Lugares assombrados – O Livro dos Médiuns

Este artigo traz, na íntegra, o capítulo de O Livro dos Médiuns que trata sobre os lugares assombrados. Ele é excelente e claro por si só, de forma que não verificamos ser necessário tecer maiores comentários.

O artigo em questão foi suscitado pelo tema das Spirit Box, tratado no artigo homônimo e em vídeo recente.

O Livro dos Médiuns — Segunda parte — Das manifestações espíritas > Capítulo IX — Dos lugares assombrados

  1. As manifestações espontâneas, que em todos os tempos se hão produzido, e a persistência de alguns Espíritos em darem mostras ostensivas de sua presença em certas localidades, constituem a fonte de origem da crença na existência de lugares mal-assombrados. As respostas que se seguem foram dadas a perguntas feitas sobre este assunto:

1.ª. Os Espíritos se apegam unicamente às pessoas, ou também às coisas?

“Depende da elevação deles. Alguns Espíritos podem apegar-se aos objetos terrenos. Os avarentos, por exemplo, que esconderam seus tesouros e que ainda não estão bastante desmaterializados, muitas vezes se obstinam em vigiá-los e montar-lhes guarda.”

2.ª. Têm os Espíritos errantes ((Espírito errante é o Espírito entre uma vida e outra)) lugares de sua predileção?

“O princípio ainda é aqui o mesmo. Os Espíritos que já se não acham apegados à Terra vão para onde se lhes oferece ensejo de praticar o amor. São atraídos mais pelas pessoas do que pelos objetos materiais. Contudo, pode dar-se que dentre eles alguns tenham, durante certo tempo, preferência por determinados lugares. Esses, porém, são sempre Espíritos inferiores.”

3.ª. O apego dos Espíritos a uma localidade, sendo sinal de inferioridade, constituirá igualmente prova de serem eles maus?

“Certamente que não. Pode um Espírito ser pouco adiantado, sem que por isso seja mau. Não se observa o mesmo entre os homens?”

4.ª. Tem qualquer fundamento a crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas?

“Nenhum. Os Espíritos vão a tais lugares, como a todos os outros. A imaginação dos homens é que, despertada pelo aspecto lúgubre de certos sítios, atribui à presença dos Espíritos o que não passa, quase sempre, de efeito muito natural. Quantas vezes o medo não tem feito que se tome por fantasma a sombra de uma árvore e por espectros o grito de um animal, ou o sopro do vento? Os Espíritos gostam da presença dos homens; daí o preferirem os lugares habitados, aos lugares desertos.”

a) Contudo, pelo que sabemos da diversidade dos caracteres entre os Espíritos, podemos inferir a existência de Espíritos misantropos, que prefiram a solidão.

“Por isso mesmo não respondi de modo absoluto à questão. Disse que eles podem vir aos lugares desertos, como a toda parte. É evidente que, se alguns se conservam insulados, é porque assim lhes apraz. Isso, porém, não constitui motivo para que forçosamente tenham predileção pelas ruínas. Em muito maior número os há nas cidades e nos palácios, do que no interior dos bosques.”

5.ª. Em geral, as crenças populares guardam um fundo de verdade. Qual terá sido a origem da crença em lugares mal-assombrados?

“O fundo de verdade está na manifestação dos Espíritos, na qual o homem instintivamente acreditou desde todos os tempos. Mas, conforme disse acima, o aspecto lúgubre de certos lugares lhe fere a imaginação e esta o leva naturalmente a colocar nesses lugares os seres que ele considera sobrenaturais. Demais, a entreter essa crença supersticiosa, aí estão as narrativas poéticas e os contos fantásticos com que o acalentam na infância.”

6.ª. Há, para os Espíritos que costumam reunir-se, dias e horas em que prefiram fazê-lo?

“Não. Os dias e as horas são medidas de tempo para uso dos homens e para a vida corpórea, das quais os Espíritos nenhuma necessidade sentem e nenhum caso fazem.”

7ª Donde nasceu a ideia de que os Espíritos vêm preferencialmente durante a noite?

“Da impressão que o silêncio e a obscuridade produzem na imaginação. Todas essas crenças são superstições que o conhecimento racional do Espiritismo destruirá. O mesmo se dá com os dias e as horas que muitos julgam lhes serem mais favoráveis. Fica certo de que a influência da meia-noite nunca existiu, senão nos contos.”

a) Sendo assim, por que é então que alguns Espíritos anunciam sua vinda e suas manifestações para certos e determinados dias, como a sexta-feira, por exemplo?

“Isso fazem Espíritos que aproveitam a credulidade dos homens para se divertirem. Pela mesma razão, há os que se dizem o diabo, ou dão a si mesmos nomes infernais. Mostrai-lhes que não vos deixais enganar e não mais voltarão.”

8.ª. Preferem os Espíritos frequentar os túmulos onde repousam seus corpos?

“O corpo era uma simples vestimenta. Do mesmo modo que o prisioneiro nenhuma atração sente pelas correntes que o prendem, os Espíritos nenhuma experimentam pelo envoltório que os fez sofrer. A lembrança das pessoas que lhes são caras é a única coisa que para eles tem valor.”

a) São-lhes mais agradáveis, do que quaisquer outras, as preces que por eles se façam junto dos túmulos de seus corpos?

“A prece, bem o sabes, é uma evocação que atrai os Espíritos. Tanto maior ação terá, quanto mais fervorosa e sincera for. Ora, junto de um túmulo venerado, sempre se está em maior recolhimento, do que algures, e a conservação de estimadas relíquias é em testemunho de afeição dado ao Espírito e que nunca deixa de o sensibilizar. O que atua sobre o Espírito é sempre o pensamento e não os objetos materiais. Mais influência, do que sobre o Espírito, exercem esses objetos sobre aquele que ora, porque lhe fixam a atenção.”

9.ª. A vista disso, parece que não se deve considerar absolutamente falsa a crença em lugares mal-assombrados?

“Dissemos que certos Espíritos podem sentir-se atraídos por coisas materiais. Podem sê-lo por determinados lugares, onde parecem estabelecer domicílio, até que desapareçam as circunstâncias que os faziam buscar esses lugares.”

a) Que circunstâncias podem induzi-los a buscar tais lugares?

“A simpatia por algumas das pessoas que os frequentam, ou o desejo de com elas se comunicarem. Entretanto, nem sempre os animam intenções louváveis. Quando são Espíritos maus, podem pretender tirar vingança de pessoas de quem guardam queixas. A permanência em determinado lugar também pode ser, para alguns, uma punição que lhes é infligida, sobretudo se ali cometeram um crime, a fim de que o tenham constantemente diante dos olhos*.”

10.ª. Os lugares assombrados sempre o são por antigos habitantes deles?

“Sempre, não; — às vezes, porquanto, se o antigo habitante de um desses lugares é Espírito elevado, tão pouco se preocupará com a sua habitação terrena, quanto com o seu corpo. Os Espíritos que assombram certos lugares muitas vezes não têm, para assim procederem, outro motivo que não simples capricho, a menos que para lá sejam atraídos pela simpatia que lhes inspirem determinadas pessoas.”

a) Podem estabelecer-se num lugar desses com o fito de protegerem uma pessoa, ou a própria família?

“Certamente, se forem Espíritos bons; porém, neste caso, nunca manifestam sua presença por meios desagradáveis.”

11.ª. Haverá alguma coisa de real na história da Dama Branca?

“Mero conto, extraído de mil fatos verdadeiros.”

12.ª. Será racional temerem-se os lugares assombrados pelos Espíritos?

“Não. Os Espíritos que frequentam certos lugares, produzindo neles desordens, antes querem divertir-se à custa da credulidade e da poltronaria dos homens, do que lhes fazer mal. Aliás, deveis lembrar-vos de que em toda parte há Espíritos e de que, assim, onde quer que estejais, os tereis ao vosso lado, ainda mesmo nas mais tranquilas habitações. Quase sempre, eles só assombram certas casas, porque encontram ensejo de manifestarem sua presença nelas.”

13.ª. Haverá meios de os expulsar?

“Há; o que as mais das vezes fazem para isso, porém, os atrai, em vez de os afastar. O melhor meio de expulsar os maus Espíritos consiste em atrair os bons. Atraí, pois, os bons Espíritos, praticando todo o bem que puderdes, e os maus desaparecerão, visto que o bem e o mal são incompatíveis. Sede sempre bons e somente bons Espíritos tereis junto de vós.”

a) Há, no entanto, pessoas muito bondosas que vivem às voltas com as tropelias dos maus Espíritos. Por quê?

“Se essas pessoas são realmente boas, isso acontece talvez como prova, para lhes exercitar a paciência e concitá-las a se tornarem ainda melhores. Fica certo, porém, de que não são os que continuamente falam das virtudes os que mais as possuem. Aquele que é possuidor de qualidades reais quase sempre o ignora, ou delas nunca fala.”

14.ª. Que se deve pensar com relação à eficácia dos exorcismos, para expelir dos lugares mal-assombrados os maus Espíritos?

“Já tiveste ocasião de verificar a eficácia desse processo? Não tens visto, ao contrário, as tropelias redobrarem de intensidade, depois das cerimônias do exorcismo? É que os Espíritos que as causam se divertem com o serem tomados pelo diabo.

“Também, os que se não apresentam com intenções malévolas podem manifestar sua presença por meio de ruídos e até tornando-se visíveis, mas nunca praticam desordens, nem incômodos. São, frequentemente, Espíritos sofredores, cujos sofrimentos podeis aliviar orando por eles. Outras vezes, são mesmo Espíritos benfazejos, que vos querem provar estarem junto de vós, ou, então, Espíritos levianos que brincam. Como quase sempre os que perturbam o repouso são Espíritos que se divertem, o que de melhor têm a fazer, os que se veem perseguidos, é rir do que lhes sucede. Os perturbadores se cansam, verificando que não conseguem meter medo, nem impacientar.” (Veja-se atrás o capítulo V: Das manifestações espontâneas.)

Resulta das explicações acima haver Espíritos que se prendem a certos lugares, preferindo permanecer neles, sem que, entretanto, tenham necessidade de manifestar sua presença por meio de efeitos sensíveis. Qualquer lugar pode constituir morada obrigatória, ou predileta de um Espírito, embora mau, sem que jamais qualquer manifestação se produza. Os que se prendem a certas localidades, ou a certas coisas materiais, nunca são Espíritos superiores. Contudo, mesmo que não pertençam a esta categoria, pode dar-se que não sejam maus e nenhuma intenção má alimentem. Não raro, são até comensais mais úteis do que prejudiciais, porquanto, desde que se interessam pelas pessoas, podem protegê-las.

  • Veja-se Revue spirite, de fevereiro de 1860: “História de um danado”.



Materialidade de além-túmulo: o Zuavo de Magenta

Apresentamos na ultima LIVE uma das Conversas Além Túmulo da Revista Espírita de 1859, tratando do tema Materialidade de além-túmulo.

Desta vez, eles conversam com um soldado morto em batalha.

O governo permitiu que os jornais apolíticos dessem notícias da guerra*. Como, porém, são abundantes os relatos sob todas as formas, seria inútil repeti-los aqui. A maior novidade para os nossos leitores é uma história vinda do outro mundo.

Embora não seja extraída da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menos interesse do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo que daí pudéssemos extrair alguma instrução útil. Semelhantes temas de estudo, e principalmente de atualidade, não se apresentam a cada passo. Não conhecendo pessoalmente nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos que nos assistem que nos enviassem alguém. Chegamos a pensar que a presença de um estranho seria preferível à de amigos ou de parentes dominados pela emoção. Dada uma resposta afirmativa, obtivemos as seguintes comunicações.

RE 1859 O Zuavo de Magenta

Isso se passou na Segunda Guerra Italiana de Independência. A guerra ocorreu em 1859, e foi travada entre o Reino da Sardenha, liderado por Camillo di Cavour, e a França, liderada pelo Imperador Napoleão III, contra o Império Austríaco. Exporemos alguns trechos dessa longa conversa além túmulo.

1. ─ Rogamos a Deus Todo Poderoso permita ao Espírito de um militar morto na batalha de Magenta vir comunicar-se conosco.

─ Que quereis saber?

2. ─ Onde vos encontráveis quando vos chamamos?

─ Não saberia dizer.

3. ─ Quem vos preveniu que desejávamos conversar convosco?

─ Alguém mais sagaz do que eu.

4. ─ Quando em vida duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?

─ Oh! Isso não.

5. ─ Que sensação experimentais por estardes aqui?

─ Isto me causa prazer. Segundo me dizem, tendes grandes coisas a fazer.

6. ─ A que corpo do exército pertencíeis? (Alguém diz a meia-voz: Pela linguagem parece um “zuzu”)

─ Ah! Bem o dizes!

7. ─ Qual era o vosso posto?

─ O de todo o mundo.

8. ─ Como vos chamáveis?

─ Joseph Midard.

9. ─ Como morrestes?

─ Quereis saber tudo sem pagar nada?

10. ─ Ainda bem que não perdestes a jovialidade. Dizei, dizei; nós pagaremos depois. Como morrestes?

─ De uma ameixa [projétil] que recebi.

11. ─ Ficastes contrariado com a morte?

─ Palavra que não! Estou bem, aqui.

12. ─ No momento da morte percebestes o que houve?

─ Não. Eu estava tão atordoado que não podia acreditar.[nota a seguir]

NOTA de A. K.: Isto está de acordo com o que temos observado nos casos de morte violenta. Não se dando conta imediatamente da sua situação, o Espírito não se julga morto. Este fenômeno se explica muito facilmente. É análogo ao dos sonâmbulos, que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo, a ideia de sono é sinônima de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme. Só mais tarde se convence, quando familiarizado com o sentido ligado a esse vocábulo. Dá-se o mesmo com um Espírito surpreendido por uma morte súbita, quando nada está preparado para a separação do corpo. Para ele, a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que ele vive, sente e pensa, entende que não está morto. É preciso algum tempo para reconhecer-se.

13. ─ No momento de vossa morte, a batalha não havia terminado. Seguistes as suas peripécias?

─ Sim, pois como vos disse, não me julgava morto. Eu queria continuar batendo nos outros cães.

14. ─ Que sensação experimentastes então?

─ Eu estava encantado, pois me sentia muito leve.

15. ─ Víeis os Espíritos dos vossos camaradas deixando os corpos?

─ Eu nem pensava nisso, pois não me acreditava morto.

16. ─ Em que se transformava, nesse momento, a multidão de Espíritos que perdia a vida no tumulto da batalha?─ Creio que faziam o mesmo que eu

17. ─ Encontrando-se reunidos nesse mundo dos Espíritos, que pensavam aqueles que se batiam mais encarniçadamente? Ainda se atiravam uns contra os outros?

─ Sim. Durante algum tempo, e conforme o seu caráter.

18. ─ Reconhecei-vos melhor agora?

─ Sem isto não me teriam mandado aqui.

19. ─ Poderíeis dizer-nos se entre os Espíritos de soldados mortos há muito tempo ainda se encontravam alguns interessados no resultado da batalha? (Rogamos a São Luís que o ajudasse nas respostas, a fim de que, para nossa instrução, fossem tão explícitas quanto possível).─ Em grande quantidade. É bom que saibais que esses combates e suas consequências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se envolveriam em crimes, como fizeram, se a isto não tivessem sido compelidos em razão das consequências futuras, que não tardareis a conhecer.

20. ─ Deveria haver ali Espíritos que se interessavam no sucesso dos austríacos. Haveria então dois campos de batalha entre eles?

─ Evidentemente.

OBSERVAÇÃO: Não parece que estamos vendo aqui os deuses de Homero tomando partido, uns pelos Gregos, outros pelos Troianos? Na verdade, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindade? Não temos razão quando dizemos que o Espiritismo é uma luz que esclarecerá diversos mistérios, a chave de numerosos problemas?

21. ─ Eles exerciam alguma influência sobre os combatentes?

─ Muito considerável.

22. ─ Podeis descrever-nos de que maneira eles exerciam tal influência?

─ Da mesma maneira que todas as influências dos Espíritos se exercem sobre os homens. [pelo pensamento]

OBSERVAÇÃO: É fato, como fica cada vez mais constatado, que a mentalidade do Espírito cria cenários de matéria fluídica ao seu redor. Outra coisa também pode ser possível: eles continuam no campo de batalha terreno, provavelmente com algumas “adições fluídicas”. Tudo isso deve ser indistinguível, de início, quando no estado de perturbação. Contudo, não é regra, ou seja, não constitui uma verdade geral para todo soldado, morto em guerra (vide O Tambor de Beresina, RE, julho de 1858). O erro, sempre, é tomar as palavras de Espíritos quaisquer sem analisar o seu fundo, principalmente quando o Espírito está em perturbação pós-morte ou é pouco esclarecido, o que se denota de suas próprias ideias. Eis o longo trabalho de Psicologia Experimental de Kardec!

23. ─ Que esperais fazer agora?

─ Estudar mais do que o fiz em minha última etapa.

24. ─ Ides voltar como espectador aos combates que ainda serão travados?

─ Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, espero de vez em quando dar uma fugida, para me divertir com as surras subsequentes.

25. ─ Que gênero de afeição vos retém ainda?

─ Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.

26. ─ Peço que me desculpeis o mau pensamento que me atravessou o espírito, relativamente à afeição que o retém.

─ Não tem importância. Digo bobagens para vos fazer rir um pouco. É natural que não me tomeis por grande coisa, tendo em vista o regimento medíocre a que pertenci. Ficai tranquilos, eu só me engajei por causa dessa pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.

27. ─ Quando vos encontráveis entre os Espíritos, ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?

─ A princípio eu a perdi de vista, mas depois de algum tempo via muito melhor, porque percebia todas as artimanhas. [está falando no sentido dos pensamentos]

28. ─ Pergunto se escutáveis o troar do canhão.

─ Sim.

29. ─ No momento da ação, pensáveis na morte e naquilo em que vos tornaríeis, caso fosseis morto?

─ Eu pensava no que seria de minha mãe.

30. ─ Era a primeira vez que entráveis em fogo?

─ Não, não. E a África?

31. ─ Vistes a entrada dos franceses em Milão?

─ Não.

32. ─ Aqui sois o único dos que morreram na Itália?

─ Sim.

33. ─ Pensais que a guerra durará muito tempo?

─ Não. É fácil e por isso mesmo pouco meritório fazer tal predição.

34. ─ Quando vedes, entre os Espíritos, um dos vossos chefes, ainda o reconheceis como vosso superior?

─ Se ele o for, sim; se não, não. [nota a seguir]

NOTA de A. K. : Na sua simplicidade e no seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita, a superioridade moral é a única reconhecida. Quem não a teve na Terra, fosse qual fosse a sua posição, não tem, de fato, superioridade nenhuma. Lá o chefe pode estar abaixo do soldado e o patrão abaixo do servidor. Que lição para o nosso orgulho!

35. ─ Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?

─ Quem não pensaria nisso? Felizmente não tenho muito o que temer. Eu resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, as poucas leviandades que cometi como “zuzu”, como dizeis.

36. ─ Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos companheiros e desviar dele um golpe fatal?

─ Não. Não podemos fazer isso. A hora da morte é marcada por Deus. Se tem que acontecer, nada o impedirá, do mesmo modo ninguém poderá atingi-la se sua hora não tiver soado.

37. ─ Vedes o General Espinasse?

─ Não o vi ainda. Mas espero vê-lo em breve.

SEGUNDA CONVERSA

(17 DE JUNHO DE 1859)

38. (Evocação).

─ Presente! Firme! Em frente!

39. ─ Lembrai-vos de ter vindo aqui há oito dias?

─ Como não?!

40. ─ Disseste-nos que ainda não tínheis visto o General Espinasse. Como poderíeis reconhecê-lo, já que ele não levou consigo seu uniforme de general?─ Não, mas eu o conheço de vista. Ademais, não temos uma porção de amigos junto a nós, prontos a nos revelar a senha? Aqui não é como no quartel. A gente não tem medo de dar um encontrão com alguém, e eu vos garanto que só os velhacos ficam sozinhos.

41. ─ Sob que aparência aqui vos encontrais?

─ Zuavo.

42. ─ Se vos pudéssemos ver, como o veríamos?

─ De turbante e culote.

43. ─ Pois bem! Suponhamos que nos aparecêsseis de turbante e culote. Onde teríeis arranjado essas roupas, desde que deixastes as vossas no campo de batalha?

─ Ora, ora! Não sei como é isto, mas tenho um alfaiate que me as arranja.

44. ─ De que são feitos o turbante e o culote que usais? Não tendes ideia?

─ Não. Isto é lá com o trapeiro.

NOTA de A. K. : Esta questão da vestimenta dos Espíritos, como várias outras não menos interessantes, ligadas ao mesmo princípio, foram completamente elucidadas por novas observações feitas no seio da Sociedade. Daremos notícias disso no próximo número. Nosso bom zuavo não é suficientemente adiantado para resolver sozinho. Foi-nos preciso, para isso, o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.

45. ─ Sabeis a razão pela qual nos vedes, ao passo que nós não vos podemos ver?

─ Acredito que vossos óculos estão muito fracos.

46. ─ Não seria por essa mesma razão que não vedes o general em seu uniforme?

─ Sim, mas ele não o veste todos os dias.

47. ─ Em que dias o veste?

─ Ora essa! Quando o chamam ao palácio.

48. ─ Por que estais aqui vestido de zuavo se não vos podemos ver?─ Simplesmente porque ainda sou zuavo, mesmo depois de cerca de oito anos, e porque entre os Espíritos conservamos essa forma durante muito tempo. Mas isso apenas entre nós. Compreendeis que quando vamos a um mundo muito diferente, como a Lua ou Júpiter, não nos damos ao trabalho de fazer essa toalete toda.

OBSERVAÇÂO: Isso aqui é muito interessante. O que eu entendo é que ele está se referindo ao fato de Espírito adotar uma forma perispiritual de acordo com o mundo onde vão e de acordo com a existência de uma personalidade nesse mundo, sem nem perceberem. Se tivesse vivido em um mundo distante como, por exemplo, um vendedor de animais, ao ser lá evocado, se apresentaria dessa forma.

49. ─ Falais da Lua e de Júpiter. Porventura já lá estivestes depois de morto?

─ Não. Não estais me entendendo. Depois da morte nos informamos de muitas coisas. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte, o Espírito sofre uma metamorfose que não podeis compreender.

50. ─ Revistes o corpo deixado no campo de batalha?

─ Sim. Ele não está bonito.

51. ─ Que impressão vos deixou essa vista?

─ De tristeza.

52. ─ Tendes conhecimento de vossa existência anterior?

─ Sim, mas não é suficientemente gloriosa para que possa me pavonear.

53. ─ Dizei-nos apenas o gênero de vida que tínheis.

─ Simples mercador de peles de animais selvagens.

54. ─ Nós vos agradecemos a bondade de ter vindo pela segunda vez.

─ Até breve. Isto me diverte e me instrui. Já que sou bem tolerado aqui, voltarei de boa vontade.

OBSERVAÇÂO: A tolerância é uma das consequências da caridade. O zuavo se sentiu “acolhido” na comunicação.

A próxima publicação trará a evocação do oficial superior que estava na mesma batalha que este zuavo.




O que deve ser a História do Espiritismo

O século XIX foi o Século da Razão! Isso quer dizer que não havia brecha para misticismo muito menos para dogmas. O dogma só desaparece quando debruçamos sobre o estudo dedicado e contínuo. Este Artigo que trazemos aqui é da Revista Espírita, outubro de 1862, “O que deve ser a história do Espiritismo“.

“A propósito dessa história, sobre a qual dissemos algumas palavras, várias pessoas nos perguntam o que compreenderia ela, e com esse objetivo nos enviaram diversos relatos de manifestações. Aos que pensaram assim trazer uma pedra ao edifício, agradecemos a intenção, mas diremos que se trata de algo mais sério que um catálogo de fenômenos espíritas encontradiço em muitas obras. Tendo o Espiritismo que marcar presença nos fastos da Humanidade, será interessante para as gerações futuras saber por que meios ter-se-á ele estabelecido. Será, pois, a história das peripécias que tiverem assinalado os seus primeiros passos; das lutas que tiver enfrentado; dos entraves que lhe terão oposto; de sua marcha progressiva no mundo inteiro.

O verdadeiro mérito é modesto e não busca impor-se. É preciso que a Humanidade conheça os nomes dos primeiros pioneiros da obra, daqueles cuja abnegação e devotamento merecerão ser inscritos em seus anais; das cidades que marcharam na vanguarda; dos que sofreram pela causa, a fim de que sejam abençoados; dos que fizeram sofrer, a fim de que orem por eles, para que sejam perdoados. Numa palavra, de seus amigos dedicados e de seus inimigos confessos ou ocultos.

É preciso que a intriga e a ambição não usurpem o lugar que lhes não pertence, nem um reconhecimento e uma honra que não lhes são devidos. Se há Judas, é preciso que eles sejam desmascarados.

Uma parte, que não será a menos interessante, será a das revelações que sucessivamente anunciaram todas as fases dessa era nova e os acontecimentos de toda ordem que as acompanharam.

Aos que acharem a tarefa presunçosa, diremos que não teremos outro mérito senão o de possuir, por nossa posição excepcional, documentos que não estão em poder de ninguém, e que estão ao abrigo de quaisquer eventualidades. Considerando-se que o Espiritismo está sendo chamado, incontestavelmente, a desempenhar um grande papel na História, é importante que esse papel não seja desnaturado, e que seja mostrada a história autêntica, em oposição às histórias apócrifas que o interesse pessoal poderia fabricar.

Quando aparecerá ela? Não será tão cedo, e talvez não em nossa vida, pois não se destina a satisfazer à curiosidade do momento. Se dela falamos por antecipação, é para que ninguém se equivoque quanto ao seu objetivo e seja anotada a nossa intenção. Aliás, o Espiritismo está em seu começo, e muitas outras coisas acontecerão até lá. Então, é preciso esperar que cada um tenha tomado o seu lugar, certo ou errado.” (grifos nossos)

Observação: É interessante notar como parece que Allan Kardec já sabia do que aconteceria no futuro. Tanta oposição nas historias apócrifas e tanto interesse pessoal fabricado nas costas do Espiritismo… Por garantia ele guardou documentos para essas eventualidades que volta e meia são publicados! Fiquemos atentos ao que mais interessa

Hoje percebemos que essa história ainda está em pleno desenvolvimento. Estamos ainda aprendendo a passos lentos os ensinamentos que os Espíritos trouxeram na época de Kardec. Que todos usemos da Vontade e da Imaginação para alcançar esse entendimento tão apoiado na Razão!




O homem é solidário do homem

Ao fazermos o estudo do livro O Céu e o Inferno (( https://mundomaior.com.br/produtos/ceu-inferno-allan-kardec-feal/#:~:text=O%20C%C3%A9u%20e%20o%20Inferno%20%C3%A9%20uma%20das%20cinco%20obras,a%20respeito%20de%20seu%20destino. )), nos chamou a atenção a Nota do Editor 149 ((

Com a teoria moral autônoma espírita, deixam de ter qualquer sentido os prejulgamentos, os privilégios, o orgulho, o egoísmo, o fanatismo, a incredulidade, próprios do mundo velho. A competição, que destaca os mais capazes, demonstra-se injusta, devendo ser substituída pela cooperação que integra solidariamente a todos. Os recursos da educação devem ser investidos mais amplamente entre as almas mais simples, para que participem ativamente da sociedade. Por esse caminho, a humanidade encontrará a felicidade: “O homem é solidário do homem. É em vão que procura o complemento do seu ser, quer dizer, a felicidade em si mesmo ou naquilo que o cerca isoladamente: ele não pode encontrá-lo senão no HOMEM ou na Humanidade. Não fazeis, pois, nada para ser pessoalmente felizes, enquanto a infelicidade de um membro da Humanidade, de uma parte de vós mesmos, possa vos afligir”

Allan Kardec. O Céu e o Inferno , NE 149 (p. 368). Edição do Kindle.)) .

Esta nota ele se refere a um artigo que está na Revista Espírita de março de 1867. Ele é uma das Dissertações Espiritas desta edição.

Ele é particularmente interessante por mostrar enfaticamente a importância da solidariedade na nossa humanidade. Além disso, há um boa reflexão quanto aos caminhos que levam a felicidade.

Compartilhamos integralmente com vocês:

A SOLIDARIEDADE

(Paris, 26 de novembro de 1866 – Médium: Sr. Sabb…)

Glória a Deus e paz aos homens de boa vontade!
O estudo do Espiritismo não deve ser vão. Para certos
homens levianos, é uma diversão; para os homens sérios, deve ser
sério.

Antes de tudo refleti numa coisa. Não estais na Terra
para aí viver à maneira dos animais, para vegetar à maneira de
gramíneas ou de árvores. As gramíneas e árvores têm a vida
orgânica, mas não têm a vida inteligente, como os animais não têm
a vida moral. Tudo vive, tudo respira em a Natureza, mas só o
homem sente e se sente.

Como são lamentáveis e insensatos aqueles que se
desprezam a ponto de se compararem a um pé de erva ou a um
elefante! Não confundamos os gêneros nem as espécies. Não são
grandes filósofos e grandes naturalistas que, por exemplo, vêem no
Espiritismo uma nova edição da metempsicose e, sobretudo, de
uma metempsicose absurda. A metempsicose não é outra coisa

senão o sonho de um homem de imaginação. Um animal, um
vegetal produz o seu congênere, nada mais, nada menos. Que isto
seja dito para impedir velhas ideias falsas de serem novamente
acreditadas, à sombra do Espiritismo.

Homem, sede homem; sabei de onde vindes e para
onde ides. Sois o filho amado dAquele que tudo fez e vos deu um
fim, um destino que deveis realizar sem o conhecer absolutamente.
Éreis necessário aos seus desígnios, à sua glória, à sua própria
felicidade? Questões inúteis, porque insolúveis. Vós sois; sede
reconhecidos por isto; mas ser não é tudo; é preciso ser segundo as
leis do Criador, que são as vossas próprias leis. Lançado na
existência, sois ao mesmo tempo causa e efeito. Ao menos quanto
ao presente, não podeis determinar o vosso papel, nem como
causa, nem como efeito, mas podeis seguir as vossas leis. Ora, a
principal é esta: O homem não é um ser isolado, é um ser coletivo.
O homem é solidário do homem. É em vão que procura o
complemento de seu ser, isto é, a felicidade em si mesmo ou no que
o cerca isoladamente; não pode encontrá-lo senão no homem ou na
Humanidade. Então nada fazeis para ser pessoalmente feliz, tanto
quanto a infelicidade de um membro da Humanidade, de uma parte
de vós mesmo, poderá vos afligir.

Mas, direis, é a moral que ensinais. Ora, a moral é um
velho lugar-comum. Olhai em torno de vós: que há de mais
ordinário, de mais comum que a sucessão periódica do dia e da
noite, que a necessidade de vos alimentardes e de vos vestirdes? É
para isto que tendem todos os vossos cuidados, todos os vossos
esforços. E é necessário, pois assim o exige a parte material do
vosso ser. Mas a vossa natureza não é dupla, e não sois mais espírito
do que corpo? Como, pois, vos é mais difícil ouvir lembrar as leis
morais do que as leis físicas, que aplicais a todo instante? Se fôsseis
menos preocupados e menos distraídos essa repetição não seria tão
necessária.

Não nos afastemos de nosso assunto. Bem
compreendido, o Espiritismo é, para a vida da alma, o que o
trabalho material é para a vida do corpo. Ocupai-vos dele com este
objetivo e ficai certos de que quando tiverdes feito, para o vosso
melhoramento moral, a metade do que fazeis para melhorar a vossa
existência material, tereis feito a Humanidade dar um grande passo.

Um Espírito

adjomargonzalez – pixabay



Perturbação Imediata Após Morte

Todos nascemos! Todos vamos morrer!

Desta verdade da vida, vem a preocupação do momento da morte. São sempre assuntos recorrentes.

Neste artigo, não pretendemos encerrar o assunto, muito pelo contrário! Estamos somente trazendo uma parte bem pequena desse vasto assunto. Afinal, todos vamos experimentar este acontecimento.

Os Espíritos explicaram que, no momento da morte, nem todos os Espíritos passam pelos mesmo processo. Cada ser é uma consciência diferente da outra. Assim, O Livro dos Espíritos traz as seguintes conclusões em seu capítulo III – Retorno da Vida Corpórea à Vida Espiritual:

163. Deixando o corpo, a alma tem imediata consciência de si mesma? – Consciência imediata não é o termo: ela fica perturbada por algum tempo.

164. Todos os Espíritos experimentam, no mesmo grau e pelo mesmo tempo, a perturbação que se segue à separação da alma e do corpo? – Não, pois isso depende da sua elevação. Aquele que já está depurado se reconhece quase imediatamente, porque se desprendeu da matéria durante a vida corpórea, enquanto o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito mais tempo a impressão da matéria.

Comentário: Aqui fica evidente que cada pessoa experimenta um tipo de percepção da morte, segundo aquilo que vivenciou na matéria.

Agora, nesta pergunta 165, Allan Kardec consegue aprofundar mais na natureza da perturbação, assim como descrever melhor o que os Espíritos ensinaram em suas comunicações. Notem que não há nada com um tempo determinado. Esta parte da resposta, no nosso entender, é a mais esclarecedora.

165. O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração maior
ou menor da perturbação? – Uma grande influência, pois o Espírito compreende antecipadamente a sua situação: mas a prática do bem e a pureza de consciência são o que exerce maior influência.

Kardec continua explicando, no mesmo item, como o Espirito experimenta esses primeiros momentos:

“No momento da morte, tudo, a princípio, é confuso; a alma necessita de algum tempo para se reconhecer; sente-se como atordoada, no mesmo estado de um homem que saísse de um sono profundo e procurasse compreender a situação. A lucidez das ideias e a memória do passado voltam, à medida que se extingue a influência da matéria e que se dissipa essa espécie de nevoeiro que lhe turva os pensamentos.

A duração da perturbação de após morte é muito variável: pode ser de algumas horas, como de muitos meses e mesmo de muitos anos. Aqueles em que é menos longa são os que se identificaram durante a vida com seu estado futuro, porque estão compreendem imediatamente a sua posição.

Comentário: Parece que ele dá uma espécie de conselho na parte em que destacamos do texto.

“Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares, segundo o caráter dos indivíduos e sobretudo de acordo com o gênero de morte. Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito é surpreendido, espanta-se, não acredita que esteja morto e sustenta teimosamente que não morreu. Não obstante, vê o seu corpo, sabe que é dele, mas não compreende que esteja separado. Procura as pessoas de sua afeição, dirige-se a elas e não entende por que não o ouvem. Esta ilusão se mantém até o completo desprendimento do Espírito, e somente então ele reconhece o seu estado e compreende que não faz mais parte do mundo dos vivos.”

Comentário: Há vários relatos de Espíritos que comparecem em seu funeral, que não entendem o motivo de estarem deitados dentro do caixão. Ficam completamente perdidos!

“Esse fenômeno é facilmente explicável. Surpreendido pela morte imprevista, o Espírito fica aturdido com a brusca mudança que nele se opera. Para ele, a morte é ainda sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como continua a pensar, como ainda vê e escuta, não se considera morto. E o que aumenta a sua ilusão é o fato de se ver num corpo semelhante ao que deixou na Terra, cuja natureza etérea ainda não teve tempo de verificar. Ele o julga sólido e compacto como o primeiro, e quando se chama a sua atenção para esse ponto, admira-se de não poder apalpá-lo. Assemelha-se este fenômeno ao dos sonâmbulos inexperientes, que não creem estar dormindo. Para eles, o sono é sinônimo de suspensão das faculdades; ora, como pensam livremente e podem ver, não acham que estejam dormindo. Alguns Espíritos apresentam esta particularidade, embora a morte não os tenha colhido inopinadamente; mas ela é sempre mais generalizada entre os que, apesar de doentes, não pensavam em morrer. Vê-se então o espetáculo singular de um Espírito que assiste os próprios funerais como os de um estranho, deles falando como de uma coisa que não lhe dissesse respeito, até o momento de compreender a verdade.”

Comentário: O Espírito confunde seu envoltório espiritual( perispírito) com o seu corpo carnal, de modo que não percebe que não tem mais corpo carnal!

A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem: é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar tranquilo. Para aquele cuja consciência não está pura é cheia de ansiedades e angústias.

Comentário: Mais uma vez, os esclarecimentos dos Espíritos nos dão as dicas de como tornar o momento da morte tão mais brando!

Surpreendentemente, no último parágrafo deste capítulo, Kardec diz de forma clara sobre os desencarnes coletivos ocorridos em acidentes ou catástrofes!

“Nos casos de morte coletiva observou-se que todos os que perecem ao mesmo tempo, nem sempre se reveem imediatamente. Na perturbação que se segue à morte, cada um vai para o seu lado ou somente se preocupa com aqueles que lhe interessam.”

Kardec, O Livro dos Espíritos, item 165

Comentário: Se um ser humano morrer ao mesmo tempo no mesmo acidente não quer dizer muito no momento do desencarne! Cada Espírito persegue os seus interesses segundo sua evolução.

Não pretendemos encerrar o assunto! Afinal, pelo que você leu até aqui, nada é conclusivo, pois cada um tem suas particularidades! Ao longo da codificação de Kardec, há muitas descrições desse momento e mais explicações que os Espíritos trouxeram.

Mas de uma coisa nunca vamos escapar: do momento da morte!




E depois da morte?

A pergunta sempre frequente é: O que será que acontece no futuro do nosso Espírito? O que nos acontece depois da morte? Será que vamos para o Céu Iluminado? Ou será que o Inferno é nosso destino? Quem decide para onde seguimos? Será que encontramos os seres que nos são caros?

O ser humano sempre perseguiu a ideia do que ocorrerá no futuro do seu Espírito. E talvez seja a pergunta mais frequente no meio espírita.

O estudo aprofundado do livro O Céu e O Inferno, ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, nos faz entender cada vez mais a Doutrina Espírita. Na primeira parte, seu capítulo VIII sob o título As Penas Futuras Segundo o Espiritismo praticamente encontramos a compilação de toda Doutrina tornando-o como se fosse seu coração, ou seja, a parte principal. Ali existe uma série de 25 itens onde cada um foi desenvolvido ao longo de todo a obra, menos, claro dA Genese, que foi publicada após. Os 25 itens elucidam o que acontece ao nosso Espírito após o desencarne. As explicações vieram através de inúmeros Espíritos desencarnados em milhares de comunicações, de vários lugares do mundo, por muitos mediuns distintos. Kardec, através da Revista Espírita, mostrou uma quantidade considerável das comunicações.

A particularidade desse livro é justamente trazer , diante desse material todo, as conclusões de todas as comunicações estudadas. Além disso, na segunda parte do livro, é apresentado muitas dessas mensagens. O conteúdo dessas, publicadas no livro O Céu e o Inferno, é assunto para outro momento.

Voltemos ao capítulo VIII da primeira parte do livro. Ele começa fazendo importantes considerações, que colocamos aqui na integra:

Estando a sorte das almas nas mãos de Deus, ninguém pode neste mundo, por sua própria
autoridade, decretar o código penal divino. Qualquer teoria não é mais que uma hipótese que
só tem o valor de uma opinião pessoal e, por isso mesmo, pode ser mais ou menos engenhosa,
racional, bizarra ou ridícula. Somente a sanção dos fatos pode conferir-lhe autoridade,
fazendo-a passar à condição de princípio.

Na ausência de fatos apropriados para definir sua concepção acerca da vida futura, os
homens deram curso à sua imaginação e criaram essa diversidade de sistemas de que
compartilharam, e compartilham ainda, as crenças. Se alguns homens de elite, em diversas
épocas, entreviram um lado da verdade, a massa ignorante permaneceu sob o império dos
preconceitos que geralmente lhe eram impostos. A doutrina das penas eternas está nesse
número. Essa doutrina teve sua época; hoje ela é repelida pela razão. O que colocar em seu
lugar? Um sistema substituído por outro sistema, ainda que mais racional, sempre terá apenas
maior probabilidade, mas não a certeza. É por isso que o homem, chegado a este período
intelectual que lhe permite refletir e comparar, não encontrando nada que satisfaça
completamente sua razão e responda às suas aspirações, vacila indeciso. Uns, apavorados
pela responsabilidade do futuro e querendo gozar o presente sem constrangimento, procuram enganar-se e proclamam o nada após a morte, crendo assim manter a consciência tranquila;
outros estão na perplexidade da dúvida; o maior número crê em algo, mas não sabe
exatamente no que crê.
Um dos resultados do desenvolvimento das ideias e dos conhecimentos adquiridos é o
método científico96. O homem quer crer, mas quer saber por que crê. Ele não se deixa mais
levar por palavras. Sua razão vigorosa quer algo mais substancial que teorias. Em uma
palavra, ele necessita dos fatos.
Deus, então, julgando que a humanidade saiu da infância, e que o homem está hoje maduro
para compreender verdades de uma ordem mais elevada, permite que a vida espiritual lhe seja
revelada por fatos que põem um termo às suas incertezas, fazendo cair os andaimes das
hipóteses97. É a realidade após a ilusão.
A Doutrina Espírita, no que se refere às penas futuras, não é mais fundada sobre uma teoria
preconcebida do que suas outras partes. Em tudo ela se apoia sobre observações, sendo isso o
que lhe dá autoridade. Ninguém então imaginou que as almas, após a morte, devessem se
encontrar nesta ou naquela situação. São os próprios seres que deixaram a Terra que vêm hoje
– com a permissão de Deus e porque a humanidade entra numa nova fase – nos iniciar nos
mistérios da vida futura, descrever sua posição feliz ou infeliz, suas impressões e sua transformação na morte do corpo. Os espíritos vêm hoje, em suma, completar nesse ponto o ensino do Cristo.
Não se trata aqui da relação de apenas um espírito que poderia ver as coisas somente de seu
ponto de vista, sob um único aspecto, ou ainda estar dominado pelos preconceitos terrestres,
nem de uma revelação feita a um único indivíduo que poderia se deixar enganar pelas
aparências, nem de uma visão extática que se presta às ilusões e é com frequência apenas o
reflexo de uma imaginação exaltada98, mas de inúmeros intermediários disseminados sobre
todos os pontos do globo, de tal sorte que a revelação não é privilégio de ninguém, que cada
um pode ao mesmo tempo ver e observar, e que ninguém é obrigado a crer pela fé de outrem.
As leis que daí decorrem são deduzidas apenas da concordância dessa imensidade de
observações; esse é o caráter essencial e especial da Doutrina Espírita99. Jamais um princípio
geral é retirado de um fato isolado ou da afirmação de um único espírito, ou do ensinamento dado a um único indivíduo, ou de uma opinião pessoal. Qual seria o homem que poderia crer-
se suficientemente justo para medir a justiça de Deus?

Os numerosos exemplos citados nesta obra para estabelecer a sorte futura da alma poderiam
ser multiplicados ao infinito, mas, como cada um pode observar outros análogos, seria
suficiente de certa forma dar os tipos das diversas situações. Dessas observações, podem-se
deduzir as condições de felicidade ou infelicidade na vida futura; elas provam que a
penalidade não falta a nenhuma prevaricação e que, conquanto não seja eterno, o castigo não
é menos terrível segundo as circunstâncias.

Allan Kardec, O Céu e o Inferno

Nota: Allan Kardec define os pressupostos da ciência espírita. Toda teoria, seja proposta por um homem ou um espírito, é uma opinião pessoal. As hipóteses vão do engenhoso ao ridículo. Por isso, o Espiritismo se fundamenta na observação dos fatos, em milhares de depoimentos, para extrair deles os princípios gerais, confirmando o ensinamento dos bons espíritos. É a universalidade do ensino dos espíritos. (Nota 94 de O Céu e o Inferno do editor Paulo Henrique de Figueiredo)

Observem como essa introdução explana o pensamento científico baseado totalmente nos fatos. Não há dogma, não há profetas, não há fantasia.

Depois dessa criteriosa introdução, Allan Kardec segue enumerando os princípios gerais que os muitos Espíritos deram. Eles aparecem de forma progressiva. Eles os definiu como a representação da lei da justiça divina.

Segundo estudamos, não há um sistema estático, um padrão geral onde o futuro seja um Céu Iluminado ou as Escuridão das trevas do Inferno. Mas se voce, leitor, fizer o estudo, vai conseguir chegar às suas próprias conclusões.

Nós o convidamos a leitura e reflexão! Vale muito a leitura.




Bicorporeidade

Será possível alguém estar em dois lugares ao mesmo tempo? Claro que sim! Esse fenômeno se chama BICORPORIEDADE. É o que trata este artigo da Revista Espírita de dezembro de 1858.

Fonte: Filme Bilocation (2013) https://www.nichi-eidomain.com/bilocation-2013/

Trata-se da história de um jovem que se deita, sem sair de casa, vai até Londres onde se reune a seus amigos, toma café, brinca e depois volta para seu lar, sem nada se lembrar.

Resumidamente, assim aconteceu:

Um correspondente do interior da França enviou uma carta dizendo que, depois que, “por ordem dos Espíritos”, magnetizou seu filho, ele se tornou médium muito raro.

Um caso, em especial, chamou-lhe a atenção: o filho, após ler em um livro de Barão Du Potet sobre a aventura de um doutor da América, cujo Espírito foi visitar um amigo a grande distância, disse ao seu guia que gostaria de fazer o mesmo. Seu guia disse-lhe, então: Amanhã é domingo. Não és obrigado a te levantares cedo para trabalhar. Dormirás às oito horas e irás passear em Londres até as oito e meia. Sexta-feira próxima receberás uma carta de teus amigos, censurando-te por teres ficado tão pouco tempo com eles.

Disse o pai: Efetivamente, no dia seguinte, pela manhã, à hora indicada, ele caiu num sono profundo. Despertei-o às oito e meia. Ele não se lembrava de nada. De minha parte nada lhe disse, esperando os acontecimentos.

E como prometido, uma carta chegou pelos correios: “o carteiro veio entregar uma carta de Londres, na qual os amigos de meu filho censuravam-no por ter passado com eles apenas alguns minutos, no domingo anterior, das oito às oito e meia, com uma porção de detalhes que seria longo aqui relatar, entre os quais o fato singular de ter tomado o café da manhã com eles”

Tendo sido contado o fato acima, um dos assistentes disse que a História narra diversos casos semelhantes. Citou Santo Afonso de Liguori, que foi canonizado antes do tempo exigido, por se haver mostrado simultaneamente em dois lugares diferentes, o que foi considerado como um milagre.

Fonte em: https://www.imagensbonitas.com.br/2017/07/santo-afonso-maria-de-ligorio.html

Na primeira, de aspecto religioso, Afonso saiu do convento de Ciorani para Pagani e ao mesmo tempo foi visto atendendo confissões na igreja redentorista de Ciorani.

Na segunda ocasião de cunho religioso o Santo pregava missões populares em Amalfi, Italia. Foi em 1756. Durante a missão, foi visto simultaneamente pregar na catedral de Amalfi e atender confissões na casa em que os missionários estavam alojados.

Antonio Benedetto Maria Tannoia (II, c. 44), seu biógrafo, comenta: “Um anjo, querendo dar prosseguimento a seu zelo em acolher os pecadores, quis substituí-lo no púlpito”.

Na terceira ocasião, esta de cunho social, o santo estava em Nápoles e simultaneamente em Pagani, onde todos os sábados costumava ajudar uma ex-prostituta que conseguira converter. Isto aconteceu em 1759.
A última ocasião reveste-se de cunho político-religioso. No dia 22 de setembro de 1774, Afonso encontrava-se em Arienzo, um lugarejo de sua diocese de Santa Ágata dei Goti, para onde se dirigia naqueles dias em que fazia muito frio. Ao mesmo tempo foi visto em Roma, ao lado do leito de morte do Papa Clemente XIV, assistindo-o. (Esse caso foi documentado pela Igreja Católica).

Observação: A Igreja diz que a “bi locação” é uma manifestação extraordinária do poder de Deus, consistindo na presença corporal de uma pessoa, ao mesmo tempo, em dois ou mais lugares. Fisicamente, a bi locação é impossível aos seres materiais, pela própria natureza das coisas.

Também existem alguns relatos de bicorporiedade de Santo Antônio de Pádua. O mais famoso dele foi na ocasião da acusação que seu pai sofreu de assassinato: Certa vez, pregando em Pádua, o santo sentiu forte intuição de que sua presença era necessária em Lisboa naquele exato momento. Sentou-se ao lado do púlpito e, como já havia feito uma vez, cobriu a cabeça com o capeio, o capuz dos franciscanos. Apareceu em seguida no Tribunal de Lisboa, onde fez a defesa contundente do pai. Para provar a inocência de seu genitor, rumou acompanhado das autoridades ao cemitério. Para assombro dos presentes, ressuscitou a vítima, que inocentou o acusado de qualquer responsabilidade por sua morte. Permitiu então, que o assassinado, retornasse ao seu descanso. Logo depois, muito além, recobrou a consciência e retomou sua pregação.

Fonte: https://joseleitos.org.br/por-que-santo-antonio-entrou-na-historia-da-congregacao-sociedade-joseleitos-de-cristo/

A primeira vez que isso aconteceu foi em Limoges, sul da França, no ano de 1226. Na Quinta-feira Santa, o frei pregava na Igreja de São Pedro. No mesmo instante, a alguns quilômetros dali, seus irmãos franciscanos já cantavam as matinas no convento. Por ter o cargo de Custódio cabia a ele a responsabilidade de ler uma lição do ofício para os seus irmãos.

No exato momento em que deveria estar presente no convento, o frei interrompeu seu sermão e se recostou no púlpito, cobrindo o rosto com o capuz. Para surpresa dos frades menores, a voz do frei português soou entre o coro dos franciscanos. Cantou a lição e cumpriu sua tarefa junto a seus irmãos, para em seguida desaparecer e despertar de seu aparente cochilo na Igreja de São Pedro.

Assim, para começar a esclarecer o fenomeno, Kardec fez a evocação do mencionado anteriormente Santo Afonso de Liguori. Foram feitas as seguintes perguntas:

1. ─ O fato pelo qual fostes canonizado é real? ─ Sim.

2. ─ Esse fenômeno é excepcional?─ Não. Ele pode apresentar-se em todos os indivíduos desmaterializados.

3. ─ Era motivo justo para vos canonizarem? ─ Sim, pois que por minha virtude eu me havia elevado para Deus. Sem isso eu não teria podido transportar-me simultaneamente para dois lugares diferentes.

4. ─ Todos os indivíduos com os quais ocorrem esses fenômenos merecem ser canonizados? ─ Não, pois nem todos são igualmente virtuosos.

Comentário: Liguori faleceu em 1787 – bastante recente, em termos de vida espírita. Na época de sua evocação, apresenta pensamentos ainda bastante imbuídos das ideias católicas. Acabamos de ver, e em OLM Kardec dá outros exemplos, que a bi corporeidade parece não depender tanto assim de uma virtuosidade tão elevada. É preciso ter certeza se era mesmo esse fenômeno, ou se foi apenas o caso de outra pessoa, vidente, ver o Espírito semidesligado do corpo adormecido.

5. ─ Poderíeis dar-nos uma explicação desse fenômeno? Sim. Quando o homem, por sua virtude, se acha completamente desmaterializado; quando elevou sua alma para Deus, pode aparecer simultaneamente em dois lugares, do seguinte modo: Sentindo vir o sono, o Espírito encarnado pode pedir a Deus para se transportar a um lugar qualquer. Seu Espírito ou sua alma, como queirais chamar, então abandona o seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito e deixa a matéria imunda num estado vizinho ao da morte. Digo vizinho ao da morte porque fica no corpo um laço que liga o perispírito e a alma à matéria, e esse laço não pode ser definido. O corpo então aparece no lugar desejado. Creio que é tudo o que desejais saber.

Comentário: mais uma vez, uma grande quantidade de conceitos que têm, no fundo, as ideias católicas como influência determinantes.:” Pedir a Deus”,” Matéria imunda”, ” Vizinho à morte”. Ao mesmo tempo, caracteriza a veracidade da comunicação.

Observação: A resposta a questão 5 caracteriza uma certa ambiguidade na comunicação em relação a resposta da questão 2, pois se a bi corporiedade pode se manifestar em todos os indivíduos materializados, nem só os virtuosos o conseguem.

6. ─ Isto não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito. – Achando-se desprendido da matéria, conforme o seu grau de elevação, o Espírito pode tornar a matéria tangível.

7. ─ Entretanto, certas aparições tangíveis de mãos e de outras partes do corpo devem-se evidentemente a Espíritos inferiores. – São Espíritos superiores que se servem dos inferiores a fim de provar o fato.

Observação: Se for exato que os Espíritos superiores se servem de inferiores a fim de provar o fato, explicaria o porquê de os Espíritos inferiores não poderem se materializar sob formas monstruosas, para assustar o povo. Explicaria o “Deus não permitiria”! Mais explicações clique aqui neste artigo

8. O sono do corpo é indispensável para que o Espírito apareça noutros lugares? – A alma pode dividir-se quando se sente transportada a um lugar diferente daquele onde se acha o seu corpo.

9. Que aconteceria a um homem mergulhado em sono profundo e cujo Espírito aparecesse alhures, se fosse despertado subitamente? – Isto não aconteceria, porque se alguém tivesse o intuito de despertá-lo, o Espírito preveria a intenção e voltaria ao corpo, tendo em vista que o Espírito lê o pensamento.

Divisão é um termo inexato. Melhor dizer que a alma, isto é, o períspirito, pode se estender para outros lugares, quando se tem essa capacidade.

O perispírito, estando estendido, não abandona jamais o corpo, senão por sua morte. É possível entender que, por isso, o Espírito, estando distante, perceba o que acontece ao redor do corpo.

Depois que essa comunicação nos foi dada, vários fatos do mesmo gênero, cuja fonte é autentica, nos foram contados, e entre eles há muito recentes, que ocorreram por assim dizer no nosso meio, e que se apresentaram com as circunstancias mais singulares. As explicações , às quais deram lugar, alargaram singularmente o campo das observações psicológicas.

Na RE de agosto de 1859, lemos o seguinte:

Comunicações – O Sr. Allan Kardec anuncia que viu o Sr. W… filho, de Boulogne-Sur-Mer, que foi questão na revista de dezembro de 1858, a propósito de um artigo sobre o fenômeno de bicorporiedade, e que lhe confirmou o fato de sua presença simultânea em Boulogne e em Londres.

O Espiritismo, a seu turno, vem dar a sua teoria. Ele se apoia na psicologia experimental; ele estuda a alma, não só durante a vida, mas após a morte; ele a observa em estado de isolamento; ele a vê agir em liberdade, ao passo que a filosofia ordinária só a vê em união com o corpo, submetida aos entraves da matéria, razão pela qual muitas vezes confunde causa e efeito.

AK, em RE maio de 1864




Menino de 12 anos assassina outras 5 crianças

Este é um dos causos da Revista Espírita de 1858, onde Kardec estuda o caso de um menino de 12 anos que assassina outras 5 crianças. Resumidamente: um menino de 12 anos colocou cinco crianças dentro de um baú, trancou o baú e os deixou lá até a morte. Tendo sido visto por outra menina, o menino de 12 anos foi delatado e então confessou tudo, com o maior sangue-frio e sem manifestar arrependimento.

Cabe aqui, também, uma reflexão a respeito de um crime como esses. Será que, como muitos dizem, essas cinco crianças foram mortas para cumprirem o “resgate de débitos do passado”? Se assim fosse, qual seria o grau de responsabilidade do outro? Tratamos desse assunto nesse outro artigo, clique aqui

Outra pergunta: seria o Espírito do menino assassino necessariamente mau? Em O Livro dos Espiritos, Kardec esclarece:

“Com efeito, ponderai que nos vossos lares possivelmente nascem crianças cujos Espíritos vêm de mundos onde contraíram hábitos diferentes dos vossos, e dizei-me como poderiam estar no vosso meio esses seres, trazendo paixões diversas das que nutris, inclinações, gostos, inteiramente opostos aos vossos; como poderiam enfileirar-se entre vós, senão como Deus o determinou, isto é, passando pelo tamis da infância?”

OLE, questão 385

Seguindo no artigo, Kardec interroga o Espírito da irmã de um médium, “que desencarnou há doze anos e sempre mostrou superioridade como Espírito”. Vamos apresentar os pontos principais dessas perguntas e suas respostas:

2. ─ Que motivos teriam impelido um menino daquela idade a cometer uma ação tão atroz e com tamanho sangue-frio? ─ A maldade não tem idade. Ela é natural numa criança e raciocinada no homem adulto.

Observação: “a criança não é boa ou má antes de ter o discernimento de um ou do outro. É o que se chama estado de inocência, que de algum modo é o sono da consciência.” Paul Janet, Pequenos Elementos da Moral. Já no adulto, ou homem que faz as distinções de sua consciência moral, que emprega a razão, ele escolhe fazer ou não uma ação, do que resulta uma boa ou má ação. Ainda assim, se age no “mal”, é apenas porque não tem a consciência do bem, ainda não progrediu o suficiente para entender.

3. ─ Sua existência numa criança, sem raciocínio, não denotará a encarnação de um Espírito muito inferior? ─ Ela vem diretamente da perversidade do coração: é seu próprio Espírito que o domina e o impele à perversidade.

5. ─ Em sua anterior existência, pertenceria ele à Terra ou a um mundo ainda inferior? ─ Não sei bem, mas deveria pertencer a um mundo bem mais atrasado que a Terra. Ele ousou (?) vir para a Terra. Será duplamente punido.

Comentário: Quando o Espírito evocado explica sobre a dupla punição, entendemos que ele quis dizer que esse Espírito adquiriu alguma consciência e escolheu vir para a Terra. Aqui, nascendo, preferiu vivenciar suas paixões e imperfeições, ao invés de tentar superá-las. Muito provavelmente ainda não entendeu as leis divinas, como a lei do progresso.

6. ─ Nessa idade teria o menino suficiente consciência do crime que cometeu? Caber-lhe-á responsabilidade como Espírito? ─ Ele tinha a idade da consciência. Isto basta.

7. ─ De vez que esse Espírito ousou vir à Terra, para ele muito elevada, pode ser constrangido a regressar a um mundo em relação com a sua natureza? ─ Sua punição é justamente retrogradar; é o próprio inferno. Eis a punição de Lúcifer, do homem espiritual que se rebaixou ao nível da matéria; é o véu que doravante lhe oculta os dons de Deus e sua divina proteção. Esforçai-vos, pois, na reconquista desses bens perdidos e tereis reconquistado o paraíso que o Cristo veio abrir para vós. É a presunção, o orgulho do homem que queria conquistar aquilo que só Deus podia ter (?).

Neste ponto, com a resposta 7, chegamos em vários entendimentos:

  • Ousar significa escolher. O principio da autonomia está sempre presente em Kardec.
  • O Espírito não retrograda. Aqui, é uma retrogradação material, de acordo o estado de desenvolvimento do Espírito. É como o estudante que é obrigado a voltar a repetir o ano, pois, de fato, não aprendeu;
  • Entendemos que enquanto o Espírito vivencia os hábitos negativos, os vícios, ele está afastado do entendimento do bem;
  • Pode parecer o quadro da queda pelo pecado, mas podemos entender do ponto de vista do afundamento nos hábitos que levam às imperfeições.

É o quadro do pecado original explicado pelo Espiritismo: o Espírito não é criado pleno, puro e sábio, mas ignorante e simples e, quando vive na matéria, vai adquirindo experiências. Quando ele erra, não comete um pecado, mas apenas erra. O erro pode ser totalmente inconsciente, de onde nasce o aprendizado, ou pode ser, de certa forma, consciente, isto é, por escolha que é quando o Espírito desenvolveu um hábito que originou uma imperfeição. Daí temos o seguinte: se o Espírito não entende que a imperfeição lhe causa atraso e sofrimento, ele apenas continua seguindo nas encarnações, até que adquira conhecimento para compreender o mal que fez, e arrepende-se. Então, passa a expiar o fruto de suas imperfeições, pela escolha livre de suas provas, através das encarnações, com o fim de lidar com esse hábito, com vistas a se livrar dele.

Todos nós passamos por isso, e todo nós alcançaremos a perfeição relativa.

As perguntas seguem ao Espirito evocado:

8. ─ Em que é a Terra superior ao mundo ao qual pertencia o Espírito de quem acabamos de falar? ─ Ali há uma fraca ideia de justiça. É um começo de progresso.

9. ─ Depreende-se disto que em mundos inferiores à Terra não há nenhuma ideia de justiça? ─ Não. Os homens ali vivem apenas para si e não têm por móvel senão a satisfação de suas paixões e de seus instintos.

10. ─ Qual será a posição desse Espírito numa nova existência? ─ Se o arrependimento vier a apagar, senão totalmente, pelo menos em parte, a enormidade de suas faltas, então ficará na Terra; se, ao contrário, persistir no que chamais de impenitência final, irá para um lugar onde o homem se encontra no nível dos animais.

Observação: Kardec desenvolveu esse entendimento bem depois, na obra O Céu e o Inferno: “O arrependimento é inútil quando é apenas consequência do sofrimento. O arrependimento proveitoso é aquele que tem por base o desgosto de haver ofendido a Deus, e o ardente desejo de reparação. Não cheguei a esse ponto ainda, infelizmente. Recomendai-me às preces de todos aqueles que se dedicam aos sofredores, porque delas tenho necessidade”. O Céu e o Inferno, Allan Kardec

“O arrependimento sincero é um ato da livre vontade do Espírito, predispondo-o a libertar-se da condição de infelicidade por seu esforço. Assim, o arrependimento da alma não é o medo de continuar sofrendo, que o constrange, submetendo-o a uma vontade externa (heteronomia). Em verdade, ele representa a conscientização das leis divinas, que o faz compreender a capacidade própria de conquistar a felicidade pelo aprimoramento (autonomia). Essa condição o faz reconhecer a força de sua vontade e desperta sua autoestima, reconduzindo-o ao caminho do bem”
Ou seja: se ele se arrepender, poderá reencarnar aqui, que é um planeta de provas e expiações. Se não, terá que reencarnar num planeta que lhe dê condições de aprendizado pelo próprio exercício reencarnatório.

nota de Paulo Henrique de Figueiredo em O Céu e o Inferno

11. ─ Então pode ele encontrar na Terra os meios de expiar sua falta, sem ser obrigado a regressar a um mundo inferior? ─ Aos olhos de Deus, o arrependimento é sagrado, porque é o homem que a si mesmo se julga, o que é raro no vosso planeta.




Reencarnação

Neste artigo do mês de Novembro de 1858, o segundo artigo fala da Pluralidade das Existências ou Reencarnação. Kardec vai fazer uma abordagem bem informativa sobre a reencarnação. É um artigo de muito interesse, pois demonstra o cientista, desmistificando o codificador:

“Não é novo, dizem alguns, o dogma da reencarnação; ressuscitaram-no da doutrina de Pitágoras. Nunca dissemos ser de invenção moderna a Doutrina Espírita. Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos e sempre nos esforçamos por demonstrar que dele se descobrem sinais na antiguidade mais remota

RE, novembro de 1858

Observação: Ele diz que não era novo pois estava na Bíblia e foi removido pelo Segundo Concílio de Constantinopla.

O Espiritismo está em tudo e toca em todas as áreas da ciência. Ele, em si, em sua profundidade, é a ciência sobre tudo. Esse esforço de Kardec era muito importante, e deve ser o mesmo de nossa parte, pois desmistifica o Espiritismo.

Os antigos, inclusive Pitágoras (séc. VI ac), acreditavam na metempsicose, ao passo que o Espiritismo demonstra a impossibilidade dessa teoria.

Metempsicose: É uma crença fundamentalmente oriental, principalmente hinduísta, ligada ao dogma da queda pelo pecado, que não encontra base na razão desenvolvida pelo Espiritismo.

É interessante notar, porém, que um Espírito, no início de sua evolução, pode e vai encarnar em animais: (AG, cap. XI, “HIPÓTESE SOBRE A ORIGEM DO CORPO HUMANO” )

HIPÓTESE SOBRE A ORIGEM DO CORPO HUMANO

15. ​Da semelhança de formas exteriores que existe entre o corpo do homem e o de um macaco, alguns fisiologistas concluíram que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. Nisso não há nada de impossível e, se for assim, não há razão para que o homem sinta sua dignidade afetada. Os corpos dos símios podem, muito bem, ter servido de vestimenta aos primitivos Espíritos humanos, necessariamente pouco avançados, que vieram encarnar na Terra, porque eram as mais apropriadas às suas necessidades e as mais adequadas ao exercício de suas faculdades que os corpos de qualquer outro animal. Em vez de uma veste especial que tenha sido feita para o Espírito, ele teria encontrado uma pronta. Vestiu-se então com a pele do macaco, sem deixar de ser um Espírito humano, como o homem se reveste por vezes da pele de certos animais sem deixar de ser homem. Fique bem entendido que aqui só se trata de uma hipótese que de nenhuma maneira se enuncia como princípio, mas que é apenas apresentada para mostrar que a origem do corpo não prejudica o Espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o do macaco não implica na paridade entre seu Espírito e o dele.

16. ​Admitindo essa hipótese, pode-se dizer que, sob a influência e pelo efeito da atividade intelectual de seu novo habitante, o invólucro se modificou, embelezando-se nos detalhes, conservando no todo a forma geral do conjunto. Os corpos melhorados, ao procriarem, reproduziram-se nas mesmas condições, como acontece com as árvores enxertadas, e deram nascimento a uma nova espécie que, aos poucos, se distanciou do tipo primitivo, à medida que o Espírito progrediu. O Espírito simiesco, que não foi aniquilado, continuou procriando para seu uso corpos de macacos, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie e o Espírito humano procriou corpos de homens variantes do primeiro molde em que se estabeleceu. O tronco se bifurcou; produziu um ramo, e este se tornou um tronco. Como não existem transições bruscas na natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram na Terra se diferenciavam pouco do macaco, na forma exterior e, sem dúvida, pouco também na inteligência. Há ainda, em nossos dias, selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés, e a conformação da cabeça, tem tanta semelhança com os macacos que lhe faltam somente serem peludos para que a semelhança seja completa.

Allan Kardec. A GÊNESE – Os milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Isso é bem diferente, porém, de supor que um Espírito humano, em razão de um castigo, possa ser condenado a encarnar num macaco, o que, para ele, seria uma retrogradação.

Alguns contraditores dizem: “vocês já partilhavam dessa ideia, por isso os Espíritos apenas comunicaram conceitos que já aceitavam”. Ledo engano, como veremos a seguir:

“Quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, estava tão distante do nosso pensamento que, sobre os antecedentes da alma, havíamos construído um sistema completamente diferente, partilhado, aliás, por muitas pessoas. Sob esse aspecto, portanto, a Doutrina dos Espíritos nos surpreendeu profundamente; diremos mais: contrariou-nos, porquanto derrubou as nossas próprias ideias. Como se pode ver, estava longe de refleti-las. Mas isso não é tudo: nós não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos nossa opinião, levantamos objeções e só nos rendemos à evidência quando percebemos a insuficiência de nosso sistema para resolver todas as dificuldades levantadas por essa questão.”

Aos olhos de algumas pessoas o vocábulo evidência parecerá, sem dúvida, singular em semelhante matéria; não será, entretanto, impróprio aos que estão habituados a perscrutar os fenômenos espíritas. Para o observador atento há fatos que, embora não sejam de natureza absolutamente material, nem por isso deixam de constituir verdadeira evidência, pelo menos do ponto de vista moral.”

Hoje, temos não apenas a evidência moral, mas as evidências factuais da reencarnação, que, contudo, ainda não pôde ser (e nunca será) comprovada em laboratório.

“Temos, ainda, uma outra refutação a opor: é que não somente a nós ela foi ensinada; foi, também, ensinada em muitos outros lugares, na França e no estrangeiro: na Alemanha, na Holanda, na Rússia, etc., e isso antes mesmo da publicação de O Livro dos Espíritos.

Acrescentamos, ainda, que, desde que nos entregamos ao estudo do Espiritismo, obtivemos comunicações através de mais de cinquenta médiuns escreventes, falantes, videntes, etc., mais ou menos esclarecidos, de inteligência normal mais ou menos limitada, alguns até mesmo completamente analfabetos e, em consequência, absolutamente estranhos às matérias filosóficas; não obstante, em nenhum caso os Espíritos se desmentiram sobre essa questão.”

Observação: A maioria das comunicações, pelo que sabemos, era de médiuns psicógrafos mecânicos, muitas vezes colocados em sono sonambúlico (chamado de crise, na época). Mas Kardec nunca deixou de buscar o valor nas outras formas de comunicação e nas manifestações em geral, sempre buscando destacar aquelas que pudessem despertar interesse e demonstrar a realidade da intervenção espiritual. Para seus olhos de pesquisador, até mesmo uma pintura mediúnica, como veremos logo mais, poderia representar fenômeno de interesse.

Não apenas essa doutrina é suportada pelas evidências, mas principalmente pela razão. Sem ela não existe autonomia, pois não seria dado, ao Espírito, a oportunidade de avançar, através do aprendizado nos acertos e nos erros. É o que acontece com a Doutrina ensinada pela Igreja Católica e por outras religiões, a ponto de nos espantarmos, hoje, que ainda existam as pessoas que pensem assim.

A Doutrina da Reencarnação, conforme explicada pelo Espiritismo, é a única doutrina que encaixa todas as peças do quebra-cabeças, explicando as diferenças entre os seres e a bondade divina.

“Temos raciocinado, abstraindo-nos, como dissemos, de qualquer ensinamento espírita que, para certas criaturas, carece de autoridade. Não é somente porque veio dos Espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque essa parte da doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela resolve questões até então insolúveis.”

Vejamos:

“Se não há reencarnação, só há, evidentemente, uma existência corporal. Se a nossa atual existência corpórea é a única, a alma de cada homem foi criada por ocasião do seu nascimento, a menos que se admita a anterioridade da alma, caso em que caberia perguntar o que era ela antes do nascimento e se o estado em que se achava não constituía uma existência sob forma qualquer. Não há meio termo: ou a alma existia, ou não existia antes do corpo. Se existia, qual a sua situação? Tinha, ou não, consciência de si mesma? Se não tinha, é quase como se não existisse. Caso tivesse individualidade, era progressiva, ou estacionária? Num e noutro caso, a que grau chegara ao tomar o corpo? Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou, o que vem a ser o mesmo, que, antes de encarnar, só dispõe de faculdades negativas, perguntamos:”

Kardec, RE novembro 1858

1. Por que mostra a alma aptidões tão diversas e independentes das idéias que a educação lhe fez adquirir? 

2. Donde vem a aptidão extranormal que muitas crianças revelam em tenra idade, para esta ou aquela arte, para esta ou aquela ciência, enquanto outras se conservam inferiores ou medíocres durante a vida toda? 

3. Donde, em uns, as ideias inatas ou intuitivas, que noutros não existem?

4. Donde, em certas crianças, o instinto precoce que revelam para os vícios ou para as virtudes, os sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, contrastando com o meio em que nasceram? 

5. Por que, abstraindo-se da educação, uns homens são mais adiantados do que outros? 

6. Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes de um menino hotentote recém-nascido e o educardes nos nossos melhores liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um Newton?

Comentário: Essa questão do selvagem africano vai em encontro com as diversas críticas, bastante severas, a um “racismo”, em Kardec. Como, mais abaixo, Kardec repete que “Relativamente à sexta questão, dir-se-á, sem dúvida, que o hotentote é de uma raça inferior”, acreditamos que devemos tirar um tempinho para fazer a alusão ao contexto científico de Kardec, que era, por definição, racista, isto é, classificava o ser humano por raças. Veja nosso artigo clique aqui

“Qual a filosofia ou a teosofia capaz de resolver estes problemas? É fora de dúvida que, ou as almas são iguais ao nascerem, ou são desiguais. Se iguais, por que, entre elas, tão grande diversidade de aptidão? Dir-se-á que isso depende do organismo. Mas, então, achamo-nos em presença da mais monstruosa e imoral das doutrinas. O homem seria simples máquina, joguete da matéria; deixaria de ter a responsabilidade de seus atos, pois que poderia atribuir tudo às suas imperfeições físicas. Se as almas são desiguais, é que Deus as criou assim. Nesse caso, porém, por que a inata superioridade concedida a algumas? Corresponderá essa parcialidade à justiça de Deus e ao amor que ele consagra igualmente a todas as suas criaturas?”

Kardec, RE 1858

Até aqui nós analisamos a alma pelo seu passado e seu presente. E qual seria o seu futuro segundo Kardec?

1. ─ Se é unicamente a nossa existência presente que deve decidir o nosso porvir, qual será, na vida futura, a posição respectiva do selvagem e do homem civilizado? Estarão no mesmo nível ou distanciados na soma de felicidades eternas?

2. ─ O homem que durante toda sua vida trabalhou para se melhorar estará no mesmo nível daquele que permaneceu inferior, não por falta sua, mas porque não teve nem tempo nem possibilidades de melhorar-se?

3. ─ O homem que pratica o mal porque não teve possibilidade de esclarecer-se está sujeito a circunstâncias que não dependeram dele?

Observação item 2: Percebemos aqui o conhecimento contextual e filosófico dos Espiritualistas Racionais estava presente nesses questionamentos.

4. ─ Trabalha-se para esclarecer os homens, moralizá-los, civilizá-los; mas para cada um que se esclarece, há milhões que morrem diariamente, antes que a luz chegue até eles. Qual é o destino desses? São eles tratados como réprobos? Se não o são, o que fizeram para serem mantidos na mesma classe dos outros?

5. ─ Qual a sorte das crianças que morrem em tenra idade, antes de poderem fazer o bem ou o mal? Se se acham entre os eleitos, por que este favor, quando nada fizeram por merecê-lo? Por que privilégio foram liberadas das tribulações da vida?

Kardec conclui o artigo:

“Existe uma doutrina que pode resolver estas questões? Admiti as existências sucessivas e tudo estará explicado conforme à justiça de Deus. Aquilo que não se pode fazer numa existência, far-se-á em outra. Assim, ninguém escapará à lei do progresso e todos serão recompensados segundo o mérito real e ninguém será excluído da felicidade suprema a que pode aspirar, sejam quais forem os obstáculos encontrados em sua rota.”

“Essas questões facilmente se multiplicariam ao infinito, porque inúmeros são os problemas psicológicos e morais que só na pluralidade das existências encontram solução. Limitamo-nos a formular as de ordem mais geral.”

Idem

Comentários: Há urgência em se realizar um progresso qualquer? Muitos palestrantes tem utilizado um tom alarmista, dizendo que temos que nos modificar “pra ontem”, fazer a reforma íntima, porque “o planeta” vai entrar em uma nova fase, a de regeneração. Se sofremos por uma imperfeição, a urgência está em nosso próprio tempo; se estamos apenas no processo do aprendizado, esse somente se dará no tempo de cada um, segundo sua vontade.

Nossas sugestões de documentário e livro sobre Reencarnação – Pluralidade das Existências:

Documentario A&E
Reencarnação: Um Espirito em Meu Filho A&E
Livro: Crianças que se Lembram de Vidas Passadas – Ian Stevenson



O Espírito de um soldado morto em guerra: o Tamborista de Beresina

Talvez esta seja uma das comunicações relatadas mais interessantes do ano de 1858, por se tratar do Espírito de um soldado morto em guerra, um Espírito com aparência de tranquilidade e até de bondade.

Aconteceu assim: “Tendo-se reunido em nossa casa algumas pessoas com propósito de constatar certas manifestações, em diversas sessões produziram-se os fatos que se seguem: manifestou um Espírito por golpes, não batidas pelo pé de mesa, mas na própria contextura da mesa.” Depois Kardec segue dizendo que além das respostas de várias perguntas pelo sim e pelo não, os golpes tocavam marchas, imitavam fuzilaria, algo completamente inusitado.

Enquanto ouviam, observaram que o Espirito tinha certa predileção pelo rufo do tambor.

Foto Internet: https://i.pinimg.com/236x/eb/93/d5/eb93d55725a659da691d2cd1a41586a2–napoleon.jpg?nii=t

Estavam presentes, além de um médium especial de influência física, um psicógrafo. Por causa disso, conseguiram a conversa bem explícita, como nome, local de nascimento, data da morte, etc. A comunicação espontanea começou assim:

1 – Escreve qualquer coisa, o que quiseres. – Ran plan plan, ran, plan, plan.

2 – Por que escreveste isso? – Eu era tocador de tambor.

Ele disse que morreu em uma batalha, e continua assumindo essa característica de batedor de tambor, por isso que fazia esses efeitos de marchinha.

16- Estás reencarnado? – Não, pois que venho conversar convosco.

17- Por que te manifestas por pancadas, sem que tenhas sido chamado? – É preciso fazer barulho para aqueles cujo coração nada crê. Se não tendes o bastante, dar-vos-ei ainda mais.

Observação: Ele demonstra uma certa superioridade moral.

18 – É de tua própria vontade que vieste bater, ou um outro Espírito obrigou-te a fazê-lo? – Venho por minha vontade; há um outro, a quem chamais Verdade, que pode forçar-me a isto também. Mas há muito tempo que eu queria vir.

19 – Com que objetivo querias vir? – Para conversar convosco; era o que queria; havia, porém, alguma coisa que mo impedia. Fui forçado por um Espírito familiar da casa, que me exortou a tornar-me útil às pessoas que me fizessem perguntas.

19.1 – Esse Espírito, então, tem muito poder, visto comandar outros Espíritos? – Mais do que imaginais, e não o emprega senão para o bem.

Observação: Os Espíritos sempre são assistidos.

22- Qual a existência que preferes: a atual ou a terrestre? – Prefiro a existência do Espírito à do corpo. Porque estamos bem melhor do que na Terra. A Terra é um purgatório; durante todo o tempo em que nela vivi, sempre desejei a morte.

25 – Ficarias satisfeito se tivesses uma nova existência corporal? – Sim, porque sei que devo elevar-me.

26 – Quem te disse isso? – Eu o sei bem.

27 – Reencarnarás logo? – Não sei.

Da pergunta 28 em diante, pela primeira vez na RE, os presentes perguntam para o Espírito manifestante sobre outros Espíritos na Erraticidade:

28. ─ Vês outros Espíritos ao teu redor? ─ Sim, muitos.

29. ─ Como sabes que são Espíritos? ─ Entre nós, vemo-nos tais quais somos.

30. ─ Com que aparência os vês? ─ Como se podem ver Espíritos, mas não pelos olhos.

31. ─ E tu, sob que forma aqui estás? ─ Sob a que tinha quando vivo, isto é, como tambor.

32. ─ E vês os outros Espíritos com as formas que tinham em vida? ─ Não. Nós não tomamos uma aparência senão quando somos evocados. Fora disso vemo-nos sem forma.

RE julho 1858

Veja que interessante: Ele vê os outros Espíritos ao seu redor sem forma alguma! Ele não é um Espirito avançado, mas, fora do momento em que são evocados, na erraticidade, os Espíritos NÃO têm uma forma.

Os Espíritos não tem olhos, não tem ouvidos, nem tato… porque eles não tem necessidade no plano espiritual desse tipo de manifestação. “Nossa forma é apenas aparente”, diz o tambor.

A comunicação segue com perguntas sobre a manifestação das batidas na mesa, no que ele diz que está ao lado dela, que não se mete dentro dela.

37-Como produzes os ruídos que fazes ouvir? – Creio que é por intermédio de uma espécie de concentração de nossa força.

38 – Poderias explicar-nos a maneira pela qual são produzidos os diferentes ruídos que imitas, as arranhaduras, por exemplo? – Eu não saberia precisar muito a natureza dos
ruídos; é difícil de explicar. Sei que arranho, mas não posso explicar como produzo esse ruído que chamais de arranhadura.

Depois foi perguntado que dependia para levantar uma mesa, no que ele respondeu: – Depende de mim, pois me sirvo do médium como de um instrumento. E além disso tem que ser com médiuns específicos, que eu me atraio.

48 – De que te ocupas em tua existência de Espírito, considerando que não deves passar o tempo todo somente a bater? – Muitas vezes tenho missões a cumprir; devemos
obedecer a ordens superiores e, sobretudo, fazer o bem aos seres
humanos que estão sob nossa influência
.

49 – Por certo tua vida terrestre não foi isenta de faltas; reconhece-as, agora? – Sim; e por isso as expio, permanecendo estacionário entre os Espíritos inferiores; só poderei purificar-me bastante quando tomar um outro corpo.

OBSERVAÇÃO: Aqui fica evidente o reconhecimento de suas faltas e o arrependimento.

55 – Estás sempre na Terra, em tua existência espiritual? – Mais freqüentemente no espaço.

56 – Vais algumas vezes a outros mundos, isto é, a outros globos? – Não aos mais perfeitos, mas aos mundos inferiores.

57 – Por vezes te divertes em ver e ouvir o que fazem os homens? – Não; entretanto, algumas vezes tenho piedade deles.

65 – Tiveste consciência imediata de tua nova existência? – Não, mas já não sentia mais frio.

RE julho 1858

OBSERVAÇÃO: Ele não tinha mais consciência de seu corpo.

COMENTÁRIO DE KARDEC SOBRE A COMUNICAÇÃO: – Pouco avançado na hierarquia espírita, como se vê, o próprio Espírito do Tambor reconhecia a sua inferioridade. Seus conhecimentos são limitados; mas tem bom senso, sentimentos louváveis e benevolência. Como Espírito, sua missão carecia de significado, visto que desempenhava o papel de Espírito batedor para chamar os incrédulos à fé; contudo, mesmo no teatro, a humilde indumentária de comparsa não pode envolver um coração honesto? Suas respostas têm a simplicidade da ignorância; entretanto, pelo fato de não possuírem a elevação da linguagem filosófica dos Espíritos superiores, nem por isso deixam de ser menos instrutivas, sobretudo para o estudo dos costumes espíritas, se assim nos podemos exprimir. É somente estudando todas as classes desse mundo que nos aguarda que podemos chegar a conhecê-lo e nele marcar, de algum modo, por antecipação, o lugar que a cada um de nós será dado ocupar. Vendo a situação que, por seus vícios e virtudes, criaram os homens, nossos iguais aqui na Terra, sentimo-nos encorajados para nos elevar o mais rapidamente possível desde esta vida: é o exemplo ao lado da teoria. Para conhecermos bem alguma coisa, e dela fazermos uma ideia isenta de ilusões, é preciso dissecá-la em todos os seus aspectos, assim como o botânico não pode conhecer o reino vegetal a não ser observando desde o mais humilde criptógamo, que o musgo oculta, até o carvalho altaneiro, que se eleva nos ares.