O Desvio do Espiritismo Após Kardec: Da França ao Brasil, e o Resgate da Autonomia
O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec no século XIX, surgiu como uma ciência filosófica com consequências morais, não como uma religião dogmática ou uma seita. Sua base fundamental estava no Espiritualismo Racional, um movimento moderno que utilizava a metodologia científica para compreender o ser humano como alma encarnada e desencarnada, buscando a fé raciocinada em oposição à fé cega e ao materialismo. Essa abordagem visava a revolução moral e a renovação social da humanidade, pautada na moral da liberdade e da autonomia intelectual.
Kardec previu os desafios e desvios que sua obra enfrentaria, organizando preciosos arquivos para que a verdadeira história pudesse ser contada no futuro. No entanto, após sua morte em 1869, o Espiritismo sofreu um terrível golpe que alterou profundamente seus fundamentos, tanto na França quanto, posteriormente, no Brasil.
O Desvio na França Pós-Kardec
Logo após o desencarne de Allan Kardec, em 31 de março de 1869, o movimento espírita francês foi alvo de uma invasão e descaracterização. A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas foi afastada e a Revista Espírita foi tomada pelos inimigos invisíveis e por mãos consideradas amigas.
Uma das manobras mais graves foi a adulteração das obras fundamentais de Kardec. Documentos oficiais franceses comprovam que a quinta edição de “A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo”, publicada em dezembro de 1872, mais de três anos após a morte de Kardec, contém mais de uma centena de modificações, supressões e adições de conteúdos. Entre as alterações mais significativas, está a retirada da teoria da conquista progressiva do livre-arbítrio e a implantação da ideia de um corpo fluídico de Jesus. Da mesma forma, “O Céu e o Inferno” sofreu alterações profundas em sua quarta edição (1869), publicada post mortem, com supressões e acréscimos que invertiam os conceitos morais sobre a justiça divina. Outras obras como “Obras Póstumas” e o “Catálogo Racional” também foram adulteradas.
Essas adulterações foram orquestradas pela Sociedade Anônima da Caixa Geral e Central do Espiritismo, criada após a morte de Kardec com fins lucrativos e que se apropriou dos direitos sobre as obras e a Revista Espírita.
O advogado Jean-Baptiste Roustaing, de Bordeaux, publicou em 1866 a obra “Os Quatro Evangelhos”, que se apresentava como uma “revelação da revelação”. Roustaing propunha o Espiritismo como uma religião formal, com dogmas como a “queda do espírito” e a reencarnação como castigo divino, além da tese de um corpo fluídico para Jesus, diametralmente oposta à doutrina de Kardec. Kardec criticou abertamente essa obra, apontando sua precipitação e suas divergências com a universalidade do ensino dos Espíritos. Pierre-Gaëtan Leymarie, administrador da Sociedade Anônima, desempenhou um papel crucial na divulgação das ideias roustainguistas e na adulteração das obras de Kardec.
Apesar do golpe, pioneiros fiéis como Amélie Boudet (esposa de Kardec), Berthe Fropo, Léon Denis, Gabriel Delanne e Henri Sausse, lutaram contra esses desvios. Eles fundaram a União Espírita Francesa e seu jornal, Le Spiritisme, para denunciar as adulterações e defender a integridade da doutrina original.
O Desvio no Brasil e a Ação de Canuto Abreu
Enquanto o roustainguismo declinava na França, ele encontrou um terreno fértil no Brasil. A forte tradição católica e a falta de conhecimento sistematizado de assuntos religiosos entre a população brasileira tornaram-na suscetível a uma doutrina que se apresentava como um meio-termo entre a razão de Kardec e os dogmas do Velho Mundo.
Inicialmente, a maioria dos espíritas cariocas no final do século XIX buscava aplicar o Espiritismo de acordo com os preceitos de Kardec, com uma visão moral baseada nas ciências filosóficas e na autonomia moral. No entanto, um pequeno grupo de roustainguistas, que se consideravam dissidentes da Sociedade Acadêmica, fundou a Sociedade Espírita Fraternidade e o Grupo Sayão (ou Grupo dos Humildes) no Rio de Janeiro.
A Federação Espírita Brasileira (FEB), fundada em 1884, que inicialmente aludia a um caráter progressista e ao estudo das obras de Kardec, acabou sendo influenciada pelo roustainguismo. Em 1902, “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing foi preferido ao “O Evangelho segundo o Espiritismo” nas sessões de estudo da FEB, sob o argumento de ser uma “revelação completa”. A revista “Reformador”, que inicialmente tinha uma tendência laica e livre-pensadora, passou a ser usada para divulgar as ideias roustainguistas.
Bezerra de Menezes, após se tornar espírita, alinhou-se aos grupos roustainguistas, defendendo a ideia de que “Espiritismo é religião” e que se deveria seguir a obra de Roustaing, o que era um retrocesso em relação ao Espiritualismo Racional. Ele se tornou um patrono da FEB. A obra “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, psicografada por Chico Xavier, foi utilizada pela FEB para tentar legitimar a inclusão de Roustaing como um dos missionários que auxiliaram Kardec na “organização do trabalho da fé”, o que foi contestado pela incineração de originais e por estudiosos como Herculano Pires.
O pesquisador brasileiro Silvino Canuto Abreu (1892-1961) teve um papel fundamental na denúncia desse desvio. Após uma profunda pesquisa na França e no Brasil, ele constatou as grandes diferenças entre as propostas humanitárias de liberdade de Kardec e o panorama religioso formal e dogmático do movimento espírita observado na FEB no início do século XX. Canuto Abreu dedicou sua vida a reunir milhares de documentos, manuscritos originais de Kardec e depoimentos de pioneiros, que se tornaram um acervo inestimável para a recuperação da história original do Espiritismo. Suas denúncias, como o artigo inédito “O Espiritismo e as religiões” de 1934, permaneceram ocultas por 85 anos, mas eram cruciais para compreender como o “tradicionalismo retrógrado fundamentado na tradição mística” se ampliou no movimento espírita brasileiro.
O Papel do Espiritualismo Racional
O Espiritualismo Racional foi o contexto cultural e filosófico que preparou o caminho para o surgimento do Espiritismo na França. Ele se estabeleceu como filosofia oficial na universidade francesa após 1830, reagindo ao ceticismo materialista e ao dogmatismo religioso. Pensadores como Victor Cousin, Jouffroy e Paul Janet, que publicavam pela Livraria Acadêmica de Pierre-Paul Didier, defendiam uma moral laica da liberdade e do dever, baseada na concepção psicológica científica do ser humano, e lutavam por liberdades de pensamento, consciência e moral. Kardec, discípulo de Pestalozzi e já adepto do Espiritualismo Racional, classificou o Espiritismo como um desenvolvimento do Espiritualismo Racional.
A maioria dos espíritas da época de Kardec era proveniente do Espiritualismo Racional, já possuindo uma compreensão da autonomia moral e dos estudos psicológicos. No Brasil, entretanto, a corrente espiritualista racional, liderada por Gonçalves de Magalhães e Porto-Alegre, apesar de ter influenciado professores e estudantes, foi logo silenciada e esquecida, impedindo que o Espiritismo encontrasse o mesmo cenário favorável que na França. A falta desse alicerce tornou o movimento espírita brasileiro mais vulnerável às ideias heterônomas e dogmáticas, como o roustainguismo.
Conclusão: O Reencontro Necessário
O desvio do Espiritismo após a morte de Kardec, tanto na França quanto no Brasil, resultou na distorção de sua natureza original como ciência filosófica e moral para uma seita religiosa com dogmas e hierarquias. A restauração da verdade histórica e doutrinária, empreendida por pesquisadores como Canuto Abreu e Simoni Privato Goidanich, é um passo essencial para que o Espiritismo possa, de fato, cumprir sua finalidade de elevar intelectual e moralmente a humanidade, conforme a visão de Allan Kardec e dos Espíritos Superiores. O retorno à fé raciocinada, à universalidade do ensino dos Espíritos e à moral autônoma é crucial para que a doutrina continue seu progresso e se liberte das amarras do passado.
Bibliografia
. Autonomia: A História Jamais Contada do Espiritismo
2. Muita Luz (Beaucoup de Lumière), de Berthe Fropo
3. Mesmer: A Ciência Negada e os Textos Escondidos
4. Nem Céu Nem Inferno: As Leis da Alma Segundo o Espiritismo
5. O Verbo e a Carne: Duas Análises do Roustainguismo (ou apenas O Verbo e a Carne)
6. O Legado de Allan Kardec
7. Ponto Final: O Reencontro do Espiritismo com Allan Kardec
8. Revolução Espírita: A Teoria Esquecida de Allan Kardec
9. O Primado de Kardec








