Seria Allan Kardec racista, machista, homofóbico, etc?

Triste época, aquela da escravidão e da segregação, já em muito superada. Hoje, não falamos mais em “raças”, pois sabemos que só existe uma raça: a humana. Hoje, em grande maioria, sobretudo na nossa sociedade brasileira, os negros se integram e participam ativamente, enfrentando, ainda, algumas dificuldades, mas que decrescem dia após dia, com o avanço humano. Dessa época, surgem algumas falas de Allan Kardec, racistas aos olhos de hoje. Dizem, assim que ele seria racista, sem uma compreensão da época.

O erro, sempre, está em querer confundir Allan Kardec com o Espiritismo. O Espiritismo existe por si só, como fato da natureza. Kardec dedicou-se a estudá-lo. Nunca impôs suas ideias ou suas verdades para a Doutrina. Aliás, como veremos, foi por esse estudo que ele pôde verificar o negro, a mulher e até o homossexual, como veremos, por outro ângulo, como nunca antes nenhuma filosofia havia feito.

Resta lembrar que o conceito de raças era um conceito científico da época, que só veio ser superado no final do século XX.

A frase infamante

A frase em questão, utilizada para afirmarem que Allan Kardec seria racista, pertence a um artigo muito mais completo e profundo, publicado na Revista Espírita de abril de 1862 e que justamente vem de encontro com a ideia racista, demolindo-a:

“Assim, como organização física, os negros serão sempre os mesmos; como Espíritos, trata-se, sem dúvida, de uma raça inferior, isto é, primitiva; são verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode ensinar […]”

Allan Kardec, R.E, abril de 1862

É, contudo, a velha mania do ser humano, cultivada até hoje: isola-se uma frase, retirando-a de todo um contexto, e apresenta-se como prova cabal do ponto contrário que se quer provar, quase sempre com vistas a denegrir a imagem de outrem.

Precisamos lembrar que Allan Kardec, ele se encontrava na França etnocêntrica de meados de 1800, quando toda a sociedade SEQUER atribuía uma alma aos negros e quando a própria ciência adotava um conceito racista:

No século XIX, iniciou-se o processo do neocolonialismo ou imperialismo europeu. A Inglaterra, a França, a Alemanha e outras potências capitalistas europeias investiram em novas políticas de expansão territorial e, praticamente, dividiram entre si os territórios da África, da Ásia e da Oceania.

Para justificar a exploração das riquezas daqueles lugares e a política de segregação racialos europeus tiveram que buscar uma justificativa científica, pois, no século XIX, a ciência já estava amplamente divulgada e a religião já não era mais suficiente para justificar qualquer tipo de ação autoritária.

Nesse sentido, a antropologia surgiu como uma tentativa de criar teorias científicas que justificassem a exploração dos povos de fora da Europa pelos povos europeus. As primeiras teorias dessa área, desenvolvidas pelo biólogo e geógrafo inglês Herbert Spencer, afirmavam que havia uma espécie de hierarquia das raças.

Nessa perspectiva, os brancos europeus eram superiores, seguidos pelos asiáticos, pelos índios e pelos africanos, sendo os últimos os menos desenvolvidos. Essa corrente ficou conhecida como darwinismo social ou evolucionismo social, pois se apropriou da teoria da evolução biológica de Charles Darwin e aplicou-a no campo sociológico[…]

Francisco Porfírio – Brasil Escola – https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/etnocentrismo.htm

Diz Paulo Henrique de Figueiredo, em A Gênese (ed. FEAL, 2022):

Quando Allan Kardec escreveu esta obra, a hierarquização evolutiva das então consideradas raças humanas não era vista como racismo, mas adotada por cientistas eminentes como Cuvier, Charles Darwin, Buchner, ou Carl Vogt, que afirmou: “Logo que os jovens negros atingem o período da puberdade, assiste-se a um fenômeno idêntico ao que ocorre nos macacos. Doravante, as faculdades intelectuais permanecem estacionárias e o indivíduo, tal como toda a raça, torna-se incapaz de qualquer progresso” (Leçons sur l’homme. p. 253).

Esse entendimento era hegemônico no meio científico, contextualizando assim as descrições ultrapassadas aqui desenvolvidas, pertencentes à Ciência da época, e não ao Espiritismo.

Allan Kardec, foi, por isso, levado a cometer esse erro de julgamento, racista para os olhos de hoje, baseado em alguns preconceitos e conceitos científicos da época. Por outro lado, demonstrou, pelos estudos do Espiritismo, que todos os seres humanos possuem almas que, inclusive, podem reencarnar onde quer que seja e sob qualquer cor, “raça” ou credo.

Vejamos: Kardec julgava os negros a partir do ponto de vista dos conceitos da época, que os admitia apenas como selvagens, oriundos das selvas africanas, todos muito aquém de qualquer civilização e cultura. É nesse erro de fundamento que Kardec se baseia para dizer: “como Espíritos, trata-se, sem dúvida, de uma raça inferior, isto é, primitiva”. Era um conceito da ciência da época, pautada pelo racismo, até mesmo por conta de interesses!

Contudo, se passarmos além desse pensamento de Allan Kardec, racista por definição, estudando a Doutrina Espírita a fundo, veremos que ela contraria, repito, todo e qualquer preconceito racial, sexual ou de castas.

Recuperemos, aliás, trechos do artigo em questão, muito importantes:

Diz-se a respeito dos negros escravos: “São seres tão brutos, tão pouco inteligentes, que seria vão esforço querer instruí-los. São uma raça inferior, incorrigível, profundamente incapaz.” A teoria que acabamos de apresentar permite encará-los sob outro prisma. Na questão do aperfeiçoamento das raças é sempre necessário levar em consideração dois elementos constitutivos do homem: o elemento espiritual e o corporal. É preciso conhecer ambos, e só o Espiritismo nos pode esclarecer quanto à natureza do elemento espiritual, o mais importante, por ser o que pensa e o que sobrevive, ao passo que o corporal se destrói.

Allan Kardec, R.E. abril de 1862

Aqui fica muito evidente, principalmente para quem leu todo o artigo, que Kardec justamente traz a questão em voga, naquele momento, para a análise sob outro prisma – o do Espiritismo – que poderia trazer uma outra forma de interpretar o assunto. Vamos seguir, apresentando o parágrafo completo de onde foi extraído a frase citada:

Assim, como organização física, os negros serão sempre os mesmos. Como Espíritos, são inquestionavelmente uma raça inferior, isto é, primitiva. São verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode ensinar. Mas, por meio de cuidados inteligentes é sempre possível modificar certos hábitos, certas tendências, o que já representa um progresso que levarão para outra existência, e que lhes permitirá, mais tarde, tomar um envoltório de melhores condições. Trabalhando por sua melhoria, trabalha-se menos pelo seu presente que por seu futuro e, por pouco que se consiga, para eles é sempre uma aquisição. Cada progresso é um passo à frente que facilita novos progressos.

ibidem

Vemos, como apresentado, que Allan Kardec partiu de um fundamento errado, racista, baseado em conceitos científicos, sociais e culturais da época — o de que os negros seriam uma “raça” selvagem e sem conhecimentos e o de que os brancos constituiriam uma raça superior — num contexto, onde muito provavelmente, ou ele sequer tinha contato com negros, ou, hipótese mais razoável, que ele apenas os conhecia de sua posição socialmente inferior, posto que a escravatura na França foi apenas abolida em 1848. Contudo, logo em seguida, ele adiciona que, por mais que pudessem constituir uma “raça” inferior, esses Espíritos, que ora ocupavam um corpo tido como “inferior” ao branco — nada mais afastado da realidade — através de sua progressão espiritual, ocupariam “envoltórios melhores”. Isso está mais ou menos expresso no seguinte pensamento, da Revista Espírita de novembro de 1858: “a Doutrina Espírita é mais ampla do que tudo isto. Para ela, não existem várias espécies de homens; simplesmente existem homens cujo Espírito é mais ou menos atrasado, susceptível, entretanto, de progredir“.

Kardec segue adiante e reproduz o pensamento reinante, naquele momento, a respeito do corpo físico constituinte da “raça negra”: “Por isso a raça negra, enquanto raça negra, corporalmente falando, jamais atingirá os níveis das raças caucásicas, mas como Espíritos é outra coisa: pode tornar-se e tornar-se-á aquilo que somos. Apenas necessitará de tempo e de melhores instrumentos.

É repugnante aos nossos olhos, hoje? Sim, é. E é algo sobre o que precisamos discutir, de forma não anacrônica, a fim de entendermos e separarmos o pensamento do homem, imperfeito, do pensamento expresso pela ciência Espírita, como em tudo.

Observe que Kardec tomava um ponto de vista baseado na ciência humana e na ciência dos Espíritos. Pela primeira, baseou-se nas ideias de raças, exprimindo, assim, um pensamento errado. Pela segunda, acertou ao entender que somos todos iguais. O Espiritismo, portanto, não é racista, mas muito pelo contrário.

Compete, também, fazer uma outra observação: Kardec não via o negro como ser que não devesse ter os mesmos respeito, caridade, fraternidade e amor, como devemos a todos os outros. Vemos isso muito bem expresso na Revista Espírita de junho de 1859, quando um homem negro, falecido, é evocado, e se exprime assim:

4. ─ No entanto, éreis livre. Em que vos sentis mais feliz agora?
─ Porque meu Espírito não é mais negro.

Ao que Kardec faz a seguinte nota:

NOTA: Esta resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Com certeza jamais o Espírito é negro. Ele quer dizer que, como Espírito, não tem mais as humilhações às quais está sujeita a raça negra.

Ora, necessário, então, se faz entender essa questão, no contexto histórico certo, pelos dois lados: de um lado, Kardec, o branco, europeu, que acreditava ser o negro uma “raça” inferior, mas que entendia que se tratava de irmão nosso, Espírito como nós, que também sofria pelas humilhações e que desejava ser feliz. Do outro lado, o negro, que não apenas se sentia, mas que era humilhado e maltratado, por conta de sua cor de pele. Seria muito supor que, nesse contexto bem específico, muito diferente do que é hoje a sociedade moderna (em grande parte), o Espírito que encarnou em um corpo negro quisesse deixar de ser negro em uma próxima vida? Isso fica patente no pensamento do Espírito (Pai César):

10. (Ao Pai César) ─ Dissestes que procurais um corpo com qual possais avançar. Escolhereis um corpo branco ou preto?
─ Um branco, porque o desprezo me faria mal.

Partindo do ponto de vista que o negro era tratado como animal, enfrentando dificuldades acerbas, seria muito supor que, nessa época, um Espírito escolhesse encarnar em um corpo negro de modo a enfrentar as imensas dificuldades que essa vida lhe ofereceria, aprendendo com elas? Hoje, viver como negro não é mais tão sofrido como era nessa época e, com a evolução do ser humano, as expiações escolhidas pelos Espíritos seriam outras. A questão, sempre, para bem entender essas difíceis questões, é separar Espírito e corpo, além de contextualizar termos e ideias conforme época, história e contexto social.

Importa lembrar, também, que, se Kardec foi, de certa forma, preconceituoso, por outro lado não foi escravagista nem sequer segregacionista ou, se um dia o foi, mudou sua opinião quando de contato com a ciência espírita:

829. Haverá homens que estejam, por natureza, destinados a ser propriedade de outros homens?

“É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão é um abuso da força. Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos.”

É contrária à natureza a lei humana que consagra a escravidão, pois que assemelha o homem ao irracional e o degrada física e moralmente (nota de Allan Kardec)

[…]

831. A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes?

“Sim, mas para que estas as elevem, não para embrutecê-las ainda mais pela escravização. Durante longo tempo, os homens consideraram certas raças humanas como animais de trabalho, munidos de braços e mãos, e se julgaram com o direito de vender os dessas raças como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro os que assim procedem. Insensatos! Nada veem senão a matéria. Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.” (361–803.)

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos

Não paremos, porém. Vamos seguir em frente, analisando outros assuntos importantes e correlatos.

Seria Kardec machista?

Para analisar esses temas, vou utilizar como base o artigo produzido por Paulo Henrique de Figueiredo, que pode ser apreciado, na íntegra, no link https://revolucaoespirita.com.br/kardec-homossexualidade/

Começando pela questão do machismo, Kardec faz uma interessantíssima abordagem na Revista Espírita de janeiro de 1866, no artigo de título “As mulheres tem alma?”. Sim, pasmem, era essa a questão de então.

As mulheres têm alma? Sabe-se que a coisa nem sempre foi tida como certa, pois, ao que se diz, foi posta em deliberação num concílio. A negação ainda é um princípio de fé em certos povos. Sabe-se a que grau de aviltamento essa crença as reduziu na maior parte das regiões do Oriente. Mesmo que hoje, nos povos civilizados, a questão seja resolvida em seu favor, o preconceito de sua inferioridade moral perpetuou-se a tal ponto que um escritor do século passado, cujo nome me foge, assim definia a mulher: “Instrumento de prazeres do homem”, definição mais muçulmana que cristã. Desse preconceito nasceu sua inferioridade legal, ainda não apagada de nossos códigos. Por muito tempo elas aceitaram essa escravização como uma coisa natural, tão poderosa é a força do hábito. É assim que acontece com aqueles que são submetidos à servidão de pai para filho, que acabam por se julgarem de natureza diversa da dos seus senhores.

Allan Kardec, R.E, Janeiro de 1866

Incrível, não? Ainda se questionava, em algumas sociedades, se a mulher realmente possuía alma e, nascida de um preconceito, sua inferioridade legal ainda existia. As mulheres não podiam sequer votar – fato muito bem conhecido ainda hoje. Notemos uma coisa: se Kardec pode ter sido preconceituoso com relação aos negros, ele, contudo, não os jugava animais que deveriam ser escravizados à vontade do branco, assim como a mulher não deveria ser escravizada à vontade do homem.

“Depois de ter reconhecido que elas têm uma alma, se lhes reconheceu o direito de conquistar os graus da ciência, é já alguma coisa. Mas a sua libertação parcial não é senão o resultado do desenvolvimento da urbanidade, do abrandamento dos costumes, ou, querendo-se, de um sentimento mais exato da justiça; é uma espécie de concessão que se lhe faz, e, é preciso bendizê-la, se lhes regateando o mais possível”.

ibidem

Comenta Paulo Henrique, em seu artigo:

Naquele tempo, apesar da questão da existência da alma da mulher ser considerada ridícula, ainda não se ponderava que a “igualdade de posição social entre o homem e a mulher fosse de direito natural”, e não uma concessão feita pelo homem. A contribuição do Espiritismo para o debate é extraordinária e atual. Enquanto atualmente se discute o fato de que as tradicionais diferenças de gênero se estabeleceram em função da cultura e não da natureza fisiológica (visando justificar o poder do homem), o Espiritismo demonstra o outro extremo da questão: a igualdade é natural, pois os espíritos não têm distinção sexual! Ou seja, se a divisão de sexo por gêneros é cultural (se sabe hoje), a igualdade é natural (explicam os espíritos).

Em O Livro dos Espíritos, Kardec se aprofunda nessa questão, de forma muito atual, criando, de uma vez por todas, através dos ensinamentos dos Espíritos Superiores, a mais profunda noção de igualdade já vista em uma Doutrina, por estar baseada nos princípios da Lei Natural, que transcende a matéria e o tempo:

817. São iguais perante Deus o homem e a mulher e têm os mesmos direitos?

“Não outorgou Deus a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir?”

818. Donde provém a inferioridade moral da mulher em certas regiões?

“Do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. É resultado das instituições sociais e do abuso da força sobre a fraqueza. Entre homens moralmente pouco adiantados, a força faz o direito.”

819. Com que fim mais fraca fisicamente do que o homem é a mulher?

“Para lhe determinar funções especiais. Ao homem, por ser o mais forte, os trabalhos rudes; à mulher, os trabalhos leves; a ambos o dever de se ajudarem mutuamente a suportar as provas de uma vida cheia de amargor.”

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos

E, adiante, digno de nota, apresenta esse incrível e profundo pensamento:

821. As funções a que a mulher é destinada pela Natureza terão importância tão grande quanto as deferidas ao homem?

“Sim, maior até. É ela quem lhe dá as primeiras noções da vida.”

ibidem

Já vimos, até aqui, que Kardec vai na direção contrária do pensamento em vigência naquela época: a mulher, claro, possui alma e, sendo igual ao homem, deveria ser tratada com as mesmas condições garantidas pelo direito natural, dadas ao homem. O Espiritismo demonstra que a igualdade é natural, posto que o Espírito não tem sexo e, portanto, nem cor ou raça, como fica exemplificado na comunicação com o Espírito do senhor Sanson, um espírita da Sociedade de Paris, recém-desencarnado, em 1862, quando lhe fez a seguinte pergunta:

“Os Espíritos não têm sexo; entretanto, como há poucos dias ainda era homem, tende em vosso novo estado antes a natureza masculina do que a natureza feminina? Ocorre o mesmo com um Espírito que tivesse deixado seu corpo há muito tempo?”

E, por meio do médium, Sanson respondeu:

“Não temos que ser de natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os cria à sua vontade, e se, por seus objetivos maravilhosos, quis que os Espíritos se reencarnem sobre a Terra, deveu acrescentar a reprodução das espécies para macho e a fêmea. Mas o sentis, sem que seja necessária nenhuma explicação, os Espíritos não podem ter sexo.”

É assim, enfim, que chegamos à questão:

Kardec homofóbico?

Prezado leitor, preciso dizer que nem sei de onde as pessoas tiram esses pensamentos. Na verdade, sei: do senso-comum, aquele conhecido “telefone sem fio”, que transmite ideias de um para o outro sem as analisarem com seriedade.

Quem realmente busca estudar e compreender o Espiritismo e Allan Kardec já entendeu, apenas pelo exposto acima, que ele não poderia ser homofóbico. Contudo, vamos finalizar o artigo com sua seguinte citação, na mesma edição da Revista Espírita, seguida da citação de Paulo Henrique de Figueiredo a respeito desse trecho:

“Se essa influência da vida corporal repercute na vida espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual para a corporal. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se ele for avançado, será um homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado.

Mudando de sexo, poderá, pois, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as tendências e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres”.

Portanto, só existe diferença entre o homem e a mulher em relação ao organismo material, que se aniquila com a morte do corpo. Mas, quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível, ela não existe, porque não há duas espécies de almas.

Allan Kardec, R.E., Jan/1866

É muito importante destacar aqui que o termo “anomalia aparente”, usado por Kardec, estava presente nas ciências da época, se referindo aos fenômenos que fogem da explicação das teorias aceitas, não sendo para elas “normais”; mas que, ao se encontrar uma nova explicação natural para o fenômeno em novas teorias, elas deixam de ser “anomalias” e se tornam fenômenos naturais. Por isso ela é “aparente”

Paulo Henrique de Figueiredo, site Revolução Espírita, 25/08/2016

Considerações finais

Existem pessoas boníssimas de todas as cores, inclusive pessoas da pior espécie, também de todas as cores e opções sexuais. Há Espíritos elevados em corpos disformes, assim como há Espíritos terríveis nos corpos mais lindos. Precisamos aprender a deixar de julgar o próximo, bem como a deixar de criar conceitos e preconceitos baseados em como as pessoas se parecem, aos nossos olhos.

O entendimento do Espiritismo vem justamente nesse sentido, quando entendemos que o corpo é apenas um vaso, que pode conter água mais cristalina ou menos. O Espírito humano pode encarnar em qualquer tipo de corpo humano, de acordo com suas necessidades. Como pode, então, sabendo muito bem disso, Kardec ter emitido opinião tão errônea a respeito dos negros?

Em parte isso se explica por um forte preconceito etnocêntrico que, na França de meados de 1800, enxergava o negro como “raça” inferior, selvagens, sem conhecimentos e sem cultura. De outro lado, entendamos bem, Allan Kardec, partindo da ideologia racista da ciência vigente, supunha que os Espíritos que encarnavam nos negros, eram também Espíritos de menor evolução, em fase de infância espiritual. Nada, repito, nada mais afastado da verdade, visto que sabemos o quanto de valor moral e de conhecimentos tinham esses irmãos, ainda usados como escravos pouco tempo antes na França e, ainda, por muitas décadas à frente, no Brasil. Contudo, ao mesmo tempo que partia desse ponto de partida errado, adicionava: “são Espíritos como nós, fadados à evolução e à perfeição”.

Já foi um grande passo, para um homem daquela época, ter dado alma a um povo que era tratado como máquina. Mas, sabemos, a marcha do progresso avança e, como dizia sempre Kardec, deveríamos sempre acompanhar os avanços científicos, abandonando a opinião que se mostrasse errada frente à ciência. É isso o que fazemos aqui e é o mesmo que faria Allan Kardec se, hoje, se encontrasse encarnado entre nós.

Contudo, nada disso muda nossa forma de entender o Espiritismo, em sua verdadeira concepção, e nem mesmo com relação ao papel grandioso que Kardec teve em seu estudo, posto que foi um homem imperfeito, embora comprometido com a caridade e as ciências. Na verdade, acrescenta, à Doutrina dos Espíritos, a beleza real que ela tem, entendida em sua profundidade e sem os preconceitos e conceitos humanos que, afinal, ela não tem, mas, sim, desfaz.




As “supostas” adulterações em Allan Kardec: um chamamento aos espíritas

Supostas? Não, não são supostas. São factuais, com inúmeras provas e fortes evidências apresentadas, obtidas inclusive por pesquisa de campo e baseadas, outras, em documentos históricos de Allan Kardec que, aos poucos, vem à tona.

Infelizmente, a FEB, apoiada nos argumento de Carlos Seth, está se baseando em evidências muito fracas para argumentar a favor daquilo que acredita – a não adulteração – sem apresentar, como Kardec faria, a argumentação contrária, sem ir a fundo nelas. Trato sobre isso neste artigo: https://geolegadodeallankardec.com.br/2021/09/01/as-adulteracoes-nas-obras-de-kardec-e-o-csi-do-espiritismo/

Pior que isso, a defesa da não adulteração, frente às provas já existentes, fere a própria imagem de Allan Kardec, como se ele, que sempre realizou tudo com todo o cuidado necessário, sob todas as exigências da lei humana, tivesse então decido submeter uma alteração de forma ilegal, sem realizar o depósito legal, obrigatório naquela época, tornando-o um criminoso confesso. Creio que podemos e devemos fazer mais que isso, não apenas em nome de Allan Kardec, mas em nome de algo muito maior e mais sério: o Espiritismo, doutrina que vem para, finalmente, provocar e auxiliar as grande mudanças necessárias à humanidade.

Sinto um grande descontentamento ao verificar não que existem opiniões contrárias, mas, sim, que muitos espíritas sequer buscam seguir o exemplo de Kardec, probo e humilde, verificando todas as fontes sérias, mesmo contrárias às suas ideias previamente desenvolvidas, indo a fundo nelas e analisando o que, nelas, há de verdadeiro ou provável e, modificando a opinião própria frente às evidências científicas e, quando não, esmiuçando tais ideias a fim de mostrar onde elas falham.

Infelizmente muitos não tem agido assim, a despeito de inúmeros espíritas sérios, já desde o século XIX e, depois, passando por Silvino Canuto de Abreu e o próprio Herculano Pires, terem levantado graves acusações frente aos desvios que a Doutrina sofreu após Kardec.

Em verdade, não desejo que concordem comigo, mas, sim, que ajamos todos de forma conscienciosa, espelhados no exemplo do professor Rivail. Diversas obras, desde alguns anos, tem apresentado evidências sérias demais e por demais bem embasadas a ponto de serem colocadas de lado e descartadas. Se vamos discutir sobre adulterações, discutamos sob a luz da razão, frente ao raciocínio lógico e as provas e evidências, como Kardec faria.

Por nos dizermos Espíritas, que é uma ciência nascida da observação dos fatos e das evidências, uma vez mais peço: não deixemos essas obras de lado, pois o que elas trazem, ainda que fosse falso, é por demais importante e grave para ignorá-las, como o movimento espírita brasileiro tem feito.

São elas, mas não apenas:

  • O Legado de Allan Kardec, por Simoni Privato
  • Nem céu nem inferno: As leis da alma segundo o Espiritismo, por Lucas Sampaio e Paulo Henrique de Figueiredo
  • Muita Luz (BEAUCOUP DE LUMIÈRE), de Berthe Fropo
  • Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo, por Paulo Henrique de Figueiredo

Irmãos, leiam, estudem, se informe e espalhem essa motivação, por todo canto. Já é mais que hora de restaurarmos o entendimento original sobre o Espiritismo!




A dádiva da reencarnação

Muitas vezes nos pegamos perguntando: pra que reencarnar? Não poderíamos realizar todo o progresso no plano espiritual?

O Espiritismo, como em tudo aquilo que já nos é dado compreender, vem em nosso socorro, explicando mais esse ponto, na verdade fundamental para nossas vidas, posto que vemos tantos irmãos e, às vezes, nós mesmos, com pensamentos de esmorecimento e desistência. Quantos irmãos já não tiraram a própria vida do corpo, pelas vias do suicídio, interrompendo um planejamento reencarnatório tão importante para eles?

O que o Espiritismo nos ensina, prezado irmão ou irmã, é que, quando em Espírito, no estado de erraticidade, ou seja, no período entre uma encarnação e outra, nosso eu verdadeiro aflora com ênfase e transparência. Assim, nossas boas e más virtudes, incrustradas em nossas mentes, se mostram como eles são, e com maior verdade. É como se fôssemos um vaso de cristal que tem a água turva jogada fora e, então, passa a brilhar em sua clareza original, embora isso nem sempre mostre uma cristalidade de coração.

O Espírito que há tempos se degladia por conta de imperfeições morais – e até mesmo de vícios materiais – e que, de encarnação em encarnação, ainda não encontrou a decisão forte por sua mudança, ao desencarnar, passa a experimentar esse ambiente moral à sua disposição, já que se desloca, com a velocidade do pensamento, para as companhias e os ambientes que mais lhes apetecem. Assim, muitos Espíritos facilmente passam a inteirar as fileiras de Espíritos que agonizam na incompreensão de que, para dali saírem, basta a vontade firme, que até então, mesmo em vida física, muitas vezes não conseguiram ter.

Outrossim, há os casos dos Espíritos obsediados e perseguidos, dementados, muitas vezes, pela extensão de suas próprias culpa e incompreensão.

Vem, então, a oportunidade da reencarnação como valiosíssimo dispositivo que permite ao Espírito, pela obliteração da memória integral, retomada de fôlego e correção de imperfeições, sobretudo através do papel tão importante mas ainda tão esquecido dos pais ou cuidadores, desde a primeira infância material que o Espírito atravessa, fase na qual ele se torna mais dócil e maleável ao aprendizado – que deveria sempre ser feito nas bases do amor e da fraternidade, de forma construtiva e jamais violenta ou impositiva.

Mas, lembramos, a reencarnação, ou o planejamento reencarnatório, somente acontece de forma “impositiva” quando o Espírito ainda não tem a consciência desenvolvida a ponto de entender as necessidades para seu avanço. É nesse ponto que ele é constrangido a reencarnar, por Espíritos outros que, em nome da caridade, se dedicam a tal tarefa.

A partir do momento, contudo, em que o Espírito desenvolve sua própria consciência a respeito de suas próprias imperfeições e da necessidade de corrigi-las, passa a atuar positivamente nesse processo, muitas vezes solicitando uma nova encarnação, cheia de provas e expiações, com a finalidade de aprender e corrigir suas imperfeições.

Portanto, a encarnação, a vida atual, é uma dádiva divina, uma oportunidade abençoada para reajustarmos os fatores que, em nós mesmos, nos levam a errar e, por isso, a sofrer. Nunca foi e nunca será um castigo ou uma punição e, se nós mesmo não aumentarmos nossos sofrimentos por nossas próprias ações, conseguiremos passar pelas provas e expiações muitas vezes por nós escolhidas, pois jamais estaremos abandonados nessa empreitada e, além dos irmãos que nos assistem do plano espiritual, sempre haverão as pessoas, à nossa volta, prontas e, muitas vezes, devotadas a esse planejamento, para nos ajudar.

Queridos irmãos, espalhemos essa verdade tão simples e tão poderosa, a fim de que o irmão prestes a desistir da vida reconsidere sua posição e que não tenha que, apenas do plano espiritual, envolto em sofrimentos, olhar para trás e verificar que o sofrimento que atravessava estava prestes a acabar e que tinha muito a lhe auxiliaria a se modificar, para nunca mais sofrer daquela forma, se tivesse sua vontade muito firme e decidida. E, lembremos, sempre: todos nós chegaremos à felicidade e à perfeição, alguns mais rápido do que outros, pela ação de sua própria vontade:

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

“Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos

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A Caridade verdadeira, segundo o Espiritismo

Caridade: termo tão usado em toda parte, mas, ainda, tão mal compreendida. Que seria a Caridade verdadeira, segundo o Espiritismo?

Para nós, espíritas, ela aparece em todo canto, em toda literatura. Kardec a tornou base necessária para toda e qualquer felicidade, dizendo: “fora da caridade não há salvação”. A afirmativa, é claro, nasceu de uma certa oposição ao dogmatismo religioso, que tentava apregoar que a salvação estava em cada seita, de forma exclusivista e mesmo egoísta, mas não deixa de ser verdade, pois, sem caridade, não há amor ao próximo.

Contudo, o termo caridade tomou, hoje, conotação de assistencialismo, quase que exclusivamente, tornando-se sinônimo de doação material. Mas, para que realmente possamos entendemo-la dentro do contexto espírita, precisamos voltar ao contexto de Allan Kardec, na França de meados de 1850:

É importante destacar que o termo caridade utilizado por Kardec, para o Espiritualismo Racional, naquele tempo (divergindo da definição atual do termo, que se aproxima do assistencialismo), representava agir pelo dever, ou seja, de forma livre, consciente, intencional, independentemente de castigos e recompensas, com a plena compreensão da lei moral. A caridade é um princípio que orienta o agir integral do ser, e não uma atividade complementar, como se fosse um comportamento acessório […].

Paulo Henrique de Figueiredo – O Legado de Allan Kardec

Vemos, assim, que a caridade, bem entendida, deve constituir o ser, o modo de proceder, e não apenas se constituir de ações isoladas que, muitas vezes, falam mais pela necessidade de se fazer visto como “pessoa caridosa”, situação na qual não há real caridade, mas apenas ego e vaidade. Mais que isso, a caridade não se resume à doação material. Na verdade, eu diria, ela é, na maioria das vezes, oposta à doação material, visto que quem doa materialmente, seja dinheiro, seja comida, sejam coisas, muitas vezes o faz como uma forma de alívio de consciência.

O caro leitor que me perdoe, pois o intuito realmente não é julgar ninguém em suas ações. O próprio Cristo exemplificou, na “parábola do óbulo da viúva”, que a intenção real, ou, se quisermos, a fé, é quem fala mais alto. Muitas pessoas doam dinheiro ou outros recursos querendo realmente fazer o bem e, claro, isso conta muito. Mas quantas vezes nós nos limitamos a fazer uma doação material, sem mesmo refletir sobre o que estamos fazendo e sobre a situação real daquela pessoa que nos pede, num ato [enganoso], quase sempre, de desobrigação de ir além, ou apenas para nos sentirmos bem?

Pensemos: quantas pessoas utilizam doações para, revendendo recursos, obter dinheiro para obter entorpecentes? Quantas pessoas, dispondo de recursos fáceis, se lançam nos piores vícios e desregramentos, cavando mais e mais o próprio buraco em que se afundam? Será que doar a essas pessoas, regularmente, está realmente ajudando em suas situações? Será, realmente, que se os ricos simplesmente doassem suas fortunas, a miséria humana acabaria?

Não digo, de forma alguma, que não devemos doar recursos materiais; mas pensemos além, analisando cada situação e buscando ser fraternos com o irmão que nos busca, nos importando realmente com a situação dessa pessoa. Muitas vezes, uma simples pergunta do tipo “por que está na rua, irmão? O que está passando?” pode abrir caminho para uma relação muito mais frutífera que, não esqueçamos, beneficia os dois lados.

O indivíduo que realmente deseja fazer o bem, não faz a caridade uma vez por mês ou por semana: ele é caridoso, o tempo todo. E ser caridoso consiste em colocar o outro à frente de nossas próprias vontades e necessidades. Quantas vezes, pessoas passando pelos mais difíceis momentos de suas vidas, encontram forças para fazer a caridade de um dar sorriso a quem chora ainda mais? Minha avó, por exemplo, passando por uma grave e dolorida doença, encontrava forças para ser doce e afável, sorrindo a todos que vinham visitá-la em seus últimos dias da última encarnação. Não será isso um gênero de caridade – talvez dos maiores que existem?

Quando pensarmos, portanto, em caridade, precisamos pensar necessariamente em uma coisa: ir além. Se doamos algo material, que isso seja apenas a porta para criar um vínculo e uma abertura para aprofundar a relação com o irmão que pode estar em grande sofrimento. Mas, sobretudo, não esqueçamos que a maior caridade que podemos fazer ao próximo é lhe levar amor, fé e consolação, sobretudo através do exemplo de quem vivencia o que fala e não apenas como quem joga palavras ao vento.

É, portanto, um gênero de caridade com a humanidade nos esforçarmos em nosso próprio adiantamento moral, buscando modificarmo-nos à luz daquilo que nos consola e, em nosso caso, estudando dedicadamente O Espiritismo, doutrina que, muitas vezes na vida, nos salvou de escolhas ruins ou nos conduziu a melhores caminhos. Aprendamos a espalhá-lo sem chocar, isto é, sem iniciar as conversas falando em reencarnação e obsessão, mas, sim, apresentando a filosofia tão consoladora encontrada nessa Doutrina.

Sairemos, então, portão afora, e encontraremos por todos os lados pessoas precisando, desesperadamente, de algo que as console, que as ajude a tirar o pensamento de desistência de suas cabeças, que as auxilie a passar pelas provas da vida com fé inabalável e com firmeza decidida. São pessoas quase sempre difíceis, pelo momento de crise que vivem, e não seria caridade maior nos esforçarmos por ajudá-la, de forma persistente e fraterna, mesmo sabendo que, muitas vezes, viveremos dificuldades nesse contato inicialmente difícil?

Acreditem, irmãos: fazemos caridade muito maior deixando para trás nossas imperfeições e espalhando consolações e conhecimentos que podem mudar, para sempre, o rumo de um Espírito, do que apenas doando uma “coisa”, que ele vai usar e descartar, enquanto nós viramos nossas costas e seguimos nossa vida, sem vontade de ir além. Afinal, de que adianta doar um saco de arroz para alguém que pede no portão enquanto não somos caridosos, sequer, com os membros de nossa própria família ou com nossos subordinados no trabalho?

Encerro deixando a mensagem de “Um Espírito Protetor”, apresentada no capítulo XIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Meus amigos, a muitos dentre vós tenho ouvido dizer: Como hei de fazer caridade, se amiúde nem mesmo do necessário disponho?

Amigos, de mil maneiras se faz a caridade. Podeis fazê-la por pensamentos, por palavras e por ações. Por pensamentos, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem se acharem sequer em condições de ver a luz. Uma prece feita de coração os alivia. Por palavras, dando aos vossos companheiros de todos os dias alguns bons conselhos, dizendo aos que o desespero, as privações azedaram o ânimo e levaram a blasfemar do nome do Altíssimo: “Eu era como sois; sofria, sentia-me desgraçado, mas acreditei no Espiritismo e, vede, agora, sou feliz.” Aos velhos que vos disserem: “É inútil; estou no fim da minha jornada; morrerei como vivi”, dizei: “Deus usa de justiça igual para com todos nós; lembrai-vos dos obreiros da última hora.” Às crianças já viciadas pelas companhias de que se cercaram e que vão pelo mundo, prestes a sucumbir às más tentações, dizei: “Deus vos vê, meus caros pequenos”, e não vos canseis de lhes repetir essas brandas palavras. Elas acabarão por lhes germinar nas inteligências infantis e, em vez de vagabundos, fareis deles homens. Também isso é caridade.

Dizem, outros dentre vós: “Ora! somos tão numerosos na Terra, que Deus não nos pode ver a todos.” Escutai bem isto, meus amigos: Quando estais no cume da montanha, não abrangeis com o olhar os bilhões de grãos de areia que a cobrem? Pois bem: do mesmo modo vos vê Deus. Ele vos deixa usar do vosso livre-arbítrio, como vós deixais que esses grãos de areia se movam ao sabor do vento que os dispersa. Apenas, Deus, em sua misericórdia infinita, vos pôs no fundo do coração uma sentinela vigilante, que se chama consciência. Escutai-a, que somente bons conselhos ela vos dará. Às vezes, conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal. Ela, então, se cala. Mas, ficai certos de que a pobre escorraçada se fará ouvir, logo que lhe deixardes aperceber-se da sombra do remorso. Ouvi-a, interrogai-a e com freqüência vos achareis consolados com o conselho que dela houverdes recebido.

Meus amigos, a cada regimento novo o general entrega um estandarte. Eu vos dou por divisa esta máxima do Cristo: “Amai-vos uns aos outros.” Observai esse preceito, reuni-vos todos em torno dessa bandeira e tereis ventura e consolação. – Um Espírito protetor. (Lião, 1860.)




O Renascimento do Espiritismo

Vivemos a grande escuridão, novamente. Após o Espiritismo raiar na face da Terra como grandiosa luz que poderia nos lançar ao mais acelerado processo de renovação espiritual e moral humana, se espalhando com a velocidade de um raio, sofreu enorme revés e, então, passou a ser lentamente esquecido em suas proposta e verdadeira face originais. Vieram, então, as guerras, o grande desenvolvimento industrial, as enormes facilidades materiais, os enormes lucros e, por trás de grandes sorrisos falsos, de bonitas máscaras sociais, alegres e divertidas, se multiplicam as enormes dores e angústias que, não raro, encontram saída na desistência da vida e no suicídio direto ou indireto.

A humanidade clama. Há choro e ranger de dentes. Eis que, então, o inimaginável acontece e uma doença de facílima transmissão, embora de taxas de mortalidade relativamente baixas, se alastra por toda a superfície do planeta, levando entes queridos, vizinhos e conhecidos, pobres e ricos, em questão de poucas semanas – quase sempre, em menos de 20 dias. A humanidade se mostra, uma vez mais, ferida e vulnerável. O Espírito foi esquecido. A moral foi colocada de lado, como artigo de politicagem. Deus se tornou artigo de fé cega, quase sempre incompreendido e, embora presente em muitas línguas, vazias no coração.

As partidas de pessoas próximas abalam as famílias e os indivíduos. Um grande movimento se acelera: a busca por reaproximação com o espiritual, a busca por consolação, a busca por respostas. E eis que justamente nessa mesma época, começam a se avolumar, aos nossos olhos, grandiosos estudos e preciosas obras, por mãos dedicadas de irmãos entregues ao trabalho da Verdade, trazendo a nós a verdadeira face do Espiritismo e sua história, e grande e preciosa parte, até então incompreendida ou, então, desconhecida.

Vivemos, hoje, processo muito parecido com aquele vivido nos meados do século XIX, nos trazendo uma oportunidade mais uma vez extremamente grandiosa. Vejo e acredito que, como antes, vivemos grande chamamento de volta à espiritualidade. Multiplicam-se por todas as partes os fenômenos mediúnicos, inclusive os físicos, com vistas a chamar a nossa atenção. Como antes, passou a humanidade por gravíssima fase materialista, dando margem às grandes chagas do egoísmo e do orgulho, além de espaço à proliferação de todos os vícios e imperfeições, físicas e morais.

Nos foi dado a conhecer que o Espiritismo sofreu com diversas manipulações e desvios, às vezes criminosos, se não aos olhos da justiça humana, mas ao menos perante a justiça Divina. Letra e Movimento foram adulterados. O Espiritismo, após a morte de Kardec, perde a força gigantesca que vinha desenvolvendo e, com as guerras, encontra, no Brasil, guarida, para ficar em estágio semi-gestacional, no meio religioso, por mais de um século…

Irmãos, como dizia, vivemos momento importantíssimo e singular. O Espiritismo nasceu em momento favorável e necessário, quando a humanidade buscava respostas filosóficas para fazer frente ao negacionismo materialista que, por sua vez, nasceu para enfrentar o dogmatismo ferrenho das velhas religiões. Hoje, o Espiritismo renasce, em sua real exuberância, no momento certo, para atender aos clamores daqueles tantos que buscam respostas ao mesmo materialismo pujante e ferrenho que esfriou as almas durante o último século e colocou o homem no caminho do ganho e do lucro, das paixões efêmeras e do culto ao corpo.

A enorme diferença é que, hoje, encontramos o trabalho já iniciado. Não necessitamos desenvolver o raciocínio do zero, analisando fenômenos físicos, conversando com Espíritos através de pancadas. Basta, a nós, estudar a fundo, com muita sabedoria e dedicação, o Espiritismo e as obras complementares que nos ajudem a melhor compreendê-lo, situando-o de forma contextualizada no momento histórico em que nasceu para, então, trazer aos nossos dias o exato entendimento, que até hoje não tivemos, em maioria, sobre o que realmente é o Espiritismo!

Mas isso não será possível enquanto não agirmos conforme o exemplo daquele que Deus nos deu como exemplo nesse particular. Não falo do nosso exemplo máximo, Jesus, mas, sim, do nosso grande e humilde mestre, afável e caridoso, pesquisador dedicado à humanidade, Allan Kardec. Não, enquanto não seguirmos o seu exemplo, repito, a recuperação do Espiritismo não será possível. Kardec não foi perfeito, como nenhum de nós somos, mas uma coisa muito importante ele exemplificou: a total ausência de personalismo, vaidade e orgulho, bem como a busca por analisar fatos, provas e opiniões, de todos os lados e de todas as fontes, sem, antes, forma ideia previamente concebida. Enquanto nosso personalismo, nossa vaidade, nosso orgulho, nossos preconceitos, enfim, falarem mais alto, não sairemos do mesmo lugar. Não é isso, infelizmente, que tem feito as pessoas que, tomando frágeis argumentos a favor de suas ideias pessoais, continuam renegando os fatos históricos e que, por isso, se afastam do desenrolar do entendimento claro e profundo a respeito do Espiritismo, como já tratei neste artigo.

Espíritas, olhem ao redor: o trabalho nos chama, arduamente! O mundo de regeneração não virá sozinho! A regeneração precisa partir de nós, mas ela não se dará enquanto nos mantivermos parados, sentados, esperando a vida e aquilo que achamos serem castigos, passarem. Precisamos compreender que as dificuldades da vida, que julgamos castigos intransponíveis, são, na verdade, oportunidades valiosas de aprendizado e de correção de nossas imperfeições que nos levam a errar. Precisamos compreender que, assim como Deus não nos impõe castigos, mas, sim, oportunidades difíceis – mas totalmente suportáveis, desde que nós mesmos não aumentemos suas dificuldades – para aprendizado e elevação, também precisamos nós, com o auxílio da Doutrina Espírita, aprendermos a colocar em prática em nossas vidas e, sobretudo, com nossas crianças, a mesma moral: somos imperfeitos e castigar o erro nascido da imperfeição apenas causa retração e, muitas vezes, aumento da imperfeição e do erro. É isso que o Espiritismo vem nos mostrar: ninguém se torna anjo num estalar de dedos e, também, ninguém perde o que já conquistou. Não há anjos caídos, da mesma forma que não há escolhidos por Deus. Todos nós chegaremos à perfeição, sem exceções, mas a velocidade com que lá chegaremos depende, única e exclusivamente, de nós.

Assim, irmãos, mais do que nunca, vale aquela tão importante exortação: “Espíritasamaivos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo”. Precisamos deixar de lado as cisões. Precisamos deixar de lado os preconceitos. Precisamos, como Kardec, ouvir todas as opiniões, de todas as fontes, mas apenas como Kardec, entendendo muito bem seu trabalho, seu exemplo e seu método, poderemos nos unir, nos amar e nos instruir. E, sobretudo, precisamos produzir, em nosso bem e em favor do próximo, pois o tempo urge e, após um ano e meio de centros espíritas fechados, muitos sem nenhuma produção, sequer entre seus membros mais próximos, precisamos recuperar o Espiritismo que não é vivido em templos fechados, mas, sim, em nossa intimidade familiar e, daí, para o mundo afora!

Mais uma vez, fica aqui a exortação, o pedido, para que vós, irmãos, leiam também as obras tão importantes e necessárias ao nosso entendimento:

  • O Legado de Allan Kardec, por Simoni Privato
  • Nem céu nem inferno, por Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio
  • Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo, por Paulo Henrique de Figueiredo
  • Muita Luz, por Berthe Fropo



O Livro dos Espíritos

Encerrando o Primeiro Capítulo da primeira edição da Revista Espírita, Kardec cita a publicação de O Livro dos Espíritos, trazendo à luz um muito interessante e sensato artigo publicado no Courrier de Paris, de 11 de junho de 1857, bem como algumas cartas a ele endereçadas, agradecendo pelo trabalho consolador apresentado naquela obra. Interessante notar como a imprensa, na época, citava tais acontecimentos sem a grande necessidade de criticá-los sem fundamento, como muitas vezes vemos hoje.

Lendo as admiráveis respostas dos Espíritos na obra do Sr. Kardec, dissemos a nós mesmos que haveria um belo livro a escrever. Bem depressa reconhecemos que nos havíamos enganado: o livro já está escrito. Apenas o estragaríamos se tentássemos completá-lo.

G. Du Chalard – Courrier de Paris, de 11 de junho de 1857

Kardec termina contando sobre como o Livro foi constituído, em sua primeira edição, em grande parte com a ajuda das irmãs Baudin. Após a primeira edição, foi recomendado pelos próprios Espíritos que realizasse uma revisão da obra. Importante destacar que Kardec buscava sempre confirmar as respostas obtidas principalmente por médiuns intuitivos com médiuns mecânicos, onde a influência do médium seria menor ou inexistente. Além disso, sobre as questões mais complicadas, buscava um maior número de “opiniões”, fazendo a mesma pergunta a diversos espíritos, através de médiuns por todas as partes. Essa é a tão conhecida Concordância Universal dos Ensinamentos dos Espíritos.




História de Joana D’Arc ditada por ela própria à Senhorita Ermance Dufaux

Aqui Kardec cita o caso de Joana D’Arc, sem se aprofundar nele. Teria ela própria transmitido uma mensagem à senhorita Dufaux, contando a história da heroína de forma mais aprofundada, destacando ter sido médium e explicando sua jornada. Kardec diz que voltará a esse caso, em outra ocasião, mas é interessante citar que ele aceitou tal conteúdo verificando que a médium em questão contava com apenas 14 anos quando o recebeu e que, mesmo sendo de família educada, muito dificilmente teria encontrado nas bibliotecas tais detalhes tão pouco conhecidos sobre a personagem em questão.

Interessante destacar que a senhorita Dufaux teve uma participação importante na própria Revista Espírita, onde, segundo Canuto de Abreu, ela cooperou para a transmissão de valiosas orientações para esse periódico:

No final de 1857, Kardec teve a idéia de publicar um periódico espírita e quis ouvir a opinião dos guias espirituais. Ermance foi a médium escolhida e, através dela, um Espírito deu várias e ótimas orientações ao Mestre de Lion. O órgão ganhou o nome de “Revista Espírita” e foi lançado em Janeiro do ano seguinte.

Também foi o Sr. Dufaux, pai de Ermance, quem muito cooperou na fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, quando conseguiu em apenas 15 dias a autorização para as reuniões da Sociedade (as leis em vigência não permitiam a livre reunião em locais fechados, sendo o próprio Kardec muitas vezes seguido por “policiais”, a fim de verificarem e reportarem seus encontros e reuniões).

Também foi ela grande cooperadora na revisão de O Livro dos Espíritos, na 2a edição da obra.




Reconhecimento da existência dos Espíritos e de suas manifestações

Nesta abordagem um tanto mais extensa, Kardec chama a atenção para o fato de que o as manifestações espirituais encontram-se evidentemente reconhecidas mesmo dentro da Igreja Católica Romana, da qual ele cita grande artigo, publicado à época, na Civiltà Cattolica, de Roma. Muito interessante notar o tom do artigo, onde, por vezes, parece mesmo que estamos lendo um texto do próprio Kardec, dada a lucidez e a honestidade da análise sobre os fatos em questão.

Convém lembrar do caso da obra “Manuscrito do Purgatório”, onde uma Irmã, dentro do contexto da Igreja Católica, recebeu e publicou diversas psicografias de outros irmãos, de dentro do mesmo contexto, já falecidos. A obra é iniciada por uma longa introdução, cheia de poréns e entretantos, visando explicar o acontecido como algo permitido por Deus apenas naquela situação muito estrita, mas que vale a pena uma análise ao menos superficial.




Visões

Aqui Kardec aborda dois casos de visões espirituais. Apesar de sabermos das manifestações espirituais visuais, aqui nenhum deles parece se tratar disso, mas, antes, de fenômenos de dupla vista, sonambulismo ou êxtase, como no último caso, onde o próprio Espírito do encarnado se transporta para outro local, vivendo outras experiências que, depois, vêm a se confirmar. 

“Como os sonhos nada mais são que um estado de sonambulismo natural incompleto, designaremos as visões que ocorrem nesse estado sob o nome de visões sonambúlicas, para distingui-las das que se dão em estado de vigília e que chamaremos de visões pela dupla vista.”

A seguir, separamos um trecho que visa causar uma certa provocação e que abre campo para uma necessária reflexão:

“Quando as visões têm por objeto os seres do mundo incorpóreo, poder-se-ia, aparentemente com alguma razão, qualificá-las de alucinação, porque nada lhes pode demonstrar a exatidão.”

Em outras palavras: será que podemos confiar tanto assim nas “visões” mediúnicas de outros planos e mundos? É preciso, como lembra Kardec, tomar sempre muito cuidado, não acreditando por acreditar naquilo que qualquer um diga.

Cabe fazer uma breve abordagem sobre os extáticos, lembrando que tal mediunidade sonambúlica, que hoje se confunde entre as chamadas “viagens astrais”, carece de conhecimento e vigilância da parte do próprio médium. Frente às maravilhas com as visões, nesse caso específico, poder se afastar de tal forma de seu corpo carnal, fazendo sua ligação com ele tão tênue que chegue, mesmo, a se romper, sob sua vontade de abandoná-lo. Lembrando sempre que “Não é a partida do Espírito a causa da morte do corpo, mas é a morte deste que causa a partida do Espírito.”




Os médiuns julgados

Aqui Kardec aborda um caso ocorrido no qual uma instituição determinou o pagamento de um prêmio àquele que pudesse comprovar alguns fenômenos espíritas, ao que nenhum dos inscritos conseguiu atender, embora, fora dali, muitos deles obtivessem tais fenômenos facilmente, tal como se deu, lembra Kardec, dez anos antes, com alguns sonâmbulos magnetizados, na França, os quais, em outras circunstâncias, “liam livros fechados e decifravam toda uma carta, sentados sobre ela ou colocando-a bem dobrada e fechada sobre o ventre”. 

Já vimos isso recentemente, também. Importante compreender, com essa abordagem, que a espiritualidade não está a nosso mando e não está interessada em tais shows, sobretudo quando se visa, através disso, obter ganhos materiais de qualquer gênero. Aliás, é interessante notar como isso repulsa tanto o Espírito superior quanto o inferior, o que dá margem para uma grande discussão a respeito dos médiuns que se lançam, por exemplo, a ler a sorte.

Também nos traz à lembrança os diversos casos polêmicos nos quais diversos “espíritas” já se envolveram, como aconteceu ao próprio Leymarie, naquilo que ficou conhecido como “O Processo dos Espíritas”, fato que causou grande vergonha ao Movimento Espírita de então, e o conhecido caso da polêmica materialização espiritual, da qual Chico Xavier participou. Não podemos julgar se são caros de pura leviandade ou não, mas são casos bastante complicados, que não desmentem a possibilidade e mesmo a veracidade de tais fenômenos, mas que servem para nos chamar a atenção para alguns pontos:

  1. O Espiritismo conquista muito mais adeptos por sua filosofia consoladora e esclarecedora do que através de fenômenos, ante os quais, aquele que seja decididamente cético, não se tornará menos convencido;
  2. Seres humanos são falíveis, na maioria das vezes mais por invigilância do que por maldade. Não podemos endeusar ninguém, sobretudo quando lembramos que médiuns são, em geral, Espíritos bastante faltosos no passado, que recebem a mediunidade como grata oportunidade de correção de seus desvios;
  3. Os Espíritos não nos atendem quando nós queremos, mas quando eles o querem;
  4. Os Espíritos não se prestam a responder coisas triviais e que estão ao nosso alcance e tampouco se prestam a provar aquilo que é facilmente verificável pela nossa inteligência, tanto quanto um homem de grande conhecimento não se presta a responder às questões já respondidas, às quais muitos não se lançam a pesquisar por pura preguiça.

Escribas e fariseus disseram a Jesus: “Mestre, muito gostaríamos que nos fizésseis ver algum prodígio.” Respondeu Jesus: “Esta geração má e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado outro senão o de Jonas.”

(Mateus, 12: 38 e 39.)