Devemos publicar tudo quanto dizem os Espíritos?

“Os sofrimentos do jovem Werther” trata-se de um romance epistolar de Goethe, de 1774, onde o seu protagonista, um rapaz da alta aristocracia alemã, troca correspondências com um amigo chamado Guilherme, contando sobre suas viagens e experiências cotidianas (vide ao parágrafo introdutório do artigo), até o encontro com a bela Charlotte.

Embora ambos, Werther e Charlotte, vivam, de fato, uma história de amor, o rapaz não pode ser correspondido completamente por sua amada, já que a mesma é casada com outro homem. Werther, por sua vez, não vê outra saída e põe um fim em sua vida, dando um tiro na própria cabeça. O momento de seu suicídio é um dos episódios mais comoventes do livro e, considerado por muitos, da história da literatura.

O tom realístico e perturbador do romance provocou uma verdadeira comoção entre os jovens da época, que atraídos pelo espírito passional e depressivo de seu respectivo protagonista, resolveram seguir o mesmo rumo, pondo fim em suas próprias vidas. Foi grande o número de suicídios relacionado à leitura do pequeno-grande romance de Goethe, tornando-se rapidamente uma obra maldita para a igreja. Na psicanálise criou-se um termo chamado Efeito Werther, em referência ao personagem e caracterizado por sua fenomenologia suicida.

E o que essa história tem a ver com os Espíritos? Ora, tudo! Goethe foi uma personalidade de um Espírito encarnado – Espírito esse que, aliás, posteriormente se mostrou muito arrependido das ideias lançadas às mentes desavisadas, quando, em 1859, evocado por Kardec, responde assim, conforme apresentado na Revista Espírita desse ano:

12. ─ Que pensais do Werther?

─ Agora lhe reprovo o desenlace.

13. ─ Não teria essa obra feito muito mal, exaltando paixões?

─ Fez, e causou desgraças.

14. ─ Foi a causa de muitos suicídios. Sois por isso responsável?

─ Desde que houve uma influência maléfica espalhada por mim, é exatamente por isso que sofro ainda e de que me arrependo.

Somos responsáveis por aquilo que dizemos e, se não podemos nos responsabilizar totalmente pelas ações que os outros tomem em decorrência das nossas próprias – posto que é da autonomia e da vontade do outro a escolha entre agir desta ou daquela forma – somos, ao menos, em grande parte responsáveis por induzir outras mentes nos erros das imperfeições que, muitas vezes, atrapalham a nós mesmos.

Seguimos, portanto, esta breve reflexão, apresentando, integralmente, um artigo de Allan Kardec, na Revista Espírita de novembro de 1859 – “Devemos publicar tudo quanto os Espíritos dizem”?

Esta pergunta nos foi dirigida por um dos nossos correspondentes.

Respondemo-la da maneira seguinte:

Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?
Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram na Terra o envoltório visível. Despojando-se, porém, do homem carnal, nem todos se revestiram, por isso mesmo, da túnica dos anjos. Há, portanto, Espíritos de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade. Eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, desatentos e brincalhões; falsos sábios, vãos e orgulhosos de um saber incompleto; hipócritas, malévolos e, o que nos pareceria inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia deste mundo, há sensuais, vilões e devassos que se arrastam na lama. Ao lado desses, assim como na Terra, há seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos e dotados de sublimes virtudes. Como, entretanto, o nosso mundo não está na primeira nem na última posição, embora mais vizinho da última que da primeira, disso resulta que o mundo dos Espíritos abrange seres mais avançados intelectual e moralmente do que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que estão em situação inferior à dos homens mais inferiores.

Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens e de exprimir os seus pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser efetivamente o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios.

De acordo com o caráter e a elevação dos Espíritos, as comunicações poderão ser levianas, triviais, grosseiras e até mesmo obscenas, ou marcadas pela elevação intelectual, pela sabedoria e pela sublimidade. Eles se revelam por sua própria linguagem. Daí a necessidade de não aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e de tudo submeter a um severo controle. Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poder-se-ia fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é prova disto. Dela pode-se dizer que uma senhora não a recomendaria como leitura à filha. Por isto, não a recomendamos aos nossos leitores.

Há pessoas que acham isto engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidade, mas que o guardem para si próprias. O que é ainda menos concebível é que se vangloriem de obter comunicações indecorosas. Isto é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Isto absolutamente não permite que façamos um julgamento apressado de sua moralidade atual, pois conhecemos pessoas afligidas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se presta o seu caráter. Entretanto, como todos os efeitos, este também deve ter uma causa, e se não a encontramos na existência presente, devemos procurá-la numa experiência anterior. Se essa causa não está em nós, está fora de nós. Contudo, há sempre um motivo para estarmos nessa situação, mesmo que esse motivo seja apenas a fraqueza de caráter. Conhecida a causa, de nós depende fazê-la
cessar.

Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá algum inconveniente em publicá-las? Se forem divulgadas pelo que valem, haverá apenas um mal menor. Se o forem a título de estudo do gênero, com as devidas precauções e com os comentários e as restrições necessárias, poderão até mesmo ser instrutivas, na medida em que contribuam para se conhecer o mundo espírita em todas as suas nuanças. Com prudência e habilidade, tudo pode ser dito. O mal está em apresentar como sérias, coisas que chocam o bom-senso, a razão ou asconveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa.

Para começar, tais publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de examiná-las e discernir o verdadeiro e do falso, principalmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem a oportunidade de tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita, porque, diga-se mais uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas notoriamente absurdas. Alguns poderão até mesmo ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, às quais atribuímos uma linguagem indigna delas. As pessoas que estudaram a fundo a ciência espírita sabem que atitude convém adotar em semelhantes casos. Sabem que os Espíritos zombeteiros não têm o menor escrúpulo de enfeitar-se com nomes respeitáveis, mas sabem também que esses Espíritos só abusam daqueles que gostam de se deixar abusar e que não sabem ou não querem destruir suas artimanhas pelos meios de controle já conhecidos. O público, que ignora isto, vê apenas uma coisa: um absurdo oferecido à sua admiração como se fosse coisa séria, e em razão disso diz para si mesmo que se todos os espíritas são como esse, não desmerecem o epíteto com que foram agraciados. Sem a menor dúvida, tal julgamento é precipitado. Vós acusais com justa razão os seus autores de leviandade e lhes dizeis: estudai o assunto e não examineis apenas uma face da medalha. Há, porém, tanta gente que julga a priori, sem se dar ao trabalho de erguer uma palha, principalmente quando não existe boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto lhes possa dar motivos para censuras, tendo em vista que se a má vontade juntar-se à malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas por encontrarem o que criticar.

Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas, tais publicações não terão mais influência do que hoje teria um livro de heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspecção, porque há comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em escala muito maior que os grosseiros ataques e as injúrias de certos adversários. Se algumas fossem feitas com tal objetivo, não teriam menor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, dando lugar, assim, a uma crítica fundamentada. Eles se queixam do julgamento temerário de seus antagonistas, sem atentar para o fato de que muitas vezes são eles mesmos que revelam seu ponto fraco. Aliás, a despeito de todas as precauções, seria presunção suporem-se ao abrigo de toda crítica, a princípio porque é impossível contentar a todo o mundo; depois, porque há os que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por sua condição, outros por seu caráter. Riem muito da religião. Não é, pois, de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos essas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação. Infelizmente, elas em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e muito menos pela lógica. Façamos, pois, o melhor que pudermos, trazendo para nosso lado a razão e a conveniência, e assim traremos para o nosso lado também os trocistas.

Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos, mas há uma não menos importante, pois se refere à própria natureza das comunicações espíritas, e por isso não devemos omiti-la. Os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, só podem emanar de Espíritos inferiores.

O simples bom-senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se veem complacentemente escutados. Ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e muitas vezes se apoderam deles e os dominam a ponto de fasciná-los e subjugá-los.

A importância que, pela publicidade, é dada às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de afastá-los é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo aquilo que não for racional; tudo aquilo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se serve. Então, quando vê que perde o seu tempo, ele se afasta.

Julgamos ter respondido satisfatoriamente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Esta é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que submetemos à apreciação daqueles que, desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de dizer a nossa maneira de pensar sobre a ciência que é objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, não pretendendo impor nossas ideias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham da nossa maneira de ver é porque creem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado e quem tem razão.

Se temos responsabilidade por nossas ações, não temos menos responsabilidade por propagar falsas ou danosas ideias, resultantes do pensamento alheio, por ostensiva ausência de cuidado e de estudo. Tratamos de Espiritismo, e esse assunto é sério. Não façamos menos, nessa matéria, do que o necessário, que é estudá-lo sem cessar, em todo seu contexto, nunca dando por afirmativas finais aquilo que não tenhamos encontrado concluído nas teses doutrinárias. Lembramos sempre que o próprio Allan Kardec deixou diversos assuntos em aberto, pela impossibilidade de avançar sobre eles, naquela época, mas exortamos para que isso não seja motivo para, levianamente, aceitar qualquer comunicação posterior como complemento desses assuntos, pois, sem o conhecimento e a metodologia necessária, cairíamos no erro de não observar tudo aquilo que Kardec apontou no texto acima, resumo de anos de estudo frente ao Espiritismo.

Também é de nossa opinião que “publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento”! Goethe tomou a decisão de publicar algo que foi fruto de sua mente – e, muito provavelmente, de outras mentes espirituais, que o induziram a tais ideias. E se essas mesmas mentes, ou o próprio Espírito de Goethe, nos comunicasse um romance de tal teor, por vias mediúnicas? Deveríamos simplesmente publicá-lo?

Note que, de forma alguma, este Grupo se coloca em tom de crítica quanto ao médium. Afinal, ele é a ferramenta de intercâmbio das ideias. O problema que aqui se destaca é no que tange à análise dessas comunicações e o uso que se faz delas e, por aí, pode o leitor imaginar o quanto lamentamos as diversas publicações de supostas cartas psicografadas ou mesmo livros que, indiscriminadamente, favorecem o espalhamento e a inculcação de falsas ideias ligadas aos dogmas da queda pelo pecado, do castigo divino, do apego às coisas da matéria mesmo no mundo espiritual, etc.




Aforismos espíritas sobre o suicídio

– o suicídio é um erro, é claro. Pode ser resultante de um grande desespero, de uma total ausência de fé no futuro – fruto do materialismo – pode ser fruto de um hábito – sempre que ele enfrenta uma dificuldade, ele escolhe desistir -, etc., mas o fato, visto já no estudo do primeiro ano da Revista Espírita (1858), é que não podemos atrelar a ação do suicídio a efeitos padronizados, como, por exemplo, dizer que esse espírito vai ficar sofrendo no “vale dos suicidas” (que não é um lugar, como muitos pensam). Cada caso é um caso. E, afinal, é um erro, como tantos outros. Não tem nada de “pecado maior” ou “crime maior” perante a Deus. Deus não cobra.

– Lembro, enfim, que o estudo sério da Doutrina Espírita em sua originalidade, afastada dos dogmas religiosos do pecado, da queda e do castigo, atrelados à sua irmã gêmea inseparável – a ciência do Magnetismo – conduziu e conduz muitos descrentes à fé raciocinada e à reconquista do ânimo pela vida.

– a Doutrina Espírita não é uma doutrina de falsas ideias, mas uma Doutrina que reconduz o Espírito à responsabilidade sobre si mesmo, pela autonomia e pela consciência.

– De resto, penso que a melhor forma de auxiliar alguém em estado de depressão ou desistência, é demonstrar que:

1. Ele não está sendo castigado por nada. Dores e tristezas, alegrias e prazeres são parte *da matéria*, e todos nós passamos por eles. Felicidade, porém, é conquista do Espírito, que caminha em direção ao bem e ao aperfeiçoamento de si mesmo, enquanto a infelicidade é fruto das imperfeições, desenvolvidas por ações autônomas e conscientes do Espírito, ligadas às sensações, aos prazeres e às paixões. Um Espírito feliz também passará por dores e tristezas, na carne, mas isso não definirá seu estado de felicidade ou infelicidade. Portanto, para podermos atingir a felicidade e a paz interior, precisamos aprender e nos colocar, com toda honestidade, sob análise constante de nós mesmos, buscando nos desapegar desses fatores que nos levam às imperfeições – lembrando que errar e aprender é uma coisa, todo mundo faz no processo de aprendizado, ao passo que errar e se apegar ao erro, num esforço consciente, por conta de prazeres e paixões é que é o grande problema.

2. As dificuldades enfrentadas, por vezes, são fruto das escolhas erradas, ainda nesta vida. Outras vezes, são planejadas como provas, com a finalidade de auxiliar a vencer uma imperfeição. De qualquer forma, são oportunidades que precisam ser encaradas, e o conhecimento espírita ajuda *demais* nesse processo.

3. Interromper uma vida através do suicídio direto ou indireto apenas fará com que o sofrimento *moral* se prolongue por mais tempo, pois, sendo ele originário das imperfeições, apenas cessará quando essas forem vencidas, pelo esforço autônomo e consciente.

4. Tentar ajudar alguém a vencer as ideias do suicídio através do medo, que surge das falsas ideias, é um erro, pois a pessoa que se acredita desgraçada ou mesmo pecadora já está desesperada. Ao invés disso, é necessário buscar auxiliá-la a raciocinar sobre a utilidade de cada segundo da vida encarnada para justamente vencer as imperfeições que lhe impedem de ser verdadeiramente feliz.

É preciso cuidado e estudar bastante. As falsas ideias estão atreladas à nossa educação espírita por mais de um século, mas não são parte original da Doutrina.

Por fim destaco a questão 957, de O Livro dos Espíritos, que vem apontar uma conclusão muito importante:

957. Quais, em geral, com relação ao estado do Espírito, as consequências do suicídio?

Muito diversas são as consequências do suicídio. Não há penas determinadas e, em todos os casos, correspondem sempre às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar: o desapontamento. Mas, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam.”

A observação, realmente, mostra que os efeitos do suicídio não são sempre os mesmos. Alguns há, porém, comuns a todos os casos de morte violenta e que são a consequência da interrupção brusca da vida. Há, primeiro, a persistência mais prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo, por estar quase sempre esse laço na plenitude da sua força no momento em que é partido, ao passo que no caso de morte natural ele se enfraquece gradualmente, e muitas vezes se desfaz antes que a vida se haja extinguido completamente. As consequências desse estado de coisas são o prolongamento da perturbação que se segue à morte e da ilusão em que, durante mais ou menos tempo, o Espírito se conserva de que ainda pertence ao número dos vivos. (155 e 165.)




As adulterações em A Gênese após a morte de Kardec: fato ou questão de ponto de vista?

Por Paulo Degering Rosa Junior

A interpretação de texto é dependente da chave de leitura utilizada pelo leitor“, disse-nos uma correspondente envolvida em estudos, ainda hoje, sobre evidências que sugeririam ou comprovariam que a 5.ª edição de A Gênese não foi uma adulteração.

Com certeza – respondo eu – a interpretação depende do conhecimento do leitor. É possível até mesmo não entender a autonomia – fundamento da moral espírita – e, pelo contrário, depreender os falsos conceitos, como aqueles ligados ao carma. O que eu não vejo como questão de interpretação, porém, é a REMOÇÃO de trechos tão essenciais e importantes da obra, como aquele do item 24 do cap. XVIII (“Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau…”) ou aquele que finaliza, na 4.ª edição, o item 19 do cap. III, a respeito dos instintos – “Todos os homens passam pelas paixões […]”. Além disso, temos a retirada ilógica do final do item 22 do cap. II, que explica o conceito da interação espiritual através do fluido perispiritual, indo em encontro à tese de Mesmer. Isso sem falar na carta manuscrita onde consta que, consultando os Espíritos, foi recomendado a Kardec que NADA fosse suprimido na nova edição.

Interessante, ademais, notar que se prende tanto às questões de A Gênese, fazendo um enorme silêncio sobre O Céu e o Inferno, que foi absurdamente destroçada, chegando a ficar contraditória., na 4.ª edição.

De verdade, eu não entendo como, ainda hoje, gasta-se tanto tempo nessa discussão que em nada agrega ao Espiritismo e à humanidade. Nós já sabemos que o Movimento Espírita foi completamente deturpado por pessoas como Leymarie, que também condenou o futuro da antes reconhecida Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; já sabemos da influência perniciosa de Roustaing e de seus discípulos; já sabemos das publicações dos discípulos leais de Kardec, que sinalizavam, em berros escritos, os fatos que se passavam então (conforme Beacoup de Lumière, de Berthe Fropo, amiga íntima do casal); sabemos, também, que se chegou ao ponto de queimarem-se manuscritos preciosos de Kardec, também pelas mãos de Leymarie; conhecemos os fatos amplamente apresentados por Simoni Privato, em O Legado de Allan Kardec. Apesar de tantos fatos e evidências, para alguns grupos é inconcebível que as obras citadas não tenham sido adulteradas, e gastam preciosos tempo e recursos em pesquisas que apenas apontam para evidências de que Kardec planejava novas edições – o que é mais que racional.

Enquanto isso, a compreensão do Espiritualismo Racional, do Magnetismo, da Educação e do Espiritismo – tudo muito intrinsecamente ligado – fica esquecida em terceiro plano, ao passo que o Movimento Espírita continua preso às falsas ideias, materialistas, vindas desde Aristóteles até os dias de hoje – as mesmas ideias que destroçaram a filosofia inatacável apresentada pela Doutrina Espírita. Respeito o tempo e a vontade de cada um, afinal, falamos de autonomia e, espero, hoje compreendemo-la. Mas não consigo ver, nisso tudo, senão mais uma forma de atrasar o passo da doutrina, enquanto, vivendo ainda na heteronomia, milhares de pessoas “esperam” um posicionamento oficial de órgãos como a FEB, a respeito não só das adulterações das obras, mas do reconhecimento da distância que tomaram da essência filosófica, científica e moral do Espiritismo.

É isso.


Hoje, 25 de agosto de 2022, é o primeiro aniversário do Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec. Nesse último ano, com a cooperação imprescindível de companheiros valorosos, o Grupo felicita-se de ter aprendido tanto, se desenvolvido tanto e de, a cada dia mais, se tornar mais útil pela compreensão da essência verdadeira – moral, científica e filosófica – do Espiritismo.

O Grupo nasceu justamente após a leitura de O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, que nos acendeu o alerta sobre os fatos que regularmente vimos destacando e comentando e esperamos que, daqui em diante, tenhamos forças e possibilidades de auxiliar cada vez mais na disseminação do verdadeiro caráter da Doutrina Espírita, afastado das falsas ideias, materialistas e dogmáticas.

Espiritismo não tem “lei do retorno”, “lei de ação e reação”, “carma”, “quitação de dívidas” ou qualquer ideia ligada ao dogma da queda pelo pecado; o Espiritismo demonstra que o Espírito é o autor, o fator determinante da vontade, não estando submetido – embora seja influenciado – pela matéria. Demonstra, acima de tudo, o princípio da autonomia e do livre-arbítrio, afastado dos falsos conceitos de um Deus punitivo ou de um diabo inquisidor.

Estudemos!




Voltando a André Luiz e “Nosso Lar”

Um correspondente nosso destacou a disparidade entre o que conta André Luiz, a respeito de todo o cenário por ele descrito, do mundo espiritual, e o que diz Allan Kardec, no trecho citado, extraído da Revista Espírita de 1859. Repetimos abaixo os trechos citados:

“Mostrou desejo de alimentar-se e foi imediatamente atendida com caldo quente e reconfortante, que lhe calhou gostosamente ao paladar …”

André Luiz – E a vida continua

“O Espirito não experimenta fadiga nem necessidade de repouso ou de nutrição, porque não tem nenhuma perda a reparar. … Os Espíritos inferiores tem todas as paixões e desejos que tinham em vida – e seu castigo é não os poder satisfazer.”

Kardec – Revista Espírita – Abril de 1859

Se faz digno de nota a observação que o livro “E a Vida Continua”, de André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier, é o último livro da série que se iniciou com Nosso Lar. Quero dizer: é interessante que as ideias apresentadas por esse Espírito não se alteraram ao londo de todas essas publicações, que supostamente refletem um certo tempo, com várias vivências e aprendizados, conforme relatado por ele mesmo, previamente. Chegado a esse ponto, esse Espírito permanece apresentando ideias que estão em contrário àquilo que formou a Doutrina Espírita – o estudo metodológico da universalidade das comunicações dos Espíritos.

Por que será que isso se deu? Por que será que, durante todo esse tempo, esse Espírito não aprendeu a realidade do mundo Espiritual? Suponho razoável aceitar que Espíritos mais esclarecidos não choquem àqueles que estão ainda nas ilusões dos apegos materiais, fato pelo qual eles poderiam mesmo prover “sopinhas” aos Espíritos que, nesse estado, as solicitassem. Daí, contudo, a ditar toda uma obra psicográfica, tida como “complementar” à Doutrina, sem esclarecer ao leitor a realidade dos fatos, vai uma longa distância.

Dito isso, prossigamos.

Aqui, é interessante cuidar para não tomar a exceção como regra, por um lado, e, por outro, pela regra geral, inadmitir a exceção. O Movimento Espírita toma, atualmente, as comunicações isoladas, repletas de ideias próprias, falsas ideias e ilusões, como regra da lei natural, ao passo que Kardec estudou, nas milhares de comunicações com os Espíritos, os fundamentos desse e de outros aspectos da lei natural.

Quando Kardec afirma que o Espírito não experimenta fadiga nem necessidade de repouso ou de nutrição, quer dizer que, como aspecto da lei natural, realmente, o Espírito não tem NENHUMA das nossas necessidades físicas, nem emoções, que são do corpo, nem dor. Contudo, ele mesmo se comunicou com vários Espíritos que declaravam tais necessidades ou sensações. Na Revista Espírita de dezembro de 1858, o artigo Sensações dos Espíritos fala um pouco sobre isso, iniciando pela citação da comunicação de um Espírito que veio se reunir a eles, ao redor da lareira, reclamando de frio.

Acontece, é claro – e nisto eu insisto em chamar todos ao estudo – que o Espírito, como nós, cria para si próprio as sensações oriundas de seu estado de apego e/ou de sofrimento MORAL – repito: M-O-R-A-L! Assim como nós podemos criar dores e doenças pelo corpo, através do processo psicossomático, o Espírito sofredor ou apegado faz o mesmo com seu corpo espiritual – o perispírito – com a diferença que, para nós, o processo de reversão é mais dificultoso, ao passo que, para o Espírito, tudo depende tão-somente da mudança de seu pensamento.

Por todo o estudo sério e profundo de Allan Kardec, fica evidente que é – repito – o grau de apego às coisas da matéria e às falsas ideias, aliado, quase sempre, a um sofrimento moral, que cria tais ilusões ao Espírito, ilusões essas que são permitidas por Deus, já que Ele não nos faz progredir a golpes, mas garante o tempo e a autonomia a cada um.

Adiciono, por fim, que esse é o grande problema do M.E. atual: incutir nas ideias da massa os APEGOS à matéria, baseados não no estudo sério, mas nas opiniões isoladas, promovendo, assim, ao invés de um despertar do Espírito, um apego continuado às ideias da matéria, que ENTRAVAM o progresso espiritual, já que o Espírito, ao deixar a carne, ao invés de se ver consciente de si mesmo e buscar avaliar seu estado, suas escolhas, etc, pelo contrário, se coloca a pensar se vai para Nosso Lar ou Umbral, se vai ganhar uma casinha para descansar (sic!), se vai ganhar sopinha, se vai se alimentar de caldos ou da carninha que ele gostava… Entende o problema?

Enfim: é o tempo e a cabeça de cada um. Cito o artigo “Sobre os Espíritos que se creem ainda vivos”, da Revista Espírita de 1864:

“Nem tudo é prova na existência; a vida do Espírito continua, como já vos foi dito, desde seu nascimento até o infinito; para uns, a morte não é senão um simples acidente que não influi em nada sobre o destino daquele que morre. Uma telha caída, um ataque de apoplexia, uma morte violenta, muito frequentemente, não fazem senão separar o Espírito de seu envoltório material; mas o envoltório perispiritual conserva, pelo menos em parte, as propriedades do corpo que acaba de sucumbir. Num dia de batalha, se eu pudesse vos abrir os olhos que possuis, mas dos quais não podeis fazer uso, veríeis muitas lutas continuarem, muitos soldados subir ainda ao assalto, defender e atacar os redutos; vós os ouviríeis mesmo produzir seus hurras! e seus gritos de guerra, no meio do silêncio e sob o véu lúgubre que segue um dia de carnagem; o combate acabou, eles retornam aos seus lares para abraçar seus velhos pais, suas velhas mães que os esperam. Algumas vezes, esse estado dura muito tempo para alguns; é uma continuação da vida terrestre, um estado misto entre a vida corpórea e a vida espiritual. Por que, se foram simples e sábios, sentiriam o frio do túmulo? Por que passariam bruscamente da vida para a morte, da claridade do dia à noite? Deus não é injusto, e deixa aos pobres de Espírito esse gozo, esperando que vejam seu estado pelo desenvolvimento de suas próprias faculdades, e que possam passar com calma da vida material à vida real do Espírito.”




Escala Espírita: que Espírito sou eu?

Kardec construiu e apresentou, na Revista Espírita de 1858 e no livro dos Espíritos, a Escala Espírita (clique aqui para Escala Espírita de 1858 ). Ele a elaborou para nós identificarmos melhor os Espíritos que se comunicavam pelos médiuns, facilitando, assim, o entendimento e teor das comunicações.

Porém, ao se deparar com o item 100 do Livro dos Espíritos com a Escala Espírita, todo mundo fica procurando seus defeitos e qualidades nela… E se pergunta: Qual classe eu estou? Serei um Espírito que tenho muito a evoluir ou serei eu um Espírito já apto para ensinar e arriscar novos horizontes?

Pixabay Jerzy Gorecki

Alguns pontos importantes podem ser esclarecidos para nós entendermos melhor em qual estágio nos encontramos. Vamos a eles…

Deus é o criador de todas as coisas.

Segundo as comunicações dos Espíritos, há 3 elementos gerais no Universo: Deus, a matéria e os Espíritos.

Deus, a matéria e os Espíritos. Essas três coisas são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal.

Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 27

Os Espíritos também nos ensinaram, a partir das diversas comunicações, o entendimento da criação contínua da matéria e dos Espíritos por Deus:

Assim se faz a criação universal. É, pois, correto dizer que as operações da natureza, sendo a expressão da vontade divina, Deus sempre criou, cria incessantemente e nunca deixará de criar.

Allan Kardec. A GÊNESE – Os milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, capítulo 2 – Deus – item 18

Podemos deduzir, então que na Antiguidade, na época de Cristo, na idade média, Renascimento, enfim, SEMPRE existiram entre nós almas de todas as classes: desde as mais simples ignorantes até os Espíritos mais adiantados, superiores. Isso significa que sempre vamos ter no nosso convívio almas encarnadas que nos ensinam a sermos Espíritos melhores, assim como há outras inferiores a nós que podemos auxiliar para seu progresso. As almas que são do mesmo grau de adiantamento nos acompanham no nosso aprendizado, sempre em cooperacão.

São Vicente de Paula diz exatamente isso em sua comunicação publicada na RE de 1859:

Jamais vos esqueçais de que o Espírito, seja qual for o seu grau de adiantamento e a sua situação, como reencarnado ou na erraticidade, está sempre colocado entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, perante o qual tem os mesmos deveres a cumprir.

Kardec, Allan. Revista Espírita 1859 (pp. 476)

E ele ainda acrescenta:

Sede, pois, caridosos, não somente dessa caridade que vos leva a tirar do bolso o óbolo que dais friamente àquele que ousa pedir, mas ide ao encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes para com os defeitos de vossos semelhantes. Em lugar de desprezar a ignorância e o vício, instrui-os e moralizai-os. Sede mansos e benevolentes para com tudo que vos seja inferior. Sede-o mesmo perante os seres mais ínfimos da Criação, e tereis obedecido à Lei de Deus.

Kardec, Allan. Revista Espírita 1859 (p. 477)

Blender:File:/home/linux3dcs/prj/Vicente_de_Paulo_201510/Reconstruction_5.blend

Entendemos, a partir dos ensinamentos de São Vicente de Paula, que nós não devemos nos preocupar em que ponto da Escala Espírita nosso Espírito estamos, mas em como podemos contribuir para acelerar o nosso progresso e o progresso de todos os que se encontram na nossa jornada!




Somos todos Espíritos imperfeitos?

Nem todos somos imperfeitos. Essa é uma falsa ideia, quando entendida sob um determinado ângulo, como vamos demonstrar.

O Espiritismo demonstra, complementando o Espiritualismo Racional, que a imperfeição é algo desenvolvido pela repetição consciente (hábito) do erro. Ao se tornar imperfeição (chama-se “imperfeição adquirida”), pode até se tornar um vício, que demandará o esforço autônomo e também consciente para ser superado, através da escolha de provas e oportunidades em novas encarnações.

É nisso que consiste o mal: afastar-se do bem, que é a moral das leis divinas, através do desenvolvimento de imperfeições. E nem todos fazem isso. O Espírito que não desenvolveu imperfeições, ou aquele que está lutando bravamente para superá-las, está no bem ou caminhando para ele… E isso o fortalece o suficiente para vencer, também, influências exteriores, e até mesmo para repeli-las.

Mas há também o aspecto da imperfeição partindo do ponto de vista que somos todos perfectíveis. Assim, enquanto não nos tornamos Espíritos relativamente perfeitos (porque perfeito, mesmo, somente Deus pode ser), seremos imperfeitos.

Ambos os aspectos do termo são tratados por Kardec na Doutrina Espírita, e podemos provar:

Os que não se interessam apenas pelos fatos e compreendem o aspecto filosófico do Espiritismo, admitindo a moral que dele decorre, mas sem a praticarem. A influência da Doutrina sobre o seu caráter é insignificante ou nula. Não modificam em nada os seus hábitos e não se privariam de nenhum de seus prazeres. O avarento continua insensível, o orgulhoso cheio de amor-próprio, o invejoso e o ciumento sempre agressivos. Para eles, a caridade cristã não passa de uma bela máxima. São os espíritas imperfeitos.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 23a Edição. Editora LAKE

O trecho consta da parte em que Kardec está classificando os tipos de espíritas. Ora, não haveria porque classificar uma parte deles como “imperfeitos” se somos todos imperfeitos. Isso demonstra que, nesse ponto, Kardec está tratando das imperfeições adquiridas, conforme explicadas acima.

Falamos também sobre isso no artigo recente Reforma íntima e Espiritismo e, no estudo abaixo, o tema foi tratado em grupo.

É fato: estamos longe da perfeição. Na verdade, nunca atingiremos a perfeição absoluta, pois, se atingíssemos, seríamos como Deus. Atingiremos a perfeição relativa… Porém, isso não nos faz imperfeitos, mas apenas relativamente simples e ignorantes, isto é, desenvolvendo ainda a vontade e a consciência.

Em O Céu e o Inferno, na versão original e não adulterada (vide a edição produzida pela editora FEAL), essa filosofia está claramente exposta, em toda a sua racionalidade inatacável; contudo, desde o início da formação da Doutrina, essa informação já era conhecida. Basta verificar a Escala Espírita, em O Livro dos Espíritos, e veremos que, na Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos, estão apenas os Espíritos que desenvolveram imperfeições: “Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes”. E basta raciocinar: nem todo mundo desenvolve essas imperfeições, porque alguns podem escolher não repetir os erros, como já se encontra expresso em O Livro dos Espíritos:

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Mas como pode se dar isso?

Para entender esse fundamento da lei natural, precisamos compreender que o Espírito simples e ignorante é aquele em sua primeira encarnação consciente, no reino humano. Nesse estado, recém-saído do reino animal, guarda ainda todos os resquícios do instinto, que o governaram inconscientemente até então, no bem, porque o bem é estar na lei natural, e o animal que mata o outro para se alimentar está seguindo a lei natural, agindo apenas para suprir suas necessidades instintivas, com inteligência, mas sem consciência. Ao entrar no reino do homem, o Espírito consciente passa a fazer escolhas — não entre bem e mal, mas entre agir desta ou daquela forma. Essas escolhas produzirão resultados, que poderão configurar um acerto — estão dentro da lei divina — ou um erro — estão fora da lei divina, isto é, excedem a necessidade racional. O indivíduo pode, então, escolher não repetir esse erro, mas pode também escolher repeti-lo, pois é algo que, de alguma forma, lhe agrada às emoções ou lhe dá prazer. É nesse momento que desenvolve a imperfeição, se repete o erro constantemente. Mas ele pode também escolher não repetir o erro, pois percebe que lhe causa um mau efeito. Nesse sentido, ele é feliz em suas simplicidade e ignorância, sendo essa felicidade relativa à sua capacidade atual.

Isso também está em Kardec, em A Gênese:

“Se estudarmos todas as paixões, e até mesmo todos os vícios, vemos que eles têm seu princípio no instinto de conservação. Esse instinto, em toda sua força nos animais e nos seres primitivos que estão mais próximos da vida animal, ele domina sozinho, porque, entre eles, ainda não há de contrapeso o senso moral. O ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto enfraquece, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque domina a matéria. Com a inteligência racional, nasce o livre-arbítrio que o homem usa à sua vontade: então somente, para ele, começa a responsabilidade de seus atos”.

Na versão original dessa obra, conforme apresentada na edição da editora FEAL, Kardec complementa, dizendo que:

“Todos os homens passam pelas paixões. Os que as superaram, e não são, por natureza, orgulhosos, ambiciosos, egoístas, rancorosos, vingativos, cruéis, coléricos, sensuais, e fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é porque progrediram na sequência de suas existências anteriores, tendo se livrado desse incômodo peso. É injusto dizer que eles têm menos mérito quando fazem o bem, em comparação com os que lutam contra suas tendências. Acontece que eles já alcançaram a vitória, enquanto os outros ainda não. Mas, quando alcançarem, serão como os outros. Farão o bem sem pensar nele, como crianças que leem correntemente sem ter necessidade de soletrar. É como se fossem dois doentes: um curado e cheio de força enquanto o outro está ainda em convalescença e hesita caminhar; ou como dois corredores, um dos quais está mais próximo da chegada que o outro.”

Então, aquele que desenvolveu uma imperfeição é inferior aos que não as desenvolveram? É um mau Espírito? Deve ser castigado por isso? Não, não e não!

Aquele que desenvolveu uma imperfeição, o fez por não conhecer, em realidade, o bem, caso contrário teria agido adversamente. É apenas um erro — repetido conscientemente — e não passa disso. Não é uma característica do Espírito. Deus não cria ninguém mau, nem cria o mal. O mal não existe! É apenas a ausência do bem. É claro, portanto, que Deus não castigaria um filho seu por errar. Não: ele lhe dá a capacidade de raciocinar e a autonomia, de modo que ele mesmo possa perceber que os resultados de seus erros lhe causam sofrimento e, percebendo isso, se arrependa e demande a correção dessas imperfeições.

É nesse ponto que o espiritualismo moderno e o movimento espírita atual divergem da moral espírita original: para esses, ao entender o erro, o Espírito é obrigado a reparar OS EFEITOS, enquanto, para o último, o Espírito é deixado livre para escolher como e quando tentará reparar A IMPERFEIÇÃO (em si), o que pode ou não envolver a reparação de efeitos danosos que tenha realizado.

Aqui, cabe uma conclusão: a doutrina da “lei do retorno” ou do carma, que nunca fez parte do Espiritismo, afirma que, ao fazer mal para uma pessoa, teremos que reencarnar com ela para reparar esse erro. Contudo, já ficou estabelecido que o mal fazemos apenas para nós mesmos — se, ao cometer um erro com alguém, esse alguém escolhe cultivar um sentimento de cólera, ódio ou vingança, está fazendo o mal a si mesmo. Cabe, portanto, à autonomia de cada um se desapegar de tais sentimentos. Se o algoz fosse obrigado a reencarnar com sua vítima para reparar um erro e, por mais que se esforçasse por ter uma atitude irrepreensível no bem, a vítima escolhesse não desapegar de tais sentimentos, quer dizer que o erro não teria sido pago e demandaria quantas encarnações fossem necessárias para isso, vinculando o progresso do outro, que já voltou ao bem, à escolha do outro? E se, por outro lado, a vítima não se apegou, seguiu em frente, mas o algoz continua em suas imperfeições? Ela terá que reencarnar com ele para que ele, que ainda nem sequer entendeu seu sofrimento, “quite suas dívidas”? Não faz sentido!

Voltando ao nosso ponto, falávamos do retorno do Espírito ao bem. Em O Céu e o Inferno (editora FEAL, baseado na versão original, não adulterada), temos o seguinte:

“8º) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem”.

Sendo o castigo – ou a punição, pois não sabemos ao certo qual foi a intenção da palavra original – uma consequência do erro realizado, será um verdadeiro castigo o sofrimento inerente às imperfeições. Não é uma punição arbitrária divina, mas uma consequência da lei natural. Não há condenação: tudo depende da vontade do indivíduo em arrepender-se e demandar a reparação da imperfeição, retornando, assim, ao bem.

Finalizamos reproduzindo, uma vez mais, a recomendação de Paul Janet ((Em Pequenos Elementos de Moral, disponível aqui para download.)) a repeito dos hábitos:

É verdade que os hábitos se tornam, com o tempo, quase irresistíveis. É um fato observado com frequência; mas, por um lado, se um hábito inveterado é irresistível, o mesmo não ocorre com um hábito que começa; e assim o homem permanece livre para prevenir a invasão dos maus hábitos. É por isso que os moralistas nos aconselham acima de tudo a vigiar a origem de nossos hábitos. “Toma sobretudo cuidado com os inícios.”




Rivail e educação: “O castigo irrita e impõe. Não educa pela razão.”

Allan Kardec, antes desse pseudônimo, já produzia textos sobre a educação. É claro que seus pensamentos se modificaram e se ampliaram após o advento do Espiritismo, mas, como Hypolite Leon Denizard Rivail, muitos deles já apresentavam uma lucidez de raciocínio invejável.


Muito falamos em heteronomia e autonomia, e muito destacamos o quanto as doutrinas religiosas, adulteradas pelos cleros, e também a doutrina materialista, exercem de influência perniciosa na propagação do pensamento heterônomo. Contudo, convenhamos que, em se tratando de doutrinas, são efetivamente mais presentes na fase pós-infantil, quando o indivíduo tem a razão mais desenvolvida.

Há, contudo, um gênero de [má] educação que afeta o indivíduo desde seus primeiros passos e por toda sua infância, habituando-o aos hábitos heterônomos: aquela comumente reproduzida, irrefletidamente, pela família e pela escola, ainda hoje baseada na punição de erros pelo castigo – das mais diversas formas – e na formação de uma cultura de disputa e do “jeitinho”, isto é, de contornar as regras para vencer, posto que este se tornou o único objetivo.

Reproduziremos, muito sucintamente, uma parte do texto de Rivail, apresentado no Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública (clique aqui para baixar), que exprime muito bem algumas considerações a tal respeito.


“Há hábitos de três naturezas diferentes: são eles físicos, intelectuais ou morais. Os primeiros são os que modificam mais particularmente nossa constituição animal; os segundos consistem na posse mais ou menos perfeita de uma ciência. Assim, por exemplo, aquele que está muito familiarizado com uma língua, a fala sem esforço e sem pensar; aquele que possui perfeitamente a matemática, faz seus cálculos sem dificuldades: é isto que se pode chamar ter o hábito de uma ciência; e diga-se de passagem, é a aquisição do hábito, que se negligencia, no método comum; limita-se geralmente a uma teoria muito fugidia, que apenas roça o espírito. Por fim, os hábitos morais são aqueles que nos levam, mau-grado nosso, a fazer qualquer coisa de bom ou de mau.

A fonte desses últimos hábitos se acha, dissemos nós, nas impressões longamente ressentidas ou percebidas na infância. Concebe-se, assim, o quanto importa evitar cuidadosamente tudo o que possa fazer a criança experimentar impressões perigosas; mas não encaro apenas como más impressões, o exemplo do vício, os maus conselhos ou as conversações pouco adequadas; ninguém duvida dos funestos efeitos de semelhantes modelos e não há mãe de família que não coloque todos os seus cuidados em evitá-los; mas há um grande número de outras, minúcias em aparência, e que não deixam de exercer uma influência frequentemente mais perniciosa que o feio espetáculo do vício, de que se pode mesmo às vezes tirar partido para se fazer conceber o seu horror; quero sobretudo falar daquelas que a criança recebe diretamente nas suas relações com as pessoas que a cercam, que, sem lhe dar nem maus exemplos, nem maus conselhos, dão, porém, nascimento a vícios muito graves, como os pais, por sua fraqueza ou os mestres por uma rigidez mal entendida ou quando se toma pouco cuidado em apropriar a sua conduta ao caráter da criança quando se cede, por exemplo, às suas importunações, quando se tolera seus defeitos sob vãos pretextos, quando se submete aos seus caprichos, quando se lhe deixa perceber que se é vítima de suas artimanhas, quando não se sabe o móvel que a faz agir, e que assim se toma defeitos ou germes de vícios por qualidades, o que acontece frequentemente aos pais; quando não se leva em consideração as circunstâncias sutis que podem modificar tal ou qual ação da criança, quando sobretudo não se leva em conta as nuanças de caráter, faz-se que ela experimente impressões que são frequentemente a fonte de vícios muito graves. Um sorriso, quando seria preciso ser sério; uma fraqueza quando seria preciso ser firme; a severidade quando seria preciso a doçura; uma palavra sem pensar, um nada, enfim, bastam às vezes para produzir uma impressão indelével e para fazer germinar um vício.
Que se passará então quando essas impressões forem ressentidas desde o berço, e frequentemente durante toda a infância? Nesse aspecto, o sistema de punições é uma das partes mais importantes a serem consideradas na educação; pois elas são comumente a fonte da maior parte de defeitos e vícios. Frequentemente muito severas ou infligidas com parcialidade e num momento de mau-humor, elas irritam as crianças em vez de convencê-las. Quantas artimanhas, quantos meios de desvio, quantas fraudes não empregam elas para as evitar! É assim que se joga nelas as sementes da má-fé e da hipocrisia e este é muitas vezes o único resultado que se obtém. A criança irritada, e não persuadida, se submete somente à força; nada lhe prova que ela agiu mal; ela sabe apenas que não agiu conforme a vontade do mestre; e esta vontade ele a considera, não como justa e razoável, mas como um capricho e uma tirania; ela se acredita sempre submetida ao arbítrio.

Como se faz com que ela sinta comumente mais a superioridade física do que a superioridade moral, ela espera com impaciência ter ela própria bastante força para se subtrair a isso; daí este espírito hostil que reina entre os mestres e os seus alunos. Não há entre eles nenhuma confiança recíproca, nenhum apego; há ao contrário uma troca contínua de ardis; leva a melhor quem é bastante esperto para surpreender o outro e sabe-se já quem ganha o mais frequentemente. São dois partidos que, quando não estão em guerra aberta, estão continuamente desconfiando um do outro. Como é possível fazer uma boa educação em semelhante estado de coisas?

RIVAIL, H.L.D. Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública. Paris, 1828.


Constatamos o quão importante é resgatar essa base educacional, pautada pela moral. Adicionamos a importância de entender a moral trazida por pensadores como Paul Janet (clique aqui para baixar uma de suas obras). Se você gostou deste artigo e vê sua importância, faça mais: compartilhe-o com quem você puder!




O que o Espiritismo diz sobre a pornografia?

O que o Espiritismo tem a dizer sobre a pornografia? Esse é um assunto complicado, porque não é um assunto que tenha sido tratado diretamente pela Doutrina. Para falar sobre isso, precisamos extrapolar conhecimentos e entendimentos que a Doutrina nos dá.

O Espiritismo coloca, acima de tudo, a liberdade de consciência e a autonomia. Fique isso constado, como resultado do estudo da Doutrina Espírita em seu conteúdo moral e filosófico.

À parte desse princípio, vamos verificar no Espiritismo, desenvolvendo o pensamento do Espiritualismo Racional, que o homem pode adquirir maus hábitos pela repetição de um ato relacionado ao prazer. Isso pode se transformar em uma imperfeição, que se torna um vício, do qual muito custará ao Espírito o trabalho de superação, através do esforço reencarnatório CONSCIENTE e AUTÔNOMO.

Paul Janet fala sobre isso em Pequenos Elementos de Moral, o qual recomendo muito a leitura (clique aqui para baixar):

20 Os hábitos. – É verdade que os hábitos se tornam, com o tempo, quase irresistíveis. É um fato observado com frequência; mas, por um lado, se um hábito inveterado é irresistível, o mesmo não ocorre com um hábito que começa; e assim o homem permanece livre para prevenir a invasão dos maus hábitos. É por isso que os moralistas nos aconselham acima de tudo a vigiar a origem de nossos hábitos. “Toma sobretudo cuidado com os inícios.”

O grande problema de entrar nos hábitos materialistas – que são aqueles que sobrepujam as necessidades fisiológicas – é que, desenvolvendo apegos, não só nos será mais difícil e dolorosa a desligação da matéria, no momento da morte, como também atrairemos as “nuvens de testemunhas”, Espíritos também apegados a tais vícios. Normalmente, isso nos levará a viver num contexto espiritual e social conturbado e difícil.

Mas, veja: não existe pecado. Existe erro. Ninguém será castigado por errar, nem por escolher, conscientemente, se apegar a um vício ou mau hábito qualquer; contudo, os resultados de nossas escolhas podem ser danosos para nós, o que podemos chamar de punição, o que, de todo, não é uma imposição deliberada de Deus.

Cumpre destacar que ninguém deveria se martirizar por uma imperfeição ou mau hábito qualquer a ponto de ficar mal. É preciso o trabalho de formiguinha, talvez lento, mas constante, de modo a não fazer como aqueles que prometem não comer doces no novo ano, mas, sendo um compromisso muito pesado, falem após os primeiros dias, dizendo, então: “não sou forte, é impossível. Vou, portanto, comer tudo o que quiser, sempre que quiser”. Essa figura, aliás, representa a exata imagem da não utilização da razão para conter o instinto. Kardec, em A Gênese, complementa:

O homem que só pelo instinto agisse constantemente poderia ser muito bom, mas conservaria adormecida a sua inteligência. Seria qual criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse utilizar-se de seus membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteligente, porém, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.

Todos os homens passam pelas paixões. Os que as superaram, e não são, por natureza, orgulhosos, ambiciosos, egoístas, rancorosos, vingativos, cruéis, coléricos, sensuais, e fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é porque progrediram na sequência de suas existências anteriores, tendo se livrado desse incômodo peso. É injusto dizer que eles têm menos mérito quando fazem o bem, em comparação com os que lutam contra suas tendências. Acontece que eles já alcançaram a vitória, enquanto os outros ainda não. Mas, quando alcançarem, serão como os outros. Farão o bem sem pensar nele, como crianças que leem correntemente sem ter necessidade de soletrar. É como se fossem dois doentes: um curado e cheio de força enquanto o outro está ainda em convalescença e hesita caminhar; ou como dois corredores, um dos quais está mais próximo da chegada que o outro.”

Kardec, A Gênese, 4.ª edição — Editora FEAL




A distância entre o Espiritismo e o Movimento Espírita

Uma correspondente questionou a respeito do que seria essa suposta distância, por nós sempre afirmada, entre a Doutrina Espírita e o Movimento Espírita.

A ela, podemos responder desta forma, para exemplificar para todos:

“B…, isso é algo que cada um precisa realmente estudar ou buscar se informar, principalmente sobre as obras citadas ((

  • No sentido das alterações doutrinarias: O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato; Nem Céu Nem Inferno, de Paulo Henrique de Figueiredo; Ponto Final, de Wilson Garcia
  • No sentido do conhecimento sobre o contexto doutrinário: Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo, de Paulo Henrique de Figueiredo;
  • No entendimento real da Doutrina, na essência proposta por Kardec, através dos estudos: O Céu e o Inferno e A Gênese, ambos da editora FEAL, pois os outros são as versões adulteradas, ainda.)) , porque compreender e, daí, assumir novo posicionamento, precisa ser uma ação autônoma. Contudo, posso ressaltar algumas diferenças capitais entre Doutrina Espírita (DE) e Movimento Espírita atual (ME):

  • Evocações dos espíritos: DE foi formada sobre elas e demonstrou a necessidade de serem realizadas, com método, para continuar seu desenvolvimento; ME recomenda não fazer, provocando uma onda de médiuns que ficam apenas “à disposição”, portanto, sem controle nem objetivo de aprendizado.
  • Generalidade do ensino: DE demonstrou a necessidade de desenvolver o estudo espírita através do método do duplo controle: universalidade e concordância do ensino e julgamento racional; ME, contagiada por Roustaing, que via um perigo nesse método (que desmentiria suas teorias), passou a tomar comunicações isoladas como expressão da verdade, sem raciocinar.
  • Vida do Espírito na erraticidade: DE demonstrou que emoções e sensações físicas somente existem para o Espírito apegado; ME passou a ensinar um mundo espiritual totalmente materializado, criando, assim, ideias de apego nocivas ao Espírito que desencarna.
  • Necessidade da encarnação: DE demonstrou que a encarnação é uma necessidade para o progresso do Espírito, na qual ele, mesmo que involuntariamente, faz seu papel solidário na criação. Afastou os conceitos de castigo e punição como uma ação arbitrária de Deus, demonstrando que tudo é fruto da escolha do Espírito consciente; ME, sob influência roustainguista, inseriu os falsos conceitos de carma, resgate, lei de ação e reação e lei do retorno.
  • Heteronomia x autonomia: DE demonstrou, em toda ela, que o Espírito se desenvolve de forma autônoma, sendo ele o autor primeiro, senão o único, de suas escolhas; ME, influenciada por Roustaing, passou a tratar da vida de forma heterônoma – se sofro é porque estou recebendo o retorno; se tenho alegria é porque fui abençoado, etc.
  • Caridade: DE demonstrou que a caridade é uma ação desinteressada, fruto do dever do Espírito que, conscientemente, se move em direção ao bem; ME passou a tratar da caridade como uma ação externa, quase sempre apenas material. Por ausência de estudos da DE, ME deixa de fazer o bem que poderia fazer para auxiliar no desenvolvimento da sociedade pelas ideias espíritas.
  • Moral: DE demonstrou que, todos criados simples e ignorantes, os Espíritos se desenvolvem errando e acertando, através das encarnações, escolhendo entre agir desta ou daquela forma. Não há dualidade entre bem e mal. Alguns escolhem repetir o erro, desenvolvendo imperfeições das quais muito custarão a se desvencilhar, através do trabalho reencarnatório, em uma ação consciente e autônoma; ME, influenciada por Roustaing, passou a tratar da encarnação como um castigo, como se todos os Espíritos que encarnam fossem imperfeitos.
  • Método: DE sempre demonstrou a forma como ela própria se desenvolveria: pelo estudo das ciências humanas, confrontadas, pela razão, com os ensinamentos espíritas, na troca de informações com grupos idôneos espalhados por todo o mundo; já a ME praticamente não estuda os fundamentos da DE, se isolou nos centros em rotinas que compreendem: monólogos, quase sempre recheados de todos os erros apontados anteriormente; passes, sem conhecimento do magnetismo; e sessões mediúnicas que, sem método e sem estudos, perdem o propósito e a utilidade que realmente poderiam ter.

E por aí vai.”

Vemos que as diferenças entre a Doutrina Espírita, em sua origem, e o que hoje professa ou acredita o Movimento Espírita, são profundas e, quase sempre, danosas à propagação da Doutrina. Cabe, portanto, o esforço voluntário de cada um no estudo honesto e desapegado, bem como na divulgação fraterna e cooperativa do conhecimento.

Complementando as obras citadas, não podemos deixar de apontar a necessidade do estudo da Revista Espírita, que demonstra como se deu a formação da Doutrina Espírita.




Perturbação Imediata Após Morte

Todos nascemos! Todos vamos morrer!

Desta verdade da vida, vem a preocupação do momento da morte. São sempre assuntos recorrentes.

Neste artigo, não pretendemos encerrar o assunto, muito pelo contrário! Estamos somente trazendo uma parte bem pequena desse vasto assunto. Afinal, todos vamos experimentar este acontecimento.

Os Espíritos explicaram que, no momento da morte, nem todos os Espíritos passam pelos mesmo processo. Cada ser é uma consciência diferente da outra. Assim, O Livro dos Espíritos traz as seguintes conclusões em seu capítulo III – Retorno da Vida Corpórea à Vida Espiritual:

163. Deixando o corpo, a alma tem imediata consciência de si mesma? – Consciência imediata não é o termo: ela fica perturbada por algum tempo.

164. Todos os Espíritos experimentam, no mesmo grau e pelo mesmo tempo, a perturbação que se segue à separação da alma e do corpo? – Não, pois isso depende da sua elevação. Aquele que já está depurado se reconhece quase imediatamente, porque se desprendeu da matéria durante a vida corpórea, enquanto o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito mais tempo a impressão da matéria.

Comentário: Aqui fica evidente que cada pessoa experimenta um tipo de percepção da morte, segundo aquilo que vivenciou na matéria.

Agora, nesta pergunta 165, Allan Kardec consegue aprofundar mais na natureza da perturbação, assim como descrever melhor o que os Espíritos ensinaram em suas comunicações. Notem que não há nada com um tempo determinado. Esta parte da resposta, no nosso entender, é a mais esclarecedora.

165. O conhecimento do Espiritismo exerce alguma influência sobre a duração maior
ou menor da perturbação? – Uma grande influência, pois o Espírito compreende antecipadamente a sua situação: mas a prática do bem e a pureza de consciência são o que exerce maior influência.

Kardec continua explicando, no mesmo item, como o Espirito experimenta esses primeiros momentos:

“No momento da morte, tudo, a princípio, é confuso; a alma necessita de algum tempo para se reconhecer; sente-se como atordoada, no mesmo estado de um homem que saísse de um sono profundo e procurasse compreender a situação. A lucidez das ideias e a memória do passado voltam, à medida que se extingue a influência da matéria e que se dissipa essa espécie de nevoeiro que lhe turva os pensamentos.

A duração da perturbação de após morte é muito variável: pode ser de algumas horas, como de muitos meses e mesmo de muitos anos. Aqueles em que é menos longa são os que se identificaram durante a vida com seu estado futuro, porque estão compreendem imediatamente a sua posição.

Comentário: Parece que ele dá uma espécie de conselho na parte em que destacamos do texto.

“Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares, segundo o caráter dos indivíduos e sobretudo de acordo com o gênero de morte. Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o Espírito é surpreendido, espanta-se, não acredita que esteja morto e sustenta teimosamente que não morreu. Não obstante, vê o seu corpo, sabe que é dele, mas não compreende que esteja separado. Procura as pessoas de sua afeição, dirige-se a elas e não entende por que não o ouvem. Esta ilusão se mantém até o completo desprendimento do Espírito, e somente então ele reconhece o seu estado e compreende que não faz mais parte do mundo dos vivos.”

Comentário: Há vários relatos de Espíritos que comparecem em seu funeral, que não entendem o motivo de estarem deitados dentro do caixão. Ficam completamente perdidos!

“Esse fenômeno é facilmente explicável. Surpreendido pela morte imprevista, o Espírito fica aturdido com a brusca mudança que nele se opera. Para ele, a morte é ainda sinônimo de destruição, de aniquilamento; ora, como continua a pensar, como ainda vê e escuta, não se considera morto. E o que aumenta a sua ilusão é o fato de se ver num corpo semelhante ao que deixou na Terra, cuja natureza etérea ainda não teve tempo de verificar. Ele o julga sólido e compacto como o primeiro, e quando se chama a sua atenção para esse ponto, admira-se de não poder apalpá-lo. Assemelha-se este fenômeno ao dos sonâmbulos inexperientes, que não creem estar dormindo. Para eles, o sono é sinônimo de suspensão das faculdades; ora, como pensam livremente e podem ver, não acham que estejam dormindo. Alguns Espíritos apresentam esta particularidade, embora a morte não os tenha colhido inopinadamente; mas ela é sempre mais generalizada entre os que, apesar de doentes, não pensavam em morrer. Vê-se então o espetáculo singular de um Espírito que assiste os próprios funerais como os de um estranho, deles falando como de uma coisa que não lhe dissesse respeito, até o momento de compreender a verdade.”

Comentário: O Espírito confunde seu envoltório espiritual( perispírito) com o seu corpo carnal, de modo que não percebe que não tem mais corpo carnal!

A perturbação que se segue à morte nada tem de penosa para o homem de bem: é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar tranquilo. Para aquele cuja consciência não está pura é cheia de ansiedades e angústias.

Comentário: Mais uma vez, os esclarecimentos dos Espíritos nos dão as dicas de como tornar o momento da morte tão mais brando!

Surpreendentemente, no último parágrafo deste capítulo, Kardec diz de forma clara sobre os desencarnes coletivos ocorridos em acidentes ou catástrofes!

“Nos casos de morte coletiva observou-se que todos os que perecem ao mesmo tempo, nem sempre se reveem imediatamente. Na perturbação que se segue à morte, cada um vai para o seu lado ou somente se preocupa com aqueles que lhe interessam.”

Kardec, O Livro dos Espíritos, item 165

Comentário: Se um ser humano morrer ao mesmo tempo no mesmo acidente não quer dizer muito no momento do desencarne! Cada Espírito persegue os seus interesses segundo sua evolução.

Não pretendemos encerrar o assunto! Afinal, pelo que você leu até aqui, nada é conclusivo, pois cada um tem suas particularidades! Ao longo da codificação de Kardec, há muitas descrições desse momento e mais explicações que os Espíritos trouxeram.

Mas de uma coisa nunca vamos escapar: do momento da morte!