçante.
    • Quem não fizer o estudo antes acabará tendo a possibilidade de não entender adequadamente o conteúdo. Isso é um estímulo ao estudo.
    • Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos.
    • As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, poderão ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições;

  9. Criem regras. Vejam as nossas sugestões no tópico seguinte, Sugestão de regras.
  10. Aprendam a não sistematizar conclusões sobre os artigos da Revista Espírita. Kardec deixa bem claro quando um estudo qualquer está devidamente concluído, ao menos de momento. Muitos artigos são apresentados como hipóteses, apenas.
  11. Criem documentos no Google Drive com o conteúdo de cada estudo, e façam um estudo prévio, fazendo anotações e comentários nesse documento. Isso ajuda a enriquecer o aprendizado.
  12. Não visem números. Prefiram qualidade. Estudem em pequenos grupos, coesos, harmoniosos, e não tenham medo de chamar a atenção, com firmeza e caridade, daqueles que eventualmente destoem das regras e da harmonia do grupo.
  13. Deixem os romances mediúnicos e demais obras de lado. O estudo das obras de contextualização e das obras de Kardec já lhes tomará bons anos.
  14. Não busquem Espiritismo prático (reuniões mediúnicas), de início. Se houverem médiuns entre vocês, sobretudo com a mediunidade muito aflorada, é importante formar um grupo à parte, ainda mais coeso e harmonioso. Muitos cuidados serão necessários. Nesse caso, não deixem de buscar apoio em nós.
  15. Sobretudo, não se esqueçam de manter contato conosco. Cuidaremos de registrar sua(s) iniciativa(s) em nosso site e ficaremos muito felizes de podermos trocar experiências e aprendizados com vocês.
  16. Evitem apenas produzir longos vídeos para o Youtube. Foquem, principalmente, conforme o aprendizado for se estabelecendo, em produzir vídeos curtos e, principalmente, textos em blogs, de maneira colaborativa (textos em blogs são facilmente encontrados em pesquisas do Google).
  17. À medida do possível, envolvam também os jovens nesse trabalho de aprendizado, seja nos seus próprios grupos, seja incentivando-os a formarem novos grupos. Espalhem esse propósito.

Sugestão de regras

Estudos da Revista Espírita, em grupo

OBJETIVO DO GRUPO

  • O nosso principal objetivo é conhecer o Espiritismo em sua essência e aplicar esse conhecimento em nossas próprias vidas. Ao mesmo tempo, porém, desejamos fazer isso de uma forma simples, clara e amistosa, de modo que nossos estudos sejam facilmente entendidos pelo público, razão pela qual realizamos um estudo prévio e a elaboração de um conteúdo, de forma que possamos extrair o melhor de cada assunto.
  • Após cada estudo, visamos produzir artigos, neste site, que complementem e formalizem o estudo, mas que também permitam a inclusão de deficientes auditivos. É por isso, principalmente, que os estudos precisam ser simples e, em simultâneo, profundos como possível.
  • Diferentemente de outros estudos do Espiritismo, que partem de obras conclusivas, nós estamos partindo de um periódico que demonstra o método de exploração, de raciocínio e de dedução de Allan Kardec, na construção do Espiritismo (aqui entendido na parte humana dessa ciência). Existe um enorme ganho em fazer assim, mas não estamos desatentos aos assuntos que precisam ser complementados com conclusões posteriores, de modo a não ficarem “capengas”, como é o caso da teoria dos fluidos, abandonada por Kardec em sua obra final, A Gênese.
  • A Revista Espírita, diferentemente de outras obras, é um periódico que combina:

    • assuntos e “causos” da época — que, longe de serem desinteressantes, serviam para dar suporte à Doutrina, baseado no cotidiano dos fatos espíritas vivenciados dentre a população mundial, mas que, do ponto de vista atual, muitas vezes não tem muita relevância para o nosso estudo
    • escritos muito mais densos e bem elaborados por Kardec, com extrema perspicácia, que pouco a pouco, e de forma muito organizada, vão construindo toda essa ciência que é o Espiritismo — ciência desconhecida e esquecida atualmente.

  • A importância da Revista Espírita não é apenas moral, mas também prática. Ao estudá-la, vemos uma constante construção de conhecimentos, ao mesmo tempo em que constantemente vemos uma desconstrução de falsos conceitos atuais, como você precisa entender no artigo “O que é a Revista Espírita e como estudá-la?. Eis mais um motivo para o formato do nosso estudo, pois os falsos conceitos não se quebram aos golpes.
  • O Espiritismo precisa ser resgatado e conhecido em sua essência, tanto moral como prática, de modo que possamos retomar os estudos dessa Doutrina, junto aos Espíritos. Esse estudo tem um importantíssimo papel nesse sentido.
  • Hoje sabemos, afinal, que essa ciência não andava sozinha: muito longe disso, ela era um desenvolvimento do Espiritualismo Racional e uma “irmã gêmea”, como disse Kardec, do Magnetismo. É por isso que, oportunamente, abordamos esses conhecimentos, de forma simples, prática e pontual, já que, para se aprofundar sobre esses dois temas, recomendamos sempre a leitura das obras Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo e Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal, ambas de Paulo Henrique de Figueiredo, dentre outras (veja nossa lista de obras recomendadas).

Premissas

  • Neste grupo, partimos da conclusão que as duas últimas obras de Kardec, O Céu e o Inferno e A Gênese, foram adulteradas. Podemos indicar o porque de termos chegado a essa conclusão, mas não discutiremos sobre isso, posto que os fatos estão aí para cada um verificar.
  • Neste grupo, estuda-se o Espiritismo com base nas obras de Kardec, necessariamente. Isso não quer dizer que outras obras e outros autores não possam ser tratados, mas isso se fará desde que o que se busque seja a busca pela compreensão e pela aproximação, baseando-se no Espiritismo, e não para mero confronto.
  • A premissa mais básica de todas é o estudo. Ter lido aleatoriamente O Livro dos Espíritos ou O Evangelho Segundo o Espiritismo não é estudo. Estamos longe de ter abarcado o entendimento da doutrina por completo, mas existem pontos fundamentais que carecem de dedicação para serem compreendidos. Conte com o grupo para indicar e sugerir caminhos e conteúdos de importância.

REGRAS TÉCNICAS

  1. Entre nos nossos grupos do WhatsApp e do Telegram. É por eles que manteremos a comunicação direta com os demais integrantes. Se tiver os dois, entre nos dois.
  2. Não será dado a ninguém o direito de dar palavras finais sobre aquilo que não está devidamente estabelecido na Doutrina. Será, contudo, tomado o cuidado de, para cumprir essa regra, não recair em falta às regras n. 4, 5 e 6.
  3. Assim como Kardec tratava as opiniões de Espíritos desencarnados, tratamos as opiniões das almas encarnadas, isto é, aquilo que é apenas uma opinião, será tratado apenas como uma simples opinião e dela não faremos sistemas.
  4. Devemos evitar que qualquer tema que fuja daquele principal ou qualquer ponto de discórdia seja extenuadamente abordado durante o estudo, para não haver desvios e monopólio de palavras ou opiniões. O que fazer, nesses casos: buscar estudar, em Kardec, o assunto em questão e apresentar, em nova oportunidade, os resultados encontrados. O desrespeito a essa regra de bom-tom será prontamente interrompido por intercessão dos administradores.
  5. Todos têm a liberdade de chegar às suas próprias conclusões, levados pela própria razão, resguardados os objetivos do estudo e a base doutrinária. Por exemplo, o tema sobre a existência de colônias espirituais não está devidamente consolidado, mas a questão da reencarnação está. Se aquilo que está consolidado, na Doutrina, não foi aceito pela razão de determinada pessoa, ela com certeza se sentirá inclinada a deixar os estudos, já que não lhe falam à razão. O que não será aceito será a sistematização de opiniões pessoais no Grupo, conforme exposto acima.
  6. Não serão abordados temas políticos e religiosos (este, no sentido em que possa trazer qualquer inquietação ou humilhação. Lembramos que o Espiritismo está aberto a pessoas de todas as crenças). Aqui, parafraseamos Kardec, em Viagem Espírita em 1862:

[…] deve-se abster, nas reuniões, de discutir dogmas particulares, o que, certamente, melindraria certas consciências, ao passo que as questões de moral são de todas as religiões e de todos os países. O Espiritismo é um terreno neutro, sobre o qual todas as opiniões religiosas podem encontrar-se e se dar as mãos. Ora, a desunião poderia nascer da controvérsia. Não vos esqueçais de que a desunião é um dos meios pelos quais os inimigos do Espiritismo buscam atacá-lo; é com esse objetivo que muitas vezes eles induzem certos grupos a se ocuparem de questões irritantes ou comprometedoras, sob o pretexto especioso de que não se deve colocar a luz sob o alqueire. Não vos deixeis prender nessa armadilha, e que os dirigentes de grupos sejam firmes para repelirem todas as sugestões deste gênero, se não quiserem passar por cúmplices dessas maquinações”.

  1. O grupo não visa, atualmente, realizar qualquer tipo de “trabalho mediúnico”, o que, se um dia acontecer, demandará a criação de reuniões particulares e com os devidos cuidados para tanto.
  2. Pelo mesmo motivo acima, não vemos necessidade de sermos tão restritivos quanto às novas adesões, isto é, os novos aderentes não carecem de serem versados em Espiritismo, mas devem, de sua própria parte, fazerem estudos basilares necessários, quando não conhecerem a essência da Doutrina Espírita (que não é aquela adquirida pela leitura de romances). Recomendamos, para esse fim, ao menos a leitura das brochuras O que é o Espiritismo e Espiritismo em sua expressão mais simples.
  3. Nossas reuniões de estudo são transmitidas ao vivo no Youtube, ou são gravadas para posterior publicação nessa plataforma e em outras. Todo aquele que participar dos estudos deve estar ciente e de acordo com esse ponto fundamental.
  4. O Grupo faz uso do site https://www.geolegadodeallankardec.com.br e das plataformas virtuais diversas para divulgar o Espiritismo. Quem se sentir interessado em fazer parte disso, criando textos que possam auxiliar, devem contatar os administradores do Grupo.
  5. Todas as mídias digitais contam com outros colaboradores, igualmente colocados em função de administração, que possam cuidar do prosseguimento na eventual ausência, por tempo limitado ou indefinida, de minha parte.
  6. Tomaremos a liberdade de interromper qualquer áudio ou câmera que esteja atrapalhando a reunião.
  7. Ao participar da sala de reunião do Zoom, você está ciente que terá seu áudio e/ou vídeo compartilhados publicamente através da Internet (mais informações no formulário de inscrição, abaixo).
  8. O horário oficial de início dos estudos, com a transmissão via YouTube, é as 19:25.
  9. O período permitido para a entrada de participantes, na sala de espera (onde aprovaremos ou não sua entrada, segundo o preenchimento ou não do formulário abaixo) vai das 19:10 às 19:25. Depois disso, a permissão de entrada ficará exclusivamente sob critério dos anfitriões do grupo.
  10. A previsão de término da reunião é por volta de 20:40, às vezes se estendendo um pouquinho a mais.
  11. Antes de entrar, certifique-se de estar em ambiente favorável à participação, tanto visualmente quanto sonoramente, além de estar vestido adequadamente.
  12. De preferência, use um computador para a participação, onde será mais fácil interagir pelo chat do grupo.
  13. Por questões de organização, a reunião no Zoom e seus conteúdos didáticos são conduzidos por um integrante, que coordenará as participações de um e outro que desejem se expressar.
  14. Ao tomar a palavra, cuide para não estender demais o assunto para áreas que fujam do tema principal. Lembre-se: são 11 anos de Revista a abordar, dentre artigos acessórios e artigos fundamentais, muitas vezes com conteúdos intrinsecamente ligados entre edições diferentes, e, ainda por cima, junto aos conteúdos doutrinários complementares, tanto de Kardec, como de outros autores. Não queremos correr, mas não podemos perder tempo.
  15. Todos aqueles que desejem participar ativamente, questionando ou opinando sobre os artigos em pauta, devem observar a seguinte organização:

Fazer a leitura dos artigos relacionados ao tema ANTES da reunião de estudos. Isso permitirá que você sempre esteja a par dos assuntos, à medida que puderem ser abordados conforme o tempo disponível e a extensão de cada assunto. Reiteramos: a Revista Espírita, para estudos em grupo, não é algo que possa ser lido linha-a-linha, sem uma leitura prévia, já que muitos assuntos apresentam uma extensão formidável.

Sugestão:

  1. Dividir os assuntos do mês entre nós, onde cada um vai ficar especificamente responsável pela “apresentação” de um artigo. 
  2. Todos terão sua responsabilidade de buscar ler tudo. 
  3. No momento da reunião, o responsável vai destacar o que entendeu, os pontos de interesse, as dúvidas, pode fazer perguntas para estimular, etc. Assim a gente sai da leitura maçante
  4. Os estudos vistos como de atenção especial poderão ser vistos tb de maneira especial, com contribuição de todos, como foi o caso do remorso e como poderá ser o caso, talvez, da frenologia (RE60/jun)
  5. As evocações e as comunicações espontâneas, bem como os textos de importância especial, cremos que devem ser lidos na íntegra, mas, se estudados da forma proposta, trarão muito mais contribuições.

22. Não se desmotive caso precise se afastar por algum tempo ou caso não possa estar sempre presente. Isso acontece com todos. Continue os estudos de sua parte e volte assim que possível.

23. Reitero, por fim, o nosso objetivo de construção sobre o diálogo. Assim, nos ajude a estabelecer esse diálogo, utilizando as redes sociais para isso também.

Preencha o formulário seguinte com os dados necessários para sua admissão na reunião. Não aceitaremos entradas de pessoas não registradas.

Materiais para estudos

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1861 > Dezembro > Organização do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868 > Dezembro > Constituição transitória do Espiritismo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Plano de campanha – Era nova – Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Agosto > Dissertações espíritas > Os Espiões

O que é a Revista Espírita e como estudá-la? – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

Obras Recomendadas – Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Andragogia

AUTONOMIA – A HISTÓRIA JAMAIS CONTADA DO ESPIRITISMO – Paulo Henrique de Figueiredo

Seminário: “Magnetismo” com Paulo Henrique Figueiredo

O Bem e o Mal, Castigos e Recompensas, Sombra e Luz – Paulo Henrique de Figueiredo – 1a Parte

Link para download de todos os PDFs das obras de Kardec:

Allan Kardec Brasil

Como pesquisar nos PDFs: https://www.youtube.com/watch?v=kgjdgIiHLJk

Contato (Paulo): Clique aqui.

Foto de Greta Hoffman : https://www.pexels.com/pt-br/foto/jardim-fazenda-sitio-chacara-7728883/




A mais dura comunicação mediúnica recebida por Kardec: Plano de campanha contra o Espiritismo

No dia 10 de novembro de 1867, pelo médium Sr. T…, Kardec recebeu uma comunicação muito séria, a respeito do papel dos inimigos na luta contra o Espiritismo. Reproduzimos o artigo abaixo, na íntegra, dada a sua importância para todos os seriamente interessados no Espiritismo, já que ela demonstra os artifícios do plano de campanha contra o Espiritismo.

Plano de campanha — Era nova — Considerações sobre o sonambulismo espontâneo

(Paris, 10 de novembro de 1867 — Médium: Sr. T… Em sono espontâneo)

NOTA: Nessa sessão, nenhuma pergunta prévia provocara o assunto que foi tratado. A princípio o médium se havia ocupado de saúde, depois, pouco a pouco, viu-se conduzido às reflexões cuja análise damos a seguir. Ele falou durante cerca de uma hora, sem interrupção.

Os progressos do Espiritismo causam aos seus inimigos um terror que eles não podem dissimular. No começo brincaram com as mesas girantes, sem pensar que acariciavam uma criança que devia crescer… A criança cresceu… então eles pressentiram o seu futuro e disseram para si mesmos que em breve estariam com a razão… Mas, como se costuma dizer, o menino tinha vida dura. Resistiu a todos os ataques, aos anátemas, às perseguições, mesmo às troças. Semelhante a certos grãos que o vento carrega, produziu inúmeros renovos… Para cada um que destruíam, surgiam cem outros.

A princípio empregaram contra ele as armas de outra época, as que outrora davam resultado contra as ideias novas, porque essas ideias eram apenas clarões esparsos que tinham dificuldade de vir à luz através da ignorância, e que ainda não tinham criado raízes nas massas… hoje é outra coisa; tudo mudou: os costumes, as ideias, o caráter, as crenças; a Humanidade não mais se emociona com as ameaças que amedrontam as crianças; o diabo, tão temido por nossos avós, já não mete medo: rimos dele.

Sim, as armas antigas entortaram-se na couraça do progresso. É como se, em nossos dias, um exército quisesse atacar uma praça-forte guarnecida de canhões, com as flechas, os aríetes e as catapultas dos nossos antepassados.

Os inimigos do Espiritismo viram, pela experiência, a inutilidade das armas carcomidas do passado contra a ideia regeneradora; longe de prejudicá-lo, seus esforços só serviam para dar-lhe autoridade.

Para lutar com vantagem contra as ideias do século, seria preciso estar à altura do século; às doutrinas progressistas seria necessário opor doutrinas ainda mais progressistas, pois mas o menos não pode vencer o mais.

Então, não podendo triunfar pela violência, recorreram à astúcia, a arma dos que têm consciência de sua fraqueza… De lobos, fizeram-se cordeiros, para se introduzirem no aprisco e aí semear a desordem, a divisão, a confusão. Porque chegaram a lançar a perturbação nalgumas fileiras, cedo de mais se julgaram senhores da praça. Nem por isto os adeptos isolados deixaram de continuar sua obra, e diariamente, a ideia abre o seu caminho sem muito alarido… Eles é que fizeram o alarido… Não a vedes perpassar tudo, nos jornais, nos livros, no teatro e mesmo na cátedra? Ela trabalha todas as consciências; ela arrasta os Espíritos para novos horizontes; é encontrada no estado de intuição mesmo naqueles que dela não ouviram falar. Eis um fato que ninguém pode negar e que a cada dia se torna mais evidente. Não é a prova de que a ideia é irresistível e que ela é um sinal dos tempos?

Aniquilá-lo é, pois, uma coisa impossível, porque seria preciso aniquilá-lo não num ponto, mas no mundo inteiro; e depois, as ideias não são levadas nas asas do vento? E como atingi-las? Pode-se pegar pacotes de mercadorias na alfândega, mas as ideias são intangíveis.

Que fazer, então? Tentar apoderar-se delas, para acomodá-las à sua vontade… Pois bem! É o partido pelo qual se decidiram. Disseram de si para si: O Espiritismo é o precursor de uma revolução moral inevitável; antes que ela se realize completamente, tratemos de desviá-la em nosso proveito; façamos de maneira que aconteça com ela como com certas revoluções políticas; desnaturando o seu espírito, poder-se-ia imprimir-lhe outro curso.

Assim, o plano de campanha está mudado… Vereis formarem-se reuniões espíritas cujo objetivo confessado será a defesa da Doutrina, e cujo objetivo secreto será a sua destruição; supostos médiuns que terão comunicações encomendadas, adequadas ao fim que se propõem; publicações que, sob o manto do Espiritismo, esforçar-se-ão para o demolir; doutrinas que lhe tomarão algumas ideias, mas com o pensamento de suplantá-lo. Eis a luta, a verdadeira luta que ele terá de sustentar, e que será perseguida encarniçadamente, mas da qual ele sairá vitorioso e mais forte.

Que podem os homens contra a vontade de Deus? É possível desconhecê-la ante o que se passa? Seu dedo não é visível nesse progresso que desafia todos os ataques, nesses fenômenos que surgem de todos os lados como um protesto, como um desmentido dado a todas as negações?… A vida dos homens, a sorte da Humanidade não está em suas mãos?… Cegos!… Eles não contam com a nova geração que se ergue e que diariamente supera a geração que se vai… Ainda alguns anos e esta terá desaparecido, não deixando depois de si senão a lembrança de suas tentativas insensatas para deter o impulso do espírito humano, que avança a despeito de tudo… Eles não contam com os acontecimentos que vão apressar o desabrochar do novo período humanitário… com apoios que se vão erguer em favor da nova doutrina cuja voz poderosa imporá silêncio aos seus detratores por sua autoridade.

Oh! Como estará mudada a face do mundo para aqueles que virem o começo do próximo século!… Quanta ruína eles verão em sua retaguarda, e que esplêndidos horizontes abrir-se-ão à sua frente!… Será como a aurora afugentando as sombras da noite… Aos ruídos, aos tumultos, aos rugidos da tempestade sucederão cantos de alegria; depois das angústias, os homens renascerão para a esperança… Sim! O século XX será um século abençoado, porque verá a era nova anunciada pelo Cristo.

NOTA: Aqui o médium para, dominado por indizível emoção, e como que esgotado de fadiga. Após alguns minutos de repouso, durante os quais parece voltar ao grau de sonambulismo ordinário, ele retoma:

─ O que eu vos dizia eu então? ─ Vós nos faláveis do novo plano de campanha dos adversários do Espiritismo; depois falastes da era nova. ─ Continuo.

Enquanto esperam, disputam o terreno palmo a palmo. Eles renunciaram pouco mais ou menos às armas de outros tempos, cuja ineficácia reconheceram; agora ensaiam as que são onipotentes neste século de egoísmo, de orgulho e de cupidez: o ouro, a sedução do amor-próprio. Junto aos que são inacessíveis ao medo, exploram a vaidade, as necessidades terrenas. Aquele que resistiu à ameaça, às vezes dá ouvidos complacentes à adulação, ao gosto do bem-estar material… Prometem pão ao que o não o tem; trabalho ao artesão; freguesia ao negociante; promoção ao empregado; honras aos ambiciosos, se renunciarem às suas crenças. Ferem-no em sua posição, em seus meios de existência, em suas afeições, se forem indóceis; depois, a miragem do ouro produz sobre alguns o seu efeito ordinário. Entre esses encontram-se, necessariamente, alguns caracteres fracos que sucumbem à tentação. Há os que caem na armadilha de boa-fé, porque a mão que os manobra se esconde… Há também, e muitos, que cedem à dura necessidade, mas que não pensam menos nisso; sua renúncia é apenas aparente; eles se vergam, mas para se erguerem na primeira ocasião… Outros, aqueles que no mais alto grau têm a verdadeira coragem da fé, enfrentam o perigo resolutamente; esses vencem sempre, porque são sustentados pelos bons Espíritos… Alguns, ah!… mas estes jamais foram espíritas de coração… preferem o ouro da Terra ao ouro do Céu; eles ficam, pela forma, ligados à doutrina, e sob esse manto, apenas servem melhor à causa de seus inimigos… É uma triste troca que eles fazem, e que pagarão bem caro!

Nos tempos de cruéis provas que ides atravessar, felizes aqueles sobre os quais se estender a proteção dos bons Espíritos, porque jamais ela foi tão necessária!… Orai pelos irmãos desgarrados, a fim de que aproveitem os curtos instantes de moratória que lhes são concedidos, antes que a justiça do Altíssimo pese sobre eles… Quando eles virem rebentar a tempestade, mais de um pedirá graça!… Mas lhes será respondido: Que fizestes dos nossos ensinamentos? Como médiuns, não escrevestes centenas de vezes a vossa própria condenação?… Tivestes a luz e não a aproveitastes! Nós vos tínhamos dado um abrigo; por que o abandonastes? Sofrei, pois, a sorte daqueles que preferistes. Se vosso coração tivesse sido tocado por nossas palavras, teríeis ficado firmes no caminho do bem que vos era traçado; se tivésseis tido fé, teríeis resistido às seduções estendidas ao vosso amor-próprio e à vossa vaidade. Então acreditastes poder no-las impor, como aos homens, por falsas aparências? Sabei, se duvidastes, que não há um só movimento da alma que não tenha seu contragolpe no mundo dos Espíritos.

Credes que seja por nada que se desenvolve a faculdade da vidência em tão grande número de pessoas? Que seja para oferecer um alimento à curiosidade que hoje tantos médiuns adormecem espontaneamente em sono de êxtase? Não. Desenganei-vos. Esta faculdade, que há tanto tempo vos é anunciada, é um sinal característico dos tempos que são chegados; é um prelúdio da transformação, porque, como vos foi dito, este deve ser um dos atributos da nova geração. Essa geração, mais depurada moralmente, sê-lo-á também fisicamente. A mediunidade, sob todas as formas, será mais ou menos geral, e a comunhão com os Espíritos um estado, por assim dizer, normal.

Deus envia a faculdade de vidência nesses momentos de crise e de transição, para dar aos seus fiéis servidores um meio de frustrar a trama de seus inimigos, porque os maus pensamentos que eles julgam escondidos na sombra dos refolhos da consciência, repercutem nessas almas sensíveis como num Espelho, e se desvelam por si mesmos. Aquele que só emite bons pensamentos não teme que os conheçam.

Feliz aquele que pode dizer: Lede em minha alma como num livro aberto.

OBSERVAÇÃO: O sonambulismo espontâneo, do qual já falamos, não é, com efeito, senão uma forma de mediunidade vidente, cujo desenvolvimento era anunciado há já algum tempo, assim como o aparecimento de novas aptidões mediúnicas. É notável que em todos os momentos de crise geral ou de perseguição, as pessoas dotadas dessa faculdade são mais numerosas do que nos tempos normais. Houve muitos no momento da revolução; os Calvinistas das Cévènes, perseguidos como animais selvagens, tinham numerosos videntes que os advertiam do que se passava ao longe; por este fato, e por ironia, eram qualificados de iluminados; hoje começa-se a compreender que a visão à distância e independente dos órgãos da visão pode bem ser um dos atributos da natureza humana, e o Espiritismo a explica pela faculdade expansiva e pelas propriedades da alma. Os fatos deste gênero de tal modo se multiplicaram, que já nos admiramos menos; o que outrora a alguns parecia milagre ou sortilégio é hoje considerado como efeito natural. É uma das mil vias pelas quais penetra o Espiritismo, de sorte que, se estancam uma fonte, ele ressurge por outros caminhos.

Então, esta faculdade não é nova, mas ela tende a se generalizar, sem dúvida pelo motivo indicado na comunicação acima, mas também como meio de provar aos incrédulos a existência do princípio espiritual. No dizer dos Espíritos, ela se tornaria mesmo endêmica, o que naturalmente se explicaria pela transformação moral da Humanidade, transformação que deverá produzir no organismo modificações que facilitarão a expansão da alma.

Como outras faculdades mediúnicas, esta pode ser explorada pelo charlatanismo. Assim, é bom manter-se em guarda contra a charlatanice que, por um motivo qualquer, poderia tentar simulá-la e, por todos os meios possíveis, assegurar-se a boa-fé dos que dizem possuí-la. Além do desinteresse material e moral e da honorabilidade notória da pessoa, que são as primeiras garantias, convém observar com cuidado as condições e as circunstâncias nas quais se produz o fenômeno e ver se nada oferecem de suspeito.




O livro A Gênese, de Allan Kardec, foi mesmo adulterado?

Há poucos dias, no canal Grupo Espírita Educare, foi publicado um vídeo muito bem elaborado, por sinal, feito com muito esmero e de aparência estética de fazer inveja. Esse vídeo, intitulado “O LIVRO “A GÊNESE” FOI MESMO ADULTERADO?”, traz, a despeito de tanto esmero, informações pela metade, deixando de lado detalhes tão indispensáveis para a legítima discussão do caso sobre a obra derradeira de Allan Kardec.

No vídeo, citam o seguinte trecho de uma psicografia a Kardec, a respeito das alterações que ele desejava produzir em A Gênese:

“Permita-me alguns conselhos pessoais sobre a sua obra A Gênese. Penso, como você, que ela deve sofrer certas modificações que a farão ganhar valor sob o aspecto metódico; […] esta revisão é um trabalho sério, e peço que você não espere muito para realizá-la.”

Há, porém, algo substancial, existente nesse trecho por eles omitido (nas reticências entre colchetes) e que leva, não por acaso, o espectador a uma conclusão errada: a recomendação, repetida, do Espírito comunicante para que Kardec nada removesse no que concerne à Doutrina e às ideias que apareciam pela primeira vez:

Conselhos sobre A Gênese

22 de fevereiro de 1868.
Médium M. Desliens.

Permita-me alguns conselhos pessoais sobre o seu livro A Gênese. Eu acho que, como você faz, ele deve passar por um rearranjo que o fará ganhar valor em termos metódicos; mas também lhe aconselho a rever certas comparações dos primeiros capítulos, que, sem serem imprecisas, podem ser ambíguas, e que podem ser usadas contra você no arremate das palavras. Não quero indicá-los de uma maneira mais especial, mas, analisando cuidadosamente o segundo e terceiro capítulos, eles certamente o surpreenderão. Nós cuidamos da sua pesquisa. É apenas uma questão de detalhe, sem dúvida, mas os detalhes às vezes têm sua importância; é por isso que achei útil chamar sua atenção para esse lado.

Pergunta. Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Resposta. Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos; mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza.

Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é o terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes. É um trabalho sério para esta revisão, e peço-lhe que não espere demasiado tarde para o fazer, é melhor que esteja preparado antes da hora do que se tivesse que esperar depois de si.
Acima de tudo, não se apresse. Apesar da aparente contradição das minhas palavras, você me entende sem dúvida. Comece a trabalhar prontamente, mas não fique por muito tempo. Tome seu tempo; as ideias serão mais claras e o corpo ganhará menos fadiga.

Você pode baixar o conteúdo original dessa carta clicando aqui.

Kardec contrariou os sábios conselhos do Espírito?

Ora, a adulteração de A Gênese produziu justamente isso: removeu trechos importantes, que comprometem o entendimento, deixando de fora ideias doutrinárias e conduzindo o leitor a um entendimento, por vezes, contrário ao da versão anterior – o mesmo que fizeram com a adulteração de O Céu e o Inferno.

Cita Henri Netto, no artigo “À procura da dúvida: onde está a verdade?”:

Os textos “novos”, ainda que pareçam ser verdadeiros (porque as mãos inteligentes que mexeram nas edições, postumamente, pinçaram textos contidos nos fascículos da “Revue Spirite” (publicada de janeiro de 1858 a abril de 1869, pelo próprio Kardec), buscaram, quando em conjunto às demais, sem lastro em qualquer publicação de Kardec, a “aparência de verdade”. Há trechos absurdos que contrariam não só outras teses apresentadas e reforçadas por Kardec ao longo de sua produção literária, coerente e sequencial, mas, também, o próprio corpo doutrinário (princípios e fundamentos). A maior delas, sem sombra de dúvida, foi criar uma dúvida, que não existia na versão original (primeira a quarta edições de “A Gênese”), sobre a natureza física, material do corpo de Jesus. Neste sentido, a eliminação do item 67, do Capitulo XV, da obra citada, e a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Cita também Paulo Henrique de Figueiredo em “Autonomia”:

Há uma questão inicial de Allan Kardec, bastante objetiva:

– Na reimpressão que vamos fazer, gostaria de acrescentar algumas coisas, sem aumentar o volume. Você acha que existem partes que poderiam ser removidas sem inconveniência?

Ou seja, era de iniciativa de Allan Kardec fazer uma modificação em sua obra, mas qual? Ele desejava acrescentar mais algumas coisas! Não tirar. E desejava fazer isso sem aumentar o volume do livro. O motivo de sua pergunta a Demeure está em saber se seria possível fazer isso, segundo a visão do Espírito. E a resposta é bastante objetiva e determinante. Ele respondeu, por meio do médium, enquanto Kardec anotava na folha:

– Minha opinião é que não há absolutamente nada para tirar como doutrina; tudo é útil e satisfatório em todos os aspectos. Mas também acredito que você poderia, sem inconveniência, condensar ainda mais certas ideias que não precisam de desenvolvimento para serem compreendidas, já tendo sido esboçadas em outro lugar; em seu trabalho de reorganização, você conseguirá isso facilmente.

Tirar alguma coisa? Nada quanto à Doutrina. Demeure foi bastante claro, mas ainda detalhou mais sua proposta:

Devemos deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público; não retire nada como ideias, repito, mas corte apenas, aqui e ali, desenvolvimentos que não acrescentam nada à clareza. Você será mais conciso, sem dúvida, mas igualmente compreensível, e é no terreno assim adquirido que você poderá ter que adicionar elementos novos e urgentes.

Definitivamente não é o que encontramos na versão adulterada da obra de 1872! Foram centenas de supressões. Palavras, frases, parágrafos e até partes inteiras foram retiradas, algumas alterando o sentido do restante do texto. Basta dizer que a teoria sobre a conquista progressiva do livre-arbítrio, após o Espírito elaborar a consciência de si mesmo durante centenas de vidas, foi retirada depois de cuidadosamente elaborada por Kardec durante muitos anos, na Revista Espírita, e finalmente apresentada na obra A Gênese. Antes, o instinto dominava sozinho, mas a inteligência começa a se desenvolver, e aos poucos o instinto se enfraquece, então escreveu originalmente Kardec: “Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos” (KARDEC, [1868] 2018, p. 100). Esse importante trecho, fundamental para a Teoria Moral Espírita, foi deliberadamente retirado, contra a vontade de Kardec e as recomendações dos Espíritos, fato que agora comprovamos! Nas páginas desta obra detalhamos diversas dessas infames e criminosas falsificações.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. Editora FEAL.

Não bastasse, há um extenso trabalho de pesquisa, produzido por Marco Milani, demonstrando o fato de que a adulteração removeu diversas ideias doutrinárias importantes, bem como adicionou ideias exíguas, comprometendo o entendimento da obra no conjunto e no detalhe:

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/03/alteracoes-ocorridas-no-cap-1-da-5-ed.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/05/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/09/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5_15.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/02/comentarios-sobre-as-alteracoes-do-cap.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2020/03/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5a.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/01/natureza-e-materia-nao-sao-sinonimos.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/09/comentarios-sobre-o-capitulo-xv-de.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2019/11/comentarios-sobre-as-alteracoes-da-5.html

https://educadorespirita1.blogspot.com/2018/12/inconsistencias-doutrinarias-da-5.html

Como fica provado, foram removidas diversas ideias doutrinárias, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado a essas questões.

Não se quer o diálogo para chegar à verdade, mas a imposição

Quando Leymarie criou o livro Obras Póstumas, inseriu nele a psicografia apresentada anteriormente, porém, adulterada, removendo justamente os conselhos do Espírito para que nada, no concerne à Doutrina, fosse removido. Tudo para dar crédito à sua versão a quinta edição de A Gênese foi mesmo produzida por Allan Kardec. Agora, no vídeo citado, o canal Grupo Espírita Educare faz o mesmo, mas não para por aí.

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique. Foi assim que, finalmente, ocultaram do público meus comentários feitos nesse vídeo:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois fui ocultado no canal. Aparentemente, não desejam dialogar sobre os fatos e as evidências, ditas por eles, “sumariamente desclassificadas”.

Vemos, portanto, que a peça de animação é apenas mais uma tentativa de conduzir o público à conclusão que eles desejam, mesmo que para isso tenham que omitir informações importantes e fazer afirmações rasas. Por nossa vez, depois de tanto incentivar o leitor ao estudo da obra O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato (link abaixo), só podemos desejar que cada um chegue às suas próprias conclusões, frente aos fatos e às evidências, que existem de sobra, a despeito da falácia do grupo CSI do Espiritismo de que todos os argumentos contrários teriam sido derrubados (sic).

Live: Gênese Adulterada – análise doutrinária das alterações entre as edições




O canal Mesa Girante e as adulterações em O Céu e o Inferno

Recentemente o canal Mesa Girante, no Youtube, produziu um vídeo onde aborda outro vídeo, de Paulo Henrique de Figueiredo, falando sobre a obra “Nem Céu, Nem Inferno”, de cerca de 3 anos atrás. A obra trata do fato jurídico ((São fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.)) da adulteração de O Céu e o Inferno e do contexto da trama de traição ao redor de Kardec.

Nesse vídeo, o autor do canal Mesa Girante trata de, debochadamente, tentar invalidar a importância da obra por supostas precipitações de Paulo Henrique ao tratar do tema, no vídeo. Pergunto-me por que é que ele, o dono do canal Mesa Girante, não se dedicou primeiramente a ler essa obra, o que teria enriquecido demais o debate? Por que é que ele se concentrou apenas naquilo que lhe pareceu incongruente, pelas falas de Paulo Henrique, sem dar atenção aos demais pontos de relevância da obra? Digo isso porque eu mesmo o procurei, através dos comentários, para demonstrar que a adulteração de O Céu e o Inferno é o produto inquestionável dos dogmas roustainguistas, além do fato jurídico.

No dia seguinte, eu produzi um vídeo, sob efeito de uma irritação pela maneira como o tema foi abordado, com tom de deboche e sem nenhuma intenção de cooperação, e sim de competição, já que não foi procurar Paulo Henrique para conversar sobre as divergências de entendimentos. Esse vídeo, que eu produzi, eu resolvi apagar, pois acabei tratando com afetação um tema onde não deve haver absolutamente nada disso. Em lugar desse vídeo, gravei um novo, onde falo sobre o foco central da adulteração, como você pode ver ao final deste artigo.

Acontece, porém, que, assim que gravei, chegou ao meu conhecimento uma live com Lucas Sampaio, co-autor do livro Nem Céu, Nem Inferno, onde ele explica em detalhes todas as questões envolvidas nesse tema da adulteração. O conteúdo é muito explicativo por si só, de maneira que reproduzo abaixo o mesmo vídeo e aproveito para tecer comentários sobre seu conteúdo.

Comentários sobre a live do Lucas Sampaio

  • É fato jurídico as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra.
  • Kardec estava, sim, fazendo revisões nessas obras, preparando novas edições. Isso está registrado em cartas. Contudo, menos de um mês depois da carta onde cita o trabalho de tradução para o alemão, existe uma carta de Kardec para um amigo seu, dizendo que, por problemas de saúde, ele precisou suspender todas as atividades que não fossem estritamente necessárias.
  • Os Espíritos, evocados por Kardec, dizem que ele não deveria suprimir nada nas novas edições. Foi feito justamente o contrário nas edições publicadas após sua morte, com a supressão de pontos importantes nas obras.
  • A psicografia original, onde os Espíritos diziam a Kardec para não suprimir nada nas novas edições, foi adulterada por Leymarrie em Obras Póstumas, retirando justamente esse conselho, para dar credibilidade à 5a edição de A Gênese. Isso se deu após a denúncia de Henry Sausse.
  • Os negacionistas dos fatos jurídicos e das evidências de adulteração chegam a usar depoimentos de pessoas ligadas a Leymarie para sustentar suas teses.
  • É importantíssimo ler a obra O Legado de Allan Kardec, que traz diversas evidências sobre os fatos acerca da adulteração de A Gênese.
  • Fala-se em registros contábeis da Sociedade, assinados pela esposa de Kardec, três anos após sua morte, onde estariam registrados os custos de impressão de O Céu e o Inferno a fevereiro de 1869. Faz sentido fazer contabilidade de algo passado à criação da Sociedade Anônima (empresa)? Faz sentido confiar em documentos da Sociedade Anônima, a mesma que deu o golpe post-mortem em Kardec? Como veremos a seguir, os documentos oficiais mostram que a obra não foi impressa naquela data.
  • Foi encontrada, nos registros legais da Biblioteca Nacional, a declaração de impressor n. 8.584 com pedido de autorização do tipógrafo Rouge registrado em 9/7/1869 para imprimir 2.000 exemplares da mesma quarta edição de O Céu e o Inferno, conforme a página 294 do documento F/18(II)/128, mais de três meses após a desencarnação de Allan Kardec.
  • Na Revista Espírita de junho de 1869, foi publicado, pela Sociedade Anônima, o artigo de título “À venda em 1° de junho de 1869”, tratando da edição que ficou pronta somente em 19 do mês seguinte. E o aviso ainda explica:

Quarta edição de O Céu e o Inferno ou a justiça divina segundo o Espiritismo, contendo numerosos exemplos sobre a situação dos Espíritos no mundo espiritual e na Terra; 1 vol. in-12, preço: 3 fr. 50.

Observação – A parte doutrinária desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por Allan Kardec, passou por modificações significativas. Alguns capítulos em particular foram inteiramente reformulados e consideravelmente aumentados.

(SOCIEDADE ANÔNIMA, [RE] 1869, jul., p. 224)

  • Tudo indica que Amelie, com mais de 70 anos, em luto, foi enganada pela Sociedade Anônima, e confiou no que diziam ou apresentavam a ela. Berthe Froppo menciona que ela acreditava que a S.A. iria vender os livro de Kardec a preços populares (e fizeram o contrário). A doce Gabi, como a chamava Kardec, entregou tudo, crendo que o melhor seria feito, pois não tinha um espírito de liderança. Foi afastada de qualquer papel de decisão da S.A. Foi, em suma, ludibriada. Não se opôs às novas edições, pois sabia que seu marido trabalhava sobre elas. Escolheu entregar à S.A. toda a obra de Kardec, pois pensava, seguindo os propósitos de Kardec, que o Espiritismo deveria ser de todos, e não mais centralizado em ninguém. Era a promessa da Sociedade, finalmente não cumprida.
  • Existe uma falta de vontade (e aqui eu reitero: inclusive pelo CSI do Espiritismo e do dono do canal Mesa Girante) em fazer um estudo cuidadoso e aplicado, inclusive comparativo. Não: fica-se girando apenas na superfície das afirmações e das negações simplórias, numa sanha de negar o que vemos estar óbvio aos nossos olhos.
  • As teses de negação não respeitam o fato jurídico; não se importam com os planos de Kardec para o futuro do Espiritismo; não se importam com os vários golpes sofridos por Kardec e pelo Espiritismo; não se importam com o golpe à unidade de método e de organização, necessárias à continuidade doutrinária; não fazem análises doutrinárias sobre o conteúdo anterior e as alterações; não se importam com o fato de a Sociedade Anônima haver incendiado um grande número de manuscritos de Kardec, após sua morte; não falam do verdadeiro complô sendo formado ao redor de Kardec, por Roustaing e seus seguidores; não trazem à luz os incontáveis fatos e evidências dos interesses contrários ao bem, por pessoas ao redor de Kardec.

    Não, e nem podem, pois dar atenção ao fato dos descalabros sofridos por Kardec e pelo Espiritismo seria alimentar os argumentos da adulteração, o que não seria do interesse deles. Pelo contrário: esforçam-se por colocar dúvida injustificável sobre pessoas como Berthe Froppo, amiga íntima do casal Kardec, que fez algumas graves denúncias contra Leymarie e a sociedade anônima! Não, para eles o testemunho de Froppo não vale, mas valem as alegações do adulterador, Leymarie, e sua esposa, além dos demais envolvidos, por interesse, em seus negócios espíritas!

  • O prefácio de A Gênese e a introdução do capítulo 8º de O Céu e o Inferno (3a edição) tratam justamente do método do Espiritismo, que o protege de se transformar em um sistema pessoal, o que incomodava sobremaneira Roustaing e Pezzani, seu amigo pessoal, que tinham suas próprias concepções do que deveria ser o Espiritismo. Será acaso que tanto um como outro foram removidos nas novas edições?
  • Os trechos removidos na adulteração de A Gênese denunciam exatamente como pensam e agem os inimigos da verdadeira ideia.
  • Cada um dos 25 itens do capítulo VIII de O Céu e o Inferno tinham fundamentação no restante da obra. Na 4a edição, adulterada, muitos itens perderam essa correspondência, conforme se demonstra em O Céu e o Inferno, da editora FEAL (clique aqui para baixar gratuitamente).

Live com Lucas Sampaio sobre as Adulterações nas obras de Kardec

Vídeo do meu canal falando sobre o vídeo do canal Mesa Girante




A mais forte evidência de adulteração de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec

São fatos jurídicos incontestes as adulterações de A Gênese e O Céu e o Inferno, pela mera questão de terem sido lançadas edições, com alterações, após a morte do autor e sem o depósito legal – assim afirmam ao menos quatro operadores jurídicos especializados: Simoni Privato, Júlio Nogueira, Lucas Sampaio e Marcelo Henrique. Esse fato legal está acima de qualquer cogitação e, por conta disso, federações espíritas de outros países, em respeito à lei, voltaram à terceira edição da obra. Infelizmente, a Federação Espírita Brasileira, tendo muito a recapitular ao tomar essa atitude (já que os textos original de O Céu e o Inferno e A Gênese contraditam uma infinidade de erros que povoam a generalidade das publicações por ela editadas e impressas) ainda reluta contra esses fatos, baseando-se em argumentações de leigos em matéria de direito autoral.

Além do fato jurídico e do necessário respeito à lei, pelo estudo, acabamos de identificar mais uma evidência, talvez a mais determinante de todas, da adulteração de O Céu e o Inferno, obra de Allan Kardec, justamente na parte que exprimia a filosofia doutrinária em sua mais clara e pura face.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec trata da questão dos Espíritos que escolheram sempre o caminho do bem (tratamos disso também no artigo “Reforma Íntima e Espiritismo“:

Existem Espíritos que sempre escolheram o caminho do bem

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Confirmados pelos Espíritos, existem aqueles que sempre escolheram o caminho do bem, o que não os livra da necessidade de encarnar, para seu desenvolvimento. Assim, não têm o que expiar, dado que a expiação é a escolha consciente de provas e oportunidades que lhes ajudem a desapegar de imperfeições conscientemente adquiridas (lembrando que errar, meramente, não é adquirir imperfeições, desde que o erro seja superado pelo aprendizado. O que gera imperfeições é a repetição consciente do erro).

Além disso, é mais que lógico que aquele que tenha superado, através da expiação, uma imperfeição adquirida, não tem mais o que expiar, exceto caso desenvolva novas imperfeições. Ainda assim, ele pode necessitar nascer em um planeta como a Terra, simplesmente porque suas necessidades atuais demandam ou porque escolha encarnar em missão. O próprio Jesus Cristo é o exemplo máximo desse último caso e, mesmo sendo um Espírito puro, ainda assim enfrentou as vicissitudes da matéria, sem ter nada o que expiar. Vejam aonde leva a admissão dessas falsas ideias: ao dogma de Espíritos criados à parte e que nunca estiveram, em realidade, entre nós (um dogma sustentado por Roustaing)!

Forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno

E aqui chegamos à mais forte evidência da adulteração de O Céu e O Inferno, que, na edição lançada após a morte de Kardec, introduziu dois itens no capítulo VIII (que se tornou capítulo VII):

9.º — Toda falta cometida, todo mal realizado, é uma dívida contraída que deve ser paga; se não o for numa existência, sê-lo-á na seguinte ou nas seguintes, porque todas as existências são solidárias umas das outras. Aquele que a quita na existência presente não terá de pagar uma segunda vez.

10.º — O Espírito sofre a pena de suas imperfeições, seja no mundo espiritual, seja no mundo corporal. Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas, seja na existência presente, seja nas precedentes.

O Céu e o Inferno, quarta edição. FEB. Grifos meus.

Esses dois itens, repito, não existiam na terceira edição da obra, lançada e impressa por Kardec em vida. Admitir que Kardec tenha incluído esses itens nessa edição, em especial o item 10, seria admitir que Kardec entrou em contradição com tudo o que havia desenvolvido até então.

Para dar suporte a essa falsa ideia, os seguintes parágrafos foram removidos na adulteração, no capítulo IX (antigo capítulo X):

Nos primeiros estágios de sua existência, os espíritos estão sujeitos à encarnação material, que é necessária ao seu desenvolvimento, até que tenham chegado a um certo grau. O número das encarnações é indeterminado, e subordina-se à rapidez do progresso, que ocorre na razão direta do trabalho e da boa vontade do espírito, que age sempre em função de seu livre-arbítrio. Aqueles que, por sua incúria, negligência, obstinação ou má vontade permanecem mais tempo nas classes inferiores, sofrem disso as consequências, e o hábito do mal dificulta-lhes a saída desse estado. Um dia, porém, cansam-se dessa existência penosa e dos sofrimentos daí decorrentes. É então que, ao comparar sua situação à dos bons espíritos, compreendem que seu interesse está no bem, procurando então melhorar-se, mas o fazem por vontade pró- pria, sem que a isso sejam forçados. Estão submetidos à lei do progresso por conta de sua aptidão a progredir, mas não o fazem contra a própria vontade. Fornece-lhes Deus incessantemente os meios de progredir, mas são livres para se aproveitarem destes ou não. Se o progresso fosse obrigatório, nenhum mérito os espíritos teriam, e Deus quer que tenham todos o mérito de suas obras, não privilegiando ninguém com o primeiro lugar, posto franqueado a todos, mas que o alcançam somente através dos próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram sua posição percorrendo, como os demais, a rota comum. Todos, do topo à base, pertenceram ou pertencem ainda à humanidade.

Os homens são, assim, espíritos encarnados mais ou menos adiantados, e os espíritos são as almas dos homens que deixaram seu invólucro material. A vida espiritual é a vida normal do espírito. O corpo não é senão uma vestimenta temporária, apropriada às funções que devem exercer na Terra, tal como o guerreiro veste a armadura e a cota de malha para o momento do combate, delas despindo-se após a batalha, para eventualmente vesti-las de novo quando chegada a hora de uma nova luta. A vida corporal é o combate que os espíritos devem enfrentar para avançar, para o que se revestem dessa armadura que é para eles ao mesmo tempo um instrumento de ação, mas também um embaraço.

Ao encarnarem, os espíritos trazem suas qualidades inerentes. Os espíritos imperfeitos constituem, portanto, os homens imperfeitos; aqueles mais adiantados, bons, inteligentes, instruídos, são os homens instintivamente bons, inteligentes e aptos a adquirir com facilidade novos conhecimentos. Da mesma forma, os homens, ao morrer, fornecem ao mundo espiritual espíritos bons ou maus, adiantados ou atrasados. O mundo corporal e o mundo espiritual suprem-se assim constantemente um ao outro.

Entre os maus espíritos há os que têm toda a perversidade dos demônios, aos quais pode-se aplicar perfeitamente a imagem que se faz desses últimos. Quando encarnados, constituem os homens perversos e astuciosos que se comprazem no mal, parecendo criados para a desgraça de todos os que são atraídos para sua intimidade, e dos quais pode-se dizer – sem que isso constitua ofensa – que são demônios encarnados.

Tendo alcançado um certo grau de purificação, os espíritos recebem missões compatíveis com seu adiantamento, desempenhando dessa forma todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes ordens. Como Deus criou desde sempre, também desde sempre houve espíritos suficientes para atender a todas as necessidades do governo do Universo. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é, portanto, suficiente para tudo. Essa unidade na criação, juntamente à ideia de que todos têm uma mesma origem comum, o mesmo caminho para percorrer, e que se elevam todos por seu mérito próprio, corresponde muito melhor à justiça de Deus do que à criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas por dons naturais, equivalentes a privilégios.

O Céu e o Inferno – Editora FEAL

Notem, também, o seguinte trecho de O Livro dos Espíritos (grifos meus):

  1. Sendo as vicissitudes da vida corporal expiação das faltas do passado e, ao mesmo tempo, provas com vistas ao futuro , seguir-se-á que da natureza de tais vicissitudes se possa inferir de que gênero foi a existência anterior ?

Muito amiúde é isso possível , pois que cada um é punido naquilo por onde pecou. Entretanto, não há que tirar daí uma regra absoluta. As tendências instintivas constituem indício mais seguro, visto que as provas por que passa o Espírito são determinadas tanto pelo que respeita ao passado, quanto pelo que toca ao futuro .”

Isto aqui é muito importante. Kardec, em suas obras, vem sempre numa construção crescente, várias vezes repetindo aquilo que já era compreendido como fato da ciência espírita. Quando ele houvesse de contrariar um ponto, por uma correção de entendimento, ele era muito claro sobre isso. Eis que, “do nada”, Kardec teria contrariado a Doutrina para dizer o seguinte, fazendo regra:

“Pela natureza dos sofrimentos e das vicissitudes suportadas na vida corpórea , pode-se julgar da natureza das faltas cometidas numa existência precedente, e das imperfeições que lhe são a causa.” (Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 4a edição, adulterada).

Percebe que isso é incongruente com o entendimento de Kardec sobre o Espiritismo e com sua maneira de se portar? O mesmo ele teria feito no parágrafo anterior a esse, o que é impossível, já que, depois, ele voltaria a contrariar essas opiniões erradas, n’A Gênese. Isso é capital, pois essa ideia está diretamente ligada à influência roustainguista na adulteração dessa obra, no capítulo que é, basicamente, o cerne, a base da teoria moral espírita.

Mais evidências da ideia original

Apresento, a seguir, mais alguns trechos da obra de Kardec que evidenciam o verdadeiro entendimento sobre o assunto (a encarnação não é resultado exclusivo da expiação):

“Segundo um sistema que tem algo de especioso à primeira vista, os Espíritos não teriam sido criados para se encarnarem e a encarnação não seria senão o resultado de sua falta. Tal sistema cai pela mera consideração de que se nenhum Espírito tivesse falido, não haveria homens na Terra, nem em outros mundos. Ora, como a presença do homem é necessária para o melhoramento material dos mundos; como ele concorre por sua inteligência e sua atividade para a obra geral, ele é uma das engrenagens essenciais da Criação. Deus não podia subordinar a realização desta parte de sua obra à queda eventual de suas criaturas, a menos que contasse para tanto com um número sempre suficiente de culpados para fornecer operários aos mundos criados e por criar. O bom-senso repele tal ideia.”

KARDEC. Revista espírita — 1863 > junho > Do príncipio da não-retrogradação do Espírito. Grifos nossos.

Nesse artigo, nesse trecho, Kardec está evidentemente refutando, de maneira firme, a mesma ideia transmitida nos Quatro Evangelhos de Roustaing (que somente seria lançado em 1865), de que a encarnação se daria apenas para expiação, isto é, quando o Espírito é “culpado”:

A ideia da encarnação como castigo, dissemos, é uma ideia totalmente ligada aos dogmas de Roustaing:

N. 59. Que é o que devemos pensar da opinião que se formula assim: “Do mesmo modo que, para o Espírito em estado de formação, a materialização nos reinos mineral e vegetal e nas espécies intermediárias e igualmente a encarnação no reino animal e nas espécies intermediárias é uma necessidade e não um castigo resultante de falta cometida, também, para o Espírito formado, que já tem inteligência independente, consciência de suas faculdades, consciência e liberdade de seus atos, livre arbítrio e que se encontra no estado de inocência e ignorância, a encarnação, primeiro, em terras primitivas, depois, nos mundos inferiores e superiores, até que haja atingido a perfeição, é uma necessidade e não um castigo”?

Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa.

O Espírito não é humanizado, também já o explicamos, antes que a primeira falta o tenha sujeitado à encarnação humana. Só então ele é preparado, como igualmente já o mostramos, para lhe sofrer as conseqüências.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I

É fácil observar a semelhança dessa ideia com aquele introduzida na 4a edição de O Céu e o Inferno: a de que a encarnação somente se dá quando o Espírito é culpado de um erro anterior.

Continuemos com as evidências da ideia original de Kardec e da Doutrina:

132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

“Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação […]

O Livro dos Espíritos

Para uns, é expiação; para outros, missão. “Para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação“, ou seja, a expiação, tratada no meio religoso como um processo de remissão de pecados pelos castigos divino, aqui, para o Espiritismo, é apenas o processo de aprendizado e de desenvolvimento do Espírito.

Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em conseqüência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes.

O Livro dos Espíritos

O Espírito sofre as vicissitudes da exisência escolhida pelo Espírito, como prova, expiação ou missão.

  1. É um castigo a encarnação e somente os Espíritos culpados estão sujeitos a sofrê-la?

A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os desígnios cuja execução Deus lhes confia. É-lhes necessária, a bem deles, visto que a atividade que são obrigados a exercer lhes auxilia o desenvolvimento da inteligência. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, tal seja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação, caso em que ela se lhes torna um castigo. — S. Luís. (Paris, 1859.)

KARDEC. O Evangelho segundo o Espiritismo > Capítulo IV — Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo > Instruções dos Espíritos. > Necessidades da encarnação. > 25. Grifos nossos.

Evidentemente, os Espíritos demonstram que a encarnação é necessária a todos, de maneira que, enquanto se desenvolvem, fazem sua parte na Criação.

Os exemplos de castigos imediatos são menos raros do que se crê. Se se remontasse à fonte de todas as vicissitudes da vida, ver-se-ia aí, quase sempre, a conseqüência natural de alguma falta cometida. O homem recebe, a cada instante, terríveis lições das quais infelizmente bem pouco aproveita.

Revista Espírita, 1864

Quase sempre as fontes de todas as vicissitudes da vida remontam à consequencia natural de alguma falta cometida.

[O homem de bem] Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas a decepções, são provas ou expiações, e as aceita sem murmurar.

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Todas as vicissitudes da vida são provas ou expiações. Prova: tudo aquilo que nos serve ao aprendizado, todas as dificuldades da vida. Expiação: certos gêneros de provas, escolhidas para o exercício de desapego de uma imperfeição adquirida.

“Esta pergunta dos discípulos “É o pecado deste homem a causa de nascer cego” indica a intuição de uma existência anterior. Caso contrário, não teria sentido, porque o pecado que seria a causa de uma enfermidade de nascença deveria ter sido cometido antes do nascimento e, por consequência, em uma existência anterior. Se Jesus tivesse visto aí uma ideia falsa ele teria dito: “Como esse homem teria podido pecar antes de estar entre nós?” Em lugar disso ele lhes disse que, se o homem é cego, não significa que tenha pecado, mas, a fim de que o poder de Deus brilhe nele; é como dizer que ele devia ser o instrumento de uma manifestação do poder de Deus. Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso, porque Deus, que é justo, não poderia lhe impor um sofrimento sem compensação.”

KARDEC, Allan. A Gênese. 4a edição. “Cego de Nascença”. Grifos nossos.

Nesse trecho, onde Kardec trata da cura da cegueira, feita por Jesus, ele faz a seguinte observação: “Se isso não era uma expiação do passado, é uma prova de que devia servir a seu progresso“. Ora, isso quer dizer que, para ele, e de acordo com o Espiritismo, as vicissitudes não se dão apenas como expiação, mas também como ferramenta de aprendizado. Esse trecho consta inclusive da 5a edição de A Gênese (a edição adulterada), e Kardec não pode ter se contradito em suas ideias em cada uma das obras. Esse não é o Kardec que conhecemos.

Motivo da adulteração

Todo aquele que está investigando o assunto seriamente, e que investigou também a adulteração de A Gênese, perceberá algo em comum entre as duas adulterações: o princípio do dogma da encarnação como o resultado do castigo pelo pecado – dogma fortemente limitador e aprisionante, repercutido por Roustaing e ensinado pelos Espíritos mistificadores que com ele se comunicavam, através da médium Emilie Collignon. Contra a sua teoria, existe um simples detalhe: Jesus.

Jesus, o Espírito mais evoluído que já encarnou entre nós, não tinha nada a “pagar”, posto que era Espírito puro. Como resolver esse problema? Dizendo que Jesus não encarnou, mas que, em verdade, foi um agênere, isto é, um Espírito materializado, que simplesmente nos enganou ao longo de sua trajetória.

O ponto é que, em O Céu e o Inferno, foram removidas as ideias doutrinárias que demonstravam a encarnação como necessária a todos, bons e maus, e foi acrescentada a ideia de que tudo o que passamos é fruto de expiações de erros de vidas passadas (item 10, cap. 7, Código Penal da Vida Futura); já na adulteração de A Gênese, não por acaso, o item 67 do capítulo XV foi removido, e, como demonstra Henri Netto,

[…] a renumeração do item 68 como se fosse o 67, oculta a apreciação lógica (ainda que em termos de suposições) sobre o destino do envoltório corporal de Yeshua, após o seu sepultamento. Qual seria a razão de Kardec, depois de repelir a tese docetista (“corpo fluídico” de Jesus), e afirmar a sua natureza humana, para suprimir suas judiciosas considerações acerca do tema?

NETTO, Henri. À procura da dúvida: onde está a verdade? Publicado no site Espiritismo com Kardec – ECK, em 24/12/2023. Disponível em comkardec.net.br/a-procura-da-duvida-onde-esta-a-verdade-por-henri-netto

Ou seja: em A Gênese, para dar suporte às adulterações de O Céu e o Inferno, atacou-se a ideia que demonstra, pelo exemplo inequívoco, que a encarnação não serve apenas para expiação (acrescentando-se aqui que expiação é o ato consciente da escolha de provas visando o retorno ao bem, para os Espíritos que, em minoria, escolheram o apego ao erro e, assim, desenvolveram imperfeições). Removeu-se uma ideia doutrinária, ainda que a recomendação do Espírito, que se comunicou a Kardec sobre o assunto da nova edição, tenha sido de não remover absolutamente nada que fosse relacionado às ideias doutrinárias.

Conclusão

De duas, uma: ou Kardec fez essa alteração, ou ele não fez essa alteração. Se ele mesmo fez essa alteração, então contradisse todo seu entendimento anterior e, além disso, demonstra um estado de saúde mental alterado, já que contradisse essa ideia n’A Gênese, inclusive em sua quinta edição, como demonstramos acima.

Ora, sabendo que Kardec deixa muito claro seu entendimento de que a encarnação não pode ser resultado exclusivo da expiação e conhecendo seu estado de saúde mental sadio, até o dia de sua morte, podemos chegar a apenas uma conclusão: essa obra foi adulterada.

A alteração é muito clara: “Todas as misérias, todas as vicissitudes que suportamos na vida corporal são decorrentes de nossas imperfeições, expiações de faltas cometidas”. Isso é claramente a ideia de Roustaing, e a essência desse capítulo foi perdida com a alteração, para implantar os mesmos dogmas que esse senhor aceitava e defendia:

“Não; a encarnação humana não é uma necessidade, é um castigo, já o dissemos. E o castigo não pode preceder a culpa”.

ROUSTAING, Jean B. Quatro Evangelhos, Tomo I, item 59

Muitos dirão, ainda, que o item 16 do cap. VII de O Céu e o Inferno (a versão adulterada) encerra o mesmo princípio removido do item 8, original:

16.º — O arrependimento é o primeiro passo para o aperfeiçoamento; mas sozinho não basta; são precisas ainda a expiação e a reparação.

Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

O arrependimento suaviza as dores da expiação, dando esperança e preparando as vias da reabilitação; mas somente a reparação pode anular o efeito, destruindo a causa; o perdão seria uma graça e não uma anulação.

Contudo, perguntamos: em que se torna a arrependimento, a expiação e a reparação, quando submetidas às ideias inseridas pelas adulterações, senão no cumprimento de uma sentença ou de um castigo? Em que se torna o erro, parte do aprendizado, senão em uma condenação? E, vendo sob esse ângulo, perguntamos: o indivíduo que é levado a pensar dessa maneira, como age ante à vida? Age austeramente, buscando superar o erro, ou, crendo-se condenado, se submete à inação ou, pior, descamba por mais erros ainda? E ante ao próximo, que sofre as vicissitudes da vida? Vê nele um irmão que requer o nosso apoio, um ser capaz de superar suas dificuldades pelo aprendizado, ou vê nele mais um condenado, sobre o qual nada se pode fazer, já que cumpre sua sentença? Finalmente: tudo isso leva ao estado de cooperação, em busca do progresso, ou leva ao materialismo e ao egoísmo?

São perguntas que cada um se deve fazer, de posse do conhecimento que, para mim, demorou três anos para ser clarificado e estabelecido. Quem sabe, com tudo isso, eu possa ajudar a diminuir esse tempo para você.

Inimigos do bem se esforçam por retardá-lo

É muito evidente que o capítulo mais importante de O Céu e o Inferno, justamente aquele que continha a essência da filosofia doutrinária, foi propositadamente adulterado. As ideias originalmente estabelecidas foram completamente remodeladas segundo dogmas ligados à ideia da queda pelo pecado, atrasando, por mais de 150 anos, o desenvolvimento do Espiritismo na face da Terra. Chega. Agora é hora de recuperar e de estudar. Recomendamos a leitura das nossas Obras Recomendadas.

Os esforços daqueles que tentam obter o domínio da verdade estão ligados às concepções de velho mundo. São Espíritos ainda incapazes de compreender a essência do Espiritismo e que, conscientemente ou não, lutam contra suas ideias de autonomia e de liberdade. Como diria Kardec, deixemos que o tempo se encarregue deles.

Dizem eles terem provado sumariamente a não adulteração e, assim, refutado todas as evidências em contrário. Assim sendo, peço a esses indivíduos que expliquem essa alteração ilógica e contraditória a toda a doutrina.

Como agem os sacerdotes

Para Leymarie, os fatos e a discussão sobre eles não importavam. Para manter a sua versão, visava dominar a verdade com subterfúgios diversos. Tentava tomar domínio da opinião espírita e escondia tudo o que pudesse depor contra suas ideias. Assim agem, também, aqueles que contrariam os fatos da adulteração com o “canto de sereia”, como diria Marcelo Henrique.

Há poucos dias, comentei no vídeo ” O Livro A Gênese foi mesmo adulterado?”, publicado no canal Grupo Espírita Revelare, no Youtube:

Não por acaso, meus comentários não aparecem para mais ninguém, pois estou oculto no canal.




Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

O seguinte artigo contém os conteúdos gentilmente disponibilizados pelo Centro Espírita Nosso Lar – Casas André Luiz, e correspondem ao evento recentemente realizado por Paulo Henrique de Figueiredo sobre o tema em destaque.

A apresentação pode ser facilmente baixada através deste link e também pode ser ouvida em Podcast, cujo áudio disponibilizamos a seguir.

Amaciante estraga a roupa

A palestra de Paulo Henrique de Figueiredo explica exatamente o que essa afirmação tem a ver com a mudança de mentalidade. Clique abaixo para ouví-la:


A seguir estão os tópicos da palestra, que podem ser verificados na apresentação disponibilizada e no áudio acima exposto.

ENCONTRO COM A CULTURA ESPÍRITA – Allan Kardec e a revolução moral da humanidade

Paulo Henrique de Figueiredo – 28 e 29 out 2023




A Justiça Divina em Allan Kardec: A relação entre A Gênese e O Céu e o Inferno – Editora Mundo Maior

Entre as obras que compõem a Codificação Espírita, A Gênese ocupa um papel singular. Publicado em 1868, o livro não apenas amplia conceitos apresentados anteriormente por Allan Kardec, mas também funciona como uma síntese dos princípios desenvolvidos ao longo da doutrina.

No primeiro capítulo da obra, especialmente entre os itens 30 e 38, Kardec apresenta uma visão sistematizada da justiça divina, retomando conceitos discutidos com maior profundidade em O Céu e o Inferno. A análise desses trechos revela uma construção lógica que procura explicar o destino do Espírito a partir de princípios como responsabilidade individual, progresso contínuo, reparação e transformação moral.

Os conceitos apresentados nesse trecho representam uma reformulação de ideias tradicionalmente associadas ao Cristianismo, oferecendo uma interpretação baseada nas leis naturais e na evolução espiritual.

Não existem seres privilegiados na criação

Um dos primeiros princípios apresentados em A Gênese é a unidade da criação.

No item 30 do capítulo I, Natureza da revelação, Kardec afirma que não existem seres privilegiados. Essa ideia é desenvolvida em O Céu e o Inferno, nos capítulos dedicados aos anjos e aos demônios, como abaixo:

(…)Sabe que não há criaturas deserdadas nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada de um trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente voltados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados pelo nome de demônios são Espíritos imperfeitos, ainda atrasados, que fazem o mal na condição de Espíritos, como praticavam enquanto eram homens, mas que avançarão e se aperfeiçoarão; que anjos não são seres à parte na criação, mas são Espíritos puros, que atingiram a meta após terem percorrido o caminho do progresso; que de tal modo não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas toda criação resulta da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um alvo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento de outros, pois todos são filhos das próprias obras.(…)

pag 54 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior ((item 30 do capítulo primeiro completo: 30. O ESPIRITISMO, cujo ponto de partida está nas próprias palavras de Cristo, como Cristo partiu das de Moisés, é uma consequência direta de sua doutrina. À ideia vaga da vida futura, ele acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço, e assim dá forma precisa à crença; dá-lhe corpo, consistência, realidade ao modo de pensar. Define os laços que unem a alma e o corpo, retirando o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte. Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está na Terra, porque sofre temporariamente e vê por toda parte a justiça de Deus. Sabe que a alma progride sem cessar por meio de uma série de existência sucessivas, até alcançar o grau de perfeição que lhe permite se aproximar de Deus. Ele sabe que todas as almas, como possuem um mesmo ponto departida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir em virtude de seu livre-arbítrio; que todas são da mesma essência, e que há entre elas diferença senão a do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapidamente conforme seu trabalho e sua boa vontade. Sabe que não há criaturas deserdadas nem mais favorecidas umas que as outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada de um trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente voltados ao mal e ao sofrimento; que aqueles designados pelo nome de demônios são Espíritos imperfeitos, ainda atrasados, que fazem o mal na condição de Espíritos, como praticavam enquanto eram homens, mas que avançarão e se aperfeiçoarão; que anjos não são seres à parte na criação, mas são Espíritos puros, que atingiram a meta após terem percorrido o caminho do progresso; que de tal modo não há criações múltiplas de diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas toda criação resulta da grande lei de unidade que rege o Universo, e que todos os seres gravitam para um alvo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento de outros, pois todos são filhos das próprias obras.))

A interpretação espírita rompe com a ideia de que alguns seres foram criados para a perfeição, enquanto outros teriam sido destinados eternamente ao mal.

Segundo a doutrina, todos os Espíritos possuem a mesma origem. Todos são criados simples e ignorantes e recebem as mesmas oportunidades de desenvolvimento.

Nesse contexto, os anjos são Espíritos que já concluíram sua trajetória evolutiva e alcançaram elevados níveis de aperfeiçoamento moral. Os demônios, por outro lado, não constituem uma categoria permanente de seres condenados ao mal. Demônios são Espíritos ainda imperfeitos, que permanecem em estágios inferiores da evolução, mas que, inevitavelmente, progredirão.

Essa compreensão estabelece um princípio de igualdade absoluta diante das leis divinas e elimina qualquer possibilidade de privilégios na criação.

A felicidade e o sofrimento pertencem ao próprio Espírito

Outro aspecto fundamental apresentado por Kardec está relacionado à compreensão da felicidade e do sofrimento.

No item 32 de A Gênese, o autor afirma que a situação do Espírito após a morte é consequência direta do seu grau de aperfeiçoamento.

32. Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas, por outras palavras, que ele é punido por onde pecou; que essas consequências duram tanto tempo quanto a causa que as produziu; e, portanto, o culpado sofrerá eternamente, se persistir sempre no mal, mas o sofrimento acaba com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um se aperfeiçoar, todos podem, em virtude do livre-arbítrio, prolongar ou abreviar os sofrimentos, como o doente sofre por causa de seus excessos enquanto não lhes dá um fim.

pag 55 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

Essa ideia é aprofundada em O Céu e o Inferno, que define a felicidade e a infelicidade como estados íntimos do Espírito, expressa no capítulo VIII da primeira parte itens 1, 2 e 3:

1o) A alma ou espírito sujeita-se, na vida espiritual, às consequências detodas as imperfeições das quais ela não se despojou durante a vida corporal.Seu estado feliz ou infeliz é inerente ao grau de sua depuração ou de suasimperfeições.2o) Sendo todos os espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso,trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futurae os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprioadiantamento94.3o) A felicidade perfeita está ligada à perfeição, ou seja, à depuração completa do espírito. Toda imperfeição é uma causa de sofrimento, da mesmaforma que toda qualidade adquirida é uma causa de satisfação e de atenuaçãodos sofrimentos; donde resulta que a soma da felicidade e da infelicidade estána razão da soma das qualidades boas ou más que possui o espírito.

pag 132 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior((alguns trechos deste item estão somente na edição original de 1865, apresentada aqui))

Essa interpretação se distancia da concepção tradicional que associa a felicidade a um lugar específico e o sofrimento a um espaço destinado ao castigo.

No entendimento espírita, o Espírito carrega em si os elementos responsáveis pela sua própria condição.

A felicidade é resultado do desenvolvimento das virtudes do desenvolvimento do progresso moral. O sofrimento, por sua vez, está relacionado às imperfeições adquiridas que ainda não foram superadas.

Dessa forma, o estado do Espírito não depende de uma sentença externa, mas da própria condição moral do indivíduo.

A punição como consequência natural da falta cometida

Um dos conceitos mais importantes apresentados por Kardec é o mecanismo pelo qual a justiça divina se manifesta. Observe os itens abaixo:

4o) A punição é sempre a consequência natural da falta cometida95. Oespírito sofre pelo próprio mal que fez, de maneira que, estando sua atençãoconcentrada incessantemente sobre as consequências desse mal 96, compreende-lhemelhor os inconvenientes e é motivado a corrigir-se.

(idem)

Kardec estabelece um importante princípio que “a punição é sempre a consequência natural da falta cometida”, servindo como um meio para o Espírito compreender os inconvenientes do erro e motivar-se a corrigi-lo.

Em A Gênese, o autor afirma que cada indivíduo é punido precisamente “por onde pecou”, A Gênese (Cap. I, item 32): “(…)que cada um sofre as consequências diretas e naturais de suas faltas, por outras palavras, que ele é punido por onde pecou; (…)

Em O Céu e o Inferno, esse princípio é desenvolvido a partir da ideia de que o sofrimento não é imposto arbitrariamente por Deus. A punição surge como consequência natural das escolhas equivocadas.

O arrependimento e a rejeição das penas eternas

A rejeição das penas eternas representa um dos aspectos mais revolucionários da interpretação espírita da justiça divina.

Nos itens 32 e 33 de A Gênese, Kardec afirma que o sofrimento termina quando o Espírito se arrepende e se dedica à reparação dos erros cometidos.

Em O Céu e o Inferno, o autor argumenta que a ideia de um castigo eterno é incompatível com a bondade e a misericórdia de Deus. O Céu e o Inferno: Capítulo VII (“Doutrina das penas eternas”)

Reconciliar-se o culpado com Deus – arrependendo-se e pedindo para reparar o mal que fez – constitui um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo é irrevogável, esse retorno ao bem de nada valerá; se o bem não for levado em conta, não haverá justiça. Entre os homens, o condenado que se corrige vê sua pena atenuada e por vezes até mesmo perdoada; haveria assim, na justiça humana, mais equidade que na justiça divina! Se a condenação é irrevogável, o arrependimento é inútil – o culpado, não tendo nada a esperar do seu retorno ao bem, persistirá no mal, de tal forma que Deus não somente o condena a sofrer perpetuamente, condena-o ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Isso não constituiria nem justiça nem bondade.

pag. 120 Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

O item mencionado capitulo VII da primeira parte de O Céu e o Inferno e os itens 8º e 9º do capítulo VIII (( 8o) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem99.O espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem. Uma condenação por um tempo determinado qualquer teria o duplo inconveniente de ou continuar a atingir o espírito que se houvesse aperfeiçoado ou cessar quando ele ainda estivesse no mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto este existe; e encerra a punição quando o mal não existe mais. Assim se acha confirmada esta expressão: Eu não quero a morte do pecador, mas que ele viva e eu o acusarei até que ele se arrependa.1009o) Estando a duração do castigo subordinada ao arrependimento, resulta daí que o espírito culpado que não se arrependesse e jamais se aperfeiçoasse sofreria sempre, e que, para ele, a pena seria eterna. A eternidade das penas deve então ser entendida no sentido relativo e não no sentido absoluto. pag 133))

Assim, Kardec demonstra que a duração do castigo é estritamente subordinada ao aperfeiçoamento do culpado e que a “eternidade” das penas é apenas relativa à persistência no mal

Segundo essa perspectiva, a duração do sofrimento está diretamente relacionada ao processo de transformação do Espírito. Não existe uma condenação estabelecida por um período determinado nem uma sentença irreversível.

A reencarnação como instrumento de reparação e progresso

Nos itens 34 e 35 de A Gênese, Kardec apresenta a pluralidade das existências como um elemento essencial para compreender a justiça divina. Leia a seguir:

34. A pluralidade das existências, cujo princípio Cristo estabeleceu noEvangelho, mas sem defini-lo, como o fez com muitos outros, é uma dasmais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, porque este demonstrasua realidade e sua necessidade para o progresso. Com essa lei, o homemexplica a si todas as aparentes anomalias da vida humana; suas diferençasquanto à posição social; as mortes prematuras as quais, sem a reencarnação,tornariam inúteis para a alma as vidas de curta duração; explica a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, as quais se devem à antiguidade doEspírito que viveu mais ou menos tempo, tendo aprendido e progredidoem maior ou menor grau, trazendo ao renascer o que conquistou em existências anteriores.

35. Com a doutrina da criação da alma a cada nascimento, caímos no sistemadas criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nadaos liga; os laços de família são puramente carnais. Não são em nada solidários com um passado no qual não existiram. Com a doutrina do nadadepois da morte, todas as relações cessam com a vida e, desse modo, oshomens não são solidários no futuro. Mediante a realidade da reencarnação, por sua vez, eles são solidários no passado e no futuro. Como suasrelações se perpetuam, tanto no mundo espiritual quanto no corporal,a fraternidade tem como base as próprias leis da natureza. O bem temum objetivo; e o mal, consequências inevitáveis.

pag 56 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

A reencarnação explica as desigualdades sociais, as diferenças individuais e as circunstâncias que caracterizam a experiência humana.

Em O Céu e o Inferno, Capítulo VIII, Itens 21, 23 e 25. Kardec apresenta a reencarnação como um mecanismo de reparação e progresso, conforme o texto:

21o) A situação do espírito, a partir de sua entrada na vida espiritual, éa que ele preparou para si durante a vida no corpo. Mais tarde, outra encarnação lhe é dada, e por vezes imposta, para a expiação e reparação por meio de novas provas, mas ele a aproveita em maior ou menor proporção em virtude de seu livre-arbítrio. Se ele não a aproveitar, será uma tarefa para recomeçar cada vez em condições mais penosas, de modo que se pode dizer que aquele que sofre muito sobre a Terra tinha muito a expiar. Os que gozam de uma felicidade aparente, apesar de seus vícios e sua inutilidade, certamente pagarão caro numa próxima existência. É nesse sentido que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V)

23o) Sendo as penas temporárias e subordinadas ao arrependimento, queé o fato da livre vontade do homem, são ao mesmo tempo os castigos e osremédios que devem ajudar a curar as feridas do mal. Os espíritos em puniçãosão, portanto, não como condenados perpetuamente, mas como doentes nohospital, que sofrem da doença que quase sempre é culpa sua e dos meioscurativos dolorosos de que ela necessita, mas que são a esperança da cura, eque curam tanto mais rápido quanto mais exatamente sigam as prescrições domédico que vela sobre eles com solicitude. Se prolongam seus sofrimentospor sua própria culpa, o médico nada tem com isso.

25°) Seria injustiça se Deus tivesse criado privilegiados, mais favorecidos queoutros, gozando sem trabalho da felicidade que outros somente alcançam comdificuldade ou jamais podem alcançar. Mas onde sua justiça brilha é na igualdadeabsoluta que preside à criação de todos os espíritos. Todos têm um mesmo pontode partida. Nenhum espírito, em sua formação, é mais bem dotado que outro. Nenhum que tenha sua marcha ascensional facilitada por exceção. Aqueles que chegaram ao fim passaram, como os outros, pela fieira das provas e da inferioridade.Admitido isto, o que há de mais justo que a liberdade de ação deixada acada um? A estrada da felicidade está aberta a todos. O fim é o mesmo paratodos. As condições para atingi-lo são as mesmas para todos. A lei gravadaem todas as consciências é ensinada a todos. Deus fez da felicidade o prêmiodo trabalho e não o do favor, a fim de que cada um pudesse dela ter o mérito.Cada um é livre para trabalhar ou nada fazer por seu próprio adiantamento.Aquele que trabalha muito e depressa é mais cedo recompensado. Aquele quese desvia no caminho ou perde tempo atrasa sua chegada e só pode culpar a simesmo. O bem e o mal são voluntários e facultativos. O homem, sendo livre,não é fatalmente impelido nem a um nem a outro.

pag. 138 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

As penas não são permanentes. Elas funcionam como remédios destinados ao aperfeiçoamento do Espírito.

Cada existência oferece novas oportunidades de aprendizado, permitindo que o indivíduo enfrente desafios compatíveis com suas necessidades evolutivas.

Essa interpretação também estabelece uma profunda relação entre o passado, o presente e o futuro.

As escolhas realizadas em uma existência produzem consequências que podem se refletir em experiências futuras, criando um vínculo permanente entre as diferentes etapas da jornada espiritual.

Ao mesmo tempo, a reencarnação reforça o princípio da solidariedade humana, eliminando preconceitos e demonstrando que todos os indivíduos estão submetidos ao mesmo processo evolutivo.

A nova interpretação do pecado original

No item 38 de A Gênese, Kardec apresenta uma nova compreensão do pecado original:

38. Sem a preexistência da alma, a doutrina do pecado original não seria somente inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens respon­ sáveis pela falta de um só, seria também um contra-senso, e tanto menos justificável quanto, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende fazer que a sua responsabilidade remonte. Com a preexistência, o homem traz, ao renascer, o gérmen das suas imperfeições, dos defeitos de que se não corrigiu e que se traduzem pelos instintos naturais e pelos pendores para tal ou tal vício. É esse o seu verdadeiro pecado original, cujas conseqüências naturalmente sofre, mas com a diferença capital de que sofre a pena das suas próprias faltas, e não das de outrem; e com a outra diferença, ao mesmo tempo consoladora, animadora e soberanamente eqüitativa, de que cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação e de progredir, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos e, assim, até que, suficientemente purificado, não necessite mais da vida corporal e possa viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

pag 57 – Kardec, A Gênese – 6ª edição – Editora Mundo Maior

A doutrina espírita abandona a ideia da culpa herdada e substitui esse conceito pela responsabilidade individual.

O homem não sofre em consequência da falta de um ancestral.

Segundo Kardec, o chamado pecado original corresponde ao conjunto das imperfeições que o Espírito ainda conserva ao renascer. Em O Céu e o Inferno, Capítulo VIII – 15° fundamenta a responsabilidade individual, onde o homem sofre apenas a pena de suas próprias faltas, tendo em cada existência os meios de se redimir:

15o) Cada um é responsável apenas por suas faltas pessoais; ninguém carrega a pena das faltas de outrem,106 a menos que tenha dado lugar a tal, seja provocando-as por seu exemplo, seja não as impedindo quando tinha esse poder. Responde-se não somente pelo mal que se fez, mas também pelo bem que se poderia fazer e não se fez107.É assim, por exemplo, que o suicida é sempre punido; mas aquele que, por sua dureza, impele um indivíduo ao desespero e daí a destruir-se, sujeita-se a uma pena ainda maior.

pag. 136 – Kardec, O Céu e o Inferno – 2021 – Editora Mundo Maior

Cada indivíduo traz consigo tendências, inclinações e dificuldades que representam experiências ainda não superadas. Entretanto, essas limitações não constituem uma condenação definitiva.

Cada nova existência oferece os recursos necessários para que o Espírito transforme antigas imperfeições em virtudes, avançando gradualmente em direção ao aperfeiçoamento.

Conclusão: Uma justiça baseada no progresso e na responsabilidade

Ao estabelecer a correspondência entre A Gênese e O Céu e o Inferno, Allan Kardec apresenta uma visão da justiça divina fundamentada em princípios completamente diferentes daqueles tradicionalmente associados à punição.

Não existem privilégios na criação. Não existem condenações eternas. O sofrimento não é uma manifestação da ira divina, mas uma consequência natural da imperfeição.

Ao mesmo tempo, o arrependimento, a reparação e a reencarnação oferecem oportunidades permanentes de crescimento e transformação.

Essa compreensão faz da justiça divina um processo educativo e progressivo, no qual cada Espírito é responsável pelo próprio destino e possui, em si mesmo, os instrumentos necessários para alcançar a felicidade.

Nota: Este conteúdo baseia-se nas obras de Allan Kardec (edições autênticas da Editora Mundo Maior), focando na correlação doutrinária entre A Gênese e O Céu e o Inferno.




O Elo entre O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno

A compreensão das penas futuras e da justiça divina sob a ótica do Espiritismo encontra uma de suas sínteses mais profundas e esclarecedoras na nota contida no Capítulo XXVII, item 21, de O Evangelho segundo o Espiritismo. Nessa referência, Allan Kardec convida o leitor a examinar o Capítulo VIII ((pag. 129 – O Ceu e o Inferno – Edição original – Editora Mundo Maior)) de 1865 – da primeira parte de O Céu e o Inferno em sua totalidade, obra que representa a elaboração definitiva da teoria moral espírita, validada tanto por uma tese racional e lógica quanto por exemplos práticos reais extraídos do plano espiritual.

A Estrutura do Capítulo VIII: A Tese dos 25 Itens

O Capítulo VIII de O Céu e o Inferno é composto por 25 proposições fundamentais que estruturam, passo a passo, a verdadeira face da justiça divina. Cada um desses itens desempenha um papel estratégico na exposição da doutrina: a primeira parte da obra estabelece a tese teórica de forma rigorosa, enquanto a segunda parte apresenta os depoimentos e as vivências de Espíritos nas mais variadas condições, demonstrando empiricamente como essas leis se aplicam na prática.

21. “O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição.

“A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta.

“Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno à senda do bem; a pena dura tanto quanto a obstinação no mal; seria perpétua, se perpétua fosse a obstinação; dura pouco, se pronto é o arrependimento.

“Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito.

“O homem é, assim, constantemente, o árbitro de sua própria sorte; pertence-lhe abreviar ou prolongar indefinidamente o seu suplício; a sua felicidade ou a sua desgraça dependem da vontade que tenha de praticar o bem.”

Tal a lei, lei imutável e em conformidade com a bondade e a justiça de Deus. Assim, o Espírito culpado e infeliz pode sempre salvar-se a si mesmo: a lei de Deus estabelece a condição em que se lhe torna possível fazê-lo. O que as mais das vezes lhe falta é a vontade, a força, a coragem. Se, por nossas preces, lhe inspiramos essa vontade, se o amparamos e animamos; se, pelos nossos conselhos, lhe damos as luzes de que carece, em lugar de pedirmos a Deus que derrogue a sua lei, tornamo-nos instrumentos da execução de outra lei, também sua, a de amor e de caridade, execução em que, desse modo, ele nos permite participar, dando nós mesmos, com isso, uma prova de caridade. (Veja-se O Céu e o Inferno, 1.ª parte, caps. IV, VII, VIII.) ((idem))

Capítulo XXVII, item 21, de O Evangelho segundo o Espiritismo. – Edição 1866

Embora o resumo apresentado no Evangelho dê destaque a conceitos centrais presentes em pontos específicos, ele sintetiza o espírito de todo o conjunto que compõe esse capítulo, mostrando que a moral espírita é um sistema integrado.

Os Princípios Fundamentais da Justiça Divina

Dentro dessa estrutura de 25 itens, Kardec desconstrói os dogmas tradicionais baseados no medo e estabelece as bases lógicas da responsabilidade moral individual:

  • A Consequência Natural: O sofrimento e a punição não decorrem de um decreto punitivo arbitrário ou de uma ira divina externa. Conforme o item 4, o castigo é a consequência natural da falta cometida. Ele deriva diretamente da própria imperfeição do Espírito, que carrega em seu íntimo os elementos da sua desarmonia e desequilíbrio.
  • Proporcionalidade da Pena: O item 5 estabelece que a severidade do sofrimento é rigorosamente proporcional à gravidade e à natureza da falta cometida, ajustando-se com exatidão matemática e moral à condição de cada indivíduo, sem excessos inúteis.
  • Duração Indeterminada e o Arrependimento: Os itens 8 e 9 tratam da duração da pena, demonstrando que ela não possui caráter eterno nem prazos fixados de antemão por uma sentença irrevogável. O sofrimento permanece estritamente subordinado ao arrependimento do culpado e à sua livre vontade de se regenerar, mudar e buscar o próprio aprimoramento.

O Diálogo entre as Obras: A Conexão Cronológica e a Revisão

Um aspecto fascinante e dinâmico da Codificação Espírita é a forma como as obras dialogam entre si no decorrer do tempo. Como O Céu e o Inferno foi publicado posteriormente (em agosto de 1865), a menção a ele em uma nota do Evangelho segundo o Espiritismo evidencia o processo constante de interligação e atualização promovido por Allan Kardec.

Esse aprimoramento contínuo refletiu-se diretamente nas edições do Evangelho, que foram sendo cuidadosa e progressivamente revistas pelo próprio codificador — com destaque para a sua terceira edição (lançada em 1866), marco essencial em que a estrutura da obra foi consolidada e integrada às conclusões morais mais maduras que desabrochavam na Doutrina.

O Contexto Complementar: Os Capítulos IV e VII

Para uma compreensão verdadeiramente integral do raciocínio apontado na nota do Evangelho, a análise não deve se restringir apenas ao Capítulo VIII. Kardec também remete o leitor aos capítulos IV e VII da primeira parte de O Céu e o Inferno para enriquecer o panorama:

  • Capítulo IV aprofunda o entendimento filosófico sobre a natureza íntima das penas espirituais.
  • Capítulo VII desenvolve uma crítica rigorosa e profunda à tradicional “doutrina das penas eternas”, contrapondo-a à lógica da justiça equânime, da misericórdia divina e da inabalável lei de progresso.

Conclusão

A articulação profunda entre O Evangelho segundo o Espiritismo e O Céu e o Inferno revela um sistema moral coerente, humanizador e consolador, no qual a justiça divina opera longe de qualquer fatalismo dogmático. Ao orientar o leitor a mergulhar no conjunto dessas obras, Kardec reforça que a responsabilidade espiritual é intransferível, que a dor atua como um corretivo pedagógico da consciência e que a reabilitação está sempre aberta e acessível a qualquer ser por meio do livre-arbítrio e do esforço pessoal de regeneração.




As colônias espirituais diante de Kardec: uma análise crítica da tese de Paulo Neto

A discussão sobre a existência de colônias espirituais tornou-se recorrente no movimento espírita brasileiro, sobretudo por influência das obras atribuídas ao Espírito André Luiz, psicografadas por Chico Xavier. Entre os trabalhos que procuram demonstrar que essas descrições seriam compatíveis com Allan Kardec está As colônias espirituais e a Codificação, de Paulo Neto.

O problema da obra não está em admitir como hipótese a possibilidade de ambientes, agrupamentos ou construções fluídicas no mundo espiritual. Kardec oferece elementos suficientes para considerar seriamente essas possibilidades. O problema surge quando essas possibilidades são convertidas em confirmação de um modelo muito mais específico: cidades espirituais organizadas de forma semelhante às cidades humanas, dotadas de edifícios, hospitais, instituições administrativas, alimentação, transporte e outros elementos presentes principalmente nas narrativas de André Luiz.

A análise cuidadosa mostra que Paulo Neto frequentemente ultrapassa aquilo que suas próprias fontes permitem concluir.

Uma pesquisa orientada para confirmar uma conclusão

O próprio resumo da obra declara que se trata de um “estudo desenvolvido para confirmar a realidade das colônias espirituais mencionadas por André Luiz”.

Essa formulação já revela uma dificuldade metodológica. Em uma investigação rigorosa, o ponto de partida deveria ser uma pergunta: as fontes disponíveis confirmam, contradizem ou deixam em aberto a hipótese das colônias espirituais?

No livro, entretanto, a conclusão aparece previamente definida. A pesquisa passa então a reunir elementos que possam ser interpretados como confirmações.

Isso favorece aquilo que, em metodologia científica, é chamado de viés de confirmação: buscar, selecionar e organizar as evidências principalmente em função de uma hipótese previamente aceita.

O problema torna-se particularmente evidente porque diferentes fenômenos são tratados como se fossem equivalentes:

  • agrupamentos de Espíritos;
  • criações fluídicas;
  • habitações;
  • mundos transitórios;
  • esferas;
  • regiões espirituais;
  • cidades;
  • colônias.

Esses conceitos não significam necessariamente a mesma coisa.

Demonstrar um deles não demonstra automaticamente os demais.

O salto entre criações fluídicas e cidades espirituais

Kardec ensina que os Espíritos podem agir sobre os fluidos por meio do pensamento e da vontade, modificando sua forma e propriedades. Esse princípio aparece especialmente em O Livro dos Médiuns e em A Gênese.

Portanto, a existência de objetos ou formas fluídicas no mundo espiritual é perfeitamente compatível com a teoria kardequiana.

Mas daí não decorre automaticamente a existência de cidades espirituais organizadas como as descritas por André Luiz.

Há uma diferença lógica importante entre estas proposições:

1. Espíritos podem produzir formas ou objetos fluídicos.

e

2. Existem cidades permanentes, estruturadas institucionalmente, onde os Espíritos vivem de maneira semelhante aos homens encarnados.

A primeira não implica necessariamente a segunda.

Seria preciso demonstrar separadamente que essas construções formam sistemas urbanos estáveis, que desempenham funções semelhantes às cidades terrestres e que os Espíritos efetivamente dependem dessas estruturas.

Paulo Neto frequentemente trata a possibilidade das criações fluídicas como se ela constituísse, por si só, uma demonstração das colônias.

Isso é um salto lógico.

O problema dos mundos transitórios

Um dos principais argumentos utilizados por Paulo Neto está nas questões 234 a 236 de O Livro dos Espíritos, referentes aos chamados mundos transitórios.

O autor afirma:

“Entendemos que as colônias estão em completa semelhança com as características dos mundos transitórios.”

Entretanto, o próprio texto de Kardec apresenta características bastante diferentes daquelas normalmente atribuídas às colônias de André Luiz.

Os Espíritos explicam que esses mundos podem servir temporariamente de habitação aos Espíritos errantes. Mas, quando Kardec pergunta se são habitados também por seres corpóreos, recebe esta resposta:

“Não; estéril é neles a superfície. Os que os habitam de nada precisam.”

Paulo Neto reconhece essas informações, mas imediatamente acrescenta:

“Entendemos que, sendo habitações temporárias, haverá neles construções…”

Esse “haverá”, porém, não está em Kardec.

É uma inferência do autor.

A palavra “habitação”, no contexto, significa simplesmente permanência temporária. Não exige necessariamente casas, edifícios ou estruturas urbanas.

Há ainda outro detalhe importante. Kardec pergunta se a Terra já pertenceu à categoria dos mundos transitórios. A resposta é afirmativa: isso teria ocorrido durante sua formação.

Esse elemento mostra que estamos diante de uma condição planetária transitória, e não da descrição de cidades espirituais construídas próximas à Terra.

Assim, os mundos transitórios podem ser relacionados ao estado de erraticidade dos Espíritos, mas não constituem uma demonstração de colônias semelhantes a Nosso Lar.

“Os que os habitam de nada precisam”

Essa frase merece atenção especial.

Segundo Kardec, os Espíritos que habitam esses mundos “de nada precisam”.

Isso não significa que o Espírito não possa trabalhar, aprender ou utilizar criações fluídicas.

Mas dificulta uma interpretação baseada em necessidades semelhantes às necessidades orgânicas humanas.

Nas obras de André Luiz aparecem, por exemplo:

  • hospitais;
  • alimentação;
  • dormitórios;
  • transportes;
  • estruturas administrativas;
  • sistemas de abastecimento;
  • instituições diversas.

Para demonstrar que tudo isso corresponde objetivamente à vida espiritual, não basta provar que os fluidos podem assumir formas.

Seria necessário demonstrar por que Espíritos necessitariam dessas estruturas e qual seria sua função objetiva.

Kardec não fornece essa demonstração.

A analogia da “grande cidade”

Outro exemplo revelador aparece na questão 278 de O Livro dos Espíritos.

Os Espíritos explicam que aqueles de uma mesma categoria se aproximam por afinidade e formam grupos ou famílias. Kardec compara essa situação a uma grande cidade, onde pessoas de diferentes classes se encontram sem necessariamente se misturar.

Paulo Neto então conclui:

“não é todo improvável; aliás, para nós, é até lógico, constituírem locais ou mesmo cidades para isso.”

O problema é que Kardec utiliza a cidade como analogia.

Ele não afirma que os Espíritos vivem literalmente em cidades.

Há uma diferença entre dizer:

os Espíritos agrupam-se de maneira comparável às sociedades existentes numa cidade;

e dizer:

os Espíritos constroem cidades.

Transformar o termo de uma comparação em afirmação ontológica é uma reificação da metáfora.

As “moradas aéreas” da Condessa Paula

Paulo Neto também cita uma comunicação da Condessa Paula publicada em O Céu e o Inferno. Ela menciona “moradas aéreas” e assembleias de Espíritos.

Depois dessa citação, Paulo afirma:

“podemos afirmar, com segurança, que na Codificação tem, sim, aquilo que alguns confrades querem combater como se não fosse doutrinário.”

Aqui surge outro problema metodológico importante.

Uma comunicação publicada por Kardec não se torna automaticamente um princípio doutrinário.

As obras de Kardec contêm inúmeras comunicações particulares utilizadas para estudo moral, psicológico ou experimental.

Se cada detalhe de todas essas comunicações fosse automaticamente doutrinário, seria necessário transformar em doutrina todo o conteúdo de cada mensagem publicada.

Esse nunca foi o método de Kardec.

Portanto:

publicado por Kardec não significa automaticamente estabelecido por Kardec como verdade doutrinária.

Esse princípio é fundamental para analisar corretamente a Revista Espírita e também as comunicações presentes em O Céu e o Inferno.

O caso da comunicação atribuída a Voltaire

Algo semelhante ocorre com uma comunicação atribuída a Voltaire, publicada na Revista Espírita de 1859.

Nela aparecem referências a “habitações dos Espíritos” e “construções maravilhosas das moradas espíritas”.

Paulo Neto interpreta isso como demonstração de que Kardec estava “de pleno acordo” com a existência dessas construções.

Mas o próprio comentário de Kardec chama a atenção para outro aspecto: a “influência das ideias terrestres sobre as ideias de além-túmulo”.

Esse detalhe deveria produzir cautela.

O Espírito pode interpretar ou expressar sua experiência utilizando categorias mentais formadas durante a vida terrestre.

Isso não significa necessariamente que tudo aquilo que descreve corresponda literalmente à estrutura objetiva do mundo espiritual.

Kardec alerta contra a materialização do mundo espiritual

Na questão 1012 de O Livro dos Espíritos, os Espíritos explicam que não existem lugares circunscritos especialmente destinados às penas e recompensas.

Kardec comenta:

“A localização absoluta das regiões das penas e das recompensas só na imaginação do homem existe. Provém da sua tendência a materializar e circunscrever as coisas…”

Isso não significa que nenhum ambiente espiritual possa existir.

Também não significa que os Espíritos não possam reunir-se ou produzir formas fluídicas.

Mas estabelece uma advertência metodológica fundamental: existe uma tendência humana de transformar realidades espirituais em geografias materiais.

Qualquer teoria sobre regiões espirituais, portanto, deveria ser examinada com especial cuidado.

“Cidade das flores” e “cidade dos eleitos”

Essa cautela torna-se ainda mais importante quando Kardec trata diretamente de expressões utilizadas para descrever o mundo espiritual.

Em O Livro dos Espíritos, ele explica que termos como “cidade das flores”, “cidade dos eleitos” e determinadas “esferas” podem ser simplesmente formas figuradas de expressão.

Isso cria uma questão fundamental que Paulo Neto não resolve:

como distinguir uma cidade objetiva de uma representação simbólica, uma criação fluídica temporária ou uma imagem formada segundo as concepções do próprio Espírito?

A simples repetição da palavra “cidade” em diferentes comunicações não responde a essa pergunta.

Antes de utilizar essas narrativas como prova, seria necessário estabelecer critérios capazes de distinguir essas diferentes possibilidades.

Agrupamento moral não implica território

Kardec ensina que Espíritos se aproximam por simpatia, afinidade e objetivos comuns.

Mas uma associação não exige necessariamente um território.

Esse ponto se torna ainda mais relevante quando consideramos outra característica do mundo espiritual apresentada por Kardec: os Espíritos não estão presos ao solo e podem transpor distâncias com grande rapidez.

Paulo Neto reproduz em sua própria obra a passagem de O Céu e o Inferno segundo a qual, em razão da natureza fluídica do perispírito, os Espíritos atravessam distâncias com a rapidez do pensamento.

Se o Espírito não depende da locomoção material e não está territorialmente preso a um lugar, a reprodução de uma organização urbana terrestre precisa ser demonstrada, e não simplesmente presumida.

O uso problemático do Controle Universal

Na conclusão, Paulo Neto apresenta uma longa lista de pesquisadores, médiuns, autores e psicografias provenientes de diferentes regiões do mundo.

Com base nisso, afirma:

“a nosso ver, cumpre-se muito bem o CUEE”.

Esse é provavelmente um dos maiores problemas metodológicos da obra.

O Controle Universal do Ensino dos Espíritos não significa simplesmente reunir muitas pessoas que disseram coisas parecidas.

Para haver verdadeira concordância independente, seria necessário analisar fatores como:

  • independência efetiva das fontes;
  • influência cultural entre os autores;
  • conhecimento prévio de outras obras;
  • identidade precisa entre as proposições comparadas;
  • qualidade das comunicações;
  • existência de relatos divergentes;
  • compatibilidade com a razão e com os princípios previamente constatados.

A distância geográfica não basta para demonstrar independência.

Dois médiuns podem estar em países diferentes e conhecer as mesmas obras.

Dois autores podem pertencer a uma mesma tradição espiritualista.

Médiuns brasileiros posteriores à publicação de Nosso Lar atuaram em um ambiente cultural profundamente influenciado pelas obras de Chico Xavier.

Assim, a concordância pode resultar de transmissão cultural, e não necessariamente de confirmação independente.

A mistura de categorias de evidência

Paulo Neto coloca no mesmo conjunto:

  • pesquisadores;
  • médiuns;
  • psicografias;
  • experiências de desdobramento;
  • experiências de quase-morte;
  • autores espíritas;
  • espiritualistas;
  • comunicações mediúnicas.

Essas fontes possuem naturezas epistemológicas diferentes.

Um relato de experiência de quase-morte não é equivalente a uma comunicação mediúnica.

Uma opinião filosófica de Léon Denis não é equivalente a uma observação experimental.

Uma psicografia posterior não é automaticamente independente de uma obra mediúnica anterior.

Ao tratar todas essas fontes simplesmente como confirmações acumuladas, Paulo Neto produz uma aparência de convergência maior do que aquela que efetivamente foi demonstrada.

O exemplo de Heigorina Cunha

Paulo Neto cita Heigorina Cunha, que relata uma experiência fora do corpo na qual teria visitado uma cidade espiritual identificada posteriormente como Nosso Lar.

Esse relato pode ser interessante como testemunho.

Mas, para funcionar como confirmação independente, seria necessário investigar:

  • se ela já conhecia Nosso Lar;
  • quais elementos foram registrados antes da identificação;
  • quem realizou a identificação;
  • quais coincidências existiam;
  • quais divergências existiam;
  • se houve comparação posterior influenciada pelo conhecimento da obra.

Sem esse controle, temos um relato subjetivo significativo para quem o viveu, mas não uma demonstração científica independente.

As experiências de quase-morte

Paulo também cita relatos de experiências de quase-morte em que aparecem “cidades de luz”, edifícios ou ambientes semelhantes.

Esses relatos merecem investigação.

Mas novamente é necessário distinguir:

alguém relatou perceber uma cidade durante uma EQM

de

essa experiência confirma a existência das colônias descritas por André Luiz.

Uma “cidade de luz” não demonstra hospitais espirituais, ministérios, sistemas de transporte ou organizações administrativas.

A semelhança parcial não constitui identidade.

O caráter progressivo do Espiritismo

Paulo Neto cita corretamente diversos textos em que Kardec afirma que o Espiritismo não está terminado e deve acompanhar o progresso do conhecimento.

Esse princípio é fundamental.

Mas há uma diferença entre dizer:

novas verdades poderão ser incorporadas ao Espiritismo;

e dizer:

uma ideia posterior deve ser aceita porque o Espiritismo é progressivo.

O próprio Kardec estabelece que proposições ainda não demonstradas devem permanecer no campo das hipóteses até sua confirmação.

Paulo Neto chega a reproduzir esse princípio:

aquilo que ainda não foi constatado deve ser admitido apenas “a título de hipóteses até a confirmação”.

Esse critério poderia ser aplicado diretamente às colônias espirituais.

A posição metodologicamente coerente seria:

as colônias constituem uma hipótese que pode ser investigada.

Entretanto, Paulo termina afirmando estar “totalmente convencido” de sua realidade.

Existe, portanto, uma tensão entre o método de Kardec que o próprio autor cita e a forma como conduz sua conclusão.

Léon Denis e Bozzano não encerram a questão

Na conclusão, Paulo Neto chega a afirmar que, para ele, bastariam as opiniões de Léon Denis e Ernesto Bozzano para aceitar as colônias, representando respectivamente uma base filosófica e científica.

Esse argumento é incompatível com o princípio espírita de autoridade doutrinária.

Nem Léon Denis, nem Bozzano, nem Chico Xavier, nem qualquer médium ou pesquisador isolado possui autoridade suficiente para estabelecer uma verdade espírita.

O valor de suas contribuições depende da demonstração dos fatos e da consistência metodológica da investigação.

Substituir autoridade religiosa pela autoridade de nomes respeitados continua sendo um argumento de autoridade.

O problema da definição de “colônia espiritual”

Há ainda uma dificuldade conceitual fundamental.

O livro utiliza como evidência de colônias fenômenos muito diferentes:

  • grupos espirituais;
  • moradas;
  • mundos;
  • esferas;
  • cidades;
  • ambientes;
  • construções;
  • paisagens;
  • comunidades.

Mas o que exatamente é uma “colônia espiritual”?

Uma cidade?

Um agrupamento de Espíritos?

Uma região fluídica?

Uma formação mental coletiva?

Um planeta transitório?

Uma instituição?

Sem uma definição precisa, praticamente qualquer descrição do mundo espiritual pode ser apresentada como confirmação.

Isso torna a hipótese excessivamente flexível.

E uma hipótese que pode explicar qualquer coisa corre o risco de não poder ser efetivamente testada.

O que Kardec realmente permite concluir

Uma análise cuidadosa das obras de Kardec permite sustentar vários pontos:

Kardec admite que o mundo espiritual possui realidade objetiva.

Admite que os Espíritos mantêm intensa atividade.

Admite que eles se agrupam por afinidade.

Admite que o pensamento atua sobre os fluidos.

Admite que podem existir objetos e formas fluídicas.

Admite que Espíritos podem perceber ambientes que possuem aparência material para eles.

Nada disso deve ser negado.

Mas também encontramos advertências igualmente importantes:

  • o Espírito conserva ideias e concepções terrestres;
  • a linguagem espiritual pode ser figurada;
  • expressões como cidades e esferas podem ser alegóricas;
  • existe tendência humana de materializar o mundo espiritual;
  • comunicações individuais não constituem automaticamente doutrina;
  • concordância só possui valor quando acompanhada de independência, razão, lógica e controle;
  • aquilo que ainda não foi demonstrado deve permanecer como hipótese.

Portanto, não é metodologicamente correto afirmar que as obras de Kardec confirmam as colônias de André Luiz.

Conclusão

A principal fragilidade de As colônias espirituais e a Codificação não está em defender uma hipótese possível.

Está em apresentar como confirmação aquilo que as fontes permitem, no máximo, considerar como possibilidade.

Paulo Neto identifica corretamente elementos da teoria espírita que tornam concebível a existência de formas, ambientes e organizações no mundo espiritual. Mas frequentemente transforma possibilidade em evidência, analogia em descrição literal, concordância aparente em Controle Universal e testemunhos heterogêneos em demonstração acumulada.

A conclusão mais rigorosa não é:

“Kardec demonstrou que as colônias espirituais não existem.”

Essa afirmação iria além das evidências.

A conclusão metodologicamente sustentável é outra:

as obras de Allan Kardec não fornecem base suficiente para elevar as colônias espirituais descritas por André Luiz à condição de conhecimento estabelecido da Ciência Espírita.

Elas podem ser apresentadas como hipótese.

Podem ser investigadas.

Podem ser debatidas.

Mas, segundo os próprios critérios formulados por Kardec, uma hipótese não se transforma em verdade doutrinária porque muitos autores a repetiram, porque um médium respeitado a transmitiu ou porque encontramos passagens que parecem compatíveis com ela.

No método espírita, a autoridade está na demonstração.

E é justamente essa demonstração que ainda falta.




Da Causalidade Moral à Lógica da Dívida: O Estrago das Adulterações em O Céu e o Inferno

Resumo

A compreensão da relação entre sofrimento, responsabilidade moral e evolução espiritual constitui um dos pontos centrais da filosofia espírita. Este artigo analisa a diferença entre uma interpretação baseada no princípio de causalidade, entendida como consequência natural das escolhas e do estado de consciência do espírito, e uma interpretação fundamentada na ideia de dívida, expiação e reparação obrigatória. A partir da comparação entre conceitos presentes em O Céu e o Inferno (1865) e interpretações posteriores associadas à quarta edição da obra, discute-se como a aproximação entre causa e efeito moral e a noção popular de karma contribuiu para modificar a percepção sobre autonomia espiritual e determinismo.

Palavras-chave: Allan Kardec; O Céu e o Inferno; causalidade; autonomia ; expiação; karma.


Introdução

A relação entre justiça divina, sofrimento e evolução espiritual sempre ocupou lugar central nas tradições religiosas e filosóficas. No século XIX, Allan Kardec estruturou a filosofia espírita propondo uma abordagem que procurava conciliar responsabilidade moral, progresso espiritual e autonomia do indivíduo.

Entretanto, interpretações posteriores do pensamento espírita passaram a enfatizar conceitos como dívida espiritual, resgate e expiação, aproximando-se, em muitos aspectos, de uma concepção popular de karma baseada na ideia de compensação obrigatória por atos passados.

A diferença entre essas perspectivas não é apenas terminológica. Ela envolve duas formas distintas de compreender o desenvolvimento espiritual: uma baseada na transformação consciente do indivíduo e outra fundamentada em uma lógica de retribuição.


1. A causalidade como princípio filosófico

Na perspectiva apresentada por Kardec em O Céu e o Inferno (1865), o sofrimento espiritual é explicado a partir de uma relação de causalidade. O espírito experimentaria as consequências naturais de seu próprio estado moral, de seus pensamentos e de suas escolhas.

Nesse modelo, a consequência não possui necessariamente caráter punitivo. Ela funciona como elemento educativo, permitindo ao indivíduo compreender os efeitos de determinadas atitudes e desenvolver gradualmente uma consciência mais elevada.

A diferença fundamental está no papel da autonomia. O espírito não seria um condenado submetido a uma pena externa, mas um agente capaz de modificar as causas que produzem determinados efeitos.

Essa concepção está alinhada com a ideia de progresso moral contínuo: a transformação interior altera a relação do indivíduo com suas próprias consequências.


2. A mudança de perspectiva: dívida e expiação

Críticos das alterações posteriores em O Céu e o Inferno apontam que determinadas inclusões conceituais teriam deslocado a interpretação da causalidade para uma lógica de débito espiritual: erros cometidos anteriormente gerariam uma necessidade de reparação futura, estabelecendo uma relação mais próxima com a ideia de pagamento de uma dívida.

A consequência dessa mudança é uma alteração na compreensão do sofrimento: ele deixa de ser visto prioritariamente como resultado natural de um estado de consciência e passa a ser interpretado como uma exigência de compensação.

A diferença pode ser resumida da seguinte forma:

Causalidade moral Lógica da dívida
A consequência surge naturalmente das escolhas O sofrimento funciona como reparação obrigatória
O indivíduo pode transformar a causa presente O passado determina uma necessidade futura
Ênfase na autonomia Ênfase no resgate
Sofrimento como aprendizado Sofrimento como pagamento

3. A aproximação com o conceito popular de karma

O termo karma possui diferentes significados dentro das tradições indianas, especialmente no hinduísmo, budismo e jainismo. Sua complexidade histórica não se reduz à ideia popular ocidental de “pagar pelo que fez”.

Entretanto, no uso comum contemporâneo, karma frequentemente é compreendido como uma lei automática de recompensa e punição: uma ação negativa produziria necessariamente um sofrimento equivalente no futuro.

Quando essa interpretação é aplicada ao pensamento espírita, ocorre uma aproximação entre causalidade moral e uma espécie de mecanismo retributivo.

O problema filosófico dessa associação está em transformar uma relação ética e educativa em uma relação mecânica, como se o universo funcionasse segundo uma contabilidade automática de débitos e créditos.


4. A analogia inadequada com a terceira lei de Newton

A expressão “ação e reação” tornou-se amplamente utilizada para explicar consequências morais. Contudo, existe uma diferença fundamental entre uma lei física e um princípio..

A terceira lei de Newton descreve uma interação entre forças físicas. Ela pertence ao domínio da mecânica clássica e não representa uma teoria sobre comportamento humano ou justiça moral.

Ao transportar diretamente esse conceito para a dimensão espiritual, cria-se uma analogia limitada: uma ação humana não produz uma reação moral automática e proporcional da mesma maneira que uma força física produz outra força.

O indivíduo possui vontade, consciência, livre-arbítrio, razão, possibilidade de arrependimento, mudança de comportamento e reconstrução de sua trajetória. Esses elementos não existem em sistemas puramente mecânicos.


5. Autonomia versus Determinismo Espiritual

A principal consequência dessa mudança interpretativa está no papel atribuído ao Espírito como indivíduo.

Na perspectiva da autonomia, , Espírito participa ativamente da construção de sua evolução. O passado influencia, mas não determina completamente o futuro, pois novas escolhas produzem novas causas.

Já em uma visão baseada na dívida espiritual obrigatória, existe o risco de interpretar o sofrimento como algo inevitável e previamente necessário, reduzindo o espaço da transformação presente.

Essa diferença possui também implicações morais para o Espírito: uma visão pode estimular responsabilidade e mudança; a outra pode favorecer interpretações fatalistas, nas quais a dor é vista como cumprimento de uma obrigação espiritual.


Conclusão

A distinção entre causalidade e dívida é fundamental para compreender diferentes leituras do pensamento espírita. A primeira enfatiza autonomia, aprendizado e transformação; a segunda aproxima-se de um modelo retributivo baseado em compensação.

O debate não se limita a uma questão textual, mas envolve uma mudança filosófica profunda: compreender o espírito como agente ativo de sua evolução ou como sujeito submetido a uma mecânica inevitável de consequências.




O problema não é o método

Empirismo, ciência moral e o obstáculo ontológico ao reconhecimento do Espiritismo

Resumo

Costuma-se negar caráter científico ao Espiritismo sob a alegação de que lhe faltariam método, controle e possibilidade de verificação empírica. Essa objeção confunde método científico com um protocolo experimental único, construído para objetos físicos manipuláveis em laboratório. A Filosofia da Ciência contemporânea não sustenta tal redução: investigação científica envolve observação sistemática, formulação de hipóteses, inferência, comparação, crítica e teste, mas a maneira concreta de executar essas operações varia conforme a natureza do objeto. Allan Kardec aplicou precisamente esse princípio. Partiu de fatos, comparou comunicações independentes, procurou regularidades, rejeitou respostas isoladas como fundamento doutrinário e deduziu consequências filosóficas e morais. Além disso, o núcleo do programa espírita não é a produção de efeitos extraordinários, mas o estudo do espírito e das leis que regem sua condição moral. Nesse domínio, o empirismo continua aplicável: observa-se reiteradamente a relação entre a violação voluntária do bem, o estado da consciência e o sofrimento moral, bem como entre a conformidade ao bem e a serenidade. Uma vez reconhecida a adequação metodológica desse programa, a divergência remanescente é ontológica: o Espiritismo admite o espírito como ser real, sobrevivente e causalmente ativo, enquanto a ciência institucional tende a aceitar apenas explicações compatíveis com uma ontologia fisicalista. O conflito decisivo, portanto, não está entre método e ausência de método, mas entre concepções rivais sobre o que existe e pode atuar na realidade.

Palavras-chave: Espiritismo; Allan Kardec; Filosofia da Ciência; empirismo; ciência moral; ontologia; naturalismo.

Introdução

Quando se afirma que o Espiritismo não pode ser ciência porque trata de espíritos, comunicações mediúnicas e consequências morais, normalmente já se introduziu a conclusão na premissa. Define-se previamente como real apenas aquilo que pode ser explicado em termos físico-químicos; em seguida, tudo o que pressupõe uma realidade espiritual é classificado como não científico. A exclusão parece metodológica, mas sua base é ontológica: decidiu-se de antemão quais espécies de entidades podem existir.

Essa operação precisa ser exposta. Uma doutrina pode formular afirmações falsas mesmo empregando método; possuir método não garante a verdade de todas as conclusões. Contudo, também é incorreto negar a existência de método apenas porque os resultados obtidos contrariam a ontologia dominante. A avaliação epistemológica deve perguntar primeiro: há um objeto delimitado? Há fatos ou efeitos observáveis? Há procedimentos de coleta e comparação? Há critérios para distinguir dados confiáveis de dados duvidosos? Há inferências criticáveis? Há possibilidade de revisão? No caso de Kardec, a resposta é afirmativa.

O argumento deste artigo é composto por quatro teses. Primeiro, a ciência não possui um único protocolo aplicável indistintamente a todos os objetos. Segundo, o empirismo não se limita à manipulação laboratorial: ele inclui observação sistemática de fenômenos que não estão sob comando do pesquisador. Terceiro, Kardec construiu um programa empírico e racional adequado ao estudo dos fenômenos espíritas e, sobretudo, de suas consequências morais. Quarto, depois de reconhecida essa estrutura metodológica, o principal obstáculo ao reconhecimento científico do Espiritismo é a recusa ontológica do espírito como realidade autônoma.

1. Não existe um método científico único e invariável

A imagem escolar do “método científico” costuma apresentar uma sequência fixa: observar, formular hipótese, experimentar, medir, repetir e concluir. Essa imagem descreve parte importante das ciências experimentais, mas não esgota a prática científica. A Filosofia da Ciência reconhece como atividades científicas a observação sistemática, a experimentação, o raciocínio indutivo e dedutivo, a formação de hipóteses e a confrontação entre teoria e evidência. Não exige, porém, que todas as áreas combinem essas atividades da mesma maneira (Stanford Encyclopedia of Philosophy, “Scientific Method”).

A astronomia não produz estrelas para testar sua evolução. A geologia histórica não repete a formação de uma cordilheira. A paleontologia não reproduz a extinção de uma espécie. Essas disciplinas trabalham com vestígios, séries de observações, comparação de casos, modelos explicativos e previsões indiretas. Continuam empíricas porque suas proposições são constrangidas pela experiência, embora seus objetos não sejam inteiramente manipuláveis.

O mesmo princípio vale para objetos dotados de espontaneidade. Um sujeito consciente não é uma partícula passiva. Sua ação depende de intenção, contexto e vontade. Exigir de uma inteligência comunicante o mesmo comportamento invariável de um corpo submetido a uma força é um erro categorial: aplica-se ao agente o protocolo próprio da coisa inerte. A ausência de produção sob comando não elimina a investigação; exige controles compatíveis com a autonomia do objeto.

Isso não autoriza relaxamento crítico. Ao contrário: quanto menor o controle direto, maior deve ser o cuidado com comparação, independência das fontes, hipóteses alternativas, documentação e convergência. A adaptação do método não significa ausência de rigor; significa rigor adequado.

2. Empirismo não é sinônimo de materialismo

Empirismo é uma posição epistemológica: atribui papel decisivo à experiência na formação e na avaliação do conhecimento. Materialismo ou fisicalismo são posições ontológicas: afirmam, em versões diferentes, que a realidade é inteiramente física ou dependente do físico. Uma coisa não implica logicamente a outra.

É possível investigar empiricamente uma hipótese espiritualista sempre que ela produzir efeitos acessíveis à experiência. Se uma comunicação contém informação verificável, se diferentes observadores registram padrões semelhantes, se estados morais apresentam relações constantes com certas escolhas, há material empírico. Pode-se discutir a interpretação dos dados, mas não declarar que deixaram de ser dados porque uma das explicações possíveis admite o espírito.

A distinção é essencial. O naturalismo metodológico pode ser entendido modestamente como a exigência de causas investigáveis, relações estáveis e explicações submetidas à crítica. Nessa versão, ele não precisa proibir o espírito: se o espírito produz efeitos regulares, torna-se objeto de investigação. O problema surge quando “natural” é definido previamente como “exclusivamente físico”. O naturalismo metodológico converte-se então, de modo silencioso, em naturalismo ontológico. A conclusão deixa de resultar da pesquisa e passa a governá-la: como o espírito não pertence ao inventário admitido, nenhuma evidência poderá contar em seu favor.

Portanto, a fronteira decisiva não separa o observável do inobservável. A ciência trabalha continuamente com entidades inferidas por seus efeitos. A fronteira separa entidades que o paradigma aceita considerar de entidades que ele recusa antes da comparação explicativa. Não se deve equiparar de maneira simplista espíritos e elétrons, pois os programas de evidência são diferentes. O ponto filosófico mais restrito é suficiente: a inobservabilidade direta, por si só, não torna uma hipótese não científica.

3. O programa metodológico de Kardec

Kardec não iniciou pela afirmação dogmática de uma metafísica. Seu ponto de partida declarado foram fenômenos que exigiam explicação. A hipótese de uma causa inteligente surgiu porque alguns efeitos apresentavam conteúdo igualmente inteligente. A partir daí, o trabalho não se limitou a colecionar mensagens. Ele envolveu interrogação, confronto, classificação, exame de contradições e busca de regularidades.

Essa orientação aparece de forma sintética em três procedimentos.

3.1 Observação dos efeitos e inferência da causa

O raciocínio parte de efeitos observáveis. Movimento, escrita, respostas e informações são examinados como ocorrências. A existência do espírito não é apresentada como uma percepção sensorial direta, mas como hipótese causal para certos efeitos. Trata-se de inferência: do caráter do efeito procura-se determinar a natureza provável de sua causa.

3.2 Comparação, independência e concordância

Uma comunicação isolada não constitui doutrina. Kardec compara respostas obtidas por médiuns diferentes, em lugares distintos e sem coordenação entre si. A concordância não vale como simples contagem de opiniões; seu valor depende da independência das fontes, da consistência interna, da generalidade e da resistência à crítica. Esse procedimento procura reduzir a influência do médium, do grupo, da expectativa local e da autoridade de um único comunicante.

O chamado controle universal do ensino dos Espíritos deve ser compreendido como um mecanismo de validação intersubjetiva, não como um oráculo infalível. Ele desloca a autoridade da personalidade para a convergência criticamente examinada. Sua força está na descentralização das fontes; seu aperfeiçoamento contemporâneo exigiria protocolos explícitos de cegamento, registro prévio e análise independente, mas esses aperfeiçoamentos continuam o programa de Kardec em vez de substituí-lo.

3.3 Revisabilidade e subordinação aos fatos

O Espiritismo, desenvolvido pela metodolgia kardeciana, não pode preservar uma proposição contra fatos demonstrados apenas porque ela foi atribuída a um espírito. A identidade alegada do comunicante não elimina o exame. A mensagem deve ser julgada pelo conteúdo, pela lógica, pela concordância e pelos dados disponíveis. Essa regra é decisiva: impede que a fonte espiritual se transforme em autoridade dogmática e mantém aberta a revisão das formulações.

Temos, portanto, um programa reconhecível: fatos, hipótese, comparação, controle de fontes, inferência, crítica e revisão. Pode-se questionar a execução de um estudo particular ou a suficiência de determinada evidência. Isso é parte normal da ciência. O que não se pode afirmar corretamente é que inexiste metodologia.

4. O cerne moral da ciência espírita

Reduzir o Espiritismo aos efeitos físicos é perder de vista seu objeto principal. Kardec distingue os fatos materiais de suas consequências morais e afirma que o melhoramento individual constitui o objetivo essencial do Espiritismo. Em O que é o Espiritismo?, define-o como ciência de observação com consequências morais. Os fenômenos demonstram a existência e a ação dos espíritos; o estudo comparado de sua condição permite investigar as leis que relacionam liberdade, consciência, bem, mal, felicidade e sofrimento.

Essa mudança de foco resolve parte importante da objeção sobre empirismo. O cerne da pesquisa não é obrigar uma manifestação extraordinária a ocorrer em horário marcado. É observar, em grande número de casos, como os seres conscientes experimentam as consequências de suas escolhas. Kardec declara ter interrogado milhares de espíritos de diferentes classes e posições, acompanhando suas ideias, sensações e mudanças. A amostra não é apresentada como um conjunto de revelações aceitas pela fé, mas como material comparativo.

O procedimento pode ser reconstruído da seguinte forma:

  1. recolhem-se relatos sobre estado moral, escolhas, lembranças e consequências;
  2. comparam-se casos provenientes de fontes diversas;
  3. identificam-se regularidades entre disposições, atos e experiências morais;
  4. confrontam-se as explicações com a razão, com fatos conhecidos e com novos casos;
  5. formulam-se leis gerais, mantidas abertas a correção quanto à expressão e ao alcance.

Essa é uma forma de empirismo. Não mede o espírito com uma balança, assim como a psicologia não pesa uma intenção e a história não coloca um acontecimento passado em um tubo de ensaio. Observa manifestações, conteúdos, efeitos, padrões e relações. O acesso é indireto, mas permanece submetido à experiência.

5. A lei moral: do mal voluntário ao sofrimento moral

Uma das regularidades centrais do Espiritismo pode ser expressa assim: o indivíduo que, conhecendo o bem, o contraria voluntariamente para praticar o mal torna-se causa do próprio sofrimento moral. O Livro dos Espíritos afirma que a lei natural indica o que o ser humano deve fazer e que ele se torna infeliz quando dela se afasta (questão 614). Ao tratar da responsabilidade, esclarece que o mal depende sobretudo da vontade de praticá-lo e que o grau de responsabilidade varia conforme a condição do agente (questão 636). Mais adiante, atribui as consequências da violação das leis aos próprios atos do indivíduo (questão 964).

Essa proposição precisa ser formulada com exatidão. Ela não significa que todo infrator experimentará remorso consciente no instante seguinte ao ato. A sensibilidade moral varia. O próprio conjunto kardeciano relaciona o remorso ao desenvolvimento do senso moral. Um agente pode racionalizar, ocultar, anestesiar ou ainda não compreender integralmente o dano que causou. A consequência também pode não aparecer como perda material ou punição externa. A lei diz respeito ao estado do ser consciente e à incompatibilidade entre sua destinação moral e o uso deliberado da liberdade contra o bem.

A formulação causal mais rigorosa é esta:

Sempre que um agente livre viola voluntariamente o bem, introduz em si uma desordem moral cuja consequência necessária é sofrimento, tão logo sua consciência alcance lucidez suficiente sobre o ato e seus efeitos.

Há elementos variáveis: intensidade, duração, momento da tomada de consciência e forma assumida pelo sofrimento. O nexo fundamental, porém, é apresentado como invariável. A lei não funciona como sanção arbitrária aplicada de fora. O efeito decorre da própria condição da consciência diante do que fez. Remorso, vergonha, pesar, insatisfação consigo, necessidade de reparação e impossibilidade de serenidade plena são expressões possíveis dessa causalidade.

Essa distinção evita dois erros. O primeiro seria procurar a lei apenas em recompensas e punições materiais: pessoas injustas podem prosperar externamente, e pessoas justas podem enfrentar dificuldades. O segundo seria tomar a ausência momentânea de remorso como refutação. A hipótese espírita não prevê uniformidade psicológica imediata; prevê que, com o desenvolvimento e a lucidez da consciência, a contradição moral se torna sofrimento.

6. Em que sentido essa lei é empiricamente verificável

A verificação ocorre em níveis convergentes.

6.1 Experiência interna

O sujeito pode observar em si a diferença entre a paz produzida pela consciência do dever cumprido e o incômodo provocado por uma ação reconhecida como indigna. Essa observação não é irrelevante por ser interna. Estados de consciência são dados, ainda que seu acesso seja em primeira pessoa. O cuidado necessário é não transformar uma experiência individual em lei universal sem comparação.

6.2 Observação intersubjetiva

Confissões, mudanças de conduta, busca de reparação, vergonha, remorso e padrões persistentes de conflito interior podem ser observados e comparados entre indivíduos. Não se trata de ler diretamente a consciência alheia, mas de trabalhar com manifestações públicas e relatos sujeitos à crítica, como fazem diversas ciências humanas.

6.3 Comunicações de espíritos

O diferencial do programa de Kardec é estender a observação para além da vida corporal. Comunicações atribuídas a espíritos em condições morais diversas são reunidas e confrontadas. A hipótese de sobrevivência permite acompanhar a tomada de consciência sem restringi-la ao intervalo biológico. O valor probatório desse material depende, evidentemente, da autenticidade das comunicações, da independência das fontes e do controle das explicações alternativas. Mas esses são problemas de qualidade da investigação, não demonstrações de que o método empírico seja inaplicável.

6.4 Experimentação moral

Há ainda uma dimensão prática. A moral espírita produz expectativas: o domínio do egoísmo, a reparação do dano e o cumprimento do dever devem conduzir a maior coerência interior; a persistência deliberada no mal deve aprofundar o conflito moral, ainda que seja temporariamente encoberto. A vida fornece um campo contínuo de observação das consequências dessas escolhas. Essa experimentação não autoriza julgar superficialmente o sofrimento alheio, nem reduzir situações complexas a uma única causa moral. Ela opera principalmente sobre o próprio agente, em séries longas de experiência e comparação.

Os quatro níveis não são provas isoladas que, sozinhas, encerram a questão. Sua força está na convergência. O método kardeciano liga experiência interna, comportamento observável, testemunhos comparáveis e comunicações independentes em uma explicação geral da causalidade moral.

7. Certeza moral, indução e necessidade da lei

A Filosofia da Ciência distingue a generalização empírica da necessidade lógica. Um número finito de casos, por maior que seja, não prova por indução uma proposição universal com certeza matemática. O problema da indução impede concluir formalmente, apenas a partir de ocorrências passadas, que não haverá exceção futura.

Isso não destrói a tese espírita; apenas esclarece de onde vem cada grau de justificação. A experiência reiterada estabelece a regularidade e testa suas consequências. A necessidade da lei, por sua vez, pertence à arquitetura filosófica do Espiritismo: o espírito é perfectível; a liberdade implica responsabilidade; a consciência progride; o bem corresponde à finalidade do ser; a violação voluntária dessa ordem gera contradição interna; a contradição consciente produz sofrimento até a reparação e o realinhamento.

Assim, não se deve dizer que a indução, sozinha, oferece “zero chance de erro”. Deve-se dizer algo mais forte e mais preciso: dentro da ciência espírita, a relação é necessária por sua conexão com a natureza e a finalidade do espírito, enquanto a pesquisa empírica confirma reiteradamente essa relação nos casos observados. A certeza não é um salto cego; resulta da convergência entre fatos, coerência causal e integração teórica.

Essa estrutura não é estranha à ciência. Teorias não são listas de observações. Elas organizam fatos por meio de conceitos e relações causais, e sua força depende de adequação empírica, coerência, alcance explicativo e resistência a alternativas. O Espiritismo reivindica exatamente esse tipo de unidade entre observação e explicação.

8. Falseabilidade e condições de teste

Uma lei moral formulada de maneira vaga pode tornar-se imune à crítica. Se qualquer resultado possível for reinterpretado como confirmação, não haverá teste real. Por isso, a tese precisa declarar suas condições.

Ela não prevê sofrimento material imediato; prevê consequência moral. Não exige remorso atual em consciências pouco desenvolvidas; prevê que o aumento da lucidez torna insustentável a paz plena diante do mal reconhecido e não reparado. Não afirma que toda dificuldade seja punição por uma falta; afirma que a violação voluntária do bem produz desordem no próprio agente. Não elimina fatores psicológicos, sociais e corporais; delimita uma causalidade moral específica.

Em princípio, o programa seria seriamente atingido se observações independentes e confiáveis mostrassem, de modo persistente, agentes plenamente lúcidos sobre o dano praticado, moralmente desenvolvidos, sem autoengano, sem reparação e ainda assim em perfeita serenidade interior. Também seria abalado se as comunicações que fundamentam a extensão da lei além da vida se mostrassem sistematicamente explicáveis por fraude, sugestão, vazamento de informação ou produção inconsciente do médium. A existência dessas condições mostra que o programa não precisa ser protegido contra toda contestação.

O que se deve rejeitar é outra coisa: exigir que a ciência moral tenha os mesmos indicadores da física ou considerar inexistente todo dado em primeira pessoa. Isso não aumenta o rigor; apenas impõe uma ontologia e uma linguagem inadequadas ao objeto.

9. O obstáculo ontológico

Se o Espiritismo apresenta objeto, fatos, método comparativo, critérios críticos e proposições empiricamente constrangidas, por que continua excluído do campo científico institucional? A resposta principal está no estatuto ontológico concedido ao espírito.

O Espiritismo afirma que a consciência não é mero produto temporário do cérebro; que o espírito conserva individualidade; que pode comunicar-se; que a causalidade moral ultrapassa a existência corporal; e que liberdade, responsabilidade e progresso pertencem à estrutura real do ser. Essas proposições confrontam versões fortes do fisicalismo.

É importante não caricaturar a ciência. Nem todo cientista é materialista, e o método científico, em sentido abstrato, não prova que apenas a matéria existe. A exclusão ocorre quando as regras institucionais de explicação admitem como candidatas legítimas apenas causas físicas. Nesse caso, mesmo um efeito anômalo será atribuído a erro, fraude ou mecanismo físico ainda desconhecido; a hipótese espiritual não entra na competição. O procedimento parece prudente, mas contém uma decisão ontológica: determina antecipadamente a classe de causas admissíveis.

Uma ciência genuinamente aberta deveria separar duas questões. A primeira é metodológica: a hipótese produz consequências observáveis e pode ser confrontada com dados? A segunda é ontológica: que espécie de realidade explica melhor esses dados? Se a primeira resposta for positiva, a segunda não pode ser encerrada por definição. O espírito pode ser rejeitado depois de comparação rigorosa, mas não antes dela sem petição de princípio.

A disputa, portanto, não é entre ciência e ausência de ciência. É entre programas de investigação rivais. Um programa fisicalista tenta explicar os fenômenos por cérebro, cultura, fraude, erro, dissociação e processos materiais desconhecidos. O programa espírita admite também a ação de agentes extracorpóreos e uma causalidade moral objetiva. A decisão racional exige comparar alcance, precisão, coerência, previsões, problemas não resolvidos e qualidade das evidências. Proibir um dos programas por sua ontologia não equivale a refutá-lo.

10. O que pode e o que não pode ser legitimamente afirmado

Defender o caráter metodológico do Espiritismo não obriga a afirmar que toda narrativa mediúnica seja verdadeira, que todo centro espírita realize ciência ou que qualquer crença espiritual pertença ao corpo doutrinário. O método de Kardec é precisamente um instrumento contra essas confusões.

Também não basta invocar a palavra “empírico”. Um estudo pode ser empírico e ainda conter controles ruins, amostra enviesada ou inferências frágeis. Críticas a uma execução específica devem ser respondidas caso a caso. Contudo, falhas particulares não demonstram a inexistência do programa metodológico, assim como um experimento defeituoso de biologia não mostra que a biologia carece de método.

A reivindicação adequada é delimitada e robusta:

  1. o Espiritismo possui método de observação, comparação, inferência e revisão;
  2. o empirismo é aplicável tanto aos fenômenos mediúnicos quanto às consequências morais;
  3. Kardec aplicou esse empirismo por meio do estudo comparado de grande número de casos;
  4. a moral não é mero apêndice religioso, mas o núcleo explicativo e prático da ciência espírita;
  5. a principal incompatibilidade com a ciência institucional surge quando esta transforma uma regra metodológica em veto ontológico à existência do espírito.

Essa formulação evita triunfalismo e preserva o ponto decisivo. O Espiritismo não pede dispensa de evidência. Pede que a evidência seja examinada sem que a conclusão ontológica tenha sido escolhida previamente.

Conclusão

Ao Espiritismo não falta metodologia. Falta-lhe reconhecimento por uma estrutura científica que, em grande parte, delimitou seu campo por uma ontologia incompatível com o espírito. Kardec procedeu como investigador: observou efeitos, formulou hipóteses, interrogou, comparou fontes, procurou regularidades, subordinou a autoridade à razão e estabeleceu critérios de concordância e revisão. O fato de os protocolos do século XIX poderem ser aperfeiçoados não apaga a arquitetura do método; mostra apenas que um programa de investigação pode evoluir.

O empirismo não apenas pode ser usado no Espiritismo: ele foi usado. E sua aplicação mais profunda não se encontra nos fenômenos espetaculares, mas na investigação das leis morais. A observação reiterada da condição dos espíritos conduz à relação entre liberdade, consciência e consequência: quem viola voluntariamente o bem produz em si a causa do sofrimento moral; quem se harmoniza com o bem estabelece as condições da serenidade. A forma, a intensidade e o momento do efeito variam, mas a causalidade moral permanece.

Por isso, a pergunta correta não é se uma ciência do espírito pode empregar experiência. Pode, desde que adapte seus controles à natureza de agentes livres e reúna observações independentes, comparáveis e criticáveis. A pergunta correta é se a ciência aceita que a experiência possa obrigá-la a ampliar seu inventário do real.

Quando a resposta negativa é dada antes da investigação, já não se está defendendo apenas um método. Está-se protegendo uma ontologia. O conflito entre Espiritismo e ciência institucional aparece então em sua forma exata: não é a oposição entre crença sem método e conhecimento empírico, mas a disputa entre uma ciência que admite o espírito como realidade causal e uma ciência que restringe previamente a causalidade ao domínio físico. O caminho racional não é declarar vencedora uma ontologia por definição, e sim permitir que os fatos, submetidos a métodos adequados, participem da decisão.

Referências

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KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Especialmente questões 614, 629, 630, 636 e 964. KardecPedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. KardecPedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/3/o-livro-dos-mediuns

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Introdução, item II: “Autoridade da Doutrina Espírita”. KardecPedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-o-espiritismo

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo? KardecPedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo

KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos, 1858-1869. KardecPedia. https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/20/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1858

POPPER, Karl. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 2004.

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As Sombras de Ismael no Movimento Febiano-Espírita

Da investigação kardeciana ao dogmatismo institucional

Ensaio crítico sobre a transformação do método espírita na Federação Espírita Brasileira

Introdução: o problema não é quem fala, mas como se decide o que é verdade

A história do Espiritismo no Brasil não pode ser compreendida apenas pela enumeração de instituições, médiuns, livros e dirigentes. Existe uma questão anterior e mais profunda: qual critério passou a determinar aquilo que poderia ser apresentado aos espíritas como doutrina? É nesse ponto que se encontra a divergência essencial entre o método formulado por Allan Kardec e o modelo que, ao longo do tempo, se consolidou em torno da Federação Espírita Brasileira (FEB).

A crítica desenvolvida neste ensaio não depende de julgar a sinceridade pessoal de Ismael, Jean-Baptiste Roustaing, Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro ou de qualquer dirigente da Federação. Também não exige negar a possibilidade de comunicações espirituais posteriores a Kardec. O problema é mais elementar: uma comunicação mediúnica, uma tradição espiritual ou uma interpretação religiosa pode adquirir autoridade doutrinária simplesmente porque foi atribuída a um Espírito considerado elevado, porque foi recebida por um médium respeitado ou porque uma instituição importante decidiu adotá-la?

Para Kardec, a resposta é inequívoca: não. Nenhum nome, encarnado ou desencarnado, constitui por si mesmo garantia da verdade. A validade de uma afirmação depende do exame racional, da coerência com os fatos e, quando se trata de novos princípios transmitidos pelos Espíritos, da concordância obtida por fontes independentes. Essa estrutura metodológica impede que uma revelação particular se converta em dogma apenas pela força da autoridade.

A tese deste estudo é que a FEB deslocou progressivamente esse eixo. O método crítico e universalista de Kardec cedeu espaço a uma construção religiosa organizada em torno de tradições espirituais particulares, de uma narrativa providencial sobre o Brasil, da autoridade simbólica de Ismael e da incorporação institucional de elementos provenientes de Roustaing. O resultado foi uma transformação profunda: o Espiritismo apresentado por uma parcela decisiva do movimento brasileiro passou a funcionar muito mais como uma religião organizada do que como a ciência filosófica de observação concebida por Kardec.

1. O método de Kardec: autoridade dos fatos, não das pessoas

Antes de analisar a FEB, é necessário estabelecer com precisão o que se entende por método kardeciano. Kardec não se apresentou como profeta, sacerdote ou depositário exclusivo de uma revelação. Seu trabalho consistiu em reunir fenômenos, comparar comunicações, formular hipóteses, rejeitar explicações insuficientes e organizar resultados que considerava suficientemente corroborados.

Essa atitude aparece de maneira explícita em várias obras. Em O que é o Espiritismo?, ao discutir as contradições existentes nas comunicações mediúnicas, Kardec estabelece dois controles: primeiro, o exame severo da razão, do bom senso e da lógica; segundo, a concordância do ensino obtido por Espíritos e médiuns independentes entre si. O princípio é decisivo porque destrói a ideia de autoridade mediúnica individual.

“O primeiro controle é, pois, sem contradita, o da razão, ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo o que venha dos Espíritos.” — Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, II.

O alcance dessa regra é frequentemente subestimado. Kardec não diz que algumas comunicações devem ser submetidas à razão. Ele afirma que tudo o que venha dos Espíritos deve passar por esse controle, sem exceção. Isso inclui mensagens atribuídas a personagens venerados, orientadores espirituais de grupos, patronos de instituições e médiuns de grande reputação.

Em A Gênese, o mesmo princípio aparece sob outra perspectiva. Kardec sustenta que o Espiritismo, por estar apoiado em fatos, deve ser progressivo como as ciências de observação. Se novas descobertas demonstrarem que uma afirmação espírita está errada, essa afirmação deve ser modificada. Uma doutrina que se recusa a corrigir-se diante dos fatos deixa de seguir o método que lhe deu origem.

“Se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” — Allan Kardec, A Gênese, cap. I, item 55.

Não há, portanto, espaço lógico para ortodoxia baseada em fidelidade pessoal. Kardec não pede que o leitor seja kardecista no sentido de aceitar sua palavra como autoridade. O que ele exige é que toda proposição seja examinada de acordo com critérios que permanecem superiores ao próprio autor.

Esse detalhe muda completamente o problema histórico. A questão não é se uma doutrina posterior é “bonita”, consoladora, moralmente edificante ou transmitida por um Espírito respeitável. A questão é se passou pelo mesmo processo de validação exigido por Kardec antes de ser apresentada como pertencente ao Espiritismo.

2. O Controle Universal do Ensino dos Espíritos

O ponto central do sistema de validação de Kardec é aquilo que ele denominou Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Não se trata de um acessório da Codificação, mas do mecanismo destinado precisamente a impedir que opiniões individuais se convertam em revelações obrigatórias.

Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec parte de um problema elementar. Se os Espíritos tivessem revelado a doutrina a um único homem, seria necessário acreditar nesse homem sob palavra. Mesmo admitindo sua sinceridade, ele poderia reunir seguidores, mas não teria garantia suficiente para estabelecer uma doutrina universal. A solução está na multiplicidade independente das fontes.

Kardec explica que a concordância relevante não é aquela obtida por um médium que interroga diversos Espíritos, nem mesmo a obtida dentro de um único grupo. Influências comuns, obsessões, predisposições e sistemas previamente aceitos poderiam contaminar todos os resultados. A garantia séria exigiria comunicações espontâneas, provenientes de grande número de médiuns estranhos uns aos outros, em diferentes lugares.

“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.” — Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, II.

Esse método tem uma consequência imediata para o Espiritismo brasileiro: nenhuma tradição espiritual exclusivamente brasileira pode adquirir autoridade doutrinária apenas porque foi repetida dentro do próprio ambiente que já a aceita. A repetição de uma ideia por médiuns formados na mesma cultura religiosa não equivale ao controle universal concebido por Kardec.

Isso vale diretamente para a narrativa de Ismael como guia espiritual do Brasil, para a ideia de uma missão espiritual especial atribuída à nação brasileira e para qualquer sistema doutrinário desenvolvido posteriormente. Não é necessário declarar previamente que essas afirmações são falsas. É suficiente observar que, para serem incorporadas como princípios do Espiritismo, precisariam satisfazer o critério estabelecido pela própria Codificação.

Esse ponto é particularmente importante porque Kardec advertiu contra a formação de ortodoxias humanas ou espirituais. Ele recusava que um indivíduo, ou mesmo um Espírito isolado, pudesse impor-se como fonte doutrinária. O que deveria fundar a autoridade do Espiritismo era a universalidade, controlada simultaneamente pela razão.

3. A Revista Espírita: o laboratório do método

A Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, publicada sob a direção de Kardec a partir de janeiro de 1858, permite observar o método em funcionamento. As obras fundamentais apresentam resultados organizados; a Revista mostra o processo pelo qual esses resultados eram discutidos, testados e frequentemente mantidos em estado provisório.

Ao longo de suas páginas, encontram-se relatos de fenômenos, comunicações contraditórias, hipóteses, objeções, cartas de leitores, estudos de casos, debates com adversários e retificações. Kardec não trata o material mediúnico como escritura revelada. Ele comenta, compara e, quando considera necessário, suspende o julgamento.

Essa atitude torna-se especialmente importante quando se examina a recepção de Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. Em 1866, Kardec publicou uma notícia bibliográfica sobre a obra. Reconheceu que ela continha elementos compatíveis com princípios já estabelecidos, mas recusou-se expressamente a aprovar suas teorias novas.

“Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam […] e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita.” — Allan Kardec, Revista Espírita, junho de 1866.

Kardec menciona especificamente a tese segundo a qual Jesus teria possuído um corpo fluídico, apresentando-se apenas com as aparências da corporeidade humana. Em vez de aceitá-la pela autoridade dos Espíritos que a teriam transmitido, classifica-a como hipótese, registra que já havia objeções sérias e afirma que os fatos poderiam ser explicados sem abandonar as condições da humanidade corporal.

Essa passagem é decisiva. O problema Roustaing não pode ser resolvido afirmando simplesmente que Kardec “elogiou” sua obra, porque o próprio texto estabelece uma separação nítida entre o que concordava com princípios já aceitos e aquilo que constituía teoria nova. Para essas teorias, Kardec exigiu exatamente o que exigia de qualquer inovação: sanção futura e controle universal.

A Revista Espírita mostra, portanto, um pesquisador que se recusa a transformar uma hipótese mediúnica em dogma. Essa postura contrasta fortemente com o desenvolvimento posterior de uma cultura religiosa na qual livros psicografados e tradições espirituais passaram muitas vezes a ser recebidos pelo público como extensões naturais da Codificação.

4. O nascimento da FEB e a construção de uma missão providencial

A Federação Espírita Brasileira foi fundada no Rio de Janeiro em 2 de janeiro de 1884. O fato histórico, por si só, não apresenta qualquer dificuldade. A questão começa quando a história da instituição é reinterpretada como manifestação de um plano espiritual previamente estabelecido.

Em textos ligados à própria memória federativa, chama atenção a observação de que a FEB já nasceu com o título de “Federação” quando ainda não havia propriamente instituições federadas em torno dela. Em vez de tratar isso apenas como escolha organizacional de seus fundadores, a narrativa institucional passa a enxergar no fato um sinal de planificação superior.

Esse tipo de interpretação é significativo porque converte acontecimentos administrativos em indícios de uma missão providencial. A instituição deixa de ser apenas uma organização criada por homens com determinado projeto e passa a ser apresentada como instrumento terrestre de uma direção espiritual anterior à sua própria existência.

A partir daí, a história da FEB adquire um caráter sacralizado. Suas crises podem ser interpretadas como provas; sua permanência, como confirmação de uma missão; sua expansão, como cumprimento de um plano. O problema metodológico aparece quando a própria trajetória da instituição passa a ser usada como evidência da narrativa espiritual que a legitima. Forma-se um circuito fechado: a missão explica a instituição, e o sucesso da instituição confirma a missão.

5. Ismael e a transferência da autoridade

A figura de Ismael ocupa posição central nessa construção. Na tradição difundida no movimento federativo brasileiro, Ismael é apresentado como guia espiritual do Brasil e como referência da missão religiosa atribuída à FEB. O nome “Casa de Ismael”, longe de funcionar apenas como homenagem, expressa uma identidade espiritual institucional.

É preciso delimitar corretamente a crítica. O problema não está em admitir a possibilidade de existência de um Espírito chamado Ismael, nem em considerar legítimo que uma instituição tenha protetores espirituais. Kardec jamais negou a existência de Espíritos protetores de pessoas ou agrupamentos. O problema surge quando a palavra atribuída a esse guia se transforma em fundamento normativo para a identidade doutrinária de todo um movimento.

Sob o método kardeciano, a afirmação “Ismael é o guia espiritual do Brasil” continuaria sendo uma informação mediúnica particular até que estivesse suficientemente confirmada por fontes independentes e submetida ao crivo da razão. O mesmo vale para a missão especial do Brasil como “Pátria do Evangelho”. A importância cultural dessas narrativas não lhes confere automaticamente estatuto doutrinário.

Quando uma instituição fundamenta sua identidade em uma autoridade espiritual que ela própria reconhece como dirigente, ocorre uma alteração relevante no eixo epistemológico. Em Kardec, a autoridade está sempre submetida ao método. Nesse modelo, o método corre o risco de ficar submetido à autoridade.

A diferença parece sutil, mas é estrutural. Uma doutrina de exame pergunta: “como sabemos que isso é verdadeiro?”. Uma religião de autoridade pergunta: “quem disse isso?”. Quando o segundo critério prevalece, a reputação do Espírito, do médium ou da instituição passa a fazer o trabalho que deveria ser realizado pela demonstração.

6. Da autoridade da razão à autoridade institucional

A consolidação federativa também produziu outro deslocamento: o crescimento da autoridade institucional. A própria ideia de unificação pode ter valor administrativo legítimo. Instituições podem cooperar, compartilhar recursos e coordenar ações sem qualquer prejuízo à liberdade doutrinária. O problema começa quando unidade administrativa e unidade de pensamento passam a ser confundidas.

Kardec concebeu o Espiritismo de modo incompatível com uma ortodoxia produzida por uma autoridade central. A concordância universal não é uma votação institucional e não depende da homologação de uma federação. Ela resulta da convergência espontânea de ensinamentos independentes, submetidos ao exame crítico.

Quando uma instituição adquire enorme poder editorial, simbólico e federativo, suas escolhas passam inevitavelmente a influenciar aquilo que gerações inteiras de leitores entendem por Espiritismo. Livros publicados, autores promovidos, temas enfatizados, cursos padronizados e discursos de unificação criam uma cultura doutrinária mesmo sem a existência formal de um magistério.

Esse processo é especialmente importante no caso brasileiro. A FEB não precisou declarar-se uma igreja para exercer funções semelhantes às de uma autoridade religiosa: definiu cânones editoriais de fato, difundiu interpretações específicas, reforçou narrativas espirituais próprias e tornou-se referência para numerosas instituições filiadas ao movimento federativo.

A consequência não é necessariamente uma imposição jurídica. É uma forma mais difusa de autoridade: a tradição institucional passa a ser confundida com a própria Doutrina Espírita. Criticar uma interpretação da FEB pode então ser percebido como atacar o Espiritismo; questionar um livro consagrado pelo movimento pode parecer irreverência; submeter uma mensagem mediúnica popular ao mesmo exame exigido por Kardec pode ser tratado como excesso de racionalismo.

7. A inferiorização do Espiritismo científico

A transformação religiosa do Espiritismo brasileiro também dependeu de uma narrativa histórica específica: a ideia de que o movimento europeu, especialmente o francês, teria fracassado por concentrar-se excessivamente no fenômeno e na investigação, enquanto o Brasil teria desenvolvido corretamente a dimensão evangélica e moral.

Essa oposição contém um falso dilema. Em Kardec, ciência, filosofia e consequência moral não são projetos rivais. A moral espírita deriva de uma visão de mundo construída sobre a investigação dos fatos. Retirar o método e preservar apenas a edificação religiosa não significa completar Kardec, mas modificar a arquitetura de seu pensamento.

A Revista Espírita demonstra isso de maneira inequívoca. Kardec não considerava o estudo do fenômeno uma distração inferior diante da moral. O fenômeno era a base empírica pela qual questões sobre alma, sobrevivência, reencarnação, identidade e influência espiritual poderiam ser examinadas. Sem essa base, o Espiritismo correria o risco de regressar ao terreno da crença religiosa.

A religiosidade brasileira, porém, favoreceu outra recepção. Sermões, mensagens edificantes, romances mediúnicos e figuras carismáticas passaram a ocupar espaço muito maior do que investigação experimental, história doutrinária e crítica de fontes. O resultado foi a formação de uma cultura em que “sentir-se consolado” frequentemente adquiriu mais peso do que perguntar se determinada afirmação estava demonstrada.

A consequência histórica é profunda: em vez de o Espiritismo utilizar o método para investigar o mundo espiritual, o mundo espiritual passa a fornecer mensagens que orientam religiosamente o movimento. Troca-se uma ciência de observação das relações entre os dois planos por uma religião baseada em informações provenientes do plano invisível.

8. Roustaing: de hipótese não sancionada a patrimônio institucional

A relação da FEB com Jean-Baptiste Roustaing constitui um dos exemplos mais claros dessa transformação. Roustaing publicou Os Quatro Evangelhos em 1866 e apresentou sua obra como uma interpretação espiritual ampliada dos Evangelhos. Kardec analisou-a no mesmo ano e adotou postura metodologicamente cautelosa.

Como visto, Kardec recusou-se a aprovar as teorias novas de Roustaing. Declarou que deveriam ser consideradas opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam até que recebessem confirmação mais ampla. Essa posição deveria ter consequências óbvias: qualquer incorporação posterior dessas ideias ao Espiritismo precisaria demonstrar que a sanção exigida por Kardec efetivamente ocorreu.

No entanto, a obra de Roustaing adquiriu espaço institucional relevante na FEB. A própria plataforma de consulta mantida historicamente pela Federação registra conceitos extraídos de Os Quatro Evangelhos e referencia edições publicadas pela casa editorial. Isso comprova que Roustaing não foi simplesmente uma curiosidade histórica externa ao movimento federativo; sua obra foi preservada, traduzida, editada e utilizada como fonte.

A divergência mais conhecida envolve o corpo de Jesus. Roustaing sustenta que Jesus não teria possuído um corpo carnal comum, mas um organismo de natureza fluídica, com aparência material. Kardec, ao comentar essa tese, reconheceu sua possibilidade abstrata dentro das propriedades do perispírito, mas enfatizou seu caráter hipotético e observou que os fatos poderiam ser explicados sem abandonar a humanidade corporal.

A diferença não é apenas cristológica. É metodológica. Roustaing edifica um sistema amplo a partir de comunicações mediúnicas específicas; Kardec recusa-se a aceitar esse sistema como doutrina sem confirmação universal. Quando uma instituição posteriormente promove a obra sem demonstrar que o requisito metodológico foi satisfeito, o problema não está apenas na conclusão teológica: está no critério que permitiu que a conclusão ganhasse autoridade.

Herculano Pires e Júlio Abreu Filho tornaram essa questão explícita em O Verbo e a Carne. Herculano tratou o roustainguismo como problema a ser submetido ao crivo da razão e criticou o espaço que a obra recebeu dentro da FEB. Ainda que o leitor discorde da severidade de sua linguagem, o núcleo de sua objeção coincide com o método de Kardec: uma teoria mediúnica não se torna verdadeira por tradição, prestígio ou antiguidade.

9. Bezerra de Menezes e a consolidação do eixo religioso

Bezerra de Menezes ocupa lugar fundamental na história da FEB. Sua importância institucional e sua atuação conciliadora são incontestáveis. A questão, novamente, não é medir suas virtudes pessoais, mas compreender a orientação que prevaleceu sob sua liderança.

O movimento espírita brasileiro do final do século XIX estava dividido por tensões entre tendências mais científicas, filosóficas e religiosas. A solução federativa buscou superar a fragmentação. Nesse processo, a orientação evangélico-religiosa tornou-se cada vez mais central.

Essa escolha teve eficácia histórica. Uma religião de consolação, caridade e disciplina moral possuía enorme capacidade de expansão em uma sociedade profundamente marcada pelo cristianismo. O Espiritismo tornou-se culturalmente reconhecível para milhões de brasileiros porque passou a falar a linguagem religiosa que eles já conheciam.

Mas eficácia sociológica não equivale a fidelidade metodológica. Quanto mais a prática se organizava em torno de palestras morais, evangelização, mensagens edificantes, assistência espiritual e literatura mediúnica, menor se tornava o espaço ocupado pelo laboratório experimental que caracterizara a fase kardeciana.

O paradoxo é evidente: a instituição que ajudou decisivamente a difundir o nome de Kardec no Brasil contribuiu também para consolidar um modelo de Espiritismo bastante diferente daquele que pode ser observado diretamente na Revista Espírita.

10. O Pacto Áureo: unificação administrativa e silêncio doutrinário

Em 5 de outubro de 1949 foi firmado o acordo que ficou conhecido como Pacto Áureo, marco da organização federativa nacional e da criação do Conselho Federativo Nacional. Seus defensores o apresentam como instrumento de cooperação e união entre as instituições espíritas brasileiras. Sob o ponto de vista administrativo, essa finalidade é perfeitamente compreensível.

A dificuldade está em outro nível. Uma estrutura criada para preservar a união tende naturalmente a desestimular conflitos que possam ameaçá-la. Quando existem divergências doutrinárias profundas, a manutenção da harmonia pode ser obtida de duas formas: examinando abertamente os pontos em conflito ou evitando que eles sejam discutidos.

Herculano Pires sustentou que, no caso do roustainguismo, consolidou-se uma espécie de cortina de silêncio. Sua crítica ganhou particular significado quando, no início da década de 1970, a promoção da obra de Roustaing voltou a receber destaque, tornando visível uma divergência que durante longo período permanecera pouco conhecida das novas gerações.

O ponto relevante não é atribuir ao Pacto Áureo uma intenção conspiratória. Isso seria simplificar o problema. O mecanismo é institucional: quanto maior o valor atribuído à unidade, maior a tendência de tratar a controvérsia doutrinária como inconveniente. O resultado pode ser uma paz aparente obtida não pela solução racional das divergências, mas pela ausência de debate.

Essa atitude é incompatível com a própria história da Codificação. Kardec publicava objeções, respondia adversários, comparava sistemas e expunha contradições. Para ele, o conflito intelectual não era necessariamente uma ameaça à Doutrina; podia ser instrumento para eliminar o erro. Uma instituição que prefere o silêncio à controvérsia corre o risco de proteger precisamente aquilo que deveria ser examinado.

11. A questão decisiva: qual é o critério de validação?

Neste ponto, torna-se possível retirar da discussão todos os elementos pessoais e sentimentais. Não é necessário perguntar se Ismael é um Espírito elevado. Não é necessário decidir se Roustaing era sincero. Não é necessário questionar a bondade de Bezerra de Menezes ou o valor social das obras da FEB.

A pergunta decisiva é outra: por qual procedimento uma afirmação passou a ser aceita como integrante do Espiritismo?

Se a resposta for “porque um Espírito superior afirmou”, o método de Kardec foi abandonado. Se for “porque um médium respeitável recebeu”, o método foi abandonado. Se for “porque a FEB publicou”, o método foi abandonado. Se for “porque milhões de espíritas acreditam”, o método continua abandonado.

Para Kardec, a autoridade não nasce da quantidade de devotos, da reputação do mensageiro ou do prestígio da instituição. O critério é composto: razão, fatos, coerência e, para princípios mediúnicos novos, concordância universal obtida em condições de independência.

Essa diferença explica grande parte dos conflitos contemporâneos sobre a identidade espírita. Muitos debates parecem opor “kardecistas” a “chiquistas”, “roustainguistas”, “religiosos” ou “científicos”. Na realidade, a divisão mais profunda está entre critérios distintos de conhecimento. Um lado considera legítima a formação de uma tradição espiritual acumulativa, na qual novas obras e médiuns ampliam naturalmente a doutrina. O outro exige que toda ampliação seja submetida ao mesmo método que deu origem à Codificação.

Sem esclarecer essa diferença, qualquer discussão doutrinária torna-se interminável. Cada grupo apresenta suas autoridades favoritas e nenhuma conclusão é possível. Quando o método volta ao centro, a pergunta deixa de ser “em quem você acredita?” e passa a ser “como essa afirmação foi demonstrada?”.

Conclusão: duas formas diferentes de entender o Espiritismo

A história da Federação Espírita Brasileira pode ser lida como uma história de extraordinário sucesso institucional. A FEB atravessou crises, organizou redes federativas, publicou milhares de obras, contribuiu para a expansão do movimento e tornou-se uma das instituições espíritas mais influentes do mundo.

Mas sucesso institucional e fidelidade metodológica são questões diferentes.

O Espiritismo de Kardec nasce de uma postura investigativa: fatos antes das teorias, razão acima da autoridade, comunicações comparadas, hipóteses mantidas como hipóteses e abertura permanente à correção. Seu mecanismo contra o dogmatismo é precisamente a ausência de uma fonte humana ou espiritual infalível.

O modelo consolidado no Brasil em torno da FEB seguiu outra direção. A instituição ganhou uma narrativa providencial própria; Ismael tornou-se símbolo de uma direção espiritual nacional; o Brasil foi apresentado como possuidor de uma missão religiosa singular; obras mediúnicas particulares adquiriram enorme autoridade cultural; Roustaing foi preservado e promovido apesar da cautela explícita de Kardec; e a unificação institucional passou a ocupar posição central na organização do movimento.

Essas mudanças não constituem simples adaptações culturais. Elas alteram o mecanismo pelo qual se decide o que merece crédito. Onde Kardec exige validação, instala-se tradição. Onde exige comparação, surge autoridade. Onde mantém hipóteses abertas, formam-se crenças consolidadas.

Por isso, o conflito não deve ser reduzido a uma disputa entre admiradores e críticos da FEB. Ele envolve duas concepções diferentes de Espiritismo. A primeira entende o Espiritismo como doutrina progressiva, experimental e racional, cuja autoridade permanece dependente do método. A segunda funciona como religião institucionalizada, estruturada por tradições, interpretações espirituais privilegiadas e referências simbólicas próprias.

Resgatar Kardec, nesse contexto, não significa transformá-lo em nova autoridade infalível. Seria contraditório. Significa recuperar precisamente aquilo que impede qualquer pessoa, médium, Espírito ou instituição de se tornar infalível.

O retorno necessário não é apenas aos livros, mas ao procedimento intelectual que os produziu. Ler Kardec sem aplicar seu método é conservar a letra e abandonar o princípio. Aplicar o método significa aceitar que toda afirmação pode ser questionada, toda comunicação deve ser examinada e toda teoria permanece subordinada aos fatos.

A questão final, portanto, não é se o espírita deseja permanecer sob a bandeira simbólica da Casa de Ismael ou adotar outra identidade institucional. É anterior a isso: deseja ele uma doutrina cuja verdade dependa da autoridade de seus mensageiros ou uma investigação em que até os mensageiros permaneçam submetidos à verdade?

É nesse ponto que as duas trajetórias se separam. E é nesse ponto que se encontra a diferença fundamental entre a tradição religiosa consolidada no Espiritismo brasileiro e o projeto crítico, progressivo e antidogmático que Allan Kardec procurou construir.

Referências online consultáveis

1. Allan Kardec — O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, II: Autoridade da Doutrina Espírita / Controle Universal do Ensino dos Espíritos

2. Allan Kardec — O que é o Espiritismo?, cap. II, item 99: contradições e critérios de verdade

3. Allan Kardec — A Gênese, cap. I, item 55: caráter progressivo do Espiritismo

4. Allan Kardec — Revista Espírita, 1866, notícia bibliográfica “Os Evangelhos explicados (Pelo Sr. Roustaing)”

5. Federação Espírita do Distrito Federal — Movimento Espírita Brasileiro: fundação da FEB e concepção de origem espiritual

6. União Espírita Mineira — Pacto Áureo: histórico do acordo de 5 de outubro de 1949

7. Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires — Herculano Pires e sua crítica ao roustainguismo

8. Sistema FEB — exemplo de verbete que utiliza Os Quatro Evangelhos, de Roustaing, como referência

9. Escorço histórico da FEB — versão HTML consultável, com a afirmação de que, na fundação, “nada havia propriamente a federar”




Comunicação espontânea — 2 —Atribuída a Allan Kardec

Em nossa reunião mediúnica virtual de 07/07/2026, a médium Sra. X apresentou uma manifestação espontânea de psicofonia logo após comunicação de um espirito por outro médium. O Espírito que se manifestou pela Sra. X expressou-se com tom grave e austero, trazendo a mensagem e posterior conversa com os integrantes da reunião. Tudo foi transcrito e apresentado abaixo:

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Prezados irmãos de caminhada, venho mais uma vez agradecer os esforços que vocês estão despendendo para que minha caminhada não tenha sido em vão. Estarei sempre que possível orientando o grupo. Considerem sempre colocar à prova os ensinamentos que vocês buscam e recebem através dos espíritos aqui presentes. O melhor caminho sempre será o da lógica, o da razão. Busquem pela conformidade dos ensinos. Desconsiderem aquilo que contraria as leis naturais. Vocês iniciaram a caminhada.  Existirão sempre contratempos, como é natural em todas as escolhas que se fazem nessa vida. Desempenhem o seu papel com ética, sem desvios, sem personalismos. O tempo mostrará a vocês que as escolhas que estão fazendo trarão resultados positivos a causa do espiritismo. Quando se sentirem desanimados, busquem orientação com os espíritos aqui presentes, que também acompanharam o início dessa jornada enquanto eu estava ali. Não guardem mágoas daqueles que não compreendem o esforço que estão fazendo, aqueles que menosprezam com sarcasmos o trabalho ao qual vocês se propuseram; se surpreenderão mais à frente com os conhecimentos que vocês colocarão na revista, nos programas que vocês têm, porque não encontrarão contrapontos para refutar as novas descobertas.

Iniciem a troca de informações entre grupos, assim que possível, para que a coerência se mantenha entre vocês e a doutrina. Nesse momento, de agora para a frente, estarei o mais próximo possível desse grupo e de todos aqueles que buscam restabelecer as bases daquilo que os espíritos trouxeram até nós e que não mudou em ponto algum.

Ari: É uma honra ter aqui você conosco. Acho que todo mundo quer ter esse tipo de conversa. Eu tenho a impressão que você é muito evocado. Como você fica? Como você se sente nessas situações?

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): O sentimento é de agradecimento, mas não vou me manifestar para aqueles que apenas querem ou buscam a curiosidade. Estarei presente e me manifestarei sempre que possível, sempre que eu perceber que há necessidade.

Ari: Sempre será muito bem-vindo. 

SrAja: É um prazer poder dialogar com o senhor. Eu gostaria de lhe perguntar qual foi o principal erro que aqueles que trouxeram o Espiritismo para o Brasil cometeram para que nós estejamos no ponto que nós estamos hoje, onde suas obras são praticamente preteridas a obras de espíritos não tão confiáveis.

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): As obras não são minhas. Elas só puderam se tornar conhecidas porque os espíritos assim o quiseram. O contexto histórico desse país foi o que comprometeu a caminhada do Espiritismo como ciência e filosofia, mas a recuperação está chegando.

Erasto sempre esteve presente, observando, recolhendo informações.

Ari: Eu tenho uma pergunta para fazer para você. Desculpa chamar por você, mas é para criar essa proximidade, senão eu sinto você muito distante, se eu chamar de senhor. E eu sei que você está próximo a nós. Eu queria saber se todos aqueles espíritos que ajudaram você na codificação continuam o acompanhando como São Luís, Erasto, Santo Agostinho, e tantos outros que eu não sei dizer. 

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Todos estão presentes junto comigo.

Ari: Nenhum deles encarna? 

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Não tiveram mais necessidade. 

Ari: Todos eram puros? Para distribuir a verdade para a gente?  

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Alguns reencarnaram, mas já estão de volta conosco.

SrAja: Eu gostaria de fazer uma pergunta que talvez não devesse ser feita, mas que vai me tirar uma dúvida. Muitas pessoas criticam o livro Evangelho Segundo o Espiritismo. E muitos espíritas, principalmente os que são mais ligados à ciência espírita,não gostam muito da obra. Qual a sua opinião a esse respeito?

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Nunca entenderam o objetivo da obra. O objetivo da obra nunca foi religião. Sempre foi filosofia. Sempre foi buscar o entendimento das palavras de Cristo. Nunca foi transformar o Evangelho em religião. Talvez esse tenha sido, eu não diria um erro, mas talvez não devesse ser o momento de colocar aquele livro ao público.

SrAja: Se o senhor me permitir fazer mais uma pergunta, é uma pergunta pessoal. O senhor acredita que o livro deveria ter se mantido no título inicial, que era a Imitação do Evangelho, ao invés do Evangelho Segundo o Espiritismo? O senhor acha que isso pode ter atrapalhado de alguma forma?

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): O título não é um problema. Talvez devesse ter colocado explicações melhores, do início ao fim, Não que já não tivesse no prefácio colocações importantes, que as pessoas não leem e não entendem quando leem. O objetivo não era transformar o livro em uma Bíblia. O objetivo era compreender o que Jesus dizia, de forma simples. Os homens deturpam aquilo que não compreendem.

Ari: Certo. Quer dizer que o Evangelho Segundo o Espiritismo foi explicar a palavra de Jesus e a Gênese foi explicar os milagres de Jesus. Assim que eu vejo.

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Apenas isso.

SrAja: Uma última pergunta para o senhor. Hoje, principalmente no país que nós residimos, há a chamada prática que se diz Evangelho no Lar, onde o livro Evangelho Segundo o Espiritismo é aberto aleatoriamente e é utilizado como se fosse uma Bíblia. O senhor, enquanto cientista, enquanto pessoa também, enquanto codificador da obra Vinda dos Espíritos, o senhor contraindica essa prática ou qual sua opinião a esse respeito?

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Não contraindico, mas não é necessário. A oração quando feita do coração, é suficiente. Não é necessário um livro para que isso aconteça.

SrAja: Eu agradeço a resposta.

Espírito Comunicante (atribuído a Allan Kardec): Eu também agradeço. Deixo a vocês o meu agradecimento. Que Deus ampare cada um de vocês para que essa nova fase, que essa luta se agigante. O guia de vocês me diz, novos adeptos chegarão. Todos passarão pela peneira. Muitos chegarão para tentar colocar a discórdia, para separar, mas vocês os perceberão e conseguirão separar o joio do trigo. Já estão fazendo isso. Em breve, retornarei.

Teresinha, Diógenes, o Espírito Amigo, Christopher. Todos aqui estarão dispostos a auxiliar naquilo que vocês precisarem. Me despeço, deixando a vocês minha gratidão. ((Estes são nomes atribuídos a Espíritos familiares de nosso grupo mediúnico))

Ari: Até breve. Até breve. Fique bem.

A análise integral da mensagem revela uma profunda convergência com a fase de maturidade de Allan Kardec (1865-1869), especialmente no que diz respeito à autonomia moral, ao rigor metodológico e à natureza científica da doutrina.

Abaixo, os pontos de acerto, os pontos que exigem cautela e a análise da personalidade:

1. Pontos de Acerto:

  • Primazia da Razão e Lógica: A insistência em colocar ensinamentos à prova e usar a razão como filtro é o pilar do método de Allan Kardec, que afirma que uma fé inabalável é aquela que encara a razão face a face.
  • Natureza da Doutrina: A afirmação de que o Espiritismo é ciência e filosofia, e não uma religião com dogmas e rituais, é rigorosamente exata segundo as fontes. ((Preâmbulos, O que é o Espiritismo, 1859))
  • O Evangelho como Código Moral: A mensagem acerta ao definir O Evangelho segundo o Espiritismo como um código de moral universal e ao citar seu título original, Imitação do Evangelho. A obra foi publicada com esse nome em abril de 1864 e alterada posteriormente para a denominação atual.
  • Desmaterialização da Prece: A rejeição de fórmulas sacramentais e a ênfase na “prece do coração” em detrimento do livro ou do ritual (como o Evangelho no Lar mecanizado) ecoam o ensino de que “a forma nada vale, o pensamento é tudo”. ((Cap XXXI, XVI, O livro dos Médiuns, 1861))
  • Escala Espírita e Reencarnação: A explicação de que Espíritos puros não têm mais necessidade de encarnar, salvo por missão, está em pleno acordo com a Escala Espírita. ((Escala Espirita, 100 e Pluralidade das Existencias, 166 , O Livro dos Espiritos, 1860))
  • Restauração Doutrinária: A menção a desvios históricos e à necessidade de restabelecer as bases da doutrina alinha-se às evidências de adulteração das obras O Céu e o Inferno e A Gênese após a morte de Kardec.
  • O Papel de Erasto: A descrição de Erasto como um guia firme e protetor da vanguarda é característica de sua atuação nas fontes, onde ele frequentemente alerta contra a “guerra surda” dos Espíritos enganadores e a necessidade de desmascarar falsos profetas. ((Revista Espírita, novembro de 1861))
  • Ciência Progressiva: A menção a “novas descobertas” que não encontrarão contrapontos corrobora o caráter essencialmente progressivo do Espiritismo, que deve assimilar toda verdade demonstrada pela ciência e pela razão. (( Cap. 1, 55, A Genese, 1868))
  • Pensamento vs. Forma: A resposta atribuída a Kardec sobre a não obrigatoriedade do livro para a prece ressoa o princípio de que, para os Espíritos, “o pensamento é tudo e a forma é nada”. ((Cap I, 3o Diálogo, O que é o Espiritismo, 1859))
  • Rejeição de Fórmulas: Espiritismo ensina que não há fórmulas sacramentais ou horas cabalísticas para a comunicação; a eficácia da prece reside na sinceridade do sentimento e não na repetição de palavras. ((203, O Livro dos Médiuns, 1861))
  • Missão vs. Necessidade: A afirmação de que Espíritos puros não precisam mais encarnar, mas podem fazê-lo por missão, é baseada na escala espírita. Espíritos superiores aceitam as tribulações da vida corporal apenas para auxiliar o progresso da Humanidade. ((178., O Livro dos Espíritos, 1860))
  • Transição Planetária: O aviso sobre a chegada de novos adeptos e a necessidade de “separar o joio do trigo” (a peneira) alinha-se às predições sobre a Nova Geração em A Gênese.
  • Exclusão dos Espíritos Rebeldes: Na transição para o período de regeneração, Espíritos que persistem no mal serão excluídos da Terra e enviados para mundos inferiores, enquanto uma geração de Espíritos mais avançados assumirá a direção do progresso. (Cap. XVIII, A Gênese, 1868))

2. Pontos que Exigem Cautela (Erros ou Inconsistências)

  • Identidade e Personalismo: Embora a mensagem desaconselhe o personalismo, a própria evocação de nomes ilustres deve ser sempre vista com a reserva recomendada pelo próprio Kardec: a identidade é secundária à qualidade do ensino. ((255., Livro dos Médiuns, 1861))

3. Análise da Personalidade de Kardec na Mensagem

A mensagem pode ser atribuída à personalidade de Kardec pelos seguintes traços de estilo e conteúdo:

  • Linguagem Grave e Dignitária: O tom é sóbrio, austero e focado na instrução, características dos Espíritos superiores e do próprio Codificador.
  • Firmeza Metodológica: A ênfase no controle universal dos ensinos e na análise crítica, mesmo de suas próprias obras, reflete o desprendimento e o rigor científico de Rivail.
  • Abnegação: O reconhecimento de que “as obras não são minhas” e o foco na utilidade coletiva em vez da glória pessoal são marcas registradas de sua personalidade.
  • Foco na Autonomia: A mensagem reforça que o Espírito é o artífice de seu destino, um conceito que Kardec consolidou em sua obra final, combatendo o misticismo e a obediência passiva.

O diálogo reforça a ideia de que o Espiritismo deve ser praticado como uma ciência de observação e uma filosofia moral, combatendo o misticismo e as distorções que tentam transformá-lo em um culto cego de obediência passiva.

Leia também outra Comunicação atribuída a Kardec recebida por nós aqui e análise aqui




Revista Espírita Semear – Junho de 2026

Está lançada a segunda edição da Revista Espírita Semear, do mês de julho de 2026, contendo os seguintes artigos:

  • Comunicações Espontâneas sobre a retomada do Espiritismo
  • Comunicação de Kardec em outro grupo
  • Manifesto pelo Resgate da Ciência Espírita: O Despertar da Verdade
  • O desvio da Federação Espírita Brasileira: como o roustainguismo afastou do Espiritismo o Movimento Espírita
  • Mediunidade: estudo e prática
  • Os Pilares do Espiritismo – Reinterpretar sem Descaracterizar
  • Seu relato pode iluminar vidas: Participe da Revista Espírita Semear

Para ler essa edição, clique aqui.




Os Pilares do Espiritismo – Reinterpretar sem Descaracterizar

Toda doutrina viva está sujeita ao tempo. Diferentemente de um texto morto ou de um dogma fechado, uma doutrina que pretende acompanhar a evolução da humanidade precisa ser revisitada, relida e reinterpretada. O Espiritismo, por sua própria natureza racional e progressista, sempre reconheceu essa necessidade. Kardec, em diversas passagens, afirmou que a doutrina não foi revelada pronta e acabada, mas construída com a contribuição dos Espíritos e filtrada pela razão humana e que novos conhecimentos poderiam complementá-la.

No entanto, há um equívoco comum quando se fala em reinterpretação. Muitos entendem que qualquer releitura é legítima, como se todos os elementos da doutrina tivessem o mesmo peso e pudessem ser livremente adaptados ao gosto pessoal ou ao espírito da época. Esse pensamento ignora uma distinção fundamental: entre o que é essencial e o que é periférico.

A questão correta, portanto, não é “pode reinterpretar?”, porque sim, pode, e deve. A questão correta é: o que pode ser reinterpretado sem que a doutrina deixe de ser ela mesma?

Qualquer nova interpretação ou complemento só passa a fazer parte do corpo da doutrina se for submetido ao cadinho da razão e ao controle universal, garantindo que não seja apenas uma ideia “excêntrica” ou “sistêmica” de um grupo isolado.

Porque, quando a reinterpretação ultrapassa o limite, o resultado não é uma atualização legítima, mas uma ruptura disfarçada. A doutrina continua usando o mesmo nome, citando as mesmas fontes, mas seus alicerces foram trocados. Já não é mais Espiritismo; é outra coisa que se apresenta como tal.

O fenômeno não é novo. Na história das religiões e das filosofias, é comum ver correntes que se reivindicam herdeiras de uma tradição, mas que na prática negam seus princípios mais fundamentais. Isso acontece de forma lenta, gradual, tornando difícil perceber onde exatamente a linha foi cruzada. Um deslocamento pequeno aqui, uma ênfase diferente ali, até que o conjunto já não se reconhece mais.

No Espiritismo, isso ocorre de várias formas: quando se nega a individualidade do Espírito após a morte, transformando-o em mera “consciência cósmica impessoal”; quando a reencarnação perde seu vínculo com a causas e efeitos e se torna um ciclo automático sem responsabilidade moral; quando a mediunidade é reduzida a um fenômeno psicológico ou subjetivo, sem realidade externa; O Espiritismo se descaracteriza quando se abdica da análise rigorosa das comunicações mediúnicas, sejam em cartas ou livros. É um dever do espírita submeter cada mensagem ao ‘cadinho da razão e da lógica’, pois o erro fundamental de muitos é aceitar ensinos baseando-se apenas na ‘beleza da forma’ ou no ‘prestígio do nome’ que assina a mensagem. A verdadeira autoridade de uma comunicação não reside na assinatura ilustre, que pode ser apócrifa, mas na qualidade intrínseca do pensamento e em sua concordância com o Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE). Sem esses filtros críticos, a doutrina deixa de ser uma ciência para se tornar joguete de sistemas pessoais e mistificações.

Cada uma dessas mudanças, sozinha, pode parecer apenas uma “nova interpretação”. Mas o efeito acumulado é a descaracterização completa. É o fenômeno que se observa com frequência na atualidade.

Toda doutrina filosófico-científica, para ser coerente e reconhecível, apoia-se em certos elementos estruturais. Entre eles, destacam-se:

  • Princípios fundacionais;
  • Método de validação;
  • Visão de ser humano;
  • Visão moral;
  • Metafísica;
  • Finalidade da existência.

Quando um desses elementos muda radicalmente, a doutrina já não é a mesma. Quando vários mudam, a identidade se perde por completo.

No caso específico do Espiritismo codificado por Allan Kardec, podemos identificar os pilares centrais que definem sua essência. São eles:

  1. Existência de Deus: Princípio inteligente e causa primeira de todas as coisas.
  2. Imortalidade da alma: O ser pensante sobrevive à morte do corpo.
  3. Comunicabilidade dos Espíritos: Relação constante entre encarnados e desencarnados.
  4. Evolução moral: O Espírito progride ao longo das existências, tornando-se melhor.
  5. Livre-arbítrio: O Espírito escolhe seus caminhos e responde por eles.
  6. Responsabilidade moral: Toda ação tem consequência natural segundo a justiça divina; em suma, a Autonomia.
  7. Racionalidade da doutrina: A fé espírita é raciocinada, podendo encarar a razão em todas as épocas.
  8. Possibilidade de progresso espiritual: Nenhum Espírito está condenado eternamente; todos podem evoluir.

Reinterpretar não é apenas legítimo; é necessário para que o Espiritismo continue sendo uma doutrina viva. A linguagem pode ser atualizada, aplicações históricas podem ser repensadas, ênfases podem mudar. Mas os pilares acima não são negociáveis. Eles formam a identidade profunda do Espiritismo. esse trabalho de reinterpretação deve sempre ser submetido ao filtro da lógica e ao controle universal.

Sem Deus, não há causa. Sem imortalidade da alma, não há Espiritismo. Sem comunicabilidade dos Espíritos, sem evolução moral, sem livre-arbítrio, sem responsabilidade moral, sem racionalidade, sem possibilidade de progresso, não há Espiritismo. Em cada um desses casos, o nome pode até ser mantido, mas a doutrina já é outra.




Fundação da União Espírita Brasileira

Em determinados momentos da história, permanecer em silêncio deixa de ser sinal de prudência e passa a representar consentimento. Há épocas em que a omissão pesa tanto quanto a própria ação. A fundação da União Espírita Brasileira (uniaoespiritabrasileira.com.br) surge exatamente nesse contexto: como reação ao que seus fundadores compreendem como um longo processo de descaracterização do Espiritismo no Brasil.

Esse processo remonta a 1895, quando a Federação Espírita Brasileira passou a ser dirigida por seguidores das ideias de Jean Baptiste Roustaing. Para os integrantes da União Espírita Brasileira, esse episódio marcou o início de uma ruptura profunda entre o Espiritismo organizado por Allan Kardec e uma estrutura religiosa construída gradualmente ao redor da FEB, sustentada por elementos dogmáticos incompatíveis com a metodologia kardequiana.

A crítica central apresentada pela UEB é direta: o Espiritismo teria deixado de ser tratado como ciência filosófica de investigação racional para tornar-se, progressivamente, um sistema religioso baseado na autoridade mediúnica, na aceitação acrítica de comunicações espirituais e na submissão intelectual a figuras consideradas incontestáveis.

Nesse entendimento, princípios fundamentais da ciência espírita foram abandonados. A evocação dos Espíritos, amplamente utilizada por Kardec como ferramenta metodológica de comparação e análise, foi transformada em tabu. O exame crítico das comunicações mediúnicas perdeu espaço para a aceitação automática. A mediunidade doméstica, compreendida como ambiente de estudo e observação, foi desencorajada. Em lugar da investigação racional, consolidou-se uma cultura de fé cega.

Para a União Espírita Brasileira, esse processo gerou consequências devastadoras para o Movimento Espírita Brasileiro. O Espiritismo teria sido convertido em uma estrutura religiosa marcada por misticismo, personalismo e dependência psicológica de médiuns e instituições. O que Kardec estruturou como método de observação racional dos fenômenos espirituais teria sido reduzido, segundo a UEB, a um sistema de crenças sustentado por autoridade institucional e emocionalismo.

É nesse cenário que a União Espírita Brasileira declara seu surgimento.

A UEB apresenta-se não como uma instituição destinada a centralizar o Movimento Espírita, mas como uma iniciativa independente voltada à recuperação dos fundamentos originais do Espiritismo. Sua proposta afirma basear-se exclusivamente nas 23 obras de Allan Kardec e na retomada da metodologia espírita abandonada após sua morte.

O movimento também se insere em uma tradição histórica de resistência às adulterações doutrinárias ocorridas após o desencarne de Kardec. O manifesto cita figuras como Léon Denis, Gabriel Delanne e Amélie-Gabrielle Boudet como participantes da luta contra a descaracterização do Espiritismo na França do final do século XIX.

Inspirada nesse precedente histórico, a União Espírita Brasileira declara-se como continuidade de um esforço regenerador que busca recuperar o caráter racional, investigativo e antidogmático da Doutrina Espírita.

Entre os princípios apresentados pela UEB estão:

  • o combate às distorções impostas ao Espiritismo;
  • o esclarecimento sobre as adulterações das obras O Céu e o Inferno e A Gênese após a morte de Kardec;
  • a retomada da ciência espírita conforme organizada nas obras kardequianas;
  • a defesa da liberdade de consciência e do exame racional das comunicações espirituais;
  • a oposição à ideia de instituições acima da doutrina;
  • a rejeição à unificação autoritária do Movimento Espírita.

A União Espírita Brasileira também afirma que não pretende substituir o Movimento Espírita nem tornar-se uma “instituição mater”. Sua posição sustenta que nenhuma organização deve ocupar papel superior aos princípios doutrinários. Segundo sua declaração, agrupamentos e sociedades devem servir apenas como pontos de estudo, união e difusão, jamais como centros de autoridade ideológica ou espiritual.

Outro aspecto central da fundação da UEB é a defesa explícita da autonomia intelectual do espírita. O movimento sustenta que o Espiritismo não pertence a dirigentes, médiuns ou federações. Pertence aos princípios descobertos pela observação racional e universal dos fatos espíritas.

Por isso, a fundação da União Espírita Brasileira apresenta-se como um chamado ao retorno da investigação, do estudo comparado e da independência crítica. Não como um apelo emocional, mas como uma reação contra aquilo que considera a substituição da razão pela submissão.

No entendimento da UEB, o verdadeiro Consolador Prometido não veio para produzir servos intelectuais, mas consciências livres capazes de questionar, observar, comparar e concluir racionalmente.

Assim, a fundação da União Espírita Brasileira representa, para seus integrantes, um marco de resistência doutrinária. Um movimento que declara ser necessário romper com mais de um século de distorções e recolocar o Espiritismo sobre aquilo que considera sua base legítima: a ciência espírita organizada por Allan Kardec.