Em defesa da pesquisa espírita: uma crítica aos cismentos

É tempo de recuperar Kardec.

Dias atrás me envolvi numa discussão acalorada – por detrás dos teclados – que acabou por me deixar irritado e indignado. O motivo? A questão das adulterações (ou não) nas duas obras finais de Kardec – O Céu e o Inferno e A Gênese.

Aqui, não vem ao caso a discussão em si a respeito dessas adulterações serem um fato ou não. Minha crítica vai em direção ao posicionamento mal-educado e sarcástico com o qual alguns dos “partidários” da não-adulteração se portam, atacando diretamente às pessoas e ao trabalho dos pesquisadores que levantaram essas importantíssimas informações e que deram força à necessidade de investigar o passado, com o mero intuito de tirar todo e qualquer crédito ou mesmo a vontade de estudá-las com a seriedade que, defendo, merecem.

Acontece que, se, para alguns (mas não para mim) as adulterações das obras citadas ainda são motivo de dúvida, por outro lado não se pode ter dúvida alguma das adulterações que o Movimento sofreu após Kardec, com a total perca de rumo dos propósitos iniciais da Sociedade Espírita e de seus meios de comunicação – isso fica muito claro em O Legado de Allan Kardec. É fato inegável que Leymarie permitiu, por interesses materiais, que os pensamentos de Roustaing tomassem frente na Doutrina, promovendo ideais antidoutrinários e desrespeitando o imenso e dedicado trabalho de Kardec e de sua esposa, Amélie Boudet, “a doce Gabi”. A Sociedade Espírita de Paris, comandada por Leymarie, se distanciou totalmente dos propósitos de Kardec, deixando-se, esse infeliz senhor, sucumbir pela tentação da vaidade e do dinheiro. Chegou ao ponto de expulsar, de um dos apartamentos destinados por Allan Kardec a fins de caridade, um casal de idosos, por simples atraso nos pagamentos do aluguel, quando o mesmo e a Sociedade contavam com grandes somas de posses e dinheiro [Privato, 2019]. Além disso, colocou de lado os planos para a continuidade do movimento espírita que, de acordo com projeto de Kardec, deveria contar com a multiplicação dos grupos de estudos e das “investigações” espíritas, regidas sob a metodologia necessária [ibidem] – ora, como poderiam aplicar tal medotologia aqueles que se veriam desmentidos por ela, não é mesmo?

Também é fato que o Espiritismo, desde a sua chegada em solo brasileiro, foi afetado por essa linha de pensamentos, encontrando guarida até mesmo em Bezerra de Menezes, um dos primeiros presidentes da FEB, instituição essa que, até 2019, tinha, como cláusula pétrea, a orientação do estudo dos Quatro Evangelhos, de Roustaing.

Fato é, também, que o Espiritismo de hoje está completamente descaracterizado e deturpado. Os centros espíritas, que outrora eram reuniões de espíritas confessos, dedicados ao estudo das comunicações mediúnicas e de seus efeitos morais e científicos, hoje reproduzem igrejas católicas, onde o fiel assiste ao sermão (palestra), recebe a benção (passe), faz uma oração e vai embora. Médiuns, em busca de auxílio, são colocados em longos cursos, que às vezes chegam a 7 anos de duração, quase sempre com cartilhas complicadas da FEB, para, ao final disso, se ainda estiverem minimamente interessados, serem “iniciados” no grupo mediúnico da casa. Médiuns honestos passaram a ser perseguidos por “animismo”, enquanto outros são tomados como oráculos: tudo o que dizem, por via mediúnica ou de sua própria opinião, é tomado como suma expressão da verdade e da sabedoria absolutas. E, então, passamos a ouvir, a torto e a direita, as mais ultrajantes ideias, que, continuamente, tem promovido escândalos e o afastamento das pessoas que, nas mais diversas condições, se sentem motivadas a entrar em um centro espírita em busca de ouvir algo diferente daquilo que falam por aí.

O momento é sério. Chegamos, novamente, em um novo ponto crítico da sociedade, com o materialismo vicejando alegre no coração dos homens. Mas, uma vez mais, o movimento contrário começa a tomar vulto, pois, sabemos, é preciso que o homem conheça o ápice do mal para voltar a buscar o bom e o belo. E é disso que tratam essas obras. Há quem critique Figueiredo por defender a autonomia sobre a heteronomia, isto é, por defender a essência do ensinamento da Doutrina Espírita: tudo depende de nossa vontade e de nossas escolhas, e não da aceitação cega de castigos e de recompensas. Justamente ele, o primeiro pesquisador NO MUNDO a procurar as obras originais de vários filósofos e cientistas, a fim de dar contexto científico e histórico ao nascimento do Espiritismo, juntamente com o Magnetismo, ciência-irmã do Espiritismo. Ora, por não concordar com sua posição – também baseada em provas e evidências – de que houve a adulteração em O Céu e o Inferno, devemos então descartar todo o resto?

Quando eu disse que “é tempo de recuperar Kardec”, não me refiro apenas ao estudo tão importante de suas obras, que são a base da Doutrina Espírita, mas me refiro objetivamente ao “recuperar Kardec” em seu exemplo, em sua pessoa, sempre, segundo todos os registros, tão boníssima e afável, mas também tão sensata e séria frente aos estudos das ciências. Kardec recomendava sempre que, para criticar determinado assunto, era preciso dele se inteirar completamente, fato pelo qual, por diversas vezes, deixou de abordar em profundidade aquilo que não pudera ter dado a devida atenção. Quando Kardec criticou Os Quatro Evangelhos de Roustaing, ele somente o fez após ler todos os quatro volumes. E ele, com o tempo que não tinha, o fez porque percebeu se tratar de uma obra cheia de ideias importantes, ainda que inexatas ou mesmo contrárias ao ensino concordante dos Espíritos. Kardec sempre fazia isso. E o que se vê, hoje, é que muitos não desejam reproduzir os passos do exímio pesquisador. Prendem-se às questões superficiais e, com preconceito, deixam de se aprofundar no conteúdo, passando então a criticar ou a colocar tais obras no esquecimento.

Quero, antes de finalizar, dizer que li O Legado de Allan Kardec do início ao fim, com muita atenção e cuidado. Os fatos ali apresentados, a respeito da adulteração de A Gênese, a partir da 5a edição, repito, são por demais objetivos, completos e complexos para que tal opinião seja apenas o fruto de um erro de má interpretação. No mínimo – e esta é a minha posição – abre uma margem muito grande para desconfiar de que, ali, há uma mescla de conteúdos que Kardec realmente iria alterar ou inserir, combinados com conteúdos inseridos por outra parte, com claro propósito de alterar o que já estava estabelecido doutrinariamente.

Não quero, enfim, forçar ninguém a acreditar em nada. É por isso que nossos meios de comunicação, diferentemente de muitos que existem por aí, estarão sempre abertos aos comentários e à troca de ideias. Mas quero deixar a você, caro leitor, o convite à leitura das seguintes obras, a fim de que você tome sua posição pelo seu próprio raciocínio:

  • O Legado de Allan Kardec, por Simoni Privato
  • Nem céu nem inferno: As leis da alma segundo o Espiritismo – por Lucas Sampaio e Paulo Henrique de Figueiredo
  • Muita Luz, de Berthe Fropo (link para o pdf aqui).
  • Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo – por Paulo Henrique de Figueiredo
  • Sobre “o caso A Gênese” – artigo de minha autoria.
  • As adulterações nas obras de Kardec e o “CSI do Espiritismo” – artigo de minha autoria



O desastre de Petrópolis na visão do Espiritismo: resgate coletivo?

Recentemente, a região serrana do Rio de Janeiro sofreu novo abalo, resultando em algumas dezenas de mortes. Desejo, de início, expressar sentimentos meus e do Grupo para com todas as vítimas desse flagelo e para com seus entes amados.

Preciso, contudo, me posicionar frente a alguns comentários que, nesses momentos, com muita infelicidade, algumas pessoas ditas “espíritas” acabam fazendo, quase sempre apoiadas sobre supostas comunicações mediúnicas. Não quero, de forma alguma, dizer que minhas observações representam a sumidade do ensinamento da Doutrina Espírita, que ainda apenas comecei a estudar, mas quero apenas me apoiar na lógica dos fatos e no raciocínio baseado naquilo que esse mesmo estudo nos confere.

Falta caridade

Basta que ocorra um desastre qualquer, de qualquer proporção, para que alguém, dizendo trazer uma comunicação mediúnica, venha imputar aquilo a uma suposta ação do “carma”, da “lei de ação e reação”, do “resgate de dívidas passadas”, sem, antes, refletir na completa falta de caridade com que agem quando assim se pronunciam.

No desastre da Boate Kiss, infelizmente, vários meios de comunicação “espíritas” se pronunciaram, atrelando aquelas tristes mortes ao holocausto nazista, afirmando que aquelas pessoas teriam sido “soldados que matavam judeus queimados ou asfixiados por cianeto” (veja aqui um pouco mais sobre isso).

Acerca do desastre com o avião da Gol em São Paulo, no aeroporto de Congonhas, em 2007, um livro, chamado “O Voo da Esperança”, chegou a ser produzido, supostamente atribuído a um Espírito, através do médium W.F.. Essa obra, um verdadeiro desserviço ao Espiritismo, chega citar o seguinte, conforme destaque em matéria da Folha:

“É a lei da ação e reação […] A providência divina, em sua sabedoria infinita, não colocou neste avião espíritos inocentes, mas almas seriamente comprometidas com um passado de erros […]”

“Esse grupo, de mais de duzentas pessoas, comprometidas com o passado de falta de compaixão para com os semelhantes […]”

Essa obra rendeu ao menos um processo contra a editora e o médium (veja mais).

E, no caso do desastre recente de Petrópolis, já existem pessoas divulgando comunicações mediúnicas afirmando se tratar de “resgate coletivo”.

O movimento espírita está ruindo de dentro pra fora

Meus irmãos, reflitamos! São erros sobre erros, causando enorme estrago no Espiritismo, cometidos por pessoas que deixaram de se guiar pelo necessário método racional na análise das comunicações mediúnicas e que passaram a permitir que qualquer tipo de conceito, transmitido por essa via, seja tomado como verdadeiro e doutrinário! Ora, Kardec sempre chamava a atenção de todos para o fato de que os Espíritos impostores, enganadores ou pseudossábios se comunicam por toda parte, inclusive em grupos mediúnicos sérios, e que, por conta disso, não podemos aceitar a comunicação de qualquer Espírito, sob qualquer nome que se apresente, como expressão da verdade (leia mais clicando aqui)!

Você, que está lendo, consegue se colocar na posição daquela mãe, que revirava a lama em busca de sua filha, de 17 anos, ouvindo da boca de alguém que se declare espírita as palavras “sua filha morreu assim porque está pagando por erros passados”? Consegue? Pois bem! Se conseguir, é por esse motivo – pela caridade – em primeiro lugar, e pelos seguintes, que jamais devemos expressar esse tipo de pensamento!

Nem tudo é expiação de erros passados

Quem estuda Kardec – estudo esse bastante ausente, hoje em dia – sabe muito bem que as tragédias individuais podem se dar por quatro motivos principais: expiação, quando o Espírito escolhe passar por uma determinada prova, com vistas a superar uma imperfeição; prova, que é quando o Espírito passar por qualquer dificuldade, planejada ou não, e que promove aprendizado e progresso; missão, quando o Espírito escolhe executar uma tarefa a fim de promover o bem para outros; e força da natureza, quando, por exemplo, um flagelo natural inevitável acomete milhares ou milhões de pessoas em simultâneo. Portanto, como podemos nos dar o direito de apontar para uma situação como essas acima, coletivas ou individuais, para inferir, errada e impiedosamente, que ela se dá por motivo de um “resgate” de erros passados? Isso, definitivamente, não nos compete!

Pensemos o seguinte: imagine que você, como Espírito, antes de encarnar, escolhe um gênero de provas e, talvez, de expiações. Sua encarnação transcorre sob esse planejamento, até que você se muda para uma cidade qualquer, convocado por uma oportunidade de trabalho. Vive lá por algum tempo quando, por uma ação fortuita da natureza, um meteorito cai nessa cidade, matando você e outros milhares ao redor. Veja: é um flagelo inevitável da natureza, aos quais estamos sujeitos pelo simples fato de estarmos encarnados. Morreremos e reiniciaremos outra encarnação, continuando nossa evolução.

Outro exemplo: no caso da Boate Kiss, será que tudo não se deu por irresponsabilidade alheia? Pois, sabemos que tudo aconteceu por utilizarem materiais combustíveis em um ambiente fechado, com dificuldade de saída (várias saídas se encontravam trancadas) e sem um sistema de extinção de incêndios eficientes. Ou seja, houve negligência, que é o resultado de escolhas de outras pessoas. Muitos dos que estavam ali, naquele momento, foram vitimados por essa cadeia de acontecimentos – ou será que podemos supor que a banda que tocava foi intuída a utilizar os materiais de pirotecnia (fogo) de modo a cumprir com um “carma coletivo”? Isso é irracional!

Muitos não sabem, mas, geologicamente, a região serrana da Serra da Mata Atlântica, que passa por SP e pelo Rio, é muito antiga, formada pelo depósito de matéria mais leve (terra) sobre elevações rochosas. Com o passar dos milhões de anos, essa camada superficial está ficando mais frágil e, quando ocorrem as chuvas intensas, provocam deslizamentos e desastres como esses. O ser humano, sendo encarnado na mesma matéria densa, está sujeito a essas ocorrências, pois faz parte de um mundo cuja natureza é bastante instável, se renovando dia após dia. Tais flagelos não resultam de uma impiedade de Deus: são necessários, na verdade, para acelerar o nosso avanço científico e moral (vide O Livro dos Espíritos, Parte Terceira, Cap. 5 – Flagelos Destruidores – clique aqui).

Transição Planetária?

Muito se diz que tais flagelos estão se acelerando por conta da chamada “transição planetária”, onde a Terra deixará de ser um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração. Em essência, essa transição não deixa de ser verdadeira, mas precisamos tomar muito cuidado, uma vez mais, com a implicação do que dizemos, pois muitos imputam a tais flagelos, inclusive às pandemias, o efeito de “separar o joio do trigo”, como se eles estivessem levando daqui os Espíritos que não mais poderão fazer parte deste planeta em sua nova fase. Esse é mais um pensamento errado e impiedoso.

Precisamos relembrar que os flagelos sempre existiram. Desde antes do tempo dos faraós, o globo é assolado por tragédias imensas, o que demonstra que elas não estão ligadas à tal transição. Elas sempre ocorreram e sempre ocorrerão, nesta fase de materialidade, com o intuito de nos fazer avançar científica e moralmente. A transição se dará pela modificação de ideias, do indivíduo para a sociedade, e não pela simples separação de Espíritos que ainda tem muito a aprender e a contribuir neste planeta.

Nenhum Espírito benevolente acusa o erro dos outros em público

Nós vivemos um triste momento no meio espírita, onde Kardec está relegado ao passado, como se tivesse sido superado (tudo aquilo que é base de uma doutrina não se supera, por ser base) e seu método e toda a racionalidade que ele demonstrou ser necessária na comunicação com os Espíritos, estão esquecidos e enterrados como se fossem desnecessários. O “Movimento Espírita” atual (que quase nada tem do Espiritismo verdadeiro, e há que se separar a Doutrina daquilo que fazem seus adeptos) passou a aceitar praticamente toda e qualquer comunicação mediúnica como expressão da sabedoria e da verdade e, dessa forma, está permitindo que conceitos antidoutrinários estejam ruindo, pouco a pouco, o movimento, em suas bases.

Observemos: quando vemos, em Kardec, os casos de expiação de mesmo gênero, como no caso de Antonio B, precisamos lembrar que se trata de uma evocação, onde o próprio Espírito relata sua escolha em passar por aquilo. Fica muito claro que nunca é uma imposição externa de uma suposta lei de pecado e resgate, e fica também muito claro que nenhum Espírito minimamente benevolente se vale de uma comunicação para apontar as faltas alheias e atrelar os sofrimentos presentes como uma forma de “resgatá-las”.

Espalhe a informação e venha estudar conosco

Uma vez mais venho pedir a você, que lê este artigo, que, como Espírita, informe a todos que puderem que não nos compete apontar o dedo para afirmar que alguém passa por um sofrimento determinado para saldar “dívidas” passadas. Isso afasta as pessoas da Doutrina e, sobretudo quando parte da aceitação cega de comunicações espirituais, vem destruindo o movimento espírita de dentro para fora.

E, por fim, a respeito do papel do médium e do pesquisador nas comunicações mediúnicas, bem como do tal “animismo”, abordaremos tudo isso na próxima live, no dia 24/02/2022, sobre o artigo “Espíritos impostores – O falso padre Ambrósio”, na Revista Espírita de julho de 1858. Leiam o artigo e não deixem de apresentar suas considerações, em nosso grupo do Facebook, para que possamos enriquecer nosso estudo.

O Espiritismo carece, sim, de defesa, e é chegado o momento de fazermos a nossa parte.




O caminho é sinuoso, longo, pedregoso e cheio de espinhos, mas temos que trilhá-lo

Prezados amigos, irmãos que a esta iniciativa se afeiçoam,

Convidamos uma vez mais a cada um de vocês à participação ativa em nosso grupo e à disseminação das ideias essenciais do Espiritismo que, aos poucos, começam a ser redescobertas e entendidas. É do interesse e da responsabilidade de todos nós a restauração, pacífica e paciente, mas persistente e firme, das verdades originais desta Doutrina nascida da observação racional dos ensinamentos espíritas dados por toda a parte e por todos os tempos! Não mais um Espiritismo adulterado, após a morte de Kardec, a fim de dar espaço às ideias retardantes de pecado, queda e castigo, de carma, de resgates, mas a Doutrina em sua essência, baseada na constatação do livre-arbítrio, da escolha das provas e das expiações, enfim, a Doutrina que nos evidencia que nosso passo se dá em direção sempre do aprendizado e do progresso espiritual, fazendo parte dessa jornada os erros e tropeços de cada um, a mesma Doutrina que nos mostrou, em sua essência, não uma alma criada pura e que se desviou pelo pecado, um Espírito criado simples e ignorante e que, conforme vai avançando em suas experiências, através de erros e acertos, de alegrias e de sofrimentos, vai se depurando de suas imperfeições e de sua materialidade em direção à felicidade verdadeira dos Espíritos superiores, já desgarrados dessas mesmas imperfeições e materialidade através da aquisição de melhores hábitos e valores morais.

Natural, contudo, que tais ideias libertadoras e renovadoras encontrem resistência tanto na ignorância orgulhosa, fechada à reforma das ideias, quanto no conhecimento interessado em manter sob suas rédeas a classe de fiéis às velhas doutrinas. Mesmo dentro do Espiritismo as tais ideias de queda, pecado e resgate estão profundamente enraizadas, já que as adulterações vêm desde poucos meses ou anos após a morte do digno professor Rivail.

Não será à base de guerras e disputas, contudo, que desvendaremos esse caminho cheio de sarças e espinhos, mas à base da compreensão lúcida e da palavra firme mas amistosa. Guardemo-nos de perder tempo com esses que compõem as classes acima destacadas, porque uns e outros não tem o menor interesse em modificar suas ideias frente à verdade irrefutável. Para esses, apenas o tempo surtirá efeito. Invistamos nosso tempo, contudo, na classe de todos aqueles aos quais essas ideias não apenas agradem, mas aos quais sejam substanciais: os que já não veem gosto na vida, os que pensam em dela desistir, os que não compreendem um Deus vingativo, os que, enfim, não entendem os motivos das dificuldades do dia-a-dia, ou ainda àqueles que, de boa vontade, desejam estudar o Espiritismo em sua essência, a fim de transmitir, a todos que puderem, as ideias reformadoras e consoladoras dessa Doutrina em sua originalidade.

Levantemos as mangas, portanto, queridos irmãos. A inação não faz bem a ninguém. Façamos a nossa parte. Eu, autor deste texto, estou aqui, hoje, por um Espírito muito amado que me estendeu a mão no momento mais difícil da minha vida e por outro, encarnado, que insistiu em, diariamente e sem agradecimentos quaisquer, divulgar uma reflexão espírita em um grupo de WhatsApp que estava e ainda está esquecido do motivo de terem formado uma família no centro espírita que, por conta da pandemia, agora se encontra fechado.

Basta um gesto, muitas vezes, para mudar uma vida, uma opinião, e, daí em diante, iniciar um movimento. Avante, prezados, e que Deus nos ilumine a todos para que, nesse processo, não nos deixemos contaminar jamais pelo personalismo, pela vaidade, pelo egoísmo e pelo orgulho.

O caminho é sinuoso, longo, pedregoso e cheio de espinhos, mas temos que trilhá-lo e limpá-lo para as próximas gerações, das quais provavelmente voltaremos a fazer parte.




“Tenho como saber quem eu fui em outras vidas? Como posso saber o que vim resgatar nessa minha jornada?”

Não é necessário.

O véu do esquecimento tem sua razão de ser e, muitas vezes, saber da outra vida traz mais atrapalhação do que solução. É algo que jamais uma pessoa séria fará, mas, infelizmente, existem os indivíduos mais interessados em ganhos e que, de forma irresponsável, se lançam a esse tipo de “trabalho”.

Ao observar a si próprio com um olhar bastante crítico e honesto, verificando nossas próprias imperfeições, podemos facilmente identificar aquilo que nos coloca em dificuldades frente às situações da vida, entendendo, então, que essas situações difíceis são justamente oportunidades, muitas vezes planejadas por nós mesmos, a fim de vencermos essas imperfeições e avançarmos em direção à felicidade verdadeira.

Por fim, destaco que, segundo a Doutrina Espírita, não existe “resgate”, não existe pagamento de dívidas, não existe, nesse sentido, o “carma”: o Espírito, consciente e livre, escolhe provas e expiações (e oportunidades) com a finalidade exposta acima – vencer imperfeições e adquirir virtudes – não sendo nunca, jamais, as dificuldades da vida o resultado de uma mecânica divina, conceito este ligado ao dogma da queda pelo pecado. O único Espírito que não escolhe suas provas é o Espírito em estado de negação, que ainda assim reencarna, mas que apenas vive uma vida que, por si só, frente aos conteúdos desse indivíduo, trará dificuldades e dores morais, que um dia o farão sair da negação e voltar a buscar enfrentar essas imperfeições através das escolhas conscientes.

Portanto, ao enfrentar uma prova difícil, não pense “estou pagando por algo ou resgatando algo do passado”, mas sim “é uma difícil mas importante oportunidade de aprendizado. Vou tirar dela o máximo possível”. E, para tanto, entender o Espiritismo a fundo é substancial!




Sobre “o caso A Gênese”

Este artigo foi inspirado pelo artigo “O caso A Gênese“, apresentado no Portal Luz Espírita. Nesse artigo, bastante extenso, são apresentados diversos detalhes, passo a passo, que levam afinal o autor, Ery Lopes, e os colaboradores — Adair Ribeiro, Adriano Calsone, Carlos Luiz, Carlos Seth Bastos, Jorge Hessen e Wanderlei dos Santos — a assumir que, não, a Gênese não foi adulterada e que podemos fiar confiança total de que a 5.ª edição, segundo eles editada e impressa em 1869, foi sim uma versão impressa por Allan Kardec.

Devo reconhecer que o artigo tem o mérito de ter tentado se manter imparcial, apresentando inclusive os trabalhos de Simoni Privato, em O Legado de Allan Kardec, onde apresenta uma enorme coleção de provas e de evidências das adulterações.

Em que ponto, então, o artigo passa a assumir que tais adulterações não existem e que todas as evidências estão erradas? Principalmente a partir do item 37 — “As pistas do Catálogo Racional — o qual reproduzo abaixo:

Nesse quadro, apresentam-se algumas pistas, obtidas através da análise da obra Catálogo Racional, que teria tido sua primeira edição distribuída em 1 de abril de 1869, um dia após a morte de Allan Kardec:

  1. Há uma citação à obra La clef de la vie (A chave da vida), de Michel de Figagnères, sobre a qual Kardec teria feito um comentário reportando-se aos itens 4 a 7 do capítulo VIII de A Gênese. O item 7, porém, A Alma da Terra, apenas passou a existir a partir da 5ª edição dessa obra.
  2. Logo a seguir, apresenta-se a evidência de que a obra Os quatro evangelhos, de Roustaing, já teria sido citada pelo próprio professor Rivail nessa primeira edição do Catálogo, diferentemente do que algumas pessoas teriam dito, supondo que tal citação apenas teria se dado por adulteração. 

Há, porém, uma informação muitíssimo importante que se deixou de fora neste ponto: a referência de Kardec aos itens 64 a 68 do capítulo XV de A Gênese. Acontece que o item 68 apenas existiu até a 4.ª edição dessa obra, transformado em item 67 a partir da 5.ª edição, quando o item 67 original foi retirado. Esse item era muito importante, por tratar da questão de que a desaparição do corpo de Jesus, até então, seria assunto não solucionável, pela ausência, até então, da sanção do duplo controle da confirmação pela lógica rigorosa e pelo ensinamento geral dos Espíritos, e sua retirada parece muito estratégica, se considerarmos que as ideias contrárias, vindas de Roustaing, não tinham como se sustentar, pela ausência desse duplo controle.

Ora, por que essa contradição nas referências de Kardec? Por que teria ele, simultaneamente, se referido, em um ponto, a um item que ainda seria inserido em A Gênese, na 5a edição, enquanto que, em outro, se referia a um item que dela seria retirado, na mesma edição?

A lógica me leva pelo seguinte caminho:

  • Kardec já havia preparado a impressão do Catálogo Racional, mas ainda estava em vias de finalizar a impressão de A Gênese, que ainda estava, ao que tudo indica, nos estágios finais de reimpressão para correções e edições.
  • No Catálogo, Kardec faz referência a um item que ainda não existia em A Gênese (Cap. VIII, item 7) e outro que, a partir da 5a edição conhecida, deixou de existir (item 68). Isso pode demonstrar que Kardec, no Catálogo, faria referência a um item da nova edição de A Gênese, e que manteria a referência ao item 68, citado acima. Um provável adulterador, determinado a retirar o importantíssimo princípio da sanção do duplo controle, não notou o problema.
  • O Catálogo já havia sido encomendado e impresso com o conhecimento de Kardec, mas isso não significa que ele seria prontamente distribuído. Muito provavelmente, pela lógica dos fatos, ele esperaria a impressão da nova versão de A Gênese.

Suponho, também, pela lógica dos fatos, que a 5ª edição de A Gênese, por nós conhecida, foi baseada em alterações sobre os nos clichês do próprio Allan Kardec, visto que, nessa edição, o item 7 do capítulo VIII apresenta conteúdo em conformidade com o estilo e com o pensamento do próprio (a meu ver). Assim, as alterações que conhecemos, suponho, não são todas adulterações, mas a hipótese de adulteração fica muito evidente por todas as provas e evidências já apresentadas, até hoje, e pela simples análise de alguns pontos alterados ou suprimidos, que destoam do pensamento, do estilo e dos propósitos de Kardec e, sobretudo, do ensinamento dos Espíritos durante toda a primeira fase do Espiritismo.

Adiciono que não vejo nenhum motivo para Kardec não ter citado a obra de Roustaing em seu Catálogo, visto que ele próprio sugere, logo abaixo à recomendação, que o leitor busque melhores esclarecimentos em A Gênese, nos itens mencionados. Aliás, na 5.ª edição de A Gênese, há uma referência à Revista Espírita de setembro de 1868, pág. 261, que se refere ao mesmo tema contido no item 7 da primeira obra: A Alma do Mundo.

Mais uma evidência que mostra que as alterações na 5.ª edição de A Gênese não são totalmente resultados de adulterações, embora, inclusive sobre esse item, eu não possa afirmar se teria sido, além de introduzido, também adulterado, visto que o trecho que na 5.ª edição de A Gênese finaliza o item 7 do cap. VIII, continua, na Revista Espírita, de uma forma muito importante: “O Espiritismo seria, com razão, ridicularizado por seus adversários, se se fizesse o editor responsável por utopias que não resistem a um exame. Se o ridículo não o matou, é porque só mata o que é ridículo.

Sobre a afirmação muito comum de que algumas cartas confirmam a impressão da 5.ª edição da obra pelas mãos do próprio Kardec, já abordei o caso no artigo “As adulterações nas obras de Kardec e o “CSI do Espiritismo” (clique aqui para ler).

O que quero afirmar com tudo isso é que, sim, é um assunto bastante profundo e complexo, com muitas informações cruzadas a serem analisadas sob uma metodologia muito racional, lógica e verdadeiramente imparcial. Infelizmente, parece que muitas pessoas tentam se agarrar desesperadamente a qualquer evidência de que as adulterações não ocorreram e, ao agirem assim, deixam de analisar os fatos com todo o cuidado que o assunto merece.

Sempre repito: o conteúdo apresentado nas obras “O Legado de Allan Kardec” e “Nem céu, nem inferno” é completo e profundo demais para ser tomado como se fosse apenas um erro qualquer, baseado em informações incompletas ou falsas. Ainda assim, se há espaço para dúvidas, que as demais informações sejam analisadas com o máximo de critério científico, como o próprio Kardec nos ensinou e, enquanto não possam ser sanadas, fiquemos na segurança das obras indubitavelmente impressas de seus próprios punho e bolso.

Quero, por fim, destacar o seguinte: uma das provas mais utilizadas para afirmar que a 5a edição foi de autoria integral do próprio Kardec, a tal 5a edição de 1869, apresenta em sua capa, como endereço de impressão, o novo endereço da sede da Sociedade Espírita Parisiense: “Librairie Spirite et des Sciences Psychologiques”, em “7, rue de Lille”.

Sabemos que Kardec morreu antes do estabelecimento da Sociedade no novo endereço, o que comprova que tal edição somente foi impressa após sua morte. Leia mais clicando aqui.




Karma e Espiritismo

Karma e Espiritismo são como água e óleo: não se misturam. Cuidado com as pessoas que pregam a doutrina do karma dentro do meio espírita, pois o entendimento da Doutrina Espírita vai no sentido oposto: não estamos encarnados para pagar nada a ninguém, porque não devemos nada a ninguém, muito menos a Deus!

Encarnamos para vivenciar nossas escolhas e com elas aprender, através de provas e dificuldades, mas também através de abençoadas oportunidades, qual é a de ter o contato com o Espiritismo, que alavanca nosso progresso em muitos degraus, quando bem entendido e vivenciado.

Tudo faz parte de escolhas nossas, inclusive, na maior parte das vezes, a nossa forma de morrer. Mas, nisso, não há Karma. “Mas Paulo, fulano disse que as pessoas morreram queimadas na Boate Kiss porque mataram outras queimadas em outras vidas!”

Sinto dizer, mas fulano está quase totalmente errado. Que Deus seria esse, que castiga a ignorância na mesma moeda, à moda de Talião, em uma forma que nada ensina a ninguém? Isto posto, quero dizer: sim, existem Espíritos que ESCOLHEM castigos, seja durante a vida, seja na forma de morrer, por ACREDITAREM no karma e não saberem lidar com a culpa sobre seus erros. Veremos isso em O Céu e o Inferno, Segunda Parte, Capítulo VIII: tendo matado sua esposa emparedada, na vida precedente, mesmo tendo sido por ela perdoada, PLANEJOU uma morte horrível a fim de tentar se livrar dessa culpa. Vejam: planejou! E precisava? Não, porque na vida atual, foi bom homem, ou seja, buscou APRENDER a ser uma pessoa melhor.

Entende? Não estamos aqui para pagar dívidas, mas para aprender a sermos Espíritos mais felizes, através do abafamento de nossas imperfeições através do aprendizado! E isso, muitas vezes, é feito através de duras penas, inclusive no contato difícil com uma pessoa a quem, no passado, fizemos algum mal, e que, ainda sofrendo seus efeitos, tentamos auxiliar em uma nova encarnação. Mas, vejam: é questão de escolha consciente.

É nesse sentido que a Terra está deixando de ser um planeta de provas e expiações para ser um planeta de regeneração, pois a expiação consiste justamente no tipo de escolha de Antonio B, ou do assassino Lemaire (capítulo VI), enquanto que Espíritos melhor esclarecidos escolhem não apenas sofrer na pele, mas, sim, oportunidades melhores de aprenderem. E, junto a isso, chegamos ao tema da educação proposta por Pestalozzi, a cada dia mais tão necessária e importante.

Portanto, chega de se culpar. É claro: se fizemos um mal que ainda existe no momento em que nossa consciência desperta sobre ele, busquemos, sim, repará-lo, mas através do trabalho, e não da auto-flagelação. E isso vale para qualquer momento, seja na carne, seja na erraticidade. O que realmente importa é aprender, desenvolver melhores hábitos, desenvolver em si a humildade e a caridade. Isso sim interrompe o ciclo do mal e da dor.




O Livro dos Espíritos é a “Bíblia dos Espíritas”?

Hoje cedo me deparei com exatamente essa opinião, em uma discussão em certo grupo do Youtube. Compreensível que muitas pessoas a tenham, por não entenderem o que é o Espiritismo, mas inquestionável que só pode emiti-la aquele que não se dedicou a ler, sequer, a introdução de O Livro dos Espíritos – que dirá as demais obras de Allan Kardec. Mas, antes de adentrar por tais caminhos, vamos aqui fazer uma introdução explicativa ao assunto.

A Bíblia

Em primeiro lugar, é preciso compreender o que é, de fato, a Bíblia: um compêndio doutrinário constituído de histórias, afirmações e opiniões do homem a respeito da divindade e da Espiritualidade. Não podemos objetar, porém, que não tenha sido adulterado em diversos pontos pelos interesses pessoais e de grupos diversos, como o fez a Igreja Católica Romana em episódios historicamente conhecidos. Assim, em resumo, é uma obra repleta de muita moralidade, mas também permeada de erros humanos por toda a parte, inclusive introduzidos por uma interpretação anacrônica tanto da história, como da cultura e da língua original. Sabemos, hoje, que sobretudo no Velho Testamento, mas também no Novo Testamento, a linguagem era repleta de neologismos e figuras que, para aquele povo, naquela época, faziam todo sentido.

Há, ainda, uma enorme diferença entre os dois livros que compõem a Bíblia – O Velho Testamento e O Novo Testamento – posto que, entre eles, há um espaço de séculos que introduziram nova mentalidade na humanidade. No primeiro momento, os “textos sagrados” são repletos de ideias ainda mais atrasadas e permeados de leis e afirmações humanas, inaceitáveis nos dias atuais, que, naquele tempo, tinham a finalidade de legislar com poderes divinos sobre um povo que não tinha a menor capacidade de entender conceitos que, mais tarde, seriam aceitáveis. Já o Novo Testamento carrega um enorme conteúdo moral, inatacável em sua essência, ensinado e exemplificado por um Espírito Puro, conhecido por nós como Jesus. Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, se ocupa apenas do Novo Testamento, por seu grau de elevação, deixando o Velho Testamento de lado.

A grande questão é que, através dos tempos, com adulterações ou não, a Bíblia, em seu todo, foi sempre utilizada como “palavra da salvação”, que deveria ser obedecida cegamente. Justamente aí as religiões encontraram largo campo para disseminarem as suas ideias próprias, introduzindo os diversos dogmas que, em verdade, não estavam lá, a fim de comandarem seus fieis segundo seus interesses políticos e materiais particulares.

O Espiritismo

Diferentemente da Bíblia, que nasceu de relatos e histórias de poucos homens, a teoria espírita, que constitui uma Ciência Filosófica, nasceu da observação racional dos fatos espalhados sobre todo o globo e por todos os tempos. É justamente sob essa autoridade que Kardec vê espaço e necessidade de buscar trazer à compreensão espírita os fatos ou as histórias narrados na Bíblia. O estudo aprofundado do Espiritismo nos demonstra, como sempre, que Allan Kardec não pode ser considerado “pai” ou “profeta” do Espiritismo, como nenhum outro poderia, pois sua qualidade foi apenas a de um pesquisador, como tantos outros, que, frente a uma “nova” descoberta, se coloca a analisá-la com paciência, persistência e método, juntando as peças de um quebra-cabeças para compor uma imagem que, em suas peças separadas, não pode ser compreendida ou que não faz sentido algum.

O Livro dos Espíritos foi a primeira obra por ele concluída, nascida de um vasto estudo sobre as diversas mensagens espirituais obtidas antes e após o início de seus estudos. Ainda assim, entre a primeira edição e a segunda há enormes diferenças, sobretudo em conceitos que foram posteriormente investigados mais a fundo e complementados ou corrigidos. Mas como Kardec realizava tal estudo?

O Estudo Metodológico do Espiritismo

O mundo dos Espíritos não pode ser vislumbrado como nós vemos o nosso mundo. Ele não produz os efeitos que em nossos sentidos produzem a matéria densa que constituem o nosso mundo: o ar, invisível aos olhos, através do vento é sentido pelo tato; o sabor é sentido pelas papilas gustativas; a luz é captada pelos olhos e processada pelo cérebro. Contudo, o mundo dos Espíritos só pode ser perebido por sentidos especiais, que constituem aquilo que chamamos mediunidade.

Na mediunidade existem diversos tipos de sentido – para fazer uma aproximação com o mundo que entendemos – e que dão, aos seus “portadores”, as capacidades de sentir e de se comunicar, ou de dar comunicação, aos seres que constituem esse mundo, sendo que esses seres são os Espíritos, mais ou menos libertos da matéria e mais adiantados e superiore ou bastante atrasados e inferiores. Através das mediunidades, podemos constatar a existência de algo acima do mundo material, de uma inteligência que sobrevive à matéria, sendo que algumas delas, como diversos pesquisadores, além do próprio Kardec, se mostram de forma apenas questionável pelo pior dos orgulhos, tais como são a mediunidade de efeitos físicos e o sonambulismo. A primeira obtem efeitos físicos sem grande extensão moral, enquanto que, na segunda, o conteúdo moral é muitas vezes vasto, totalmente fora das capacidades e dos conhecimentos do médium que a transmitem. Mas reservaremos esse assunto a outro artigo.

Importa dizer que era sobretudo nos médiuns sonambúlicos e nos psicógrafos mecânicos que Kardec mais buscava as comunicações, por percebê-las mais ricas e menos suscetíveis aos conteúdos próprios. Ainda assim, como pesquisador, Kardec sabia muito bem que não podia confiar apenas na opinião de um ou outro médium ou um ou outro Espírito: precisava buscar na generalidade e na concordância dos ensinamentos dos Espíritos a base inabalável da Doutrina Espírita:

Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.

Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade.

Allan Kardec – A Gênese

E não poderia ser diferente, afinal, do ponto de vista do pesquisador, o mundo dos Espíritos é inatingível e impossível de ser sondado e analisado. Façamos um breve esforço de imaginação: digamos que, querendo nos mudar para outro país, sem que o conheçamos, queiramos colher o máximo de informações a respeito desse lugar e do seu povo. Digamos que não tenhamos acesso à Internet e que dispomos apenas do meio telefônico. Pegamos um número de um habitante desse país e ligamos para ele – claro, pensamos que ambos falam uma mesma língua – a fim de obter um relato desse lugar: como são as pessoas lá? São boas ou más? Há violência ou não? Poderei contar com apoio ou não? Bem, é fácil se supor que o relato dessa única pessoa estará alinhado com sua capacidade de percepção cultural, política, educacional, histórica, social e mesmo com suas tendências e concepções próprias. Pode ser, aliás, que tenhamos inadvertidamente ligado para um criminoso, sem que o saibamos. Vamos, então, fiar nossa decisão ou nossa concepção daquele povo através de apenas um único relato? É claro que não: precisamos, nesse quadro, ligar para muitas outras pessoas, analisar obras bibliográficas e artísticas produzidas por seus habitantes, etc.

É exatamente o mesmo que Allan Kardec realizou, analisando incontáveis comunicações obtidas de todos os lados, por incontáveis médiuns e por incontáveis Espíritos, tirando, disso tudo, conclusões racionais e lógicas, postulados e, às vezes, teorias científicas, que somente estudos futuros poderiam sancionar ou derrogar.

Conclusão

Poderíamos, verdadeiramente, passar horas e horas falando muito mais sobre os estudos de Allan Kardec, mas o fato é que já existe muito material a respeito disso, sobretudo na obra do próprio Kardec que, como sempre demonstrava, não tinha um conteúdo nascido de suas próprias ideias. Deixamos ao leitor essa busca necessária. Nos limitamos a encerrar este artigo, depois de toda essa abordagem anterior, demonstrando que o Espiritismo não uma religião e que, como Ciência é uma Doutrina que apresenta seus estudos e suas conclusões, de forma racional e lógica, e deixa a cada um a tarefa que raciocinar por si mesmo sobre todo o conteúdo apresentado. Ora, como mesmo as Ciências Modernas, tão bem estabelecidas, encontram seus dissidentes com suas ideias mais absurdas, o Espiritismo não poderia esperar menos. Ainda assim, é questão de liberdade de cada um.

Nós, espíritas, acreditamos no Espiritismo não por medo ou imposição, mas, sim, porque compreendemos de forma natural a racionalidade contida nessa Doutrina Científica. Acreditamos na reencarnação não por provas incontundentes, mas por uma racionalidade incontundente; acreditamos na existência dos Espíritos e na sua comunicação conosco também pela razão, mas também pela seriedade dos pesquisadores que já se lançaram a estudar as manifestações com grande cuidado e que, por si próprios, constataram provas irrefutáveis de tal existência; mas não acreditamos de forma cega nos ensinamentos dos Espíritos, muito menos em qualquer suposto fenômeno. O próprio Kardec asseverava: O Espiritismo deve andar de mãos dadas com a Ciência. Se, um dia, esta desmentir alguns postulados de sua Doutrina, devemos abandoná-los e ficar com a Ciência. Ora, pelo contrário, a Ciência Moderna vem a cada dia mais se aproximando e dando confirmação aos postulados espíritas, assim como a Ciência do século XIX e início do século XX o fez.




Lei de ação e reação, lei do retorno, carma: por que sofremos, segundo o Espiritismo?

Talvez você que esteja lendo, como eu, já tenha feito aquela pergunta: “Deus, por que comigo?”

Esse questionamento, bastante natural quando ainda não temos plena compreensão dos ensinamentos dos Espíritos superiores através do Espiritismo, ainda encontra muitas explicações inexatas ou mesmo erradas, justamente por essa falta de compreensão, que nasce pela falta de estudo.

Vamos apresentar algumas dessas opiniões incongruentes com o Espiritismo:

  • Porque Deus quer
  • Porque estou pagando por um mal passado
  • Porque estou sendo castigado por um erro de outras vidas
  • Porque é o acaso
  • É karma (ou carma)
  • É a Lei de Ação e Reação (o que reflete um mal passado)
  • É “resgate” de outras vidas

Todas as explicações, exceto a que diz ser obra do acaso, refletem, no fundo, uma mesma opinião: se estou sofrendo é porque Deus está me submetendo a um castigo, já que eu errei. Uma opinião ainda vai além: Deus não gosta de mim.

Nós precisamos nos descolar um pouco mais dessas velhas concepções, de uma época em que a mentalidade humana não estava pronta para avançar alguns passos à frente e entender um Deus que é todo bondade e amor. No passado, acreditávamos que Deus era um ser cruel, vingativo, cheio de ira e de cólera, porque Lhe atribuíamos nossas imperfeições, por não conseguirmos entender um ser que não as tivesse. Hoje, contudo, não é mais dessa forma.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, apresenta uma face de Deus, obtida dos ensinamentos dos Espíritos superiores, nunca antes conhecida na face da Terra – pelo menos não como doutrina:

1. Que é Deus?

“Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” *

2. Que se deve entender por infinito?

“O que não tem começo nem fim; o desconhecido; tudo que é desconhecido é infinito.”

3. Poder-se-ia dizer que Deus é o infinito?

“Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir o que está acima de sua inteligência.”

[…]

13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos ideia completa de seus atributos?

“Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas ideias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma lhe faltasse, ou não fosse infinita, já ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.”

Sendo que nossa concepção de Deus evoluiu muito, como então podemos atribuir a ele a execução de castigos ou de cobranças, posto que Ele sabe que as imperfeições que temos são apenas momentâneas e que desaparecerão com a nossa evolução?

Mas, podemos objetar, fatos são fatos: se não há acaso, mas sofro, deve então haver uma razão para tais sofrimentos. Se não fui eu quem causou o sofrimento, então alguém está me submetendo a eles, portanto, só pode ser Deus.

Precisamos, porém, analisar essa cadeia de pensamentos de forma racional, que é o convite sempre feito por Kardec frente a quaisquer questões:

Em primeiro lugar, precisamos compreender que somos Espíritos encarnados e enquanto estivermos ligados ao corpo, sobretudo em estado tão denso, estaremos sujeitos às vicissitudes da matéria, incluindo as dores e os sofrimentos naturalmente causados por algo como, por exemplo, frio e calor.

Em segundo lugar, precisamos aprender a analisar e distinguir os gêneros de sofrimentos causados por nós mesmos, na presente encarnação, pelas nossas formas de agir e de pensar. Nesse sentido, Kardec nos chama à reflexão:

Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.

Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!

Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!

Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!

Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!

Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!

Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências! Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os gérmens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.

Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.

Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo – cap. V

Fica muito evidente que muitos sofrimentos há que nascem por conta de nossas ações, mesmo que em pensamento, e sobre os quais não podemos acusar senão a nós mesmos.

Mas, e a respeito dos sofrimentos que não causamos nesta vida? De onde vem eles então? Se não vem de hoje, muitos dirão, são reflexos de outras vidas. Estou apenas pagando por erros passados. Mas, refletiremos, se Deus não cobra nem nos castiga, quem é que está me cobrando por supostos débitos? Minhas vítimas do passado, alguns dirão. Supomos mesmo que, muitas vezes, vítimas nossas nos perseguem por mais de uma encarnação, buscando vingança. Mas seria isso uma regra? Não há os inúmeros casos dos Espíritos que perdoam seus algozes e seguem suas vidas? Quem, então, quem estaria nos cobrando e punindo? Onde estaria o tribunal?

Há, neste ponto, um ensinamento muitíssimo importante dado pelos Espíritos superiores, citado em O Livro dos Espíritos:

621. Onde está escrita a lei de Deus?

“Na consciência.”

Essa resposta é tão sucinta, mas tão completa, que nos espanta. Ora, já entendemos que o Espírito só passa a ter livre-arbítrio quando entra no reino da consciência. Antes disso, suas ações são maquinais, respondendo apenas aos instintos. Quando, consciente, porém, passa a ter a livre escolha sobre os seus atos e, por assim dizer, entre bem e mau.

Estou tomando uma linha de exposição bastante construtiva a fim de bem elaborar o pensamento: entendemos, então, que, a partir do momento em que desenvolvemos a consciência, a Lei de Deus passa a vigorar em nossa própria mente. Assim, enfim, chegamos à resposta crucial: quem nos persegue somos nós mesmos.

Quando fazemos de uma imperfeição, um hábito, passamos a cometer erros que, então, passam a nos fazer infelizes a partir do momento em que nos conscientizamos sobre eles. Quando no estado de erraticidade, então, avaliamos nossos atos e suas consequências, sobre nós e sobre os outros, e passamos a planejar novas encarnações com provas que visamos nos ajudem a aprender e a vencer essas imperfeições. Muitas vezes, contudo, perseguidos por uma grande culpa e ainda pouco desenvolvidos no entendimento, chegamos ao ponto de planejar grandes e dolorosas expiações, como a criança que, não sabendo lidar com a culpa por algum mal cometido, pede ao pai que a castigue.

Vemos, portanto, que as dificuldades e dores de nossas vidas, quando não oriundas de nossas ações presentes, são ricas oportunidades de aprendizado e reajuste. Outras vezes, tragédias e dores terríveis são planejadas pelo próprio Espírito para buscar aliviar sua consciência sobre algo passado. Contudo, fica uma lição muito importante: conforme entendemos mais profundamente a mecânica da evolução espiritual, faremos melhores planejamentos para nossas encarnações.

Ainda somos Espíritos muito ligados a essas concepções de pecado e castigo, chegando ao ponto de elaborar planejamentos reencarnatórios ligados à “Lei de Talião” — olho por olho, dente por dente. Mas, conforme compreendemos que o que realmente importa é identificar nossas imperfeições transformadas em maus hábitos e corrigi-las, entendendo que o castigo ensina pouco ou quase nada, buscaremos formas melhores de planejar novas oportunidades, nos desligando progressivamente da necessidade das expiações muito brutas para, então, buscar oportunidades mais ligadas a uma educação espiritual basilar, desde os primeiros passos da infância material, com vistas a fortalecer virtudes e a abafar imperfeições.

Afinal, queremos dizer: as dificuldades desta vida, por pior que pareçam, se não são efeito negativo de nossas ações presentes ou da própria Natureza, são oportunidades planejadas por nós mesmos para nossa elevação. Nos esforcemos, portanto, para encarar de forma diferente essas provações, buscando aprender com elas, nos apoiando sempre na prece e nos estudos do Espiritismo, que muito podem fazer por ajudar a mudar nossas concepções ainda nesta vida.

Para complementar esta leitura, sugerimos a leitura do artigo sobre Punição e Recompensa, publicado recentemente.


Sugestões de leitura:

  1. O caso de Antonio B, em O Céu e o Inferno
  2. Nossas reflexões sobre o artigo A Fatalidade e os Pressentimentos, apresentado na edição de Março da Revista Espírita de 1858
  3. O Assassino Lemaire, na Revista Espírita de Março de 1858



Espiritismo e Política

Bate o horário da palestra no Centro Espírita. Sobe à tribuna o palestrante, aparentemente bem preparado e de linguagem eloquente e, em meio a temas relativos ao meio espírita atual, começa a emitir opiniões diversas a respeito de um suposto propósito do Espiritismo como alicerce de movimentos políticos.

Muito provavelmente você também, caro leitor, já presenciou tais feitos, ou já ouviu relatos próximos. E, é claro, tais opiniões – pessoais, lembramos – despertam simpatias e antipatias, porque, no campo político, há muito embate e discordância de ideologias.

Não vamos nomear lados, partidos, ideologias ou o que quer que seja. O que vamos defender, aqui, é que o Espiritismo não é e nem nunca será um movimento político. E quem envolve a Doutrina em tais assuntos, não a entendeu em sua profundidade e se baseia num entendimento distorcido para fundamentar suas próprias inclinações ideológicas políticas, afastando do Espiritismo as pessoas que não concordam com sua forma de pensar – quase sempre bastante fechada em um círculo específico de ideias.

O Espiritismo, lembramos, é uma ciência moral de aspecto filosófico, cuja teoria nasceu da observação dos fatos espíritas – isto é, da manifestação dos Espíritos. Sua essência, em sua clareza original, é voltada à reforma de ideias, no sentido de como o Espírito humano encara sua evolução, suas provas, suas dificuldades e suas oportunidades. Não é acaso, aliás, que Allan Kardec foi formado no Castelo de Yverdon, pelo método de Pestalozzi: é através da pedagogia da fraternidade e do amor, e não pela punição, que o Espírito realmente adquire um entendimento real a respeito de suas potencialidades e de suas imperfeições, se aperfeiçoando e deixando para trás seus maus hábitos.

Por que dizemos tudo isso? Porque as ideologias políticas, de todos os lados, contam com adeptos – à exclusão daqueles muitos apenas utilizam da política para benefício próprio – que visam a melhoria social. Quando esses adeptos são espíritas, muitas vezes são levados a acreditar, por um entendimento muito raso, que as ideias espíritas se aliam às suas ideologias políticas, e passam a divulgar a quatro ventos tais crenças, sem se importar com as antipatias que despertarão. A propósito, precisamos também lembrar: a maioria das ideologias políticas atropela as liberdades de pensamento individuais, sendo que o Espiritismo faz justamente o contrário.

E isso tudo, repito, por um entendimento muito raso, por não se aprofundar nos estudos da Doutrina a ponto de entender que o propósito do Espiritismo é reeducar o Espírito humano e, aliando-se à educação desde a infância, melhorar a forma como o Espírito encara a vida material, promovendo nele uma mudança de ideias sobre as dificuldades da vida e sobre a necessidade de abafar seus ímpetos de orgulho e egoísmo e de agir de forma caridosa, como obrigação moral, respeitando o livre-arbítrio que cada um tem.

Isso sim muda a sociedade, pois modifica a forma como o indivíduo encara a vida e o próximo. O Espiritismo nos oferece terreno comum, sendo uma ciência disponível para pessoas de todas as crenças e ideologias, desde entendam que a sua real proposta é a modificação individual, pela livre-consciência, e não por força de lei.

Da mesma forma que se afugenta um indivíduo que bate à porta do centro buscando consolação mas ouve as mais diversas abobrinhas, também se afugentam irmãos ao envolver temas políticos no meio espírita. Infelizmente, vejo muitos espíritas apoiando ideias e indivíduos que, direta ou indiretamente, ferem ou declaradamente desejam ferir o primeiro princípio básico da lei divina, sustentada pelo Espiritismo, que é o livre-arbítrio.

Não quero dizer que seja eu alguém tão digno de se fazer importante por sua presença ou ausência, mas penso que não sou o único a se afastar por conta desse tipo de viés que não deveria, segundo minha modesta opinião, fazer parte de estudos da Doutrina – pensando que, embora queiramos imprimir aos grupos nossas próprias personalidades e ideias, temos muita responsabilidade sobre os demais, da mesma forma que tem responsabilidade aquele que “acolhe” a mãe de um indivíduo portador de deficiências dizendo que ele é assim porque cometeu suicídio na vida passada e que, por isso, a afasta.

Portanto, não, o Espiritismo não pode jamais ser misturado a movimentos políticos quaisquer.

Para terminar, lembremos

Allan Kardec que, na Revista Espírita de Fevereiro de 1862, faz um alerta:

“Devo ainda chamar a atenção para outra tática de nossos adversários: a de procurar comprometer os espiritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da Doutrina, que é o da moral (grifo nosso), para abordarem questões que não são de sua competência e que poderiam, com toda razão, despertar suscetibilidade e desconfianças.

Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes, nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando eia for boa.

Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente uteis serão uma consequência natural”.




Espiritismo e Saúde Mental

Hoje, 10 de outubro, é Dia Internacional da Saúde Mental. E, como assunto de tal importância, não poderíamos deixá-lo passar em branco.

Iniciamos afirmando que, por ser de extrema importância,  os menores sinais de inquietação e desequilíbrio, sejam eles de estresse descontrolado, melancolia/depressividade e outros transtornos, deveriam sempre motivar a busca por um acompanhamento psicológico profissional. Muitas de nossas inquietações partem não só de aspectos profundamente enraizados dentro de nós, mas também, muitas vezes, de desequilíbrios orgânicos. Somos Espíritos encarnados em um corpo, sendo que estes estão sujeitos às vicissitudes da matéria.

Isto colocado, avancemos para o aspecto espiritual de nossa saúde mental. Para nós, espíritas e, de forma global, para todo espiritualista, o cérebro não é apenas um reflexo químico e orgânico, mas é, antes, o órgão de expressão do Espírito, embora abafado em sua face real. Assim sendo, o Espírito – ou a alma – é quem preside à vontade, às escolhas e, numa palavra, ao livre-arbítrio.

Reconhecendo-nos, portanto, numa espécie de dualidade entre Espírito e matéria, compreendemos que todo tratamento que aborde a mente deveria abordar o indivíduo de forma holística, ou seja, integral, integrando corpo e Espírito. É claro que um bom acompanhamento psicológico profissional muito fará nesse sentido, mas não podemos negar que, ao abarcar a esfera espiritual existente, o tratamento sempre trará muito mais proveito nesse sentido.

O que estamos aqui tentando fazer é demonstrar que, em se tratando de saúde mental, não podemos ver tudo apenas pelo aspecto espiritual – sobretudo a respeito das prováveis obsessões espirituais – mas também pelo aspecto orgânico e fisiológico da questão. Por exemplo: podemos pensar que uma pessoa que vive estressada e que tenha eventos de descontrole emocional esteja sendo vítima de uma obsessão espiritual, quando, porém, ela apenas tem sintomas de pré-diabetes, o que lhe causa hipoglicemia, que leva a tais descontroles.

Não podemos, portanto, como espíritas, no acolhimento de quem e onde quer que seja tratar tudo como se fosse “problema espiritual”, o que seria muita irresponsabilidade. É sempre importante investigar o que se passa com o indivíduo, buscando saber se está fazendo acompanhamento psicológico, se está se tratando e, se não estiver, buscar encaminhar o irmão para tal tratamento.

Por outro lado, é importante destacar, sim, que o Espiritismo apresenta uma faceta importantíssima nesse aspecto, à medida que esclarece o indivíduo sobre as razões das dificuldades da vida e sobre a nossa relação constante com o mundo espiritual à nossa volta. Ora, quantos casos de loucura não se iniciam, também, por uma mente aberta e invigilante aos pensamentos de Espíritos da terceira ordem? Quantas vezes não somos alimentados, por conta de nossas imperfeições, nos mais sutis processos de alienação mental que, lentamente, vão nos provocando manias, medos e distúrbios variados?

Posto que somos Espíritos encarnados em um corpo e que quem comanda a nossa vontade é nosso Espírito, é claro que a raiz de todos os nossos problemas estará sempre no Espírito – mesmo no caso do pré-diabético, já que é por um mau hábito na alimentação, provocado por “seu Espírito”, que tal mal se instalou. Portanto, nesse sentido também, quanto mais o Espírito entende dos dispositivos e dos propósitos da vida, da necessidade da correção de suas imperfeições, do benefício da oração sobre a mente e do fato da associação mental, com encarnados e com desencarnados, segundo nossas inclinações mentais, mais lhe será fácil se manter mais equilibrado mentalmente.

Mas, e no caso de um processo de desequilíbrio já instalado? Aqui, como já dissemos, em primeira instância não podemos dispensar o tratamento psicológico profissional. Isso é imprescindível. Em segundo lugar, através do Espiritismo e do Magnetismo, podemos oferecer também um tratamento muito proveitoso:

  • Através da oração, buscar auxiliar o encarnado e os possíveis desencarnados na melhoria de seu campo mental;
  • Através do passe magnético, que pode ser feito inclusive pelos familiares, podemos buscar auxiliar diminuir os distúrbios e reflexos de tais desequilíbrios;
  • Afinal, porém, não podemos nos esquecer que o indivíduo que está passando por um grave distúrbio mental, como é o caso da esquizofrenia, pode ter uma necessidade em vivenciá-lo, fazendo mesmo parte de um planejamento reencarnatório, por razões como, por exemplo, fazê-lo se desligar um pouco de processos mentais antigos, que muito o afligem. Portanto, orar e buscar ajudar sempre, com fé, mas não esmorecendo ante à não cessação completa da doença.

Finalizando o assunto, gostaríamos de destacar que diferenciar os distúrbios patológicos dos casos de obsessão mediúnica é sempre muito importante, visto, como Kardec já identificou àquela época, que no último caso a medicação pode ser até prejudicial:

Não confundamos a loucura patológica com a obsessão; esta não provém de lesão alguma cerebral, mas da subjugação que Espíritos malévolos exercem sobre certos indivíduos, e que, muitas vezes, tem as aparências da loucura propriamente dita. Esta afecção, muito frequente, é independente de qualquer crença no Espiritismo e existiu em todos os tempos. Neste caso, a medicação comum é impotente e mesmo prejudicial.

Allan Kardec – O que é o Espiritismo? 

Também não poderíamos de deixar de citar, aqui, na íntegra, o texto “O suicídio e a loucura”, de Allan Kardec, no cap. V do Evangelho Segundo o Espiritismo:

14. A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam.

15. O mesmo ocorre com o suicídio. Postos de lado os que se dão em estado de embriaguez e de loucura, aos quais se pode chamar de inconscientes, é incontestável que tem ele sempre por causa um descontentamento, quaisquer que sejam os motivos particulares que se lhe apontem. Ora, aquele que está certo de que só é desventurado por um dia e que melhores serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência. Só se desespera quando nenhum termo divisa para os seus sofrimentos. E que é a vida humana, com relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias.

16. A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral. Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se esforçam por provar aos que os ouvem ou leem que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão de fato levando-os a deduzir que, se são desgraçados, coisa melhor não lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los dessa consequência? Que compensação lhes podem oferecer? Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o único remédio heroico, a única perspectiva, mais vale buscá-lo imediatamente e não mais tarde, para sofrer por menos tempo.
A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral.

17. O Espiritismo ainda produz, sob esse aspecto, outro resultado igualmente positivo e talvez mais decisivo. Apresenta-nos os próprios suicidas a informar-nos da situação desgraçada em que se encontram e a provar que ninguém viola impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida. Entre os suicidas, alguns há cujos sofrimentos, nem por serem temporários e não eternos, não são menos terríveis e de natureza a fazer refletir os que porventura pensam em daqui sair, antes que Deus o haja ordenado. O espírita tem, assim, vários motivos a contra por à ideia do suicídio: a certeza de uma vida futura, em que, sabe-o ele, será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na Terra: a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; que se liberta de um mal, para incorrer num mal pior, mais longo e mais terrível; que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que no outro mundo ele se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar; donde a consequência de que o suicídio, só lhe trazendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso mesmo, considerável já é o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se, podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes. Comparando-se, então, os resultados que as doutrinas materialistas produzem com os que decorrem da Doutrina Espírita, somente do ponto de vista do suicídio, forçoso será reconhecer que, enquanto a lógica das primeiras a ele conduz, a da outra o evita, fato que a experiência confirma.