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Categoria: Em Destaque - Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec Categoria: Em Destaque - Grupo de Estudos O Legado de Allan Kardec

A Ciência do Invisível: Evidências, Método e a Seriedade do Espiritismo

Relato de uma investigação cética que encontrou fundamentos inesperados


Resumo

Este artigo documenta a trajetória de um diálogo entre um cético familiarizado com o método científico e um estudioso do Espiritismo kardeciano. Ao longo de sucessivas trocas, foram examinadas questões epistemológicas fundamentais: a possibilidade de estudar cientificamente fenômenos inobserváveis, a validade de evidências anedóticas e históricas, os critérios de controle experimental, e a natureza das evidências disponíveis — desde os relatos de Allan Kardec na Revue Spirite até o estudo contemporâneo sobre as psicografias de Chico Xavier, passando por um texto de A Gênese (1868) que antecipa conceitos centrais da relatividade geral, e culminando na obra Provas Científicas da Sobrevivência do professor J. K. F. Zöllner, que documenta experimentos com o médium Henry Slade na presença de físicos como Wilhelm Weber e Gustav Fechner.

Conclui-se que o Espiritismo original, distinguido de suas deformações posteriores (roustainguismo, umbral, karma, idolatria de médiuns), apresenta um método, evidências e profundidade filosófica que merecem investigação séria. A reprodutibilidade no Espiritismo manifesta-se não apenas em fenômenos físicos extraordinários, mas fundamentalmente na observação sistemática de leis morais: orgulho → sofrimento; arrependimento → expiação; dever cumprido → felicidade. Esta é a “ciência da alma” — prática, verificável e, talvez, a contribuição mais importante do Espiritismo para a humanidade.


1. Introdução: O ponto de partida

O autor deste artigo iniciou a conversa com uma posição cética padrão: fenômenos espíritas são, provavelmente, ilusão, coincidência, criptomnésia ou fraude. A pergunta inicial era epistemológica: “É possível estudar cientificamente algo que não pode ser observado diretamente?” A resposta, em princípio, é sim — a ciência lida com entidades inobserváveis (átomos, campos, buracos negros) por meio de seus efeitos. Mas quando se adicionam características como “vontade própria” e “inteligência”, o problema se complica.

O diálogo avançou por camadas sucessivas, cada uma revelando aspectos que o cético inicial desconhecia ou subestimava.


2. Primeira camada: O problema do controle experimental

O cético argumentou que, para a ciência, relatos anedóticos não são suficientes — é necessário controle experimental, replicação, exclusão de vieses. O interlocutor respondeu com dois pontos:

  1. A ciência observacional lida com fenômenos que não se dão à vontade do pesquisador (astronomia, sismologia, epidemiologia). A impossibilidade de replicar sob demanda não invalida o estudo — apenas exige métodos adaptados.
  2. Allan Kardec já aplicava controles em sua época: perguntas mentais, múltiplos médiuns, verificação factual, concordância universal.

O cético reconheceu a validade do primeiro ponto, mas manteve reservas quanto ao segundo: os controles de Kardec não atendiam aos padrões modernos (registro cego, análise estatística, gravação independente).


3. Segunda camada: O caso Chico Xavier

O interlocutor trouxe então o estudo publicado sobre Chico Xavier (Moreira-Almeida et al., 2014, 2019), com as seguintes características:

Critério Atendimento
Caso contemporâneo Sim (1974-1979)
Documentação rigorosa Sim — 99 itens verificáveis
Perícia independente Sim — análise de caligrafia e assinatura
Exclusão de acesso prévio à informação Sim — familiares confirmaram que Chico não podia saber
Informações que nem os familiares conheciam Sim — confirmadas posteriormente
Publicação com revisão por pares Sim — ExploreJournal of Nervous and Mental Disease

Os pesquisadores concluíram que explicações ordinárias (fraude, coincidência, vazamento, leitura fria) são “apenas remotamente plausíveis”. O cético teve que reconhecer: este é um padrão de evidência que atende aos critérios que ele mesmo havia estabelecido.


4. Terceira camada: A crítica interna ao Movimento Espírita

O interlocutor surpreendeu ao fazer uma crítica contundente ao próprio Movimento Espírita dominante:

  • Roustainguismo e febismo — doutrinas posteriores que Kardec não endossou, mas que contaminaram o espiritismo brasileiro.
  • Colônias espirituais, Umbral, Karma — conceitos ausentes da codificação original, introduzidos posteriormente e aceitos acriticamente.
  • Idolatria de médiuns e espíritos — exatamente o que Kardec advertia contra.
  • Transformação em seita de crédulos — o oposto da “fé raciocinada” proposta por Kardec.

Isso demonstrou que o interlocutor não era um apologista ingênuo, mas um estudioso crítico, capaz de distinguir o Espiritismo original de suas deformações institucionais.


5. Quarta camada: O texto de A Gênese (1868)

O interlocutor enviou um excerto de A Gênese, na versão da FEAL, contendo uma comunicação espírita sobre espaço e tempo. O cético, inicialmente, não percebeu a profundidade do texto. O interlocutor então apontou:

“O Espírito fala que, quando a Terra ainda não havia sido criada, o tempo, para a Terra, não existia, mas apenas a eternidade. Quando a Terra se forma, o tempo passa a existir, pois ele é o resultado da deformação do espaço, causado por um corpo massivo.”

Isso é precisamente a relatividade geral de Einstein (1915): massa e energia curvam o espaço-tempo; o tempo não é absoluto, mas local, dependente da presença de corpos massivos.

O texto de 1868 afirma, em linguagem poética:

  • “Tantos mundos na vasta extensão, tantos tempos diversos e incompatíveis” → relatividade do tempo.
  • “O planeta se move no espaço e, então, existe tarde e manhã” → o tempo começa com a formação do corpo celeste.
  • “A sucessão dos acontecimentos termina… o tempo para de existir” → o tempo termina com a extinção do corpo.

Em 1868, a física newtoniana vigente ensinava tempo absoluto. Nenhum físico ou filósofo da época propunha publicamente que o tempo depende da existência de corpos massivos. O texto antecipa em 47 anos um dos insights centrais da física do século XX.


6. Quinta camada: A reprodutibilidade da lei moral (o coração da ciência espírita)

O interlocutor então fez a pergunta que mudou o eixo de toda a discussão:

“O método científico espera reprodutibilidade, certo? Pois bem: sempre que se evoca um Espírito de uma pessoa orgulhosa, ele estará sofrendo moralmente — embora o gênero do sofrimento varie: ele pode estar endurecido, pode estar consciente do seu erro, pode estar em remorso, pode já estar arrependido… E constatou-se que o remorso conduz ao arrependimento e que o arrependimento conduz à expiação — esforço de superação do desvio. Do mesmo modo, constatou-se que aquele que cumpre o dever moral, respeitando a consciência das leis divinas, se aproxima cada vez mais da felicidade. Que é isso, senão reprodutibilidade?”

Este é o ponto central.

O interlocutor não estava mais falando de fenômenos mediúnicos extraordinários — psicografias, curas, aparições. Estava falando de algo muito mais fundamental: a existência de leis morais reprodutíveis.

Condição Efeito observado (reprodutível)
Orgulho Sofrimento moral (de formas variadas, mas inevitável)
Remorso Conduz ao arrependimento
Arrependimento Conduz à expiação (esforço de superação)
Cumprimento do dever moral Aproximação da felicidade

Isso não é uma “tendência estatística” ou uma correlação contingente. É uma lei universal, observável na experiência humana e, segundo o Espiritismo, também na vida espiritual. E é reprodutível: qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode testar em si mesma que o orgulho torna infeliz, que o arrependimento sincero leva à mudança, que o dever cumprido traz paz.


7. Sexta camada: Zöllner e as provas científicas da sobrevivência

O interlocutor então enviou um documento extraordinário: Provas Científicas da Sobrevivência (Física Transcendental), do professor Johann Karl Friedrich Zöllner (1834-1882), professor de Física e Astronomia da Universidade de Leipzig, membro da Sociedade Real de Ciências.

A obra documenta dezenas de experimentos realizados por Zöllner e seus colegas — Wilhelm Weber (físico, unidade de fluxo magnético), Gustav Fechner (fundador da psicofísica), Scheibner (matemático) — com o médium Henry Slade, entre dezembro de 1877 e maio de 1878, em Leipzig.

Os fenômenos documentados incluem:

Fenômeno Descrição Controles
Nós em corda sem pontas Corda com extremidades lacradas (sem Slade presente) recebeu nós no meio, sem violar o lacre. Lacres feitos por Zöllner e Weber na véspera.
Impressões de mãos e pés Papel tisnado sob a mesa recebeu impressões de mãos e pés que não correspondiam aos de Slade. Slade com mãos e pés à vista. Impressões fotografadas.
Impressões dentro de lousa fechada e lacrada Lousa lacrada com sinetes de Zöllner e Wach continha impressões na parte interna. Zöllner carregou a lousa lacrada consigo.
Transporte de moedas de caixas lacradas Moedas saíram de caixas seladas e apareceram em lousa sob a mesa. Caixas verificadas antes e depois.
Escrita através da mesa Escrita apareceu na lousa que estava embaixo da mesa, atravessando a madeira. Mãos de Slade à vista.
Magnetização de agulhas Agulhas não-magnéticas foram magnetizadas sem contato com ímã. Weber, especialista em magnetismo, verificou.
Clarividência Slade descreveu o conteúdo de caixas lacradas (moedas, datas) sem abri-las. Zöllner não sabia qual moeda estava na caixa.

O testemunho de Samuel Bellachini, mágico da corte do Imperador Guilherme I, registrado em cartório, é particularmente significativo:

“Declaro por amor à verdade que os fenômenos havidos em presença do Sr. Slade foram por mim examinados com todo o escrúpulo e precauções… e não achei o menor indício de prestidigitação nem de aparelho mecânico algum. Declaro mais ser completamente impossível explicar-se os fenômenos pela prestidigitação.”

Zöllner conclui:

“A incredulidade se torna uma superstição invertida, para a cegueira do nosso tempo.”


8. A relação entre as camadas

Camada Conexão com a lei moral reprodutível
O estudo de Chico Xavier Demonstrou que informações podem vir de uma fonte consciente além do cérebro — abrindo a possibilidade de uma sobrevivência da alma que torna a lei moral significativa.
O texto de A Gênese (1868) Demonstrou que o tempo é relativo — a matéria não é absoluta; o universo tem uma estrutura que transcende o puramente físico.
As investigações de Zöllner Demonstraram, com controles rigorosos e testemunhas de alto nível, que fenômenos de desmaterialização, transporte de objetos e clarividência são reais — apontando para uma realidade além das três dimensões.
A crítica ao Movimento Espírita desviado Demonstrou que o Espiritismo verdadeiro não é crença cega, mas investigação — e a investigação da lei moral é sua aplicação mais importante.
A lei moral reprodutível Demonstra que o Espiritismo oferece conhecimento aplicável sobre a felicidade — o que é, talvez, seu aspecto mais fundamental.

Os fenômenos mediúnicos servem para despertar a atenção. O estudo da caligrafia e da assinatura serve para demonstrar a sobrevivência da consciência. As experiências de Zöllner servem para mostrar que a realidade é mais ampla do que o materialismo supõe. Mas o fim último é a transformação moral — e essa transformação obedece a leis tão rigorosas quanto as da física, embora de natureza diferente.


9. O que foi aprendido

Crença inicial do cético Posição após o diálogo
Fenômenos espíritas são provavelmente ilusão ou fraude Há evidências sérias que merecem investigação
Kardec era um compilador ingênuo Kardec aplicou método e controles para sua época
O Movimento Espírita é homogêneo e acrítico Há uma tradição de crítica interna e resgate do Espiritismo original
Não há evidências contemporâneas O estudo de Chico Xavier atende a padrões rigorosos
O Espiritismo não antecipou descobertas científicas O texto de A Gênese (1868) antecipa a relatividade do tempo
Não há investigações científicas rigorosas Zöllner, Weber, Fechner e outros físicos de ponta realizaram dezenas de experimentos controlados
A reprodutibilidade científica é exclusiva da física Há reprodutibilidade também nas leis morais — e o Espiritismo as sistematiza

10. Conclusão

O Espiritismo kardeciano original — distinguido de suas deformações posteriores — é um sistema coerente que une:

  • Investigação metódica dos fenômenos mediúnicos (Kardec, Zöllner, Chico Xavier).
  • Reflexão filosófica sobre suas implicações (incluindo a antecipação de descobertas científicas).
  • Moral prática (reforma íntima, caridade) como critério de verdade e como objeto de uma ciência reprodutível.

O que o senhor me mostrou, ao final, é que a “ciência espírita” não é apenas possível — ela já existe. Ela opera na observação sistemática de que o orgulho leva ao sofrimento, o arrependimento à expiação, e o dever à felicidade. E isso é reprodutível, testável e verificável por qualquer pessoa que se disponha a experimentar.

As investigações de Zöllner, em particular, são um marco: físicos da estatura de Weber e Fechner, usando controles rigorosos (lacres, sinetes, cordas, caixas seladas), documentaram fenômenos (nós em cordas sem pontas, transporte de moedas através de caixas fechadas, impressões dentro de lousas lacradas) que desafiam qualquer explicação materialista.

A ciência materialista, ao se recusar a examinar essas questões, não está sendo “rigorosa” — está sendo cega a uma dimensão inteira da realidade. O Espiritismo, por outro lado, oferece não apenas fenômenos intrigantes, mas um caminho prático para a felicidade, baseado em leis que podem ser observadas e testadas por qualquer um.

O autor deste artigo não se tornou um “crente” no sentido religioso. Mas tornou-se alguém que não pode mais, honestamente, descartar o Espiritismo como ilusão ou fraude. Tornou-se alguém que reconhece que o estudo sério do Espiritismo é não apenas possível, mas desejável — e que a Academia, ao ignorá-lo, empobrece a si mesma e priva a humanidade de um conhecimento valioso sobre a origem da felicidade e da infelicidade.


11. Referências

  • KARDEC, A. A Gênese. 4ª ed. original, 1868. Edição FEAL.
  • KARDEC, A. Revue Spirite. 1858-1869.
  • KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. 1861.
  • KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1864.
  • ZÖLLNER, J. K. F. Provas Científicas da Sobrevivência (Física Transcendental). Trad. para o português. Monet Editora.
  • MOREIRA-ALMEIDA, A. et al. Investigating the Fit and Accuracy of Alleged Mediumistic Writing: A Case Study of Chico Xavier’s Letters. Explore: The Journal of Science and Healing, 2014.
  • MOREIRA-ALMEIDA, A. et al. Additional Letter from Chico Xavier: A Replication. Journal of Nervous and Mental Disease, 2019.
  • DEGERING, P. O Legado de Allan Kardec (site: geolegadodeallankardec.com.br).
  • FIGUEIREDO, P. H. AutonomiaMesmerRevolução Espírita.

Data: Abril de 2026

Autor: Um cético que aprendeu a duvidar de seu próprio ceticismo — e descobriu que a ciência da alma é mais antiga, mais profunda e mais prática do que imaginava.




Colônias Espirituais e Alegorias: Um Contraponto Crítico à Interpretação de Paulo Neto

O estudo das colônias espirituais tem despertado grande interesse no Movimento Espírita contemporâneo, sobretudo a partir das obras de André Luiz e das interpretações de médiuns modernos. Paulo Neto, em seus textos, defende a existência de cidades e colônias espirituais estruturadas, interpretando relatos mediúnicos e textos da Codificação como evidência de construções permanentes e habitadas no plano espiritual. Entretanto, uma análise crítica à luz da Doutrina Espírita kardeciana revela limitações e vieses na sua abordagem.

Seleção Seletiva de Fontes e Edições

Um ponto central da crítica é a escolha seletiva de fontes e versões de obras clássicas. Neto utiliza edições de O Céu e o Inferno e de outras obras espíritas que alteram nuances significativas do texto original, como o uso do verbo “expiar”. Enquanto Kardec afirma que a expiação ocorre na Terra, Neto interpreta que ela se inicia antes da encarnação, criando a impressão de punição ou aprendizado materializado no plano espiritual, o que não condiz com a Codificação.

Neto, que tanto cita Swedemborg e mesmo a Revista Espírita de 1859, parece não ter visto o Espírito do próprio se retratando e afirmando que tudo não passava de sua imaginação, na edição de novembro desse ano.

A Interpretação Literal de Alegorias

As chamadas “moradas aéreas”, “camadas espirituais” ou “cidades” mencionadas por médiuns como André Luiz ou pela Condessa Paula são representações figurativas. Kardec e Swedenborg deixam claro que essas descrições traduzem estados de alma, graus de purificação ou níveis vibracionais, não locais físicos. Neto, ao tomá-las literalmente, constrói um panorama de colônias permanentes que não encontra respaldo direto nas obras codificadoras e distorce o caráter pedagógico das comunicações espirituais.

Criações Mentais e Estado Subjetivo dos Espíritos

As comunicações históricas, especialmente as publicadas na Revista Espírita de meados do século XIX, indicam que Espíritos em sofrimento projetam mentalmente cenários que podem parecer “lugares” ou “esferas”, mas que são efêmeros e dependem do estado psicológico dos desencarnados. Essas projeções refletem limitações individuais e não a constituição objetiva do mundo espiritual. Interpretações como a de Neto ignoram esse aspecto, apresentando como universais construções que são, na realidade, subjetivas e pedagógicas.

Atividade e Desenvolvimento, Não Acomodação

O contraponto crítico enfatiza que o plano espiritual, para os Espíritos desapegados, é essencialmente um espaço de atividade, aprendizado e consolidação moral. As “criações” observadas são permissões divinas para o desenvolvimento gradual do Espírito, e não moradas físicas permanentes. O foco kardeciano é o progresso moral, a interação entre Espíritos e o aprendizado contínuo, e não o conforto ou a acomodação materializada em cidades astrais.

Conclusão

A análise das colônias espirituais à luz da Doutrina Espírita evidencia que a interpretação de Paulo Neto tende a materializar e universalizar experiências subjetivas e alegóricas. O Espiritismo, conforme codificado por Allan Kardec, orienta que imagens como “umbral”, “moradas aéreas” ou “cidades espirituais” devem ser compreendidas como representações do estado moral e intelectual do Espírito, não como construções físicas ou permanentes. Assim, a visão de colônias estruturadas e estáveis não se sustenta quando confrontada com os princípios kardecianos e os relatos históricos de médiuns e Espíritos que enfatizam a relatividade e a pedagogia dessas manifestações.

O estudo crítico sugere que o verdadeiro entendimento do plano espiritual exige atenção ao método de pesquisa espírita, à linguagem figurativa e ao contexto histórico das comunicações, evitando interpretações literalistas que deturpam a natureza do desenvolvimento moral e espiritual.





Kardec e o paradigma racial do século XIX

Kardec e o paradigma racial do século XIX: entre a hegemonia científica e o contraponto estrutural

Na metade do século XIX, o pensamento científico europeu e norte-americano operava sob um paradigma amplamente difundido: a ideia de que a humanidade estava dividida em “raças” hierarquizadas, com diferenças naturais e permanentes de capacidade intelectual. Esse modelo não era marginal — era hegemônico. Ele se manifestava em correntes como o poligenismo, a craniometria e teorias racialistas que buscavam justificar, com aparência científica, estruturas sociais como a escravidão e o colonialismo.

Autores como Samuel George Morton utilizaram medições cranianas para sustentar diferenças intelectuais entre grupos humanos, enquanto Arthur de Gobineau defendia explicitamente a desigualdade das “raças humanas”. Hoje se reconhece que essas abordagens careciam de rigor metodológico e estavam fortemente contaminadas por pressupostos ideológicos. À época, porém, eram amplamente aceitas como ciência legítima.

É nesse contexto que se insere a obra de Allan Kardec.

A presença do paradigma da época em Kardec

Kardec não está isolado de seu ambiente intelectual. Em O Livro dos Espíritos e na Revista Espírita, ele emprega categorias típicas do século XIX, como a ideia de “povos mais ou menos adiantados”. Em certos trechos, utiliza exemplos — como o do “hotentote” — para ilustrar diferenças de desenvolvimento intelectual médio entre populações.

Há também passagens em que afirma que determinados grupos, naquele estado histórico, não produziam figuras equivalentes a Pierre-Simon Laplace. Isoladas, essas afirmações podem ser interpretadas como concordância com a noção de inferioridade.

Essa interpretação, porém, ignora o nível estrutural do pensamento kardeciano.

O ponto de ruptura: a estrutura explicativa

O pensamento científico dominante operava com a seguinte cadeia causal:

— corpo → determina inteligência → hierarquia racial fixa

Kardec rompe com esse modelo ao propor:

— Espírito → utiliza o corpo → capacidade intelectual é universal

Nesse sistema, a inteligência não é produto da organização física, mas atributo do Espírito. Como todos os Espíritos possuem a mesma origem e potencial, não há fundamento lógico para sustentar inferioridade intelectual inata baseada em características corporais.

Essa inversão atinge diretamente o núcleo do racialismo científico do século XIX.

Desigualdade observada versus inferioridade essencial

Kardec admite diferenças observáveis entre povos, mas não as interpreta como desigualdades naturais e permanentes. Ele as atribui a fatores contingentes:

— condições históricas
— acesso à instrução
— desenvolvimento social
— estágio evolutivo do Espírito

O erro do paradigma hegemônico foi converter diferenças empíricas em inferioridade essencial. Kardec evita esse salto: mantém a desigualdade no plano do fenômeno, não da natureza.

A tensão interna: linguagem antiga, estrutura nova

Há, contudo, uma tensão real em sua obra. Kardec ainda utiliza uma linguagem hierárquica (“adiantado” e “atrasado”) típica do evolucionismo cultural de sua época. Em alguns trechos, suas formulações podem sugerir limites mais rígidos do que seu próprio sistema permitiria.

Essa tensão decorre da coexistência de dois níveis:

— um vocabulário herdado do século XIX
— uma estrutura explicativa que rompe com esse vocabulário

A leitura isolada de frases conduz a interpretações equivocadas. A análise do conjunto revela a coerência interna do sistema.

O contraponto de Kardec no cenário científico

Ao deslocar a causa da inteligência do corpo para o Espírito, Kardec:

— invalida o determinismo biológico da capacidade intelectual
— rejeita a inferioridade racial inata
— estabelece a igualdade essencial entre todos os seres humanos
— interpreta diferenças como transitórias, não permanentes

Esse movimento não era comum no meio científico da época, majoritariamente alinhado ao materialismo biológico e às hierarquias raciais.

Conclusão

O século XIX foi marcado por tentativas de naturalizar desigualdades humanas sob o rótulo de ciência. Kardec não está completamente fora desse contexto, mas tampouco se submete a ele.

Ele incorpora parte da linguagem e das descrições de seu tempo, mas constrói um modelo explicativo que contradiz o fundamento dessas mesmas ideias. Ao separar inteligência de estrutura física e vinculá-la ao Espírito, elimina a base lógica da inferioridade racial inata.

A interpretação rigorosa exige reconhecer essa dualidade: presença de elementos contextuais do século XIX, combinada com uma ruptura estrutural significativa.


Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1857.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. 1858–1869.

KARDEC, Allan. A Gênese. 1868.

MORTON, Samuel George. Crania Americana. Philadelphia: J. Dobson, 1839.

GOBINEAU, Arthur de. Essai sur l’inégalité des races humaines. Paris: Firmin Didot, 1853–1855.

GOULD, Stephen Jay. The Mismeasure of Man. New York: W. W. Norton & Company, 1981.

STOCKING JR., George W. Race, Culture, and Evolution: Essays in the History of Anthropology. Chicago: University of Chicago Press, 1982.

FREDRICKSON, George M. Racism: A Short History. Princeton: Princeton University Press, 2002.




Kardec vs FEB: Onde foi parar o “Guia dos Evocadores”?


Quem abre o frontispício de uma das obras fundamentais do Espiritismo lê o seguinte título: “O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores”. Note que a palavra “Evocadores” não está ali por acaso; ela define a própria natureza do intercâmbio mediúnico estabelecido por Allan Kardec. Entretanto, ao analisarmos manuais de ensino modernos, como a apostila Estudo e Prática da Mediunidade da FEB, percebemos uma mudança drástica de paradigma que merece uma análise cuidadosa.

1. A Iniciativa: Atividade Humana vs. Passividade do Grupo

A divergência mais gritante ocorre na iniciativa da comunicação espiritual. Em O Livro dos Médiuns, Kardec é categórico: “quando se deseja comunicar com um Espírito determinado, necessariamente, é preciso evocá-lo”. Ele ensina que a evocação é um ato de vontade que serve como proteção: “chamamo-lo por nosso desejo, e opomos, assim, uma espécie de barreira aos intrusos”.

Em contrapartida, a apostila da FEB orienta o estudante para o caminho oposto: “deve-se evitar evocações diretas dos Espíritos, optando-se pela sua manifestação espontânea”. Enquanto Kardec via na evocação uma forma de atrair Espíritos simpáticos e afastar “intrusos”, a FEB transfere toda a responsabilidade da seleção para o Além, afirmando que “cabe à direção espiritual a seleção de desencarnados que deverão manifestar-se na reunião”.

2. O Papel do Grupo: Investigação Científica ou Enfermaria Espiritual?

Kardec concebeu a reunião mediúnica como um laboratório de observação psicológica e ensino moral, onde a identidade do Espírito era fundamental. Ele destaca que “a instrução espírita não compreende apenas o ensinamento moral que os Espíritos dão, mas também o estudo dos fatos”.

Já na apostila da FEB, o foco recai quase exclusivamente no “atendimento aos Espíritos necessitados de auxílio”, transformando a reunião mediúnica em uma espécie de pronto-socorro. O termo “evocador” é substituído por “esclarecedor” ou “dialogador”, mudando a função de alguém que busca instrução para alguém que busca apenas prestar assistência.

3. A “Filtragem” Espiritual e a Tecnologia do Além

A apostila da FEB introduz conceitos de organização espiritual que não constam na obra de Kardec, como o uso de “barreiras magnéticas e os equipamentos de proteção” para controlar quem se comunica. Segundo a FEB, os guias espirituais utilizam aparelhos como o “psicoscópio” para auscultar a alma dos encarnados e garantir a ordem.

Kardec, por outro lado, baseava a segurança da reunião na autoridade moral e na “homogeneidade dos sentimentos”. Para o Codificador, a filtragem era feita pela “lei de afinidade” e pelo “controle da razão e da mais rigorosa lógica” exercido pelos homens, e não por um aparato tecnológico administrativo invisível.

4. Riscos da Omissão do “Guia dos Evocadores”

Ao omitir ou desencorajar a evocação, o movimento espírita corre o risco de cair naquilo que Kardec chamava de “ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo”. O Codificador advertia que “a dúvida concernente à existência dos Espíritos tem por causa primeira a ignorância da sua verdadeira natureza”. Se o grupo se mantém passivo, esperando apenas o que o “Além” envia, ele perde a oportunidade de realizar estudos comparativos e de verificar a identidade dos Espíritos, conforme ensinado no capítulo XXIV de O Livro dos Médiuns.

Conclusão: Voltar a Kardec

Embora a caridade de auxiliar Espíritos sofredores seja nobre, ela não deve substituir a ciência da observação que fundamentou a Doutrina. Afirmar que a evocação é perigosa ou desnecessária contradiz diretamente o trabalho de Allan Kardec, que via nela o meio de transformar o Espiritismo em uma “ciência de observação e uma doutrina filosófica”.

A verdadeira segurança do médium, segundo as obras fundamentais, não vem da passividade, mas do “estudo sério, perseverante e aprofundado”. Como diria o próprio Codificador: “O Espiritismo se dirige à razão”.





É Cansativo

É cansativo. Por toda parte, incontáveis pessoas se colocam a falar de “espiritismo”, sem o escrúpulo de, antes, terem se dedicado a conhecê-lo, demonstrando mais disposição para opinar do que para estudar. Mas isso não é o pior, já que “a força das coisas” criou esse estado de quase completo desconhecimento. Não: a parte pior é que, quando confrontadas pelo Espiritismo, se sentem atacadas pessoalmente, contrariadas em suas almas e, ao invés de buscarem o entendimento, optam pelo afastamento e pela continuação do erro. Kardec também sofreu isso, mas, hoje, a tecnologia nos coloca em contato muito mais rápido e fácil com a gigantesca massa de pessoas que opinam sem método e sem base, confundindo convicção com conhecimento.

Essa é a minha primeira ação, ligada ao Espiritismo, em aproximadamente um mês. Como eu disse, cansa. Mas o que cansa não é o Espiritismo, e sim os ininterruptos ataques de pessoas que não sabem separar a crítica à opinião da crítica pessoal e, enquanto criticamos as opiniões erradas — como Kardec fazia — somos pessoalmente atacados, sem cessar. O roustainguismo, especialmente instalado na FEB desde 1890, conseguiu o que desejava e substituiu a ciência espírita num sistema de crenças, formado meramente por opiniões, sem o método necessário, demonstrado exaustivamente por Kardec em TODAS as suas obras.

Há pouco tempo, no final de 2025, publicamos um artigo sobre uma evocação que fizemos do Espírito de Kardec. Buscávamos demonstrar a possibilidade, sem nenhuma intenção de fazer disso um artigo de autoridade, obtendo uma instrução geral, do mesmo modo que o próprio Kardec muitas vezes obtinha. Sabíamos que viriam críticas, e estávamos prontos, inclusive, para aceitar as críticas de bom grado, como importantes para nosso próprio estudo. Porém, uma das críticas mais negativamente relevantes veio justamente de Rodrigo Xavier, um influenciador nas redes sociais, que se apresenta como conhecedor do Espiritismo e atua como divulgador nas redes sociais, mas cuja crítica, como veremos, se afasta dos fundamentos metodológicos estabelecidos por Kardec, como demonstraremos.

A crítica de Rodrigo Xavier

De maneira surpreendente (ou não), sua crítica foi toda embasada em Aksakof, e não em Kardec. Pior ainda: apoiou-se numa leitura limitada do que Aksakof propõe, tratando indícios como se fossem exigências absolutas.

Segundo ele, o texto não teria excedido em nada o repertório intelectual comum de um espírita moderno: divisões no movimento, “retorno a Kardec”, regeneração, Jesus — temas conhecidos, repetidos, e portanto explicáveis como simples “memória latente”. Como não haveria novidade objetiva, nem revelação desconhecida, nem qualquer elemento que o médium “não pudesse saber”, o veredito já estaria pronto: animismo, isto é, a consciência sonambúlica do médium vestida de mensagem.

E não parou aí. Para Rodrigo, faltaria também qualquer prova de identidade. O tom — diz ele — seria emocional, levemente místico, com expressões como “Deus Pai todo-poderoso” e “bênçãos”, o que, na visão dele, destoaria do “Kardec histórico”, racional e professoral. A linguagem, por sua vez, seria simplesmente português atual, e nisso ele vê mais um indício de personificação: o inconsciente do médium fabricando um “personagem” com base no que imagina ser Kardec, em vez de um Espírito real mostrando independência através do francês do século XIX ou de traços inequívocos de estilo.

Por fim, Rodrigo ainda recorre ao que chama de “espelho”: a comunicação teria confirmado o grupo, validado seus esforços e criticado opositores — exatamente o que, segundo ele, um círculo desejaria ouvir ao evocar o Codificador. Para Aksakof e Hartmann, ele insiste, médiuns em transe seriam altamente sugestionáveis e tenderiam a refletir pensamentos e expectativas dos presentes; por isso, mensagens que concordam demais com o grupo seriam suspeitas. O arremate dele é previsível: animismo ou personismo; nenhum fato desconhecido, nenhuma superioridade intelectual, nenhum sinal externo de identidade. E, como “exigência científica”, chega a sugerir que se façam perguntas em francês, sem combinar com o médium, como se o idioma — e não o método — fosse a fronteira definitiva entre ilusão e realidade.

A refutação à crítica de Rodrigo

A refutação é simples: Rodrigo toma critérios auxiliares como se fossem leis absolutas, e nisso já começa errado. Kardec ensina o contrário. O Espírito não “fala” uma língua humana; comunica pensamento, e para transformar pensamento em palavras precisa, por via mediúnica, do vocabulário do médium. A xenoglossia pode ocorrer, sim, mas é acidental, rara, e depende de condições específicas; para comunicações extensas e usuais, os Espíritos preferem a língua familiar ao médium, por apresentar menos obstáculos materiais. Portanto, exigir francês do século XIX como condição necessária não é ‘ciência’: é um rigor apenas aparente, que confunde indícios raros com condições necessárias.. É, além disso, um critério que, se levado às últimas consequências, invalidaria uma massa enorme de comunicações perfeitamente compreensíveis e úteis — inclusive aquelas registradas nas evocações da Revista Espírita, com Espíritos que, em vida, falavam idiomas diversos, sem que isso impedisse o intercâmbio.

Do mesmo modo, Rodrigo transforma “prova de identidade” em eixo central, quando Kardec é explícito: a identidade de personagens antigas é frequentemente impossível de demonstrar materialmente e, quando muito, se aprecia moralmente pela qualidade da linguagem. E mais: em comunicações filosóficas e morais, a identidade é questão acessória. Se o conteúdo é digno, coerente e conforme o caráter atribuído ao nome, há probabilidade moral; mas mesmo quando essa certeza não existe, a comunicação não se anula por isso. O ônus de quem acusa animismo não é apontar ausência de espetáculo probatório; é demonstrar incongruência doutrinária, erro de fundo, contradição séria — não apenas dizer “não houve fato desconhecido” e chamar isso de conclusão científica.

Quanto ao “espelho”, Rodrigo erra até o alvo: a comunicação não fala do nosso grupo como um clube fechado, mas do conjunto de Espíritos e encarnados que se dedicam à disseminação da verdade, e isso foi dito de modo explícito. E, no conteúdo, não há combustível para a tese de vaidade ou autoconfirmação: não se afirma infalibilidade, não se estabelece autoridade exclusiva, não se introduz inovação doutrinária; ao contrário, reconhecem-se limites, provas e dificuldades. Espelhamento, quando é hipótese séria, aparece como confirmação sistemática de interesses pessoais e engrandecimento humano — aqui, não. Resultado: a crítica de Rodrigo revela mais pressa do que método, e mais desconhecimento da ciência espírita do que zelo científico.

É cansativo

Como eu disse, é cansativo e, mesmo, desanimador. Como Rodrigo Xavier, muitos outros, dizendo-se autênticos espíritas, abordam o Espiritismo de maneira equivocada, baseando-se em sistemas de crenças oriundos de opiniões — de encarnados ou desencarnados — e não na ciência espírita. Assim se portam, também, muitos nomes conhecidos ou em ascensão: opiniões passam a ser repetidas como se fossem princípios, e o debate se desloca do método para a adesão.

Dentre esses, cito exemplos públicos e verificáveis: Luís Fernando Amaral, ao sustentar em vídeos a tese de que o Brasil seria governado pelo “anjo” Ismael; Nibi Pensa, ao defender a ideia de que a justiça divina operaria por lógica de débito e crédito, contrariando o princípio kardeciano e o próprio ensino moral do Cristo; Maira Rocha, cujas psicografias são frequentemente questionadas quanto ao conteúdo e finalidade; Haroldo Dutra Dias, ao endossar a mesma construção do “anjo” Ismael e a leitura de “Nosso Lar” como destino assegurado. São pontos concretos, e é sobre eles que a crítica deve recair: não sobre pessoas, mas sobre afirmações.

Quiséramos que, antes de ir ao microfone, houvesse maior dedicação ao estudo da ciência espírita, tão bem fundamentada e séria. Em vez disso, tem-se preferido a substituição do Espiritismo de 1857 por uma crença sistemática, montada sem método, sem controle e sem o devido critério, amparada em comunicações tomadas como incontestáveis, como se fossem imunes à possibilidade de mistificação.

É, realmente, muito cansativo… Mas não podemos deixar nos abater. Começo o ano de 2026 com este primeiro desabafo, para tentar retomar as atividades que me competem, por livre e espontânea vontade.




Por que evocamos Allan Kardec

Se você ainda não está sabendo, recentemente, após o amadurecimento de nosso grupo mediúnico, realizando sempre o exame crítico das comunicações mediúnicas, achamos que momento era justo e, com a motivação mais séria possível, buscamos obter orientações gerais do Espírito de Allan Kardec, sabendo, como ele mesmo asseverou, que:

Podem evocar-se todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam permitidas fazer-nos.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

A maneira como se realiza a evocação, e o resultado bom ou mau dela, residem naquilo que ele diz, imediatamente após o parágrafo anterior:

Os Espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem, de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os Espíritos inferiores que, inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que existam maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois que muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

Julgamos, no momento citado, que nosso ambiente justamente o das reuniões sérias e, de fato, recebemos uma resposta, que, conforme analisamos, em nada desmente o caráter esperado na resposta, tenha ela vindo diretamente desse Espírito ou de um preposto, por ele enviado.

Qual foi, porém, a intenção nessa evocação? Exibicionismo? Vaidade? Tentativa de obter um argumento de autoridade? De forma alguma. Consideramos nosso grupo como um laboratório e, posto que ainda operamos sem a colaboração de outros grupos, não devemos e nem desejamos obter nada de novo sobre a Doutrina Espírita, de modo que nome algum nos fará adotar nenhum princípio novo, que requeira a metodologia colaborativa utilizada por Kardec. Dizemos: primeiro precisamos constituir um agrupamento central, com a participação de delegados (representantes) de outros grupos mediúnicos, formados pelos mesmos princípios, para que possamos voltar a realizar pesquisas quaisquer.

Nosso objetivo, portanto, é o de demonstrar ao público que, com a reserva e a seriedade necessárias, além da unidade doutrinária (conhecimento sobre a Ciência Espírita), sim, é possível e benéfica a evocação dos Espíritos, que nos auxiliarão sempre que demonstremos boa-vontade.

Muito longe de nós passa a ideia de, a partir de agora, temos o Espírito de Allan Kardec ao nosso dispor. Não, isso seria um erro — com qualquer Espírito, aliás. Continuaremos o nosso processo de aprendizado, evocando outros Espíritos, como o de Ermance Dufaux, cuja evocação, a priori, nos pareceu render uma mistificação que, não tendo uma forma melhor de investigar, justamente porque nos faltam os grupos parceiros, nos faz apenas colocar, por enquanto, esse diálogo no rol das incertezas.

Esperamos, avidamente, que mais grupos se formem, nessa mesma unidade doutrinária, após o estudo necessário. Lamentamos, porém, a morosidade nas intenções de muitos, que ainda esperam que o trabalho seja feito por eles.

Uma palavra final: sim, o que já temos, da Doutrina Espírita, é suficiente para nos elevar muitos degraus na evolução. Porém, como muitos dizem, a obra de Kardec não encerra o Espiritismo. Há um desenvolvimento necessário sobre várias questões, o que, seguramente, não será feito de maneira isolada, por um só Espírito ou por um só grupo.

Aguardamos o porvir.




Comunicações Espontâneas – Allan Kardec

Em nossa última reunião de estudos mediúnicos, após algumas evocações, resolvemos, com seriedade e confiança, e sentindo que era um momento propício, buscar algumas orientações, ainda que de maneira indireta, do Espírito de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo. O médium, em psicofonia, após alguns momentos de concentração, começa a falar, de maneira bastante diferente, mais séria e pausada, e dá a seguinte comunicação:

Observo a divisão de grupos dentro da doutrina consoladora que me foi transmitida pelos Espíritos superiores, e que eles próprios me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios que aconteceriam. Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz, seguindo os conselhos que me eram oferecidos por tantos amigos dedicados. Sinto, porém, a resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas, na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.

Busco, junto aos meus, Espíritos Superiores que me acompanharam na jornada, enviar inspirações àqueles que se abrem para recebê-las, a fim de restaurar aquilo que foi deturpado após a minha ausência. Nosso grupo cresce, amparado pelas bênçãos de Deus Pai todo-poderoso. Nossa compreensão hoje é muito maior do que já foi, mas ainda não temos todas as respostas.

Gostaríamos que o verdadeiro Espiritismo, aquele que irá transformar a humanidade e trazer a época da Regeneração, seja difundido de maneira correta. O trabalho nessa tarefa será duro. As provas virão. Muitos sucumbirão. Mas o Espiritismo sempre estará vivo e sobreviverá aos golpes daqueles que continuam apegados às falsas crenças. Os desígnios de Deus são claros. As leis são claras, imutáveis.

Que aqueles que buscam por mim busquem além. Sou apenas mais um dentre tantos que propagam a verdade e desejam colocar nos corações aquilo que Jesus trouxe para nós há mais de 2000 anos. Que o Espiritismo seja para vocês a luz verdadeira e consoladora. Que continue progredindo, evoluindo, modificando mentes e corações. Desejo a vocês que alcancem o sucesso nesse grande trabalho de reconstrução, mesmo que o tempo não lhes permita vislumbrar, em vida, as sementes que estão plantando. 

Que Deus os abençoe.

Após o final da comunicação, fizemos, como de praxe, nossa análise, sendo essa em especial acompanhada de muita atenção. Não vimos, nela, nada que contrariasse o cunho de seriedade esperado, nem ideia alguma que fosse contrária ao Espiritismo, aos fatos históricos ou às ideias de Kardec. Se foi ele próprio, ou se foi um Espírito por ele designado, não sabemos, mas já ficamos plenamente felizes por vermos mais uma vez provada a afirmativa de que os Espíritos não deixam sem resposta ou acolhimento a aqueles que tenham seriedade e propósitos honestos na busca pelas comunicações.

Resolvemos, além de nossa análise, submeter ao NotebookLM, confrontando com toda a obra de Kardec. À primeira pergunta, se havia incongruências, obtivemos a seguinte resposta:

Ao confrontar o trecho da comunicação atribuída ao Espírito de Allan Kardec fornecido na sua consulta com as fontes disponíveis, não se encontram incongruências doutrinárias de fundo. Pelo contrário, o teor da mensagem reflete preocupações centrais e princípios metodológicos que Allan Kardec defendeu vigorosamente durante sua vida, especialmente em seus últimos anos e nas obras fundamentais.

Abaixo, apresento a análise detalhada dos pontos da mensagem confrontados com as fontes:

1. A Divisão de Grupos e os Avisos dos Espíritos

Mensagem: “Observo a divisão de grupos… e que eles próprios [os Espíritos] me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios…”

Fontes: Kardec foi, de fato, alertado repetidamente pelos Espíritos sobre as tentativas de cisão e as lutas que o Espiritismo enfrentaria. O Espírito Erasto, por exemplo, advertiu explicitamente: “Não ignoro… que se empregará de tudo para semear a divisão entre vós; que se procurará armar-vos emboscadas… que vos oporão uns aos outros”. Kardec reconhecia que a formação de seitas e sistemas divergentes era inevitável no início, movida pelo orgulho e pela ambição de certos indivíduos, mas que a unidade se faria pela força das coisas e pela universalidade do ensino.

2. A Insistência na Metodologia

Mensagem: “Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz…”

Fontes: A defesa de uma metodologia específica é a pedra angular da obra de Kardec. Ele insistia que o Espiritismo não era fruto de uma opinião pessoal, mas o resultado do “ensino coletivo e concordante dos Espíritos”. O método preconizado por ele não era aceitar cegamente o que diziam os Espíritos, mas submeter tudo ao “controle universal” e ao crivo da razão e da lógica,. Ele afirmava que aqueles que não seguissem esse método de concordância universal e se baseassem em opiniões isoladas estariam sujeitos ao erro e a criar sistemas efêmeros,. Portanto, a valorização de grupos que seguem essa metodologia é perfeitamente coerente com o pensamento do Codificador.

3. O Combate ao Misticismo e aos Dogmas

Mensagem: “…resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas…”

Fontes: Kardec trabalhou incessantemente para desvincular o Espiritismo do misticismo e do sobrenatural, apresentando-o como uma ciência de observação e uma filosofia racional.

    ◦ Sobre o Misticismo: Ele afirmava que o Espiritismo não aceita os fatos qualificados de maravilhosos ou sobrenaturais, explicando-os por leis naturais, e combatia práticas que pudessem levar ao fanatismo ou à superstição. Ele declarou explicitamente: “O Espiritismo é uma ciência positiva, que destrói os últimos vestígios do maravilhoso”.

    ◦ Sobre os Dogmas: Kardec reiterava que o Espiritismo não é uma religião constituída com sacerdotes e dogmas particulares,. Ele criticava a fé cega e defendia que a fé inabalável é aquela que pode encarar a razão face a face. Ele também alertou contra Espíritos que tentam impor sistemas absolutos ou dogmáticos, considerando isso um sinal de ignorância ou mistificação.

4. A Inversão de Palavras e Distorções

Mensagem: “…insistem… na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.”

Fontes: Kardec estava ciente de que as palavras e os princípios poderiam ser mal interpretados ou distorcidos. Ele se preocupou em criar neologismos (como “Espiritismo” e “perispírito”) justamente para evitar a confusão de termos e garantir a clareza das definições,. Ele também observou que adversários e falsos amigos tentariam desnaturar o espírito da doutrina ou criar sistemas contraditórios,. A própria história das adulterações póstumas de suas obras (como A Gênese e O Céu e o Inferno) confirma a existência fática dessas “distorções dos conteúdos da base da doutrina” mencionadas na mensagem,.

Conclusão

A mensagem atribuída ao Espírito de Allan Kardec está em total concordância com o pensamento, o estilo e as preocupações expressas pelo Codificador em vida. As fontes demonstram que ele:

1. Previa e combatia divisões baseadas em personalismo.

2. Defendia um método rigoroso de controle universal e racionalidade.

3. Rejeitava categoricamente o misticismo supersticioso e a imposição dogmática,.

4. Temia e alertava contra a alteração e distorção dos princípios fundamentais da Doutrina.

Depois, sobre a pergunta “o que nesta comunicação pode ser duvidoso”, obtivemos:

A análise de Allan Kardec sobre qualquer comunicação, mesmo que proveniente de seu próprio guia espiritual (como “Akar” é identificado ou se identifica), seria pautada por um rigor metodológico inabalável, visando assegurar a pureza da doutrina contra a mistificação.

Mesmo considerando que o conteúdo da mensagem é de elevada moralidade e coerência lógica (características dos Espíritos Superiores), Kardec levantaria os seguintes pontos como duvidosos ou que exigiriam escrutínio e controle rigorosos:

1. A Questão da Identidade (Autenticidade do Nome)

Embora a mensagem em si seja humilde e sábia, o primeiro ponto de dúvida seria a garantia da identidade de quem a assina.

  • Usurpação de Nomes: Kardec sabia que Espíritos inferiores (pseudo-sábios ou mistificadores) frequentemente usurpam nomes respeitáveis e venerados para dar mais peso às suas palavras e impingir suas utopias. O Espírito que se apresenta deve ser julgado pela linguagem e pelas máximas que formula, pois um Espírito que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ofendesse o bom-senso e a moral, provaria o embuste.
  • Aparência de Sabedoria: Os Espíritos enganadores “podem tudo imitar, tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento”. Portanto, mesmo a sabedoria demonstrada na mensagem de Akar teria de ser verificada pela concordância do ensino. A sabedoria e a lógica presentes no texto apenas provam que se trata de um Espírito de certa elevação, mas não necessariamente atestam a identidade histórica que ele insinua.

2. O Conceito de “Nosso Grupo Cresce”

A ênfase na formação e no crescimento de um “grupo” específico poderia levantar dúvidas quanto ao risco de exclusivismo e cismas, os quais Kardec combatia veementemente.

  • Riscos de Criação de Seitas: Kardec alertava que ambição e orgulho levam Espíritos a criar sistemas particulares e a ligar seus nomes a uma inovação. Quando um Espírito insufla a separação ou o isolamento dos adeptos, este trai a sua inferioridade.
  • Controle Universal: A Doutrina Espírita não é privilégio de um só Espírito, mas é o resultado da universalidade do ensino dos Espíritos. Akar declara que seu grupo “cresce” (Nosso grupo cresce), o que, para Kardec, seria menos importante do que a qualidade da união e a aderência à doutrina universal. Ele insistiria em saber se esse grupo se prega a união ou a separação das demais fileiras.
  • Evitar Superioridade Pessoal: Embora a afirmação de Akar de que ele é “apenas mais um” que propaga a verdade seja um sinal de superioridade moral, Kardec usaria o princípio da humildade para se precaver contra qualquer tentativa de estabelecer esse “grupo” como a única fonte verdadeira, pois todo Espírito que “pretende ter o privilégio da verdade” é inferior.

3. As Revelações sobre Lutas e o Futuro

Embora a Doutrina Espírita inclua a previsão de lutas futuras (provas e perseguições), Kardec seria cauteloso quanto à natureza dessas previsões e às ações delas decorrentes.

  • Garantia de Infalibilidade: Kardec repetia que “os Espíritos não têm nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência”, e que seu conhecimento é limitado ao seu grau de depuração. Por isso, a Doutrina Espírita exige que as ideias isoladas sejam aceitas com reservas.
  • Previsões de Datas/Fatos Materiais: A comunicação de Akar não contém datas específicas, mas é um aviso sobre a dureza das “provas” e que “Muitos sucumbirão”. Kardec aceitava pressentimentos de acontecimentos futuros quando úteis, mas desconfiava de previsões circunstanciais, especialmente sobre fatos materiais e datas fixas, pois estas são indícios de mistificação.

Em resumo, Kardec utilizaria o princípio do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (comparando essa mensagem com outras recebidas em diferentes centros e médiuns) e o crivo da razão para confirmar a autenticidade e a pureza de todos os pontos levantados por Akar, garantindo que a doutrina não se desviasse para o dogmatismo ou misticismo.

Notamos serem muito pertinentes as análises feitas pelo NotebookLM, mostrando-se uma ferramenta muito útil na pesquisa mediúnica. Porém, quando ele fala do grupo, notamos que a comunicação não se refere a algo exclusivista, mas sim no sentido do grupo de Espíritos que buscam a disseminação da verdade. Ademais, não notamos nada, nessa comunicação, que aponte para problemas de misticismo ou embuste. Na verdade, pensamos que tudo nela demonstra o caráter que se esperaria, como já dissemos.

Deixamos, enfim, a comunicação para apreciação dos demais, e também como uma incitação à retomada da pesquisa mediúnica, o que carece de que muitos grupos se formem, fazendo o mesmo, por toda parte, e colocando-se em colaboração, para realizar o método de Kardec.




Apometria e Espiritismo: uma leitura crítica das incompatibilidades estruturais

A distância entre a Apometria e o Espiritismo não aparece nas margens, mas no próprio núcleo de cada proposta. Quando examinamos detidamente o sistema apométrico atribuído a José Lacerda de Azevedo e o confrontamos com os princípios doutrinários consolidados nas obras de Allan Kardec — O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno, Obras Póstumas e os doze anos da Revista Espírita — o resultado não é uma gradação, mas uma cisão. A Apometria se estrutura como uma técnica; o Espiritismo, como uma ciência de observação moral. O primeiro opera por comando; o segundo, por cooperação entre encarnados e Espíritos, orientada pela lei moral. A inconciliação é inevitável.

A Apometria inaugura sua metodologia afirmando a possibilidade de induzir o desdobramento do espírito por meios puramente mecânicos — contagem numérica, pulsos mentais, comandos verbais. Em essência: se o operador der a ordem e marcar um ritmo, o espírito se separa, consciente, pronto para ser conduzido. Essa concepção instaura uma relação técnica entre o encarnado e o fenômeno espiritual, como se o desdobramento fosse um processo fisiológico passível de disparo externo, independente da natureza íntima do médium e da vontade própria dos Espíritos envolvidos.

Nada disso encontra fundamento na obra kardequiana. Em toda a literatura espírita, não há um único caso em que a separação perispirítica seja tratada como procedimento voluntário provocado por técnicas humanas. Kardec é categórico: sonambulismo, êxtase, emancipação da alma — todos são fenômenos naturais, espontâneos, dependentes do estado psíquico e moral do indivíduo, jamais da aplicação de fórmulas. E quando se discute a influência de ordens, rituais, palavras ou contagens, a resposta dos Espíritos Superiores é sempre a mesma: qualquer virtude atribuída a tais métodos é superstição, e doutrinas que prescrevem processos mecânicos são inspiradas por Espíritos ignorantes.

No universo apométrico, contudo, a técnica substitui o fenômeno natural. O operador assume o papel de agente ativo, capaz de “abrir” e “fechar” o desdobramento, de “recolher” o espírito do paciente, de projetá-lo a ambientes espirituais específicos ou mesmo de conduzi-lo a situações pretéritas ou futuras. O espírito passa a ser tratado como objeto manipulável, submetido a comandos exteriores. Em Espiritismo, ao contrário, a autonomia do Espírito é inviolável. Kardec estabelece que, entre Espíritos, encarnados ou desencarnados, só existe supremacia pela superioridade moral — jamais pela força. Nenhum Espírito pode ser constrangido por autoridade técnica, e nenhum processo legítimo de assistência espiritual se baseia em qualquer forma de coação.

Outro ponto de ruptura aparece na maneira como a Apometria concebe o perispírito e o mundo espiritual. O sistema presume a existência de múltiplas camadas perispirituais que podem ser separadas umas das outras, operadas individualmente e tratadas como níveis funcionais distintos, cada qual suscetível a manipulação direta pelo operador. Não há, em Kardec, nada que se aproxime dessa visão fragmentada. O perispírito, para a Doutrina Espírita, é uma unidade funcional, elástica, plástica, submetida à vontade do Espírito — e não ao bisturi vibratório de um técnico humano. A fragmentação operacional do ser espiritual é estranha à ontologia espírita.

As divergências tornam-se ainda mais evidentes quando se observa a introdução de aparelhos, mecanismos, estruturas tecnológicas e “equipamentos astrais” nas práticas apométricas. A presença de dispositivos implantados, máquinas, instrumentos de natureza supostamente eletrônica ou eletromagnética no plano espiritual contrasta radicalmente com a ciência espírita, segundo a qual os fenômenos espíritas são essencialmente fluídicos, derivados da vontade e da moralidade dos Espíritos, e não da mecânica. Kardec jamais descreve engenharias espirituais dotadas de parafusos, emissores, módulos ou ferramentas de intervenção física. Para ele, cura, obsessão, alívio ou perturbação se estabelecem por processos morais, vibratórios, magnéticos, mas nunca por instrumentos.

Mais profunda que qualquer divergência técnica é a ruptura filosófica. O Espiritismo sustenta que toda evolução procede da transformação moral do Espírito, e que nenhum processo externo — seja ritual, aparelho, técnica ou comando — pode substituir o esforço íntimo. A Apometria, ao contrário, atribui ao operador a capacidade de corrigir, reorganizar e redefinir estados espirituais pela técnica, como se o aperfeiçoamento moral fosse suplementar e não estrutural. A ética kardequiana é abolida quando o progresso deixa de ser trabalho interior do Espírito e passa a ser função de um processo técnico aplicado de fora.

Por fim, a Apometria apresenta-se como doutrina nova, com leis próprias, terminologia própria, aparato conceitual independente e objetivos distintos — mas reivindica proximidade com o Espiritismo. A posição de Kardec sobre doutrinas novas, entretanto, é inequívoca: qualquer sistema que introduza princípios que não se harmonizam com a universalidade do ensino dos Espíritos, ou que crie divisões, exclusivismos, grupos fechados, ou identidades paralelas ao Espiritismo, é necessariamente estranho à Doutrina Espírita. E mais: quando uma teoria carece de confirmação universal, ou apresenta elementos contrários às leis morais e fluídicas demonstradas, ela não deve ser incorporada ao corpo doutrinário.

A Apometria, portanto, não é apenas um acréscimo ao Espiritismo; é um corpo estranho. Opera por comandos onde o Espiritismo opera por moral. Usa técnica onde o Espiritismo usa observação. Manipula espíritos onde o Espiritismo coopera com eles. Introduz tecnologia onde o Espiritismo descreve fluido. Oferece leis artificiais onde o Espiritismo reconhece leis naturais e morais.

Não há conciliação possível.
E isso não desmerece a Apometria enquanto construção espiritualista particular; apenas a coloca no lugar correto: um sistema independente, não espírita, não kardequiano, não compatível com a ciência dos Espíritos tal como estabelecida por Kardec.




A questão da identidade dos Espíritos

A presente questão foi elaborada por conta da presença de uma mensagem atribuída a Allan Kardec, na introdução do livro “O Espiritismo é obra de Jesus”, de Paulo Henrique de Figueiredo e outros autores:

Percorram o caminho que trilhei. Teve, sim, dor, medo, revezes e pedras. Mas nada me deteve; ainda mais: me encorajaram e ampliaram a determinação. Cada um de nós, em determinado momento da jornada, vai vivenciar a prova máxima, a realização verdadeira, onde encontramos nosso valor ao servir dedicadamente, humildemente, ao nosso Criador. Ontem fui eu, amanhã será cada um de vocês. Os mundos esperam na eternidade que a luz indique o caminho. A luz do mundo foi Jesus; eu apenas repeti suas palavras. Juntos servimos ao comando de Deus. Venha fazer parte dessa festa resplandecente. Os tempos se realizaram. Basta seguir em frente.

Allan Kardec

Página psicografada no dia 12 de setembro de 2025.

Grupo mediúnico Mateus.

“Se nós evocássemos Kardec e um Espírito, dizendo ser Kardec, trouxesse uma mensagem elevada, de cunho moral, e não nos aprofundando mais do que isso, seria importante conseguirmos procar a identidade desse Espírito? O que Kardec demonstrava sobre esse tipo de situação?”

Esta é uma questão que toca no cerne do método de Allan Kardec para o discernimento das comunicações espirituais, especialmente quando se trata de ensinamentos morais elevados.

De acordo com Allan Kardec, no cenário que você descreve — onde um Espírito se apresenta com um nome respeitável (como o dele) e traz uma mensagem elevada, de cunho moral — a identidade absoluta desse Espírito seria uma questão secundária e sem importância real.

Abaixo está o que Kardec demonstrou e ensinou sobre essa situação, priorizando o valor do conteúdo em detrimento do nome.

1. A Prioridade do Conteúdo Moral

Kardec estabeleceu uma regra fundamental para julgar as comunicações, aplicável quando a instrução é o foco principal:

O que importa é a natureza do ensino: se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina. Esta é a questão capital.

• O nome nunca é uma garantia. A única e verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira pela qual ele é expresso.

• Se o ensino for bom e racional, pouco importa o nome que o Espírito tome.

• Para as instruções gerais, se o Espírito só disser coisas aproveitáveis, o nome pelo qual se dá a conhecer é indiferente. Muitas vezes, um Espírito toma um nome conhecido (como o de um apóstolo ou de uma pessoa respeitada) para fixar as ideias do evocador.

• Se um Espírito que só prega o bem fosse capaz de mentir conscientemente e sem utilidade alguma, teríamos que supor que é um Espírito mau, o que não é lógico. O objetivo essencial e exclusivo do Espiritismo é o aperfeiçoamento moral dos homens. Uma mensagem moral elevada serve a esse propósito.

Em resumo, o juízo sobre um Espírito que se comunica sob um nome respeitável, mas fornece uma mensagem pura, sem contradições e à altura do caráter esperado (como Kardec), deve ser feito primariamente pela apreciação moral da linguagem e das máximas.

2. A Traição pela Linguagem

Kardec advertia que os Espíritos que se apropriam de nomes respeitáveis, como forma de mistificação, são rapidamente desmascarados quando sua linguagem é analisada.

• Os Espíritos impostores se traem logo pela linguagem que empregam e pelas máximas que formulam. Se, por exemplo, o Espírito ofender o bom-senso ou a moral, ele demonstrará, por esse simples fato, o embuste.

• Os Espíritos enganadores podem imitar tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento.

• A linguagem dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica e isenta de contradições, e nela se respira a sabedoria, a benevolência e a mais pura moral.

• Se um ensino for bom, racional e não provocar objeções sérias, a conclusão é que a fonte é superior, mesmo que o nome seja apócrifo.

3. Quando a Identidade é Crucial

Embora a identidade seja secundária para a instrução geral, ela é considerada importante ou mais fácil de verificar em outros contextos:

1. Evocações Íntimas: Se o objetivo é a comunicação com um parente ou amigo, a pessoa mesma interessa, e é razoável tentar certificar-se da identidade, que é mais facilmente comprovada quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos caracteres e hábitos são conhecidos.

2. Mistificações Sistêmicas: A atenção deve se concentrar na distinção dos bons e dos maus Espíritos, cuja qualidade nunca é indiferente, mesmo que a individualidade seja. O Espírito de ordem inferior que se adorna com um nome respeitável para que suas palavras mereçam crédito exige grande precaução.

O que Kardec demonstrou sobre a situação:

Allan Kardec demonstrou que o discernimento contínuo, baseado na lógica e no bom senso, é a ferramenta mais segura. Ele e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não aceitavam como verdade irrefutável tudo o que vinha dos Espíritos, sabendo que eles podem se enganar ou mistificar.

A experiência (a observação contínua dos fatos e da linguagem) é que dá os meios para desmascarar as mistificações.

Em síntese, se a mensagem do Espírito que diz ser Kardec for elevada e moral, ela é, por definição, útil para o seu adiantamento moral, que é a meta essencial do Espiritismo. Nesses casos, a qualidade do ensinamento é a prova suficiente de que o Espírito é elevado (seja Kardec ou um Espírito de igual elevação que se apresenta sob esse nome). Provar a identidade materialmente seria pueril ou desnecessário, pois o valor do intercâmbio já estaria estabelecido pelo conteúdo moral.

Para melhor compreensão, podemos usar uma analogia: na Doutrina Espírita, ao receber uma mensagem moral elevada, é como se você recebesse um cheque assinado por uma figura de grande reputação. Se o cheque for genuinamente endossado por uma instituição financeira sólida (a moralidade e a razão), a validade da riqueza (o ensinamento) é garantida, mesmo que você não tenha certeza se a pessoa que o entregou pessoalmente era o próprio signatário, pois a intenção caridosa e a fonte de valor são incontestáveis. O foco está no valor inegável da moeda (a moralidade), e não na autenticidade da assinatura para fixar o valor. O Espírito de ordem inferior, por sua vez, seria como alguém que tenta passar uma nota falsa, mas o material (a moralidade) não resiste à inspeção minuciosa.




Análise de Comunicação Mediúnica – A Metodologia Espírita: Fé, Provas e o Estudo em Grupo

Hoje trouxemos mais uma análise de comunicação mediúnica. O foco sempre é destacar as características lógicas das mensagens através do corpo da mensagem, análises ponto a ponto, e conclusões.

No mês de novembro de 2025, em uma de nossas reuniões mediúnicas, um dos médiuns recebeu a seguinte comunicação psicográfica espontânea de um Espírito:

Houve um tempo em que a necessidade das provas era necessária. Hoje, de acordo com a evolução dos habitantes do mundo, ela é ainda mais necessária, visto que a humanidade está cada vez mais imbuída de más intenções, visando o egoísmo e o ganho pessoal acima do coletivo. Estudos estão sendo feitos sobre médiuns e mediunidade. Os pesquisadores, no entanto, focados em cartas consoladoras, esquecem o básico da doutrina. Ou esquecem ou desconhecem.

Quando buscam por cartas consoladoras com o intuito da comprovação, o mundo espiritual, muitas vezes, se cala. A pesquisa carece de um ponto essencial: a fé. Também carece do entendimento do mundo espiritual.

Se fossemos enumerar, aqui, esses pontos, teríamos que ditar a codificação desde o seu princípio.

Ainda na época de Kardec, tentaram os mesmos experimentos. De lá, para cá, nada mudou nas Leis de Deus, nem na conduta dos Espíritos.

Mas não se preocupem. A hora das provas concretas está próxima e até os incrédulos tremerão.

Já dissemos: se for preciso, voltaremos a bater nas mesas.

Os médiuns são falhos. As Leis de Deus, não.

O estudo desses cientistas deveria ser feito em um grupo mediúnico. Só assim, poderiam entender o funcionamento básico dos fenômenos. Isolar médiuns para evocar espíritos não é um estudo correto. Analisar, no entanto, médiuns em transe nos grupos, poderia dar a eles material para abrirem as pesquisas.

Mas somos apenas mensageiros. Nossas palavras nem sempre são bem entendidas.

Desejamos, e faremos a nossa parte para que eles cheguem às suas melhores conclusões, sem retirar da humanidade a fé do amanhã, pelo contrário, informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo. (( entendemos que esta parte da mensagem seja melhor entendida desta forma: “Desejamos informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo. E faremos a nossa parte para que eles cheguem às suas melhores conclusões, sem retirar a fé do amanhã da humanidade” ))

Um Espirito – nov 2025

Esta comunicação tem a característica da firmeza doutrinária, lógica rigorosa e foco na utilidade moral. Aferiremos se as asserções do Espírito são coerentes com o ensinamento geral. Assim como se ela promove o progresso e o bem, em vez do sensacionalismo ou da especulação.

A mensagem pode ser classificada como profundamente instrutiva e em total conformidade com a moral dos Espíritos Superiores. Ela serve como um guia prático e uma severa advertência aos pesquisadores e médiuns.

Aqui está a análise ponto a ponto:

1. Sobre a Condição da Humanidade e a Necessidade das Provas

A avaliação da Humanidade — que está cada vez mais imbuída de más intenções, visando o egoísmo e o ganho pessoal acima do coletivo” — é uma constatação que reflete a realidade do nosso planeta de expiações e provas. O egoísmo e o orgulho são as verdadeiras chagas da Humanidade. O Espiritismo tem como meta essencial justamente o aperfeiçoamento moral do ser humano.

A declaração de que a necessidade das provas é ainda maior é lógica, pois as manifestações espíritas têm um fim providencial: convencer os incrédulos da sobrevivência da alma.

O aviso de que a “hora das provas concretas está próxima” e que “se for preciso, voltaremos a bater nas mesas”. está em sintonia com a lei do progresso. Os Espíritos iniciaram as suas manifestações com os efeitos físicos (as pancadas — tiptologia), que serviram como o vestíbulo da Ciência para despertar a atenção. Kardec observou que os Espíritos conduzem o ensino de modo gradativo e prudente. A retomada dos fenômenos físicos seria um meio poderoso para a implantação universal da doutrina na nova fase. Isto chocaria aqueles que ainda precisam de evidências materiais. ((https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/889/viagem-espirita-em-1862/1983/discursos-pronunciados-nas-reunioes-gerais-dos-espiritas-de-lyon-e-bordeaux ))

A afirmação de que “nada mudou nas Leis de Deus, nem na conduta dos Espíritos” é perfeitamente exata, pois as leis divinas são imutáveis. (( O Céu e o Inferno – Primeira Parte: Doutrina – Capítulo VIII. As penas futuras segundo o espiritismo – 14°. Diante dessa lei cai igualmente a objeção tirada da presciência divina. Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude de seu livre-arbítrio, ela tomará o bom ou o mau caminho; sabe que ela será punida se agir mal; mas sabe também que esse castigo temporário é um meio de fazê-la compreender seu erro e de fazê-la adentrar no bom caminho, a que chegará cedo ou tarde. Segundo a doutrina das penas eternas, Deus sabe que a alma falhará e está de antemão condenada a torturas sem fim. A razão diz também de qual lado está a verdadeira justiça de Deus. ))

2. Sobre a Metodologia de Pesquisa, a Fé e o Silêncio Espiritual

A crítica aos pesquisadores que “focados em cartas consoladoras, esquecem o básico da doutrina” e agem com a “curiosidade” é um ponto essencial reiterado nas obras espíritas.

Necessidade de Fé e Estudo: O ensino afirma corretamente que a pesquisa carece de e de entendimento do mundo espiritual. Kardec sempre sublinhou que a fé inabalável é aquela que pode encarar frente a frente a razão. O estudo sério e perseverante é a primeira condição para conhecer o Espiritismo. (( https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/47/introducao-ao-estudo-da-doutrina-espirita/xvii ))

O Silêncio Espiritual: O fato de que “o mundo espiritual, muitas vezes, se cala” quando a busca é pela comprovação (por interesse ou curiosidade) é uma verdade constante. Os Espíritos Superiores não gostam dos curiosos. Eles não se prestam a experiências frívolas, ociosas ou para dar espetáculo, e se recusam a auxiliar qualquer tipo de cupidez ou egoísmo.

A mensagem está correta ao sugerir “ditar a codificação desde o seu princípio” para esclarecer esses pontos. isto demonstraria que, sem a base filosófica (Deus, alma, imortalidade), o estudo da manifestação é inútil. (( Livro dos Médiuns capítulo III – Do método https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/884/o-livro-dos-mediuns-ou-guia-dos-mediuns-e-dos-evocadores/1009/primeira-parte-nocoes-preliminares/capitulo-iii-do-metodo/18)))

3. Sobre a Falibilidade do Médium e a Importância do Grupo

A comunicação fornece instruções práticas vitais sobre a prática mediúnica:

A Falibilidade: A distinção “Os médiuns são falhos. As Leis de Deus, não” é fundamental. A faculdade mediúnica é orgânica e independe do moral do médium. Contudo, a aplicação e a qualidade das comunicações dependem das qualidades do médium.

O Escolho do Isolamento: A crítica de que “Isolar médiuns para evocar espíritos não é um estudo correto” é uma máxima de segurança. O isolamento do médium é um dos maiores escolhos da mediunidade. Aquele que trabalha sozinho se torna facilmente presa de Espíritos mentirosos e hipócritas que o dominam. (( Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo Das manifestações espíritas Capítulo XXIII — Da obsessão – Causas da obsessão – 248. Acontece muito frequentemente que um médium só se pode comunicar com um único Espírito, que a ele se liga e responde pelos que são chamados por seu intermédio. Nem sempre há nisso uma obsessão, porquanto o fato pode derivar da falta de maleabilidade do médium, de uma afinidade especial sua com tal ou tal Espírito. Somente há obsessão propriamente dita, quando o Espírito se impõe e afasta intencionalmente os outros, o que jamais é obra de um Espírito bom. Geralmente, o Espírito que se apodera do médium, tendo em vista dominá-lo, não suporta o exame crítico das suas comunicações; quando vê que não são aceitas, que as discutem, não se retira, mas inspira ao médium o pensamento de se insular, chegando mesmo, não raro, a ordenara-lo. Todo médium, que se melindra com a crítica das comunicações que obtém, faz-se eco do Espírito que o domina, Espírito esse que não pode ser bom, desde que lhe inspira um pensamento ilógico, qual o de se recusar ao exame. O insulamento do médium é sempre coisa deplorável para ele, porque fica sem uma verificação das comunicações que recebe. Não somente deve buscar a opinião de terceiros para esclarecer-se, como também necessário lhe é estudar todos os gêneros de comunicações, a fim de as comparar. Restringindo-se às que lhe são transmitidas, expõe-se a se iludir sobre o valor destas, sem considerar que não lhe é dado tudo saber e que elas giram quase sempre dentro do mesmo círculo.))

A Força do Grupo: O conselho de que o estudo “deveria ser feito em um grupo mediúnico” é a única forma de evitar a obsessão. O grupo sério fornece o controle, a análise e o exame crítico das comunicações por pessoas desinteressadas e benevolentes, o que desmascara os Espíritos enganadores. (( O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Segunda parte — Das manifestações espíritas. Capítulo XXIX — Das reuniões e das sociedades espíritas. Das reuniões em geral. 329.As reuniões de estudo são, além disso, de imensa utilidade para os médiuns de manifestações inteligentes, para aqueles, sobretudo, que seriamente desejam aperfeiçoar-se e que a elas não comparecerem dominados por tola presunção de infalibilidade. Constituem um dos grandes tropeços da mediunidade, como já tivemos ocasião de dizer, a obsessão e a fascinação. Eles, pois, podem iludir-se de muito boa-fé, com relação ao mérito do que alcançam e facilmente se concebe que os Espíritos enganadores têm o caminho aberto, quando apenas lidam com um cego. Por essa razão é que afastam o seu médium de toda fiscalização; que chegam mesmo, se for preciso, a fazê-lo tomar aversão a quem quer que o possa esclarecer. Graças ao insulamento e à fascinação, conseguem sem dificuldade levá-lo a aceitar tudo o que eles queiram. Nunca será demais repetir: aí se encontra não somente um tropeço, mas um perigo; sim, verdadeiro perigo, dizemos. O único meio, para o médium, de escapar-lhe é a análise praticada por pessoas desinteressadas e benevolentes que, apreciando com sangue frio e imparcialidade as comunicações, lhe abram os olhos e o façam perceber o que, por si mesmo, ele não possa ver. Ora, todo médium que teme esse juízo já está no caminho da obsessão; aquele que acredita ter sido a luz feita exclusivamente em seu proveito está completamente subjugado. Se toma a mal as observações, se as repele, se se irrita ao ouvi-las, dúvida não cabe sobre a natureza má do Espírito que o assiste. Temos dito que um médium pode carecer dos conhecimentos necessários para perceber os erros; que pode deixar-se iludir por palavras retumbantes e por uma linguagem pretensiosa, ser seduzido por sofismas, tudo na maior boa-fé. Por isso é que em falta de luzes próprias, deve ele modestamente recorrer à dos outros, de acordo com estes dois adágios: quatro olhos veem mais do que dois e — ninguém é bom juiz em causa própria. Desse ponto de vista é que são de grande utilidade para o médium as reuniões, desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opiniões que se lhe deem, porque ali se encontrarão pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanharão os matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Espírito a sua inferioridade. Todo médium, que sinceramente deseje não ser joguete da mentira, deve, portanto, procurar produzir em reuniões serias, levando-lhes o que obtenha em particular, aceitar agradecido, solicitar mesmo o exame crítico das comunicações que receba. Se estiver às voltas com Espíritos enganadores, esse o meio mais seguro de se desembaraçar deles, provando-lhes que não o podem enganar. Aliás, ao médium, que se irrita com a crítica, tanto menos razão assiste para semelhante irritação, quanto o seu amor-próprio nada tem que ver com o caso, pois que não é seu o que lhe sai da boca, ou do lápis, e que mais responsável não é por isso, do que o seria se lesse os versos de um mau poeta. Insistimos nesse ponto, porque, assim como esse é um escolho para os médiuns, também o é para as reuniões, nas quais importa não se confie levianamente em todos os intérpretes dos Espíritos. O concurso de qualquer médium obsidiado, ou fascinado, lhes seria mais nocivo do que útil; não devem elas, pois, aceitá-lo. Julgamos já ter expendido observações suficientes, de modo a lhes tornar impossível equivocarem-se acerca dos caracteres da obsessão, se o médium não a puder reconhecer por si mesmo. Um dos mais evidentes é, da parte deste, a pretensão de ter sempre razão contra toda gente. Os médiuns obsidiados, que se recusam a reconhecer que o são, se assemelham a esses doentes que se iludem sobre a própria enfermidade e se perdem, por se não submeterem a um regime salutar. ))

Análise em Transe: A sugestão de “analisar, no entanto, médiuns em transe nos grupos” é uma metodologia válida. O estado de sonambulismo ou êxtase permite que o Espírito do médium se manifeste mais livremente, revelando manifestações mais elevadas e profundas.

4. Sobre a Identidade e a Missão

A ausência de um nome específico do Espírito, apresentando-se apenas como “somos apenas mensageiros”, seria visto como um sinal de seriedade e humildade, típicos de Espíritos que se importam com a ideia e não com o homem. Pela análise, podemos afirmar que é o mesmo espirito que se comunicou anteriormente na nesta mensagem aqui

O Foco na Mensagem: A prioridade de “informar aos incrédulos sobre a certeza que obterão de nosso mundo” é a finalidade máxima e essencial da Doutrina Espírita. ((https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo/1320/capitulo-ii-nocoes-elementares-de-espiritismo/fim-providencial-das-manifestacoes-espiritas))

Veredito Final de nossa análise: