Espiritismo, método científico e o equívoco da exclusão epistemológica

A afirmação de que o Espiritismo não pode ser considerado ciência porque envolveria metafísica parte de um erro conceitual duplo: desconhece o critério histórico de cientificidade e ignora o papel estruturante da metafísica no próprio desenvolvimento das ciências modernas. Quando esse erro é corrigido, a objeção simplesmente não se sustenta.

No século XIX, ciência não era definida pelo objeto estudado, mas pelo método empregado. É nesse ponto que o Espiritismo original, tal como sistematizado por Allan Kardec, se ancora de modo rigoroso na tradição científica reconhecida de sua época — tradição esta que permanece válida em amplas áreas do conhecimento atual.

Com colaboração de Ariane Netto.

O método da concordância e a ciência empírica

O método central utilizado por Kardec foi o método da concordância, formalizado por John Stuart Mill em A System of Logic (1843). O princípio é claro: quando um fenômeno ocorre em múltiplos casos independentes e apenas um elemento comum se repete em todos eles, esse elemento é identificado como causa ou parte essencial da causa.

Esse método não é periférico. Ele fundamenta:

  • a epidemiologia observacional,
  • a clínica médica pré-experimental,
  • a sociologia comparativa,
  • a biologia evolutiva,
  • a linguística histórica.

Negar validade científica ao Espiritismo por empregar esse método implica negar, por coerência lógica, o estatuto científico dessas áreas. Não se trata de analogia; trata-se de identidade metodológica.

Kardec aplicou o método de forma estrita: comunicações obtidas por médiuns diferentes, em países distintos, sem contato entre si; rejeição sistemática de mensagens contraditórias; eliminação da autoridade do médium como critério; primazia da convergência factual. Isso caracteriza uma ciência de observação, exatamente como definida no século XIX e ainda praticada hoje fora do laboratório fechado.

Reprodutibilidade: padrão, não repetição mecânica

Um erro recorrente é exigir do Espiritismo a mesma forma de reprodutibilidade da física experimental. Isso é epistemologicamente inválido. Diversas ciências reconhecidas não reproduzem eventos idênticos; reproduzem padrões sob condições variadas. A regularidade observada, não a repetição mecânica, é o critério racional.

O Espiritismo kardeciano atende a esse critério. A negação disso exigiria descartar também história, geologia, paleontologia e cosmologia — áreas que inferem causas e entidades a partir de efeitos observáveis, não diretamente instrumentais.

Metafísica como fundamento da ciência, não seu oposto

A tentativa de desqualificar o Espiritismo chamando-o de “metafísica” falha por ignorar um dado elementar da história das ideias: a ciência moderna nasceu metafísica.

Sem os pressupostos ontológicos e conceituais elaborados por Gottfried Wilhelm Leibniz, em especial na Monadologia, a ciência não teria se organizado como se organizou. Conceitos como substância, identidade, causalidade, lei, continuidade e unidade não são empíricos; são metafísicos. Ainda assim, são indispensáveis para qualquer prática científica.

Leibniz introduziu:

  • unidades fundamentais não extensas,
  • causalidade interna,
  • correlação sistemática entre fenômenos sem contato direto.

Nada disso era observável empiricamente à época, mas tudo isso orientou o desenvolvimento da matemática, da física e da lógica modernas. O mesmo vale para Descartes, Newton e toda a ciência clássica. Eliminar a metafísica retrospectivamente é reescrever a história para atender a um preconceito contemporâneo.

Kardec e a inversão correta da metafísica dogmática

Importa notar: Kardec não construiu um sistema metafísico fechado e depois buscou fatos para confirmá-lo. Ele fez o inverso. Partiu de fenômenos observados e extraiu apenas as consequências ontológicas mínimas exigidas pelos dados. Isso não é metafísica especulativa; é metafísica derivada de observação — exatamente como ocorre em outras ciências.

A objeção moderna ao Espiritismo não é metodológica. É ontológica e cultural. O desconforto não está no método, mas no objeto. Confundir essas duas coisas não é ciência; é ideologia epistemológica.

Conclusão

Negar o caráter científico do Espiritismo kardeciano exige, por coerência, negar:

  • a indução em ciências não experimentais,
  • o método comparativo,
  • a reprodutibilidade por convergência,
  • a inferência a partir de dados mediatos,
  • e o papel histórico da metafísica na ciência.

Essa posição não é sustentável. Ou se aceita que o Espiritismo original é uma ciência de observação, com limites claros e método definido, ou se redefine “ciência” de forma tão estreita que grande parte do conhecimento hoje reconhecido cai junto.

O problema, portanto, não está no Espiritismo. Está no critério adotado para julgá-lo.




É Cansativo

É cansativo. Por toda parte, incontáveis pessoas se colocam a falar de “espiritismo”, sem o escrúpulo de, antes, terem se dedicado a conhecê-lo, demonstrando mais disposição para opinar do que para estudar. Mas isso não é o pior, já que “a força das coisas” criou esse estado de quase completo desconhecimento. Não: a parte pior é que, quando confrontadas pelo Espiritismo, se sentem atacadas pessoalmente, contrariadas em suas almas e, ao invés de buscarem o entendimento, optam pelo afastamento e pela continuação do erro. Kardec também sofreu isso, mas, hoje, a tecnologia nos coloca em contato muito mais rápido e fácil com a gigantesca massa de pessoas que opinam sem método e sem base, confundindo convicção com conhecimento.

Essa é a minha primeira ação, ligada ao Espiritismo, em aproximadamente um mês. Como eu disse, cansa. Mas o que cansa não é o Espiritismo, e sim os ininterruptos ataques de pessoas que não sabem separar a crítica à opinião da crítica pessoal e, enquanto criticamos as opiniões erradas — como Kardec fazia — somos pessoalmente atacados, sem cessar. O roustainguismo, especialmente instalado na FEB desde 1890, conseguiu o que desejava e substituiu a ciência espírita num sistema de crenças, formado meramente por opiniões, sem o método necessário, demonstrado exaustivamente por Kardec em TODAS as suas obras.

Há pouco tempo, no final de 2025, publicamos um artigo sobre uma evocação que fizemos do Espírito de Kardec. Buscávamos demonstrar a possibilidade, sem nenhuma intenção de fazer disso um artigo de autoridade, obtendo uma instrução geral, do mesmo modo que o próprio Kardec muitas vezes obtinha. Sabíamos que viriam críticas, e estávamos prontos, inclusive, para aceitar as críticas de bom grado, como importantes para nosso próprio estudo. Porém, uma das críticas mais negativamente relevantes veio justamente de Rodrigo Xavier, um influenciador nas redes sociais, que se apresenta como conhecedor do Espiritismo e atua como divulgador nas redes sociais, mas cuja crítica, como veremos, se afasta dos fundamentos metodológicos estabelecidos por Kardec, como demonstraremos.

A crítica de Rodrigo Xavier

De maneira surpreendente (ou não), sua crítica foi toda embasada em Aksakof, e não em Kardec. Pior ainda: apoiou-se numa leitura limitada do que Aksakof propõe, tratando indícios como se fossem exigências absolutas.

Segundo ele, o texto não teria excedido em nada o repertório intelectual comum de um espírita moderno: divisões no movimento, “retorno a Kardec”, regeneração, Jesus — temas conhecidos, repetidos, e portanto explicáveis como simples “memória latente”. Como não haveria novidade objetiva, nem revelação desconhecida, nem qualquer elemento que o médium “não pudesse saber”, o veredito já estaria pronto: animismo, isto é, a consciência sonambúlica do médium vestida de mensagem.

E não parou aí. Para Rodrigo, faltaria também qualquer prova de identidade. O tom — diz ele — seria emocional, levemente místico, com expressões como “Deus Pai todo-poderoso” e “bênçãos”, o que, na visão dele, destoaria do “Kardec histórico”, racional e professoral. A linguagem, por sua vez, seria simplesmente português atual, e nisso ele vê mais um indício de personificação: o inconsciente do médium fabricando um “personagem” com base no que imagina ser Kardec, em vez de um Espírito real mostrando independência através do francês do século XIX ou de traços inequívocos de estilo.

Por fim, Rodrigo ainda recorre ao que chama de “espelho”: a comunicação teria confirmado o grupo, validado seus esforços e criticado opositores — exatamente o que, segundo ele, um círculo desejaria ouvir ao evocar o Codificador. Para Aksakof e Hartmann, ele insiste, médiuns em transe seriam altamente sugestionáveis e tenderiam a refletir pensamentos e expectativas dos presentes; por isso, mensagens que concordam demais com o grupo seriam suspeitas. O arremate dele é previsível: animismo ou personismo; nenhum fato desconhecido, nenhuma superioridade intelectual, nenhum sinal externo de identidade. E, como “exigência científica”, chega a sugerir que se façam perguntas em francês, sem combinar com o médium, como se o idioma — e não o método — fosse a fronteira definitiva entre ilusão e realidade.

A refutação à crítica de Rodrigo

A refutação é simples: Rodrigo toma critérios auxiliares como se fossem leis absolutas, e nisso já começa errado. Kardec ensina o contrário. O Espírito não “fala” uma língua humana; comunica pensamento, e para transformar pensamento em palavras precisa, por via mediúnica, do vocabulário do médium. A xenoglossia pode ocorrer, sim, mas é acidental, rara, e depende de condições específicas; para comunicações extensas e usuais, os Espíritos preferem a língua familiar ao médium, por apresentar menos obstáculos materiais. Portanto, exigir francês do século XIX como condição necessária não é ‘ciência’: é um rigor apenas aparente, que confunde indícios raros com condições necessárias.. É, além disso, um critério que, se levado às últimas consequências, invalidaria uma massa enorme de comunicações perfeitamente compreensíveis e úteis — inclusive aquelas registradas nas evocações da Revista Espírita, com Espíritos que, em vida, falavam idiomas diversos, sem que isso impedisse o intercâmbio.

Do mesmo modo, Rodrigo transforma “prova de identidade” em eixo central, quando Kardec é explícito: a identidade de personagens antigas é frequentemente impossível de demonstrar materialmente e, quando muito, se aprecia moralmente pela qualidade da linguagem. E mais: em comunicações filosóficas e morais, a identidade é questão acessória. Se o conteúdo é digno, coerente e conforme o caráter atribuído ao nome, há probabilidade moral; mas mesmo quando essa certeza não existe, a comunicação não se anula por isso. O ônus de quem acusa animismo não é apontar ausência de espetáculo probatório; é demonstrar incongruência doutrinária, erro de fundo, contradição séria — não apenas dizer “não houve fato desconhecido” e chamar isso de conclusão científica.

Quanto ao “espelho”, Rodrigo erra até o alvo: a comunicação não fala do nosso grupo como um clube fechado, mas do conjunto de Espíritos e encarnados que se dedicam à disseminação da verdade, e isso foi dito de modo explícito. E, no conteúdo, não há combustível para a tese de vaidade ou autoconfirmação: não se afirma infalibilidade, não se estabelece autoridade exclusiva, não se introduz inovação doutrinária; ao contrário, reconhecem-se limites, provas e dificuldades. Espelhamento, quando é hipótese séria, aparece como confirmação sistemática de interesses pessoais e engrandecimento humano — aqui, não. Resultado: a crítica de Rodrigo revela mais pressa do que método, e mais desconhecimento da ciência espírita do que zelo científico.

É cansativo

Como eu disse, é cansativo e, mesmo, desanimador. Como Rodrigo Xavier, muitos outros, dizendo-se autênticos espíritas, abordam o Espiritismo de maneira equivocada, baseando-se em sistemas de crenças oriundos de opiniões — de encarnados ou desencarnados — e não na ciência espírita. Assim se portam, também, muitos nomes conhecidos ou em ascensão: opiniões passam a ser repetidas como se fossem princípios, e o debate se desloca do método para a adesão.

Dentre esses, cito exemplos públicos e verificáveis: Luís Fernando Amaral, ao sustentar em vídeos a tese de que o Brasil seria governado pelo “anjo” Ismael; Nibi Pensa, ao defender a ideia de que a justiça divina operaria por lógica de débito e crédito, contrariando o princípio kardeciano e o próprio ensino moral do Cristo; Maira Rocha, cujas psicografias são frequentemente questionadas quanto ao conteúdo e finalidade; Haroldo Dutra Dias, ao endossar a mesma construção do “anjo” Ismael e a leitura de “Nosso Lar” como destino assegurado. São pontos concretos, e é sobre eles que a crítica deve recair: não sobre pessoas, mas sobre afirmações.

Quiséramos que, antes de ir ao microfone, houvesse maior dedicação ao estudo da ciência espírita, tão bem fundamentada e séria. Em vez disso, tem-se preferido a substituição do Espiritismo de 1857 por uma crença sistemática, montada sem método, sem controle e sem o devido critério, amparada em comunicações tomadas como incontestáveis, como se fossem imunes à possibilidade de mistificação.

É, realmente, muito cansativo… Mas não podemos deixar nos abater. Começo o ano de 2026 com este primeiro desabafo, para tentar retomar as atividades que me competem, por livre e espontânea vontade.




Por que evocamos Allan Kardec

Se você ainda não está sabendo, recentemente, após o amadurecimento de nosso grupo mediúnico, realizando sempre o exame crítico das comunicações mediúnicas, achamos que momento era justo e, com a motivação mais séria possível, buscamos obter orientações gerais do Espírito de Allan Kardec, sabendo, como ele mesmo asseverou, que:

Podem evocar-se todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, amigos, ou inimigos, e obter-se deles, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se encontram no Além, sobre o que pensam a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam permitidas fazer-nos.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

A maneira como se realiza a evocação, e o resultado bom ou mau dela, residem naquilo que ele diz, imediatamente após o parágrafo anterior:

Os Espíritos são atraídos na razão da simpatia que lhes inspire a natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero, por parte dos que as compõem, de se instruírem e melhorarem. A presença deles afasta os Espíritos inferiores que, inversamente, encontram livre acesso e podem obrar com toda a liberdade entre pessoas frívolas ou impelidas unicamente pela curiosidade e onde quer que existam maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois que muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro.

Allan Kardec — O Livro dos Espíritos — Introdução

Julgamos, no momento citado, que nosso ambiente justamente o das reuniões sérias e, de fato, recebemos uma resposta, que, conforme analisamos, em nada desmente o caráter esperado na resposta, tenha ela vindo diretamente desse Espírito ou de um preposto, por ele enviado.

Qual foi, porém, a intenção nessa evocação? Exibicionismo? Vaidade? Tentativa de obter um argumento de autoridade? De forma alguma. Consideramos nosso grupo como um laboratório e, posto que ainda operamos sem a colaboração de outros grupos, não devemos e nem desejamos obter nada de novo sobre a Doutrina Espírita, de modo que nome algum nos fará adotar nenhum princípio novo, que requeira a metodologia colaborativa utilizada por Kardec. Dizemos: primeiro precisamos constituir um agrupamento central, com a participação de delegados (representantes) de outros grupos mediúnicos, formados pelos mesmos princípios, para que possamos voltar a realizar pesquisas quaisquer.

Nosso objetivo, portanto, é o de demonstrar ao público que, com a reserva e a seriedade necessárias, além da unidade doutrinária (conhecimento sobre a Ciência Espírita), sim, é possível e benéfica a evocação dos Espíritos, que nos auxiliarão sempre que demonstremos boa-vontade.

Muito longe de nós passa a ideia de, a partir de agora, temos o Espírito de Allan Kardec ao nosso dispor. Não, isso seria um erro — com qualquer Espírito, aliás. Continuaremos o nosso processo de aprendizado, evocando outros Espíritos, como o de Ermance Dufaux, cuja evocação, a priori, nos pareceu render uma mistificação que, não tendo uma forma melhor de investigar, justamente porque nos faltam os grupos parceiros, nos faz apenas colocar, por enquanto, esse diálogo no rol das incertezas.

Esperamos, avidamente, que mais grupos se formem, nessa mesma unidade doutrinária, após o estudo necessário. Lamentamos, porém, a morosidade nas intenções de muitos, que ainda esperam que o trabalho seja feito por eles.

Uma palavra final: sim, o que já temos, da Doutrina Espírita, é suficiente para nos elevar muitos degraus na evolução. Porém, como muitos dizem, a obra de Kardec não encerra o Espiritismo. Há um desenvolvimento necessário sobre várias questões, o que, seguramente, não será feito de maneira isolada, por um só Espírito ou por um só grupo.

Aguardamos o porvir.




Diálogos de Além-Túmulo — Evocação de Ermance Dufaux

Ermance Dufaux de La Jonchère foi uma médium e escritora francesa nascida em Cambrai em 8 de março de 1839 e falecida em Suresnes em 3 de março de 1915, reconhecida como uma das mais relevantes figuras da primeira geração do Espiritismo. Ela manifestou mediunidade precocemente e, como membro-fundadora da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ao lado de seu pai, colaborou de forma significativa com Allan Kardec na consolidação da doutrina, participando diretamente da revisão de O Livro dos Espíritos e contribuindo com comunicações mediúnicas que resultaram em importantes obras literárias espiritualistas. Sua produção inclui relatos psicográficos atribuídos a espíritos históricos e sua participação ativa nos círculos espíritas de Paris consolidou sua influência no movimento espírita emergente no século XIX.

Por ocasião da reunião do Grupo Mediúnico Semear, nosso grupo, achamos por bem buscar a evocação desse Espírito, na reunião de 02/11/2025. Obtivemos, disso, o seguinte diálogo:

– Evocação.
Ermance: Perguntem.
A: Você é feliz, Ermance?
Ermance: Sim, sou.
A: Você está encarnada ou desencarnada?
Ermance: Desencarnada.
A: Você se percebeu que estava no mundo espiritual imediatamente, assim que deixou o corpo físico?
Ermance: O que chamas de imediatamente?
A: Logo após a sua morte.
Ermance: Já via meu corpo sem força, imóvel. Aprendi que já tinha me desprendido.
A: Quais foram suas primeiras impressões imediatamente após a morte?
Ermance: Já tinha esclarecido o que me ocorria. Posso lhes dizer que não houve sofrimento. Já havia percebido que já me encontrava com o Espírito. Mas agora, sem o meu corpo. Foi só um estágio. Só um período.
M: Quanto tempo durou para você se reconhecer no plano espiritual após a sua morte?
Ermance: Vou fazer uma analogia com o tempo de vocês. Foi rápido. Talvez, alguns dias. Talvez, alguns dias.
M: Poucos, poucos dias. Você foi no seu funeral?
Ermance: Sim.
M: Como você se sentiu lá?
Ermance: Percebi o meu corpo imóvel. Percebi que já não me encontrava mais aqui. Em algum momento, o círculo espectro, porque nos deparamos com o nosso corpo, que foi a nossa morada por um período, que nos serviu de instrumento, mas já tinha consciência de que não me encontrava mais aí.
M: Minha pergunta era justamente isso. Quando você viu o seu funeral, você já tinha reconhecido que não fazia mais parte desse mundo. Então, essa perturbação, você tem certeza de que foram dias?
Ermance: Mesmo quando vemos o nosso corpo imóvel e percebemos que já não fazemos mais parte dele, ainda nos é difícil entendermos que já não estamos mais ali. Que ao falarmos com nossos familiares, nossos amigos, nossos amores, eles não nos respondem. Sempre existe uma perturbação, mesmo que pequena, meu irmão. Mas logo compreendi. Logo compreendi que precisava seguir o meu caminho.
M: Agora uma pergunta mais específica, Ermance: Qual foi o primeiro tema que o Espírito Joana D’arc que te ditou que só vocês sabiam? Só você e Kardec?
Ah, desculpa, Ermance, o Espírito Amigo quer falar alguma coisa, se você puder. Aguardar só um minutinho, Ermance?
Ermance: Pois não.
EA: É preciso vocês lembrarem que o tempo é diferente em ambos os mundos. Quando ela fala em dias, para o Espírito é um piscar de olhos. Para vocês é diferente.
A: Muito obrigada. Ermance, você pode responder à pergunta da Joana D’arc? Qual que ela te ditou, o primeiro tema?
Ermance: Não, não posso.
A: Qual foi o maior erro que você fez durante o exercício da Mediunidade?
Ermance: Deixei-me mistificar por alguns Espíritos.
A: Nessa sua existência como Ermance, qual foi a definição que você dá para essa existência?
Ermance: Fui feliz.
A: E você conseguiu alcançar o objetivo dessa encarnação como Ermance?
Ermance: Na nossa jornada, sempre temos programado tantas coisas. Mas nem sempre conseguimos concluir tudo. Tudo aquilo que foi programado, tudo aquilo que pelo nosso livre-arbítrio escolhemos.
A: Quando você foi Ermance, você já estava programada para ser médium para aquela encarnação? Ermance: Sim.
A: Então você cumpriu uma programação, né?
M: Essa programação que você conseguiu executar te colocou em uma situação melhor no plano espiritual?
Ermance: Sim. Sim, me coloquei sim. Avancei mais um pouco, evoluí mais um pouco. A cada encarnação, mesmo que não tenhamos concluído a nossa proposta, sempre avançamos um pouco mais. Esta me causou um avanço muito grande.
A: Como nós estamos querendo chamar você para poder ajudar mais os nossos médiuns, e outros médiuns que porventura a gente conheça, qual é o maior perigo para um médium? O que você poderia indicar para a gente, para nos ajudar?
Ermance: A fascinação. Ser fascinado por um espírito que dita os seus pensamentos e o médium se torna escravizado por ele, repetindo as suas sintonias, os seus pensamentos. Isso é um grande erro e acaba influenciando outros.
A: Isso não é nada bom.
M: Você habita a Terra ainda ou outro orbe?
Ermance: Não, eu não habito a Terra.
M: Você já reviu suas reencarnações anteriores, Ermance?
Ermance: Sim.
M: Foi imediatamente após a sua morte ou demorou?
Ermance: Levou algum tempo, mas eu as vi.
M: Nessas reencarnações anteriores, você tinha contato direto com o professor Rivail?
Ermance: Sim. Nós nos comunicávamos pelo pensamento na tentativa da organização do que estava por vir.
A: Você se mantém conectada com ele até hoje?
Ermance: Sim.
M: Então você consegue lembrar nitidamente as suas existências anteriores à Ermance, correto?
Ermance: Sim. Nos é passado como filme as nossas encarnações anteriores, os nossos aprendizados.
M: Você lembra dos pormenores dessas reencarnações?
Ermance: Elas nos são passadas como um flash. Não poderia lidar com os pormenores das encarnações.
M: E só mais uma pergunta. Se você consegue lembrar dessas existências anteriores, qual seria o motivo de você não lembrar o que a Joanna D’arc ditou a você quando encarnada como a Ermance?
Ermance: Como eu disse, até as encarnações anteriores não me lembro com detalhes. São passadas como um flash. Vamos adquirindo todo o aprendizado em cada uma delas que nos é concedido como um tesouro. Mas não é fácil lembrar dos detalhes de cada uma delas.
A: Na última reunião mediúnica que nós tivemos, o Espírito comunicante falou por duas médiuns ao mesmo tempo. Como foi isso possível, irmã?
Ermance: Posso assegurar que isso não pode ocorrer exatamente no mesmo momento da reunião entre dois médiuns. Mas o mesmo Espírito pode dar a comunicação a dois médiuns na mesma reunião.
A: O que fez você preferir conversar por essa médium do que pela outra? Nós temos duas médiuns aqui agora.
Ermance: Consigo perceber nesse momento o Espírito que sempre guia as reuniões. Que sempre está presente. É esse que se encontra com a médium.
A: Ermance, eu agradeço muito você ter conversado conosco, a sua disposição. Agradeço muito você ter podido vir aqui e gostaria que você desse uma saudação final e uma instrução para os nossos médiuns. Se você puder, claro.
Ermance: Meus irmãos, continuem o seu trabalho, continuem os estudos, as evocações; e sempre lembrem que cada médium, cada aparelho tem a sua limitação. Dentro das suas limitações, como o irmão falou, a boa vontade, a solicitude. Nunca se esqueçam disso. Sempre há aprendizado em cada uma das comunicações. Agradeço a oportunidade de aqui me encontrar e me despeço de vocês.
A: Que Deus te acompanhe, Ermance… Muito obrigada.

O diálogo apresenta conformidades, mas também incongruências com o que aprendemos com a Doutrina Espírita. Dois pontos mais incongruentes nos chamaram a atenção: ela não se lembrar daquilo que foi publicado no livro sobre Joanna D’arc, e ela dizer que os Espíritos não conseguem se comunicar por dois médiuns simultaneamente, o que é demonstrado como possível na obra de Kardec (O Livro dos Médiuns, item 282, sub-item 29).

Isso nos levantou dúvidas de ser realmente o Espírito de Dufaux quem se apresentou. Aqui, enfrentamos aquele dilema: não tendo outros grupos parceiros aptos a realizarem tais pesquisas, fazendo as mesmas evocações ou perguntas pertinentes, ficamos, de certa forma, de mãos atadas, deixando essa comunicação no rol da incerteza, aguardando o dia em que pudermos ver constituído um grupo de colaboração para isso.




Comunicações Espontâneas – Allan Kardec

Em nossa última reunião de estudos mediúnicos, após algumas evocações, resolvemos, com seriedade e confiança, e sentindo que era um momento propício, buscar algumas orientações, ainda que de maneira indireta, do Espírito de Allan Kardec, o codificador do Espiritismo. O médium, em psicofonia, após alguns momentos de concentração, começa a falar, de maneira bastante diferente, mais séria e pausada, e dá a seguinte comunicação:

Observo a divisão de grupos dentro da doutrina consoladora que me foi transmitida pelos Espíritos superiores, e que eles próprios me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios que aconteceriam. Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz, seguindo os conselhos que me eram oferecidos por tantos amigos dedicados. Sinto, porém, a resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas, na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.

Busco, junto aos meus, Espíritos Superiores que me acompanharam na jornada, enviar inspirações àqueles que se abrem para recebê-las, a fim de restaurar aquilo que foi deturpado após a minha ausência. Nosso grupo cresce, amparado pelas bênçãos de Deus Pai todo-poderoso. Nossa compreensão hoje é muito maior do que já foi, mas ainda não temos todas as respostas.

Gostaríamos que o verdadeiro Espiritismo, aquele que irá transformar a humanidade e trazer a época da Regeneração, seja difundido de maneira correta. O trabalho nessa tarefa será duro. As provas virão. Muitos sucumbirão. Mas o Espiritismo sempre estará vivo e sobreviverá aos golpes daqueles que continuam apegados às falsas crenças. Os desígnios de Deus são claros. As leis são claras, imutáveis.

Que aqueles que buscam por mim busquem além. Sou apenas mais um dentre tantos que propagam a verdade e desejam colocar nos corações aquilo que Jesus trouxe para nós há mais de 2000 anos. Que o Espiritismo seja para vocês a luz verdadeira e consoladora. Que continue progredindo, evoluindo, modificando mentes e corações. Desejo a vocês que alcancem o sucesso nesse grande trabalho de reconstrução, mesmo que o tempo não lhes permita vislumbrar, em vida, as sementes que estão plantando. 

Que Deus os abençoe.

Após o final da comunicação, fizemos, como de praxe, nossa análise, sendo essa em especial acompanhada de muita atenção. Não vimos, nela, nada que contrariasse o cunho de seriedade esperado, nem ideia alguma que fosse contrária ao Espiritismo, aos fatos históricos ou às ideias de Kardec. Se foi ele próprio, ou se foi um Espírito por ele designado, não sabemos, mas já ficamos plenamente felizes por vermos mais uma vez provada a afirmativa de que os Espíritos não deixam sem resposta ou acolhimento a aqueles que tenham seriedade e propósitos honestos na busca pelas comunicações.

Resolvemos, além de nossa análise, submeter ao NotebookLM, confrontando com toda a obra de Kardec. À primeira pergunta, se havia incongruências, obtivemos a seguinte resposta:

Ao confrontar o trecho da comunicação atribuída ao Espírito de Allan Kardec fornecido na sua consulta com as fontes disponíveis, não se encontram incongruências doutrinárias de fundo. Pelo contrário, o teor da mensagem reflete preocupações centrais e princípios metodológicos que Allan Kardec defendeu vigorosamente durante sua vida, especialmente em seus últimos anos e nas obras fundamentais.

Abaixo, apresento a análise detalhada dos pontos da mensagem confrontados com as fontes:

1. A Divisão de Grupos e os Avisos dos Espíritos

Mensagem: “Observo a divisão de grupos… e que eles próprios [os Espíritos] me haviam avisado sobre todas essas incongruências e desvios…”

Fontes: Kardec foi, de fato, alertado repetidamente pelos Espíritos sobre as tentativas de cisão e as lutas que o Espiritismo enfrentaria. O Espírito Erasto, por exemplo, advertiu explicitamente: “Não ignoro… que se empregará de tudo para semear a divisão entre vós; que se procurará armar-vos emboscadas… que vos oporão uns aos outros”. Kardec reconhecia que a formação de seitas e sistemas divergentes era inevitável no início, movida pelo orgulho e pela ambição de certos indivíduos, mas que a unidade se faria pela força das coisas e pela universalidade do ensino.

2. A Insistência na Metodologia

Mensagem: “Há, no entanto, grupos que buscam seguir os passos e a metodologia daquilo que eu próprio fiz…”

Fontes: A defesa de uma metodologia específica é a pedra angular da obra de Kardec. Ele insistia que o Espiritismo não era fruto de uma opinião pessoal, mas o resultado do “ensino coletivo e concordante dos Espíritos”. O método preconizado por ele não era aceitar cegamente o que diziam os Espíritos, mas submeter tudo ao “controle universal” e ao crivo da razão e da lógica,. Ele afirmava que aqueles que não seguissem esse método de concordância universal e se baseassem em opiniões isoladas estariam sujeitos ao erro e a criar sistemas efêmeros,. Portanto, a valorização de grupos que seguem essa metodologia é perfeitamente coerente com o pensamento do Codificador.

3. O Combate ao Misticismo e aos Dogmas

Mensagem: “…resistência de muitos que ainda insistem nos misticismos, nos dogmas…”

Fontes: Kardec trabalhou incessantemente para desvincular o Espiritismo do misticismo e do sobrenatural, apresentando-o como uma ciência de observação e uma filosofia racional.

    ◦ Sobre o Misticismo: Ele afirmava que o Espiritismo não aceita os fatos qualificados de maravilhosos ou sobrenaturais, explicando-os por leis naturais, e combatia práticas que pudessem levar ao fanatismo ou à superstição. Ele declarou explicitamente: “O Espiritismo é uma ciência positiva, que destrói os últimos vestígios do maravilhoso”.

    ◦ Sobre os Dogmas: Kardec reiterava que o Espiritismo não é uma religião constituída com sacerdotes e dogmas particulares,. Ele criticava a fé cega e defendia que a fé inabalável é aquela que pode encarar a razão face a face. Ele também alertou contra Espíritos que tentam impor sistemas absolutos ou dogmáticos, considerando isso um sinal de ignorância ou mistificação.

4. A Inversão de Palavras e Distorções

Mensagem: “…insistem… na inversão de palavras e nas distorções dos conteúdos da base da doutrina.”

Fontes: Kardec estava ciente de que as palavras e os princípios poderiam ser mal interpretados ou distorcidos. Ele se preocupou em criar neologismos (como “Espiritismo” e “perispírito”) justamente para evitar a confusão de termos e garantir a clareza das definições,. Ele também observou que adversários e falsos amigos tentariam desnaturar o espírito da doutrina ou criar sistemas contraditórios,. A própria história das adulterações póstumas de suas obras (como A Gênese e O Céu e o Inferno) confirma a existência fática dessas “distorções dos conteúdos da base da doutrina” mencionadas na mensagem,.

Conclusão

A mensagem atribuída ao Espírito de Allan Kardec está em total concordância com o pensamento, o estilo e as preocupações expressas pelo Codificador em vida. As fontes demonstram que ele:

1. Previa e combatia divisões baseadas em personalismo.

2. Defendia um método rigoroso de controle universal e racionalidade.

3. Rejeitava categoricamente o misticismo supersticioso e a imposição dogmática,.

4. Temia e alertava contra a alteração e distorção dos princípios fundamentais da Doutrina.

Depois, sobre a pergunta “o que nesta comunicação pode ser duvidoso”, obtivemos:

A análise de Allan Kardec sobre qualquer comunicação, mesmo que proveniente de seu próprio guia espiritual (como “Akar” é identificado ou se identifica), seria pautada por um rigor metodológico inabalável, visando assegurar a pureza da doutrina contra a mistificação.

Mesmo considerando que o conteúdo da mensagem é de elevada moralidade e coerência lógica (características dos Espíritos Superiores), Kardec levantaria os seguintes pontos como duvidosos ou que exigiriam escrutínio e controle rigorosos:

1. A Questão da Identidade (Autenticidade do Nome)

Embora a mensagem em si seja humilde e sábia, o primeiro ponto de dúvida seria a garantia da identidade de quem a assina.

  • Usurpação de Nomes: Kardec sabia que Espíritos inferiores (pseudo-sábios ou mistificadores) frequentemente usurpam nomes respeitáveis e venerados para dar mais peso às suas palavras e impingir suas utopias. O Espírito que se apresenta deve ser julgado pela linguagem e pelas máximas que formula, pois um Espírito que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ofendesse o bom-senso e a moral, provaria o embuste.
  • Aparência de Sabedoria: Os Espíritos enganadores “podem tudo imitar, tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento”. Portanto, mesmo a sabedoria demonstrada na mensagem de Akar teria de ser verificada pela concordância do ensino. A sabedoria e a lógica presentes no texto apenas provam que se trata de um Espírito de certa elevação, mas não necessariamente atestam a identidade histórica que ele insinua.

2. O Conceito de “Nosso Grupo Cresce”

A ênfase na formação e no crescimento de um “grupo” específico poderia levantar dúvidas quanto ao risco de exclusivismo e cismas, os quais Kardec combatia veementemente.

  • Riscos de Criação de Seitas: Kardec alertava que ambição e orgulho levam Espíritos a criar sistemas particulares e a ligar seus nomes a uma inovação. Quando um Espírito insufla a separação ou o isolamento dos adeptos, este trai a sua inferioridade.
  • Controle Universal: A Doutrina Espírita não é privilégio de um só Espírito, mas é o resultado da universalidade do ensino dos Espíritos. Akar declara que seu grupo “cresce” (Nosso grupo cresce), o que, para Kardec, seria menos importante do que a qualidade da união e a aderência à doutrina universal. Ele insistiria em saber se esse grupo se prega a união ou a separação das demais fileiras.
  • Evitar Superioridade Pessoal: Embora a afirmação de Akar de que ele é “apenas mais um” que propaga a verdade seja um sinal de superioridade moral, Kardec usaria o princípio da humildade para se precaver contra qualquer tentativa de estabelecer esse “grupo” como a única fonte verdadeira, pois todo Espírito que “pretende ter o privilégio da verdade” é inferior.

3. As Revelações sobre Lutas e o Futuro

Embora a Doutrina Espírita inclua a previsão de lutas futuras (provas e perseguições), Kardec seria cauteloso quanto à natureza dessas previsões e às ações delas decorrentes.

  • Garantia de Infalibilidade: Kardec repetia que “os Espíritos não têm nem a soberana sabedoria, nem a soberana ciência”, e que seu conhecimento é limitado ao seu grau de depuração. Por isso, a Doutrina Espírita exige que as ideias isoladas sejam aceitas com reservas.
  • Previsões de Datas/Fatos Materiais: A comunicação de Akar não contém datas específicas, mas é um aviso sobre a dureza das “provas” e que “Muitos sucumbirão”. Kardec aceitava pressentimentos de acontecimentos futuros quando úteis, mas desconfiava de previsões circunstanciais, especialmente sobre fatos materiais e datas fixas, pois estas são indícios de mistificação.

Em resumo, Kardec utilizaria o princípio do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (comparando essa mensagem com outras recebidas em diferentes centros e médiuns) e o crivo da razão para confirmar a autenticidade e a pureza de todos os pontos levantados por Akar, garantindo que a doutrina não se desviasse para o dogmatismo ou misticismo.

Notamos serem muito pertinentes as análises feitas pelo NotebookLM, mostrando-se uma ferramenta muito útil na pesquisa mediúnica. Porém, quando ele fala do grupo, notamos que a comunicação não se refere a algo exclusivista, mas sim no sentido do grupo de Espíritos que buscam a disseminação da verdade. Ademais, não notamos nada, nessa comunicação, que aponte para problemas de misticismo ou embuste. Na verdade, pensamos que tudo nela demonstra o caráter que se esperaria, como já dissemos.

Deixamos, enfim, a comunicação para apreciação dos demais, e também como uma incitação à retomada da pesquisa mediúnica, o que carece de que muitos grupos se formem, fazendo o mesmo, por toda parte, e colocando-se em colaboração, para realizar o método de Kardec.




Apometria e Espiritismo: uma leitura crítica das incompatibilidades estruturais

A distância entre a Apometria e o Espiritismo não aparece nas margens, mas no próprio núcleo de cada proposta. Quando examinamos detidamente o sistema apométrico atribuído a José Lacerda de Azevedo e o confrontamos com os princípios doutrinários consolidados nas obras de Allan Kardec — O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno, Obras Póstumas e os doze anos da Revista Espírita — o resultado não é uma gradação, mas uma cisão. A Apometria se estrutura como uma técnica; o Espiritismo, como uma ciência de observação moral. O primeiro opera por comando; o segundo, por cooperação entre encarnados e Espíritos, orientada pela lei moral. A inconciliação é inevitável.

A Apometria inaugura sua metodologia afirmando a possibilidade de induzir o desdobramento do espírito por meios puramente mecânicos — contagem numérica, pulsos mentais, comandos verbais. Em essência: se o operador der a ordem e marcar um ritmo, o espírito se separa, consciente, pronto para ser conduzido. Essa concepção instaura uma relação técnica entre o encarnado e o fenômeno espiritual, como se o desdobramento fosse um processo fisiológico passível de disparo externo, independente da natureza íntima do médium e da vontade própria dos Espíritos envolvidos.

Nada disso encontra fundamento na obra kardequiana. Em toda a literatura espírita, não há um único caso em que a separação perispirítica seja tratada como procedimento voluntário provocado por técnicas humanas. Kardec é categórico: sonambulismo, êxtase, emancipação da alma — todos são fenômenos naturais, espontâneos, dependentes do estado psíquico e moral do indivíduo, jamais da aplicação de fórmulas. E quando se discute a influência de ordens, rituais, palavras ou contagens, a resposta dos Espíritos Superiores é sempre a mesma: qualquer virtude atribuída a tais métodos é superstição, e doutrinas que prescrevem processos mecânicos são inspiradas por Espíritos ignorantes.

No universo apométrico, contudo, a técnica substitui o fenômeno natural. O operador assume o papel de agente ativo, capaz de “abrir” e “fechar” o desdobramento, de “recolher” o espírito do paciente, de projetá-lo a ambientes espirituais específicos ou mesmo de conduzi-lo a situações pretéritas ou futuras. O espírito passa a ser tratado como objeto manipulável, submetido a comandos exteriores. Em Espiritismo, ao contrário, a autonomia do Espírito é inviolável. Kardec estabelece que, entre Espíritos, encarnados ou desencarnados, só existe supremacia pela superioridade moral — jamais pela força. Nenhum Espírito pode ser constrangido por autoridade técnica, e nenhum processo legítimo de assistência espiritual se baseia em qualquer forma de coação.

Outro ponto de ruptura aparece na maneira como a Apometria concebe o perispírito e o mundo espiritual. O sistema presume a existência de múltiplas camadas perispirituais que podem ser separadas umas das outras, operadas individualmente e tratadas como níveis funcionais distintos, cada qual suscetível a manipulação direta pelo operador. Não há, em Kardec, nada que se aproxime dessa visão fragmentada. O perispírito, para a Doutrina Espírita, é uma unidade funcional, elástica, plástica, submetida à vontade do Espírito — e não ao bisturi vibratório de um técnico humano. A fragmentação operacional do ser espiritual é estranha à ontologia espírita.

As divergências tornam-se ainda mais evidentes quando se observa a introdução de aparelhos, mecanismos, estruturas tecnológicas e “equipamentos astrais” nas práticas apométricas. A presença de dispositivos implantados, máquinas, instrumentos de natureza supostamente eletrônica ou eletromagnética no plano espiritual contrasta radicalmente com a ciência espírita, segundo a qual os fenômenos espíritas são essencialmente fluídicos, derivados da vontade e da moralidade dos Espíritos, e não da mecânica. Kardec jamais descreve engenharias espirituais dotadas de parafusos, emissores, módulos ou ferramentas de intervenção física. Para ele, cura, obsessão, alívio ou perturbação se estabelecem por processos morais, vibratórios, magnéticos, mas nunca por instrumentos.

Mais profunda que qualquer divergência técnica é a ruptura filosófica. O Espiritismo sustenta que toda evolução procede da transformação moral do Espírito, e que nenhum processo externo — seja ritual, aparelho, técnica ou comando — pode substituir o esforço íntimo. A Apometria, ao contrário, atribui ao operador a capacidade de corrigir, reorganizar e redefinir estados espirituais pela técnica, como se o aperfeiçoamento moral fosse suplementar e não estrutural. A ética kardequiana é abolida quando o progresso deixa de ser trabalho interior do Espírito e passa a ser função de um processo técnico aplicado de fora.

Por fim, a Apometria apresenta-se como doutrina nova, com leis próprias, terminologia própria, aparato conceitual independente e objetivos distintos — mas reivindica proximidade com o Espiritismo. A posição de Kardec sobre doutrinas novas, entretanto, é inequívoca: qualquer sistema que introduza princípios que não se harmonizam com a universalidade do ensino dos Espíritos, ou que crie divisões, exclusivismos, grupos fechados, ou identidades paralelas ao Espiritismo, é necessariamente estranho à Doutrina Espírita. E mais: quando uma teoria carece de confirmação universal, ou apresenta elementos contrários às leis morais e fluídicas demonstradas, ela não deve ser incorporada ao corpo doutrinário.

A Apometria, portanto, não é apenas um acréscimo ao Espiritismo; é um corpo estranho. Opera por comandos onde o Espiritismo opera por moral. Usa técnica onde o Espiritismo usa observação. Manipula espíritos onde o Espiritismo coopera com eles. Introduz tecnologia onde o Espiritismo descreve fluido. Oferece leis artificiais onde o Espiritismo reconhece leis naturais e morais.

Não há conciliação possível.
E isso não desmerece a Apometria enquanto construção espiritualista particular; apenas a coloca no lugar correto: um sistema independente, não espírita, não kardequiano, não compatível com a ciência dos Espíritos tal como estabelecida por Kardec.




Herculano, Espiritismo e Socialismo: a confusão causada pela terminologia

Desde os primórdios do movimento espírita, certos equívocos terminológicos criaram distorções que ainda hoje dificultam a compreensão precisa da Doutrina. Palavras tomadas de outros campos — carregadas de significados consolidados, disputadas por correntes divergentes ou marcadas por tradições alheias ao Espiritismo — foram incorporadas ao discurso espírita com sentidos particulares, diferentes dos sentidos predominantes no uso comum. Essa prática, embora muitas vezes bem-intencionada, produziu ambiguidades profundas, aproximando o Espiritismo ora de estruturas religiosas que ele não possui, ora de correntes políticas que jamais integraram seu corpo doutrinário. O resultado foi um terreno fértil para confusões, apropriações indevidas e interpretações que se afastam do método claro, simples e racional estabelecido por Kardec.

1. A gênese do problema terminológico

Desde cedo, parte do movimento espírita insistiu em qualificar o Espiritismo como “religião”, ainda que apenas “em sentido filosófico”. A escolha do termo, porém, contradizia a própria estrutura doutrinária: no uso comum, religião implica culto, rito, autoridade espiritual, dogma e hierarquia institucional — elementos estranhos à ciência espírita organizada por Allan Kardec. O resultado dessa insistência foi a consolidação de um ruído permanente. Uma única palavra, tomada de outro campo semântico, aproximou o Espiritismo de estruturas alheias ao seu método racional, criando uma ambiguidade que se perpetuou.

2. A questão do “socialismo” em Denis e Herculano

O mesmo processo se repete no emprego do termo “socialismo” por Léon Denis e, posteriormente, por Herculano Pires. Denis utiliza o vocábulo para expressar um ideal de fraternidade, cooperação moral e solidariedade entre os homens — um uso espiritualista, ético, baseado na perfectibilidade do indivíduo. Contudo, o cenário intelectual do século XIX já era marcado por múltiplas correntes socialistas coexistindo e competindo entre si. Entre elas, uma se destacava com força crescente: o socialismo científico, materialista, construído por Marx e Engels a partir da década de 1840, dotado de corpo teórico robusto, vocabulário próprio e influência concreta no movimento operário europeu.

O termo “socialismo”, portanto, já estava profundamente saturado de sentidos divergentes, quando não abertamente antagônicos. Não possuía neutralidade semântica. Não havia um “socialismo”, mas “socialismos”, dos quais apenas uma parcela guardava afinidade com valores espiritualistas. Assim, quando Denis e Herculano optam por preservar a palavra tentando diferenciá-la do materialismo marxista, acabam enfrentando um obstáculo inevitável: o termo não lhes pertence. Ele carrega consigo a força do uso dominante, e essa força prevalece sobre a intenção particular do autor.

3. A captura dos termos pelo sentido predominante

O fenômeno é idêntico ao que ocorreu com a expressão “religião em sentido filosófico”. Palavras carregadas por usos amplos e consolidados não se submetem à redefinição artificial. Ao entrar no discurso espírita, esses vocábulos acionam imediatamente as conotações predominantes no imaginário social. Assim, o “socialismo” de Denis — moral, espiritual, humanitário — torna-se facilmente tomado como o “socialismo” marxista — materialista, coletivista, partidário, centrado na luta de classes. O mesmo vale para “religião”: a tentativa de limitar o termo a um sentido filosófico não impede que seus significados tradicionais sejam evocados.

Essa captura semântica produz efeitos doutrinários concretos:

  1. Denis e Herculano passam a ser usados como legitimadores de correntes políticas modernas.
  2. A crítica moral à desigualdade é confundida com adesão a programas ideológicos.
  3. O Espiritismo é deslocado para disputas políticas que não lhe dizem respeito.
  4. Correntes materialistas encontram brecha para se infiltrar no discurso espírita.

A confusão não nasce do conteúdo doutrinário, mas da escolha terminológica mal calibrada para o ambiente semântico em que circula.

4. A autosuficiência racional do Espiritismo

O Espiritismo organizado por Kardec não necessita dessas categorias externas. É uma doutrina clara, simples, lógica, fundada na observação dos fatos e na análise racional dos fenômenos. Sua visão da vida repousa sobre leis morais e sobre a evolução espiritual do indivíduo — não sobre estruturas teológicas, nem sobre projetos políticos.

E é precisamente essa estrutura racional, quando preservada em sua forma original, que conduz de modo natural à transformação social. Não se trata de intervenção estatal, planejamento coletivista ou programas de reforma impostos de fora para dentro. A mudança social derivada do Espiritismo ocorre pela modificação progressiva das consciências: esclarecimento moral, responsabilidade, livre adesão ao bem, percepção das consequências espirituais das ações. É uma mudança autônoma, espontânea e não coercitiva. Esse ponto é fundamental, pois o Espiritismo contraria e refuta claramente as doutrinas materialistas e coercitivas de mudança social, demonstradas como apenas artificiais e não duradouras, como é o caso do socialismo científico, do comunismo e do marxismo (usando esse termo apenas para ficar claro).

Quando a doutrina é mantida íntegra — fiel à metodologia kardeciana — a transformação moral do indivíduo inevitavelmente irradia para as estruturas sociais. Não há necessidade de vestir o Espiritismo com termos de campos alheios, nem de aproximá-lo artificialmente de correntes políticas. Quando isso ocorre, o efeito é contrário: a natureza da Doutrina é distorcida, perde clareza e abre espaço para leituras indevidas.

5. A consequência inevitável da ambiguidade terminológica

Enxertar termos carregados como “religião” ou “socialismo” sobre o Espiritismo é sempre contraproducente. Cada vocábulo traz consigo um universo de significados que obscurece, confunde e dá azo a interpretações errôneas. A semântica dominante domina o pensamento. A doutrina, então, acaba envolvida em disputas que não pertencem ao seu campo de atuação.

Restituir precisão conceitual significa recuperar a linguagem própria do Espiritismo — aquela construída por Kardec, rigorosa, racional, desprovida de ambiguidades. Significa impedir que conceitos externos deformem sua estrutura. Significa preservar as condições para que sua ação social se dê da única forma compatível com sua natureza: pela liberdade de consciência, pela compreensão das leis espirituais, pelo amadurecimento interior, sem imposições, sem alinhamentos ideológicos e sem empréstimos terminológicos que desviem o foco da Doutrina.




A questão da identidade dos Espíritos

A presente questão foi elaborada por conta da presença de uma mensagem atribuída a Allan Kardec, na introdução do livro “O Espiritismo é obra de Jesus”, de Paulo Henrique de Figueiredo e outros autores:

Percorram o caminho que trilhei. Teve, sim, dor, medo, revezes e pedras. Mas nada me deteve; ainda mais: me encorajaram e ampliaram a determinação. Cada um de nós, em determinado momento da jornada, vai vivenciar a prova máxima, a realização verdadeira, onde encontramos nosso valor ao servir dedicadamente, humildemente, ao nosso Criador. Ontem fui eu, amanhã será cada um de vocês. Os mundos esperam na eternidade que a luz indique o caminho. A luz do mundo foi Jesus; eu apenas repeti suas palavras. Juntos servimos ao comando de Deus. Venha fazer parte dessa festa resplandecente. Os tempos se realizaram. Basta seguir em frente.

Allan Kardec

Página psicografada no dia 12 de setembro de 2025.

Grupo mediúnico Mateus.

“Se nós evocássemos Kardec e um Espírito, dizendo ser Kardec, trouxesse uma mensagem elevada, de cunho moral, e não nos aprofundando mais do que isso, seria importante conseguirmos procar a identidade desse Espírito? O que Kardec demonstrava sobre esse tipo de situação?”

Esta é uma questão que toca no cerne do método de Allan Kardec para o discernimento das comunicações espirituais, especialmente quando se trata de ensinamentos morais elevados.

De acordo com Allan Kardec, no cenário que você descreve — onde um Espírito se apresenta com um nome respeitável (como o dele) e traz uma mensagem elevada, de cunho moral — a identidade absoluta desse Espírito seria uma questão secundária e sem importância real.

Abaixo está o que Kardec demonstrou e ensinou sobre essa situação, priorizando o valor do conteúdo em detrimento do nome.

1. A Prioridade do Conteúdo Moral

Kardec estabeleceu uma regra fundamental para julgar as comunicações, aplicável quando a instrução é o foco principal:

O que importa é a natureza do ensino: se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina. Esta é a questão capital.

• O nome nunca é uma garantia. A única e verdadeira garantia de superioridade é o pensamento e a maneira pela qual ele é expresso.

• Se o ensino for bom e racional, pouco importa o nome que o Espírito tome.

• Para as instruções gerais, se o Espírito só disser coisas aproveitáveis, o nome pelo qual se dá a conhecer é indiferente. Muitas vezes, um Espírito toma um nome conhecido (como o de um apóstolo ou de uma pessoa respeitada) para fixar as ideias do evocador.

• Se um Espírito que só prega o bem fosse capaz de mentir conscientemente e sem utilidade alguma, teríamos que supor que é um Espírito mau, o que não é lógico. O objetivo essencial e exclusivo do Espiritismo é o aperfeiçoamento moral dos homens. Uma mensagem moral elevada serve a esse propósito.

Em resumo, o juízo sobre um Espírito que se comunica sob um nome respeitável, mas fornece uma mensagem pura, sem contradições e à altura do caráter esperado (como Kardec), deve ser feito primariamente pela apreciação moral da linguagem e das máximas.

2. A Traição pela Linguagem

Kardec advertia que os Espíritos que se apropriam de nomes respeitáveis, como forma de mistificação, são rapidamente desmascarados quando sua linguagem é analisada.

• Os Espíritos impostores se traem logo pela linguagem que empregam e pelas máximas que formulam. Se, por exemplo, o Espírito ofender o bom-senso ou a moral, ele demonstrará, por esse simples fato, o embuste.

• Os Espíritos enganadores podem imitar tudo, exceto o verdadeiro saber e o verdadeiro sentimento.

• A linguagem dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica e isenta de contradições, e nela se respira a sabedoria, a benevolência e a mais pura moral.

• Se um ensino for bom, racional e não provocar objeções sérias, a conclusão é que a fonte é superior, mesmo que o nome seja apócrifo.

3. Quando a Identidade é Crucial

Embora a identidade seja secundária para a instrução geral, ela é considerada importante ou mais fácil de verificar em outros contextos:

1. Evocações Íntimas: Se o objetivo é a comunicação com um parente ou amigo, a pessoa mesma interessa, e é razoável tentar certificar-se da identidade, que é mais facilmente comprovada quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos caracteres e hábitos são conhecidos.

2. Mistificações Sistêmicas: A atenção deve se concentrar na distinção dos bons e dos maus Espíritos, cuja qualidade nunca é indiferente, mesmo que a individualidade seja. O Espírito de ordem inferior que se adorna com um nome respeitável para que suas palavras mereçam crédito exige grande precaução.

O que Kardec demonstrou sobre a situação:

Allan Kardec demonstrou que o discernimento contínuo, baseado na lógica e no bom senso, é a ferramenta mais segura. Ele e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não aceitavam como verdade irrefutável tudo o que vinha dos Espíritos, sabendo que eles podem se enganar ou mistificar.

A experiência (a observação contínua dos fatos e da linguagem) é que dá os meios para desmascarar as mistificações.

Em síntese, se a mensagem do Espírito que diz ser Kardec for elevada e moral, ela é, por definição, útil para o seu adiantamento moral, que é a meta essencial do Espiritismo. Nesses casos, a qualidade do ensinamento é a prova suficiente de que o Espírito é elevado (seja Kardec ou um Espírito de igual elevação que se apresenta sob esse nome). Provar a identidade materialmente seria pueril ou desnecessário, pois o valor do intercâmbio já estaria estabelecido pelo conteúdo moral.

Para melhor compreensão, podemos usar uma analogia: na Doutrina Espírita, ao receber uma mensagem moral elevada, é como se você recebesse um cheque assinado por uma figura de grande reputação. Se o cheque for genuinamente endossado por uma instituição financeira sólida (a moralidade e a razão), a validade da riqueza (o ensinamento) é garantida, mesmo que você não tenha certeza se a pessoa que o entregou pessoalmente era o próprio signatário, pois a intenção caridosa e a fonte de valor são incontestáveis. O foco está no valor inegável da moeda (a moralidade), e não na autenticidade da assinatura para fixar o valor. O Espírito de ordem inferior, por sua vez, seria como alguém que tenta passar uma nota falsa, mas o material (a moralidade) não resiste à inspeção minuciosa.




O falso “Allan Kardec”, a FEB e a unificação sob Ismael

Sob o título de “INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL”, no livro “A Prece Segundo o Evangelho”, encontramos uma comunicação de um Espírito que se apresenta, no grupo Sayão, grupo roustainguista que tomou a FEB e desviou o Movimento Espírita Brasileiro, sob o nome de Allan Kardec. Analisemos essa comunicação, fazendo observações e proposições de perguntas que poderiam ter colocado esse Espírito mistificador em seu lugar:

INSTRUÇÕES DE ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DO BRASIL

I — EXORTAÇÃO AO ESTUDO, À CARIDADE E À UNIFICAÇÃO

Paz e amor convosco.
Que possamos ainda uma vez, unidos pelos laços da fraternidade, estudar essa doutrina de paz e de amor, de justiça e de esperanças, graças à qual encontraremos a estreita porta da salvação futura — o gozo indefinido e imorredouro para as nossas almas humildes.

Antes de ferir os pontos que fazem o objetivo da minha manifestação, devo pedir a todos vós que me ouvis — a todos vós espíritas a quem falo neste momento — que me perdoeis se porventura, na externação dos meus pensamentos, encontrardes alguma coisa que vos magoe, algum espinho que vos vá ferir a sensibilidade do coração.

O cumprimento do dever nos impõe usemos de linguagem franca, rude mesmo. Por isso que cada um de nós tem uma responsabilidade individual e coletiva e, para salvá-la, lançamos mão de todos os meios que se nos oferecem, sem contarmos, muitas vezes, com a pobreza da nossa inteligência, que não nos permite dizer aquilo que sentimos sem magoar, não raro, corações amigos, para os quais só desejamos a paz, o amor e as doçuras da caridade.

Certo de que ouvireis a minha súplica; certo de que, falando aos espíritas, falo a uma agremiação de homens cheios de benevolência, encetei o meu pequeno trabalho, cujo único fim é desobrigar-me de graves compromissos que tomei para com o nosso Criador e Pai!

Sempre compassivo e bom, volvendo os piedosos olhos à Humanidade escrava dos erros e das paixões do mundo, Deus torna uma verdade as palavras do Cristo, e manda o Consolador — o Espírito de Verdade — que abertamente fale da revelação messiânica a essa mesma Humanidade esquecida dAquele que foi levado pelas ruas da amargura, sob o peso das iniqüidades e das ingratidões dos homens!

A forma de falar de Jesus é inteiramente devocional, emocional, sem qualquer traço do cuidado terminológico kardeciano. Kardec distingue constantemente o Cristo-homem histórico da função de “modelo e guia”, analisa o ensino moral, evita esse tipo de pintura dramática e sentimental como argumento. Aqui, Jesus é usado como gatilho afetivo para legitimar o discurso que vem em seguida.

O Espíritismo NUNCA foi algo messiânico, posto que é uma ciência, construída pela metodologia sempre exposta por Kardec, com a colaboração de milhares de pessoas, espalhadas por toda parte. Messiânica era como ser vista a tarefa misticista de Jean-Baptiste Roustaing. Diz Kardec, em “O Espiritismo em sua mais simples expressão”:

“A primeira revelação teve a sua personificação em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não a tem em indivíduo algum. As duas primeiras foram individuais, a terceira coletiva; aí está um caráter essencial de grande importância. Ela é coletiva no sentido de não ser feita ou dada como privilégio a pessoa alguma: ninguém, por conseqüência, pode inculcar-se como seu profeta exclusivo; foi espalhada simultaneamente, por sobre a Terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e condições, desde a mais baixa até a mais alta da escala, conforme esta predição registrada pelo autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, disse o Senhor, derramarei o meu espírito sobre toda a carne; os vossos filhos e filhas profetizarão, os mancebos terão visões, e os velhos, sonhos”. (Atos, 2:17 e 18.) Ela não proveio de nenhum culto especial, a fim de servir um dia, a todos, de ponto de ligação”.

Algumas perguntas que poderiam ter colocado esse Espírito em seu devido lugar:

  1. Onde Kardec classificou o Espiritismo como “revelação messiânica”?
  2. Como conciliar “revelação messiânica” com a declaração explícita de Kardec de que a terceira revelação não tem missionário único e é coletiva?
  3. De onde você extraiu autorização para alterar a natureza da revelação, se o controle universal exige concordância entre múltiplas fontes independentes?
  4. Você pretende substituir a revelação coletiva por uma revelação centralizada em você, Ismael ou Roustaing?

Corridos os séculos, desenvolvido intelectualmente o espírito humano, Deus, na sua sabedoria, achou que era chegado o momento de convidar os homens à meditação do Evangelho — precioso livro de verdades divinas — até então ensombrado pela letra, devido à deficiência da percepção humana para compreendê-lo em espírito.

Por toda a parte se fez luz; revelou-se à Humanidade o Consolador prometido, recebendo os povos — de acordo com o seu preparo moral e intelectual — missões importantes, tendentes a acelerar a marcha triunfante da Boa-Nova!

Todos foram chamados: a nenhum recesso da Terra deixou de apresentar-se o Consolador em nome desse Deus de misericórdia, que não quer a morte do pecador — nem o extermínio dos ingratos — e sim os deseja ver remidos dos desvarios da carne, da obcecação dos instintos.

Sendo assim, a esse pedaço de terra, a que chamais Brasil, foi dada também a Revelação da Revelação, firmando os vossos Espíritos, antes de encarnarem, compromissos de que ainda não vos desobrigastes. E perdoai que o diga: tendes mesmo retardado o cumprimento deles e de graves deveres, levados por sentimentos que não convém agora perscrutar.

Aqui há uma referência direta e inequívoca aos Evangelhos de Roustaing, e não à ciência espírita: “Os Espíritos do Senhor vêm trazer aos homens a nova revelação, a que podeis chamar, como já vos dissemos, “revelação da revelação”, e, por meio dela, clarear e desenvolver as inteligências, purificar os corações no crisol da ciência, da caridade e do amor.” (Roustaing, OQE)

Há outro desvio doutrinário aqui: a ideia de uma missão nacional privilegiada (“esse pedaço de terra… foi dada também a Revelação da Revelação”, encarnando “compromissos” especiais). Kardec admite que povos podem ter missões históricas, mas sempre com muita prudência, sem investir nenhum país com papel sagrado. O uso de “Revelação da Revelação” + Brasil é a matriz ideológica de todo o mito posteriormente reforçado em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. É um espiritualismo nacionalista que não tem base na metodologia kardeciana, mas é funcional para construir um centro de poder religioso no Brasil.

Perguntas para recolocar o Espírito em seu lugar:

  1. Mostre onde Kardec atribuiu a qualquer país uma missão religiosa exclusiva.
  2. Se a revelação é universal, como pode ter “segunda camada” (“da revelação”) reservada a uma única nação?
  3. Você está afirmando que o Brasil tem privilégio espiritual? Com base em qual lei universal?
  4. Que comparação metódica (controle universal) valida essa sua afirmação? Quais médiuns independentes confirmam isso?

Ismael, o vosso Guia, tomando a responsabilidade de vos conduzir ao grande templo do amor e da fraternidade humana, levantou a sua bandeira, tendo inscrito nela — Deus, Cristo e Caridade. Forte pela dedicação, animado pela misericórdia de Deus, que nunca falta aos trabalhadores, sua voz santa e evangélica ecoou em todos os corações, procurando atraí-los para um único agrupamento onde, unidos, teriam a força dos leões e a mansidão dos pombos; onde, unidos, pudessem afrontar todo o peso das iniqüidades humanas; onde, enlaçados num único sentimento — o do amor — pudessem adorar o Pai em Espírito e Verdade; onde se levantasse a grande muralha da fé, contra a qual viessem quebrar-se todas as armas dos inimigos da Luz; onde, finalmente, se pudesse formar um grande dique à onda tempestuosa das paixões, dos crimes e dos vícios que avassalam a Humanidade inteira!

A unidade, em Kardec, é doutrinária e metodológica, nunca orgânica e institucional sob um centro único. Ele recusa explicitamente a ideia de “papa espírita” e de direção centralizada. O discurso aqui é outro: todos devem convergir para um agrupamento único, sob a bandeira de Ismael. É a proposta de unificação pela submissão a um polo “sagrado”, exatamente o caminho que Kardec rejeita:

“Vale mais, portanto, haver em uma cidade cem grupos de dez a vinte adeptos, em que nenhum se arrogue a supremacia sobre os outros, do que uma única sociedade que a todos reunisse. Esse fracionamento em nada pode prejudicar a unidade dos princípios, desde que a bandeira é uma só e que todos se dirigem para um mesmo fim” – Kardec, VE

  1. Por que você descreve a ação espiritual em termos de guerra maniqueísta, se Kardec explica essas influências de modo natural e racional?
  2. Em qual obra de Kardec há referência a uma união organizada dos “maus Espíritos pelo amor do mal”?
  3. Que finalidade doutrinária teria essa linguagem dramática, ausente do estilo sóbrio adotado por Kardec?

Constituiu-se esse agrupamento; a voz de Ismael foi sentida nos corações. Mas, à semelhança das sementes lançadas no pedregulho, elas não encontram terra boa para as suas raízes, e quando aquele anjo bom — aquele Enviado de Deus — julgava ter em seu seio amigos e irmãos capazes de ajudá-lo na sua grande tarefa, santa e boa, as sementes foram mirrando ao fogo das paixões, foram-se encravando na rocha, apesar de o orvalho da misericórdia divina as banhar constantemente para sua vivificação.

Ali, onde a humildade devera ter erguido tenda, o orgulho levantou o seu reduto; ali, onde o amor devia alçar-se, sublime e esplêndido, até junto do Cristo, a indiferença cavou sulcos, à justiça se chamou injustiça, à fraternidade — dissensão!

Mas, pela ingratidão de uns, haveria de sacrificar-se a gratidão e a boa-vontade de outros?

Pelo orgulho dos que já se arvoraram em mestres na sua ignorância, havia de sacrificar-se a humildade do discípulo perfeitamente compenetrado dos seus deveres? Não!

Assim, quando os inimigos da Luz — quando o espírito das trevas julgava esfacelada a bandeira de Ismael, símbolo da trindade divina; quando a voz iníqua já reboava no Espaço, glorificando o reino das trevas e amaldiçoando o nome do Mártir do Calvário, ele recolheu o seu estandarte e fez que se levantasse pequena tenda de combate com o nome — Fraternidade!

Uma linguagem fortemente misticista e até esotérica, coroada de ideias contrárias ao Espiritismo, com fortes concepções religiosas, contrárias àquilo que se mostra em O Céu e o Inferno (Editora Mundo Maior – edição não adulterada).

Aqui se monta uma narrativa típica de grupo sectário:

  1. Há um projeto divino (bandeira de Ismael).
  2. Ele “quase” fracassa por culpa dos homens.
  3. Os “inimigos da Luz” se regozijam.
  4. Deus/Ismael intervém e funda um novo “núcleo eleito” (a tal Fraternidade).

O efeito psicológico é claro: legitimar uma instituição concreta (grupo “Fraternidade”) como único guardião fiel do plano divino, o “resto fiel” cercado de trevas em torno. Isso é totalmente estranho ao modo como Kardec lida com sociedades e grupos: ele sempre relativiza, adverte contra a fascinação local, e submete qualquer grupo ao crivo do conjunto dos Espíritos e da razão, nunca o sacraliza.

Era este, com certeza, o ponto para o qual deviam convergir todas as forças dispersas — todos os que não recebiam a semente do pedregulho.

Certos de que acaso é palavra sem sentido, e testemunhas dos fatos que determinaram o levantamento dessa tenda, todos os espíritas tinham o dever sagrado de vir aqui se agruparem — ouvir a palavra sagrada do bom Guia Ismael — único que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta e único que tem a responsabilidade da sua marcha e desenvolvimento.

Diversas concepções contrárias ao Espiritismo. Não há palavra sagrada, no que tange aos Espíritos, não importa o nome pelo qual ele se apresente: há ideias e concepções que devem ser analisadas à luz da razão. Ismael é um Espírito mistificador – talvez o próprio, que escreve essa mensagem – e dos mais inteligentes (e, por isso mesmo, dos mais perigosos aos desavisados). Note a palavra “único” (que dirige a propaganda da Doutrina nesta parte do planeta e que tem a responsabilidade da sua marcha e desenvolvimento), que é tão absurdamente falsa, já que os Espíritos não agem sozinhos, muito menos aqueles que incitam a humanidade ao bem. Essa ideia é apenas mais uma forma de manter os crentes em sua palavra na fascinação obsessiva.

Do ponto de vista espírita kardeciano, esse parágrafo é um sinal vermelho de fascinação:

  • “Palavra sagrada” de um Espírito;
  • Esse Espírito é “único” diretor da propaganda e da marcha da doutrina numa região inteira.

Kardec insiste em que:

  • nenhum Espírito deve ser aceito cegamente;
  • a verdade resulta do concurso de muitos Espíritos, médiuns e centros independentes, confrontados pela razão;
  • qualquer Espírito que se arrogue privilégio, exclusividade, missão absoluta, autoridade incontestável deve ser imediatamente posto em suspeita (isso está ligado às descrições de mistificação e fascinação em O Livro dos Médiuns).

Aqui o texto pede exatamente o contrário: renúncia crítica em favor da “palavra sagrada” de um “único guia”.

Perguntas que teriam recolocado o Espírito em seu devido lugar:

  1. Por que você solicita submissão a um agrupamento específico, se Kardec afirma que as sociedades espíritas são livres e autônomas?
  2. Que fundamento da Codificação permite transformar uma sociedade particular em eixo obrigatório da Doutrina?
  3. Como justificar uma centralização institucional, se Kardec rejeita qualquer forma de supremacia orgânica?

Mas, infelizmente, meus amigos, não pudestes compreender ainda a grande significação da palavra — Fraternidade!

Não é um termo, é um fato; não é uma palavra vazia, é um sentimento, sem o qual vos achareis sempre fracos para essa luta que vós mesmos não podeis medir, tal a sua extraordinária grandeza!

Ismael tem o seu Templo, e sobre ele a sua bandeira — Deus, Cristo e Caridade! Ismael tem a sua pequenina tenda, onde procura reunir todos os seus irmãos — todos aqueles que ouviram a sua palavra e a aceitaram por verdadeira: e chama-se Fraternidade!

Mais um ponto anti-espírita (no sentido kardeciano):

  1. Não existe, em Kardec, a ideia de “Templo de um Espírito”. Os “templos” que ele admite são, no máximo, os da consciência e da prática moral. A instituição espírita, para ele, é escola, laboratório, grupo de estudo, não santuário consagrado a um Guia.
  2. A tríade “Deus, Cristo e Caridade” em bandeira de templo lembra lema confessional, não conceito doutrinário. Em Kardec, caridade é consequência natural da compreensão da lei de justiça, amor e caridade; aqui vira um slogan de bandeira de seita.

Pergunto-vos: Pertenceis à Fraternidade? Trabalhais para o levantamento desse Templo cujo lema é: Deus, Cristo e Caridade?

Como, e de que modo?

Meus amigos! É possível que eu seja injusto para convosco naquilo que vou dizer: o vosso trabalho, feito todo de acordo — não com a Doutrina — mas com o que interessa exclusivamente aos vossos sentimentos, não pode dar bom fruto. Esse trabalho, sem regime, sem disciplina, só pode, de acordo com a doutrina que esposastes, trazer espinhos que dilacerem vossas almas, dores pungentes aos vossos Espíritos, por isso que, desvirtuando os princípios em que ela assenta, dais entrada constante e funesta àquele que, encontrando-vos desunidos pelo egoísmo, pelo orgulho, pela vaidade, facilmente vos acabrunhará com todo o peso da sua iniqüidade.

Chega a ser cômico, tamanho o nível de hipocrisia desse Espírito. Se essas palavras fossem aplicadas a todos esses que não estudam a Doutrina Espírita onde ela realmente existe – nas obras de Kardec – elas seriam absolutamente justas… Mas esse Espírito conhece bem o terreno onde pisa, o que faz com que a ideia central seja convertida no sentido contrário, enquanto ele fala de si mesmo.

Entretanto, dar-se-ia o mesmo se estivésseis unidos? Porventura acreditais na eficiência de um grande exército dirigido por diversos generais, cada qual com o seu sistema, com o seu método de operar e com pontos de mira divergentes? Jamais! Nessas condições só encontrareis a derrota, porquanto — vede bem —, o que não podeis fazer com o Evangelho: unir-vos pelo amor do bem, fazem os vossos inimigos, unindo-se pelo amor do mal!

Eles não obedecem a diversas orientações, nem colimam objetivos diversos; tudo converge para a Doutrina Espírita — Revelação da Revelação — que não lhes convém e que precisam destruir, para o que empregam toda a sua inteligência, todo o seu amor do mal, submetendo-se a uma única direção!

Nova referência ridícula à obra de Roustaing. O padrão aqui é de vitimização milenarista: a doutrina (na verdade, a leitura roustainguista sob Ismael) é “Revelação da Revelação” perseguida por “inimigos da Luz” que se unem “pelo amor do mal”. Esse tipo de dicotomia maniqueísta é estranho a Kardec, que tem uma visão bem mais graduada dos Espíritos e dos homens. Ele não fala de “inimigos do Espiritismo” organizados numa frente única maligna; fala de ignorância, interesses, más influências, mas sempre recomendando calma, paciência, discernimento — nunca esse clima de guerra cósmica em torno de um templo específico.

A luta cresce dia a dia, pois que a vontade de Deus, iniciando as suas criaturas nos mistérios da vida de além-túmulo, cada vez mais se torna patente. Encontrando-se, porém, os vossos Espíritos em face da Doutrina, no estado precário que acabo de assinalar, pergunto: — Com que elemento contam eles, os vossos Espíritos, na temerosa ação em que se vão empenhar, cheios de responsabilidade?

Em que canto da Terra já se ergue o grande tabernáculo onde ireis elevar os vossos pensamentos; em que canto da Terra construístes a grande muralha contra a qual se hão de quebrar as armas dos vossos adversários?

Será possível que, à semelhança das cinco virgens pouco zelosas, todo o cuidado da vossa paz tenhais perdido? Que conteis com as outras, que não dormem e que ansiosamente aguardam a vinda do seu Senhor?

Mas, se é assim, em que consiste o aproveitamento das lições que constantemente vos são dadas a fim de tornar uma verdade a vossa vigilância e uma santidade a vossa oração?

Se assim é, onde os frutos desse labor fecundo de todos os dias, dos vossos amigos de além-túmulo?

Acaso apodreceram roídos pela traça — tocados pelo bolor os vossos arquivos repletos de comunicações?

Onde, torno a perguntar, a segurança da vossa fé, a estabilidade da vossa crença, se, tendo uma única doutrina para apoio forte e inabalável, a subdividis, a multiplicais ao capricho das vossas individualidades, sem contar com a coletividade que vos poderia dar a força, se constituísseis um elemento homogêneo, perfeitamente preparado pelos que se encarregam da revelação?

Mas, onde a vantagem das subdivisões? Onde o interesse real para a Doutrina e seu desenvolvimento, na dispersão que fazeis do vosso grande todo, dando já, desse modo, um péssimo exemplo aos profanos, por isso que pregais a fraternidade e vos dividis cheios de dissensões?

Onde as vantagens de tal proceder? Estarão na diversidade dos nomes que dais aos grupos? Por que isso? Será porque este ou aquele haja recebido maior doação do patrimônio divino? Será porque convenha à propaganda que fazeis?

Aqui, ele está apenas preparando o caminho, com ideias torpes, para, logo mais, vir com a solução para a “divisão”.

Mas, para a propaganda, precisamos dos elementos construtivos dela. Pergunto: — onde a escola dos médiuns? Existe?

Porventura os homens que têm a boa-vontade de estudar convosco os mistérios do Criador, preparando seus Espíritos para o ressurgir da outra vida, encontram em vós os instrumentos disciplinados — os médiuns perfeitamente compenetrados do importante papel que representam na família humana e cheios dessa seriedade, que dá uma idéia da grandeza da nossa Doutrina?

Ou a vossa propaganda se limita tão-somente a falar do Espiritismo? Ou os vossos deveres e as vossas responsabilidades individuais e coletivas se limitam a dar a nota do ridículo àqueles que vos observam julgando-vos doidos e visionários?

Meus amigos! Sei quanto é doloroso tudo isto que vos digo, pois que cada um dos meus pensamentos é uma dor que atinge profundamente o meu Espírito. Sei que as vossas consciências sentem perfeitamente todo o peso das verdades que vos exponho. Mas, eu vos disse ao começar: — temos responsabilidades e compromissos tomados, dos quais procuramos desobrigar-nos por todos os meios ao nosso alcance!

Se completa não está a minha missão na Terra; se mereço ainda do Senhor a graça de vir esclarecer a doutrina que aí me foi revelada, dando-vos novos conhecimentos compatíveis com o desenvolvimento das vossas inteligências; se vejo que cada dia que passa da vossa existência — iluminada pela sublime luz da revelação, sem produzirdes um trabalho à altura da graça que vos foi concedida — é um motivo de escândalo para as vossas próprias consciências; devo usar desta linguagem rude de amigo, a fim de que possais, compenetrados verdadeiramente dos vossos deveres de cristãos e de espíritas, unir-vos num grande agrupamento fraterno, onde — avigorados pelo apoio mútuo e pela proteção dos bons — possais enfrentar o trabalho extraordinário que vos cumpre realizar para emancipação dos vossos Espíritos, trabalho que inegavelmente ocasionará grande revolução na Humanidade, não só quanto à parte da Ciência e da Religião, mas também na dos costumes!

Uma vez por todas vos digo, meus amigos: — Os vossos trabalhos, os vossos labores não podem ficar no estreito limite da boa-vontade e da propaganda, sem os meios elementares indicados pela mais simples razão.

Não vem absolutamente ao caso o reportar-vos às palavras de Jesus-Cristo quando disse que — a luz não se fez para ser colocada debaixo do alqueire. Não vem ao caso e não tem aplicação, porque não possuis luz própria!

Fazei a luz pelo vosso esforço; iluminai todo o vosso ser com a doce claridade das virtudes; disciplinai-vos pelos bons costumes no Templo de Ismael, templo onde se adora a Deus, se venera o Cristo e se cultiva a Caridade. Então, sim; distribuí a luz, ela vos pertence!

A frase diz, na prática:

  • Você só tem “luz” legítima se se disciplinar dentro do Templo de Ismael.
  • Fora dele, seu trabalho “causa embriaguez à vista”, dá frutos “amargos”, etc.

É um mecanismo de controle: desloca-se o critério de autenticidade da doutrina (razão, universalidade, método) para o critério de pertencer ao templo “certo”. Isso é a negação do princípio da universalidade da revelação espírita.

E vos pertence, porque é um produto sagrado do vosso próprio esforço, uma brilhante conquista do vosso Espírito — empenhado nas lutas sublimes da Verdade.

Fora desses termos, podeis produzir trabalhos que causem embriaguez à vista, mas nunca que falem sinceramente ao coração. Podeis produzir emoções fortes, por isso que muitos são os que gostosamente se entregam ao culto do maravilhoso; nunca, porém, deixarão as impressões suaves da Verdade vibrando as cordas do amor divino no grande coração humano.

Fora dessa convenção ortodoxa, é possível que as plantas cresçam nos vossos grupos, mas é bem possível que também seus frutos sejam bastante amargos, bastante venenosos, determinando, ao contrário do que devia acontecer, a morte moral do vosso Espírito — a destruição, pela base, do vosso Templo de trabalho!

Se o Evangelho não se tornar realmente em vossos espíritos um broquel, quem vos poderá socorrer, uma vez que a Revelação tende a absorver todas as consciências, emancipando o vosso século? Se o Evangelho nas vossas mãos apenas tem a serventia dos livros profanos, que deleitam a alma e encantam o pensamento, quem vos poderá socorrer no momento dessa revolução planetária que já se faz sentir, que dará o domínio da Terra aos bons, preparados para o seu desenvolvimento, que ocasionará a transmigração dos obcecados e endurecidos para o mundo que lhes for próprio?

Kardec realmente fala da transição da Terra de mundo de expiação para mundo de regeneração e da migração de Espíritos refratários para mundos menos adiantados. Mas:

  1. Ele evita todo tom apocalíptico de “revolução planetária iminente” para assustar.
  2. Ele não amarra esse processo a nenhum “templo”, nem a um “movimento” dirigido por um Espírito particular.
  3. Ele insiste em que tudo se faz por leis gerais, sem milagre, sem privilégio, sem clero.

Aqui, a mesma ideia geral (transição, migração) é apropriada como recurso retórico de urgência a serviço do templo de Ismael: se você não se alinhar com a Fraternidade, com esse “trabalho extraordinário”, corre risco de estar entre os “transmigrados”.

Que será de vós — quem vos poderá socorrer — se, à lâmpada do vosso Espírito, faltar o elemento de luz com que possais ver a chegada inesperada do Cristo, testemunhando o valor dos bons e a fraqueza moral dos maus e dos ingratos?

Se fostes chamados às bodas do filho do vosso Rei, por que não tomam os vossos Espíritos as roupagens dignas do banquete, trocando conosco o brinde do amor e da caridade pelo consórcio do Cristo com o seu povo?

Se tudo está preparado, se só faltam os convivas, por que cedeis o vosso lugar aos coxos e estropiados que, últimos, virão a ser os primeiros na mesa farta da caridade divina?

A parábola evangélica é usada de modo exclusivista e invertido: quem não entrar na “tenda” perde o lugar; os “coxos e estropiados” (os de fora) é que o ocuparão. O subtexto é: não percam o privilégio de estar no grupo “certo” (Fraternidade sob Ismael). Em Kardec, a mesma parábola serve para mostrar que os “primeiros” (privilégiados, instruídos, ortodoxos) podem ser os últimos, mas sempre num sentido moral, nunca institucional (“entrar no templo de tal guia”).

Esses pontos do Evangelho de Jesus-Cristo, apesar da Revelação, ainda não provocaram a vossa meditação?

Esse eco que reboa por toda a atmosfera do vosso planeta, dizendo — Os tempos são chegados! — será um gracejo dos enviados de Deus, com o fim de apavorar os vossos espíritos?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, vivendo cheios de dissensões e de lutas, como se não constituíssemos uma única família, tendo para regência dos nossos atos e dos nossos sentimentos uma única doutrina?

Será possível nos preparemos para os tempos que chegam, dando a todo momento e a todos os instantes a nota do escândalo, apresentando-nos aos homens sob o aspecto de homens cheios de ambições, que não trepidam em lançar mão até das coisas divinas para o gozo da carne e satisfação das paixões do mundo?

Mas seria simplesmente uma obcecação do Espírito — pretender desobrigar-se dos seus compromissos e penetrar, no reino de Deus, coberto dessas paixões e dessas misérias humanas!

Isso eqüivaleria não acreditardes naquilo mesmo em que dizeis crer; seria zombar do vosso Criador que, não exigindo de vós sacrifício, vos pede, entretanto, não transformeis a sua casa de oração em covil de ladrões!

Meus amigos! Sem caridade não há salvação — sem fraternidade não pode haver união.

Uni-vos, pois, pela fraternidade, debaixo das vistas do bom Ismael, vosso Guia e Protetor. Salvai-vos pela Caridade, distribuindo o bem por toda a parte, indistintamente, sem pensamento oculto, àqueles que vos pedem lhes deis da vossa crença ao menos um testemunho moral, que os possa obrigar a respeitar em vós o indivíduo bem-intencionado e verdadeiramente cristão.

A frase condensa o núcleo ideológico do texto:

  1. A união não é apenas em torno de princípios (como Kardec propõe), mas “debaixo das vistas” de um Guia, com G maiúsculo.
  2. Esse Guia é “vosso”, nacional/regional.
  3. A figura do “Protetor” é centralizada e personalista.

Kardec aceita a ideia de Espíritos protetores individuais e coletivos, mas nunca os transforma em autoridade normativa sobre a doutrina. A proteção é íntima, moral, silenciosa; não se traduz em revelações exclusivas, bandeiras, templos com nome do Espírito, nem em monopólio de direção.

Perguntas:

  1. Por que você coloca um Espírito — Ismael — acima da metodologia da Codificação, se Kardec nunca atribuiu autoridade diretora a um Espírito isolado?
  2. Que justificativa doutrinária legitima subordinação espiritual a um Espírito específico?
  3. Se Kardec defende independência crítica, como explicar essa ordem de submissão?

Sobre a propaganda que procurais fazer, exclusivamente para chamar ao vosso seio maior número de adeptos, direi — se os meios mais fáceis que tendes encontrado são a cura dos vossos irmãos obsessos, são as visitas domiciliárias e a expansão dos fluidos — ai tendes um modesto trabalho para vossa meditação e estudo.

E, lendo, compreendendo, chamai-me todas as vezes que for do vosso agrado ouvir a minha palavra e eu virei esclarecer os pontos que achardes duvidosos — virei, em novos termos, se preciso for, mostrar-vos que esse lado que vos parece fácil para a propaganda da Doutrina — é o maior escolho lançado no vosso caminho — é a pedra colocada às rodas do vosso carro triunfante — será, finalmente, o motivo da vossa queda desastrosa, se não souberdes guiar-vos com o critério exigível de quantos se empenham numa tão grande causa.

Fechamento típico de Espírito que se propõe como oráculo permanente. Em termos de crítica espírita:

  • Cria-se dependência psicológica do médium/grupo em relação a esse comunicante.
  • Desestimula-se o controle universal (confrontar comunicações, procurar outras fontes independentes) porque “ele” está sempre disponível para esclarecer.

No método kardeciano, um Espírito sério:

  • estimula a dúvida metódica;
  • convida ao exame racional e à comparação;
  • evita se colocar como fonte única de esclarecimento.

Aqui ocorre o oposto.

Permita Deus que os espíritas a quem falo, que os homens a quem foi dada a graça de conhecer em espírito e verdade a Doutrina do Cristo, tenham a boa-vontade de me compreender — a boa-vontade de ver nas minhas palavras unicamente o interesse do amor que lhes consagro.

Allan Kardec

O texto inteiro desloca o Espiritismo de ciência filosófico-moral de revelação coletiva para um sistema religioso messiânico centrado em:

  • um Guia nacional nomeado (Ismael),
  • um templo/bandeira/lema específicos,
  • um grupo institucional (“Fraternidade”) apresentado como núcleo eleito.

Vários trechos configuram exatamente aquilo que Kardec descreve como sinais de mistificação e fascinação: Espírito que se declara único, que reclama obediência, que sacraliza a própria palavra, que se coloca no centro da revelação numa região do planeta.

Pontos parcialmente verdadeiros (necessidade de estudo, disciplina, seriedade mediúnica, perigo da dispersão) são usados como gancho para legitimar a solução sectária: a centralização sob Ismael e sob a “Fraternidade”.

A retórica é fortemente religiosa, emocional, com traços milenaristas, em contraste com o estilo racional, analítico e metódico de Kardec. Mesmo quando toca temas caros ao Espiritismo (transição planetária, migração de Espíritos, importância do Evangelho), o faz dentro de um molde confessional, não científico-filosófico.

O Livro em questão – A Prece Segundo o Evangelho, atribuído ao Espírito de Allan Kardec – termina assim:

A Casa de Ismael
A Federação Espírita Brasileira é uma sociedade civil religiosa, educacional, cultural e filantrópica, dotada de personalidade jurídica e reconhecida como de Utilidade Pública Federal, Estadual (RJ) e no Distrito Federal (DF), conforme os seguintes decretos: nº 47.695/1960, nº 4.765/1934 e nº 7.399/1983, respectivamente.

Tem por objeto e fins:
– o estudo teórico e prático do Espiritismo;
– a observância e a difusão de seus ensinos;
– a prática da caridade espiritual, moral e material;
– e, por fim, a integração das Sociedades Espíritas do Brasil em seu organismo.

Compete ao seu Conselho Federativo Nacional desenvolver, ampliar e coordenar os planos da Organização Federativa, visando alcançar completa harmonia de pensamento, bem como unidade de programa e de ação.

A Federação [que não é] Espírita Brasileira, de maneira incrivelmente hipócrita, ainda hoje ostenta, com orgulho, o título de “Casa de Ismael”. Realmente, esse Espírito mistificador fez casa nesse “Vaticano” do Movimento [que não é] Espírita Brasileiro. Declara-se como sociedade civil religiosa, provocando desvio de finalidade do Espiritismo e, com muita hipocrisia, diz observar a difusão de seus ensinos, enquanto, na prática, passou os últimos 130 anos contrariando-os paulatinamente. O motivo do presente artigo, aliás, se deu por conta da publicação recente de um vídeo na conta da FEB Editora, divulgando a falsa ideia de que essa comunicação acima analisada seria de Kardec, incitando à unificação, projeto perseguido pelo Vaticano Espiritualista Brasileiro (vulgo FEB) desde 1890, aproximadamente (como já demonstramos no artigo sobre os desvios da FEB).

Cabe a todos os Espíritas verdadeiros defenderem a verdade sobre o Espiritismo e demonstrarem a todos esses desvios – a tentativa de substituir o Consolador Prometido por uma versão religiosa, dogmática, ridícula e antidoutrinária!




O Espiritismo é obra de Jesus

Há tempos vinha aguardando essa obra, sem saber ao certo o que esperar. Ante a notícia de que os autores voltaram a Espíritos como André Luiz e Emmanuel, muitos se contorceram internamente e previamente julgaram a obra que ainda não conheciam.

Tendo terminado de lê-la — tarefa que, honestamente, terei que voltar a fazer, com ainda mais atenção — preciso dizer que ela só pode refletir a elevação do título que leva. Longe de ser uma afronta à razão, é produto de inteligência e inspiração. Resgata a metodologia espírita, demonstra o verdadeiro papel de Kardec, hoje esquecido e desvalorizado pelos próprios espíritas, e torna-se ponte para esse Movimento Espírita ora instalado, para a retomada do verdadeiro Espiritismo. Sem ferir suscetibilidades, a obra demonstra, de maneira excelente, que não estivemos abandonados e que, voltando a Kardec, facilmente separaremos, com firmeza, o que é aproveitável do que não é — como os próprios autores o fizeram. Longe de render perseguição ou criticismo, creio que devemos estimular a leitura dessa obra, respeitando o tempo e a liberdade de cada um que a ler. Novamente: creio que ela deve ser vista como ponte segura para a terra firme da verdade doutrinária.

Não consigo ir muito além disso, pois penso que a importância da obra requer a leitura dedicada de todos que se importem com a temática espírita. O título da obra e o fato da demonstração que há, sim, em André Luiz e Emmanuel, muito o que se aproveitar, há de chamar a atenção de muitos. A obra também traz muitos ensinamentos e muita reflexão, chegando a ser, ao menos para mim, intensamente emocionante.

Termino agradecendo ao esforço e ao empenho, cujo pagamento inexiste, senão o da felicidade de fazer o bem, a Paulo Henrique de Figueiredo e todos os demais envolvidos nesse trabalho. Graças a Deus, os tempos do restabelecimento são chegados, onde cada um de nós poderá encontrar grata compensação na tarefa da recolocação dos tijolos do edifício que vem sendo construído há mais de dois mil anos, por Espíritos consagrados ao bem. Graças a Deus!

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