Depois da descoberta de que, de Espiritismo, eu não conhecia nada (o que se deu há quase um ano) e com a confirmação de que uma série de dúvidas que eu sempre mantive em minha mente, e que vieram se acentuando conforme passei a colocar a cabeça para funcionar, deixei de ler as obras realizadas através da mediunidade de Chico Xavier.
Recentemente, porém, instigado pela sugestão de uma moça, em um grupo, que recomendou estudar a obra Ação e Reação para entendermos o porque os animais sofrem dores, encontrei diversas incongruências, desde as várias já conhecidas, entre os “ensinamentos” transmitidos por André Luiz e os postulados doutrinários do Espiritismo, passados pelo duplo controle do crivo da razão e do ensinamento geral dos Espíritos.
Não mais posso deixar passar, cegamente, diversos conceitos que, antes, eram mais ou menos aceitos sem raciocinar. Não após passar a conhecer Allan Kardec em sua essência, através dos estudos da Revista Espírita, e também após começar a entender os conceitos de autonomia e moral, fundamentados pelo Espiritualismo Racional e desenvolvidos pelo Espiritismo.
Resgates coletivos? Ação e reação? Olha, se tem alguma forma de tirar algo de útil, dessa obra, é primeiro necessário conhecer o Espiritismo, profundamente, entendendo-o como desenvolvimento do Espiritualismo Racional e fazendo uso de seus conceitos, pois as mais absurdas ideias têm se espalhado, na Doutrina, por conta desse desconhecimento.
Veja só que complicado:
“Em nosso estudo, porém, analisamos a dor-expiação, que vem de dentro para fora, marcando a criatura no caminho dos séculos, detendo-a em complicados labirintos de aflição, para regenerá-la, perante a Justiça… É muito diferente… “
Ora, está estabelecido, pelo estudo do Espiritismo, que a expiação e a dor não andam inerentemente juntos. O trecho acima leva o leitor incauto a entender que, perante a “Justiça [divina]”, o ser se regenera pela dor, sendo que a dor é uma condição inerente ao Espírito encarnado, e difere de sofrimento moral. Da dor física, sofre o mau e o bom. A expiação pode passar bem longe da dor, mas contar apenas com dificuldades, muitas vezes moralmente sofridas, que visam, segundo o planejamento do Espírito, dar-lhe as oportunidades para o aprendizado.
Contudo, de posse dos novos (na verdade, antigos) conhecimentos, poderíamos dar todo um significado diferente para esse trecho, pela simples observação do termo “que vem de dentro para fora”, o que implica que essa dor está vindo da consciência para o exterior.
É preciso muito cuidado para se ater sobre essas obras — que, na verdade, são romances, e não fontes de estudos — pois sabemos das enormes reservas que Kardec sempre teve com relação às ideias espirituais não passadas pelo duplo controle da razão e do ensinamento geral dos Espíritos. Além disso, sem estar de posse dos conhecimentos mencionados, os romances, em geral, conduzem os leitores para um caminho totalmente adverso do que ensina o Espiritismo, em verdade, e podem causar (como têm causado) mais mal do que bem.
Portanto, aos estudos!
Um ultrage: o materialismo e o dogma religioso no seio do Movimento Espírita
Ontem mesmo, escrevia aqui, neste blog, o artigo “Espiritismo Raiz“, falando das subversões absurdas sendo realizados por pessoas que adotam o título de Espíritas, mas que, de Espiritismo, não falam nada. Falam, muito, de conceitos de certos Espíritos, o que, em definitivo, não constitui a Doutrina. Indivíduos, esses, que sob as falsas vestes do “evangelizador”, com dulcíferas palavras do Evangelho de Jesus (já vimos um caso desses na prática, apresentado por Kardec, no artigo Obsedados e Subjugados: os Perigos do Espiritismo), as tomam para, lenta e progressivamente, subvertê-lo às mais absurdas e escancaradas ideias, ainda anteriores ao próprio Cristo, dignas do tempo em que o ser humano tinha consciência escravizada pelas ideias religiosas da heteronomia, do pecado e do castigo.
Eis que, logo em seguida à conclusão desse artigo, indo aos grupos Espíritas para compartilhamento, me deparo, no maior deles, com centenas de milhares de seguidores, a seguinte postagem, de um dos administradores do grupo:
LIMPEZA DE DNA DE VÁRIAS GERAÇÕES
Eu, _____________ ( seu nome), quebro, destruo, desintegro e pulverizo toda a negatividade que trago instaurada da árvore genealógica de meu Pai e minha Mãe, desde a primeira geração que formou suas famílias até a herança que recebemos deles nesta vida((Essa ideia está diretamente subordinada ao dogma do pecado original, que, apesar de partir de uma figura de linguagem, em uma época muito afastada, foi instituído pela Igreja Católica Romana como tal, com a finalidade de aprisionar as consciências dos fiéis a seu bel-prazer)).
[…]
Estou tirando tudo isso do meu ADN((O ácido desoxirribonucleico é um composto orgânico cujas moléculas contêm as instruções genéticas que coordenam o desenvolvimento e funcionamento de todos os seres vivos e alguns vírus, e que transmitem as características hereditárias de cada ser vivo (ref: Wikipédia). Essa frase resume tudo: em contrário à demonstração, pelo Espiritismo, da alma e de suas relações com os Espíritos como o princípio de tudo o que concerne o ser encarnado, ela é totalmente materialista!))! DECRETO E INSTAURO AQUI E AGORA: Um sistema de saúde, amor, abundância, prosperidade, serenidade, confiança e felicidade guiado sob as leis universais.
Fiquei e continuo perplexo e estupefato! Consideraria válido encontrar uma mensagem desse teor em um grupo de religiosos ligados às ideias do pecado original e do materialismo, contrários ao Espiritismo e sua doutrina libertadora… Mas dentro de um grupo “Espírita“, que institui, como a primeira de suas regras, que “nosso principal objetivo é o ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA“, e pelas mãos de um administrador?! Jamais! Ora, chega a ser um desrespeito à própria Doutrina Espírita e ao empenho de Kardec em combater, à luz da razão e com grande esforço, justamente esses dois sistemas contrários ao Espiritismo e à libertação do homem: o materialismo e o dogmatismo religioso.
A intenção, aqui, não é descer ao nível do ataque pessoal. Cada um com a sua consciência e com os resultados de suas ações. O que desejo, de modo firme, é destacar os seguintes dois pontos, importantíssimos:
Cuidado, prezado leitor, com a onda de moralismo evangélico espalhado no meio espírita! O Evangelho é, sim, muito importante, mas é preciso que o Espiritismo seja estudado para bem compreendê-lo. Existem muitos “lobos em pele de cordeiro” que se escondem sob as palavras do Evangelho, mas que, na verdade, disseminam ideias contrárias a ele.
Estivemos por muito tempo absorvidos na inação e na ausência dos estudos. É por conta disso que as falsas ideias se disseminam a galope. É nossa responsabilidade, frente à doutrina e a nós mesmos, estudá-la, aplicar suas consequências morais em nossas próprias vidas e disseminá-la em sua essência! Não podemos mais aceitar que tais ideias continuem sendo disseminadas no meio espírita, minando a Doutrina de dentro para fora!
O espírita não estuda sequer o Evangelho Segundo o Espiritismo, pois, se estudasse, poderia estar em guarda. Não é à toa que São Luís assim se expressa, sobre os falsos profetas:
Se vos disserem: “O Cristo está aqui”, não vades; ao contrário, tende-vos em guarda, porquanto numerosos serão os falsos profetas. Não vedes que as folhas da figueira começam a branquear; não vedes os seus múltiplos rebentos aguardando a época da floração; e não vos disse o Cristo: Conhece-se a árvore pelo fruto? Se, pois, são amargos os frutos, já sabeis que má é a árvore; se, porém, são doces e saudáveis, direis: “Nada que seja puro pode provir de fonte má.”
É assim, meus irmãos, que deveis julgar; são as obras que deveis examinar. Se os que se dizem investidos de poder divino revelam sinais de uma missão de natureza elevada, isto é, se possuem no mais alto grau as virtudes cristãs e eternas: a caridade, o amor, a indulgência, a bondade que concilia os corações; se, em apoio das palavras, apresentam os atos, podereis então dizer: Estes são realmente enviados de Deus.
Desconfiai, porém, das palavras melífluas, desconfiai dos escribas e dos fariseus que oram nas praças públicas, vestidos de longas túnicas. Desconfiai dos que pretendem ter o monopólio da verdade!
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Grifos meus.
O Espírito de Erasto, na mesma obra, diz o seguinte:
Os falsos profetas não se encontram unicamente entre os encarnados. Há-os também, e em muito maior número, entre os Espíritos orgulhosos que, aparentando amor e caridade, semeiam a desunião e retardam a obra de emancipação da humanidade, lançando-lhe de través seus sistemas absurdos, depois de terem feito que seus médiuns os aceitem. E, para melhor fascinarem aqueles a quem desejam iludir, para darem mais peso às suas teorias, se apropriam sem escrúpulo de nomes que só com muito respeito os homens pronunciam.
Ibidem. Idem.
Essa exortação, porém, não carrega o significado de que não devemos estar a postos contra os lobos travestidos de cordeiro, pois são eles mesmos que semeiam a desuniam ao lançar, no meio das ideias consoladoras, o fruto espinhoso das velhas religiões. Kardec, aliás, destaca a necessidade de afastar de se afastar desses indivíduos, inclusive quando médiuns:
Deve-se observar que, quando os bons Espíritos veem que um médium deixa de ser bem assistido e se torna, pelas suas imperfeições, presa dos Espíritos enganadores, quase sempre fazem surgir circunstâncias que lhes desvendam os defeitos e o afastam das pessoas sérias e bem-intencionadas, cuja boa-fé poderia ser laqueada. Neste caso, quaisquer que sejam as faculdades que possua, seu afastamento não é de causar saudades.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1862. Grifo meu.
Nada disso significa que devemos combater com rudeza ou ódio, muito pelo contrário, pois estaríamos em erro também. Mas devemos combater as falsas ideias pela disseminação do verdadeiro Espiritismo, aquele que é verdadeiramente consolador. E como fazer isso? Entendendo o Espiritismo e seu contexto! É preciso compreender o Espiritualismo Racional((recomendamos estudar o livro Pequenos Elementos de Moral, de Paul Janet, além de estudar a obra Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo, por Paulo Henrique de Figueiredo, ou acompanhar os vários vídeos tratando desse assunto, com esse autor, no Youtube)), é preciso estudar a essência Doutrinária em suas obras não adulteradas((como sempre, recomendamos estudar as obras O Céu e o Inferno e A Gênese conforme as edições da editora FEAL, traduzidas e comentadas, dentre outros, por Paulo Henrique de Figueiredo, bem como acompanhar também o estudo dessas obras no canal Espiritismo para Todos)) e é preciso estudar a Revista Espírita, como temos feito, de modo a entender o que realmente é o Espiritismo e como foi a formação dessa doutrina.
Enfim: é tempo de se movimentar. Não é somente o meio espírita que carece da recuperação das ideias da teoria moral desenvolvida pelo Espiritismo e fundamentadas pelo Espiritualismo Racional: é toda a humanidade.
Faça a sua parte.
Em defesa de Allan Kardec: sobre as adulterações
Estou me afastando totalmente da discussão a respeito de provas e evidências das adulterações em suas obras. É minha opinião de que se tornaram uma enorme perda de tempo. Explico:
De início, ao meu ver, provas e evidências da adulteração foram muito contundentes((Fatos detalhadamente apresentados em “O Legado de Allan Kardec”, de Simoni Privato, e “Nem céu, nem inferno”, de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio.)).
Depois, surgiram evidências que poderiam indicar que não ocorreram adulterações e que tudo foi fruto do trabalho do próprio Kardec, segundo a interpretação de alguns, e isso levado por indícios e evidências de que ele, Kardec, tinha a clara intenção de publicar novas edições, com alterações, de O Céu e o Inferno e de A Gênese. Eu destaco que, a meu ver, até o momento, todas as evidências apontam que Kardec, ao menos em A Gênese, teria iniciado um trabalho nesse sentido, trabalho esse que nunca foi concluído e que deu espaço, justamente, a quem quer que teria a intenção de causar estragos da única forma possível em uma Doutrina inatacável: adulterando-se seus postulados, em sua origem.
Há quem discorde, claro. Mas tem um grande porém, nesse assunto, que não consigo ignorar: a questão justamente ligada à ciência espírita e a Allan Kardec como o probo, perspicaz, paciente, cuidadoso e honesto cientista que foi. De duas, uma: ou ele escreveu coisas muito importantes e sérias sob uma ansiedade que ele nunca teve, tendo depois retrocedido em suas opiniões — o que demonstraria uma grave falha em seu método e representaria um grande perigo para toda a Doutrina Espírita — ou ele foi muito cuidadoso, até o fim, e só concluiu o que deveria ser concluído, após anos de pesquisa e sob a orientação dos Espíritos superiores, como ele sempre buscou fazer.
Ora, ele mesmo disse, anos antes da publicação dessas obras, que certos assuntos doutrinários precisavam ainda aguardar alguns anos e que ele não publicaria nada muito cedo, sem que o desenvolvimento da Doutrina desse lugar a isso. O Céu e o Inferno e A Gênese foram, justamente, essa conclusão. Não vejo como, portanto, principalmente na primeira obra, fazer mudanças que, em certos pontos, alteram completamente o entendimento da ideia e que, em A Gênese, fazem o conceito ou postulado doutrinário ficarem incompletos ou mal entendidos. Mas não é só: Kardec foi muito austero nessas duas obras, justamente no que tange aos pontos mais sensíveis, e que davam motivo a temer nos adversários do Espiritismo, e foi justamente nesses pontos onde houveram as “alterações”.
Vamos a alguns exemplos:
Em A Gênese, capítulo III, item 19, a partir da 5.ª edição, o texto encontra-se assim:
“O homem que só pelo instinto agisse constantemente poderia ser muito bom, mas conservaria adormecida a sua inteligência. Seria qual criança que não deixasse as andadeiras e não soubesse utilizar-se de seus membros. Aquele que não domina as suas paixões pode ser muito inteligente, porém, ao mesmo tempo, muito mau. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões somente pelo esforço da vontade podem domar-se.“
Contudo, na 4.ª edição, hoje recuperada e traduzia para o português pela editora FEAL, existe o seguinte complemento:
Todos os homens passam pelas paixões. Os que as superaram, e não são, por natureza, orgulhosos, ambiciosos, egoístas, rancorosos, vingativos, cruéis, coléricos, sensuais, e fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é porque progrediram na sequência de suas existências anteriores, tendo se livrado desse incômodo peso. É injusto dizer que eles têm menos mérito quando fazem o bem, em comparação com os que lutam contra suas tendências. Acontece que eles já alcançaram a vitória, enquanto os outros ainda não. Mas, quando alcançarem, serão como os outros. Farão o bem sem pensar nele, como crianças que leem correntemente sem ter necessidade de soletrar. É como se fossem dois doentes: um curado e cheio de força enquanto o outro está ainda em convalescença e hesita caminhar; ou como dois corredores, um dos quais está mais próximo da chegada que o outro.
Kardec, A Gênese, 4.ª edição — Editora FEAL
Ora, parece crível que Kardec tirasse essa conclusão tão importante, profunda e libertadora desse postulado?
Um pouco mais adiante, no capítulo XVIII, “Os tempos são chegados”, o seguinte trecho foi suprimido (removido) a partir da 5.ª edição da obra. Leia com atenção:
Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria. Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas e, por isso, dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.
Kardec, A Gênese, 4.ª edição — Editora FEAL
Se a supressão desse trecho não parece algo realizado justamente por um adversário da Doutrina, não sei o que mais pareceria.
Já em O Céu e o Inferno, a partir da 4.ª edição, temos, dentre outras coisas, a supressão de importantes postulados, como estes (cap. VIII):
Pelos exemplos que o Espiritismo coloca diante de nossos olhos, ensina-nos que a alma no mundo invisível sofre por todo o mal que fez, assim como por todo o bem que poderia ter feito e não fez durante sua vida terrestre. Que a alma não é condenada a uma penalidade absoluta, uniforme e por um tempo determinado, mas que sofre as consequências naturais de todas as suas más ações, até que se tenha melhorado pelos esforços da sua própria vontade. Ela carrega em si mesma seu próprio castigo, e isso onde quer se encontre, para o que não há necessidade de um lugar circunscrito. O Inferno, então, está onde quer que existam almas sofredoras, como o Céu está em toda parte onde existam almas felizes, o que não impede que umas e outras se agrupem, por afinidade de posição, ao redor de certos pontos.
O Céu e o Inferno, Cap. IV, item 6.º, parágrafo suprimido na adulteração, p. 85
Sendo todos os espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso, trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futura e os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprio adiantamento.
Allan Kardec, O Céu e o Inferno, 3.ª edição — Editora FEAL
Constatamos, então, uma grande perda, pela supressão desses postulados. Há diversos outros pontos, que, de acordo com certo entendimento, podem até ser ressignificados sob uma possível autoria de Allan Kardec, mas o fato é que existem, também nessa obra, alterações estranhas e que não fazem sentido. Basta comparar o capítulo “As penas futuras segundo o Espiritismo“, de O Céu e o Inferno, completamente desfigurado na “alteração”.
Tem mais: admitir que as todas as alterações existentes nessas obras foram realizadas por Kardec, significa dizer que ele teria realizado um erro grotesco, e não apenas uma vez, mas duas: não ter obtido a permissão necessária, do governo, para a impressão de novas edições dessas obras. Nunca conheci esse Kardec descuidado e afoito que têm apresentado por aí.
Conhecendo um pouquinho da face extremamente séria, conscienciosa e cuidadosa do professor Rivail quanto a essa ciência (como com as outras), não posso admitir as teorias das alterações por seu próprio punho, sobretudo das supressões, e, do ponto de vista científico, tudo o que vi até agora, sem contar as conclusões forçadas sob cadeias de lógica com alguns problemas, no máximo, indica uma intenção de editar uma nova edição, o que nunca foi concluído e que, justamente, deu lugar às adulterações posteriores à sua morte, através da alteração do tipos móveis((peças utilizadas para realizar impressões prévias, naquele tempo. Essas impressões eram analisadas e corrigidas, através da alteração dos tipos (letras, pontuações, etc.) e, quando se verificava que a obra estava finalizada, eram utilizadas para a impressão da matriz, sendo esta utilizada para a impressão em larga escala)) existentes.
Aliás, de posse dos manuscritos de Kardec, disponibilizados pelo CDOR, da FEAL, foi possível identificar que:
Algumas cartas manuscritas demonstram que, em fevereiro de 1868, Kardec estava interessado em acrescentar trechos em A Gênese, pois era de seu costume, depois de um tempo do lançamento, revisar suas obras. Para isso, pediu conselhos aos espíritos para organizar esse trabalho.
Alguns amigos espirituais deram orientações para uma revisão da obra, com a expressa indicação para não alterar em nada as questões doutrinárias, como se percebe pelos seguintes trechos desta comunicação:
“Minha opinião é que não há absolutamente nada de doutrina a ser retirado; tudo aí é útil e satisfatório sob todos os aspectos” e
“É necessário deixar intactas todas as teorias que aparecem pela primeira vez aos olhos do público”.
No caso, além da demonstração jurídica da adulteração de A Gênese, também esta comunicação reforça o fato em razão das alterações doutrinárias identificadas na obra, com a supressão de diversos trechos em que Kardec critica a moral heterônoma do fanatismo religioso, dentre outras manipulações.
Ainda nesta comunicação, o espírito sugeriu também que ele trabalhasse sem pressa e sem dedicar muito tempo:
“Sobretudo, não se apresse demais. (…) Comece a trabalhar imediatamente, mas não de forma exagerada. Não se apresse”.
Ora, o que observamos nas alterações de A Gênese, senão pressa e descuido?
Essa recomendação era justificada porque Kardec, em meio a sua difícil condição de saúde, tinha questões prioritárias para se preocupar, como a Revista Espírita e o projeto para a continuidade do Espiritismo através da fase de direção coletiva.
Essa é minha conclusão. Contudo, podemos até chegar a dizer que essas questões de adulteração ou não são um mero “detalhe”, um “tropeço” mesmo, que será superado quando a ciência for restaurada em sua essência. Ora, essa essência segue inalterada e está disponível para o nosso estudo. Basta estudá-la, de forma honesta, pois o homem honesto e humilde se rende frente aos resultados da investigação científica. Mas, finalizo, esse estudo precisa ser contextualizado, e um dos maiores pesquisadores desse contexto, Paulo Henrique de Figueiredo, está sendo colocado para baixo do tapete, por muitos, apenas porque ele compartilha da opinião da adulteração. E essa atitude, definitivamente, não é ciência.
As cisões e a busca por unidade no movimento espírita
Este é um artigo sucinto, trazendo uma reflexão, creio eu, importante.
É de longa data o assunto em questão: a busca por uma unificação do Movimento Espírita. Sabemos que, principalmente no Brasil, desde o início do movimento espírita, existem as cisões, ou seja, as divisões em grupos de ideologias. Há, inclusive, dentro do movimento, as cisões políticas, algo que jamais deveria existir, já que o Espiritismo visa, antes de tudo, a transformação do indivíduo, pela própria vontade e pela razão, e não por força maior, ou seja, uma modificação social através da modificação individual. A política (vista pelo viés simplista, conforme o que é feito geralmente), por outro lado, visa essa transformação de cima para baixo, por força de lei.
Devemos observar: isso, é claro, não significa dizer que o espírita não pode se envolver com a política. Muito pelo contrário: deveria. Mas com quais olhos? Certamente, não os da vaidade e do orgulho das opiniões, mas baseado na Doutrina Espírita. Imaginemos o que poderia fazer, com a força política, pessoas bem compenetradas da essência científica, moral e filosófica do Espiritismo, da transformação pela base, da pedagogia da autonomia, desde a escola infantil e, enfim, aqueles que entendam, profundamente, o bem e seu poder de transformação social, respeitando, porém, SEMPRE (desde que o ato não implique o mal direto para outros e respeitando as leis vigentes) o livre-arbítrio de cada um, que é um princípio fundamental do Espiritismo? Ora, o grande problema, sempre, tem sido as opiniões reservadas, quando, de um lado, alguns pensam que resolverão tudo com as armas e, do outro, alguns acham que resolverão tudo à base da força, tomando de uns para dar aos outros.
Mas voltemos ao ponto fundamental: havendo as cisões sob uma mesma bandeira, é natural, então, nascerem as diversas propostas de unificação, inspiradas mesmo naquela célebre e justa recomendação do Espírito de Verdade, em O Evangelho Segundo o Espiritismo — “Espíritas!, amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí-vos, eis o segundo”. Como, então, alcançar esse objetivo?
Ora, reconhecendo-nos Espíritos em diferentes graus de evolução, com diferentes formas de entendimento, com diferentes conhecimentos e diferentes formas de ver o mundo — enfim, cada um, em si, um verdadeiro universo — é claro que não podemos supor que uma unificação signifique uma igualação de ideias. Isso seria impossível. Também seria impossível e mesmo errôneo supor que essa unificação seria a irmanação de todos os espíritas sob uma mesma entidade reguladora, tal qual se tem tentado fazer desde há muito, pois o Espiritismo não pode estar encerrado sob hierarquias, entidades ou mesmo pessoas. O próprio Kardec, que tão conscienciosamente conduziu os primeiros anos da formação da Doutrina, sabia disso: depois de sua morte, quem assumiria o seu posto? Quem tomaria esse direito? Não. Desde o início, Kardec propôs as diretrizes daquilo que muito bem conduziria o Espiritismo após sua morte, que, em resumo, seria:
1. Como princípio básico de uma ciência, o Espiritismo jamais estaria fechado ao questionamento, desde que este nasça do propósito honesto do indivíduo que não aceita a nada sem raciocinar, nem à curiosidade, desde que esta nasça do princípio investigativo da busca pelo conhecimento; porém, desde o momento em que o indivíduo não se renda à lógica dos fatos e das evidências, fartamente sustentados pela razão e pelo método científico, não pode ser considerado a sério e, gastar tempo com este, significaria perder tempo com aquele que, apresentando-se uma maçã, dirá que se trata de um limão, simplesmente por desejar cultivar o orgulho, e não a humildade.
2. Do ponto de vista da organização doutrinária, Kardec, junto a seus colaboradores, propôs, conforme apresentado na Revista Espírita de dezembro de 1868 (cerca de apenas quatro meses antes de sua morte) a “Constituição transitória do Espiritismo” (leia clicando aqui) que, em resumo, recomendava que o Espiritismo passasse a se constituir não mais sob nenhuma figura ou entidade centralizadora, mas através de inúmeros grupos de estudos e pesquisa, constituídos pelo mundo, e coordenados, mas não regulados, por um comitê central, que, segundo Kardec…
… será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espiritismo, chefe coletivo que nada pode sem o assentimento da maioria e, em certos casos, sem o de um congresso ou assembleia geral. Suficientemente numeroso para se esclarecer pela discussão, não o será bastante para que aí haja confusão.
[…]
É claro que aqui se trata de uma autoridade moral, no que concerne à interpretação e à aplicação dos princípios da doutrina, e não de um poder disciplinar qualquer. Essa autoridade será, em matéria de Espiritismo, o que é a de uma Academia em matéria de ciência.
O brilhantismo, a racionalidade, a genialidade mesmo do Professor Rivail é, realmente, digna de um Espírito que se preparou para a missão que tinha à frente. A unidade do Espiritismo, portanto, não estaria representada pela força deste ou daquele indivíduo, ou grupo, desta ou daquela entidade: estaria no todo, nos princípios básicos da ciência e da doutrina espíritas. Não caberia a ninguém, individualmente, dar regras, aceitar ou rejeitar a adoção de novos princípios e mesmo de novos adeptos.
Ora, se isso chegou a ser publicado, de seu próprio punho, quando ainda estava em vida, perguntamos: o que é que aconteceu com o movimento espírita para chegarmos no cenário atual, onde as dissidências se dão, por toda parte, basicamente pelo desrespeito aos princípios básicos da Doutrina e dessa organização sabiamente proposta por Allan Kardec, pouco antes de sua morte? Bem, são quatro os pontos principais:
Desvios doutrinários após sua morte, por aqueles que deveriam ter dado continuidade em seu trabalho. Isso se deu por interesses pessoais, como o dinheiro, a fama (vaidade) e o orgulho. Os Espíritos contrários ao bem, por serem ignorantes dele, encontraram nas imperfeições humanas a brecha necessária para a realizarem a única coisa que poderiam contra uma doutrina tão fortemente estabelecida. Assim, obtiveram, por Pierre Leymarie ou por outros ((Leymarie não se encontrava à frente da Sociedade Anônima, que substituiu a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, senão a partir de 1872, ano no qual foi lançada a edição adulterada de O Céu e o Inferno)): as adulterações de O Céu e o Inferno e A Gênese((Fatos detalhadamente apresentados em “O Legado de Allan Kardec”, de Simoni Privato, e “Nem céu, nem inferno”, de Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio.)), as duas obras finais de Kardec que encerravam os princípios doutrinários de mais de 15 anos de aprendizados e investigações; os fatos que mancharam e ensombrearam a Doutrina Espírita, como o “Processo dos Espíritas“, a frequente veiculação de ideias antidoutrinárias, na Revista Espírita, dentre outros((Fatos largamente detalhados nas obras supracitadas e também em “Muita Luz” (Beacoup de Lumiere), de Berthe Fropo. O PDF pode ser facilmente encontrado no Google.)).
As guerras que se seguiram poucas décadas depois e que lançaram o mundo no materialismo, quer pelas dificuldades e desgraças do povo, quer pelas lutas armadas.
Os interesses pessoais ou a incapacidade de compreensão da verdadeira essência do Espiritismo por parte daqueles que tomaram as rédeas do movimento espírita nascente no Brasil e que encontraram, em Roustaing, uma teoria mais próxima de seus propósitos ou de suas capacidades de compreensão. Estes, ligados à política — vejam só, uma vez mais a política — e/ou à imprensa e com capacidade de penetração, fizeram essas ideias se propagarem a fartamente pelo país.
O desinteresse pelos estudos dos adeptos do Espiritismo que, se houvessem se dedicado a essa necessidade, teriam encontrado isto mesmo que acabamos de apresentar.
Eu diria que, de todos, o quarto e último tópico é o mais sério de todos, pois quaisquer tropeços, conscientes ou não, seriam muitas vezes corrigidos por um estudo dedicado dos conteúdos doutrinários existentes ou pela investigação científica junto aos Espíritos, assim como Kardec fazia.
Constatamos, enfim, que as cisões existentes no movimento Espírita se dão muito menos por ideologia doutrinária, e muito mais por ausência ou presença dos princípios científicos necessários, seguindo os passos de Allan Kardec. De um lado, estão aqueles que compreendem a necessidade do método, do princípio da concordância universal dos ensinamentos dos Espíritos, do não aceitar uma opinião isolada, seja de quem for, como se fosse a expressão da verdade e da sabedoria e, por isso, parte da Doutrina e da importância, da utilidade e da necessidade das evocações espíritas, com todos os devidos cuidados sempre destacados por Kardec; do outro, estão aqueles que pensam que Kardec está superado pelo tempo, que os Espíritos têm que ser deixados em paz e que cabe a este ou aquele a tarefa de profeta da revelação.
A unidade, então, no Espiritismo, não é impossível. Contudo, como fica claro, para ela existir, é necessário respeitar a constituição, o método e os postulados dessa ciência. As divergências de opinião e de interpretações sempre existirão, mas, desde que se cumpra os princípios básicos dessa ciência, elas serão progressivamente superadas ou afastadas.
De tudo, tiramos o seguinte: a unidade não deve ser procurada naquele que insiste em dizer que a maçã é um limão, mas sim naquele que, mesmo supondo que seja um limão, frente à razão, entenda e concorde: sim, é uma maçã. Em outras palavras: o Espiritismo é uma ciência muito bem estabelecida e fundamentada. Procuremos a unidade, baseados nesta ciência, em todos aqueles que queiram estudá-la e pesquisá-la como necessário, sem a pretensão de unir a todos sob uma mesma entidade ou um só líder, mas espalhando, pelos quatro cantos do mundo, a necessidade da formação de grupos de estudos aplicados sobre essa ciência. Com o tempo, quando estivermos prontos, isso dará espaço à retomada dos estudos, instigados pelos próprios Espíritos, dos princípios novos da Doutrina, com a coordenação de um comitê central ou mais.
Não se enganem: não procuramos números, mas qualidade. Os verdadeiros espalhadores dessa Doutrina não serão a maioria, em princípio, mas serão aqueles que auxiliarão no processo de retomada da essência do Espiritismo, divulgando-a a todos que puderem. Embora poucos, eles se encontram por toda a parte, muitas vezes esperando um pequeno empurrão para retomar a caminhada. Quanto àqueles que insistem no espiritismo sem os Espíritos, ou no espiritismo à Roustaing, entendamos que eles praticam uma nova religião, e não a Doutrina Espírita. Como diria Kardec, deixemo-los, pois a razão prevalecerá, e as opiniões divergentes serão abafadas pelo tempo e pela ciência, como sempre aconteceu na história da humanidade.
Em “espíritas, amai-vos”, temos a necessidade do respeito e da compreensão que somente podem nascer da humildade que surge da exploração científica e da razão, que leva o indivíduo ao aperfeiçoamento; em “instruí-vos”, temos reforçada a necessidade de estudar a Doutrina, de modo que possamos parar de ser comandados cegamente pelas opiniões.
As religiões e o novo mundo
Este será um artigo muito suscinto, mas de grandes reflexões.
As religiões, por mais que se afastem da verdade por conta de seus dogmas, que visam manter o povo na ignorância, em razão da sede de poder e de controle, tem a sua utilidade. É claro que todas elas avançam – basta comparar, em geral, a Igreja Católica de 150 anos atrás, ou ainda muito menos, com a de hoje – embora avancem a passos muito lentos e apenas quando se veem forçadas a isso, na maioria das vezes. Com tudo isso, elas sempre foram receptáculos de uma certa verdade, transmitida entre os séculos, até o momento em que o homem pudesse entender e avançar sobre essas ideias.
É fato que, por conta dessa sede de controle e domínio, os dogmas criados para esse fim mantiveram por muito tempo as consciências sob a irreflexão do medo e da obediência cega, mas, uma vez mais, os tempos são chegados. Vejamos as fileiras das igrejas: a cada dia mais, vão se esvaziando. Contudo, esses que daí saem, não encontramos quem dê resposta melhor, encontram a única resposta que existe, que é no materialismo.
Vivemos exatamente o mesmo processo enfrentado entre os séculos XVIII e XIX, de onde, em pouco tempo (relativamente falando) veremos surgir um movimento contrário a tudo isso, buscando no espiritualismo a resposta que nem as religiões nem o materialismo podem dar.
Contudo, hoje, temos vantagem. Os estudos importantíssimos sobre o Espiritualismo Racional, por Paulo Henrique de Figueiredo (principalmente), podem alavancar esse processo; o Espiritismo, desta vez, não precisa nascer do zero, mas precisa apenas ser retomado em sua essência original – aquilo que muitos estudos recentes, inclusive os do Paulo, tem auxiliado muito a realizar. Estamos muito mais pertos de uma revolução de ideias, o que não se dará pela política, que é coercitiva, mas pela vontade individual, que responde à razão e ao livre-arbítrio.
Meu amigo leitor, creio que em algumas décadas poderemos ver um novo mundo. Para isso, contudo, há que se abalar as bases sociais – desta vez, não através da força, mas através das ideias da caridade e do bem e, sobretudo, da autonomia através da vontade e da razão – e, para isso, cabe a cada um de nós estudar exaustivamente todas essas fontes de conhecimento a fim de levar adiante, em cada situação possível, e para fora do meio espírita, esse conhecimento consolador e transformador.
E podemos começar desde já, tecendo, por exemplo, propostas de aproximação da educação, hoje predominantemente heterônoma, vivenciada sob os aspectos do pecado e do castigo, com as propostas pestalozziana e espírita, autônomas em toda a sua essência.
Temos muito a fazer. E esse processo não visa derrogar as religiões, como nunca visou: visa, antes de tudo, trazer o fortalecimento da verdade que há nelas e afastar aquilo que há de erros e inverdades.
Espiritismo e o mundo de regeneração: como chegaremos a ele?
Hoje estive “filosofando” sobre esse assunto, e cheguei nas seguintes ideias que, destaco, são baseadas na minha forma de ver o tema e no conhecimento que tenho do Espiritismo – o que pode não refletir a mais completa realidade. A seguir, estão expostas as minhas considerações:
Reflitamos: a modificação não vem de cima para baixo, como imposição, mas de baixo para cima, do indivíduo para a sociedade, como escolha. Portanto, o planeta não será transformando senão pela mudança dos seus habitantes. E quando falamos em regeneração, o que é um Espírito que se regenera, deixando de passar por provas e expiações? No meu entendimento, é o Espírito que passa a olhar para dentro de si mesmo, deixando de planejar vidas que visem apenas trazer “sofrimentos reparadores”, para planejar vidas que lhes dêem mais oportunidades de aprendizado para abafar suas imperfeições. E de que forma isso se dá? Apenas pela vontade, alimentada pela razão. Portanto, como entendo, é justamente o conhecimento reforçado pelo Espiritismo que vai nos possibilitar conquistar um novo “ambiente” terrestre.
Enquanto os Espíritos continuarem agrilhoados às velhas concepções aprisionantes da consciência, continuarão errando e, por uma errada concepção de pecado e castigo, continuarão buscando expiar os erros, através do sofrimento material, apenas, aplicando muitas vezes a si mesmo a “lei de Talião” – olho por olho, dente por dente. Contudo, à medida que entendam que o que realmente precisam é se fortalecerem pelo aprendizado e pela razão, em contato com conhecimentos valorosos, para assim lidarem com suas imperfeições, passarão a planejar, ao meu ver, com mais sabedoria suas vidas.
Afinal, o que é que causa mais sofrimento: uma dor física, que termina com a morte, ou uma dor moral, que se estende enquanto o fator que a originou não for resolvido? Não é como agimos aqui? Quando cometemos um erro, muitas vezes queremos ser castigados a fim de aliviar nossa consciência, de forma a querer deixar de lado o verdadeiro problema, que é nossa imperfeição e o sofrimento moral que dela se origina, pelos erros. O indivíduo mais maduro, porém, sabe que o castigo não resolve, e busca encarar de frente seus próprios problemas, que o fizeram errar.
Por exemplo: naquele caso do Assassino Lemaire (RE – Março de 1858) ele sabia que tinha que lidar com suas imperfeições. De que forma pensou em fazer isso? Planejou nascer em meio ao crime, mas malogrou em sua tentativa, pois o ambiente foi mais forte que ele, que ainda não tinha a vontade e a razão muito fortalecidas. Ao falhar em sua tentativa, foi mais um a espalahar a criminalidade, aliando outros Espíritos às suas intenções. E se – e se! – ele, mais consciente, tivesse planejado uma vida diferente? E se, em vez de se colocar sob o ambiente do crime, para lutar com suas paixões, ele tivesse escolhido uma família firme e bondosa, que lhe desse uma educação melhor e lhe colocasse em contato com conteúdos que pudessem lhe ajudar a reforçar a vontade de vencer suas imperfeições, através da razão? Talvez ele tivesse conseguido vencer muitas de suas imperfeições, além de não ser mais um a avolumar a criminalidade.
Não seria isso, como um entendimento geral, gerando decisões melhores, ótimo para o planeta? Não causaria uma enorme mudança à sociedade? Penso que sim. Mas isso requer, em primeiro plano, que o Espírito SE enfrente: que ele se coloque sob a ótica crítica e que enfrente seus próprios “demônios”. Ora, numa sociedade que insiste em acreditar, porque é mais fácil, na imposição de castigos divinos, vemos o quão longe ainda estamos dessa nova era neste planeta… O que não nos impede de, em nós, fazermos um esforço hercúleo para domar nossas paixões, desenvolver nossas virtudes e buscarmos nos elevarmos, no bem, a fim de que possamos conquistar a possibilidade de encarnar em mundos mais felizes.
Quem sabe….
Finalizo com Kardec, em A Gênese (4a edição, original – o trecho foi suprimido na 5a edição, que muitos dizem não ter sido adulterada):
Dizer que a humanidade está madura para a regeneração não significa que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar. Então, eles se mostrarão mais avançados do que se possa supor e seguirão com empenho a iniciativa da maioria. Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não as aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que seu bem pessoal – ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhe fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. Caso o julgassem sem valor e sem importância, não se preocupariam com ele. Nós já o dissemos em outro lugar: “Quanto mais uma ideia é grandiosa, mais encontra adversários, e pode-se medir sua importância pela violência dos ataques dos quais seja objeto”.
Kardec, A Gênese, 4a Edição – FEAL
O Espiritismo tem preconceito contra a umbanda?
Talvez muitos espíritas tenham, da mesma forma que muitos umbandistas tem, em relação ao Espiritismo, e da mesma forma que praticamente todo ser humano pode ter preconceitos. Ficar apontando e definindo “lados” é, definitivamente, algo que não ajuda muito no progresso humano. De qualquer forma, aproveito o ensejo para lembrar o seguinte:
Em primeiro lugar, é necessário separar o que Espiritismo do que é o “Movimento Espírita”. O primeiro é uma doutrina sólida e científica, racional, baseada no ensinamento concorde dos Espíritos, dados por toda a parte e por todos os tempos. O segundo, é o conjunto das pessoas que se consideram atraídas pelas ideias dessa Doutrina e que, contudo, nem sempre agem de acordo com seus postulados – infelizmente é o que mais acontece hoje em dia.
O Espiritismo, como Doutrina Científica, não força nada a ninguém: apresenta suas conclusões e deixa a cada um a liberdade de aceitá-las ou não. Contudo, muitas pessoas, ditas espiritualistas, mesmo tendo conhecimento da existência dessa Doutrina, escolhem não se informar a respeito dela, julgando o livro pela capa, isto é, agindo preconceituosamente a seu respeito, afirmando que se trata de mais uma religião, ou que se trata de mais uma opinião, ou que, ainda, O Livro dos Espíritos – obra básica dessa Doutrina – não passa de mais um livro, escrito por Kardec, conforme suas próprias ideias.
Quantas são as pessoas que se metem em dificuldades, no que tange ao contato com os Espíritos, e que, quando convidadas a estudar a Doutrina Espírita (que se chama assim porque pertence aos Espíritos, e não a um só homem ou grupo) preferem continuar em suas velhas concepções, resistindo a buscar novos conhecimentos?
Diz-se que a umbanda nasceu de uma cisão dentro de um centro Espírita, quando os participantes daquele grupo não aceitaram a comunicação de um “preto velho” naquele meio. Ora, se é verdade, também não são menos culpáveis do que os outros indivíduos, que insistem em considerar a base da Ciência Espírita como “letra morta e superada”.
Disso tudo, fica um aprendizado: para entender o Espiritismo, sendo ele uma ciência, nascido, aliás, como um desenvolvimento do Espiritualismo Racional, que também era uma doutrina científica que abarcava o estudo da psicologia, da metafísica e da moral, não prescinde do estudo de suas obras básicas, assim como, para entender a Física não prescinde do estudo de Isaac Newton e de Einstein. Assim como a Física apresenta seus postulados, mas muitas pessoas insistam em ignorá-la para dizer que a força gravitacional não existe, o mesmo é feito a respeito do Espiritismo, que não é uma “religião superior”, onde existem as “únicas verdades”, mas que é, sim, a única Doutrina Científica, até hoje, dedicada a estudar racionalmente as nossas relações com os Espíritos.
Aliás, quem estuda o Espiritismo sabe que ele, frente às outras religiões, vem demonstrar a verdade sobre tudo aquilo que sempre existiu mas, que nem sempre foi bem compreendido, da mesma forma que mostra os erros, frutos da inobservância da razão ou mesmo do desconhecimento de certas informações que, a seu tempo, começaram a ser ensinadas. São os demais indivíduos que, por orgulho ou interesses pessoais, muitas vezes não suportam ver um dogma desmentido, e escolhem atacar de volta à Doutrina Espirita. Reflitamos. Ao invés de escolher lados, entendamos: o Espiritismo, como ciência, pode ser estudado por todos os espiritualistas modernos, assim como o Magnetismo, ciência irmã da primeira. Mas, sem estudar e entender, tudo vai continuar na mesma: espíritas criando falsos conceitos a respeito das comunicações espíritas (espirituais) nas religiões diversas e as religiões diversas deixando de sorver conhecimentos tão libertadores, consoladores e progressistas como os do Espiritismo.
O Espiritismo frente à guerra
Estamos, nesta data, vivendo um novo momento de apreensão no mundo, com uma nova guerra se iniciando entre a Rússia e a Ucrânia. Será muito oportuno, portanto, relembrar alguns importantes conceitos do Espiritismo frente a tais situações, como as guerras.
A situação de quem morre nas guerras
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que qualquer maldade humana nasce da imperfeição inerente a Espíritos que, como praticamente todos nós, ainda estamos na terceira ordem da escala espírita. O Espírito que pratica o mal, individualmente ou em conjunto, o faz porque ainda é ignorante sobre a moral e age segundo seu livre-arbítrio já conquistado. Assim, destaco, jamaisuma ação de perversidade ou maldade, praticada por alguém, nasce de uma cobrança divina de uma “dívida” passada.
Creio muito importante destacar esse pensamento, logo de início, pois muitos ainda pensam, muito erradamente, que a vítima de um crime está “resgatando débitos passados”, o que não é uma verdade. Ora, que Deus é esse que cobra dívidas através de crimes e que, com isso, faz um outro Espírito – o do criminoso – adquirir um novo débito?
Portanto, não, as pessoas que morrem vítima de um crime, seja ele isolado, como um homicídio, seja ele em grupo, desde os casos menores, mas não menos expressivos, como o caso do incêndio da boate Kiss, que rendeu um processo criminal, até os maiores, como os casos do nazismo, que matou mais de seis milhões de judeus, ou do genocídio cometido pelo revolucionário chinês Mao Tsé-Tung, cuja política matou de 50 a 80 milhões de pessoas, não morrem por estarem sendo cobradas por absolutamente nada do passado: morrem por efeito das decisões alheias, criminosas – lembrando que, é claro, o Espírito que preveja a vida sob tal condição pode escolher aí reencarnar a fim de expiar erros passados e tentar aprender e se livrar das imperfeições que o levaram a errar.
Já tratei desse assunto em outro artigo, destacando que as mortes coletivas não se dão por conta de “resgates coletivos”, mas por conta de estarmos sujeitos a tais vicissitudes, inerentes à matéria bruta que hoje ocupamos.
A “data limite”
Muitos têm, com certo medo, se referido a uma suposta “profecia” atribuída a Chico Xavier a respeito da chamada data limite, onde, a partir de determinada data, em 1969, os Espíritos elevados que cuidam do progresso terrestre dariam um “ultimato” ao ser humano terrestre: se não houvesse nenhuma guerra, dentro dos 50 anos seguintes, entraríamos em uma nova fase de evolução planetária.
Acontece, aí, que temos alguns problemas frente à Doutrina:
Espíritos superiores não costumam dar previsões futuras desse gênero.
Como poderiam os Espíritos superiores darem tal ultimato sabendo que o ser humano ainda é muito imperfeito e conhecendo o ia e vai no coração humano?
Nós sabemos que a evolução do Espírito não respeita datas. Para o Espírito imortal, o tempo não existe, e o que não for feito hoje, nem aqui, será feito em décadas, centênios ou milênios. A urgência que existe mora em cada um, pois, cada dia perdido de desprendimento das imperfeições será um dia a mais de sofrimento nessa condição espiritual.
Outro problema é que grande parte desse assunto vem sendo discutido de segunda mão, através de outras pessoas, não tendo saído diretamente da boca de Chico Xavier. Portanto, é preciso olhar tal assunto com muito cuidado.
A guerra e o Espiritismo: O Livro dos Espíritos
Na obra citada, Kardec também aborda a temática das guerras. Vamos analisar as perguntas e as respostas:
742. Que é o que impele o homem à guerra?
“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem: o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas. E, quando se torna necessária, sabe fazê-la com humanidade.”
O ser humano, ainda muito imperfeito, quer imperar pela força a fim de fazer valer suas vontades egoísticas. Conforme formos progredindo, deixaremos para trás tais imperfeições e guerrearemos menos, em qualquer escala. O grande problema é que, hoje, o homem está esquecido da moral e da alma.
743. Da face da Terra, algum dia, a guerra desaparecerá?
“Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.”
Infelizmente, numa sociedade absurdamente materialista, estamos bastante esquecidos de praticar a Lei de Deus.
744. Que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra?
“A liberdade e o progresso.”
Quando se fala que a Providência (Deus) tornou necessária a guerra, é importante entender que Deus jamais faria da guerra uma necessidade em si, mas, sim, que permite o livre-arbítrio ao Espírito imperfeito que, sem sombra de dúvidas, entrará em contendas e guerras de todo o gênero. Faz parte da evolução. É quase sempre preciso conhecer o mau, em seu estágio mais avançado, para que a sociedade busque o bem. Outrora, o ser humano, em generalidade, guerreava e matava por qualquer motivo mesquinho. Hoje estamos consideravelmente longe desse passado.
Também há algo importante a destacar: as guerras de escala maior são, sempre, comandadas por um ou mais indivíduos ou grupos tiranos. No fim da linha está o soldado que, muitas vezes, nada tem a ver com isso e que sequer gostaria de estar ali, mas que se vê obrigado a seguir as ordens de seus comandantes. A Justiça Divina, é claro, “leva em conta” essas diferenças, isto é, o soldado que age sob comando, sem a vontade de fazer o mal, terá, frente à sua própria consciência, muito menos sentimento de culpa do que o comandante que os envia para o assassínio.
744. a) — Se a guerra deve ter por efeito o advento da liberdade, como pode frequentemente ter por objetivo e resultado a subjugação?
“Subjugação temporária, para pressionar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.”
É o complemento do que foi dito acima. A guerra pressiona ao avanço, tanto científico quanto moral.
745. Que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu?
“Grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.”
Pela resposta a essa questão, parece então que o Espírito que provoca a guerra para tirar proveito terá, sim, que pagar por cada um daqueles que tenham sofrido por esse motivo. Mas não é exatamente isso. É preciso ler com atenção e cuidado, e as obras de Kardec, sendo baseadas em ciência, são continuamente construídas sobre postulados anteriores.
Notemos, aqui, que a resposta espiritual fala em expiação. A expiação, sendo uma espécie de penitência, não é um castigo imposto diretamente por Deus, como uma cobrança, mas sim como um efeito da consciência que o Espírito toma sobre o mal praticado. Desde o momento em que o Espírito entende que o que sofre por estar afastado do bem, passa a sofrer moralmente por conta disso e, então, passa a planejar encarnações onde expiará suas imperfeições, para superá-las. Também não significa que o Espírito expiará individualmente por cada um dos sofrimentos ou das mortes que tenha causado, mas, sim, que passará por um longo trabalho reencarnatório, tentando se livrar do peso moral adquirido com seus erros. Hitler, com certeza, não reencarnará mais de seis milhões de vezes para morrer da mesma forma e “pagar” pela morte de cada um dos judeus (e de outras vítimas da guerra), mas, com certeza, no momento em que entender a extensão do mal que fez e o tamanho do sofrimento que ele mesmo vivencia, passará por uma longa série de encarnações sofridas, por escolha própria, a fim de buscar vencer as imperfeições exacerbadas que lhe fizeram agir de tal forma.
Conclusão
A guerra e as contendas, em menor ou maior grau, ainda são inerentes à nossa condição de Espíritos muito imperfeitos, e só deixarão de existir no dia em que praticarmos as leis de Deus, isto é, no dia em que a caridade moral, a benevolência, enfim, o bem em si estiver instalado no coração de cada um, como obrigação, bem como que cada um faça seu esforço próprio para se livrar do egoísmo e do orgulho, imperfeições que dão origem a todas as outras. E, para isso, é necessário que o homem eleve-se acima da matéria e compreenda que, como Espíritos encarnados, a única coisa que realmente importa e que levamos daqui é o progresso que tenhamos ou não realizado. E, nisso, o Espiritismo, como ciência, e a educação nas bases da pedagogia de Pestalozzi (principalmente), tem muito ainda a contribuir.
Façamos preces, sim, pelos nossos irmãos. Sabemos que o pensamento tem poder de transmissão a infinitas distâncias. Podem, quem sabe, atingir os corações mais endurecidos, como também podem fazer muito bem àqueles que são vítimas dos desmandos despóticos de todos aqueles que querem imperar pela força e pela violência. E aproveitemos para estudar, não para darmos aulas de Espiritismo, mas para nos fazermos mais úteis à sociedade através de nossa própria transformação e da propagação das ideias baseadas na preexistência da alma e de sua continuidade infinita.
Já pensou em conversar com os Espíritos?
Esta é uma reflexão honesta e aberta. Acontece que, hoje, só se pensa em doutrinar. Esquecemos, porém, que os Espíritos tem muito a nos ensinar – mesmo os mais infelizes, pois podemos analisar seu estado atual, os motivos das complicações de suas vidas e, disso, obter muitos conhecimentos importantes. Estudando Kardec, vemos que não somente ele, mas também muitos grupos distribuídos pela Europa e pela América do Norte realizavam pesquisas sérias a respeito através das comunicações mediúnicas – e não apenas esperando que “o telefone toque de lá pra cá”, mas realizando evocações com fins sérios e úteis.
Além disso, naquela época, era costume anotar-se a tudo, gerando grandes volumes de documentos a respeito dessas comunicações, que, então, podiam ser estudados de forma independente por pesquisadores externos, através da racionalidade, buscando encontrar a concordância entre elas. É praticamente o que Kardec fazia, e é o que permitiu a estruturação do Espiritismo como Doutrina Cientíifica. Hoje isso raramente é feito, senão na produção das “cartas” de parentes desencarnados (cujas comunicações poderiam ser muito melhor aproveitadas). Meu ponto é: precisaremos retomar essa metodologia, afinal, a ciência humana avançou muito, mas o Espiritismo ficou praticamente parado no tempo, sendo que muitos conceitos que hoje são aceitos não passaram por essa metodologia necessária. Se, hoje, os vários grupos de estudos ou de práticas mediúnicas espalhados por aí retomassem essa tarefa, tomando o cuidado de não se contaminarem entre si a partir da partilha de ideias não sancionadas por esse método, poderíamos voltar a ter um grande volume de produção de conteúdos que, aos poucos, poderiam ser analisados. Isso, contudo, requer pelo menos o estudo básico de O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns.
Imagine, por exemplo, as controvérsias e falta de informações a respeito das “cidades espirituais”: não podemos, claro, perguntar ao Espírito, na sessão mediúnica: “Ei, você vive numa cidade espiritual? Onde fica?”. Isso provocaria, quase sempre, uma ideia contaminada como resposta. Antes, perguntaríamos: “poderia nos dizer como foi a sua chegada no plano espiritual? O que encontrou aí? Qual é a sua ocupação, hoje? Você se cansa? [Se sim] O que você faz para descansar?”
Entende? Tem outro ponto muito positivo: além de aprendermos com tais relatos, com efeitos sobre nós mesmos, nossos pensamentos e nossas atitudes, essas comunicações também são muito úteis aos Espíritos, principalmente aqueles em estado de perturbação, que, ao ser contrangido à ligação mediúnica, se centra um tanto mais, novamente e pode, nesse momento, refletir muito sobre sua condição, mudando de vida.
Enfim, é isso. Tem que recomeçar, de alguma forma. Só não podemos esquecer de estudar Kardec para isso, a fim de evitar as dificuldades já conhecidas e tratadas com muita clareza por ele.
Em defesa da pesquisa espírita: uma crítica aos cismentos
É tempo de recuperar Kardec.
Dias atrás me envolvi numa discussão acalorada – por detrás dos teclados – que acabou por me deixar irritado e indignado. O motivo? A questão das adulterações (ou não) nas duas obras finais de Kardec – O Céu e o Inferno e A Gênese.
Aqui, não vem ao caso a discussão em si a respeito dessas adulterações serem um fato ou não. Minha crítica vai em direção ao posicionamento mal-educado e sarcástico com o qual alguns dos “partidários” da não-adulteração se portam, atacando diretamente às pessoas e ao trabalho dos pesquisadores que levantaram essas importantíssimas informações e que deram força à necessidade de investigar o passado, com o mero intuito de tirar todo e qualquer crédito ou mesmo a vontade de estudá-las com a seriedade que, defendo, merecem.
Acontece que, se, para alguns (mas não para mim) as adulterações das obras citadas ainda são motivo de dúvida, por outro lado não se pode ter dúvida alguma das adulterações que o Movimento sofreu após Kardec, com a total perca de rumo dos propósitos iniciais da Sociedade Espírita e de seus meios de comunicação – isso fica muito claro em O Legado de Allan Kardec. É fato inegável que Leymarie permitiu, por interesses materiais, que os pensamentos de Roustaing tomassem frente na Doutrina, promovendo ideais antidoutrinários e desrespeitando o imenso e dedicado trabalho de Kardec e de sua esposa, Amélie Boudet, “a doce Gabi”. A Sociedade Espírita de Paris, comandada por Leymarie, se distanciou totalmente dos propósitos de Kardec, deixando-se, esse infeliz senhor, sucumbir pela tentação da vaidade e do dinheiro. Chegou ao ponto de expulsar, de um dos apartamentos destinados por Allan Kardec a fins de caridade, um casal de idosos, por simples atraso nos pagamentos do aluguel, quando o mesmo e a Sociedade contavam com grandes somas de posses e dinheiro [Privato, 2019]. Além disso, colocou de lado os planos para a continuidade do movimento espírita que, de acordo com projeto de Kardec, deveria contar com a multiplicação dos grupos de estudos e das “investigações” espíritas, regidas sob a metodologia necessária [ibidem] – ora, como poderiam aplicar tal medotologia aqueles que se veriam desmentidos por ela, não é mesmo?
Também é fato que o Espiritismo, desde a sua chegada em solo brasileiro, foi afetado por essa linha de pensamentos, encontrando guarida até mesmo em Bezerra de Menezes, um dos primeiros presidentes da FEB, instituição essa que, até 2019, tinha, como cláusula pétrea, a orientação do estudo dos Quatro Evangelhos, de Roustaing.
Fato é, também, que o Espiritismo de hoje está completamente descaracterizado e deturpado. Os centros espíritas, que outrora eram reuniões de espíritas confessos, dedicados ao estudo das comunicações mediúnicas e de seus efeitos morais e científicos, hoje reproduzem igrejas católicas, onde o fiel assiste ao sermão (palestra), recebe a benção (passe), faz uma oração e vai embora. Médiuns, em busca de auxílio, são colocados em longos cursos, que às vezes chegam a 7 anos de duração, quase sempre com cartilhas complicadas da FEB, para, ao final disso, se ainda estiverem minimamente interessados, serem “iniciados” no grupo mediúnico da casa. Médiuns honestos passaram a ser perseguidos por “animismo”, enquanto outros são tomados como oráculos: tudo o que dizem, por via mediúnica ou de sua própria opinião, é tomado como suma expressão da verdade e da sabedoria absolutas. E, então, passamos a ouvir, a torto e a direita, as mais ultrajantes ideias, que, continuamente, tem promovido escândalos e o afastamento das pessoas que, nas mais diversas condições, se sentem motivadas a entrar em um centro espírita em busca de ouvir algo diferente daquilo que falam por aí.
O momento é sério. Chegamos, novamente, em um novo ponto crítico da sociedade, com o materialismo vicejando alegre no coração dos homens. Mas, uma vez mais, o movimento contrário começa a tomar vulto, pois, sabemos, é preciso que o homem conheça o ápice do mal para voltar a buscar o bom e o belo. E é disso que tratam essas obras. Há quem critique Figueiredo por defender a autonomia sobre a heteronomia, isto é, por defender a essência do ensinamento da Doutrina Espírita: tudo depende de nossa vontade e de nossas escolhas, e não da aceitação cega de castigos e de recompensas. Justamente ele, o primeiro pesquisador NO MUNDO a procurar as obras originais de vários filósofos e cientistas, a fim de dar contexto científico e histórico ao nascimento do Espiritismo, juntamente com o Magnetismo, ciência-irmã do Espiritismo. Ora, por não concordar com sua posição – também baseada em provas e evidências – de que houve a adulteração em O Céu e o Inferno, devemos então descartar todo o resto?
Quando eu disse que “é tempo de recuperar Kardec”, não me refiro apenas ao estudo tão importante de suas obras, que são a base da Doutrina Espírita, mas me refiro objetivamente ao “recuperar Kardec” em seu exemplo, em sua pessoa, sempre, segundo todos os registros, tão boníssima e afável, mas também tão sensata e séria frente aos estudos das ciências. Kardec recomendava sempre que, para criticar determinado assunto, era preciso dele se inteirar completamente, fato pelo qual, por diversas vezes, deixou de abordar em profundidade aquilo que não pudera ter dado a devida atenção. Quando Kardec criticou Os Quatro Evangelhos de Roustaing, ele somente o fez após ler todos os quatro volumes. E ele, com o tempo que não tinha, o fez porque percebeu se tratar de uma obra cheia de ideias importantes, ainda que inexatas ou mesmo contrárias ao ensino concordante dos Espíritos. Kardec sempre fazia isso. E o que se vê, hoje, é que muitos não desejam reproduzir os passos do exímio pesquisador. Prendem-se às questões superficiais e, com preconceito, deixam de se aprofundar no conteúdo, passando então a criticar ou a colocar tais obras no esquecimento.
Quero, antes de finalizar, dizer que li O Legado de Allan Kardec do início ao fim, com muita atenção e cuidado. Os fatos ali apresentados, a respeito da adulteração de A Gênese, a partir da 5a edição, repito, são por demais objetivos, completos e complexos para que tal opinião seja apenas o fruto de um erro de má interpretação. No mínimo – e esta é a minha posição – abre uma margem muito grande para desconfiar de que, ali, há uma mescla de conteúdos que Kardec realmente iria alterar ou inserir, combinados com conteúdos inseridos por outra parte, com claro propósito de alterar o que já estava estabelecido doutrinariamente.
Não quero, enfim, forçar ninguém a acreditar em nada. É por isso que nossos meios de comunicação, diferentemente de muitos que existem por aí, estarão sempre abertos aos comentários e à troca de ideias. Mas quero deixar a você, caro leitor, o convite à leitura das seguintes obras, a fim de que você tome sua posição pelo seu próprio raciocínio:
O Legado de Allan Kardec, por Simoni Privato
Nem céu nem inferno: As leis da alma segundo o Espiritismo – por Lucas Sampaio e Paulo Henrique de Figueiredo
Muita Luz, de Berthe Fropo (link para o pdf aqui).
Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo – por Paulo Henrique de Figueiredo