Reforma íntima e Espiritismo

Reina, no Movimento Espírita moderno, consideravelmente afastado do Espiritismo, a insistente ideia, quase impositiva, da realização de uma reforma íntima. Prega-se a necessidade de seguir o Evangelho, utilizando-se, para isso, das conhecidas reuniões de leitura familiar do Evangelho Segundo o Espiritismo, que quase sempre recomendam abrir aleatoriamente um livro que deveria ser estudado como as demais obras de Allan Kardec.

Eu não seria louco o suficiente para dizer que a reforma moral e os ensinamentos morais de Jesus não sejam importantes. Muito pelo contrário: são muito, e também não são poucas as vezes em que Kardec ou os Espíritos falam da importante reforma moral suscitada pelo Espiritismo, Doutrina essa capaz de, pelo raciocínio, instigar o ser humano a melhores resoluções. Não, esse não é o problema.

O que venho destacar é que existe uma falsa ideia reinando no Movimento, dentre tantas outras: a de que a Terra, sendo um planeta de provas e expiações, apenas receba Espíritos em expiações, ou seja, Espíritos com pendores passados. Isso não é verdadeiro, como demonstrarei a seguir.

Provas

Provas são todas as dificuldades que enfrentamos na vida, e que nem sempre são resultados de nossas escolhas. Podemos, por exemplo, viver em uma cidade em que, em determinado momento, uma represa próxima estoure, causando uma inundação e levando nossa casa ou nossa vida. Isso é uma prova que não desejávamos, mas que passaremos, porque faz parte das leis da matéria. Podemos, também, passar anos sendo medicados por um remédio que nos cause efeitos adversos e destrua nossa saúde. Isso também é uma prova, como seria a erupção de um vulcão adormecido, próximo de onde vivemos. Faz parte.

Às vezes, porém, atravessamos provas que resultam das nossas escolhas. Ainda aqui, às vezes o resultado é indireto ou involuntário: podemos escolher praticar um ato que dê resultados indesejados, nos causando uma prova.

Mas existem as provas que são diretamente frutos de nossas escolhas passadas, como Espíritos. Arrependidos de um desvio moral, escolhemos um certo gênero de provas e de oportunidades que nos darão a chance de enfrentar e corrigir esse desvio. Aqui sim caberia o termo “Reforma íntima”, segundo o entendimento do Espiritismo. E aqui está a chave do problema: nem todos desenvolveram imperfeições no passado, e nem todos, no momento em que vivemos, estão passando por expiações.

121. Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?

“Não têm eles o livre-arbítrio? Deus não criou Espíritos maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanta para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria.”

O Livro dos Espíritos

Imperfeições

Imperfeição, segundo o que podemos depreender do estudo do Espiritismo, é tudo aquilo que nasce do livre exercício da vontade na repetição de um erro, criando uma imperfeição, o que demandará a expiação.

Somos criados todos simples e ignorantes, tendo todos as mesmas oportunidades de seguir o caminho adiante. Todos, nesse caminho, cometerão erros, porque é impossível não errar quando somos ignorantes. Quantas vezes erramos, tentando acertar? Contudo, nem todos se apegam aos erros, desenvolvendo imperfeições. Alguns aprendem como erro e rapidamente os superam.

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que desde o princípio seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito.”

a) — Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

Chegam mais depressa ao fim. Ademais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Note que Kardec entendeu, colocou em questão e não foi desmentido: existem aqueles que desde sempre seguiram o caminho do bem, o que não quer dizer que não erraram, mas apenas que não se apegaram ao erro.

Duvida do que eu digo? Que bom, quer dizer que está raciocinando. Mas, para raciocinar bem, é necessário ter base em algo. Sugiro, portanto, a leitura das questões 114 a 127 de O Livro dos Espíritos, além dessa exposta. Também não estou tirando tudo isso da minha cabeça, como destaco aqui.

Escala Espírita

Ademais, note que a Escala Espírita (100 a 113), que foi apenas um esboço classificatório proposto por Kardec, diz o seguinte dos Espíritos imperfeitos:

“101. Características gerais. – Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes.”

Ignorância, com certeza, posto que não é possível conhecer a lei divina, em realidade, e ainda assim praticar o mal. Isso seria retrogradar, o que o Espírito não faz. Mas note que, junto a isso, estão o orgulho, o egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes – imperfeições desenvolvidas pelo apego àquilo que satisfaz aos desejos materialistas.

Algo mais a destacar: note que Kardec classifica a primeira classe como “Primeira ordem – Espíritos puros”, e não como “Espíritos perfeitos”. Kardec não aborda uma “dualidade” entre Espíritos perfeitos e imperfeitos. E vimos, acima, que um Espírito pode, ao que tudo indica, ocupar a segunda classe desde o início – e, se você discordar, por favor, vamos dialogar.

Expiação

Expiação é algo que está bem definido em O Céu e o Inferno, em sua edição não adulterada, encontrada na Editora FEAL. Kardec definiu, como resultado do estudo de longos anos, que ela é o esforço livre e consciente do Espírito que busca, honestamente, reparar um desvio que tenha tomado:

8º) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem ((Didaticamente, podemos interpretar expiação como o aperfeiçoamento sério e efetivo, e reparação como um retorno sincero ao bem. No item 23, Kardec define arrependimento como ‘fato da livre vontade do homem’. Ou seja, o espírito imperfeito primeiro conscientiza-se e escolhe superar sua condição, faz então a escolha das provas como expiação, objetivando seu aperfeiçoamento, retornando assim ao bem, conquistando a felicidade ao desenvolver as faculdades de sua alma. (N. do E.) )).

O espírito é, assim, sempre o árbitro de seu próprio destino; ele pode prolongar seus sofrimentos por seu endurecimento no mal, aliviá-los ou abreviá-los por seus esforços para fazer o bem.

Uma condenação por um tempo determinado qualquer teria o duplo inconveniente de ou continuar a atingir o espírito que se houvesse aperfeiçoado, ou cessar quando ele ainda estivesse no mal. Deus, que é justo, pune o mal enquanto este existe; e encerra a punição quando o mal não existe mais.

Assim se acha confirmada esta expressão: Eu não quero a morte do pecador, mas que ele viva, e eu o acusarei ATÉ QUE ELE SE ARREPENDA ((Se o ímpio faz penitência de todos os pecados que cometeu, se ele guarda todos meus preceitos e age segundo a equidade e a justiça, ele certamente viverá e não morrerá – Eu não me lembrarei mais das iniquidades que ele tenha cometido; ele viverá nas obras de justiça que terá feito – Quero eu a morte do ímpio, diz o Senhor Deus? E não quero antes que ele se converta, retire-se do mau caminho e viva? (Ez, 18:21-23; 23:11.) (N. do A.) )).

O Céu e o Inferno, editora FEAL

Mundo de Provas e Expiações

Podemos facilmente verificar, enfim, que a Terra, por se tratar de um mundo de provas e de expiações, não é nem um mundo apenas de provas, nem um mundo apenas de expiações. É de um e de outro. Portanto, existem Espíritos encarnados que escolheram expiações e outros que não. Estão apenas passando por provas, que são todas as dificuldades que nos oferecem chance de aprendizado e de avanço.

Quem são aqueles, portanto, que passam por expiações? Será que podemos apontar o dedo e classificá-los? “Este aqui é bonzinho, é apenas uma prova”; “ah, aquele ali é maldoso, egoísta, é uma expiação”. Eu não arrisco. Mas, na verdade, há algo lógico a se tirar daqui: um Espírito encarnado pode estar, neste momento, desenvolvendo uma imperfeição, um apego, algo que antes não tinha. Talvez, antes, estivesse sem apegos. Não está, portanto, expiando, mas expiará.

Essa é a função de um planeta como o nosso: dar, em contato com a matéria bruta, as condições para o burilamento de cada um.

Um Espírito pode estar na faixa de evolução em que a Terra lhe dá condições de aprendizado, sem que para isso ele tenha arrependimentos morais que precise enfrentar.

Reforma Íntima ou Reforma Moral

O Espiritismo oferece um forte subsídio, uma forte alavanca para a reforma moral do nosso mundo, que, encontra-se em situação lastimável, com certeza. Já no âmbito individual, precisamos nos perguntar: carecemos todos de uma reforma? Ou precisamos apenas de aprendizado? Essa é uma pergunta que apenas cada um, com sua própria consciência, pode responder.

O fato é que é necessário cuidado ao adotar cegamente certas ideias. Crer que todos que aqui nascem estão expiando algo, que tudo o que atravessamos é uma expiação e, pior ainda, que a expiação seja pagar dívidas passadas por uma espécie de castigo, nos leva a resultados negativos na forma de proceder ante a vida e aos demais.

Resultados negativos da crença no karma

  1. Culpa e Autocensura: Indivíduos que acreditam nisso podem carregar um fardo de culpa constante, acreditando que estão pagando por erros passados. Isso pode levar à autocensura e a uma vida cheia de restrições, com medo de cometer novos erros.
  2. Desencorajamento: A crença de que a vida atual é uma punição por ações passadas pode desencorajar as pessoas a buscarem seus objetivos e sonhos, pois podem acreditar que não merecem sucesso ou felicidade.
  3. Falta de Empatia: A ideia de que o sofrimento dos outros é resultado de dívidas kármicas pode levar à falta de empatia e compaixão pelos que estão em situações difíceis. Isso pode prejudicar a solidariedade e o apoio social. Infelizmente, vemos essa falta de empatia constantemente.
  4. Resignação negativa: As pessoas podem se tornar resignadas diante das dificuldades, aceitando passivamente o sofrimento como um destino inevitável, em vez de buscar soluções e melhorias em suas vidas ((A resignação pode ser positiva, quando representa a aceitação realista de limitações após esgotar esforços para lidar com uma situação)).
  5. Injustiça: A crença no karma dessa forma pode justificar ou perpetuar desigualdades sociais e econômicas, pois as pessoas podem acreditar que aqueles que estão em posições privilegiadas merecem isso devido a ações passadas ((A compreensão original de karma liga-se à ideia de que as ações tem suas consequências. Isso enfatiza a responsabilidade pessoal pelas ações e as implicações que elas têm.)).

Em resumo, essa crença pode ter efeitos negativos na saúde mental, no bem-estar e nas relações interpessoais, além de contribuir para a perpetuação de desigualdades e injustiças. É importante lembrar que as crenças sobre karma variam muito entre diferentes sistemas de crenças e culturas, e nem todos interpretam o karma da mesma maneira.

Conclusão

Talvez muitos de nós estejamos, precisemos de reformas, no sentido de termos nos desviado do bem por conta deste ou daquele apego e agora precisarmos nos conduzirmos novamente ao bem. Mas, como mudar o que não se sabe?

Não adianta buscar uma transformação vazia, sem base, tentando apenas seguir cegamente outros exemplos. É necessário compreender o que se faz e porque se faz. Por isso a importância do Espiritismo.

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.” (192–365.)

a) — Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?

Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

O Livro dos Espíritos. Grifos nossos.

Além disso, a ideia de que estejamos todos expiando desvios passados nos leva a uma pressão externa de nos corrigirmos de coisas que nem sequer entendemos. Isso seria uma correção artificial, que não se sustenta e nos envereda por um caminho complicado: se a mudança não se edifica sobre o real entendimento, de maneira progressiva, nos impomos um passo maior que nossas pernas. Ao tentar dar o salto e, por isso, cairmos, cremos que não somos fortes o suficiente, abandonando por completo as tentativas.

Infelizmente, muitos ainda acrescentam aí a falsa ideia de que essa vida seria a mais importante de todas e que, se não nos corrigirmos, estaríamos fadados a sermos o joio, “exilados” do Planeta Terra – outra falsa ideia, nascida inicialmente do livro “Exilados de Capela”, que não é Doutrinário.

Sim: cada um deve se observar e buscar se corrigir naquilo que entender que faz errado. Mas isso não se faz por pressão, nem seguindo cegamente a algo. É preciso compreender, e a mudança tem que ser feita passo a passo. Não se constrói um edifício de cima para baixo.

O caminho do bem

O indivíduo que busca o caminho do bem, olha para si e se analisa. Julga a si mesmo, observando erros e acertos. Avalia onde pode melhorar e onde pode corrigir, se julgar que tem algo a corrigir. Mais que isso: para trilhar o bem, deve-se fazer o bem, e o conhecimento do Espiritismo permite que esse processo seja mais acertado, porque o bem verdadeiro é útil e, para ser útil, é necessário saber o que se diz e o que se faz.

Muitos, por falta de conhecimento doutrinário (obras de Kardec), são pouco úteis. Enquanto dão pratos de sopa, que saciam momentaneamente a fome do estômago (algo importante e venerável, é claro), não saciam a fome de compreensão e de conhecimento, que definitivamente eleva o Espírito a novos degraus e pode inclusive dar a ele novas perspectivas para enfrentar aquela situação e dela sair.

Alguns, enquanto entregam o pão, creem e dizem que a pessoa que sofre de males materiais está passando por isso porque merece. Sim, já ouvi espíritas afirmarem isso. Esse, frequentemente, é o resultado da reforma íntima artificial, que tende a olhar apenas para si, sem buscar conhecimento, esquecendo que se deve ser verdadeiramente útil aos demais.




A Guerra entre Israel e Palestina e o Espiritismo

Existem pessoas idosas, crianças e bebês sendo assassinadas ou capturadas pelo grupo terrorista Hamas, atualmente, gerando uma guerra entre Israel e Palestina. E o que dirá o Espiritismo? Por que Deus permite tal coisa? Estariam essas pessoas quitando débitos de vidas passadas com esse sofrimento?

Pasmem: tem julgadores de plantão querendo dizer que a chacina de jovens na rave teria relação com um castigo divino, por estarem fazendo uma festa, supostamente com drogas, na “Terra Santa”. Um completo é maldoso absurdo!!

Uma vez mais precisamos lembrar: para falar segundo o Espiritismo, é necessário buscar o que existe desenvolvido pelo método científico necessário, coisa que, até hoje, foi feita apenas por Kardec. E aqui vai uma dica de ouro:

Se alguém disser falar do Espiritismo, mas diz que as vítimas de quaisquer calamidades ou crimes estão “pagando” por dívidas de vidas passadas, ou que é efeito do “karma“, ou que estão resgatando débitos de vidas passadas, pare de acompanhá-lo e vá buscar o que diz a ciência espírita. Estamos aqui afirmando, taxativamente: isso não é Espiritismo! Espiritismo você encontra nas obras recomendadas, ao final do texto.

Espiritismo não fala em karma, nem em pagar dívidas pela encarnação

É uma luta ainda sem fim, e toda vez que acontece qualquer evento crítico que abala a população, temos que voltar ao mesmo assunto, em nome do Espiritismo verdadeiro. Agora é a guerra em Israel. Ano passado, foram os ataques terroristas às escolas brasileiras. Antes, um desastre climático ou cataclismo como aquele que solapou Petrópolis ou o triste acidente com o time da Chapecoense. E sempre aparecem os indivíduos levianos, que nunca se debruçaram para estudar o Espiritismo, dizendo verdadeiros absurdos que não correspondem à Doutrina Espírita ou afirmando terem recebido psicografias das vítimas, afirmando que elas teriam sido “malvados soldados que faziam crueldades no passado” (sic!).

Somos obrigados a fazer nossa parte, relembrando que estamos vivos na matéria densa, sujeitos às leis da matéria e, também, às decisões criminosas de outras pessoas, o que nunca, jamais, em hipótese alguma, serve para “resgatar débitos de vidas passadas”!

Leia também: Devemos expor os inimigos do Espiritismo?

Fora as provas impostas pelas escolhas alheias ou pela força da natureza, ou, ainda, aquelas que resultam das ações presentes do próprio indivíduo, existem também os gêneros de provas que o Espírito pode ter escolhido passar, mas não para “pagar” por nada:

  • O Espírito pode escolher provas simplesmente para aprender e progredir.
  • Também pode escolher determinadas provas por entender que conquistou uma determinada imperfeição, escolhendo então passar por desafios e oportunidades com vistas a desapegar dessa imperfeição, que o faz sofrer.

Isso consta na edição original e não adulterada de O Céu e o Inferno, da editora FEAL.

Deus não se vinga!

O Livro dos Espíritos

Falando sobre os flagelos destruidores, podemos aplicar parte do entendimento a esses acontecimentos também:

738.

a) — Mas nesses flagelos tanto sucumbe o homem de bem como o perverso. Será justo isso?

“Durante a vida, o homem tudo refere ao seu corpo; entretanto, de maneira diversa pensa depois da morte. Ora, conforme temos dito, a vida do corpo bem pouca coisa é. Um século no vosso mundo não passa de um relâmpago na eternidade. Logo, nada são os sofrimentos de alguns dias ou de alguns meses, de que tanto vos queixais. Representam um ensino que se vos dá e que vos servirá no futuro. Os Espíritos, que preexistem e sobrevivem a tudo, formam o mundo real (85). Esses os filhos de Deus e o objeto de toda a sua solicitude. Os corpos são meros disfarces com que eles aparecem no mundo. Por ocasião das grandes calamidades que dizimam os homens, o espetáculo é semelhante ao de um exército cujos soldados, durante a guerra, ficassem com seus uniformes estragados, rotos, ou perdidos. O general se preocupa mais com seus soldados do que com os uniformes deles.”

b) — Mas nem por isso as vítimas desses flagelos deixam de o ser.

“Se considerásseis a vida qual ela é, e quão pouca coisa representa com relação ao infinito, menos importância daríeis a isso. Em outra vida, essas vítimas acharão ampla compensação aos seus sofrimentos, se souberem suportá-los sem murmurar.”

O Livro dos Espíritos

O Espiritismo, longe de falar sobre carma e pagamento de dívidas, demonstra o contrário!

Também recomendamos cautela com essas teorias de que são eventos relacionados à transição planetária, por serem teorias que não encontram respaldo no Espiritismo.

Retornemos a Kardec. É importante. Chega de opiniões. O Espiritismo é uma ciência! Se mais pessoas estivessem defendendo a Doutrina, mais chance teriam outras de encontrar bons conteúdos, e não esses baseados em falsas ideias.

Cabe resgatar o que consta em O Livro dos Espíritos sobre as guerras:

742. O que impele o homem à guerra?

“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem: o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas. E, quando se torna necessária, sabe fazê-la com humanidade.”

743. Da face da Terra, algum dia, a guerra desaparecerá?

“Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.”

744. Que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra?

“A liberdade e o progresso.”

a) — Se a guerra deve ter por efeito o advento da liberdade, como pode frequentemente ter por objetivo e resultado a subjugação?

“Subjugação temporária, para pressionar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.”

745. Que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu?

“Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição ((O que quer dizer: quando esse Espírito compreender o mau que causou, sua consciência lhe acusará de cúmulo ao qual chegaram suas imperfeições. Eis o motivo de demandar muitas encarnações em expiação, escolhendo provas que poderão lhe ajudar a se resgatar de seus desvios. Não significa que ele terá que reencarnar com cada uma de suas vítimas, mesmo porque a maioria delas não se apega ao fato e segue seu caminho de evolução (Notas nossas).)).”

O Livro dos Espíritos

Nossas condolências às vítimas dessa triste guerra entre Israel e Palestina. Oremos para que esses Espíritos não se prendam às maldades de outros e possam seguir em frente. Esse é um dos melhores efeitos do Espiritismo, que, infelizmente, elas provavelmente não conheceram.

Curiosidades

Kardec diversas vezes realizou evocações de Espíritos mortos nas guerras, de simples soldados a oficiais. Temos, por exemplo:




Roustaing, Ismael e “Brasil, Coração do Mundo”

“Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, é uma obra de Chico Xavier, atribuída ao Espírito de Humberto de Campos Veras. Obra assaz estranha, introduz uma série de ideias contrárias ao Espiritismo, girando principalmente sobre o papel do suposto Espírito de Ismael, que muitos acreditam ser o “protetor espiritual do Brasil”, mas que, na verdade, não passa de mais um inimigo do Espiritismo — talvez o maior deles. Ao longo de muito tempo, esse Espírito vem disseminando falsas ideias entre aqueles que as aceitam cegamente e, assim, vem causando enorme desserviço e atraso na propagação do Espiritismo em sua realidade. Em Roustaing, encontrou o trabalhador do mau caminho.

O trecho seguinte foi extraído do livro “Ponto Final: o reencontro do Espiritismo com Allan Kardec”, e destaca evidências de que essa obra foi provavelmente adulterada pela Federação Espírita Brasileira:

[…] Julio Abreu Filho, primeiro tradutor dos 12 volumes da Revue Spirite, denunciou que exatamente um ano antes do aparecimento de “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho”, o livro Crônicas de Além-Túmulo, também psicografado por Chico Xavier e assinado pelo próprio Humberto de Campos, havia sido lançado, e em cujas páginas se encontra uma mensagem semelhante na qual apenas Kardec, Denis, Delanne e Flammarion são citados, e por lugar nenhum Roustaing é mencionado. Diante da denúncia de uma possível interpolação, que poderia ser resolvida com muita facilidade ao mostrar os originais do livro questionado, a FEB informou que havia ordenado sua incineração. O fato se assemelha à queixa de Berthe Fropo no século XIX, de que Leymarie havia queimado numerosos documentos do arquivo de Kardec.

Ah!, como precisa de defensores essa Doutrina que, mesmo partindo dos Espíritos e sendo imortal, depende do trabalho humano para ser retomada e desenvolvida da maneira necessária, porque, infelizmente, os maus Espíritos têm encontrado muitos defensores, prontos a ouví-los cegamente.

Espíritas: avante!




O Espiritismo nas Prisões

“O Espiritismo nas Prisões” é um artigo originalmente publicado por Allan Kardec na Revista Espírita de fevereiro de 1864, e conta a história de um criminoso que, tendo conhecido o Espiritismo em sua realidade, transformou-se e passou até mesmo a praticar a mediunidade na prisão – algo inconcebível para o movimento espírita moderno, que apregoa que ela só deve ser praticada dentro dos centros espíritas, o que é falso.

Deixo o artigo na íntegra para a vossa leitura:

O Espiritismo nas prisões

Na Revista de novembro de 1863, publicamos uma carta de um condenado detido numa penitenciária, como prova da influência moralizadora do Espiritismo. A carta abaixo transcrita, de um condenado em outra prisão, é um exemplo dessa poderosa influência. É de 27 de dezembro de 1863. Transcrevemo-la textualmente, quanto ao estilo. Corrigimos apenas os erros ortográficos.

“Senhor,

“Há poucos dias, quando me falaram pela primeira vez de Espiritismo e de revelação de além-túmulo, eu ri e disse que isto não era possível. Eu falava como um ignorante, que sou. Alguns dias depois tiveram a bondade de me confiar, em minha horrível posição em que me acho agora, vosso bom e excelente Livro dos Espíritos. A princípio li algumas páginas com incredulidade, não querendo, ou melhor, não crendo nessa ciência. Enfim, pouco a pouco e sem me aperceber, por ele tomei gosto; depois levei a coisa a sério; depois li pela segunda vez o vosso livro, mas então com um outro espírito, isto é, com calma e com toda a pouca inteligência que Deus me deu.

“Senti então despertar essa velha fé que minha mãe me tinha posto no coração e que dormitava há longo tempo. Senti o desejo de me esclarecer sobre o Espiritismo.

A partir desse momento tive um pensamento muito decidido, o de tomar conhecimento, aprender, ver e depois julgar. Pus-me à obra com toda a crença que se pode ter e que é preciso ter em Deus e em seu poder. Eu desejava ver a verdade.

Orei com fervor e comecei as experiências.

“As primeiras foram nulas, sem resultado algum, mas não me desencorajei. Perseverei em minhas experiências e, palavra, redobrei minhas preces, que talvez não fossem bastante fervorosas e mergulhei no trabalho com toda a convicção de uma alma crente e que espera.

“Ao cabo de algumas noites, pois só posso fazer as experiências à noite, senti, por cerca de dez minutos, frêmitos nas pontas dos dedos e uma leve sensação no braço, como se tivesse sentido correr um riachinho de água morna, que parava no punho. Eu estava então bem recolhido, todo atenção e cheio de fé. Meu lápis traçou algumas linhas perfeitamente legíveis, mas não bastante corretas para não crer que estivesse sob o peso de uma alucinação. Esperei então com paciência a noite seguinte para recomeçar as experiências, e dessa vez agradeci a Deus, de todo o coração, pois tinha obtido mais do que ousava esperar.

“Desde então, de duas em duas noites, entretenho-me com os Espíritos que são bastante bons para responder ao meu apelo e, em menos de dez minutos, respondem sempre com caridade. Escrevo meia página ou páginas inteiras que minha inteligência não poderia fazer sozinha, porque, às vezes, são tratados filosófico religiosos em que jamais pensei nem pus em prática; porque dizia-me, aos primeiros resultados: Não serás joguete de uma alucinação ou da tua vontade? E a reflexão e o exame me provavam que eu estava bem longe dessa inteligência que havia traçado aquelas linhas. Eu baixava a cabeça, cria e não podia ir contra a evidência, a menos que estivesse inteiramente louco.

“Remeti duas ou três dessas comunicações à pessoa que tinha feito a caridade de me confiar o vosso bom livro, para que ela sancione se estou certo. Venho pedirvos, senhor, vós que sois a alma do Espiritismo, que tenhais a bondade de me permitir vos envie o que obtiver de sério em minhas conversas de além-túmulo, se, todavia, achardes bom. Se isto for de vosso agrado, vos enviarei as conversas mantidas com Verger, aquele que feriu o arcebispo de Paris. Para bem me assegurar de que o manifestante era ele mesmo, evoquei São Luís, que me respondeu afirmativamente, bem como outro Espírito no qual tenho muita confiança, etc……………”

As consequências morais deste fato se deduzem por si mesmas. Eis um homem que tinha abjurado toda crença e que, ferido pela lei, se acha confundido com o rebotalho da Sociedade. Esse homem, no meio do pântano moral, voltou à fé. Ele vê o abismo em que caiu; ele se arrepende; ele ora e, digamo-lo, ah! Ele ora com mais fervor que muita gente que exibe devoção. Para isto bastou a leitura de um livro onde encontrou elementos de fé que a sua razão pôde admitir, que reanimaram as suas esperanças e lhe fizeram compreender o futuro. Além disso, o que é digno de nota, é que a princípio leu com prevenção e sua incredulidade só foi vencida pelo ascendente da lógica. Se tais resultados são produzidos por uma simples leitura, feita, por assim dizer, às ocultas, o que seria se a ela se pudesse juntar a influência das exortações verbais!

É bem certo que, na disposição de espírito em que hoje se encontram, esses dois homens (ver o fato relatado no número de novembro último), não apenas não terão, durante sua detenção, qualquer conduta reprovável, mas entrarão no mundo com a resolução de aí viverem honestamente.

Considerando-se que estes dois culpados puderam ser reconduzidos ao bem pela fé que acharam no Espiritismo, é evidente que se eles tivessem tido essa fé previamente, não teriam cometido o mal. A Sociedade é, pois, interessada na propagação de uma doutrina de tão grande poder moralizador. É o que se começa a compreender.

Uma outra consequência a tirar do fato relatado é que os Espíritos não são detidos pelos ferrolhos, e que vão até o fundo das prisões levar suas consolações.

Assim, não está no poder de ninguém impedir que eles se manifestem de uma ou de outra maneira. Se não for pela escrita, será pela audição. Eles enfrentam todas as proibições, riem-se de todas as interdições, transpõem todos os cordões sanitários. Que barreira podem, então, lhes opor os inimigos do Espiritismo?




O rapaz e o oásis: uma fábula de esperança

Em um determinado local, havia um grande deserto. Para onde se olhasse, não se via mais do que paisagens desoladas pelas areias que fustigavam qualquer coisa viva que tentasse sobreviver. Aqui e ali, porém, denotavam-se pequenos agrupamentos de elementos: eram pequenos vilarejos, formados nos pontos mais baixos das montanhas de areia e de pedras, onde, de alguma forma, era possível subsistir.

Esses pequenos vilarejos se mantinham às custas dos locais onde alguma água subterrânea aflorava, ou onde a água das chuvas esparsas se acumulavam por algum tempo. Era pouca água, um pouco lamacenta, e onde se dessedentavam homens e animais. Ao redor dessa água, cresciam alguma vegetação e plantava-se alguma coisa que mal dava para alimentar a todos – homens e animais.

Era assim a situação geral de todos esses vilarejos. Com o pouco que sabiam, transmitido entre gerações, buscavam se manter e manter o lamacento corpo de água. A vida era dura e saúde não era boa. Eram todos ensinados que somente ali seria possível sobreviver, pois, ao redor, somente havia areia e pedras, além de outros agrupamentos de similar situação.

Leia também: é possível praticar a mediunidade no lar?

De vez em quando, um ou outro, cansado dessa situação, decidia sair dos vilarejos para buscar algo além. Não se conformavam com aquela vida, mas saiam sem rumo, sem conhecimento algum sobre o derredor. Nunca mais voltavam. Muitos morriam no deserto, sem possibilidade de sobreviver. Outros, terminavam em outros vilarejos.

Em um desses vilarejos, vivia um rapaz, muito cedo orfanado e, por isso, criado em comum por outras pessoas. Desde pequeno, ensinado sobre as tradições ligadas à sobrevivência, esforçava-se para ajudar na conservação do ambiente que lhe permitia a subsistência, embora não se conformasse com aquele estilo de vida, tão limitado. Era perquiridor: buscava meios de obter mais água, de cultivar mais alimentos… Mas era tudo muito limitado e seus esforços não iam muito longe com o conhecimento que tinha.

Certo dia, caminhando pelas extremidades do vilarejo, uma forte rajada de vento, cheia de areia, trouxe com ela algo diferente: pétalas de flores e algumas folhas verdes. Ele as tomou do chão e as analisou. Eram diferentes de tudo o que tinham naquele vilarejo e, além de tudo, eram muito viçosas e bem desenvolvidas. Aquilo lhe despertou a curiosidade. Rapidamente, voltou ao seu pequeno casebre, tomou um cantil de água e algum alimento e saiu, sem dizer nada a ninguém. Tomou a direção de onde vinha o vento, sem saber o que encontraria.

O rapaz caminhou sob sol forte, sempre buscando sinais das folhas e flores, que encontrava aqui e ali. Por vezes, quase perdia a esperança, quando não encontrava em parte alguma sinais desses elementos. Sem desistir, ampliava um pouco mais a largura de suas buscas, sempre tentando se manter na direção correta. Logo, encontrava um pequena folha ou alguma pétala que, embora desidratadas, ele reconhecia como sendo do mesmo tipo encontrado anteriormente.

Veio a noite, e o rapaz se acomodou ao lado de um rochedo, onde encontrou algum calor para passar a noite. Alimentou-se sobriamente e notou que seu cantil já se encontrava quase pela metade… A preocupação lhe atormentou por algum tempo, mas logo dormiu e, no dia seguinte retomou a caminhada. Assim seguiu, por mais dois dias…

Por algum tempo, no meio do terceiro dia, andou o rapaz na direção sabida, mas não mais encontrava sinais das folhas ou das flores. Andou mais longe, alargou a busca, mas, nada. O desespero começou a alcançá-lo, pois seu cantil já continha apenas água lamacenta e ele já estava muito distante de sua origem. Sabia que voltar seria muito difícil, senão impossível, pois a desidratação já lhe atormentava o corpo.

Foi então que, caindo de joelhos em meio à areia, com lágrimas nos olhos ressecados, angustiado e sem esperança, uma borboleta pousou em seu ombro. Espantado, levantou-se. Ele não conhecia aquele inseto de tão belo voo. Algo lhe tomou novamente o ser e, com ânimo renovado, decidiu segui-la. Andou algumas centenas de metros, e logo percebeu outras borboletas ao redor. Notou que o chão começava a mudar. Aqui e ali, em meio à areia, que começava a ficar menos fofa, uma espécie de grama, algo ressecada, brotava e resistia. Seguiu nessa direção, e a paisagem ia mudando sucessivamente, até que alguns arbustos mais encorpados começavam a surgir e, mais ao longe, ele parecia divisar uma vegetação alta e densa… Mas o sol fustigava-lhe, a desidratação lhe causava tonturas e, de repente, um torpor lhe tomou e ele caiu ao chão, crendo que ali seria o seu fim.

Algum tempo depois, o rapaz acordou com seus lábios molhados de água fresca. Confuso, notou que estava encostado em uma grande árvore, que fornecia sombra fresca. Seus olhos estavam embaçados. Parecia ver, ao redor, algumas outras pessoas, mas não passavam de sombras turvas. Esfregou os olhos, buscando enxergar melhor, mas sem sucesso. Sentiu alguém aproximar e lhe jogar água sobre o rosto. Levou as mãos novamente aos olhos umedecidos, limpou-os e, aos poucos, notou a visão retornando. Foi quando conseguiu observar três pessoas ao seu redor, portando ferramentas e algumas bolsas de pano. Sorriam para ele. Uma delas entregou-lhe um cantil, do qual o rapaz bebeu com avidez. A água era fresca, límpida, como ele nunca havia ingerido antes, senão quando conseguia colher alguma água da chuva.

Refestelou-se daquele líquido e, em alguns momentos, sentiu a energia lhe retornando ao corpo. Teve forças e se levantou vagarosamente. Aquelas pessoas se aproximaram e quiseram lhe falar. Espantado, notou que falavam o seu idioma, embora com sotaque diferente! Convidaram-no a segui-las, ao que ele prontamente se entregou. Caminharam algum tempo em meio a uma linda floresta. Ele percebia o perfume, a umidade que lhe acalentava a pele, os sons de diferentes animais e do vento balançando as folhas. Notou, no chão, flores e folhas que ele reconhecia. Próximo, notou um riacho de água limpa e cristalina a correr em meio à vegetação. Que alegria ele sentia naquele momento!

Chegaram, então, ao centro de um vilarejo. Muitas pessoas viviam ali, todas de aparência saudável e rostos alegres. Haviam também animais e, nas proximidades, enxergava plantações verdejantes e robustas, algo totalmente diferente da realidade de seu local de origem.

Levaram-no, então, a uma casinha simples, onde se reuniam algumas pessoas em alegre conversação. Pareciam trabalhar em colaboração sobre o alimento oriundo das plantações. Rapidamente aquela gente o acolheu. Deram-no do que comer e beber, acomodaram-no como se fosse um dos seus, ouviram sua história e lhe contaram muitas coisas em retorno. Ali, o rapaz foi ensinado que a água que brota na superfície vem de muito fundo, e que encontra ali um local de saída. Que, para obter mais dessa água, seria necessário cavar um tanto mais, limpando o barro. Que poderiam fazer poços, para obtê-la fresca e cristalina e que, se as margens fossem cuidadas, com o plantio de certas plantas e árvores, aos poucos o corpo de água ganharia volume e qualidade. Ensinaram que as plantações de alimentos devem vir depois dessas áreas, para não facilitarem a evaporação. Ele rapidamente percebeu que era justamente o contrário do que faziam.

Também contaram ao rapaz que esses vilarejos espalhados pelo deserto foram originalmente formados por pessoas oriundas daquele lugar, muito, muito tempo antes. Eram pessoas que, apesar de viverem e se beneficiarem do conhecimento e da produção daquele lugar, pouco ou nada faziam para aprender e para colaborar. Convidadas constantemente ao trabalho necessário, decidiram afastar-se em um grupo e, depois, decidiram sair, com a intenção de formar elas mesmas suas próprias aldeias, onde acreditavam que poderiam fazer as coisas melhores, e de outra maneira. Isso aconteceu muitos, muitos anos antes e, desde então, eles não mais as viram por ali, embora, de vez em quando, algum bravo indivíduo saísse em missão de buscá-las para ajudá-las: encontrando-as, era rapidamente afastado pelas ideias que trazia e tinha que retornar àquele lugar.

O rapaz estava muito interessado. Questionava, queria saber mais. Compreendeu rapidamente que o conhecimento renegado foi a causa da miséria em que viviam esses vilarejos ou aldeias. Passou ali alguns dias, mas logo percebeu que tinha que retornar, pois precisava compartilhar com os seus tudo aquilo que viu e aprendeu. Tomada a decisão, saiu em viagem de retorno, dessa vez muito mais preparado, com alimento e água fartos. Conduziu-se sem maiores dificuldades ao seu vilarejo de origem, onde ingressou em alguns dias de jornada.

Muito alegre e com energia renovada, tomou o rapaz as ruas arenosas da pequena vila. Seu rosto expressava decisão, embora aqui e ali expressasse alguma tristeza por ver os seus companheiros, tristes e insalubres, encarando-o curiosamente. Buscou, contudo, não se afetar demais e, dirigindo-se aos chefes da vila, cheio de entusiasmo, contou do acontecido, pedindo que fosse realizada uma reunião naquela noite, onde pudesse expor aos demais tudo o que viu e aprendeu. Os chefes da vila receberam suas palavras com olhares de espanto e de incredulidade. Ao final, negaram-lhe a reunião solicitada, dizendo que tudo aquilo não passava de absurdos e que eles estavam certos dos ensinamentos de seus antepassados, aos quais se agarravam com paixão. Além disso, repreenderam-no duramente por ter se retirado sem aviso, pois causou enorme preocupação em todos do vilarejo.

O rapaz não conseguia acreditar. Incrédulo com aquela recepção amargosa, tomou outro caminho: decidiu que ele mesmo buscaria reunir algumas pessoas e que, depois disso, se fosse expulso pelo desrespeito, teria para onde ir. Assim, saiu pelas ruas do vilarejo. Encontrou muitos companheiros de vida e, um a um, foi contando resumidamente sua história e convocando-os para uma reunião, em seu casebre. Muitos expressavam um brilho no olhar, mas diziam não se sentirem fortes para abandonarem seus hábitos; outros, lhe acusavam de blasfemar contra os ensinamentos de sua tradição; outros, ainda, temiam serem expulsos dali pelos chefes do vilarejo, por pensarem diferente.

Chegada a hora da reunião, esperava ansioso a chegada de muitos… Esperou, esperou mas, além dele, compareceram apenas outros dois, amigos seus de infância, tímidos e incertos, mas que perceberam a importância daquilo que ouviram, já que eles mesmos pensavam que aquela situação e aqueles ensinamentos não eram suficientes ou corretos. O rapaz entristeceu-se por alguns instantes, percebendo que nada seria fácil. Ele viu a felicidade de outras pessoas, que colaboravam em um ambiente cuidado por seus próprios esforços. Viu a água cristalina, enquanto, sobre a mesa de seu casebre, restava um jarro de água lamacenta. Ele não podia não tentar.

Passados alguns momentos, tomou resolução diferente. Percebeu que aquele ambiente não aceitaria essas verdades, senão depois de muito tempo, e com a colaboração de pessoas que fossem compreendendo as verdadeiras e originais ideias. Decidiu convidar os presentes a acompanhá-lo em jornada para aquela aldeia distante. Os dois amigos prontamente aceitaram o convite. Queriam aprender mais, queriam viver melhor, e entenderam que, para ajudar àquelas pessoas, teriam que aprender muito mais e se fortalecerem.

Assim, partiram no dia seguinte. Já certo de seu caminho, o rapaz fez que viajassem mais preparados e com mais rapidez. Chegaram às margens da floresta em dois dias, sem muitas dificuldades. Ali, logo encontrou pessoas que os receberam e os conduziram à vila, onde foram todos recebidos com felicidade e integrados à sociedade dali. Em pouco tempo, aprenderam muito. Sentiam-se felizes e contentes, pois não viviam para subsistir e nem para cuidarem apenas de si. Havia colaboração genuína no uso e no desenvolvimento do conhecimento que permitia manter aquele grande oásis, verdadeiro paraíso em meio ao deserto. Mas esse senso de colaboração lhes dizia, no interior, que não podiam ter tudo aquilo somente para eles, pois, fora dali, seus semelhantes viviam em plenas miséria e infelicidade.

Assim, depois de algum tempo, esses três formaram uma iniciativa, à qual se juntaram outros jovens daquele lugar: deveriam planejar, de quando em quando, missões com destino a esses vilarejos, buscando conquistar corações pela razão. Aos poucos, mapearam diversos deles, para onde partiam todo ano, buscando encontrar ouvidos dispostos a escutá-los. Em alguns deles, não encontravam senão hostilidade, sendo mesmo banidos de um e de outro. Nos outros, eram aceitos com precauções, nunca encontrando mais que frieza em seus chefes, que permitiam, contudo, que falassem. Desses, com certa raridade, retornavam com um algum novo companheiro, que frequentemente se juntava à mesma iniciativa.

E assim passaram seus anos de vida, buscando fazer o que acreditaram ser o correto, sabendo que a distância entre os conhecimentos adulterados seriam vencidos um dia e que, nesse dia, as florestas verdejariam por todo lugar, progressivamente extinguindo o deserto para dar lugar a um novo e saudável ambiente. Um dia…


O grande oásis é o Espiritismo, cujo ensinamento os Espíritos vem nos transmitir, em esforço de colaboração. A água pura é o conhecimento resultante desse esforço, construído de maneira metodológica e científica. O rapaz é cada um que percebe essa distância entre o movimento espírita e o Espiritismo. Os vilarejos são os agrupamentos de adeptos espíritas onde não se fala em Kardec e onde o questionamento é visto como subversivo e prontamente coibido. O deserto é a situação atual do nosso mundo.




Uma psicografia de Chico Xavier

Psicografia de Chico Xavier: seria possível evocar e obter respostas de Espíritos como os que animaram Chico Xavier e Allan Kardec, dentre outros?

É fato reconhecido na ciência espírita que podemos evocar os Espíritos e que, feito com bons propósitos e com o conhecimento que essa ciência nos dá, eles vem de bom grado, com vontade de dialogar com aqueles que visam com eles se instruir. Seria um erro crer que nesse caso se enquadrariam apenas os Espíritos superiores, mas é acertado dizer que aí se enquadram apenas os Espíritos bons, de toda elevação, já que os maus virão com más intenções (a não ser quando evocados com finalidades sérias e úteis) e somente encontrarão ressonância no meio daqueles em quem encontrem as imperfeições que eles mesmos carregam. A evocação de Espíritos como os de Chico Xavier e Allan Kardec é possível e muito útil, não cabendo a ninguém o monopólio sobre elas. Mas é evidente que essas comunicações dependerão das intenções, do conhecimento e do estado moral daqueles que as realizam.

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Aqueles que pretendem ter o domínio sobre certos Espíritos, assim como aqueles que se desejem por sob o domínio de um Espírito em particular, que geralmente informa um nome pomposo e influente e que lhes exaltam o próprio orgulho, estarão não apenas em erro grave, ignorando todo o cabedal de conhecimento formado pelos estudos dedicados de Allan Kardec, como estarão se colocando no amargo caminho que começa pela fascinação e que conduz inevitavelmente à obsessão e à loucura.

Isto posto, queremos tratar da evocação do Espírito de Chico Xavier, exposta no site Revista Espírita Digital. Trata-se de um artigo maior, mas nos concentraremos no tocante a esse Espírito. Os grifos são nossos:

Sobre Jesus

Outro Espírito evocado foi Chico Xavier, a quem foram feitas as seguintes perguntas:

1. Poderia nos falar de como entendia Jesus, quando no corpo, e como o entende agora, como Espírito?
2. Viu Jesus logo que deixou o corpo físico?

3. O senhor o vê agora em nosso meio? Se vê, poderia nos dizer como o percebe?

Eis as respostas:

“Estou aqui novamente, amigos, feliz por esta oportunidade que Deus nos oferece.

Quando eu estava no corpo, eu via Jesus como uma estrela de primeira grandeza, que iluminava homens e Espíritos, mas que estava a milhares de anos-luz de distância de nós; esta ideia foi-nos ensinada em nossa última existência desde cedo, através do ensino religioso de outrora, e depois que começamos a nos dedicar à mediunidade, Espíritos religiosos vinham reafirmar os nossos preconceitos relativos a este ponto, o que não questionávamos, porque tais ideias estavam assentadas em nossa alma. Eu julgava que Jesus amava a humanidade, mas não me dava conta que atribuía a ele algumas das características que vemos em muitos dos poderosos da Terra: são de difícil acesso pelo homem mediano; aparentam ser muito ocupados, e por isso não podemos nos relacionar com eles de uma forma direta senão mediante muitos esforços e alguns intermediários. Na verdade, eu não havia compreendido as lições que estão presentes na tradição evangélica, especialmente a de que Jesus não nos deixaria órfãos, assim como a de que ele sempre estaria com aqueles que o chamassem, desde que não estivessem esquecidos do amor ao próximo. ((“Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com elas.” (Mat. XVIII, 20). ))

Hoje, ainda vejo Jesus como uma estrela, mas entendo que se há uma gigantesca distância que nos separa da posição dele na hierarquia, não é por esta razão que ele está distante, pois, como vocês sabem, seu fluido perispiritual se expande e irradia com perfeição, alcançando Espíritos e homens com um alcance que eu não saberia precisar com exatidão. Eu o vejo hoje, acima de tudo, como um irmão mais velho e mais maduro que quer nos ensinar a caminhar para a casa do Pai.

Eu não vi Jesus logo depois que morri porque não cogitava, em absoluto, dessa possibilidade, mas se os preconceitos não tivessem sido um empecilho tão grande, eu o teria buscado imediatamente pelo pensamento. No entanto, esse encontro foi adiado por algum tempo, até que eu pudesse passar em revista as minhas ideias preconcebidas. Aprendi que todos podemos vê-lo, tocá-lo, aprender com ele, e que ele não se nega jamais a estender a mão e nos socorrer da nossa imensa ignorância.

Vejo Jesus aqui, em nosso meio, olhando por todos; vislumbro um rosto iluminado, mas não consigo capturar as nuanças da sua face. Contudo, diviso o seu olhar, tão terno e tão doce… Seus olhos denotam uma serenidade inalterável, e são mais belos do que o mais deslumbrante por-de-sol. De seu corpo espiritual saem luzes que ele transmite a todos os que desejam o bem, comunicando-lhes a sua virtude e cuidando para que a sua semente alcance o solo profundo dos corações de boa vontade. É belíssima a visão, amigos, e devo dizer que todos os que aqui estamos, diante dele nos curvamos com amor e reconhecimento, porque sua presença inspira a piedade e uma profunda reverência. Que Jesus seja o farol onde todos repousemos as nossas vistas, aproveitando-nos das suas luzes para caminhar pela boa via que ele nos indica.

Recebam um abraço deste que se sente muito grato por estar no meio a vocês. Reconheço que não estou à altura para responder com proveito a perguntas tão sérias, e por isso peço que desconsiderem qualquer equívoco que eu possa ter até agora cometido.” ((O grupo havia evocado esse mesmo Espírito várias vezes para instruir-se sobre algumas questões a respeito da mediunidade, do perispírito e de outros assuntos. É a isso que ele se refere.))

Chico Xavier
(Psicografada em 06 de dezembro de 2016.)

REVISTA ESPÍRITA DIGITAL. Sobre Jesus e o Espírito de Verdade. Acessado em 05/10/2023. Disponível em https://www.revistaespirita.net/pt-br/artigo/57/sobre-jesus-e-o-espirito-de-verdade

O fato de se tratar de um grupo sério, com conhecimento do Espiritismo e com propósitos de bem, faz com que a comunicação seja mais confiável, embora deva ser sempre analisada com cautela, sobretudo quando o Espírito se apresenta sob um nome conhecido e de influência. No caso em questão, me parece uma linguagem muito semelhante à de Chico em vida, com sinais característicos. Mas o que mais importa é o fundo, que, ao contrário de destoar da Doutrina, a confirma em suas nuances.

Por exemplo: “seu fluido perispiritual se expande e irradia com perfeição, alcançando Espíritos e homens com um alcance que eu não saberia precisar com exatidão”. Esse trecho está em perfeito acordo com o entendimento deixado n’A Gênese e termina com um reconhecimento humilde da incapacidade de compreensão.

A minha única observação, aí, é que esse Espírito “materializa” a imagem do Cristo, transmitindo uma figura humana e, sobre esse ponto, eu questionaria, para ficar claro, já que a ideia predominante no Movimento Espírita liga-se justamente a esse aspecto de uma “materialização” excessiva do mundo dos Espíritos. Pode ser apenas figura de linguagem, como pode ser, ainda, “o ensino religioso de outrora”.

Fiquemos com mais essa lição: podemos e devemos retomar o Espiritismo prático em nossos lares e pequenos grupo, tratando com a seriedade necessária. Não se pode fazer disso fonte de mera curiosidade ou diversões, o que colocaria os participantes de tal responsabilidade naquele caminho malfadado anteriormente citado… Mas, com bom propósito e com o conhecimento, a comunicação com os Espíritos é útil e benéfica, para ambos os lados, e não carece de ser realizada apenas no centro espírita.

Sugiro a leitura dos PDFs disponíveis neste link.




Pode-se praticar a mediunidade no lar?

Minha missão neste artigo é te provocar sobre o assunto: pode-se praticar a mediunidade em casa?. Quero que você não consiga se conter, clicando no botão, ao final dele, para baixar um PDF falando sobre a questão das comunicações com os Espíritos. Bons estudos!

Então quer dizer que não é perigoso chamar os Espírito nos lares?

Outra falácia que se propagou, e queremos crer que seja mais por ignorância do que por maldade daqueles que a defendem, é a do perigo de se comunicar com os Espíritos nos lares. Ora, se se pode comunicar com eles mesmo nos presídios, com mais forte razão se pode chamar os seres queridos dentro dos lares.

Não é a evocação que atrai os Espíritos

Outro ponto importante a ser considerado, à luz do Espiritismo, é que os Espíritos não são atraídos pelo chamado direto dos homens, ou seja, pela evocação. Muitos dos que sofreram ou sofrem uma obsessão jamais evocaram os Espíritos e sequer sabem que isso seria possível. Todas as curas de obsessões que foram publicadas por Allan Kardec em sua Revista, eram desse número. Tal fato pudemos constatar com relação aos que sofriam de obsessões hoje em dia, e que foram curadas.

Crianças nas reuniões espíritas

Muitas pessoas talvez se perguntem: as crianças podem participar das reuniões espíritas no lar? A essa questão poderíamos responder com outra: as crianças fazem parte da família? Ninguém poderia afirmar que não, ou dizer que para ser um membro da família é preciso ter uma idade mínima. Ora, o que são as crianças? Não são elas Espíritos encarnados, para os quais o mundo espírita não é estranho? As crianças não têm familiaridade com seus Anjos, que são também Espíritos, desde o berço, e mesmo antes de nascer?




Revista Espírita – surge uma luz em meio à escuridão

Talvez alguns de vocês já saibam do que vou falar. Eu não sabia, e não posso senão apresentar extrema alegria em fazê-lo. Acabo de encontrar um grupo realizando publicações ao estilo da Revista Espírita de Allan Kardec – realizando evocações, recebendo relatos, analisando-os, etc.

Uma luz em meio à escuridão: Revista Espírita.

Trata-se do site “Revista Espírita” – simplesmente isso. Nomeado à luz da Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos – publicação que serviu de base ao desenvolvimento da Doutrina Espírita, ali eles apresentam evocações, comunicações espontâneas e relatos pessoais, tudo, até onde pude ver, dentro da melhor racionalidade e com todas as características da comunicação de Espíritos devidamente alinhados aos princípios científicos do Espiritismo.

A Revista Espírita Digital recebe o subtítulo: PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO. Não poderia ser mais acertado.

Se você não entendeu completamente, eu friso: são evocações atuais de Espíritos. Sim. Como Kardec fazia.

Nosso objetivo não é o mesmo que tinha o nosso caro Mestre naquele século, nem queremos sequer insinuar que poderíamos, ainda que sejamos vários espíritas a trabalhar unidos, chegar aos pés de Allan Kardec, pois reconhecemos a nossa pequenez. Kardec trabalhava na elaboração de uma Ciência, e a sua Revue Spirite lhe servia para esse fim. 

O que queremos é colocar ao alcance de todos, num único lugar, os estudos feitos com os Espíritos, e que consideramos que possam ser úteis; nossa intenção é dar uma singela contribuição do nosso grupo espírita, formado em fevereiro de 2007. Assim fazendo, desejamos mostrar a nossa gratidão a Allan Kardec pelos esforços por ele empreendidos a fim de nos legar a ciência espírita, que, como sabemos, é uma ciência prática.

Equipe da Revista Espírita digital, Curitiba – Paraná.

Como podemos ver, eles tem objetivos modestos, o que está em pleno acordo com aquele que realmente tenha entendido o Espiritismo. Mas o que mais importa, e o que venho destacar, é que essa iniciativa é daquelas para serem replicadas, com base no conhecimento obtido das obras de Kardec.

Desde o início deste nosso grupo, com a criação deste site, eu tinha um maior intuito em mente: contagiar. Meu maior objetivo, depois de ler O Legado de Allan Kardec, de Simoni Privato, e dizer a mim mesmo “eu preciso fazer alguma coisa”, foi o de espalhar ao máximo possível o entendimento de que é necessário retomar as evocações… E, hoje, conto dois grupos que conheço realizando esse trabalho.

Lhes convido a ler os artigos apresentados no site deles e a fazerem as vossas análises, utilizando os mesmos princípios traçados por Kardec. Verifiquem se, nas comunicações apresentadas, existem qualquer tipo de pensamento que traia seus alegados autores – dentre eles Allan Kardec – e estejam convidados a interagir conosco através dos comentários em nosso site e no Facebook. Pretendo começar a fazer estudos sobre artigos ali publicados.

Somente posso terminar, dizendo: graças a Deus.

Sigam o link para acessar o site citado: https://www.revistaespirita.net




O Espiritismo Ciência e o Espiritismo Religião

Temos dois aspectos atualmente defendidos pelo movimento espírita: o de o Espiritismo ser uma ciência e o de ele ser uma religião. Unindo esses dois aspectos, alguns afirmam que ele tenha um tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião.

Antes de mais nada, precisamos destacar que o Espiritismo somente pode ser visto como religião no aspecto filosófico, e não no aspecto ecumênico.

E o fato de ser uma religião no sentido filosófico, afirmado por Kardec, liga-se diretamente ao fato de a Doutrina Espírita ser um desenvolvimento do Espiritualismo Racional, Movimento Filosófico que delineou as ciências morais francesas e o ensino, naquele país, por grande parte do século XIX.

Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.

KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1868. Sessão anual comemorativa dos mortos.

O Espiritismo, portanto, não é uma religião como entendemos atualmente. É justamente por isso que Allan Kardec defende que o termo não seja usado, a fim de não causarmos más interpretações e não colocarmos o Espiritismo num campo em que ele não se encaixa e onde, deixando de ser ciência, é vencido pela disputa entre religiões e entre ciência e religião. Não, isto não é cabido nem merecido a essa doutrina nascida do método científico e presente na própria natureza.

Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir cada ideia, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

Ibidem

Espiritismo-Religião

O Espiritismo-religião esconde-se, como religião, nos centros espíritas, como as demais religiões moram em suas igrejas e templos (há até quem já esteja chamando o centro espírita de “templo”). Não pratica as evocações e aceita cegamente o que dizem médiuns ou Espíritos isolados, ou, ainda, o que determinam instituições como a FEB – Federação Espírita Brasileira. O Espiritismo-religião se tornou dogmático e deixou de lado os princípios doutrinários e científicos nascidos do longo e exaustivo estudo de Allan Kardec. Enterrou seu legado, em grande parte, para ficar com as mais diversas falsas ideias modernas, oriundas do misticismo, que permitiu que se instalasse em seu seio.

Para ser adepto do Espiritismo-religião, o indivíduo é levado a crer que depende de deixar de lado sua própria religião, porque é assim que funciona nesse sentido. Pode-se estudar matemática ou botânica sendo católico ou evangélico, mas não se dá o mesmo com uma religião, não é mesmo?

Mas, muitas vezes, esse adepto sincero, sedento de conhecimentos, encontra no Espiritismo-religião nada mais que uma nova religião, cheia de dogmas. Às vezes, o Espiritismo-religião se torna até preconceituoso e afasta novos adeptos, ao ser taxativo em apontar para pessoas com certas características e dizer que são assim porque estariam pagando débitos de vidas passadas, dentre outras ideias que beiram o absurdo.

Mas isso não corresponde em nada ao Espiritismo-ciência.

O Espiritismo-Ciência

O Espiritismo-ciência não se escondia. Galgado na força do Espiritualismo Racional, que desenvolveu pela Psicologia Experimental, alastrava-se como pólvora, como qualquer outra ciência. Era não só aceito, mas estudado, em pessoa, por gente das camadas mais cultas da sociedade. Príncipes, princesas, reis, rainhas, filósofos, cientistas, médicos, doutores. Ele se disseminava, por ser algo puramente claro e racional, entre religiosos de todos os credos, encontrando, entre seus números, até mesmo católicos ortodoxos e muçulmanos.

IV. ─ Em relação à instrução:O grau de instrução é muito fácil de avaliar pela correspondência. Instrução cuidada, 30%; simples letrados, 30%; instrução superior, 20%; ─ semiletrados, 10%; ─ iletrados, 6%; ─ sábios oficiais, 4%.

V. ─ Em relação às ideias religiosas: católicos romanos, livres-pensadores, não ligados ao dogma, 50%; ─ católicos gregos, 15%; ─ judeus, 10%; ─ protestantes liberais, 10%; ─ católicos ligados aos dogmas, 10%; ─ protestantes ortodoxos, 3%; ─ muçulmanos, 2%.

KARDEC, Allan. Revista Espírita, janeiro de 1869. Estatística do Espiritismo.

Ah!, como era maravilhoso e, ao mesmo tempo, simples, o Espiritismo-ciência. Era praticado nos lares. As famílias realizavam evocações particulares de seus entes queridos, e com eles aprendiam e se consolavam. Por vezes, evocavam Espíritos sofredores, e os ajudavam a se acalmarem, com novas compreensões. Muitas vezes, enviavam as anotações dessas evocações para Allan Kardec, que as analisava junto aos demais associados da SPEE. Quantas vezes essas evocações particulares deram lugares a novas hipóteses e novas investigações!

O Espiritismo-ciência era visto de maneira séria. Não se admitiam novos princípios doutrinários sem que fossem verificados pelo método do duplo controle: a comunicação de um mesmo princípio por todo parte, sendo avaliadas essas comunicações perante a lógica e a razão. Não se negava nem se aceitava nada sem realizar esse processo. Quantas vezes Kardec voltou atrás e abandonou uma hipótese, por vê-la inválida perante as evidências?

No Espiritismo-ciência, os centros eram centros sérios de estudos. Praticavam as evocações com a finalidade de aprendizado e, nos mais sérios, segundo preceitos de Kardec, não se admitiam nas reuniões mediúnicas nem os neófitos, nem os curiosos.

O Espiritismo-ciência faz falta. Nele, Kardec encontrava argumentos muito claros e racionais para descartar as mais absurdas e infundadas críticas contra o Espiritismo. Hoje, o Espiritismo-religião frequentemente perde adeptos para a descrença, porque as ideias nascidas da aceitação cega não conseguem enfrentar a razão.

Faríamos melhor se nem sequer falássemos em “Espiritismo-religião”, mas apenas em “Movimento Espírita Religioso”, talvez. Mas é importante destacar a incongruência entre os dois conceitos, pois precisamos fazer esforços para voltar ao “Espiritismo-ciência”, aquele que todo mundo pode estudar, sem abandonar suas religiões; aquele que dá a fé raciocinada, que pode enfrentar a razão, a qualquer tempo; aquele, enfim, que não terminou com Kardec, e que precisa continuar.

O Espiritismo-ciência encontra sua formação largamente registrada na Revista Espírita de 1858 a 1869, fruto de um extenuado trabalho de mais de 12 anos sobre comunicações espontâneas, evocações e manifestações de milhares de Espíritos, por milhares de médiuns, em milhares de grupos, por toda parte do mundo. Já o “Espiritismo-religião” encontra-se predominantemente em romances, frutos da opinião de um Espírito, que não se questiona pelo método necessário.

Na data em que se comemora o nascimento de Allan Kardec, penso que precisamos fazer muito mais pela defesa de seu legado, que, longe de ser uma criação religiosa para conduzir fiéis, abarca a toda a comunidade de Espíritos encarnantes no planeta Terra. Esse legado é maior que eu, que você, que nosso grupo. Não depende e nem deve depender da opinião de quem seja. Precisa ser recuperado em sua fonte. Eis o trabalho.


Allan Kardec, o grande responsável pelo Espiritismo como ciência.

Até o último instante de sua existência física, Allan Kardec deixou profundos ensinamentos. Morreu como viveu: trabalhando pelo Espiritismo. Suas mãos laboriosas despediram-se deste mundo entregando a Revista Espírita — periódico no qual deixou registrados seus ensinamentos, suas lutas, suas vitórias e, naquele último momento, sua imortalidade.

[…]

No cemitério, os curiosos procuravam posicionar-se nos lugares de onde podiam escutar os discursos. No entanto, quando o ataúde desceu para o fundo da cova, a emoção calou as palavras; fez-se um grande silêncio.

PRIVATO, Simoni. O Legado de Allan Kardec.




Alzheimer e Espiritismo: expiação de dívidas de vidas passadas?

Há algum tempo, um médium muito conhecido disse, em público, falando em Alzheimer e Espiritismo, que as doenças degenerativas são expiações de erros de vidas passadas…

Amigos, cuidado com as generalizações. Infelizmente, a maior parte dos Espíritas ativos, e falando em nome da Doutrina, não conhecem o Espiritismo em sua realidade.

Esquecemos que as atitudes desta vida, conscientes ou não, tem consequências nesta vida? Esquecemos que o consumo prolongado de certas substâncias, inclusive aquelas vendidas nas farmácias, provocam danos em nosso corpo?

Foi por conta dessas ideias que, quando minha avó morreu de câncer, me revoltei contra Deus, porque fiquei me perguntando como uma pessoa tão boa como ela poderia ter que “pagar” com algo tão ruim. Lastimável efeito dessas opiniões absurdas, superado, enfim, pelo estudo do Espiritismo em sua realidade.

De onde foi que tiramos essas ideias de que sofremos nesta vida para resgatar débitos, senão da ausência de um estudo profundo da ciência espírita?

Vejam: prova é tudo o que enfrentamos na vida e que nos permite o aprendizado. Já a expiação é a escolha consciente do Espírito que visa tentar se desapegar de uma imperfeição adquirida por sua própria vontade.

“8o) A duração do castigo está subordinada ao aperfeiçoamento do espírito culpado. Nenhuma condenação por um tempo determinado é pronunciada contra ele. O que Deus exige para pôr fim aos sofrimentos é o arrependimento, a expiação e a reparação – em resumo: um aperfeiçoamento sério, efetivo, assim como um retorno sincero ao bem.” – KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, Cap. VIII – As penas futuras segundo o Espiritismo. Editora FEAL

“Reparar” é reparar esse desvio, para aqueles que o tomam. Nem todos tomam esses desvios, mas continuaremos encarnando nos planetas relativos à nossa evolução espiritual, onde sofreremos as vicissitudes da matéria, cada vez menores, conforme nos elevamos pelo aprendizado colaborativo.

Não existe carma no Espiritismo.