“A Verdadeira Face do Espiritismo”: uma expectativa proporcional à acusação

A preparação do projeto “A Verdadeira Face do Espiritismo”, pelo Centro Dom Bosco, naturalmente desperta expectativa. E essa expectativa é diretamente proporcional à gravidade da proposta anunciada.

Se alguém se propõe a revelar a “verdadeira face” de uma doutrina inteira, especialmente uma doutrina construída sobre extensa produção escrita, método de comparação e investigação sistemática, espera-se um trabalho igualmente extenso, rigoroso e intelectualmente honesto.

No caso do Espiritismo, isso significa uma análise séria das 23 obras de Allan Kardec que compõem o corpo fundamental da ciência espírita. Não fragmentos isolados, frases arrancadas do contexto, críticas dirigidas ao “movimento espírita” moderno como se isso automaticamente invalidasse a doutrina organizada por Kardec. O alvo da crítica, se o título do livro pretende ser intelectualmente consistente, precisa ser a estrutura doutrinária original.

Por isso, aguardamos ansiosamente a publicação da obra.

Esperamos encontrar nela nada menos do que uma demonstração ampla, racional e documental de que, ao longo dessas obras, o Espiritismo ensine algo objetivamente mau. Algo contrário ao bem., à moralidade, à elevação humana.

Espera-se uma demonstração clara de que o Espiritismo:

  • estimule o egoísmo;
  • desencoraje a caridade verdadeira;
  • promova a crueldade;
  • incentive o apego material;
  • fomente o orgulho;
  • destrua a responsabilidade moral;
  • legitime o ódio;
  • estimule a exploração do próximo;
  • conduza pessoas ao vício moral;
  • despreze a fraternidade humana.

Porque é exatamente esse o nível de prova exigido quando se acusa uma doutrina moral de possuir uma “verdadeira face” obscura ou perversa, como o Centro dom Bosco insiste em sustentar.

Acusações são simples. A dificuldade sempre tem sido sustentar documentalmente que uma doutrina cuja base moral insiste continuamente em caridade, responsabilidade e melhoria moral seja, em essência, algo contrário ao bem.

Existe ainda outra distinção frequentemente ignorada: uma coisa é criticar práticas, exageros, misticismos, personalismos ou deformações presentes em setores do movimento espírita moderno. Outra coisa completamente diferente é demonstrar que a codificação kardequiana, em sua estrutura original, possui essência moral negativa.

Confundir essas duas coisas é um erro lógico básico. Seria equivalente a julgar uma teoria científica exclusivamente pelos desvios de alguns de seus adeptos, sem examinar seus fundamentos.

Além disso, qualquer crítica intelectualmente séria ao Espiritismo precisaria enfrentar um ponto histórico incontornável: Allan Kardec não apresentou o Espiritismo como criação pessoal ou revelação individual. O próprio Kardec insistiu repetidamente que o Espiritismo seria um conjunto de fatos observados e organizados metodicamente através da comparação universal dos ensinos atribuídos aos espíritos. Concorde-se ou não com essa premissa, a crítica honesta precisa primeiro compreender corretamente aquilo que pretende refutar, caso contrário, o debate deixa de ser análise e se transforma apenas em caricatura.

Por isso, a expectativa em torno de “A Verdadeira Face do Espiritismo” é legítima. Um título tão forte exige um conteúdo proporcionalmente sólido. Se o livro realmente enfrentar, de maneira integral, documentada e contextualizada, as 23 obras fundamentais da ciência espírita, então terá produzido algo relevante para o debate de ideias. Mas se recorrer apenas a recortes, simplificações, associação emocional, episódios periféricos, confusão entre doutrina e movimento, ou ataques retóricos sem exame global da obra kardequiana, então acabará como todas as outras: caindo no ridículo. Aguardamos.