{"id":2627,"date":"2021-10-05T17:31:29","date_gmt":"2021-10-05T20:31:29","guid":{"rendered":"https:\/\/geolegadodeallankardec.com.br\/?p=2627"},"modified":"2023-10-29T12:26:06","modified_gmt":"2023-10-29T15:26:06","slug":"spiritualism-and-religion","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.geolegadodeallankardec.com.br\/en\/artigos\/artigo-de-opiniao\/espiritismo-e-religiao\/","title":{"rendered":"Is Spiritism a religion?"},"content":{"rendered":"
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<\/a><\/div>\n\u00c9 muito comum ouvirmos dizer que “Espiritismo \u00e9 religi\u00e3o”, incluindo comparando-o a outras religi\u00f5es existentes. Ser\u00e1 mesmo que ele \u00e9 uma religi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n
Bem, para isso, primeiramente, precisamos conceituar o termo religi\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n Embora muitos o compreendam principalmente como um conjunto de cren\u00e7as em uma ou mais divindades, existem mesmo as religi\u00f5es ateias ou agn\u00f3sticas. Assim, para evitar maiores confus\u00f5es, vamos nos ater a duas formas principais de entender o termo religi\u00e3o<\/em>: <\/p>\n\n\n\n 2. Um sistema de regras e valores morais estabelecido por meio de cren\u00e7as que caracterizam um grupo de indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n No primeiro aspecto, a doutrina religiosa \u00e9 indiscut\u00edvel pelos fieis e pelos n\u00edveis mais baixos da hierarquia sacerdotal. Uma mudan\u00e7a, se vier, vem de cima para baixo. Muito comumente, encontram-se, nelas, ideias que se debatem frente \u00e0 ci\u00eancia humana, de forma muitas vezes irracional.<\/p>\n\n\n\n J\u00e1 o segundo aspecto vai mais em encontro \u00e0 ideia de religi\u00e3o natural<\/em>, que se entende pela nossa liga\u00e7\u00e3o natural a Deus e \u00e0 Espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n E em qual desses dois aspectos O Espiritismo se encaixaria mais?<\/p>\n\n\n\n Muito bem sabemos que o Espiritismo, em sua ess\u00eancia, jamais teve qualquer dos aspectos da primeira classifica\u00e7\u00e3o. Mas… E quanto \u00e0 segunda? Para discutir sobre isso, precisamos conceituar o Espiritismo em seu momento hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n Como j\u00e1 falamos neste artigo<\/a>, o Espiritismo surgiu em meio ao movimento chamado Espiritualismo Racional. Esse Movimento foi adotado, na Fran\u00e7a, a partir da terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XIX, principalmente, como oposi\u00e7\u00e3o ao movimento materialista e \u00e0s velhas religi\u00f5es escravizadoras do pensamento. Segundo Paulo Henrique de Figueiredo, na obra Autonomia: a hist\u00f3ria jamais contada do Espiritismo<\/a><\/em>, o Movimento: <\/p>\n\n\n\n \u201ccaracteriza- se pela ado\u00e7\u00e3o de metodologia cient\u00edfica, buscando fazer com o ser humano o que se conquistou com sucesso ao estudar a mat\u00e9ria: a compreens\u00e3o das leis naturais<\/strong> que o fundamentam. Ou seja, substituiu a f\u00e9 cega por uma f\u00e9 racional, exig\u00eancia dos novos tempos<\/em>\u201d. <\/p>\nFIGUEIREDO, Autonomia: a hist\u00f3ria jamais contada do Espiritismo<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n E, em outro trecho, destaca:<\/p>\n\n\n\n Em seu tempo, os espiritualistas racionais, distantes das religi\u00f5es formais<\/strong>, faziam uso dos conceitos de religi\u00e3o e moral natural <\/strong>para estudar os atos da alma humana e de suas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\nibidem<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n Assim, o conceito de religi\u00e3o natural era algo estudado de modo cient\u00edfico (pelas ci\u00eancias morais) naquele contexto hist\u00f3rico no qual nasceu o Espiritismo. \u00c9 por isso, e unicamente por isso<\/strong>, que Kardec admitia um aspecto religioso no Espiritismo, j\u00e1 que ele nasceu como desenvolvimento<\/em> do Espiritualismo Racional, como destaca o pr\u00f3prio Kardec:<\/p>\n\n\n\n […] toda defesa do Espiritualismo Racional abre caminho para o Espiritismo, que dele \u00e9 o desenvolvimento, combatendo os seus mais tenazes advers\u00e1rios: o materialismo e o fanatismo. <\/p>\nKARDEC, [RE] 1868, p. 223<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n O Espiritismo n\u00e3o s\u00f3 nunca foi uma religi\u00e3o – conforme o primeiro conceito – como, muito pelo contr\u00e1rio, nasceu e cresceu como uma ci\u00eancia moral de aspecto filos\u00f3fico, galgada na observa\u00e7\u00e3o dos fatos para dar suporte \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e racional que baseiam a teoria:<\/p>\n\n\n\n Toda ci\u00eancia deve estar baseada sobre fatos; mas s\u00f3 os fatos n\u00e3o constituem a ci\u00eancia; a ci\u00eancia nasce da coordena\u00e7\u00e3o e da dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica dos fatos: \u00e9 o conjunto de leis que os regem. O Espiritismo chegou ao estado de ci\u00eancia? Se se trata de uma ci\u00eancia perfeita, sem d\u00favida, seria prematuro responder afirmativamente; mas as observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o, desde hoje, bastante numerosas para se poder, pelo menos, deduzir os princ\u00edpios gerais, e \u00e9 a\u00ed que come\u00e7a a ci\u00eancia.<\/p>\nKARDEC, [RE] 1858, p. 3<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n Vemos, afinal, que o Espiritismo, sendo um desenvolvimento do Espiritualismo Racional, e com os aspectos de uma ci\u00eancia racional, nasceu diametralmente oposto \u00e0s ideias de dogmatismo religioso que sempre imperaram na humanidade. A proposta principal da Doutrina dos Esp\u00edritos \u00e9 justamente a de tirar o controle da f\u00e9 humana dos grupos religiosos que, agindo por interesses diversos, escravizavam as consci\u00eancias aos seus livros e rituais sagrados.<\/p>\n\n\n\n Contudo, muito importante dizer, o Espiritismo n\u00e3o \u00e9 uma Doutrina que nasceu para brigar com as outras. Ele n\u00e3o vem para lan\u00e7ar an\u00e1tema sobre as demais cren\u00e7as, mas, sim, como ci\u00eancia, para dar um campo neutro onde pessoas de todas as cren\u00e7as podem se abrigar:<\/p>\n\n\n\n O Espiritismo vem, a seu turno, n\u00e3o como uma religi\u00e3o<\/em><\/strong>, mas como uma doutrina filos\u00f3fica, trazer a sua teoria, apoiada sobre o fato das manifesta\u00e7\u00f5es; n\u00e3o se imp\u00f5e<\/strong>; n\u00e3o reclama confian\u00e7a cega; candidata-se e diz: Examinai, comparai e julgai; se encontrardes alguma coisa melhor do que a que vos dou, tomai-a<\/strong>. Ele n\u00e3o diz: Venho saber os fundamentos da religi\u00e3o e substitu\u00ed-la por um culto novo; ele diz: Eu n\u00e3o me dirijo \u00e0queles que creem e que est\u00e3o satisfeitos com a sua cren\u00e7a, mas \u00e0queles que desertam de vossas fileiras pela incredulidade e que n\u00e3o soubestes ou n\u00e3o pudestes reter<\/strong>; venho lhes dar, sobre as verdades que repelem, uma interpreta\u00e7\u00e3o de natureza a satisfazer sua raz\u00e3o e que lhes faz aceit\u00e1-la. (Ibidem)<\/p>\nKARDEC, [RE] 1862, p. 70<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 proposital<\/strong>, porque quero que nos forcemos a entender a distin\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 ao termo religi\u00e3o<\/em> conforme o entendimento que a ele se d\u00e1. Isso \u00e9 imprescind\u00edvel. Dependendo de como entendemos – se pelo aspecto filos\u00f3fico de religi\u00e3o natural<\/em>, relativo ao contexto hist\u00f3rico de Allan Kardec<\/strong>, ou se pelo aspecto de sistema religioso, que compreende rituais, sacerdotes e dogmas – ent\u00e3o o Espiritismo pode ser dito como religi\u00e3o ou n\u00e3o. Kardec conceitua muito bem essa distin\u00e7\u00e3o na Revista Esp\u00edrita de 1868:<\/p>\n\n\n\n […] ent\u00e3o o Espiritismo \u00e9 uma religi\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n \u201cOra, sim, sem d\u00favida, senhores; no sentido filos\u00f3fico, o Espiritismo \u00e9 uma religi\u00e3o<\/strong>[1]<\/a>, e n\u00f3s nos glorificamos por isto, porque \u00e9 a doutrina que funda os la\u00e7os da fraternidade e da comunh\u00e3o de pensamentos, n\u00e3o sobre uma simples conven\u00e7\u00e3o, mas sobre as mais s\u00f3lidas bases: as pr\u00f3prias leis da Natureza.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n \u201cPor que, ent\u00e3o, temos declarado que o Espiritismo n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o<\/strong>? Porque n\u00e3o h\u00e1 uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opini\u00e3o geral, a palavra religi\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo n\u00e3o tem<\/strong>. Se o Espiritismo se dissesse religi\u00e3o, o p\u00fablico n\u00e3o veria a\u00ed sen\u00e3o uma nova edi\u00e7\u00e3o, uma variante, se quiserem, dos princ\u00edpios absolutos em mat\u00e9ria de f\u00e9; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerim\u00f4nias e de privil\u00e9gios; ele n\u00e3o o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opini\u00e3o p\u00fablica se levantou.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n \u201cN\u00e3o tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religi\u00e3o, na acep\u00e7\u00e3o usual do voc\u00e1bulo, n\u00e3o podia nem devia enfeitar-se com um t\u00edtulo sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filos\u00f3fica e moral.\u201d<\/strong><\/em><\/p>\nKARDEC, [RE], 1868<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n Chegando aqui, j\u00e1 para encerrar, preciso refor\u00e7ar o meu pensamento<\/strong>, que compactua com Kardec: n\u00e3o devemos chamar o Espiritismo de religi\u00e3o, muito menos o apresentar como uma, pois, na cabe\u00e7a das pessoas, n\u00e3o existe essa distin\u00e7\u00e3o de entendimentos<\/strong> – sobretudo atualmente. Diga-se que ele \u00e9 uma religi\u00e3o e, prontamente, se perguntar\u00e1 o adepto de alguma linha religiosa: “mas ent\u00e3o ser\u00e1 que eu posso ser esp\u00edrita, j\u00e1 que sou cat\u00f3lico\/evang\u00e9lico\/hindu\/etc?”. Ou, pior, afirmar\u00e1: “j\u00e1 tenho minha religi\u00e3o. Essa outra<\/em> n\u00e3o me interessa” .<\/p>\n\n\n\n Ora, n\u00e3o podemos negar que, ao tratar o Espiritismo como religi\u00e3o, segundo o entendimento popular dado ao termo, estaremos criando uma grande dificuldade<\/strong> de expans\u00e3o da Doutrina Esp\u00edrita nas massas, posto que entender\u00e3o que, se o Espiritismo \u00e9 outra<\/em> religi\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o podem deixar as suas pr\u00f3prias religi\u00f5es para estud\u00e1-lo. Apresentemo-lo, por\u00e9m, como a ci\u00eancia de aspecto filos\u00f3fico que ele \u00e9<\/strong> e est\u00e3o desfeitas as dificuldades: todo mundo pode estudar o Espiritismo<\/strong>, sorvendo dos conhecimentos dados pelos Esp\u00edritos por todas as partes e dos estudos de Allan Kardec e de outros, sobre tais conhecimentos, sem a necessidade<\/em> de deixar sua religi\u00e3o<\/strong>, seus rituais, etc. Ali\u00e1s, sobre isso, o Espiritismo, seja nas palavras de Kardec ou nas palavras dos pr\u00f3prios Esp\u00edritos, sempre foi muito claro: ele n\u00e3o vem for\u00e7ar ningu\u00e9m a crer ou a mudar; apresenta, de forma l\u00f3gica, suas ideias sobre as causas e os efeitos e deixa a cada um a liberdade de mudar ou n\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n Ali\u00e1s, o Espiritismo nem mesmo coloca a necessidade de visitar ou frequentar um centro esp\u00edrita<\/strong> – embora, claro, n\u00e3o neguemos a grande utilidade que os centros esp\u00edritas podem ter – por conta de que o Espiritismo \u00e9 uma Doutrina para ser estudada e vivida individualmente e no n\u00facleo familiar.<\/p>\n\n\n\n Aqui, finalizando, chegamos a um ponto crucial: a forma como o Espiritismo se difundiu no Brasil. Por uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, sendo que a principal delas \u00e9 o desconhecimento da real face do Espiritismo, por falta de estudo<\/strong> das obras de Kardec, mas tamb\u00e9m por desconhecimento das adultera\u00e7\u00f5es<\/a> sofridas ap\u00f3s a morte de Kardec, a Doutrina ganhou diversos aspectos de religi\u00e3o, “indo morar” em templos, atendendo a rituais e hierarquias e, principalmente, deixando para tr\u00e1s toda a metodologia de estudos baseada<\/em> na evoca\u00e7\u00e3o de Esp\u00edritos, como j\u00e1 tratamos neste artigo<\/a>. <\/p>\n\n\n\n Contudo, assim como Jesus Cristo nunca fundou uma religi\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, tratou de toda a moral por ele trazida de forma natural – a\u00ed, sim, adquirindo os tra\u00e7os de uma “religi\u00e3o natural” – o Espiritismo nunca foi nem nunca ser\u00e1 uma religi\u00e3o conforme hoje entendemos. Cabe, a n\u00f3s, entende-lo profundamente, buscando restaurar sua verdadeira face, aplicando-o em nossas pr\u00f3prias vidas e espalhando-o, de forma fraterna e clara, a todos aqueles que possam dela obter algum proveito em suas vidas.<\/p>\n\n\n\n Adicionamos, para enriquecer, a entrevista a esse respeito com Paulo Henrique de Figueiredo:<\/p>\n\n\n\nO que \u00e9 religi\u00e3o<\/em><\/h2>\n\n\n\n
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O Espiritualismo Racional e o Espiritismo<\/h2>\n\n\n\n
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O Espiritismo nunca foi uma nova religi\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n
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Mas o Espiritismo \u00e9 uma religi\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n
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Onde mora o problema, ent\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n
Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n